Por Bruno França
Antes do ano de 2025 proferir a sua canção do cisne, o mesmo se prontificou em ir embora deixando um estrondo ao invés de um sussurro, através de inúmeras promessas que estariam por vir para os amantes não só do Rock, mas da música extrema também. Se para o ano de 2026 os anúncios de shows para o Brasil estão alguns dos mais promissores dos últimos anos, no front dos álbuns o cenário não está muito diferente.
Após construir uma estada tão memorável quanto o café da manhã mais tradicional consumido pelos brasileiros na banda CRYPTA, Jéssica Falchi (anteriormente conhecida como "Jéssica di Falchi") saiu dela após aproximadamente três anos, enquanto gradualmente marcava território ao quase se tornar a face da banda. De acordo com a própria (em uma live no canal do YouTube Bandmade), tocar Death Metal não era exatamente onde ela realmente encontrava o fogo que alimenta a sua paixão ao tocar, o que colocou uma data de validade implícita na banda mencionada acima, então a sua partida era inevitável no futuro previsível.
TAMANHO, DE FATO, NÃO É DOCUMENTO
Sendo assim, esta viagem pela estrada da memória nos leva ao agora. Desde Março de 2025 quando ocorreu a sua saída de um dos maiores expoentes do Metal nacional, Jéssica decidiu ascender a novos voos e arquitetou a sua própria banda solo para que pudesse se expressar da maneira que tão lhe agrada. Intitulado "FALCHI", seu primeiro trabalho é totalmente instrumental na forma de um EP, Solace, cujo lançamento completo aconteceu no dia 23 de Janeiro de 2026, após cada uma das faixas que o estrutura forem disponibilizadas ao público em formato episódico, à lá Netflix.
Então nos preparemos para uma observação das quatro canções deste EP, cuja abertura é dada por "Moonlace". A melhor definição que pode ser dada para ela é "um gosto do que está por vir", o que costuma ser a tradição de uma introdução. Desde o instante em que apertamos o botão "play", somos cumprimentados com um Efeito Doppler um pouco tímido, que logo acaba evoluindo para uma demonstração cabal da influência de JOE SATRIANI ao redor da abertura.
"Sunflare" é a exata manifestação daquilo que eu originalmente imaginava do que seria o projeto de Jéssica. Do momento em que a sua intenção foi publicizada, logo acreditei que fosse uma versão de MICHAEL ÂNGELO BATIO com sangue brasileiro, combinada com as produções dos tempos atuais.
Sua vibe pesadamente carregada de Metal Progressivo possui passagens que não estariam fora de lugar em um lançamento do OPETH de meados dos anos 2000 (notadamente, o excelente álbum Ghost Reveries), graças à sua semelhança com "Beneath The Mire".
Para os ouvidos mais exigentes que vislumbram algo mais contemplativo, os apreciadores de um Metal Neoclássico irão se sentir familiarizados aqui.
Sendo agressivamente sincero, o conjunto de palavras que deposito aqui não fazem justiça à sua qualidade pura: “Sunflare” precisa ser escutada para ser acreditada.
Dando continuidade com a análise, temos agora a primeira parte de uma duologia: “Sweetchasm – Pt. 1”, com a participação especial de Aaron Marshall (mais conhecido pela sua performance no INTERVALS). Como foi de costume até agora, é necessário um gosto sofisticado para gostar e compreender as músicas desprovidas de um vocal expresso, colocando a tarefa para tal nos próprios instrumentos: tal afirmação é reforçada quando João Pedro Castro se torna o foco e faz o ouvinte pensar que está ouvindo uma passagem do seu baixo vinda de uma canção do ATHEIST.
O destaque principal fica na minutagem 2:27, quando ocorre a chegada do convidado em tela, cujo solo está em linha com o que fora apresentado no INTERVALS, oferecendo uma pegada mais voltada ao Metal moderno, sem necessariamente tirar a canção para fora de contexto. De todo modo, vemos aqui um reforço de que Solace é uma declaração de intenções contínuas.
Durante boa parte da execução desta faixa, estive sob a impressão de que estava diante de uma faixa bônus do IN FLAMES dos anos 90. Considerando que na época em que estes executavam um Death Metal melódico sob a égide da era “Powerslave” do IRON MAIDEN (uma das bandas preferidas da fundadora), esta não soa uma afirmação tão “alienígena”.
A produção é cortesia de Jean Patton (conhecido pelo PROJECT46), entregue em um nível que não deixa nada a desejar ao observado nos lançamentos internacionais, merecendo o selo “padrão FIFA”.
REGRAS EXISTEM PARA VOCÊ MESMO CRIÁ-LAS
“Sweetchasm – Pt. 2” ficou incubida de fechar este lançamento, sendo a mais “exótica” (por assim dizer) das quatro. Sim, existe um certo grau de glamour na agressão que não precisa ser dito, apenas mostrado (como dita uma das regras basilares do Teatro).
Fica de lado a pegada mais progressiva apresentada até agora, entra em campo um ritmo mais rápido e uma abordagem mais puxada para o Thrash Metal. As passagens de bateria feitas por Luigi Paraventi vão te deixar impressionado com o massacre impiedoso que o próprio realiza por trás do seu kit de bateria, sem pedir permissão alguma para saber se o ouvinte aguenta o tranco, enquanto acompanha os riffs que atropelam o seu ouvido.
Embora não pertença muito ao mesmo gênero das três canções anteriores, o jeito meio “na sua cara”, aliada com uma produção de qualidade acima da média, colocam “Sweetchasm – Pt. 2” como uma variação bem-vinda para realizar o encerramento, traçando um paralelo com o trabalho anterior da líder, e assim deixando o ouvinte mais à vontade – como se estivesse dentro do seu lar.
Seja pelo bombardeamento de informações as quais somos submetidos todos os dias, seja pela correria do dia a dia, "FALCHI" passou meio despercebido pelo meu radar enquanto as faixas eram pontualmente lançadas. Quando surgiu a oportunidade de apreciar o produto completo é que levantei uma das sobrancelhas com os dizeres flagrantes de: "beleza, chegou a hora".
Mal sabia eu que estava prestes a embarcar não apenas em uma introspecção, mas em uma daquelas viagens que você realiza sem destino, apenas pelo prazer do momento.
Ao final de "Sweetchasm - Pt. 2", acabei chegando a uma reflexão. Dentre todas as sensações possíveis pelo espectro emocional humano, a de estar surpreendido é uma das mais generosas possíveis, pois ela nasce de algo edificante que estava fora do seu controle: e é aqui onde "FALCHI" encontra um merecido abrigo (trocadilho não intencional).
Em minha humilde opinião, este EP é um trabalho detentor do adesivo “profissional” estampado em sua testa, e é uma audição obrigatória por aqueles que sentem prazer em ouvir os instrumentos aqui presentes se expressarem, com "Sunflare" sendo digna de encabeçar as eventuais listas de "melhores músicas de 2026" que surgirão no final do corrente ano.
Faixas:
1) Moonlace
2) Sunflare
3) Sweetchasm - Pt. 1 (feat. Aaron Marshall)
4) Sweetchasm - Pt. 2
Principal destaque: Sunflare



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