Mostrando postagens com marcador Portugal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Portugal. Mostrar todas as postagens

domingo, 28 de junho de 2026

Soturno, Maduro e Baudelairiano: Moonspell Reconquista a Essência do Metal Gótico em Far From God


Por: Michelle Santana
Fotos: Divulgação 
Selo: Napalm Records

A banda portuguesa de Gothic/Dark Metal formada em 1992, consolidou sua carreira através de composições marcadas por temas como ocultismo, poesia, melancolia e erotismo, tornando-se uma das maiores referências do gênero. Agora, o grupo chega ao seu 14º álbum de estúdio, "Far From God".

Embora as comparações com Irreligious (1997) sejam inevitáveis, "Far From God" está longe de ser uma mera cópia daquele clássico. As semelhanças aparecem principalmente na melancolia que permeia a obra e em suas temáticas sombrias, mas a execução segue um caminho próprio, marcado por uma abordagem mais sóbria e madura. 

Ao mesmo tempo, o álbum resgata parte da sensibilidade romântica e decadente que remete à poesia de Charles Baudelaire, influência que se revela tanto nas letras quanto na construção emocional das canções.

Em vez de apostar em grandes arranjos ou momentos excessivamente dramáticos, o Moonspell constrói sua identidade através de uma instrumentação cuidadosamente equilibrada. 

As guitarras de Ricardo Amorim ocupam posição de destaque, explorando afinações mais baixas e linhas minimalistas que acrescentam peso sem comprometer a elegância característica da banda. Os solos surgem com forte influência do gothic rock clássico, funcionando como extensões naturais das melodias e contribuindo para a paisagem sonora contemplativa que atravessa o disco.

A influência oitentista é perceptível ao longo de toda a obra, especialmente na forma como as composições priorizam clima e emoção em vez de impacto imediato. Ainda existem os teclados de Pedro Paixão, que dá o elemento atmosférico, enriquecendo os arranjos, mas eles são utilizados com moderação, sempre a serviço das canções e nunca como protagonistas.

Fernando Ribeiro entrega uma de suas performances mais consistentes dos últimos anos. Seu vocal soa mais controlado e introspectivo do que em alguns momentos de Irreligious, privilegiando interpretação e nuance em vez de teatralidade. Essa abordagem combina perfeitamente com o caráter do álbum, reforçando a sensação de maturidade presente em cada faixa.

"Far From God" demonstra a capacidade do Moonspell de revisitar aspectos fundamentais de sua identidade sem se tornar refém deles. O resultado é um trabalho que conversa com uma das fases mais celebradas da banda, mas encontra vigor suficiente para caminhar com personalidade própria.

Entre os destaques do álbum, "Cross Your Heart" é provavelmente uma das faixas que mais abraça a proposta do rock gótico oitentista. Guitarras carregadas de texturas e efeitos modulados, aliadas a bateria de Hugo Ribeiro, que dão contorno à composição e reforçam sua identidade. 

A letra já estabelece seu tom melancólico logo nos versos iniciais — "Crosses and flowers by the side of the road" — conduzindo o ouvinte a uma paisagem fúnebre e contemplativa. Uma passagem falada acrescenta profundidade à música, enquanto seu ritmo envolvente e levemente dançante faz dela uma forte candidata a se tornar um dos pontos altos das apresentações ao vivo.

A faixa-título, "Far From God", surge de forma intimista, com vocais falados e quase sussurrados acompanhados por teclados que estabelecem uma ambiência sombria desde os primeiros instantes. Fernando Ribeiro adota uma interpretação sóbria e controlada, enquanto o baixo de Aires Pereira, é marcante e característico do gothic rock, assume papel de destaque na construção da música. 

Liricamente, a faixa introduz com maestria a forte influência de Charles Baudelaire que permeia a obra. A composição transborda o conceito do amor baudelairiano, onde o afeto caminha lado a lado com a decadência, a culpa existencial e um romantismo sombrio. O resultado é uma canção nostálgica, fortemente ancorada na poesia maldita e nos elementos tradicionais do gênero.

Já "The Great Wolf in the Sky" representa o ponto alto do álbum. A faixa se desenvolve sobre uma ambientação soturna e densa, na qual instrumentos e vocais trabalham em perfeita sintonia para sustentar a proposta emocional da composição. Os teclados desempenham papel fundamental na construção do clima da música, enquanto uma passagem com vocais mais rasgados adiciona intensidade sem recorrer à teatralidade que marcou alguns trabalhos anteriores da banda. O violino presente nos momentos finais amplia ainda mais a carga dramática da faixa, encerrando-a de forma memorável.

"For the Love of Mortals" é, possivelmente, a composição mais atmosférica do disco, mergulhando de cabeça no romantismo trágico que define o conceito lírico do trabalho. A interpretação vocal permanece contida e melancólica, mas aqui são as guitarras que roubam a cena. Os solos carregam grande parte do peso emocional da música, enquanto a bateria atua de forma precisa, preenchendo os espaços e tornando a experiência ainda mais envolvente.

A mais pesada das composições é "Our Freedom to Fall", faixa que também remete de forma mais evidente à era Irreligious. Alternando vocais limpos e passagens guturais, a música apresenta uma intensidade emocional muito bem expressa por Fernando Ribeiro. Sua performance confere personalidade à faixa e amplifica o impacto de seus momentos mais sombrios.

O encerramento do álbum fica a cargo da faixa "Reconquista", que inicia com vocais rasgados que transmitem a revolta e a carga emocional exigidas pela composição. A atmosfera é densa, intensa e carregada de tensão, enquanto uma passagem falada em português acrescenta identidade e autenticidade à música. 

Trata-se de um recurso recorrente na trajetória do Moonspell, reafirmando que a banda jamais abandonou suas raízes portuguesas. O próprio título parece sugerir uma dupla missão: a reconquista do território sagrado do metal gótico clássico e a reafirmação de sua própria soberania cultural e identidade lusitana.

Segundo os próprios integrantes, Far From God foi concebido com simplicidade musical, mas grande complexidade emocional. Fernando Ribeiro comentou sobre as dificuldades criativas enfrentadas durante o período da pandemia, e esse peso emocional parece ecoar em cada faixa do álbum. Ao mesmo tempo, o trabalho soa como um verdadeiro manifesto em defesa do metal gótico, reafirmando a relevância de um gênero que raramente ocupa posição de destaque no cenário contemporâneo.

O resultado é um álbum profundamente nostálgico, mas que evita a armadilha da mera repetição. Carregado de melancolia, romantismo, decadência e imagética vampírica, Far From God abandona boa parte das reflexões filosóficas e sociais presentes em Hermitage (2021) para mergulhar de cabeça na estética gótica que ajudou a consagrar o Moonspell. 

Sóbrio, soturno e emocionalmente denso, o disco encontra um equilíbrio admirável entre tradição e maturidade, oferecendo aos fãs do gênero uma obra que honra o passado sem deixar de possuir identidade própria.



********ENGLISH VERSION*********


Gloomy, Mature, and Baudelairean: Moonspell Reclaims the Essence of Gothic Metal on Far From God



By: Michelle Santana
Photos: Courtesy
Label: Napalm Records


Moonspell, the Portuguese  Gothic/Dark Metal band formed in 1992, established its career through compositions marked by themes such as occultism, poetry, melancholy, and eroticism, becoming one of the most influential acts in the genre. Now, the group arrives with its fourteenth studio album, "Far From God".

While comparisons to Irreligious (1997) are inevitable, Far From God is far from being a mere copy of that classic. The similarities lie mainly in the melancholy that permeates the record and its dark themes, but the execution follows its own path, marked by a more restrained and mature approach. 

At the same time, the album revives part of the romantic and decadent sensibility associated with the poetry of Charles Baudelaire, an influence that reveals itself both in the lyrics and in the emotional construction of the songs.

Rather than relying on grand arrangements or excessively dramatic moments, Moonspell builds its identity through carefully balanced instrumentation. Ricardo Amorim's guitars take center stage, exploring lower tunings and minimalist lines that add weight without compromising the band's characteristic elegance. The solos draw heavily from classic gothic rock, functioning as natural extensions of the melodies and contributing to the contemplative sonic landscape that runs throughout the album.

The influence of the 1980s is evident across the entire record, particularly in the way the compositions prioritize atmosphere and emotion over immediate impact. Pedro Paixão's keyboards continue to provide the album's atmospheric dimension, enriching the arrangements while being used with restraint, always serving the songs rather than dominating them.

Fernando Ribeiro delivers one of his most consistent performances in years. His vocals sound more controlled and introspective than in certain moments of Irreligious, favoring interpretation and nuance over theatricality. This approach perfectly complements the character of the album, reinforcing the sense of maturity present in every track.

"Far From God" demonstrates Moonspell's ability to revisit fundamental aspects of its identity without becoming trapped by them. The result is a work that engages with one of the band's most celebrated eras while possessing enough vitality to move forward with a distinct personality of its own.

Among the album's highlights, "Cross Your Heart" is probably one of the tracks that most fully embraces the spirit of 1980s gothic rock. Textured guitars layered with modulation effects, combined with Hugo Ribeiro's drumming, help shape the composition and reinforce its identity. 

The lyrics establish their melancholic tone immediately with the opening line, "Crosses and flowers by the side of the road," leading the listener into a funeral-like and contemplative landscape. A spoken-word passage adds depth to the song, while its engaging and subtly danceable rhythm makes it a strong contender to become one of the highlights of the band's live performances.

The title track, "Far From God," unfolds in an intimate manner, with spoken and nearly whispered vocals accompanied by keyboards that establish a dark atmosphere from the very beginning. Fernando Ribeiro adopts a restrained and controlled performance, while Aires Pereira's bass, prominent and deeply rooted in gothic rock tradition, plays a key role in shaping the song. 

Lyrically, the track masterfully introduces the strong influence of Charles Baudelaire that permeates the album. The composition overflows with the concept of Baudelairean love, where affection walks hand in hand with decadence, existential guilt, and dark romanticism. The result is a nostalgic song firmly anchored in cursed poetry and the traditional elements of the genre.

"The Great Wolf in the Sky" stands as the album's high point. The song develops through a gloomy and dense atmosphere in which instruments and vocals work in perfect harmony to sustain its emotional purpose. 

The keyboards play a fundamental role in shaping the song's mood, while a passage featuring harsher vocals adds intensity without resorting to the theatricality that characterized some of the band's earlier works. The violin that emerges toward the end amplifies the song's dramatic impact even further, bringing it to a memorable conclusion.

"For the Love of Mortals" is arguably the most atmospheric composition on the album, diving headfirst into the tragic romanticism that defines its lyrical concept. The vocal performance remains restrained and melancholic, but here it is the guitars that steal the spotlight. The solos carry much of the song's emotional weight, while the drumming acts with precision, filling the spaces and making the experience even more immersive.

The heaviest composition on the album is "Our Freedom to Fall," a track that also bears the strongest resemblance to the Irreligious era. Alternating between clean vocals and guttural passages, the song presents an emotional intensity masterfully expressed by Fernando Ribeiro. His performance gives the track its personality and amplifies the impact of its darkest moments.

The album closes with "Reconquista," which opens with harsh vocals that convey the anger and emotional charge demanded by the composition. The atmosphere is dense, intense, and filled with tension, while a spoken passage in Portuguese adds identity and authenticity to the track. 

It is a recurring element throughout Moonspell's career, reaffirming that the band has never abandoned its Portuguese roots. The title itself seems to suggest a dual mission: the reconquest of gothic metal's sacred territory and the reaffirmation of its own cultural sovereignty and Lusitanian identity.

According to the band members themselves, Far From God was conceived with musical simplicity but emotional complexity. Fernando Ribeiro has spoken about the creative difficulties the band faced during the pandemic years, and that emotional burden seems to echo throughout the album. At the same time, the record feels like a true manifesto in defense of gothic metal, reaffirming the relevance of a genre that rarely occupies a prominent place in today's musical landscape.

The result is a deeply nostalgic album that avoids the trap of mere repetition. Filled with melancholy, romanticism, decadence, and vampiric imagery, Far From God leaves behind much of the philosophical and social reflection found on Hermitage (2021) and dives headfirst into the gothic aesthetic that helped establish Moonspell's legacy.

Restrained, gloomy, and emotionally dense, the album achieves an admirable balance between tradition and maturity, offering fans of the genre a work that honors the past while maintaining a strong identity of its own.

Moonspell Site 
Napalm Records 
Primotion All Noir





quarta-feira, 17 de junho de 2026

Heavenwood: Um Recomeço e a Parte Final da Saga "Tarot of the Bohemians"

 


Por: Carlos "Caco" Garcia 
Fotos: Divulgação 
English Version Below

Antes de iniciarmos a falar deste novo álbum do Heavenwood, é bom fazer um breve histórico, para quem ainda não conhece a pioneira banda de Dark/Gothic Metal Portuguesa. O grupo , oriundo de Vila Nova de Gaia, iniciou atividades lá no início dos anos 90, ainda sob o nome Disgorged, lançando duas demos, trabalhos que chamaram a atenção da Massacre Records.

No selo alemão faz sua estreia em 1996, com o álbum “Diva”, e já rebatizados como Heavenwood (que foi tirado do título de uma música da primeira demo, “Judith Heavenwood”), pois o antigo nome já não parecia adequado à evolução sonora da banda, que estava mais sombrio e melódico. 

Com “Diva” (96), o Heavenwood rompeu fronteiras, e foi a primeira banda de Metal Portuguesa a ter material também distribuído no Japão. 

Com “Swallow” (98), Heavenwood expandiu ainda mais a sua sonoridade melódica e sombria, e também o seu nome no cenário mundial, se tornando a primeira banda lusitana de Metal a tocar no Wacken. Vale ressaltar que contaram como convidados no álbum, Kai Hansen e Liv Kristine.


Apesar de um, digamos, recuo nas atividades, principalmente turnês, o Heavenwood seguiu lançando álbuns os quais sempre buscavam novos desafios,  e tendo o desejo de fazer música e arte principalmente. 

Então vieram “Redemption” (2008) e o orquestral “Abyss Masterpiece” (2011), inspirado na obra da poetisa portuguesa Marquesa de Alorna, e em 2016 apresentou sua, provavelmente, obra mais ousada, a primeira parte de duas de “Tarot of the Bohemians”. 

Com a inspiração lírica nas palavras de Gérard Anaclet Vincent Encausse (13 de julho de 1865 – 25 de outubro de 1916), cujos pseudônimos esotéricos eram Papus e Tau Vincent, foi um médico, hipnotizador e popularizador do ocultismo francês, fundador da Ordem Martinista moderna, o Heavenwood entregou um trabalho instigante, coberto de camadas inspiradas tanto musicais, como liricamente falando, transportando o ouvinte por uma atmosfera densa, pesada, melódica e reflexiva.

Em 2022 o mentor e mente criativa do Heavenwood, Ricardo Dias, sofreu um acidente quase fatal, e essas lutas pessoais, aliadas a mudanças de formação, chegaram a colocar em dúvida a continuidade da banda, e por conseguinte, da conclusão da obra.

Mas felizmente, dez anos após sua primeira parte, “Tarot of the Bohemians Part II” , sexto álbum da banda, finalmente teve seu lançamento oficial no dia 12/06/2026, via Mighty Music.

São 10 músicas, as quais completam a obra que aborda os 22 arcanos maiores do tarô, e marcam também uma nova fase, com uma visão mais individual de Ricardo Dias, que a partir de 2024 iniciou a produção do álbum. 

Ricardo foi responsável por gravar todos os instrumentos, além dos seus vocais, com exceção da bateria, gravada por Eduardo Sinatra. A bela e misteriosa arte da capa foi concebida pela artista gráfica Naya Kotko.

Neste universo abordado, onde cada ouvinte certamente também terá sua própria interpretação e será tocado pela música e atmosfera de formas diferentes.

Tarot of the Bohemians Part II” inicia com “Death”, a carta que significa transformação, encerramento de ciclos e recomeço, se mostra perfeita para essa nova fase, com certeza tendo significado especial para Ricardo. Uma canção de andamento lento, guitarras carregadas de peso e vocais guturais, nos conduz a uma imersão recheada de melodias sombrias, por vezes desesperadoras e caóticas, atmosfera essa que permeia as primeiras 4 faixas do álbum.

Temperance”, a carta do equilíbrio e harmonia, traz uma atmosfera Gothic/Doom envolvente, com seu andamento sereno e belas melodias sombrias nas guitarras. Já “The Devil”, representante dos desejos materiais, inicia tempestuosa e com andamento mais veloz, com a bateria rápida, quebrada e orgânica. Mescla riff melodiosos e agressivos, que se completam com as camadas vocais, aqui com apoio de vozes femininas.

The Lightning Struck Tower”, a representação das mudanças repentinas e quebra de ilusões, também traz um ritmo mais frenético, iniciando com double-bass na bateria e o baixo pulsante, para em seguida serem acompanhadas por riffs urgentes e destacando a bateria intrincada. A faixa traz mudanças de atmosfera, com solos melodiosos, até finalizar com muito peso e agressividade.


Esperança, inspiração e fé no futuro, é o que representa a estrela no Tarô, e “Stars” envolve desde o início com suas melodias cativantes, andamento dinâmico e refrão marcante. Se destacam também os vocais femininos, em uma faixa de sonoridade predominantemente limpa e melodiosa, e com atmosfera mais leve.

“The Moon”, que nas cartas do tarô representa a intuição aguçada e o inconsciente, traz uma atmosfera semelhante à sua antecessora, porém ainda mais melodiosa, repleta de melodias cativantes e refrão memorável. A atmosfera Gothic Rock e o dueto de vocal feminino e masculino se destacam.

Vitalidade, sucesso e clareza, alguns dos elementos que a carta sol representa, e “The Sun” traz um manifesto em forma de uma balada Gothic/Metal, de vocais quase sussurrados de Ricardo, tendo no refrãos o contraponto de vocais femininos. De ritmo lento e envolvente, a canção é entrecortada por momentos límpidos e melodias cativantes da guitarra.

“The Judgement”, representação do despertar e auto perdão, surge em uma faixa que novamente o peso predomina, e nos faz transitar por caminhos sinuosos, embora alterne com alguns momentos mais melodiosos. Os vocais guturais se contrapõem com um coro de vozes de crianças no refrão. 

Um salto no desconhecido, um dos significados do “tolo” do tarô, e chegamos a ela,  “The Fool”, que inicia com violão acústico e a voz sussurrada e grave de Ricardo. A música traz elementos de Classic Rock ao Gothic/Metal melodioso que a permeia. 

As melodias ao violão vão entrecortando os riffs de guitarra, o refrão é marcante e provavelmente o mais melodioso do álbum, tendo novamente duetos de vozes masculinas e femininas. Destaque também para o uso de slide e solos que valorizam a simplicidade e melodias tocantes.

Fechando a obra, temos a bela e dinâmica “The World”, a carta que significa realização e conclusão de ciclos. Inicia intensa, como recomeços, e traz peso, melodia e uma atmosfera revitalizadora. 

Com seu andamento mais acelerado, destaca novamente o excelente trabalho da bateria. As melodias no refrão se insinuam ao mesmo tempo suavemente melancólicas e cativantes, onde mais uma vez a voz grave e introspectiva de Ricardo faz contraponto com vocais femininos. 

Um belo “grand finale”, onde o refrão ficará ecoando na sua mente: "...I'll be There, Sooner or Later".


Fazer música enquanto questão artística, essa frase ecoou na minha mente, e a uso novamente para encerrar esta matéria, pois condiz muito bem com a história do Heavenwood e de Ricardo Dias, que, felizmente, entrega mais um grande álbum, uma viagem Dark/Gothic Metal carregada de emoções e musicalmente intensa e variada, trazendo aquela aura anos 90 dos melhores momentos do estilo, porém renovada.

Com certeza um trabalho muito significativo para Ricardo, face a todos os acontecimentos que antecederam a criação e finalização da saga iniciada uma década atrás. 

E agora, o que reserva o futuro para os Heavenwood? Talvez as cartas tenham a resposta.





***********ENGLISH VERSION************

Heavenwood: A New Beginning and the Final Part of the "Tarot of the Bohemians" Saga


Before we begin discussing this new Heavenwood album, it's good to give a brief history for those unfamiliar with the band. The Portuguese group began its activities in the early 90s, still under the name Disgorged, releasing two demos, works that caught the attention of Massacre Records.


They made their debut on the German label in 1996 with the album "Diva," already renamed Heavenwood (taken from the title of a song from their first demo, "Judith Heavenwood"), as the old name no longer seemed adequate to the band's sonic evolution, which was becoming darker and more melodic.

With "Diva" (96), Heavenwood broke boundaries and became the first Portuguese Metal band to have material distributed in Japan as well.

With "Swallow" (98), Heavenwood further expanded its melodic and dark sound, and also its name on the world stage, becoming the first Portuguese Metal band to play at Wacken. It's worth nothing that Kai Hansen and Liv Kristine were featured as guests on the album.

Despite a, let's say, slowdown in activities, mainly touring, Heavenwood continued releasing albums that always sought new challenges and had the desire to make music and art above all. Then came "Redemption" (2008) and the orchestral "Abyss Masterpiece" (2011), inspired by the work of the Portuguese poet Marquesa de Alorna, and in 2016 they presented what is probably their most daring work, the first of two parts of "Tarot of the Bohemians".

Inspired lyrically by the words of Gérard Anaclet Vincent Encausse (July 13, 1865 – October 25, 1916), whose esoteric pseudonyms were Papus and Tau Vincent, a French physician, hypnotist, and popularizer of occultism, and founder of the modern Martinist Order, Heavenwood delivered a thought-provoking work, covered in inspired layers both musically and lyrically, transporting the listener through a dense, heavy, melodic, and reflective atmosphere.

In 2022, Heavenwood's mentor and creative mind, Ricardo Dias, suffered a near-fatal accident, and these personal struggles, coupled with lineup changes, cast doubt on the band's continuity and, consequently, the completion of the work.

But thankfully, ten years after its first part, "Tarot of the Bohemians Part II" finally had its official release on June 12, 2026, via Mighty Music.

These are 10 songs, which complete the work that addresses the 22 major arcana of the tarot, and also mark a new phase, with a more individual vision from Ricardo Dias, who began producing the album in 2024.

Ricardo Dias

Ricardo was responsible for recording all the instruments, in addition to his vocals, except for the drums, recorded by Eduardo Sinatra. The beautiful and mysterious cover art was conceived by graphic artist Naya Kotko.

In this explored universe, each listener will certainly have their own interpretation and will be touched by the music and atmosphere in different ways.

Tarot of the Bohemians Part II” begins with “Death,” the card that signifies transformation, the closing of cycles and a new beginning, proving perfect for this new phase, certainly having special meaning for Ricardo. A slow-paced song, with heavy guitars and guttural vocals, leads us to an immersion filled with dark, sometimes desperate and chaotic melodies, an atmosphere that permeates the first 4 tracks of the album.

"Temperance," the card of balance and harmony, brings an immersive Gothic/Doom atmosphere, with its serene tempo and beautiful, dark guitar melodies. "The Devil," representing material desires, begins tempestuously and with a faster tempo, featuring fast, broken, and organic drumming. It blends melodic and aggressive riffs, complemented by vocal layers, here with the support of female voices.

"The Lightning Struck Tower," representing sudden changes and the shattering of illusions, also has a more frenetic rhythm, starting with double-bass drumming and a pulsating bass line, followed by urgent riffs and highlighting the intricate drumming. The track features changes in atmosphere, with melodic solos, before ending with great weight and aggression.

Hope, inspiration, and faith in the future are what the star in the Tarot represents, and "Stars" captivates from the start with its catchy melodies, dynamic tempo, and memorable chorus. The female vocals also stand out, in a track with a predominantly clean and melodious sound, and a lighter atmosphere.

“The Moon”, which in tarot cards represents keen intuition and the unconscious, has a similar atmosphere to its predecessor, but even more melodious, full of captivating melodies and a memorable chorus. The Gothic Rock atmosphere and the duet of female and male vocals stand out.

Vitality, success and clarity, some of the elements that the Sun card represents, and “The Sun” brings a manifesto in the form of a Gothic/Metal ballad, with Ricardo's almost whispered vocals, having the female vocals as a counterpoint in the choruses. [The text abruptly ends here, so the rhythm is incomplete.]

Slow and captivating, the song is interspersed with clear moments and engaging guitar melodies.

“The Judgement,” representing awakening and self-forgiveness, emerges in a track where heaviness again predominates, taking us on a winding journey, although alternating with some more melodic moments. The guttural vocals contrast with a chorus of children's voices in the refrain.

A leap into the unknown, one of the meanings of the “fool” in the tarot, and “The Fool” begins with acoustic guitar and Ricardo's whispered, hoarse voice. The music brings elements of Classic Rock to the melodic Gothic/Metal that permeates it. The acoustic guitar melodies interweave the guitar riffs, the chorus is striking and probably the most melodic on the album, again featuring duets of male and female voices. Also noteworthy is the use of slide guitar and solos that emphasize simplicity and touching melodies.

Closing the album, we have the beautiful and dynamic “The World,” the card that signifies fulfillment and the completion of cycles. It begins intensely, like a new beginning, and brings weight, melody, and a revitalizing atmosphere.

With its faster tempo, it once again highlights the excellent work of the drums. The melodies in the chorus are simultaneously subtly melancholic and captivating, where once again Ricardo's deep and introspective voice contrasts with female vocals. A beautiful “grand finale.”

Making music as an artistic endeavor—this phrase echoed in my mind, and I use it again to conclude this article, as it fits very well with the story of Heavenwood and Ricardo Dias, who, thankfully, delivers another great album of Dark/Gothic Metal, bringing back that 90s aura from the best moments of the style, but renewed 
,full of emotions and musically intense,  and certainly very significant for him, considering all the events that preceded the creation and completion of the final part of the saga that began a decade ago.

And now, what does the future hold for Heavenwood? Perhaps the cards have the answer.





sábado, 1 de abril de 2023

Entrevista - Fernando Ribeiro (Moonspell)

 


O maior expoente do Metal de Portugal, o Moonspell, completa 30 anos de carreira. A banda desde seu início mostrou que iria surpreender a cada álbum, buscando sempre novos desafios, e passo a passo foi conquistando fãs pelos continentes. (English Version Clic Here)

A banda está já em uma tour para comemorar esses 30 anos, passando pela América Latina, inclusive Brasil, tendo uma data em terras gaúchas no dia 07/04, onde apresentará músicas de destaque de sua carreira, e dos dois últimos e elogiados álbuns, "1755" e "Hermitage". 

Aproveitamos a ocasião para conversar com o icônico vocalista Fernando Ribeiro, que com seu habitual cavalheirismo nos concedeu a entrevista que vocês conferem a seguir.



RtM: "Hermitage" já pode ser considerado um marco para a carreira da banda, e creio que vocês também acreditam nisso, pois realizaram essa ousada Ideia de tocar o álbum na íntegra, e ainda na gruta Mira D'aire.
Fernando Ribeiro: Obrigado! Acima de tudo, o Hermitage será sempre um disco especial, devido ao contexto em que foi gravado e lançado, e a uma certa “confirmação” de várias coisas que constituem o conceito literário do disco.


RtM: Fale um pouco mais sobre como surgiu essa incrível ideia de fazer esse concerto e a escolha do local.
FR: Como sabíamos que este disco, devido à pandemia, não iria ser apoiado por uma turnê de promoção, decidimos, desde logo, documentá-lo ao vivo, completo e na íntegra para que assim se fizesse alguma justiça ao disco.

As Grutas de Mira D’Aire, são um “monumento” natural que faz parte do imaginário dos Portugueses. Durante a pandemia, tornei a visitar o sítio com o meu filho e sobrinha e, como que juntei os pontos.

O cenário natural e a iluminação, parecia uma obra geológica de Bosch ou Caravaggio e achei uma ótima ideia levar ali música sobre eremitas... Primeiro, fizemos sessão de fotos, depois o vídeo para o Common Prayers e finalmente o evento ao vivo.


 
RtM: E como foi a preparação na questão de, primeiramente conseguir autorização para realizar o show na Mira D'aire? pois acredito que devem haver vários cuidados e restrições. E, claro, teve a preparação e cuidados para captação de som, a acústica, a captação  de imagens, tudo deve ter sido uma experiência bem diferente.
FR: Sim. Teve de ser um silent event, isto é, as pessoas escutavam os Moonspell através de headphones, com uma mistura sonora especialmente preparada para os fãs.

Depois, havia as questões das autorizações (Portugal é muito burocrático), eletricidade, problemas de claustrofobia do público, testes de covid, máscaras sociais, e todo o aparato de luzes e som que teve de ser pensado ao menor detalhe porque era um espaço pequeno, diferente e limitado.  
 

RtM: O Moonspell jamais se permitiu estagnar ou se limitar musicalmente, e "Hermitage" surpreende depois do maravilhoso e complexo  "1755", trazendo uma sonoridade mais progressiva, por vezes mais limpa e soturna. Comente a respeito do que inspirou a temática das letras e a sonoridade de "Hermitage".
FR: Não sei se é inquietude ou simplesmente o fato de que nunca estamos verdadeiramente satisfeitos com o que fazemos, pelo menos eu, nunca estou. No caso do Hermitage, a sonoridade foi inspirada pelo progressivo que tem sido uma influência muita clara ao Metal e ao Moonspell, especialmente, desde discos como o "Wildhoney" do Tiamat.

No meu caso eu recebi uma sacola do meu tio com TODA a discografia do Pink Floyd dos anos 70 e isso acabou por me influenciar também.

O conceito literário prende-se com a solidão à qual o mundo está voltado, a falta de comunicação e empatia entre as pessoas, que leva muita gente a isolar-se do mundo por razões diversas dos santos clássicos eremitas, e nesse contraponto se fez o disco.
Falava-se de distanciamento social, mas sem ser decretado por lei ou por emergência sanitária.
Somos como que eremitas de nós mesmos e uns dos outros.



RtM: Ainda sobre a sonoridade de "Hermitage", eu senti bastante influência do progressivo dos anos 70, inclusive depois com o lançamento do "From Down Below",  lembrei também que o Pink Floyd fez um show em Wembley no ano seguinte ao lançamento do "Dark Side of The Moon", tocando o disco na íntegra. Gostaria que você comentasse a respeito da influência desses clássicos e citasse alguns de seus favoritos. 
FR: Bem, como me referi antes, herdei toda a discografia do Pink Floyd em vinil! Escutei muito coisas como Relics, adoro o tema Set the Control to the Heart of the Sun, mas também Piper at the Gates of Dawn e claro o "Dark Side of the Moon" que é uma obra-mestra.

Também gosto muito de Emerson Lake e Palmer, por exemplo, ou post rock como Apse, A Perfect Circle ou coisas mais metaleiras como Katatonia que fazem grande música.

 
RtM: "Hermitage" também apresenta o novo baterista Hugo Ribeiro.  E referente a Hugo, como foi o contato e adaptação dele até o momento, e o que ele trouxe de novo para acrescentar à sonoridade da banda?
FR: O Hugo é o baterista mais talentoso e completo que já tocou na banda e podemos evoluir muito na complexidade das partes rítmicas e essa segurança nos permitiu ter mais imaginação e ir mais longe. Penso que o Hugo ainda tem muito para dar ao Moonspell e apenas está começando! E creio que começou com o pé direito, já que a sua performance no Hermitage é excelente.
 

RtM: Mike Gaspar acabou deixando a banda depois de todos esses anos. Como foi lidar com esse processo de mudança? Claro, entendemos que mudanças fazem parte, mas quando envolve um membro original, pode ser um pouco mais difícil. 
FR: Muito difícil. Pessoalmente, o Mike era não só o baterista de Moonspell, mas também o meu melhor amigo e cheguei a equacionar não continuar sem ele. Foi das decisões mais duras da minha vida, mas tínhamos, de fato, chegado a um ponto que não podíamos resolver. Desejo toda a sorte ao Mike e aos Seventh Storm, a sua nova banda, criada à sua imagem.

RtM: Sobre o "1755", considero não só um marco para o Metal mundial, mas um trabalho complexo, rico em história e com um clima único. Cheio de nuances épicas e instigantes. Levando a emoção a picos altíssimos. Gostaria que se possível comentassem sobre a importância e ideia criativa para um álbum tão poderoso e instigante.
FR: Foi uma coisa do momento, embora as ideias radiquem no meu passado de estudante. O disco nasce também da ausência de uma obra musical que contemplasse esse evento e todas as suas consequências sociais, políticas, artísticas e filosóficas.

Expliquei o conceito aos meus parceiros e eles entenderam logo que o som teria de ser grande e épico, quase sinfónico, e que teria de ser cantado integralmente em Português. (N. do R.: O disco conta a história do terremoto, seguido por um tsunami, que devastou Lisboa no primeiro dia de novembro do ano de 1755.)

Para nós foi muito importante, pois juntou duas paixões do Moonspell: História de Portugal e Heavy Metal. E queremos muito fazer outro disco em Português, assim que se encontre um tema.
 

RtM: Como artistas e banda consolidada, creio que desde o início vocês buscaram trazer algo inovador, se desafiar e ainda sentirem o compromisso de trazer mensagens e ideias para fazerem o seu público refletir, interpretar, instigando a curiosidade. Gostaria que vocês comentassem a respeito, e se vocês entendem que todo artista, tem que ter esse dever e também o cuidado de levar uma mensagem aos seus fãs, pois é um potencial formador de opinião. 
FR: Cada artista faz o que quer e não há que haver julgamento. Existem diversos caminhos que se podem percorrer e para mim, não vejo porque um caminho deva ser mais legítimo que outro. Se quiser citar Feuerbach ou apresentar um pato de borracha gigante no palco, a nossa missão é entreter.

Hoje em dia com toda cisão, crise e depressão que existe, um músico que consiga com que a pessoa esteja a pensar noutra coisa e focada no show e não nos problemas que tem, é um ato de imensa generosidade e empatia.

Pessoalmente, gosto da parte poética, filosófica e intelectual do Metal. Gosto de saber que o tema de Maiden "The Evil that men Do" é uma citação shakespeariana. E sigo esse caminho. Mas se outro músico quiser colocar o público fingir que está num barco viking, remando, quem sou eu para dizer que deve ser do meu modo e não do dele? Há espaço para tudo e para todos.

 

RtM: A discografia do Moonspell se mostra muito forte e diversificada. Pois a cada lançamento temos os elementos característicos, porém, com sínteses diferentes. Você escuta, sabe que é o Moonspell, mas de uma maneira renovada e diferente. Como é o processo criativo de um modo geral da banda?
FR: Somos uma banda de zeitgeist, i.e., o que está acontecendo no mundo, nas nossa vidas, o que entra ou é recuperado nas nossas biblioteca e discotecas e pela insatisfação com o que fazemos e o entusiasmo em descobrir novas melodias e, quem sabe, adicionar novos temas do Moonspell ao quotidiano das pessoas. Se tivéssemos parado nos primeiros discos, ou repetido as fórmulas, não teríamos dado ao mundo temas como Nocturna, Scorpion Flower, Breathe ou todo o 1755.
 

RtM: Vocês recentemente tiveram que cancelar a turnê europeia pela crise financeira que alguns países vêm passando. No Brasil e América do Sul em geral, não seria tão diferente, pois as crises chegam, os governantes negligenciam e o povo paga o preço infelizmente. Na visão de vocês que já rodaram o mundo, o que poderia ser feito para conter essas crises em massa que acontecem?

FR: A turnê Europeia foi realizada. A turnê dos EUA foi cancelada por falta de transporte e a do Reino Unido não vendeu bilhetes suficientes em Londres, o que foi bizarro, pois Londres sempre foi uma das cidades mais importantes para Moonspell. O que pode ser feito? Absolutamente nada. 


Temos apenas de contar com a generosidade dos fãs e depender da profundidade do seu amor pela música, e, no nosso caso para que decidam gastar o seu duramente ganho dinheiro e viver uma experiência com o Moonspell. O mundo escolheu o capitalismo e o liberalismo, sem regras, não há equilíbrio, nem base para que se experimente regular, por isso a carga será sempre em cima dos fãs e das bandas e de quem ainda investe neste tipo de negócio com pessoas, em vez de números ou algoritmos.


No nosso caso, os Moonspell optaram por baixar condições, cachês/pagamentos à banda,produção, preços de merch, para que consigamos ainda tocar para os nossos fãs. Estamos sempre a trabalhar para lhes dar o melhor.


RtM: Obrigado pelo seu tempo e por nos responder esta entrevista, que a tour pela América Latina seja muito bem sucedida, estaremos lá no Opinião em Porto Alegre, se assim o universo quiser. E para finalizar poderia nos adiantar alguma coisa do que os fãs podem esperar do próximo álbum?

FR: Muito grato pela oportunidade. E pelos votos! Vemos-nos em Porto Alegre para uma grande noite, sob o feitiço.


Iremos trabalhar num novo disco, sem pressas, algo mais simples, menos prog, regresso às canções mais emblemáticas, algo mais inteligível à primeira escuta e com o conceito à volta do poder dos livros e das palavras. Sairá em 2024, ou, no pior dos casos, em 2025.


Entrevista por: Carlos Garcia e Renato Sanson

Agradecimentos: Erick Tedesco - Tedesco Mídia

IDL Entertainment


Moonspell.com











segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Barros: Hard/AOR de Técnica e Bom Gosto




O experiente guitarrista português Paulo Barros, conhecido por seu trabalho com o Tarantula (uma das mais tradicionais bandas do Metal português, fundada em 1981 em Porto), lança, com seu novo projeto, intitulado "Barros", o álbum "More Humanity Please", via RockShots Records, e traz aqui Hard Rock e AOR, mesclando as influências tradicionais à nuances mais modernas, numa sonoridade cativante e de refinada técnica.

Recrutou ao seu redor um time de músicos muito competente, destacando o vocalista Ray Van D, que possui um vocal perfeito para o estilo. Barros contou também com a produção de Harry Hess, do Harem Scarem.

O Hard Rock clássico nos riffs e levadas, e casa muito bem com pitadas mais modernas e os licks e solos de melodia e técnica de Barros na ótima, e com jeitão de hit, "My Everything", que abre o álbum; "Disconnected" tem uma levada com muito groove e destaca as linhas pulsantes do baixo de Vera Sá, que aliás, aparece com destaque durante o álbum. Traz um tema bem atual, falando sobre o tempo que as pessoas passam envolvidas em frente à uma tela;"Kingdom for a Day", tem riffs mais encorpados e boas variações;


"Take Me as I Am" tem arranjos e levada moderados e suaves. Teclados dão um colorido a mais nesta melodiosa canção. Quase impossível não ter uma balada em um álbum de Hard Rock, e "Tearing Us Apart" traz arranjos acústicos e orquestrais, destacando o belíssimo solo melódico e cheio de técnica de Paulo Barros.

"When it Rain It Pours"é um Hard com muita técnica, melodia e groove, me lembrando algo de Mr. Big. Barros mais uma vez dá um show de técnica, aliada às melodias cativantes e de bom gosto; na sequência temos mais um momento "Power-Ballad", com "Live Before We Die", a qual tem algumas batidas eletrônicas, destacando novamente o baixo técnico e pulsante de Vera Sá. As melodias seguem um caminho simples, mas agradável; em a "A Love That Shines" o Hard Rock vigoroso retorna, destacando os ótimos vocais de Ray e os riffs carregados de punch.


A faixa título, "More Humanity Please" é uma música carregada de emoção, com trechos mais melodiosos e acústicos, crescendo no refrão. As belas e cativantes melodias, os grandes vocais e o trabalho irrepreensível das guitarras, mesclando peso, melodia e técnica, fazem dela o grande destaque, justificando ser a faixa título; a acelerada e vibrante "How does it Feel" fecha o álbum.

Um belo trabalho deste grande guitarrista, não tendo a pretensão de inventar algo novo, somente trazer Hard Rock agradável de ouvir, com canções apresentando técnica, feeling e bom gosto.
Texto: Carlos Garcia

Rockshots Records
Paulo Barros Site

Line-up
Paulo Barros – guitar
Ray Van D – vocals
Pico Moreira – drums
Vera Sà – bass

Tracklist

01. My Everything
02. Disconnect
03. Kingdom For A Day
04. Take Me As I Am
05. Tearing Us Apart
06. When It rains It pours
07. Live Before We Die
08. A Love That Shines
09. More Humanity Please
10. How Does It Feel



       

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Cobertura de Show - Moonspell: Lua de Sangue em São Leopoldo! (27/09/15 - Sociedade Orpheu - São Leopoldo/RS)


A primeira:

Estratégica e sublime, fortificada de infame veludilho, roxa, espancada e íntima...”. *

Noite de 27 de setembro de 2015, um domingo que encerrou um ciclo chuvoso, mofado e úmido que banhou a região. As condições ainda não eram totalmente favoráveis e o tempo ainda não havia proporcionado uma boa receptividade para o grande fenômeno que estava para acontecer. No céu era anunciada uma super Lua, alinhado a um eclipse lunar que traria coloração vermelha à Lua: Lua de Sangue. Justamente logo na mesma noite em que o Moonspell se apresentou em São Leopoldo, coincidência pura (será mesmo?).

Enquanto a Spleenful (banda que abriu o espetáculo) se posicionava ao palco e acertava os últimos detalhes, o frontman da Moonspell recebeu cuidadosa e educadamente boa parte do público que adquiriu o seu livro de poesias chamado: “Purgatorial”. Trocou rápidas palavras, autografou o livro (e algumas capas de CD) e tirou fotos. Foi algo bem rápido mesmo, o tempo era curto e a banda de abertura estava prestes a começar a qualquer momento. Mas o que impressionou desde o começo, foi à simpatia e a educação com a qual, Fernando Ribeiro recebeu os fãs que conseguiram ser atendidos antes do show.


Tudo acertado no salão principal da Sociedade Orpheu e a noite tinha que começar, havia uma pequena multidão sedenta pelas negras invocações sonoras. O ritual profano teve início através das melodias da banda porto-alegrense Spleenful. Abrir a noite para um show internacional não é uma tarefa muito fácil, e essa dificuldade potencializa ao máximo, quando a banda de abertura, é fã da banda principal. Mas a Spleenful pisou firme no palco, e pra não deixar dúvidas disso, abriu a noite com “Burleske Liebesträum”. Rápida e precisa no começo, logo após alguns minutos, se transforma em compassada e apaixonante execução. Há antíteses entre os vocais, e ela compõe a perfeição dos opositores: o bom e o ruim, o alto e o baixo, a terra e o ar... Céu e inferno! 


A Spleenful não ousou em um set numeroso, mas conquistou cada segundo que lhe valeu, um dos pontos altos aconteceu durante “Absinthe Love Affairs”, momento em que Aline Mallmann (Tribal Fusion Bellydance) subiu ao palco e embriagou o público em um sedutor e suave bailar. De fato, a apresentação da Spleenful superou as expectativas e deixou bem claro a razão de ter sido convidada para abrir o show do Moonspell. Sonoridade coesa e equilibrada a banda consolidou uma apresentação impecável e nos trouxe músicas com uma presença maior do que a representam no disco. Tiago Alano emplacou a noite e mostrou ao público que faz jus ao posto, sem utilizar pedal para o vocal e nem distorção (um reverb leve na mesa de som, e mais nada), vociferou seu gutural fraseado. Ainda como um presente ao estilo “première session” para os que estiveram no Orpheu domingo, a banda trouxe duas músicas ainda não lançadas: “Noir” e “Winter Solstice Dream”.


Durante a apresentação, a Spleenful aproveitou para coletar material de vídeo, que irá compor o próximo clipe da banda, Parabéns!

Spleenful:
Tiago Alano - Vocals
Bia Giovanella - Vocals
Desmond Quevedo – Guitars
Elias Mendes – Guitars
Carlos Ricardo – Bass
Everton Soares Manso – Keyboard
Daniel Vilanova – Drums

Setlist:
01 – Burleske Liebesträum + Bittersweet
02 – Noir
03 – Absinthe Love Affairs
04 – Winter Solstice Dream

Quem souber falar em silêncio, Andar sem deixar rastros, Viver nos intervalos da chuva...
...Sabe que pode chegar aqui e ser bem recebido” *


Após um rápido Setup de palco, é chegada a hora da atração principal. A intro de “La Baphomette” irrompe o silencio da Sociedade Orpheu, ao primeiro batucar da música, o som fez parecer que o peito iria rachar ao meio. Mike Garcia foi o primeiro a pisar o palco e posicionado à bateria, lançou o olhar aos demais como se estivesse falando em pensamento:

 - “Tudo pronto podem vir!

Um a um os integrantes da banda foram assumindo seus lugares, Fernando Ribeiro foi o último a escalar os três degraus até o palco. Como de costume, vestia seu casaco negro e no rosto usava um semblante infernal, como se fosse um vampiro que habita um castelo do vale do D’ouro. Hora do show!


Respire (fundo) e expire... Chega “Breathe (Until We Are No More)” para dar início ao banquete sonoro. Todo o carinho e educação que foi vista durante o autógrafo dos livros, antes do show começar, foi continuado enquanto a banda estava no palco. A terceira execução da noite, já foi um convite ao clássico, do “Memorial” (2006) veio “Finisterra”. O que parece ser “Neologismo” na realidade tem explicação na idade média, tempo em que se pensava que Portugal era o “fim da terra” (e era mesmo! Época em que a geografia só conhecia a Europa). Com pescoço “formigando” chega “Nigth Eternal”, pra validar o início da contusão. Algumas noites antes (tarde, para falar a verdade), o Moonspell havia se apresentado no Rio de Janeiro, palco do Rock in Rio, certamente perceberam um público de encher os olhos. Mas duvido extremamente que tenha enchido o coração da banda, como aconteceu em São Leo (São Hell, como disse o próprio Fernando). Em lusitanas frases o vocalista deixou nítido o quanto estavam felizes com o retorno que estavam recebendo dos fãs, o quanto é bom tocar para um público que sabe exatamente o que está acontecendo no palco e, principalmente, como é bom tocar no Rio Grande do Sul! Imaginava-se que o álbum “Extinct” (2015) seria mais favorecido nessa noite, mas a verdade foi outra. Os álbuns mais visitados durante a noite foram o “Irreligious” (1996) e o “Wolfheart” (1995). Clássicos certamente muito esperados na apresentação, claro que o trabalho novo figurou no set, mas foi uma aparição bem controlada.


Alegria de uns, muita alegria para a maioria! Mesmo neste instante percebemos que a banda teve essa preocupação e saciar essa "sede" dos fãs. E se caso fossem questionados, os fãs ainda diriam que faltou muita coisa no set (provavelmente faltou mesmo), pois o histórico, tradicionalismo e repertório da banda, renderiam um show de 3 horas, tranquilamente (já pensou um show de aniversário do “Wolfheart”, tocado na integra?).  Aconteceram algumas surpresas muito agradáveis durante a noite, uma delas foi o surgimento da “Scorpion Flower” passeando pelo set. Mesmo sem o acompanhamento da Anneke van Giersbergen, a versão foi matadora. Outra foi a presença da inesperada “An Eurotic Alchemy”, teclado marcante em sua intro e groovada da metade em diante, momentos em que Aires Pereira (se) fez perceber o poderoso baixo. E como outro momento de surpresa, mais próximo do final do show o vocalista da banda veste a camiseta do Clube Esportivo Aimoré, que alguém alcançou para o Fernando. Fantástico, te cuida Cerâmica Futebol Clube! 


Antes de fechar a noite, Fernando desceu do palco e passeou entre o palco e o público e apertou mãos, ganhou (e distribuiu) curtos abraços e jorrou simpatia. Para encerrar os encantos da noite, a trinca matadora que veio para inflamar a apresentação: “Ataegina” (com direito a dança folk no palco), “An Eurotic Alchemy” e “Alma Mater”. Ainda na volta do encore rolou “Everything Invaded” e “Full Moon Madness” para não deixar pedra sobre pedra.

Pontos especiais que merecem ressalte: A iluminação quase apresentou um show à parte, não fosse a absurda sincronia com o show e o som que esteve em um volume bem desejável (+ou- 110 db na “Finisterra”) e não “embolou” em nada as músicas. Parabéns a todos envolvidos entre produção, promoção e técnica do show, certamente os fãs tiveram uma noite e tanto. Após o show, havia um ônibus disponível para os fãs que precisassem deslocamento até Porto Alegre, totalmente grátis!


Aguardamos uma nova chance de poder presenciar esse momento mágico, mais uma vez. E lembrem-se: “You’re all welcome under the moonspell!”.


Cobertura por: Uillian Vargas
Fotos: Diogo Nunes
Revisão/edição: Renato Sanson


Moonspell:
Fernando Ribeiro - Vocal
Ricardo Amorim - Guitar
Pedro Paixão – Keyboard, Sampler, guitar
Aires Pereira - Bass
Mike Gaspar – Drums

Setlist:
Breathe (Until We Are No More) (Extinct)
Extinct (Extinct)
Finisterra (Memorial)
Night Eternal (Night Eternal)
Opium (Irreligious)
Awake! (Irreligious)
The Last of Us (Extinct)
Raven Claws (Irreligious)
Scorpion Flower (Night Eternal)
Em Nome do Medo (Alpha Noir)
Vampiria (Wolfheart)
Mephisto (Irreligious)
Ataegina (Wolfheart)
An Eurotic Alchemy (Wolfheart)
Alma Mater (Wolfheart)
Everything Invaded (The Antidote)
Full Moon Madness (Irreligious)

*Trechos de poesias retiradas do livro “Purgatorial”.

O que: Show da Banda Moonspell – Road To Extinction Brazil
Local: Sociedade Orpheu – São Leopoldo/RS
Data: 27/09/2015