O dia 21 de dezembro de 2025 marcou o ponto final de uma jornada de 40 anos, um adeus grandioso e emocionante da banda Golpe de Estado. Intitulado de forma poética e impactante como “O Último Golpe”, o evento reuniu fãs de todas as gerações, amigos, ex-integrantes e uma constelação de convidados para celebrar o legado de uma das maiores referências do hard rock brasileiro. Quase três horas de pura energia, nostalgia e gratidão marcaram uma despedida digna da história que a banda construiu.
O Golpe de Estado surgiu em meados dos anos 1980, em São Paulo, estabelecendo-se rapidamente como um dos pilares do hard rock e do heavy metal brasileiro. Sua formação clássica, que eternizou discos como Golpe de Estado (1986) e Nem Polícia, Nem Bandido (1988), contava com a voz inconfundível de Catalau, a guitarra virtuosa de Hélcio Aguirra, o baixo e as letras poéticas de Nelson Britto e a bateria potente de Paulo Zinner. Ao longo dos anos, a banda passou por diversas mudanças, com João Luiz assumindo os vocais em uma fase posterior e músicos como Kiko Miller, Tadeu Dias e Mateus Schanoski contribuindo para a evolução e a continuidade do som. Apesar das trocas, a essência do Golpe de Estado foi mantida, com um rock direto e visceral, além de letras que refletiam o cotidiano e as angústias urbanas, conquistando uma legião de fãs fiéis.
Antes que as primeiras notas ecoassem pelo Carioca Club, a atmosfera já era de profunda reverência. Um vídeo emocionante, projetado no telão, levou o público a uma viagem no tempo, revisitando momentos marcantes da trajetória do Golpe de Estado, desde seus primórdios até os dias atuais. Imagens raras, trechos de shows históricos e depoimentos costuraram a narrativa de uma banda que, por quatro décadas, manteve a chama do rock acesa no cenário nacional.
Com a formação atual composta por João Luiz (vocal), Marcelo Schevano (guitarra), Fabio Cezzar (baixo) e Roby Pontes (bateria), a banda deu início ao show com a explosiva “Quantas Vão”. João Luiz dominou o palco desde os primeiros segundos e, ao final da música, resumiu o espírito da noite com poucas palavras, ditas entre gratidão e melancolia: “Sejam bem-vindos ao Último Golpe”. Em seguida, “Não Faz Mal” manteve a energia em alta, enquanto o vocalista prometia uma noite longa, repleta de surpresas e amigos dividindo o palco. As canções “Não É Hora” e “Pra Conferir” ganharam novos contornos com a presença de Mateus Schanoski nos teclados. Embora integrante da formação atual, ele foi apresentado como convidado especial e recebeu uma calorosa resposta do público, acrescentando camadas sonoras que enriqueceram o hard rock característico da banda.
“Janis” trouxe à tona a força das letras de Nelson Britto. João Luiz fez questão de homenagear o ex-baixista e o ex-guitarrista Hélcio Aguirra, lembrando que ambos estariam orgulhosos daquela celebração. A emoção cresceu ainda mais quando Kiko Miller, ex-vocalista da banda, subiu ao palco para “Pra Poder”. João Luiz literalmente passou o bastão ao amigo, destacando sua importância e contribuição para a história do Golpe de Estado.
O impacto foi ainda maior em “Libertação Feminina”. Ovacionado, Kiko Miller participou de um dos momentos mais intensos da noite, com a plateia cantando em uníssono e reforçando a atualidade da mensagem da música. Em “Forçando a Barra”, João Luiz e Kiko dividiram os vocais e o palco, simbolizando a união entre diferentes fases da banda.
A sonoridade ganhou novos ares em “Olhos Vendados”, com a entrada de Bocato no trombone e a participação do ex-guitarrista Tadeu Dias, que substituiu Hélcio Aguirra logo após seu falecimento. Essa fusão se aprofundou em “Tudo Que Vem Fácil” e “Caosmópolis”, quando o saxofone de Neurozen se somou aos metais, criando uma atmosfera sofisticada e inesperada para o hard rock da banda. “Caosmópolis”, em especial, destacou mais uma vez a genialidade lírica de Nelson Britto, com vocais inspirados no rap, segundo João Luiz, a pedido do próprio Nelson.
“Moondog” elevou ainda mais o nível com a participação de Rodrigo Hid, ex-guitarrista do Patrulha do Espaço e figura lendária do rock nacional, acrescentando peso, história e respeito ao palco. Em seguida, “Zumbi”, um dos grandes clássicos da banda, fez o público cantar cada verso, relembrando a icônica participação de Rita Lee na versão de estúdio. Um dos momentos mais surpreendentes da noite aconteceu em “Paixão”. O jornalista e apresentador Celso Cardoso subiu ao palco declarando que o Golpe de Estado é, em suas palavras, “a maior banda de hard rock do Brasil”. Para surpresa geral, entregou uma performance vocal segura e emocionante, arrancando aplausos sinceros da plateia.
A emoção continuou com a entrada de Rogério Fernandes em “Todo Mundo Tem Um Lado Bicho”. Visivelmente emocionado, ele confessou estar à beira das lágrimas e fez questão de vestir uma camiseta da banda Malvada, exaltando o protagonismo feminino no rock. A parceria seguiu em “Cobra Criada” e “Feira do Rato”, com Rogério e João Luiz dividindo os vocais em um clima de cumplicidade e celebração.
Até esse momento, o show já era espetacular, mas a expectativa aumentou quando João Luiz anunciou a volta do vocalista original, Catalau. O Carioca Club veio abaixo. Ansioso e emocionado, Catalau retornou ao palco sendo recebido como um ícone, iniciando sua participação com “Dias de Glória”, cantada pelos fãs como um verdadeiro hino.
Após o solo de bateria de Roby Pontes, que demonstrou toda a força rítmica que sempre impulsionou a banda, Catalau voltou a dividir os vocais com João Luiz em “Onde Há Fumaça, Há Fogo”, unindo duas vozes fundamentais da história do Golpe de Estado. A sequência com “Filho de Deus” e “Real Valor” emocionou os fãs, mas quando Catalau pegou o violão para tocar “Olhos de Guerra” e “Caso Sério”, muitos não conseguiram conter as lágrimas. Da emoção à nostalgia, “Velha Mistura” reforçou o carisma de Catalau e sua conexão com o público, afinal, um rei nunca perde sua majestade.
Antes de “Terra de Ninguém”, Catalau fez questão de agradecer aos fãs, afirmando que tudo o que conquistou ao longo da carreira foi graças a eles. O momento, marcado por humildade e respeito, demonstrou que o tempo fez bem a todos. Com todos os convidados no palco, “Nem Polícia… Nem Bandido” e “Noite de Balada” transformaram-se em uma grande festa, coroando a celebração e a despedida dessa importante banda brasileira. Durante “Noite de Balada”, em um gesto retribuição, Catalau sentou-se na beirada do palco e distribuiu autógrafos aos fãs. Nem precisa dizer que esses grandes hinos levaram todos a cantarem juntos, transformando o Carioca Club em uma única voz, celebrando liberdade, atitude e resistência. Um encerramento emocionante a essa apresentação incrível.
O Último Golpe não foi apenas o fim de uma banda. Foi a despedida de uma era, de uma sonoridade que marcou gerações e de uma paixão inabalável pelo rock. As quase três horas de show, repletas de convidados, emoção e um setlist impecável, provaram que o Golpe de Estado encerra sua trajetória em grande estilo. A banda pode ter dado seu último golpe nos palcos, mas sua música e seu legado continuam vivos, ecoando e inspirando novas gerações. Apesar da ausência de Paulo Zinner, baterista da formação original, foi uma noite histórica para o rock nacional, um adeus que ficará gravado na memória de todos que testemunharam a grandeza do Golpe de Estado.
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