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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Ben Hutcherson (Khemmis): "Reconectamos com a alegria de fazer Heavy Metal”

Divulgação

Por Paula Butter

No começo do mês de junho, a Road to Metal teve o prazer de conversar com o simpático guitarrista Ben Hutcherson, da banda Khemmis. O papo foi a respeito do novo lançamento, processo de criação, expectativas para o futuro e também sobre questões atuais como Inteligência Artificial.

A banda Khemmis, formada em 2012 em Denver, Colorado, retorna em grande estilo com seu quinto álbum de estúdio homônimo, lançado no dia 12 de junho de 2026, pela Nuclear Blast Records. Referência do Doom Metal contemporâneo, o grupo, formado por Ben Hutcherson, Phil Pendergast e Zach Coleman, e ainda com a recente adição de David Small no baixo, construiu ao longo de mais de uma década uma discografia marcada pela fusão de peso sonoro, profundidade melódica e letras de forte teor emocional. Com Khemmis, a banda opta por uma sonoridade mais direta e energética, abraçando a força dos riffs sem abrir mão da escuridão lírica que sempre os definiu. 

As oito faixas do disco, entre elas os singles "Invocation of the Dreamer" e "Beneath the Scythe", celebram, nas palavras do próprio Ben Hutcherson, "a alegria de criar, experienciar e amar o Heavy Metal", reconectando a banda com o entusiasmo visceral de seus primeiros anos e apresentando o que pode ser, até hoje, a versão mais completa e definidora do Khemmis. 

Portanto, sem mais delongas, confira a seguir a entrevista na íntegra: 


Sobre o título do álbum homônimo

Batizar o álbum com o nome da própria banda é uma decisão bastante imponente. O que motivou essa escolha?

Ben Hutcherson: É engraçado, porque muita gente enquadra isso como uma decisão ousada, e entendo completamente. Mas a forma como chegamos a essa decisão foi bem mundana. Tínhamos um documento no Google com umas 20 ou 30 possíveis títulos de músicas ou do álbum, e nenhum estava funcionando de verdade. Pensamos: talvez seja neste álbum que nos afastemos dos títulos de uma palavra e tentamos algo diferente. Tentamos duas palavras, três palavras, uma frase inteira e nunca fechou.

Em algum momento, acho que mencionei por mensagem de texto em grupo: 'E se fosse homônimo?' Conversamos sobre isso numa ligação mais tarde e todo mundo teve a mesma reação: 'Hum...' Não foi um 'Meu Deus, era isso que estávamos esperando!', foi só 'hum?' Porque nenhum de nós tinha pensado nisso de verdade.

Quanto mais pensávamos, mais percebemos que tinha de ser homônimo. Se queríamos apresentar, hesito em dizer 'álbum conceitual', porque isso evoca uma pretensão prog dos anos 1970 que definitivamente não era nosso objetivo,  mas contar histórias ficcionais pela primeira vez, já que todos os nossos outros álbuns sempre foram muito autobiográficos; ter mais músicas do que nunca; e ainda ser nosso primeiro disco com David Small no baixo... Tudo isso junto: se acreditamos nele tanto quanto acreditamos, então tem de ser homônimo. Tem de ser um reconhecimento nosso de que esta é a versão mais completa desta banda até hoje.

E, bem... funcionou para o Metallica no quinto álbum deles. Então funciona para nós também.

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Energia e concisão: a virada em relação a Deceiver

Este álbum parece mais energético. Foi uma decisão consciente ou algo que surgiu naturalmente durante a composição?

Ben: Foi tudo isso ao mesmo tempo. O último álbum era muito introspectivo e pessoal, e honestamente todas as nossas músicas sempre foram bastante lentas. Mesmo uma música como 'Avernal Gate' tem partes rápidas, mas no geral não é uma música super veloz. E simplesmente nos vimos gravitando muito mais para músicas mais aceleradas que estávamos ouvindo, e também, revisitando os clássicos.

Estou usando uma camiseta do Metallica aqui. Não estamos tocando na velocidade de 'Damage Inc.', mas para nós isso é rápido. O Zach disse de forma muito concisa que queríamos um álbum cheio de, como ele colocou, 'bangers',  músicas que pudéssemos tocar em palcos de pequenos clubes a grandes festivais, e que, se você nunca tivesse nos ouvido antes, qualquer uma das faixas pudesse te alcançar e te puxar para dentro.

Não é que não haja profundidade emocional, mas há uma imediaticidade nele. E queríamos colocar isso em primeiro plano, abraçar essa imediaticidade em vez de perguntar 'quantas camadas conseguimos trabalhar aqui?'. No fim do dia: 'Esse riff te agarra pela garganta e se recusa a soltar? Então provavelmente é o riff certo para essa música.' E terminamos com um álbum cheio de músicas bem rápidas para os nossos padrões.

"Invocation of the Dreamer": o single e o vídeo de abertura

"Invocation of the Dreamer" abre o álbum e foi o primeiro vídeo lançado. Por que essa música? Ela representa todo o disco ou foi escolhida por se destacar?

Ben: Acho que é tudo isso. Definitivamente sabíamos que ela se destacava. E quando a estávamos escrevendo, sabíamos que era a faixa de abertura. Na minha cabeça, a faixa de abertura de qualquer bom álbum de metal te dá uma noção do que o álbum vai ser, mas não te conta tudo o que esperar de todas as músicas. Porque se eu ouço aquela única música e depois não me surpreendo no resto do álbum, sinto que a banda perdeu uma oportunidade.

Então temos elementos de muitas coisas nessa música, mas quando você chega ao final do álbum, pensa: 'Nossa, tinham tantos outros elementos ali também.' Sabíamos que ela chamaria a atenção do ouvinte. Sabíamos que seria uma declaração com o primeiro single. Ela começa com Blast beats, nunca tínhamos aberto uma música utilizando Blast beats, nunca tivemos uma sessão tão abertamente black metal. Mas pareceu muito natural. Não foi 'ok, precisamos de uma parte black metal no começo.' O Phil e eu escrevemos esse riff, estávamos tentando descobrir o que fazer com ele, e o Zach disse: 'E se eu “blastear” por baixo?' A gente falou: 'Com certeza.' E eu disse: 'E se eu tiver um grito bem agudo e longo no começo?' Com certeza.

Da mesma forma que vamos batizar o álbum com nosso nome porque estamos fazendo uma declaração, deveríamos abrir com a música que mais desavergonhadamente declara: 'É aqui que estamos. É quem somos. Pode entrar, a água está boa.'

"Beneath the Scythe": colaboração e o baixo solo de Dave

O vídeo de "Beneath the Scythe" foi muito bem recebido. Há uma faixa que você considera o coração do álbum?

Ben: O Dave, nosso baixista, montou aquele vídeo usando imagens de arquivo de alguns dos primeiros filmes da história do cinema , coisas do início dos anos 1900, e elevando essa narrativa ficcional com essas imagens surreais. De muitas formas, contrastando com a imagética do primeiro vídeo, onde há elementos mágicos e ocultos, mas que parecem muito concretos. Aqui, ter esse material de arquivo junto com a música dá um feel surreal e muito clássico, o que combina bem, porque é em muitos aspectos uma música muito clássica. Mas também mostramos nossas influências: o amor pelo Iron Maiden, pelo Judas Priest, pelo At the Gates, pelo Mercyful Fate, e  tudo isso passando pela máquina do Khemmis.

"Beneath the Scythe" é um ótimo exemplo do processo colaborativo. A presença do Dave no álbum se sente em todo o disco, mas ele tem um solo de baixo na música, algo que nunca fizemos antes. Ele estava um pouco hesitante a princípio quando jogamos a ideia: 'E um solo de baixo?' Eu disse: 'Tenho essa ideia de uma seção limpa, sombria mas bonita.' O Dave estuda jazz há muito tempo e trabalha com um professor de baixo jazz há alguns anos, então isso lhe deu a chance de trazer um solo de baixo para o Khemmis de um jeito que, se eu tivesse tocado, não teria soado assim. Se o Phil tivesse tocado, também não. É esse nível completamente novo da banda que vem de dizer: 'Aqui está a música. Agora é a sua vez. Traga o que você tem.'

A reação dos fãs e o impacto da música

Inclusive, ainda a respeito da faixa “Beneath the Scythe”, os fãs estão enlouquecendo nos comentários do YouTube, todo mundo diz que é a melhor música da banda. O que você sente sobre essa reação?

Ben: Não é algo que tomamos por garantido. Antes de tudo, fazemos a música que fazemos porque... precisamos. Não sei como escrever música diferente. A única forma que conheço de criar é fazer a música que, se outra pessoa tivesse escrito e gravado, eu ouviria e pensaria: 'Isso é incrível. Adoro.' Se sentimos isso, nossa esperança é que chegue até os fãs.

Não leio resenhas de nenhum lançamento meu. Os outros leem, e peço para não me contarem. Não quero saber a nota. O que me importa é quando pessoas comuns dizem que algo que colocamos no mundo ressoa com elas e as faz sentir algo. Se gostam um pouco ou amam ou acham que é a melhor coisa do mundo, isso vale muito mais para mim do que qualquer prêmio ou nota perfeita numa revista. Música é uma extensão da experiência humana, e não é algo que pode ser adequadamente reduzido a uma nota de 0 a 10.

Há um festival no qual tocamos no Cidade do México, anos atrás. Tocamos no mesmo palco em que Alice Cooper tocou algumas horas depois. Fizemos sessão de autógrafos e as pessoas vieram compartilhar momentos muito profundos conosco. Um homem mais velho e uma moça mais jovem chegaram, era o pai dela. Eles tinham se afastado por algum motivo, e algo na nossa música os ajudou a se reconectar, e eles foram juntos ao show. Um pouco depois, outro cara veio e disse: 'Tenho que te mostrar um vídeo.' Era o filho dele, uns três anos de idade, fazendo o primeiro headbang ao som de uma música do Khemmis. Mesmo que essas pessoas nunca mais nos ouvissem, impactamos a vida delas,  e elas impactaram a minha. Aquilo foi há oito anos e ainda penso nisso.


A importância da arte na era digital

Olhando para a arte do álbum e todas as edições especiais, com letras, peças elaboradas de RPG.  Qual a importância que você dá para a arte nos dias atuais?

Ben: Extremamente importante. Qualquer músico que se preze e usa inteligência artificial para qualquer coisa deveria ter vergonha,  e todos nós deveríamos zoar e dar um pontapé neles. Simplesmente não faça isso. Quando ouço, sem citar nomes, mas certas bandas antigas de death metal que todos sabemos quem são,  dizerem 'os adiantamentos de álbum já não são o que eram, não podemos pagar um artista'... Calem a boca. Claro que podem. Há artistas em todo lugar que adorariam ter sua arte na capa de qualquer coisa, muito menos no novo lançamento de uma banda lendária.

A arte foi tão desvalorizada, especialmente na sociedade americana, mas também globalmente. Música, arte visual, fotografia, qualquer coisa que não seja vista como uma forma de ganhar muito dinheiro é chamada de hobby, algo que você deve superar. Apesar de a arte preceder o capitalismo ocidental, precede a industrialização. A arte faz parte da existência humana há tanto tempo,  muito mais tempo do que o conceito de dinheiro.

Olha, eu adoraria ter muito dinheiro. Mas nunca tive. Cresci pobre, ainda sou pobre, vou morrer pobre. Mas faço parte de uma comunidade de pessoas que compartilham a si mesmas através da arte. Colaborar com Christopher Remmers, que fez a arte do nosso disco, um artista incrível que nunca tinha feito uma capa de álbum de metal antes. O Phil literalmente foi com ele para as matas do estado de Washington, coletaram cogumelos, troncos e flores para criar as fotos de referência que ele usou para pintar. A esposa dele foi a modelo para a rainha guerreira na capa.

Quanto às coisas como o encarte com letras manuscritas, Knox Frager Artworks fez aquela caligrafia incrível à mão. Claro, poderíamos ter baixado uma fonte. Mas não: vamos contratar um artista, vamos dar dinheiro a ele, porque ele está colocando seu tempo, seu coração e amor neste projeto. O resultado final tem de ser algo que pareça humano e que evoque emoção na pessoa quando ela abrir o disco. Quando abri este gatefold pela primeira vez, chorei. Ver tudo isso junto... É emocionante.

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

A música que mais vai surpreender

Quando o álbum finalmente for lançado, qual faixa você acha que vai surpreender as pessoas?

Ben: Depende do que as pessoas esperam, mas acho que "Carrion King" vai surpreender muita gente, porque é a música mais pesada que já fizemos. Se as pessoas achavam que "Maw of Time" era pesada, esperem até ouvirem "Carrion King". Estou animado para tocar todas essas músicas ao vivo, mas essa em especial vai fazer as pessoas se moverem. Vai ter muito mosh, muito headbang.

E também "Tomb of Roses", acho que é talvez a música mais dinâmica do disco. Ela tem o meu destaque: é onde eu faço o solo de guitarra mais longo do álbum. Trabalhei muito naquele solo, passei meses escrevendo, e o Dave Otero, nosso produtor, se certificou de que eu o acertasse. Não sei quantas vezes toquei aquele solo, mas ele me fez acertar. E estou muito animado para as pessoas ouvirem.

Parabéns. Todas as músicas são incríveis. Obrigada pela entrevista, foi um prazer para nós da Road to Metal.

Ben: Paula, foi uma alegria conversar com você. Muito bom te conhecer. Você se saiu muito bem, tinha ótimas perguntas. E espero que a gente se veja quando formos ao Brasil. Não sei quando vamos ao Brasil, mas precisamos ir!

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