O Peace Will Come chega a 2025 com o álbum “Rock’N’Roll City”, um trabalho que reafirma a força criativa da banda e celebra uma nova fase marcada pela união de músicos experientes. Entre eles estão Andria e Ivan Busic, nomes que carregam a história do Hard Rock brasileiro desde os anos 90, quando fundaram o lendário Dr. Sin. Ver os irmãos novamente juntos em um contexto criativo tão sólido adiciona ao disco um brilho especial, resultado da maturidade musical que ambos acumularam ao longo de décadas.
Para fins de recapitulação, o álbum surgiu quando Emerson Macedo, em 2020, durante a pandemia, decidiu registrar algumas composições muito relevantes para o mundo na época. E naturalmente, o que começou de forma despretensiosa tomou corpo quando Cesar Bottinha e Ivan Busic se juntaram ao projeto, trazendo consistência e uma base instrumental que abriu caminho para o primeiro álbum lançado em 2021. Com a entrada de Andria Busic nos vocais e no baixo, a sonoridade do grupo encontrou um novo eixo, e é justamente essa formação que sustenta o coração de “Rock’N’Roll City”, single lançado com direito a videoclipe que nos leva ao um pouco da nostalgia e da evolução dos músicos ao longo do tempo.
A abertura com “Among The Stars” já deixa claro o caminho escolhido. A música combina a vibração clássica do Hard Rock com uma entrega contemporânea que evita qualquer sensação de repetição. Os riffs dialogam com influências de cordas acústicas e peso dos grandes precursores do gênero, mas o interessante, é que o Peace Will Come transforma essas referências em linguagem própria. A voz de Andria se destaca com força e carisma, reafirmando sua capacidade de unir técnica e identidade, algo muito presente na época do Dr. Sin e agora ainda mais evidente.
As faixas “Don’t Panic” e “Lonely” mantêm a energia firme, com grooves precisos e uma presença marcante de Ivan Busic. Para os fãs do Hard Rock nacional, ouvir Ivan novamente em um projeto desse porte é reencontrar uma sonoridade que marcou gerações, agora com ainda mais refinamento. “The Song” chega com leveza melódica e clima cinematográfico, enquanto a faixa-título se posiciona como um hino urbano, vibrante e memorável. “Time Will Heal The Pain” revela nuances sensíveis, e “Digital Pollution” aborda críticas contemporâneas com peso instrumental, mas também com elementos industriais para apimentar as coisas. Em seguida, “Get Ready”, que traz uma atmosfera oitentista contagiante e “Winds of Hope” encerra o álbum com extrema sensibilidade.
O resultado final é uma obra moderna, sem perder o vínculo com a tradição que moldou a identidade dos músicos envolvidos. O Hard Rock dos irmãos Busic, tão importante para a cultura do gênero no Brasil, renasce com identidade própria dentro deste novo projeto. Para os que ainda não conhecem os projetos e realizações desta dupla, está na hora da pesquisa.
“Rock’N’Roll City” é um álbum com alma. A obra respira madrugada, asfalto, resistência e desejo. O Peace Will Come mostra que sabe compor, arranjar e narrar um Brasil onde as guitarras continuam relevantes e necessárias. Para aqueles, que como eu, acompanharam o Dr. Sin nos anos 90 e 2000, é emocionante escutar Andria e Ivan juntos novamente em um trabalho que honra o passado e aponta para o futuro com convicção. Para novos ouvintes, é um convite direto e honesto ao universo do Hard Rock feito com excelência.
Com lançamento em 27 de novembro de 2025, o álbum se firma como um dos trabalhos mais consistentes do ano para o Hard Rock/Blues Tradicional brazuca. É daqueles que se escuta uma vez e imediatamente se quer ouvir de novo, porque discos com alma não aparecem com frequência. Este certamente é um deles. Último recado: Deixem de lado o mundo invertido, por alguns minutos, e vamos celebrar o agora, que também traz a nostalgia, mas também os rumos da atualidade.
Quando a cantora norueguesa Liv Kristine deixou o Theatre of Tragedy, houve muita expectativa quanto ao que viria a seguir na carreira desta que, para muitos, é a “mãe” do estilo “beauty and beast”, onde mistura-se o agressivo gutural masculino aos doces e ao mesmo tempo sombrios vocais femininos. O que veio foi o Leaves’ Eyes, banda em conjunto com seu então marido, o alemão Alexander Krull, conhecido pelo seu trabalho com o Atrocity - tradicional banda de death metal. E não desapontou. No começo, seguiram a mesma linha sonora do “gothic metal” apresentado por seu conjunto anterior, mas com o tempo, se distanciaram, chegando ao metal sinfônico, e até ao viking metal.
Por anos, a banda continuou firme e forte, sempre evoluindo nesse gênero, mas em 2016, um choque: Liv deixou a banda. Quem entrou no lugar foi a finlandesa Elina Siirala, e em 2018, veio o primeiro disco com essa nova formação, Sign of the Dragonhead. Quase dez anos após o início dessa nova era da banda, eles seguem firmes!
Na ocasião do primeiro show dessa encarnação da banda no Brasil, em novembro de 2025, o vocalista e fundador Alexander Krull, ao lado de Elina, falaram com exclusividade ao Road to Metal sobre o passado, o presente, seus temas, carreiras, e polêmicas da época da transição de vocalistas. Confira!
Como você acha que a forma e a abordagem de composição mudou de quando você compunha para a Liv para agora fazendo músicas para a voz de Elina?
Alexander Krull: Eu acho que o estilo, ou o estilo, a ideia de como o Leaves’ Eyes deve soar não é focado em uma pessoa, mas como um conjunto. Mas, claro, a voz da Elina é, vamos dizer, mais “carregada”, então temos que ter noção de como é isso, e fazer as nossas composições de uma forma que ela performe da melhor forma possível - por isso, muitas vezes quando fazemos uma música inicialmente, ela está em alguma outra escala, e acabamos ajustando isso quando realmente produzimos. Mas no geral, a música e o estilo são evoluções da banda por si. Claro, isso passa principalmente pela voz.
Pois a voz é única de cada um, afinal, não como um instrumento elétrico.
Alexander Krull: Precisamente! Por isso nas nossas sessões fazemos muitas coisas de tentativa e erro em cima disso.
Elina Siirala: E para ser honesta, minha voz mudou muito de dez anos para cá, e isso nos deu mais possibilidades de como trabalhar em cada disco.
Elina, o que você acha que foi mais desafiador para você quando entrou na banda e teve que cantar as músicas antigas?
Elina Siirala: Bem, eu acho que quando o seu corpo é seu instrumento, não é como reproduzir simplesmente uma música. Minha voz é muito diferente da Liv, então nunca quis soar igual, não seria o ponto. O que eu quis foi tentar tirar o melhor de mim dentro daquele estilo e me sentir bem comigo mesma cantando as músicas.
Alex, quando você compõe para o Atrocity e para o Leaves’ Eyes, bandas tão semelhantes em integrantes (nota: a formação de ambas bandas é a mesma, com a exceção da presença de Elina), mas distintas em estilo, como é seu preparo para fazer cada música, para não ficar realmente uma soando parecida com a outra?
Alexander Krull: É verdade, algumas coisas podem acabar se misturando! Mas acho que você tem que separar, em primeiro lugar, o pensamento em cada estilo. É como dirigir filmagem. Eu também faço roteiros e dirijo vídeos musicais e coisas assim, e o que faço é analisar a proposta de gênero da produção - coloco minha mente em um lugar quando vou dirigir um vídeo de terror, e em outro quando faço, por exemplo, um épico medieval, ou um drama. Assim fica bem claro para mim onde quero chegar.
O Leaves’ Eyes aborda bastante a coisa da mitologia nórdica, as histórias e sagas do norte da Europa. Como é para vocês irem para lugares com culturas tão distantes, e com culturas tão diferentes - América Latina e Ásia, por exemplo - e atingirem o público? Há alguma diferença de como lidam com isso para shows na Europa e shows em outros lugares?
Alexander Krull: Pensando agora assim, é realmente complicado responder. Quero dizer, nós somos como embaixadores da cultura viking. Quando vamos ao Japão, por exemplo, temos pessoas em nossos shows que entendem disso, gostam disso, imergem nisso. No Chile também tem um grupo grande que está conosco, que até participam ativamente ali no show. Isso está por todo o mundo, da Europa à Austrália e Nova Zelândia, até à América do Sul! Mas o Leaves’ Eyes vai além disso. Temos muito foco em temas como natureza - o poder da natureza -, paisagens, coisas assim.
Mas a parte legal é que os próprios vikings, na antiguidade, foram a quase todo lugar eles mesmos! Você vai achar vestígios deles em quase todo canto, como pela América; no que hoje em dia é a Turquia; na Itália, etc.
De toda forma, hoje nos vejo como uma banda realmente internacional.
Você disse, Elina, que acha que sua voz mudou bastante nos últimos anos. Como você percebe o quanto ficou mais confortável para você cantar nesse tempo?
Elina Siirala: Eu acho que no começo eu me sentia muito confortável em uma outra forma de cantar, mas houve um período que minha voz parecia uma montanha russa de tanto que variava, então tive que entendê-la de novo, e desde então sinto que está muito, muito melhor. Sinto que estou no meu melhor momento, e que posso usar minha voz de formas muito diferentes, e isso me dá mais oportunidades de criar. Antes, eu queria fazer algo, mas sentia que não conseguia, e hoje tenho certeza que consigo de muitas formas. E a cada dia venho achando mais e mais possibilidades, e isso é ótimo! Não é como se eu fosse fazer guturais (risos), mas vejo mais possibilidades.
Alexader Krull: Deixe essa parte comigo (risos)! Mas é muito bom ver isso pessoalmente, em especial quando estamos em estúdio. É muito legal achar essas novas facetas em nossas vozes enquanto trabalhamos. Nos ajuda a criar.
Elina Siirala: Mas, claro, nossa voz é nossa voz, e ela nunca vai realmente ser muito distante daquilo.
Quando a nova formação foi anunciada, houve alguma desconfiança quanto à banda. Como vocês lidam com pessoas muitas vezes mal educadas, que por ventura falaram mal da Elina, ou da banda como um todo?
Alexander Krull: Essa eu sei responder bem facilmente, na verdade. Em especial, eu sei o quão acalorado isso foi no Brasil e na América Latina em geral. Haviam grupos aqui nos amando, nos odiando, e sei que é assim com outras bandas também. Bem, para mim, existe uma coisa muito importante, que é ‘família em primeiro lugar’, e o meu filho é minha prioridade número um. Bem, até um certo momento, estava tudo bem, nós só ficávamos falando “por favor, Elina, não leve isso que estão falando a sério”, pois é normal essa desconfiança.
Enquanto houve respeito, estava tudo bem. A única coisa que realmente não gostei foi quando falaram sobre meu filho. Ele morava comigo, na verdade ainda mora. E eu não aceito que pessoa nenhuma, não importa de onde quer que ela seja, fale sobre meu filho. E foi isso que me chateou, quando pessoas entraram em contato com ele, e sem saber de nada, começaram a contar todo tipo de contos de fada para ele! Pois essas histórias que inventaram sobre (o divórcio com Liv e separação da banda) são completamente falsas. Eu entendo que algumas pessoas ficaram frustradas com a mudança, ou que simplesmente precisassem de algum tempo para se acostumar com outra pessoa cantando. Isso é bem justo, e eu concordo. Mas a causa da mudança foi completamente clara desde o começo, e nós somos muito gratos de ter encontrado a Elina para cantar conosco.
Elina Siirala: Para mim, igualmente, está tudo bem se alguém prefere uma ou outra vocalista. É perfeitamente normal! Criticar o como canto, nossa música, é perfeitamente justo. Mas há uma hora que as pessoas falam coisas que eu nem sequer consigo levar a sério, de tão ridículas que são. Mas sendo sincera, eu nunca senti tanto alguma negatividade - onde quer que eu vá, as pessoas são sempre muito legais comigo, me apóiam, me dão carinho. Quase ninguém me escreveu xingando ou algo assim. Não senti nada muito pesado.
Vocês ainda não têm uma gravação ao vivo oficial, um disco ao vivo, com a Elina. Isso está nos planos?
Alexander Krull: Bem, sabe que agora que você mencionou, eu acho que não tinha pensado nisso, e é verdade! Realmente, precisamos de um registro assim. Tem algumas questões contratuais com gravadoras em relação a alguns álbuns anteriores lançados por outro selo, e coisas assim. Isso é algo que precisamos resolver, mas é uma ótima ideia.
E já há alguma ideia de gravarem um novo álbum?
Alexander Krull: Sim! Na verdade, estamos trabalhando nisso agora mesmo. Saímos do estúdio direto para a América do Sul. Vamos lançar um EP novo, inclusive. Apresentaremos uma música inédita aqui, pela primeira vez! Antes mesmo de tocar na Europa, apresentaremos aqui! (nota: a música chama-se Song of Darkness, e foi apresentada pela primeira vez na Colômbia, e logo depois no Brasil).
O cenário underground da música psicodélica e stoner rock ganhou mais um capítulo inesquecível quando o La Iglesia, em São Paulo, recebeu a banda sueca Siena Root. Dois dias após sua apresentação como abertura para a banda japonesa Boris, eles fizeram sua estreia como atração principal na capital paulista. Antes de os nórdicos subirem ao palco, o protagonismo ficou por conta da banda brasileira Hammerhead Blues, um trio que tem se destacado no cenário nacional por sua mistura pesada de riffs psicodélicos e grooves marcantes.
Formado por Otavio Cintra no baixo e nos vocais, Luiz Cardim na guitarra e William Paiva na bateria, o Hammerhead Blues entregou uma performance que serviu não só como aquecimento para o show principal, mas como um resgate de uma era especial da música. No setlist de oito faixas, o grupo mergulhou o público em uma viagem desde os primeiros acordes de “Hero / Roger's Cannabis Confusion”, uma abertura dupla que misturou riffs pesados e linhas de baixo groovy, com Otavio Cintra demonstrando um vocal expressivo e envolvente que comandou a noite. As canções “Age of Void” e “Traveller” seguiram em uma progressão crescente, destacando o trabalho preciso de Luiz Cardim na guitarra, cujos solos psicodélicos evocaram viagens, enquanto William Paiva mantinha o ritmo firme na bateria, criando uma base sólida que reverberou pelas paredes do La Iglesia.
Destaques como “Windmill's Kiss” e “Moontale” trouxeram momentos alucinantes e jams que destacaram sua química no palco. Já “Around The Sun”, “Drifter” e o encerramento com “Thrill of The Moonrise” elevaram a intensidade, transformando o show em um momento inesquecível que deixou o público eufórico e ansioso pelo que viria a seguir com Siena Root. Foi uma apresentação cheia de energia e impactante; a banda entregou tudo e ficou clara sua fome de palco, o que reforçou a qualidade do Hammerhead Blues.
Na sequência, o Siena Root entrou no palco já em clima de festa. A atual formação, com Zubaida Solid (vocais e teclados), Johan Borgström (guitarra), Sam Riffer (baixo) e Love Forsberg (bateria), entregou o melhor rock psicodélico e stoner, contagiando o público e estabelecendo uma conexão imediata com os fãs. Desde a abertura com “We (Over the Mountains)”, já ficava claro que a banda sueca estava em plena forma, trazendo seu rock vintage carregado de groove e feeling. Não foi diferente em faixas como “Tales of Independence”, “Organic Intelligence” e “There and Back Again”, que ganharam versões cheias de nuances, mostrando tanto a força instrumental quanto o entrosamento impecável entre os integrantes.
Passeando pelo seu catálogo, foi a vez de “Dusty Roads”, uma bela balada que trouxe paz e contemplação em meio à viagem quase lisérgica que os suecos proporcionavam. Durou pouco. “Into The Woods” chegou com muita psicodelia e improvisos, fazendo a cabeça da galera. E tinha para todos os gostos: “Keeper of the Flame” e “Above the Trees” carregavam aquela vibe mais bluesy, criando uma dinâmica perfeita para a apresentação.
E o que dizer da trinca que veio a seguir? “Wishing for More”, “Time Will Tell” e “Coming Home” não deixaram pedra sobre pedra na parte mais pesada do show, trazendo à tona toda a sua influência do hard rock setentista e não deixando ninguém parado. O clímax veio com “Imaginary Borders” e “Root Rock Pioneers”. Esta última contou com a apresentação dos integrantes e encerrou de maneira apoteótica o show, com um duelo de teclado e guitarra ao estilo de “Lazy”, do Deep Purple.
A reação fervorosa do público, que pedia mais e mais, foi a prova do sucesso da apresentação, demonstrando o quanto a música do Siena Root ressoa com o público brasileiro. A retribuição da banda à recepção calorosa foi um dos pontos altos da noite. Visivelmente emocionados com o carinho e a energia trocada, os suecos decidiram estender a apresentação, presenteando os fãs com duas músicas extras que não estavam no setlist. A primeira foi “Outlander”, já conhecida pelos fãs mais dedicados e recebida com euforia. Contudo, foi a surpresa final, “Waiting for the Sun”, tocada sem aviso prévio, que selou a apresentação como lendária. São momentos assim que fazem uma apresentação deixar de ser apenas excelente para se tornar de fato espetacular, tudo acontecendo ali, em tempo real, diante de seus olhos.
Em suma, o show do Siena Root foi uma aula de performance ao vivo, em que a excelência musical se uniu a uma entrega genuína com a audiência. A banda sueca mostrou ser uma força vital no cenário do rock contemporâneo, proporcionando um espetáculo que equilibra virtuosismo e alma. A felicidade evidente dos músicos, que se traduziu em um bis estendido, deixou claro o agradecimento sincero pela noite memorável proporcionada pelos fãs brasileiros.
Os fãs de metal viveram uma noite épica no último sábado, 29 de novembro, quando o Avantasia transformou o Vibra São Paulo em um verdadeiro universo de fantasia, emoção e riffs poderosos. Em sua nova turnê mundial, Here Be Dragons World Tour 2025, o projeto liderado por Tobias Sammet mostrou por que é considerado um dos maiores fenômenos do metal contemporâneo.
Um pouco antes da apresentação, o grande telão de LED que seria usado no show foi gentilmente cedido pela produção para transmitir a final da Libertadores da América entre Palmeiras e Flamengo. Assim que o jogo terminou, as cortinas foram fechadas para que o palco fosse preparado para o espetáculo que estava prestes a acontecer.
Quando as luzes se apagaram e os primeiros acordes de “Creepshow” ecoaram, as cortinas se abriram novamente e ficou claro que a noite seria especial. Com luzes cinematográficas e uma banda extremamente afiada, o Avantasia entregou um espetáculo de quase três horas que prendeu o público do começo ao fim. A casa lotada respondeu com intensidade: coros, pulos, braços erguidos e muita emoção a cada refrão.
O setlist trouxe um equilíbrio perfeito entre faixas do novo álbum e clássicos queridos pelos fãs que acompanham o projeto desde os tempos de The Metal Opera. A sensação era de reencontro com uma história viva.
Em “Reach Out for the Light” — originalmente gravada pelo inigualável Michael Kiske, que infelizmente não estava nesta turnê — a excelente vocalista Adrienne Cowan assumiu os vocais e mostrou por que é considerada uma das grandes revelações da música pesada nos últimos anos. Na sequência, o vocalista do Kamelot, Tommy Karevik, interpretou com Tobias a “sombria” e enérgica “The Witch”.
Herbie Langhans, que até então estava no coral juntamente com Adrienne Cowan e Chiara Tricarico, assumiu o centro do palco para comandar “Devil in the Belfry”. Em “Phantasmagoria”, foi a vez do veterano Ronnie Atkins (Pretty Maids) mostrar a que veio, com vocais poderosos e a experiência de quem domina o gênero há décadas. Já em “Against the Wind”, Kenny Leckremo (H.E.A.T.) incendiou o local com sua energia e seu vocal impressionante. Na humilde opinião deste que vos escreve, esses dois últimos foram os grandes destaques da noite — roubaram a cena.
Tobias Sammet, sempre carismático, fez questão de conversar com o público, brincar, agradecer e reforçar o carinho que sente pelo Brasil — um dos países onde o Avantasia possui uma das bases de fãs mais leais e apaixonadas do mundo. A energia da plateia confirmava esse laço: cada interação parecia elevar ainda mais o clima épico do show.
Em “Twisted Mind”, a voz de Tommy Karevik casou muito bem com a versão originalmente gravada pelo ex-vocalista do Kamelot, Roy Khan. Na maior parte das linhas interpretadas por Tommy, se fechássemos os olhos, sentiríamos que o próprio Roy estava ali, devido à semelhança entre os dois vocalistas.
Visualmente, o espetáculo impressionou com luzes dramáticas, painéis de LED imersivos e um clima teatral que já é marca registrada do Avantasia. A qualidade do som foi outro ponto alto: firme, pesado, cristalino e muito bem mixado, permitindo que cada voz e instrumento brilhasse em seu devido lugar.
Para quem acompanha a cena do metal, ficou claro que esse show entrou para a lista dos grandes momentos internacionais de 2025 no Brasil, evidenciando que a banda funciona muito melhor em ambientes fechados do que em festivais — especialmente quando comparado aos dois últimos shows da Metal Opera que foram realizados justamente em festivais.
Antes do final do show houve também uma breve e tocante homenagem de Tobias a Andre Matos, falecido em 2019, levando o público a celebrar o saudoso vocalista brasileiro. Sempre é bonito ver Sammet demonstrando esse carinho por Andre, apesar de até o momento ele não ter participado do documentário sobre a vida do músico, cuja parte final está prevista para 2026. Vale lembrar que a última vez que Andre subiu ao palco foi justamente em um show do Avantasia, em junho de 2019 — uma semana antes de nos deixar.
“No Return”, dedicada a Andre Matos, foi tocada e cantada e uníssono por todos os presentes, que antecedeu “Lost In Space” e “Sign of the Cross”, essa última com todos no palco.
A combinação de técnica, emoção e grandiosidade fez da noite no Vibra São Paulo uma experiência inesquecível — daquelas que os fãs comentam por anos. O Avantasia provou mais uma vez que não é apenas uma banda: é um universo inteiro, e São Paulo teve o privilégio de mergulhar nele.
As bandas Atrocity, Arkona e Leaves’ Eyes desembarcaram em São Paulo no último dia 23 para apresentações memoráveis. Talvez devido ao grande número de eventos do gênero, o público foi modesto, mas extremamente participativo. O evento ocorreu no Carioca Club e apresentou um lineup diversificado dentro do metal extremo, com influências que vão do death metal ao folk e ao symphonic metal. A participação do público, embora reduzida, foi decisiva, já que os presentes interagiram ativamente, cantando e aplaudindo, o que contribuiu para uma atmosfera empolgante. No geral, as apresentações foram sólidas, com cada banda entregando performances competentes e fiéis ao próprio estilo, mantendo a magia que só acontecem em shows ao vivo.
A primeira banda da noite foi o Atrocity, grupo alemão de death metal formado em 1985 em Ludwigsburg. O conjunto é conhecido pela longa trajetória no cenário underground e por mesclar elementos do metal extremo com influências industriais e góticas em fases mais recentes. Fundado por Alexander Krull, vocalista e principal compositor, o grupo conta com integrantes como Thorsten “Tadd” Bauer na guitarra, entre outros músicos que contribuíram para álbuns relevantes. Com mais de três décadas de carreira, o Atrocity influenciou o metal europeu com composições marcantes e consolidou sua posição como referência do estilo por meio de uma discografia extensa e pela constante evolução sonora.
O Atrocity iniciou sua apresentação com um atraso de quinze minutos, o que forçou o corte da música “Necropolis” para adequação ao cronograma. Apesar disso, o grupo entregou um setlist consistente, incluindo “Desecration of God”, “Death by Metal” e “Reich of Phenomena”, que destacaram tanto o vocal gutural característico de Alexander Krull quanto o peso instrumental da banda. O público, pequeno, porém dedicado, respondeu de forma intensa, especialmente durante “Faces From Beyond” e “Bleeding for Blasphemy”. No geral, o show foi poderoso e atendeu às expectativas dos fãs de metal extremo, demonstrando profissionalismo ao compensar o atraso com uma performance coesa e envolvente.
Em seguida, veio o Arkona, que é uma banda russa de pagan folk metal formada em 2002 em Moscou e que se destaca pela fusão de elementos tradicionais da cultura eslava, como flautas e percussões folclóricas, com o peso do metal extremo. Liderada por Masha “Scream” Archipova, vocalista e principal letrista, a banda conta com músicos como Sergei “Lazar” Atrashkevich na guitarra, além de outros integrantes que incorporam instrumentos étnicos às composições. Com álbuns consagrados, o Arkona obteve reconhecimento internacional ao celebrar o folclore pagão e a mitologia eslava, misturando vocais limpos e agressivos em um som marcante.
A apresentação do Arkona no Carioca Club seguiu sem imprevistos e ofereceu um show dinâmico que reforçou a proposta estética do grupo. Com um setlist que incluiu “Kob’”, “Ydi” e “Goi, rode, goi!”, a banda envolveu o público com performances enérgicas conduzidas pela presença marcante de Masha Archipova. A participação da plateia foi incrivel, especialmente durante “Khram” e “Zimushka”, criando um ambiente imersivo. O show foi bem executado, mantendo qualidade sonora e entregando uma experiência culturalmente rica que atendeu às expectativas e reforçou o apelo da banda no cenário metal brasileiro.
Fechando a noite, era a vez do Leaves’ Eyes. Banda alemã de symphonic metal formada em 2003. O grupo foi originalmente idealizado pela vocalista norueguesa Liv Kristine, ex-Theatre of Tragedy, que contribuiu com uma abordagem lírica e operística ao lado de Alexander Krull (também do Atrocity) e demais integrantes responsáveis por acrescentar elementos orquestrais e temáticas vikings ao som da banda. Com discos dedicados à mitologia nórdica e arranjos sinfônicos marcantes, o Leaves’ Eyes consolidou presença internacional e participação constante em grandes festivais.
O show do Leaves’ Eyes no Carioca Club foi uma excelente surpresa, contrastando com o peso das bandas anteriores. A apresentação destacou o caráter sinfônico e melódico do grupo, que abriu com “Chain of the Golden Horn” e incluiu “Hammer of the Gods”, “Who Wants to Live Forever” e outras faixas marcantes. A banda entregou um setlist variado, evidenciando a qualidade vocal e a presença cênica de Liv Kristine. A plateia, embora pequena, participou de forma ativa, especialmente durante “My Destiny”, sendo ainda surpreendida com doses de vodca distribuídas pela banda. Outro destaque foi a apresentação de “Song of Darkness”, faixa anunciada como parte do próximo trabalho. No geral, a performance foi excelente e reforçou o domínio de palco do grupo, sobretudo em “Sign of the Dragonhead”, momento em que Alexander surgiu com vestimentas medievais e empunhando uma espada, elevando ainda mais o clima teatral da apresentação.
Em síntese, as três bandas apresentaram shows de qualidade, mantendo o público engajado e satisfeito. Para um domingo à noite, o lineup diversificado atraiu os fãs verdadeiros, provando que não é sobre quantidade, mas da qualidade e da entrega daqueles que contribuem para fazê-lo acontecer.
A tarefa de resenhar um álbum tão importante, sempre é um desafio, primeiro por ser uma banda com muita história e que passou muitas fases do Hard Rock estadunidense e, por que não, do Rock raiz mundial? George Lynch e companhia conseguiram sobreviver com maestria por vários anos, enfrentando a era Grunge, o fortalecimento dos Pop Stars, enfim, várias décadas de mudanças. Entretanto sempre fiel ao gênero, adaptando-se ao contexto e sempre entregando aos fãs música despretensiosa e de qualidade.
Portanto a despedida da banda não poderia ser diferente, um álbum desafiador, tanto em sua arte, quanto em suas faixas. Fica difícil definir a melhor ou a intermediária, enfim, começo com a que chamou mais atenção, os singles “Saints and Sinners” e “Dancing With The Devil” realmente foram ótimas escolhas para os primeiros lançamentos. Qualidade musical impecável, músicos afiadíssimos, vocais perfeitos, o resultado que pode se chamar de Hard Rock atual e agradável para os ouvidos, e não somente dos fãs, para quem está começando no gênero é uma boa pedida.
Seguimos em frente, “Love In Denial” é uma boa surpresa, bem ritmada e que traz um pouco da era Glam Rock a tona, na sequência a desafiadora “Machine Bones”. Já em “Follow Me Down” vem aquela canção com refrões cantantes e atmosfera vintage, dando um toque diferenciado na audição do álbum. Enfim, a pérola escondida “Golden Mirror”, um instrumental fabuloso e que nos leva para outras eras.
Na sequência “Sea Of Stones” dando um ar mais lento e alternativo, mas sem perder a linha conceitual da obra e dando destaque nas melodias e vocais, trazendo também solos de guitarra que flertam com o Blues.
Para finalizar, temos a balada “The Stranger”, não que uma música de Hard Rock possa ser considerada uma completa balada, mas me atrevo a dizer que é o mais próximo deste conceito, dentre as faixas de “Dancing With The Devil”. Finalizando com a “Bonus Track” intitulada “Somewhere”, onde todo o tradicionalismo da banda é resgatado nos minutos finais da despedida.
Definitivamente, o Lynch Mob venceu as barreiras do tempo e conseguiu encarar com dignidade e talento, desde o início, com os cabelos compridos e calças justas, ao visual atual moderno, mas ainda arrojado, que só a maturidade traz.
Uma despedida com “chave de ouro”, frase um tanto piegas, mas que na falta de uma melhor, continua sendo a opção que define o reconhecimento de uma vida dedicada ao Rock N’ Roll.