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terça-feira, 16 de junho de 2026

Cobertura de Show: Roland Grapow – 14/06/2026 – Manifesto Bar/SP

ROLAND GRAPOW CELEBRA "THE TIME OF THE OATH", MAS ESBARRA EM EXECUÇÃO IRREGULAR NO MANIFESTO BAR

Celebrar os 30 anos de The Time of the Oath em São Paulo parecia uma missão praticamente à prova de erros. Lançado em 1996, o sétimo álbum de estúdio do Helloween é considerado um dos trabalhos mais importantes da fase de Andi Deris e marcou uma retomada criativa da banda alemã, trazendo uma sonoridade mais pesada e madura, além de clássicos que ajudaram a consolidar o power metal nos anos 1990. O disco, inspirado nas profecias de Nostradamus, também foi dedicado à memória do baterista Ingo Schwichtenberg, falecido no ano anterior.

Foi justamente esse legado que o guitarrista Roland Grapow trouxe ao Manifesto Bar, em São Paulo, no último dia 14 de junho. Integrante do Helloween entre 1989 e 2001 e peça fundamental na construção da identidade musical daquela fase da banda, Grapow retornou ao Brasil acompanhado do mesmo time de músicos que o acompanhou em outras passagens recentes pelo país: João Luiz (King Bird/Golpe de Estado) nos vocais, Affonso Jr. (Confessori/Revenge) na guitarra, Fabio Carito (Metalium/Warrel Dane) no baixo e Marcus Dotta (Metalium/Warrel Dane) na bateria.

A abertura ficou por conta da Here I Am, grupo conhecido por homenagear a obra de Andre Matos e que vive uma nova fase apostando em material próprio. A apresentação teve um caráter especial: a gravação do primeiro DVD ao vivo da banda. Com músicas do álbum de estreia, Synergy, lançado no ano passado, o grupo mostrou segurança e encerrou sua participação em clima de celebração, convidando Felipe Andreoli (baixo, Angra) e Edu Ardanuy (guitarra, ex-Dr. Sin, All Metal Stars) para executar os clássicos "Nothing to Say" e "Carry On", do Angra.

Pontualmente às 21h, Roland Grapow surgiu sozinho no palco, antes mesmo de a música ambiente terminar — aparentemente, "Balls to the Wall", dos compatriotas do Accept. O guitarrista ajustou sua própria guitarra, conferiu rapidamente a afinação, saudou o público com um descontraído "E aí, São Paulo?" e deu início à principal atração da noite com "We Burn", faixa de abertura de The Time of the Oath.

No entanto, apesar do talento inegável dos músicos envolvidos, algo parecia fora do lugar desde os primeiros minutos. O principal problema estava na condução vocal. João Luiz, reconhecidamente um dos grandes nomes do rock nacional e dono de performances irretocáveis em trabalhos com King Bird, Golpe de Estado e tributos a Ronnie James Dio, demonstrava pouca familiaridade com o repertório do Helloween. Preso constantemente a um recurso visual para acompanhar as letras, o vocalista errava entradas, hesitava em passagens importantes e transmitia a sensação de ainda estar se adaptando ao material.

O desconforto tornou-se evidente em músicas como "Steel Tormentor", "Wake Up the Mountain" e, principalmente, "Power". Nesta última, já era perceptível um certo descontentamento por parte do público. Enquanto Marcus Dotta impressionava ao reproduzir com precisão as linhas originalmente gravadas por Uli Kusch, João Luiz era constantemente amparado pelos colegas para manter a execução coesa.

Entre uma música e outra, Grapow mostrou o carisma habitual ao comentar, de maneira bem-humorada, que executariam as canções de The Time of the Oath das quais ele ainda se lembrava. Apesar da proposta divulgada sugerir uma execução quase integral do álbum, o disco não foi apresentado na íntegra, embora tenha dominado boa parte do repertório.

"Forever and One (Neverland)" trouxe um dos momentos mais emocionantes da noite, seguida por "Before the War" e pela raríssima "A Million to One" — faixa pouco lembrada pelos próprios fãs e que jamais integrou o repertório oficial do Helloween em suas turnês. A homenagem ao álbum foi encerrada com a faixa-título, "The Time of the Oath", quando Grapow convocou o público para assumir os refrões. Nessas canções, a banda pareceu mais confortável, mas a sensação de estar assistindo a um grande karaokê de luxo ainda persistia.

Curiosamente, o clima mudou quando o grupo passou a executar músicas já presentes nas turnês anteriores de Grapow pelo Brasil. "Mr. Torture", "The Departed (Sun Is Going Down)" e "The Dark Ride", todas ligadas ao álbum The Dark Ride (2000), soaram mais naturais, como se finalmente músicos e vocalista encontrassem terreno conhecido.

Na reta final, veio "The Chance", composição assinada por Grapow para o controverso Pink Bubbles Go Ape (1991), recebida com entusiasmo pelos fãs mais antigos. O encerramento reservou o ponto alto definitivo da apresentação: Leandro Caçoilo (Seventh Seal, Viper) assumiu os vocais em "Eagle Fly Free" e "I Want Out". Ainda que as músicas pertençam à fase anterior à entrada de Grapow no Helloween, são praticamente obrigatórias em qualquer celebração ligada ao universo da banda. O Manifesto Bar explodiu em coro, e os refrões foram cantados em uma só voz.

Foi, acima de tudo, uma noite movida pela nostalgia. O repertório acertou em cheio ao revisitar um dos discos mais importantes do power metal mundial, mas a execução irregular impediu que a celebração alcançasse todo o potencial que carregava.

A escolha de João Luiz para a ocasião pareceu equivocada. Seu talento é inquestionável, mas sua voz e seu histórico musical talvez dialoguem mais naturalmente com o repertório do Masterplan, outra importante banda de Grapow, curiosamente ausente do setlist. Com uma preparação mais cuidadosa, maior entrosamento e um intérprete mais alinhado à proposta estética do material executado, esta poderia ter sido uma noite memorável.

Ainda assim, ouvir canções de The Time of the Oath ecoando ao vivo três décadas após seu lançamento foi um privilégio. Mesmo com seus tropeços, a apresentação serviu como lembrança do impacto duradouro de um álbum que permanece como um dos pilares do power metal e da contribuição fundamental de Roland Grapow para essa história.


A celebração seguem em tour pelo Brasil durante o mês de junho:

17/06 – Curitiba (Blood Rock Bar) – BR

19/06 – Fortaleza (Valentina Bar) – BR

20/06 – Santo André (Santo Rock Bar) – BR

21/06 – Belo Horizonte (Caverna) – BR


Texto: Anderson Bellini 

Fotos: André Tavares

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: TC7 Produções

Press: LP Metal World


Roland Grapow – setlist:

We Burn

Steel Tormentor

Wake Up the Mountain

Power

Forever and One (Neverland)

Before the War

A Million to One

The Time of the Oath

Mr. Torture

The Departed (Sun Is Going Down)

The Dark Ride

The Chance

Eagle Fly Free (with Leandro Caçoilo)

I Want Out (with Leandro Caçoilo)

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