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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Golpe de Estado – 21/12/2025 – Carioca Club/SP

O dia 21 de dezembro de 2025 marcou o ponto final de uma jornada de 40 anos, um adeus grandioso e emocionante da banda Golpe de Estado. Intitulado de forma poética e impactante como “O Último Golpe”, o evento reuniu fãs de todas as gerações, amigos, ex-integrantes e uma constelação de convidados para celebrar o legado de uma das maiores referências do hard rock brasileiro. Quase três horas de pura energia, nostalgia e gratidão marcaram uma despedida digna da história que a banda construiu.

O Golpe de Estado surgiu em meados dos anos 1980, em São Paulo, estabelecendo-se rapidamente como um dos pilares do hard rock e do heavy metal brasileiro. Sua formação clássica, que eternizou discos como Golpe de Estado (1986) e Nem Polícia, Nem Bandido (1988), contava com a voz inconfundível de Catalau, a guitarra virtuosa de Hélcio Aguirra, o baixo e as letras poéticas de Nelson Britto e a bateria potente de Paulo Zinner. Ao longo dos anos, a banda passou por diversas mudanças, com João Luiz assumindo os vocais em uma fase posterior e músicos como Kiko Miller, Tadeu Dias e Mateus Schanoski contribuindo para a evolução e a continuidade do som. Apesar das trocas, a essência do Golpe de Estado foi mantida, com um rock direto e visceral, além de letras que refletiam o cotidiano e as angústias urbanas, conquistando uma legião de fãs fiéis.

Antes que as primeiras notas ecoassem pelo Carioca Club, a atmosfera já era de profunda reverência. Um vídeo emocionante, projetado no telão, levou o público a uma viagem no tempo, revisitando momentos marcantes da trajetória do Golpe de Estado, desde seus primórdios até os dias atuais. Imagens raras, trechos de shows históricos e depoimentos costuraram a narrativa de uma banda que, por quatro décadas, manteve a chama do rock acesa no cenário nacional.

Com a formação atual composta por João Luiz (vocal), Marcelo Schevano (guitarra), Fabio Cezzar (baixo) e Roby Pontes (bateria), a banda deu início ao show com a explosiva “Quantas Vão”. João Luiz dominou o palco desde os primeiros segundos e, ao final da música, resumiu o espírito da noite com poucas palavras, ditas entre gratidão e melancolia: “Sejam bem-vindos ao Último Golpe”. Em seguida, “Não Faz Mal” manteve a energia em alta, enquanto o vocalista prometia uma noite longa, repleta de surpresas e amigos dividindo o palco. As canções “Não É Hora” e “Pra Conferir” ganharam novos contornos com a presença de Mateus Schanoski nos teclados. Embora integrante da formação atual, ele foi apresentado como convidado especial e recebeu uma calorosa resposta do público, acrescentando camadas sonoras que enriqueceram o hard rock característico da banda.

“Janis” trouxe à tona a força das letras de Nelson Britto. João Luiz fez questão de homenagear o ex-baixista e o ex-guitarrista Hélcio Aguirra, lembrando que ambos estariam orgulhosos daquela celebração. A emoção cresceu ainda mais quando Kiko Miller, ex-vocalista da banda, subiu ao palco para “Pra Poder”. João Luiz literalmente passou o bastão ao amigo, destacando sua importância e contribuição para a história do Golpe de Estado.

O impacto foi ainda maior em “Libertação Feminina”. Ovacionado, Kiko Miller participou de um dos momentos mais intensos da noite, com a plateia cantando em uníssono e reforçando a atualidade da mensagem da música. Em “Forçando a Barra”, João Luiz e Kiko dividiram os vocais e o palco, simbolizando a união entre diferentes fases da banda.

A sonoridade ganhou novos ares em “Olhos Vendados”, com a entrada de Bocato no trombone e a participação do ex-guitarrista Tadeu Dias, que substituiu Hélcio Aguirra logo após seu falecimento. Essa fusão se aprofundou em “Tudo Que Vem Fácil” e “Caosmópolis”, quando o saxofone de Neurozen se somou aos metais, criando uma atmosfera sofisticada e inesperada para o hard rock da banda. “Caosmópolis”, em especial, destacou mais uma vez a genialidade lírica de Nelson Britto, com vocais inspirados no rap, segundo João Luiz, a pedido do próprio Nelson.

“Moondog” elevou ainda mais o nível com a participação de Rodrigo Hid, ex-guitarrista do Patrulha do Espaço e figura lendária do rock nacional, acrescentando peso, história e respeito ao palco. Em seguida, “Zumbi”, um dos grandes clássicos da banda, fez o público cantar cada verso, relembrando a icônica participação de Rita Lee na versão de estúdio. Um dos momentos mais surpreendentes da noite aconteceu em “Paixão”. O jornalista e apresentador Celso Cardoso subiu ao palco declarando que o Golpe de Estado é, em suas palavras, “a maior banda de hard rock do Brasil”. Para surpresa geral, entregou uma performance vocal segura e emocionante, arrancando aplausos sinceros da plateia.

A emoção continuou com a entrada de Rogério Fernandes em “Todo Mundo Tem Um Lado Bicho”. Visivelmente emocionado, ele confessou estar à beira das lágrimas e fez questão de vestir uma camiseta da banda Malvada, exaltando o protagonismo feminino no rock. A parceria seguiu em “Cobra Criada” e “Feira do Rato”, com Rogério e João Luiz dividindo os vocais em um clima de cumplicidade e celebração.

Até esse momento, o show já era espetacular, mas a expectativa aumentou quando João Luiz anunciou a volta do vocalista original, Catalau. O Carioca Club veio abaixo. Ansioso e emocionado, Catalau retornou ao palco sendo recebido como um ícone, iniciando sua participação com “Dias de Glória”, cantada pelos fãs como um verdadeiro hino.

Após o solo de bateria de Roby Pontes, que demonstrou toda a força rítmica que sempre impulsionou a banda, Catalau voltou a dividir os vocais com João Luiz em “Onde Há Fumaça, Há Fogo”, unindo duas vozes fundamentais da história do Golpe de Estado. A sequência com “Filho de Deus” e “Real Valor” emocionou os fãs, mas quando Catalau pegou o violão para tocar “Olhos de Guerra” e “Caso Sério”, muitos não conseguiram conter as lágrimas. Da emoção à nostalgia, “Velha Mistura” reforçou o carisma de Catalau e sua conexão com o público, afinal, um rei nunca perde sua majestade.

Antes de “Terra de Ninguém”, Catalau fez questão de agradecer aos fãs, afirmando que tudo o que conquistou ao longo da carreira foi graças a eles. O momento, marcado por humildade e respeito, demonstrou que o tempo fez bem a todos. Com todos os convidados no palco, “Nem Polícia… Nem Bandido” e “Noite de Balada” transformaram-se em uma grande festa, coroando a celebração e a despedida dessa importante banda brasileira. Durante “Noite de Balada”, em um gesto retribuição, Catalau sentou-se na beirada do palco e distribuiu autógrafos aos fãs. Nem precisa dizer que esses grandes hinos levaram todos a cantarem juntos, transformando o Carioca Club em uma única voz, celebrando liberdade, atitude e resistência. Um encerramento emocionante a essa apresentação incrível.

O Último Golpe não foi apenas o fim de uma banda. Foi a despedida de uma era, de uma sonoridade que marcou gerações e de uma paixão inabalável pelo rock. As quase três horas de show, repletas de convidados, emoção e um setlist impecável, provaram que o Golpe de Estado encerra sua trajetória em grande estilo. A banda pode ter dado seu último golpe nos palcos, mas sua música e seu legado continuam vivos, ecoando e inspirando novas gerações. Apesar da ausência de Paulo Zinner, baterista da formação original, foi uma noite histórica para o rock nacional, um adeus que ficará gravado na memória de todos que testemunharam a grandeza do Golpe de Estado. 


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: TC7 Produções 



Golpe de Estado – setlist:

Quantas Vão

Não Faz Mal

Não É Hora

Pra Conferir

Janis

Pra Poder

Libertação Feminina

Forçando a Barra

Olhos Vendados

Tudo Que Vem Fácil

Caosmópolis

Moondog

Zumbi

Paixão

Todo Mundo Tem Um Lado Bicho

Cobra Criada

Feira Do Rato

Dias De Glória

Onde Há Fumaça, Há Fogo

Filho De Deus

Real Valor

Olhos De Guerra

Caso Sério

Velha Mistura

Terra De Ninguém

Nem Polícia... Nem Bandido

Noite De Balada 

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