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terça-feira, 24 de março de 2026

Nervosa: Imprevisivel e poderoso

 Por: Renato Sanson

Tivemos acesso antecipado a “Slave Machine” (lançamento marcado para o dia 03/04), o novo trabalho da Nervosa, e o que se ouve aqui é mais do que um simples passo à frente, mas sim uma redefinição consciente de identidade.

Conhecidas por sua agressividade direta e raízes fincadas no Thrash Metal, a Nervosa mantêm essa espinha dorsal intacta, mas expandem consideravelmente seu alcance sonoro. O novo álbum apresenta uma banda mais madura, que entende o peso da própria trajetória e não hesita em explorar novos caminhos sem perder sua essência. A própria banda já descreve o disco como seu trabalho mais “brutal e melódico” até aqui e isso se confirma ao longo das faixas.

Se em registros anteriores havia flertes evidentes com o Death Metal old school e o Heavy tradicional, aqui esses elementos dão lugar a uma abordagem mais refinada e atmosférica. As guitarras continuam afiadas e agressivas, mas agora carregam linhas melódicas mais evidentes, criando uma ambiência que em diversos momentos remete aos tempos áureos do Arch Enemy, especialmente no equilíbrio entre peso e melodia. Mas isso não quer dizer cópia, não interpretem errado, apenas um direcionamento para entenderem o quanto as águas de “Slave Machine” se aprofundam.

Outro destaque absoluto é a performance de Prika Amaral. Consolidada como frontwoman, ela entrega aqui um trabalho vocal mais versátil. Além dos já esperados vocais rasgados e agressivos, surgem passagens mais limpas e até melodiosas, ampliando o espectro emocional ao decorrer do play. Essa escolha não suaviza o impacto, pelo contrário, adiciona camadas e torna a experiência ainda mais dinâmica e imprevisível.

A cozinha da banda também merece menção especial, principalmente com a chegada da baterista Michaela Naydenova. Sua execução é precisa, técnica e agressiva na medida certa, contribuindo diretamente para a solidez do trabalho. A bateria não apenas acompanha, mas impulsiona, criando variações rítmicas que enriquecem a construção das músicas.

Com 12 faixas, o disco mostra uma banda que domina sua própria linguagem. Alternando entre velocidade extrema, grooves mais cadenciados e momentos de respiro melódico. “Slave Machine” soa coeso e bem estruturado, sem excessos ou dispersões. Há uma sensação clara de direção e algo que só bandas em estágio avançado de maturidade conseguem atingir.

Mais do que um novo lançamento, representa uma evolução estratégica. A Nervosa amplia seus horizontes sem abrir mão da agressividade que a consolidou no cenário mundial. É um disco que dialoga tanto com fãs antigos quanto com uma nova audiência, especialmente aqueles que apreciam a fusão entre peso extremo e melodia.

Se havia qualquer dúvida sobre o próximo passo da banda após “Jailbreak”, ela é completamente dissipada aqui. “Slave Machine” não apenas eleva o nível, ele redefine o rumo.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Nervosa – 05/12/2025 – Sesc Bom Retiro/SP

PRÓLOGO

O outrora longo ano de 2025 está chegando ao seu derradeiro fim, só que ele não passou despercebido, e se prontificou em cravar a sua permanência na história. O famoso meme de internet "Come to Brazil" deixou de ser um mero meme em si ao chegar aos olhos e ouvidos de vários musicistas ao redor do globo, que atendereram o chamado de inúmeros internautas tupiniquins: alguns o fizeram genuinamente, outros apenas para entrar na onda no famigerado engajamento. Enquanto 2024 saiu de cena com a tarefa de deixar o ano atual com um grau generalizado de excitação por quem tem como símbolo de paixão o universo da música, independente do gênero de preferência, invadindo o bolso dos entusiasmados sem perdão devido a avalanche de anúncios, há outra razão do porquê dele prometer ser tão especial desde a sua espera.

Justamente em 2025 que a potência conhecida como NERVOSA chega a uma década e meia de existência, e em um mundo de competição selvagem o qual todos os da chamada "indústria" querem o seu lugar no Sol, este não é um feito trivial. Apesar do seu QG estar localizado na Grécia e ter integrantes do Velho Continente, a outra metade da sua formação, e mais do que isso, o seu gênese, possuem DNA brasileiro, o que só tornou mais necessário atender o chamado do infame "Come to Brazil".

Após uma turnê pela América Latina no começo do ano comemorando este aniversário, fomos vítimas de uma atitude similar com o BLACK SABBATH meses atrás: o final de um ciclo deve ser onde tudo começou.

Só que ao contrário da banda britânica, acabar é algo atualmente impossível de entrar na cabeça da NERVOSA: na verdade, o oposto é verdadeiro, já que um novo capítulo se inicia em 2026.


ATO I: QUANDO DOIS FILHOS DA ARTE SE TORNAM UM

Dado o horário exato de 20:10 (N. do R = olhando em retrospecto, este leve atraso soa como intencional, pois forma o ano 2010 ao juntar os algarismos), a fundadora Prika Amaral surge no palco sozinha sob a égide de uma luz solitária para contar os anos de formação, como ela estava numa banda chamada INNER VOICES e na necessidade de arrumar um baterista, apareceu em cena um profissional chamado "Trash" da banda ARMAGEDDON recomendando de olhos fechados uma moça chamada Fernanda Terra, sinalizando que ela dá conta do recado. Se juntando ao time, durante um brainstorm, ambas discutiram a ideia de montar uma banda só feminina de Metal. Curiosidade revelada: a primeira vocalista foi uma indivídua chamada Rose.


Após um ano e meio de várias entradas e saídas de baixistas e vocalistas, e por indicação do então namorado Amílcar Christófaro (conhecido pelo poderoso TORTURE SQUAD), Fernanda Lira se juntou ao front após sair do HELL ARISE, possibilitando a gravação da famosa demo "2012":

"E aí logo depois, a gente começou a produzir o primeiro disco da NERVOSA - que foi o "Victim of Yourself" - e lembro que a gente se enfiava em tudo que era evento aqui em São Paulo. Gostaria de agradecer a todos vocês aqui, porque se não fossem por vocês, a gente não teria saído daqui de São Paulo, não teria saído do Brasil, e a nossa história começou aqui. Eu estou muito feliz por a gente ter começado a nossa turnê comemorativa em São Paulo e estar terminando aqui. Este é o último show da nossa turnê, e tem muitas coisas aqui para eu revelar aqui hoje. E foi assim que começou a história da NERVOSA". [aplauso da plateia] - pontuou


A aparição de uma fraca luz azulada dá o ar de sua graça, juntamente com a companhia das integrantes restantes: Gabriela Abud (bateria), Emmelie Herwegh (baixo) e Helena Kotina (guitarra) surgiram com uma visão em que pela iluminação, podia ser vista a silhueta das suas imagens, caracterizando uma introdução com um toque de suspense através de um hype crescente, um comportamento adequado que pintou o cenário que fora anteriormente planejado.

Apelando para as suas origens, MASKED BETRAYER ficou responsável por abrir o espetáculo no SESC Bom Retiro, sendo a primeira música composta pelo então trio paulista. Logo de cara, a animação das integrantes ficou desenhada em seus rostos, que apesar do aspecto formal trago por um teatro, isso não foi causa para que elas passeassem pelo palco.

Ato contínuo, foi a vez de URÂNIO EM NÓS tomar de assalto os ouvidos da multidão, e tomar de assalto o fez com sucesso, porque a porrada auditiva era condição sine qua non para deixar todos preparados para a famosa DEATH!, comumente tocada no repertório como uma das primeiras atrações para acalmar os ânimos da plateia (ou seria elevar?) em deixá-los mais familiarizados com os petardos que as acompanham, em especial com o poderio vocal envolvendo o seu refrão que desafia a sua capacidade vocal e nasal em união.


ATO II: A INCONFORMIDADE É O MEU SOFTPOWER PARA IR ALÉM

Concluído o primeiro ato, agora todas as integrantes continuaram no palco para a próxima narração conduzida pela natural de Bragança Paulista, bem como o apontar de luzes em cada uma delas. Sendo assim, a narração pela líder é continuada.

Após um sucesso maior do que o esperado pelo primeiro álbum (importante apontar que na época em que o Facebook era a rede social de escolha da maioria da população do planeta em plena era digital, o começo da NERVOSA recebeu um empurrão do próprio Schmier, do DESTRUCTION, na divulgação), o acordo com a  renomada gravadora austríaca Napalm Records foi solidificado, pavimentando o caminho para que o próximo lançamento fosse parido ao mundo. "Agony" foi concebido em 2016 momentos após a NERVOSA conseguir engatinhar a sua primeira saída ao país em 2015, culminando com a memorável aparição no famoso festival europeu da República Tcheca: o OBSCENE EXTREME.


Este segmento da retrospectiva emendou também a fase seguinte, sendo descrito por Prika como o instante em que a NERVOSA consolidou o seu som característico doravante e "se encontrou de vez" (em verbatim), abraçando o casamento do Thrash com o Death quando "Downfall of Mankind" nasceu, que foi quando a agora renomada baterista gaúcha Luana Dametto (CRYPTA, CHAOS RISING, NEPHASTO) fez parte do time, no lugar de Pitchu Ferraz (AS MERCENÁRIAS, CHAOS RISING), adicionando o ingrediente composto por linhas de bateria mais agressivas. Adicionalmente, vemos a vocalista Fernanda Lira mergulhar mais profundamente na técnica vocal do fry scream, característica compartilhada pelo lendário Chuck Schuldiner em seu álbum final do DEATH (N. do R = The Sound of Perseverance).

E agressividade é o sobrenome não registrado no cartório de HOSTAGES, cuja chuva dos pratos de ataque conduzidos por Gabriela em seu kit de bateria atacam deselegantemente à mais de 80km/h, sem se importar se o ouvinte aguenta o tranco ou não. Quem duvidava da sua capacidade ao entrar para a NERVOSA no começo do ano passado deve ter torcido o nariz múltiplas vezes, já que a sua competência é a corporificação da crença de que a idade, em inúmeros cenários, é só um mero número.


Dando sequência ao repertório, e tão esperada quanto arroz de festa, KILL THE SILENCE se tornou um dos carros-chefe da sua discografia, sempre descrita pela vocalista como direcionada às mulheres que estão passando por algum tipo de repressão abusiva, seja física ou mental. Por causa do seu ritmo elevado, nota-se aqui uma característica que já foi estabelecida desde a abertura por MASKED BETRAYER: a euforia que tomava conta das integrantes era manifestada em grande parte por Helena e Emmelie: "viradas no 220v", ambas ficavam se movimentando constantemente, e não era incomum vê-las trocando de lado. Outros sim, com as devidas oportunidades, Prika se aproximava do palco e estimulava a multidão a fazer um barulho que desafiasse a acústica exalada por seus instrumentos. Destaque que naquele instante que precede a repetição de toda a letra, as três membras com instrumentos de cordas realizaram uma dança ao estilo Hard Rock, perfazendo uma movimentação de 90º da esquerda para a direita seguindo o fluxo audível, exatamente como têm acontecido "naquela parte" de "Bestial Invasion", do DESTRUCTION.

Para deixar uma representação mais fidedigna de CULTURA DO ESTUPRO, a vocalista/guitarrista/líder deixou as suas mãos livres e confiou as atividades de guitarra apenas para Helena. A execução desta faixa em pleno dezembro ganha uma característica simbólica, pois é exatamente no período de final de ano que ocorre um aumento nos casos de violência física contra o gênero feminino (muitas das vezes arbitrariamente). Seja pelo acaso ou por design, dois dias depois a icônica Avenida Paulista tinha um encontro marcado com um protesto em massa em desfavor da escalada do feminicídio.


Assim como o Superman possui uma inibição em seus poderes graças aos bloqueios mentais que foram estabelecidos desde criança (em boa parte, pela criação dos seus pais adotivos), a impressão que fica é que ao ficar livre da tarefa de guitarra, tivemos o imenso prazer de testemunhar a gloriosa gutural de Prika alcançando o seu esplendor, devida a sua liberdade em se dedicar exclusivamente ao canto aqui.


ATO III: SUPERAÇÃO DIANTE DA FACE DA ADVERSIDADE

E então chegamos ao instante mais delicado da história da NERVOSA. Meses após a histórica apresentação no ROCK IN RIO 2019, a primeira grande ruptura na formação aconteceu. No mencionado ano, a CRYPTA foi formada como um projeto paralelo, mas que em 2020, passou a se tornar o principal norte das agora ex-integrantes Fernanda Lira e Luana Dametto. Por um truque do destino, Prika Amaral ficou total e completamente sozinha entre as membras:

"E aí lá fui eu, com este desafio. Na verdade, quando teve esta ruptura, recebi milhares de mensagens do mundo inteiro de meninas implorando pra mim: 'não deixa a NERVOSA morrer'. Isso não passava pela minha cabeça, mas foi muito importante receber essa mensagem, porque aí eu me dei conta o quanto era importante. E me ajudou a me manter firme e forte em não desistir e ter certeza de que eu estava fazendo a coisa certa.

(...) E a gente tinha todo o tempo do mundo. Não era habilidade, mas era disponibilidade, profissionalismo, experiência... vários aspectos (N. do R. = sobre encontrar outras integrantes no Brasil para substituir as que partiram). E aí lá fui eu, encontrei as meninas da Europa (N. do R = Diva Satânica, Mia Wallace e Eleni Nota), remontei a banda, e aí começou a era do PERPETUAL CHAOS." - concluiu Prika


A faixa-título do quarto lançamento da discografia possui uma característica incomum: apesar de ter um tempo mais lento do que se espera de uma canção de Thrash Metal, o peso dos instrumentos é magnificado, estimulando a produção de um headbanging um pouco mais sofisticado (ou o mais próximo disso). VENOMOUS entrou na sequência, reforçando a presença fortificada da mescla com o Death Metal adquirida desde o álbum anterior. Enquanto a líder executava o solo desta, a holandesa Emmelie aproveitava para mudar de posições com mais frequência do que o normal. É a segunda vinda dela ao Brasil, e foi até uma surpresa vê-la mais agitada do que na sua performance anterior no Carioca Club: seria a magia do ambiente brasileiro ou do quão especial foi esta apresentação como um todo? Quem sabe...?


A ordem cronológica dos acontecimentos era religiosamente seguida, tendo UNDER RUINS como sucessor natural de VENOMOUS. Um lembrete, porém, que ela antecede a elegante e devastadora GUIDED BY EVIL, uma das principais do "Perpetual Chaos". O título é proposital, em consequência do fato da sua introdução soletrar magistralmente M.A.L.I.G.N.O., cortesia do riff memorável executado através de uma sinergia entre as duas detentoras de guitarras. Esta canção é um conflito constante com a natureza ambiental, já que a sua intensidade e violência sonora fazem com que os ali presentes pudessem apreciar num ambiente como uma arena, por causa da produção de moshes que está embutida em sua concepção.

ATO IV: RAIOS CAEM DUAS VEZES NO MESMO LUGAR

Chegamos ao período contemporâneo: a fase do "Jailbreak". Conduzindo a narrativa da história da banda, Prika continua a elaborar:

"Uma das coisas mais complicadas é você gerenciar o sonho dos outros. Expectativas... muitas vezes, a maior parte das meninas não tem experiência, e quando encontram a estrada... E o fato de você estar muito tempo longe de casa, você não ter tempo de fazer nenhum hobby seu, nada... absolutamente nada. De não saber quanto que vai ganhar, de ter surpresas aí na estrada, de ter um parente doente e você estar longe... é muito difícil. E aí as meninas se dão conta: 'é o que quero, é o meu sonho, mas não nessa intensidade'. E eu aqui, mais uma vez, na missão em encontrar mais meninas fodas.

(...) Mas, antes disso acontecer, antes delas saírem, já havia um segredo que eu vinha aí guardando a sete chaves. Eu já tinha planos, quando a Fernanda e a Luana saíram da banda, já tinha planos de termos duas guitarristas na banda. Mas a banda iria passar de três para quatro meninas, a logística iria ficar muito complicada dessa maneira, então eu pensei: 'Uma nova guitarrista fica para o próximo álbum'. Mas a gente já estava trabalhando por trás de tudo.

Quando a gente lançou o PERPETUAL CHAOS, meses depois, já entrei em contato com a Helena, e a gente começou a se falar. Eu vi que ela se encaixava bem com as ideias da Nervosa, e ela estava disposta" - Prika, ao descrever sobre o processo que se passou entre o PERPETUAL CHAOS e o JAILBREAK


Após um passeio pela penúltima parte da peça, a tocante abertura na guitarra semi-acústica de SEED OF DEATH invadiu todo o local do teatro do SESC Bom Retiro sem pedir permissão para entrar nos ouvidos de quem estava presente. A frase em sua letra "Will Never Die" reflete o período mais difícil que a NERVOSA passou, e é uma declaração de intenção de que a mesma continuará viva de geração em geração, desde que passemos os seus ensinamentos adiante. E de maneira inusitada, estando próxima de acabar, a líder saiu do palco para trafegar na escadaria central entre os espectadores, estando mais próxima deles. A plateia ao redor vibrou com mais vigor enquanto Prika e Helena performavam os riffs finais.

A execução de BEHIND THE WALL foi a materialização da sensação de orgulho em todas as conquistas realizadas até agora. Não só isso, mas pelo semblante de alegria e satisfação que tudo aconteceu para chegar neste momento.


A dobradinha composta por NAIL THE COFFIN com UNGRATEFUL serviu para mostrar que a conexão entre Prika e Helena é tão evoluída que pode acontecer até via sinal wi-fi: à distância, e definitivamente não pode ser subestimada. Ligadas a um nível quase celular, uma complementa a outra da mesma forma que goiabada combina com queijo minas, sobremesa tradicional do cardápio do brasileiro.

O arco de "Jailbreak" vai dando passagem ao futuro com KILL OR DIE, uma das faixas mais "cruas" do supramencionado álbum, com um espírito Thrash bem "na sua cara" e direta, ao passo de ser um desafio indireto se o ouvinte aguenta o massacre audível que testa a capacidade de resistência das orelhas.


ATO V: UM AMANHÃ MAIS BRILHANTE

A apresentação que passou de leve a marca de 1:30h, uma das mais longas de sua história, chegou agora ao ato final. Prika deu continuidade para a última parte da narração da estrada até agora:

"Temos o privilégio de ter duas baixistas. Elas não tocam juntas, elas vão revezando entre as turnês e tudo mais. Tem um tema importante para a gente falar aqui: nossa outra baixista tem uma filhinha pequena, e nem sempre ela pode ir a todas as turnês. Ela tem que cuidar da filha dela, muito pequenininha, não tem com quem deixar, toda a situação e tudo mais. E a gente entende. E essa foi a maneira que a gente encontrou".

Continuou: "A gente se sentiu bastante perdida nesse momento. Eu não vou tirar ninguém da banda porque ficou grávida, ou porque tem um filho. Isso não é motivo para tirar ninguém da banda [N. do R. = momento em que a líder é ovacionada pela plateia]. A gente sempre pode encontrar um jeito de fazer todo mundo viver um sonho, e também dar a oportunidade para outras pessoas. Não é só a questão de colocar alguém para cobrir a nossa baixista oficial. E essa menina aqui está dando o sangue tanto quanto a outra [N. do R = aponta para Emmelie], e é por isso que nós temos duas baixistas oficiais: EMMELIE HERWEGH [N. do R = anuncia o seu nome em tom gutural, arrancando uma salva de palmas da plateia], e uma salva de palmas para a nossa baixista que não pôde estar aqui: HEL PYRE" [N. do R. = o mesmo acima] - concluiu a fundadora


Assim como Emmelie, Gabriela também é peça-chave para o futuro da NERVOSA, anunciando a chegada de SMASHING HEADS, a primeira canção com a participação de ambas. O single, lançado em comemoração do aniversário dos quinze anos, foi tocado pela primeira vez no Brasil, e não estará presente no próximo disco, sendo uma celebração das origens da banda paulistana. Graças à qualidade acústica que um SESC habitualmente oferece, aliada com a experiência na estrada do quarteto, a faixa foi executada com alta fidelidade quando comparada à sua contraparte do estúdio.

Após as devidas apresentações de cada integrante, era a sinalização de que o final estava próximo. JAILBREAK é anunciada pela guitarrista e vocalista como uma dedicação a todos aqueles que não se contentam em fazer parte de um padrão em específico, para que todos esses tenham orgulho de ser quem são, e que carreguem a bandeira mais confortável para cada um.


Como tradição desde o lançamento do álbum, o encerramento é responsabilidade da fantástica ENDLESS AMBITION. Através de ginásticas cerebrais, o ser humano como um todo tem o deleite em se achar superior aos outros, por enganações da mente ou por problemas anteriores não-resolvidos. A "brutalidade com finésse" que envolve os decibéis de ENDLESS AMBITION é um aviso de que, ainda que sejamos a raça prevalente no planeta, em determinadas situações, ainda recorremos aos nossos instintos bestiais para nos manifestarmos de maneira mais precisa e natural, resgatando o fato de que o ser humano veio da selva.

EPÍLOGO

Chegando perto de 1:40h, a apresentação mais ousada da NERVOSA até agora é um marco da música extrema brasileira dos anos atuais. Sendo o completar de um ciclo, o horizonte aparenta ser próspero para que o novo capítulo se dê início em 2026, e acontecerá logo em Janeiro, pois o primeiro single do novo lançamento verá a luz do dia.

O nível de profissionalismo que foi observado como um autêntico presente antecipado de Natal é um testamento nada silencioso de que, assim como ANGRA e SEPULTURA antes delas, é perfeitamente seguro admitir que a NERVOSA encontrou o seu merecido lugar como uma das principais embaixadores do Metal extremo do nosso país mundo afora.


É de bom grado registrar esta nota de redator: este redator, assim como grande parte do público em geral, ficou confuso do porquê que uma apresentação da NERVOSA iria acontecer no teatro de um SESC, considerando que a própria possui um público para lotar uma casa com a capacidade tranquilamente acima do limite permitido de 291 pessoas. Um Cine Jóia com as suas 1000 pessoas seria um local mais apropriado, ou talvez uma reprise do Carioca Club no começo do ano.


Porém, no exato instante em que deu 20:10, com o apagar quase total das luzes e a música de fundo parando de tocar, tudo ficou cristalmente claro. O pensamento envolvendo a ação de "contar a história da NERVOSA" não foi uma frase bonita para se fazer média. O processo mental que envolveu este desejo significava utilizar um teatro como um local apropriado para unir dois filhos das Sete Formas da Arte de uma vez só para entregar uma experiência não apenas diferenciada, mas ainda mais completa, com o exato modus operandi em um ambiente da supramencionada integrante das Artes Cênicas, combinada com uma apresentação devastadora que se tornou o padrão da potência brasileira internacional que virou a banda em questão.

...E então a ficha caiu.

Quando há um cuidado em entregar um trabalho pensando mais na sua qualidade, ao invés de apenas um número maior de vendas, este redator passa a concordar que o termo "artista" não se categoriza mais como "pretencioso" e o considera como parte do reino da realidade. Não nos foi revelado de qual cabeça veio esta ideia, mas uma coisa é certa: essa pessoa merece um aumento para ontem.


Texto: Bruno França 


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Nervosa – setlist: 

Masked Betrayer

Urânio Em Nós

Death!

Hostages

Kill The Silence

Cultura do Estupro

Perpetual Chaos

Venomous

Under Ruins

Guided By Evil

Seed of Death

Behind The Wall

Nail The Coffin

Ungrateful

Kill Or Die

Smashing Heads

Jailbreak

Endless Ambition


Agradecimentos à Roberto Bisca por ceder gentilmente o repertório

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Matéria Especial: Passado e Futuro se Colidem nos 15 anos da NERVOSA Em Uma Coletiva de Imprensa na Galeria do Rock

Selma Alves

Por Bruno França 

Prestes a concluir uma turnê de sucesso que comemora os primeiros quinze anos de existência da banda, a NERVOSA retorna ao seu país de origem - o Brasil - para o fechamento de um ciclo, ao mesmo tempo que inicia um novo.

A Galeria do Rock, um dos maiores templos do Rock e do Metal não só do Brasil, mas da América Latina, hospedou uma coletiva de imprensa na noite que antecedeu o último show do ano da banda (marcado para o dia 5), no teatro do Sesc Bom Retiro.

A coletiva aconteceu no espaço recém-aberto da Arena Galeria, localizada no 5º andar, ao passo em que as integrantes estavam visivelmente governadas por uma animação com o evento.

Tendo iniciada precisamente às 19:27, Prika Amaral (guitarra e voz; líder), Helena Kotina (guitarra), Emmelie Herwegh (baixo) e Gabriela Abud (bateria) cumprimentaram todos os presentes e responderam várias perguntas dos jornalistas dos mais variados veículos, abordando sobre temas como a diversidade cultural ao redor do mundo, o poder da cena brasileira, o consumo da música nos dias atuais, as influências ao redor das composições dos álbuns, entre outros tópicos.

Abaixo, estão alguns dos temas abordados.


JANEIRO MARCA O ALVO: UM NOVO ÁLBUM

Passadas as devidas formalidades, a coletiva se iniciou não com um sussurro, mas sim com um estrondo: o anúncio oficial de que o próximo álbum está a caminho. A composição do sucessor de "Jailbreak" (lançado em 2023) está em níveis avançados, e é garantido que tenhamos novidades sobre ele já em janeiro do ano seguinte, na forma do primeiro single.

A canção mais recente, "Smashing Heads", foi feita como comemoração neste momento tão especial que o quinteto multinacional passa atualmente, sendo a primeira participação oficial da holandesa Emmelie Herwegh como integrante nas atividades do baixo e da brasileira Gabriela Abud assumindo a bateria, após a partida da búlgara Michaela Naydenova no começo do ano passado.

Carregando a característica de um zeitgeist, a faixa não estará presente no novo álbum, conforme confirmado pela fundadora e líder Prika Amaral.

Uma segunda bomba foi lançada em sequência: não haverá nenhuma participação especial.

Traçando um paralelo com as suas origens, o primeiro álbum da sua discografia, "Victim of Yourself", é o único que não possui participação especial de nenhum(a) outro(a) musicista. E tal característica será repetida no próximo lançamento.

Uma vez mais, a produção conta com o argentino Martin Furia, peça importante no patamar que a NERVOSA se encontra atualmente, seja pelos seus conhecimentos como guitarrista do DESTRUCTION, seja pela sua experiência como produtor que guia as integrantes enquanto mantém uma qualidade sonora mais polida do que a anterior.

Bruno França

DUAS CABEÇAS PENSAM MELHOR DO QUE UMA

Uma característica um tanto incomum que envolve a NERVOSA é o fato dela possuir duas baixistas. A grega Hel Pyre nem sempre pode estar participando dos shows por duas razões centrais: a mesma virou mãe recentemente, e as suas responsabilidades familiares entram em rota de colisão com as performances e as atividades da banda. 

Não obstante o fato dela ocasionalmente ser convidada para participar dos shows da lenda viva KING DIAMOND, como aconteceu numa turnê europeia recente, onde ela assume as tarefas de backing vocals e do teclado. Adicionalmente, a grega ainda realiza shows com a sua banda de Black Metal W.E.B., cantando enquanto também toca baixo.

A fundadora Prika se pronunciou ao se certificar de que, apesar das imagens promocionais recentes mostrarem tanto ela quanto Emmelie juntas, não é a intenção ter ambas simultaneamente no palco. Há um pouco mais de dois anos, Emmelie esteve disponível para preencher essa lacuna diante da indisponibilidade de Hel Pyre.

Considerando que não é desejo da mesma sair, e respeitando esta decisão, Prika então decidiu que ambas fazem parte da família NERVOSA, tornando Emmelie Herwegh como também uma integrante efetiva.

Selma Alves

GOSTOS PLURAIS TORNAM A VIDA MAIS PRAZEROSA

Prevendo que a Prika seria bombardeada com a maioria (quase unânime) das questões, este repórter se prontificou em providenciar uma variada para que as outras membras também pudessem se expressar. Sendo assim, a primeira das duas perguntas realizadas foi direcionada à Emmelie (a primeira pergunta realizada em Inglês na conferência). Ao ser questionada sobre a visão estreitista a qual muitos possuem de que quem gosta de Metal "só pode gostar disso", a holandesa se pronunciou (em verbatim):

"Na minha opinião, as pessoas podem gostar daquilo que preferem. Então se é apenas Metal, tudo bem. Só que para mim, a música é mais do que isso. O Metal é o meu gênero preferido, é o que mais gosto de tocar, amo a comunidade como um todo e tudo a respeito.

Mas eu também recebo inspirações de muita música Pop, especialmente de artistas femininas. Para mim, elas são muito empoderadoras. Há também mulheres no Metal, mas tenho também ídolas na música Pop, as quais eu adoro e tenho como referência.

Por mim, cada um escolhe o que preferir. Não importa em abstrato o que cada um gosta, todos são livres para apreciarem aquilo que os agradam.

Não é uma luta ou uma competição, música se trata de ouvir tudo o que existe nela".

Bruno França

AS FERRAMENTAS DO TRABALHO: UM RESUMO SOBRE COMO OCORREM AS COMPOSIÇÕES

Durante o momento para a composição de material novo, Prika deixou claro que não é interessante ficar numa visão linear de apenas um "Thrash Metal cru".

Adicionalmente, acrescentou que todas as integrantes são muito bem-vindas para darem os seus pontos de vista e que possuem boa liberdade no ato da composição em si.

"Então a gente trás outros elementos, outras ideias, outras coisas. E não se fechar, não direcionar a sua inspiração, sabe?

Fazer a arte é você liberar ali a sua expressão, a sua... é não ter medo! Se eu quero cantar limpo, eu vou cantar limpo. Se eu quero soltar uma gutural, eu vou cantar gutural", explicou a líder.

Elaborando sobre a sua parte do processo, Gabriela se manifestou (em verbatim): "Eu espero que as pessoas realmente se conectem do jeito delas - não do jeito que a gente quer -, mas que chegue nelas. A letra. Tipo... a música tá foda, mas a letra... eu acho que ela tá mais foda".

Ou seja, a própria também está fazendo parte da escrita das letras do próximo álbum.

Ato contínuo, a baterista revelou que, por vir de uma escola mais moderna, traz algumas das suas influências vindas de GOJIRA e de LAMB OF GOD, por exemplo.

Selma Alves

UMA DÉCADA E MEIA EM RETROSPECTIVA

Quando Prika Amaral foi questionada sobre o show final que fecha a atual turnê, se teremos alguma participação especial, talvez a aparição de alguma integrante antiga, a membra fundadora revela que só percebeu a chegada dos quinze anos no final de 2024.

"Fiquei muito feliz que a gente conseguiu fazer o primeiro show de comemoração de quinze anos em São Paulo" (N. da R. = na primeira edição do DARK DIMENSIONS FEST, coincidentemente no aniversário da cidade, cuja cobertura foi feita por este repórter, disponível aqui na ROAD TO METAL).

Após contar que cinco shows foram realizados no Japão com setlists diferentes e que rolou a ideia de fazer shows em ordem cronológica, ela continua, (em verbatim):

"E aí casou de a gente fazer o último show deste ano (e último show da turnê) em São Paulo. Eu falei: 'vamos fazer esse show, só que bem elaborado e tal'. A gente vai estudar melhor como que a gente vai fazer, o que vai falar e tal. A gente construiu isso... e a gente vai tocar em um teatro, né? E lá no Sesc Bom Retiro é todo mundo sentado. 

Então fez muito sentido a gente fazer esse tipo de formato. A galera não vai poder ficar agitando muito (o que é uma pena), mas eu vou estar ali para a gente tocar as músicas, fazer um 'revival' da NERVOSA e contar a história também".

Finalizando a pergunta, a natural de Bragança Paulista revela que teve um disco gravado nos Estados Unidos, além de outros pedaços de informações que o público talvez nem saiba: “vai ser meio que isso: um stand up, mas não 'comedy' [risos de todos].”

Selma Alves

A POTÊNCIA DO BRASIL DIANTE DA COMUNIDADE INTERNACIONAL

Ao ser questionada sobre a cena nacional e a importância do nosso país ao redor do globo, a resposta de Prika foi (em verbatim):

"A gente sabe que aqui tem lugares para tocar. É possível viver de música no Brasil, sim. É difícil - pra caralho - sim. Mas é possível. Porque a gente tem exemplo disso, né? Agora a gente tem festivais aqui. O BANGERS tem uma representatividade e uma importância enorme para a nossa cena. O que eles estão fazendo não é fácil, entendeu?

Eu sei que tem muitas coisas a melhorar e tal, tudo mais. Mas eu admiro todo mundo envolvido que fez isso acontecer, os que estão ali tentando segurar... Isso tem uma importância enorme, eu bato palmas e sou agradecida eternamente a eles, porque é uma coisa muito importante. É o maior festival de Metal que a gente tem atualmente no Brasil. Na América Latina, eu te digo, porque tem muitos festivais que a gente já tocou que não existem mais, sabe?

Então, assim... é muito importante isso. O Brasil tem uma importância na cena Metal enorme. Não só pelas bandas, sabe? Mas porque é referência.

Gente, o maior público do IRON MAIDEN é aonde?

[Todos]: 'No Brasil'.

Então. A gente tem um poder absurdo e a gente é admirado pelo mundo inteiro".

Selma Alves

O CONSUMO DA MÚSICA NO PASSAR DAS GERAÇÕES

Mantendo a mentalidade de fazer com que as outras integrantes possam compartilhar melhor os seus pensamentos, este repórter fez a sua segunda e última pergunta à grega Helena.

Considerando que a forma como consumimos música mudou drasticamente desde o período da adolescência (N. da R. = devido ao fato deste repórter e da guitarrista serem basicamente da mesma geração) até os dias de hoje, a grega foi questionada sobre o que ela acha deste "rito de passagem".

Helena então elaborou que existem aspectos positivos e negativos da época de outrora, assim como dos dias atuais. Poder pegar no celular e ter acesso a uma biblioteca quase interminável de discografias possui o fator "conveniente" ao entrar em determinados aplicativos para este fim, e é ótimo para poder expandir a sua biblioteca particular.

No entanto, ela admite possuir uma nostalgia de quando ia para as lojas de discos para poder interagir com outras pessoas de gostos similares, porque além de sair conhecendo uma banda nova, ela também voltava para casa com um amigo em potencial, então ela lamenta que o aspecto da socialização entre as pessoas teve uma grande queda atualmente.

Similarmente, ela confessa adorar os discos físicos. Ao estar com ele nas suas mãos, poder pegar nele, ver o encarte e a materialização do trabalho dá uma alegria diferenciada do que apenas escutar o som no seu aplicativo preferido, o que está gradualmente se tornando uma arte perdida, mas que ainda assim consegue viver na era moderna.

Bruno França 

TODAS AS COISAS BOAS NÃO PRECISAM CHEGAR AO FIM

Com a coletiva chegando ao seu fim, junto com o agradecimento vindo da Arena Galeria, pudemos perceber que a NERVOSA respeita o seu passado, seus antecessores e um amadurecimento profissional visível.

A noite estelar deixou uma leve chuva para acompanhar o terraço da Galeria do Rock, e a longa sombra do palco reflete a longa estrada a ser percorrida, ficando o desejo de que mais quinze anos sejam comemorados no futuro previsível.

Viver de banda autoral numa indústria que requer mudanças imediatas introduz o conceito do desafio constante, mas pela vivência na prática, as integrantes exalam confiança e segurança em suas falas e através da linguagem corporal, honrando o gênero que fazem parte e garantindo não só agradar quem já as acompanha, mas também fazendo com que os ouvintes novos se sintam confortáveis em casa.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Cobertura de Show: Dark Dimensions Fest – 25/01/2025 – Carioca Club/SP

DARK DIMENSIONS FEST: UMA AMOSTRA DO QUE O ANO CORRENTE ESTÁ PARA TRAZER A TODOS NÓS

No ano de 2025, a produtora Dark Dimensions celebra os seus 25 anos de existência. Um marco desses poderia ser comemorado de maneira "ordinária", mas diante dos períodos constantes de testes e de tribulações que estamos submissos quando se fala em ficar vivo não só no ramo da música, e considerando o nicho do Metal em um país com as dificuldades como o Brasil possui neste segmento, este definitivamente não é um feito qualquer.

E obviamente, o Rock como um todo sempre teve uma característica basilar de inclusão. Bem antes dessa pauta tomar as discussões acaloradas no dia-a-dia, seja de maneira presencial, seja no ambiente de campo de batalha que são as redes sociais, reforçando a sua característica como CONTRACULTURA, o âmbito do Metal historicamente acolheu aqueles enquadrados como "minorias".

Tempos atrás, o mais esperado era apenas citar os nomes mais comuns quando se trata de representação feminina dentro desta subcultura, como Ângela Gossow e Simone Simmons. Os mais experientes soltariam uma Sabina Classen ou as pioneiras da GIRLSCHOOL. Nos dias de hoje, porém, a realidade tem sido mudada como uma presença consideravelmente maior do que víamos num passado parcialmente recente. 

Em grande parte, um dos agentes responsáveis para esta mudança de paradigma é a poderosa NERVOSA, banda que começou o seu trajeto no ano de 2010 com um Thrash Metal bem "na sua cara", e hoje em dia pode ser categorizada como uma das principais expoentes internacionais do gênero.

Em luz de eventos recentes, a Dark Dimensions aproveitou o momentum frontal para uma celebração específica em pleno dia de aniversário da cidade de São Paulo, culminando com o 1º Dark Dimensions Fest. Reunindo o estabelecido TORTURE SQUAD, as em crescimento ESKRÖTA, THE DAMNNATION e THROW ME TO THE WOLVES, o festival contou com a 1ª aparição em terra tupiniquim dos australianos do ELM STREET. A headliner foi a supramencionada NERVOSA, celebrando o seu aniversário de 15 anos, o que só enfatiza o fato deste ser um legítimo zeitgeist.


THE DAMNNATION

Os portões do Carioca Club foram abertos para todos precisamente às 14:11, pouco após do horário estabelecido, com um calor digno da estação do Verão castigando a fila que se encontrava preenchendo a esquina para o rolê do dia.

Nos perímetros de consumação da casa, os itens esperados à venda estavam disponíveis: camisas, patches, CD, discos de vinil... as opções eram numerosas.

Tais atrações serviram para ajudar a passar o tempo até a marca pontual das 14:30, ocorrendo a 1ª abertura das correntes na tarde escaldante de Sábado para o ato inicial do festival: a THE DAMNNATION.

Mesmo com o horário cedo, havia um pessoal já presente na famosa casa de shows do Pinheiros, por mais tímido que fosse. O trio formado em 2019 por Renata Petrelli (vocais/guitarra), Fernanda Lessa (baixo) e Leonora Mölka (bateria) começou os trabalhos com uma abordagem mais direta, sem muitas cerimônias, com PARASITE. Um ponto diferencial é que, ao contrário da maioria das oferendas do tipo, é possível ouvir claramente a nitidez de cada instrumento da mescla de Thrash/Death entregue por elas.

Por mais que a presença do público estivesse ainda acontecendo, isso não impediu que Renata prestasse consideração por aqueles que já se encontravam no recinto, trajando uma respeitável camisa do KING DIAMOND.

Assim como em ABSU (porém de maneira atenuada, pois o baterista é o vocal principal), outro diferencial do THE DAMNNATION é ouvir segmentos vocais vindos da bateria de Leonora, e WAY OF PERDITION serviu para soltar um ritmo que gradualmente se elevava, o que iria pintar um clima que estava marcado no horizonte para as horas que o Dark Dimensions Fest duraria.

APOCALYPSE foi a última entrega do trio, um puro suco de Thrash Metal que toma proveito de uma clareza mais moderna, sem ignorar a forte influência vista dos primórdios do SEPULTURA.

Como em uma apresentação de teatro, as cortinas se fecharam para provocar a multidão com uma sensação de curiosidade com que acontecera nos bastidores, até a chegada da próxima atração. Este modus operandi seria uma constante por toda a duração deste evento, para que também fosse possível mirar as atenções com certas necessidades sociais e biológicas que vem com o território de um festival.


The Damnation – setlist:

Parasite

World's Curse

Grief of Death

This Pain Won't Last

Way of Perdition

Unholy Soldiers

Slaves of Society

Apocalypse


THROW ME TO THE WOLVES

O que foi visto aqui seria a última vez que veríamos o início ser dado no horário pristinamente estabelecido, já que certos imprevistos começariam a participar durante o desenrolar do festival, o que não chega a ser algo fora do habitual. Exatamente às 15:30, o palco estava povoado com os membros do 2º ato programado do Dark Dimensions Fest: o THROW ME TO THE WOLVES, a mais nova do elenco.

A abertura instrumental serviu para gerar uma continuação com CHAOS, e com o tocar das primeiras notas, os mais iniciados no Death Metal Melódico podem sacar que a inspiração que reina o quinteto vem da cena de Gotemburgo dos anos 90 lá da Suécia, personalizadas por nomes como DARK TRANQUILITY e IN FLAMES.

Por conta disto, não só por ser formada há pouco tempo, mas eles são o que menos fazem parte da predominância do Thrash, o que coloca um destaque a parte para a banda que tem apenas pouco menos de 2 anos de idade. Levando em conta como as canções são estruturadas, ponto bastante positivo por deixar que cada membro consiga ter seus momentos de destaque, em linhas gerais.

Seja em TARTARUS ou em GATES OF OBLIVION, não faltou demonstração técnica e movimentação constante entre todos os instrumentistas de cordas e do vocalista Diogo Nunes com um ótimo alcance vocal.

Gui Calegari e Lucas Oliveira formam os chamados "gêmeos das guitarras", alternando ocasionalmente entre melodias e solos, colocando seus nomes para se prestar atenção num futuro próximo pelo que fora apresentado aqui. Rodrigo Gagliardi complementa apresentando uma performance de presença, e com Maycon Avelino na posição de baterista, eles certamente vieram para ficar.

É de se lembrar que GAIA conta com a participação especial do vocalista Bjorn "Speed" Strid (conhecido pelo SOILWORK e pelo THE NIGHT FLIGHT ORCHESTRA).

Tendo já feito entusiastas no meio da vastidão, THROW ME TO THE WOLVES é um nome que ainda será pronunciado aos ouvidos dos participadores da cena, em especial quando seu álbum de estreia for lançado ainda em 2025, entitulado Days of Retribution.


Throw Me To The Wolves – setlist:

Intro

Chaos

Tartarus

Days of Retribution

Gates of Oblivion

Fragments

An Hour of Wolves

Gaia


ESKRÖTA

Com o fim iminente da apresentação anterior, era possível observar um aumento na movimentação num dos locais mais famosos do bairro Pinheiros. Em uma reprise, as cortinas se mantinham fechadas para a construção de suspense entre o que acontecia nos bastidores.

No horário exato das 16:28, a abertura das cortinas tornou a acontecer, revelando os dizeres E.S.K.R.Ö.T.A., cujo trio experiencia uma ascensão considerável, tendo tocado recentemente no ROCK IN RIO e no KNOTFEST BRASIL, e feito uma turnê com o NAPALM DEATH pela América Latina no fim do ano que se passou.

Vindo do interior paulista, o trio conta com Yasmin Amaral (vocais e guitarra), Tamyris Leopoldo (baixo e backing vocal) e Jhon França (bateria), entregando um som como se fosse um "Megazord" de Crossover, Thrash Metal e Hardcore, sendo talvez a mais diferente das 6 bandas.

A abertura com GRITA já mostra algumas características que se tornaram marga registrada da ESKRÖTA: letras ácidas, críticas e políticas, casadas com um som bem cru e direto. Em uma tentativa de promover atitudes contra platitudes, desde o show no KNOTFEST se tornou tradição ver uma leva de bolas infláveis que contam com o logotipo do super trio voando pela plateia.

E neste meio tempo, a vocalista e guitarrista Yasmin aproveita a oportunidade para comentar sobre o quão importante é o serviço promovido pelo Dark Dimensions Fest, por trazer uma participação feminina maior diante de um cenário que ainda se mantém desproporcional no caso em tela.

Reais hinos como ÉTICAMENTE QUESTIONÁVEL e CENA TÓXICA evidenciam as supramencionadas características do que se pode esperar de uma entrega da ESKRÖTA, e PLAYBOSTA já alcançou a condição de um clássico do conjunto de São Carlos e Rio Claro.

Porém, nem só de letras com cunho político compõem o seu arsenal. Com inspiração em filmes de terror, NÃO ENTRE EM PÂNICO é uma das armas vistas em seus shows, com a participação de Vicki fazendo o papel do personagem Ghostface, tanto no palco como nas rodas de mosh.

FILHA DO SATANÁS, como de costume, mostrou ser o epicentro da apresentação, com uma descarregada magnificada de energia, sem perdoar qualquer ser vivo que estivesse em seu trajeto de ataque. O encerramento ficou por conta de MULHERES, culminando com uma passada de mensagem executada com sucesso, sem contar um wall of death similar a um arrastão elevado à décima primeira potência.

Seja pelo acaso ou por design, o uso do personagem Ghostface acabou criando um tipo de gancho para o que estava por vir em seguida, deixando a partir deste ponto com que o festival chegasse à metade das atrações.


Eskröta – setlist:

Grita

Playbosta

Cena Tóxica

Episiotomia

Não Entre Em Pânico / Exorcist in the Pit (com participação de Vicki, como Ghostface)

Homem É Assim Mesmo

Mosh Feminista

Éticamente Questionável

Instagramável

Filha do Satanás

Massacre

Mulheres


ELM STREET

Pelo nome da desconhecida ELM STREET, um pode adivinhar que faz referência ao famoso filme do Freddy Krueger, "A Hora do Pesadelo" (Nightmare On Elm Street), e esse palpite estaria correto. Vinda da Austrália, ela possui algo em comum com a ESKRÖTA: foco em filmes de terror. E tem algo em comum com a NERVOSA também: eles as acompanham abrindo para a banda brasileira na turnê de 15 anos na América Latina.

Na marca exata das 17:26, se iniciou a 1ª aparição dos australianos aqui no Brasil, iniciando com A STATE OF FEAR através de um Heavy tradicional com toque moderno. Pode-se perceber aqui que a predileção por filmes de terror fica cravada nas temáticas das composições, não na estética em si. E sem demorar muito, Aaron Adie (guitarra) puxou as atenções para si com uma quantidade impressionante de solos cativantes.

Pairava um certo ar de incerteza e curiosidade entre o público presente, o que fez com que Nick Ivkovic (baixo) ficasse se "movendo nos 220v" para agitar o recinto, por várias vezes se colocando no ponto de limite que separa o palco da pista central, interagindo freneticamente, sem perder uma batida.

Ben Batres (vocal/guitarra) se prontificou em deixar claro que, apesar do nome fazer alusão a um pesadelo, não seria onde estaríamos dentro, mas sim o de um sonho de Heavy Metal tradicional com pitadas de Speed, como ocorre em HEART RACER.

Para deixar todos mais familiarizados com os membros, eles inteligentemente possuíam em seu repertório um cover do IRON MAIDEN na forma de RUNNING FREE, tudo enquanto entregavam um instrumental muito bem elaborado, o que pode fazer muitos se perguntarem o que os levaram a não terem vindo ao Brasil antes.

O mencionado instrumental era complementado por Tomislav Perkovic, que esmurrava a sua bateria com a força proporcional do seu tamanho físico.

Por fim, com uma menção honrosa a DIO, a finalização ficou por conta de METAL IS THE WAY, se consolidando como uma opção acertada e que provará surpreender aqueles que dedicarem seus tempos para conhecerem algo novo e de qualidade aprovável.

Talvez não tão nova assim porque eles já possuem um pouco mais de 15 anos de idade, o que não elimina a possibilidade de ser uma boa descoberta para quem se dispor a conhecê-los.


Elm Street – setlist:

A State of Fear

Face The Reaper

Heart Racer

Elm St's Children

Take The Night

The Last Judgement

Behind The Eyes of Evil

Running Free (Iron Maiden Cover)

Barbed Wire Metal

Heavy Metal Power

Metal Is The Way


TORTURE SQUAD

O TORTURE SQUAD não ser o headliner do evento não muda o fato de ser uma atração que sempre chama a atenção onde irá realizar uma apresentação. Afinal, quando estamos falando de veteranos com décadas de experiência que dignificam o nome do Brasil mundo afora no cenário da música extrema, é natural a criação de uma receita que tem um ingrediente básico como o seu alicerce: ouvintes que praticam a tática da fidelidade como se fosse uma necessidade natural do corpo humano, como dormir ou se alimentar.

Isso é evidenciado pelo fato de que ao redor deste momento, o Carioca Club se aproximou da lotação máxima para que todos possam ver melhor o que pode ser aprendido por esta instituição nacional do Thrash Metal. Algo que já foi aprendido, no entanto, é testemunhar um show com um ritmo bem energético, com headbangings acelerados e um teste à capacidade dos equipamentos de som, caso aguentem o tranco.

Desde o lançamento do trabalho mais recente, DEVILISH, se tornou um padrão a abertura ficar por conta de HELL IS COMING, oportunidade para a vocalista Mayara Puertas demonstrar a ampliação do seu escopo como musicista ao não ficar apenas na tarefa vocal, e sim ao ser acompanhada pelo elemento do violão. Para além dela exalar uma voz limpa, assim que ela solta a sua gutural necromântica, você entende o motivo dela ser professora nesta modalidade de canto, personificando aquela valia da vida de que ações valem mais do que palavras.

Antes do anúncio de ABDUCTION WAS THE CASE, houve a menção respeitosa sobre o falecimento recente de Cristiano Fusco, por motivo de câncer. Em sinal cortês, este foi o momento de prestar a devida homenagem pelo fundador da banda com uma de suas favoritas.

Outro ponto de foco antes que RAISE YOUR HORNS fosse tocada é a contemplação do que acontece quando alguém alcança um nível de excelência por dedicação contínua. Em um solo destruidor e de gerar admiração, não é à toa que Amílcar Christófaro é visto como um dos melhores bateristas em seu ramo em solo brasileiro, com uma habilidade quase descomunal por trás do seu kit.

WARRIOR possui um propósito triplo: não só foi o momento para elogiarmos o técnico de som, que permitiu com que as sólidas linhas de baixo de Castor fossem claramente audíveis, tornando a sua possível ausência notada, como também alterou o ar da apresentação com uma vibe mais Hard Rock. 

Foi aqui que a icônica Leather Leone (mais conhecida pela sua estada na CHASTAIN) foi convidada ao palco para dar ainda mais vigor com a sua presença exótica, ao passo de que Mayara mostrava uma vez mais seu vocal limpo e a multidão vibrava consideravelmente enquanto Leather tentava arrancar um Português.

Em HORROR AND TORTURE, além de MURDER OF A GOD antes dela, vimos oportunidades para René Simionato performar riffs frenéticos e impactantes enquanto se agita constantemente entre as dimensões do palco e nos pontos limítrofes do mesmo, ligando-se com a multidão ao redor.

Foi através de muito suor, trabalho e esforço que o TORTURE SQUAD chegou ao patamar que hoje possui erguido, e assistir um show com um nível assustadoramente exemplar de profissionalismo e de produção é razão para se ter gosto em ser um headbanger. Com a mesma certeza de que o Sol iria nascer após algumas horas, muitos chifres foram erguidos não como um procedimento qualquer, mas por um senso de orgulho.

Em atmosfera explosiva, assim foi finalizado o último ato com a clássica THE UNHOLY SPELL antes da chegada do último motivo para o rolê do dia, o que fez com que surgisse a dificuldade comum em se movimentar aos arredores da casa de shows, pois o limite de pessoas foi atingido.


Torture Squad – setlist:

Hell Is Coming

Flukeman

Buried Alive

Abduction Was The Case

Raise Your Horns

Murder of a God

Warrior (com a participação de Leather Leone)

Pull The Trigger

Horror And Torture

The Unholy Spell


NERVOSA

...E assim chegamos ao chamativo central da noite. Uma vez mais, as cortinas se mantinham fechadas para a produção de ânimo e animação generalizada entre todos ali presentes.

Desde a abertura dos portões até chegarmos aqui, mais de 6 horas haviam se passado do festival, e era fácil observar que a casa estava lotada para presenciar algo que logo provou ser um autêntico evento.

Ainda que com um atraso considerável, na marca precisa das 20:25, a escuridão completa tomou conta do local e o começo em playback da memorável SEED OF DEATH era a audição dominante, com a abertura das cortinas ocorrendo em ato contínuo. Tal abertura aconteceu com um barulho quase ensurdecedor por parte dos expectadores, ansiosos por verem a headliner desta comunhão do Metal.


- A PAZ ENVOLVENTE NUNCA FOI UMA OPÇÃO

A introdução sozinha de SEED OF DEATH pode significar uma miríade de coisas. Como o meme de internet da franquia Street Fighter "O Tema de Guile Combina Com Tudo", ela pode suplicar por um senso de empoderamento o qual as palavras falhariam em traduzir. Ou uma manifestação sonora de um renascimento das cinzas, como a ave mitológica Fênix, talvez? Este é um dos vários efeitos que a música causa no corpo humano, já que dificilmente é a mesma sensação em indivíduos diferentes.

Uma regra não escrita do universo é que a tranquilidade é sempre ameaçada pela tempestade. Com a abertura das cortinas pela última vez no dia, era possível ver Gabriela Abud lá atrás, recém-completando o seu 1º ano na NERVOSA e exalando o seu carisma quase imensurável, observando a todos por trás do seu kit. A grega Helena Kotina entrou no palco logo na sequência saudando a todos, e simultaneamente para a surpresa do povo, a holandesa Emmelie Herwegh surgiu para realizar as tarefas do baixo, substituindo Hel Pyre já no passado e aqui novamente.

Completando o quarteto, a guitarrista e fundadora Prika Amaral surge para elevar a euforia da multidão com um cumprimento que já se tornou a sua marca registrada.

Se lembra da tranquilidade ameaçada, dita agora há pouco? É exatamente o que acontece com o final da introdução da música mencionada acima, já que o Carioca Club estava na iminência de ser tomado de assalto.


- CUIDADO! OUVIR NERVOSA PEDALANDO O(A) FARÁ ULTRAPASSAR CARROS!

O esforço multinacional composto pela trindade Brasil, Grécia e Holanda se prontificou em estabelecer a tonalidade do que iria ser desvendado com a promessa do maior repertório até então executado pela NERVOSA; promessa esta que foi cumprida. Uma duração apropriada para o 1º show de celebração dos 15 anos de aniversário de um autêntico quarteto fantástico.

Para uma apresentação diferenciada, o repertório fez um passeio por todo o histórico da NERVOSA. Victim of Yourself, Agony, Downfall of Mankind, Perpetual Chaos, e naturalmente, o álbum mais recente: Jailbreak. Todos os álbuns da discografia estiveram presentes na incrível quantidade de 19 músicas apresentadas no total.

Por ser o mais recente, o alvo dos holofotes foi justamente Jailbreak (que inclusive, consta no nome da turnê de 15 anos), álbum composto durante um período muito peculiar em seu trajeto, cujo título pode ser descrito como um grito primal de liberdade.

Merece ser lembrado que, em entrevistas e coletivas de imprensa nos dias que antecederam o início dos shows em solo latino, o show de São Paulo em específico contaria com algumas surpresas únicas, o que desenhou um clima de especial logo para a 1ª data brasileira. Previamente revelado foi que o show da capital paulista seria filmado para a posteridade.

Quando BEHIND THE WALL sucedeu a abertura, certas características se tornaram um padrão: o senso de realização e alegria ao estarem ali presentes no solo do Carioca Club, porque a história não só da NERVOSA, mas do Metal nacional estava sendo feita naqueles minutos.


- AS HERDEIRAS DIRETAS DO LEGADO DO SEPULTURA

Lá no fundo, sempre animando a multidão com um alto astral capaz de rivalizar com o de um grupo de pessoas, Gabriela Abud (tendo substituído a búlgara Michaela Naydenova há pouco tempo) demonstra que a idade é um mero número, já que mesmo sendo muito nova, descarrega uma barricada de uma pessoa só ao "marretar" impiedosamente o seu kit com as linhas de bateria compostas pelas suas antecessoras (e com adicionais da própria em certas passagens, como na introdução do encerramento), comprovando que não deixa a desejar em afirmar domínio em seu instrumento.

Inicialmente introduzida como baixista em 2022 com os primeiros shows da NERVOSA após o período da pandemia que assolou os arredores do planeta, a grega Helena Kotina se mantinha em constante movimentação do palco nos intervalos de seus riffs e solos que puxavam a atenção a si devido ao vigor dos próprios, como um pré-requisito essencial, sempre no ponto de limite do palco e a pista central para agitar o local.

Uma face não desconhecida, só que pela 1ª vez em turnê no Brasil foi corporificada pela holandesa Emmelie Herwegh nas tarefas do baixo, que substituiu a grega Hel Pyre pela passagem na América Latina por questões de deveres maternais. Sua presença entra em sinergia com as demais pelo grande sorriso contínuo que não escondia ao estar compartilhando este ocorrido, trazendo a combustão emocional necessária aos presentes na casa.

Com mudanças na formação em rápida sucessão entre os dois últimos lançamentos, um chamativo para aqueles que não puderam acompanhar o SUMMER BREEZE BRASIL 2024 era o fato de presenciar os vocais apresentados pela líder Prika Amaral, quem tomou mais uma responsabilidade em suas mãos ao realizar esta tarefa enquanto performa riffs violentos no front, assim como as ocasionais tarefas de solo, como puderam ser vistas em KILL THE SILENCE e em VENOMOUS. 

Adicionalmente, em sinal de respeito, a própria mencionou a ausência de Hel Pyre e voluntariamente explicou que é pelo fato de ter que cuidar da sua filha em casa, como consideração pela membra ausente e praticando empatia por aqueles que colocam a família em primeiro lugar.

E felizmente, a aceitação de Emmelie pela nação headbanger brasileira como um todo foi, na prática, unânime.


- KINDER OVOS VÊM EM FORMATOS DIFERENTES

O repertório teve espaço para canções que já são "figurinhas carimbadas" e que definem o que a banda veio a ser. Um dos propósitos de DEATH! era deixar as pessoas mais tranquilas com as suas mudanças de tempo e para quem já acompanha a NERVOSA há anos. MASKED BETRAYER era esperada para aparecer em alguma hora, por se tornar tradição em suas apresentações, e com uma cantoria fácil de ser gravada.

A ótima PERPETUAL CHAOS (faixa-título do penúltimo álbum) traz um paradoxo: apesar de ter um ritmo menos rápido do que a maioria das que foram tocadas, ela serve como um testamento para quem tinha dúvidas quanto à qualidade com a mudança vocal. Por análise empírica, havia gente que não esperava o quão potente seria a gutural de Prika in loco, que dispensa o uso de qualquer modificação para alterar o seu efeito imponente.

Reza uma das leis da vida de que, por definição, surpresas são inesperadas. Pois bem: a 1ª delas foi a participação de Alex Camargo em UNGRATEFUL, que foi merecidamente recebido por uma recepção calorosa. Afinal, estamos falando de um veterano de um dos maiores expoentes da música extrema nacional: o grande KRISIUN. 

Era notável um certo desconforto do próprio: natural, pois ele geralmente performa com um instrumento em mãos, então vê-lo fora da sua zona de conforto foi, no mínimo, curioso. Isso não pareceu ser um problema para aqueles que estavam lá, que extraiam mais energia de seus corpos, os quais pareciam não ter.

URÂNIO EM NÓS possui um fato curioso: foi a escolha de Prika como um teste para ver se ela conseguiria tocar guitarra e realizar os deveres de canto simultaneamente. Num saldo geral, pudemos observar que sim, e a descrição desta, assim como a de outras como HOSTAGES, deu a impressão de que um flashback desde o nascimento até a chegada dos 15 anos estava sendo transmitido, contando o progresso da NERVOSA.

Eventualmente, era a hora da próxima surpresa: CULTURA DO ESTUPRO foi tocada pela 1ª vez ao vivo, contando com as presenças de Yasmin Amaral (ESKRÖTA) e de Mayara Puertas (TORTURE SQUAD) participando nos vocais, fazendo com que Prika tirasse por um tempo a sua guitarra e as acompanhassem com mais liberdade de movimentação. A presença delas não foi sem um propósito, já que as vocalistas usaram aquele instante como protesto de uma realidade que infelizmente assola todo o mundo, usando as suas vozes para demonstrarem indignação com este fenômeno.

Ver as três bangeando circularmente de forma uníssona foi um significado de arte pura.

Se aproximando do fim, o último "kinder ovo" da performance veio na forma de WAYFARER, que assim como a canção antecessora, também fora tocada pela 1ª vez nos palcos. O adendo veio com o fato dela ser cantada com a voz limpa de Prika, o que invocou muitos rostos maravilhados com esta diferença.

Apesar da fundadora ter lançado um teste à plateia ao realizar uma piada autodepreciativa questionando a sua capacidade em fazer isso em específico mais vezes, a onda sonora de entusiasmo recebida como resposta diz que sim, é uma boa ideia tal tentativa ser repetida mais vezes.

Uma apresentação de todas as membras veio na sequência, anunciando a aparição do final, embora o público não tenha demonstrado em nenhum instante que estava com as energias gastas, mesmo após mais de 7 horas de festival.


- LÁGRIMAS DE ALEGRIA NÃO SÃO SINAIS DE FRAQUEZA; SÃO UM TESTEMUNHO DE GRATIDÃO POR ESTAR VIVO

Quando se trata de violência sonora, a canção que iria encerrar esta verdadeira festa carrega esta característica desde a sua concepção. Fazendo uma ode ao gênero ao qual faz parte, e seguindo a tradição desde o lançamento mais recente, o final ficou por conta da majestosa ENDLESS AMBITION.

Sendo a última oportunidade de aproveitar o que provou ser mais do que um show comum, não foi nada incomum presenciar uma aglomeração maior no mosh no meio do Carioca Club e um headbanging mais visceral pelo grau de pancada que a canção detém. Por mais que a raça humana tenha o deleite em se autointitular como "evoluída", ENDLESS AMBITION é um lembrete amigável de que não estamos acima da agressão física (ainda que organizada).

Em oposição a um sussurro, o 1º Dark Dimensions Fest foi terminado com um imenso estouro, deixando a audiência animada o suficiente para um ovacionamento mais forte do que todos os que vieram antes deste, em êxtase por um concerto digno vindo de uma das principais embaixadoras da expressão cultural extrema brasileira que é a NERVOSA.

Ainda que mal pudessem sair do palco, e com um voo para a cidade de Recife num prazo apertado, deve ser mencionada a consideração pela audiência presente (que são os responsáveis pelo plateau que o conjunto se encontra no atual cenário) por parte de todas, mesmo que fosse um atendimento bem breve para parabenizar pela performance, uma foto de recordação ou a assinatura de algum item. Isso se manteve até o momento de fechamento da casa, até que a leva de pessoas fosse dissipada.

Desta forma, o aniversário da maior cidade da América Latina deu um recado de que o Metal Extremo está vivo e bem, e o Dark Dimensions Fest tem o potencial de se consolidar como um dos principais festivais de Metal de reconhecimento nacional, nutrindo o desejo de que o próximo tenha uma entrega de, pelo menos, no mesmo nível do que o da 1ª edição.


Texto: Bruno França

Fotos: Amanda Vasconcelos

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Dark Dimensions

Mídia Press: JZ Press


Nervosa – setlist:

Seed of Death

Behind The Wall

Death!

Nail The Coffin

Kill The Silence

Perpetual Chaos

Venomous

Ungrateful (com Alex Camargo, do Krisiun)

Masked Betrayer

Under Ruins

Hostages

Urânio Em Nós

Kill Or Die

Cultura do Estupro (com Yasmin Amaral e Mayara Puertas, da Eskröta e do Torture Squad, respectivamente)

Into Moshpit

Jailbreak

Wayfarer

Guided By Evil

Endless Ambition