Extreme e Halestorm: Rock, Resiliência e Emoção na Live Curitiba
A experiência Hard Rock do Extreme e a energia Rock N'Roll do Halestorm se colidiram nesta quarta-feira, dia 8 de abril, na Live Curitiba. As duas bandas foram algumas das principais atrações do Festival Monsters of Rock em São Paulo no final de semana anterior. O evento na capital curitibana foi realizado pela produtora Like Entretenimento.
Finalmente vamos ao que interessa: a noite estrelada de quarta, parece até perseguição, mas a maioria dos shows acontece sempre em meios de semana aqui em Curitiba. Provavelmente é culpa da logística que precisa desdobrar-se em mil para levar os equipamentos até as várias cidades e, invariavelmente, culminando aos finais de semana em São Paulo, onde obviamente o público é maior. Tudo parcialmente perdoado, afinal, sempre somos privilegiados em receber os melhores eventos, e o corpo que lute para trabalhar no dia seguinte. Afinal, isto é Rock N' Roll!
Extreme e Halestorm foram recebidos na Live Curitiba, que há algum tempo vem perdendo espaço para outras casas noturnas mais focadas no gênero rock. Mas há alguns anos já recebeu desde Bruce Dickinson até Sepultura, portanto seu tamanho estava à altura dos convidados. Entretanto, ao chegar ao local, percebi certo descaso no quesito da praça de alimentação externa, um pouco mais simples do que em outros tempos, mas tudo bem, nada que abale o público mais novo. Mas o caso, neste dia, é que o público era composto em sua maioria de pessoas mais velhas que, atualmente, pelos valores cobrados pelos ingressos, esperam uma experiência mais premium. Mas havia petiscos e bebidas geladas, o que bastou (ou não, talvez!?).
O show do Halestorm estava previsto para às 20h30, horário cumprido à risca. Mas antes de seguir ao show, importa falar que o local não atingiu boa lotação, fato comprovado pela interdição da área superior da casa, deixando somente a pista dividida desigualmente em premium e normal, e os camarotes especiais superiores, geralmente reservados por grandes grupos que optam por mais conforto.
E pontualmente sobem ao palco a carismática Lzzy Hale, juntamente com os músicos Arejay Hale, Joe Hottinger e Josh Smith, todos visivelmente animadíssimos, sem se importar com a casa "meio" cheia. Pois em quesito de show de rock, "uma coisa não tem nada a ver com a outra": os fãs que ali estavam ocuparam todo o recinto aos gritos, incentivos, choros, emoções à flor da pele, roupas a caráter, e a cada término de música a banda era ovacionada sem parar.
As três primeiras músicas, sempre dedicadas aos cliques, foram executadas à perfeição: "Fallen Star", "I Miss the Misery" e o hit "Love Bites (So Do I)", com uma interpretação forte e com Hale mostrando toda a sua potência vocal e presença de palco. A banda é um pacote completo, além de técnica, se preocupa com todo o visual: cores, luzes e movimentação de palco, para que a experiência do público seja perfeita.
Para alegria geral, tudo ocorreu sem desânimo, graças à interação constante dos músicos e das fofíssimas capivaras de pelúcia espalhadas pelo palco e em formato de chaveiro nos integrantes e em seus instrumentos. Para quem não sabe, Curitiba tem orgulho em exibir suas capivaras soltas em parques e em forma de souvenirs pela cidade, tornando os nativos um pouco mais simpáticos. (Novamente, não me julguem: Sou 100% curitibana).
Ressaltando o destaque da noite para a canção "Like a Woman Can", onde toda a temática da música e o ativismo de Lzzy culminaram em uma homenagem e exaltação à força das mulheres que lá estavam. Momento de total engajamento da plateia. Em resumo, foi um show de pouco menos de uma hora e meia, mas que cumpriu o que prometeu. Público animado, sem espaços vazios no galpão. Para os amantes de guitarras, foi um desfile de modelos, as quais a vocalista trocava frequentemente, para o deleite de todos. Destaque para a belíssima Gibson cor chumbo com reflexos brilhantes, que ofuscou o local!
Um pouco antes das 21h30, houve o tempo de pausa para troca de equipamentos e adequação do palco para a chegada do tão aguardado Extreme, com horário previsto para às 22 horas. Além da famosa pausa para lanches, toalete e bebidas, percebeu-se uma mudança no público presente. Explico: o público mais novo foi dando espaço a uma faixa etária um pouco mais avançada, salvo os fãs na grade, que não arredaram o pé por nada. Com o decorrer do tempo, apareciam casais, famílias, todos claramente espectadores da era dourada do Extreme. Inclusive, me incluo neste grupo, pois tive meu pôster de Gary e Nuno no quarto durante a adolescência, e nem em meus melhores pensamentos, na época, imaginaria estar aqui hoje. Uma honra, mas nem por isso os panos quentes serão passados ou algo indigesto jogado para debaixo do tapete. Afinal, não estamos aqui para isso.
A ansiedade tomava conta da plateia que, em um passe de mágica, mudou de um público enérgico para rostos ansiosos e tensos, como se soubessem de algo que não chegou ao conhecimento geral. Especulações não faltavam: algumas a respeito da quantidade de público, um pequeno atraso na montagem do palco, rostos aflitos estampados na equipe técnica. Confesso que, a não ser pelo atraso no início do show, achei tudo normal. Afinal, tratava-se do Extreme, os caras estiveram aqui no Brasil no extinto Hollywood Rock de 1992, por favor! Excesso de zelo faz parte do processo.
Após momentos tensos, sobem ao palco, com energia e sorrisos sobrando, os músicos do Extreme com seus instrumentos em punho e visual de videoclipe da MTV. Gary Cherone é um showman sem discussões, o mesmo vale para o guitarrista Nuno Bettencourt. Também em destaque: o baterista Kevin Figueiredo e o simpático baixista Pat Badger, que durante todo o show demonstrou uma serenidade surreal. Início de setlist explosivo, plateia antenada: "Decadence Dance", "Rest in Peace", "Am I Ever Gonna Change" , tudo em frenesi, capitaneado por Gary.
Após os primeiros 40 minutos de show, a plateia começou a esfriar, talvez devido ao cansaço. Afinal, muitos já estavam ali há pelo menos 3 horas, senão mais. Foi o momento perfeito para Gary entoar o refrão de "We Will Rock You", do Queen, para tirar alguns do transe, ou do sono mesmo. Para aqueles que não deixaram a fadiga vencer, até aquele momento o espetáculo estava à altura.
Mas como perfeição só existe na ficção, por volta das 22h45 o som começou a incomodar os ouvidos, percebendo-se um problema técnico relativamente comum. Entretanto, os minutos foram passando, uma microfonia nas guitarras de Nuno ficou mais evidente e desestabilizou um pouco a banda. Afinal, eles queriam fazer o seu melhor. Ainda foram feitas algumas tentativas de continuar com as músicas, mas por volta das 23 horas uma pausa para reorganização e solução dos problemas se fez necessária. Neste momento, o público poderia ter sido mais empático com os músicos, que estavam tentando contornar a situação com piadas desajeitadas, improvisos que não saíam certos, olhares entre Nuno e Gary pedindo socorro mutuamente.
Passados os desconfortos, podemos reconhecer os anos de estrada do Extreme, que não chegou onde está por acaso! Os músicos de repente crescem diante da plateia e fazem do problema parte do espetáculo. Em grande parte pela opção do guitarrista Nuno de assumir para si a difícil arte de lidar com o público sem roteiro e sem papas na língua, com algumas frases que escaparam sem querer: "Ai, Jesus!" e "O som não presta, como vamos tocar?", seguidas de vários pedidos de desculpas ao público. Logo, uma bateria improvisada vem à frente com Kevin Figueiredo (em pé) dando o tom e mostrando que quem sabe o que faz brilha; Gary, mais tranquilo, com microfone em riste; Pat Badger inabalável com seu baixo; e guitarras acústicas preparadas para um Nuno mais calmo. Pronto! O espetáculo voltou com tudo, e ainda com o tempero da resiliência humana. A canção "Hole Hearted" foi uma obra-prima: se o show terminasse ali, a missão estava cumprida.
Por fim, dedico este parágrafo a todos os músicos deste planeta que, apesar das dificuldades, tentam dar sua melhor versão ao público. Trata-se de respeito ao próximo. Vale a pena detalhar: Durante a execução da menina dos olhos da banda, "Midnight Express", que traz toda a técnica guitarrística de Nuno Bettencourt aos holofotes, a microfonia e os problemas surgem, não dando mais para esconder a frustração. Ele tenta novamente, mostrando habilidade extrema, mas insuficiente diante do problema de som. Levanta, conversa com os técnicos, desabafa, insiste, e digo aqui: foi muito angustiante presenciar aquilo. Alguns tentavam palmas para levantar o astral, mas a maioria permaneceu simplesmente observando o sofrimento alheio. Por um milagre ou competência técnica da equipe, o problema é resolvido: o músico fala com o que lhe resta de orgulho: "Vamos começar novamente? Fingir que nada disso aconteceu e que foi apenas um ensaio?" E lá vai nosso insistente herói para uma execução perfeita e emocionante de "Midnight Express". E, pasmem: a plateia esqueceu que tinha celular. Não se viam telas ao alto, somente pessoas boquiabertas presenciando arte sendo executada. Momento raro hoje em dia! Após o transe, alguns resolveram filmar, mas a lição que ficou foi que precisamos dar mais crédito aos artistas. Este show foi uma demonstração de humildade e perseverança de músicos que merecem nosso total respeito. Confesso que já vi artistas jogarem a toalha e abandonarem o palco por bem menos.
Por fim, depois de tanta sofrência, chega a execução da clássica "More Than Words" com um toque especial de comemoração, olhares aliviados e público satisfeito.
Vida longa ao Rock N' Roll!
Vida longa ao Halestorm!
Vida longa ao Extreme!
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