| Napalm Records (Imp.) |
Por Stephanie Ferreira - @instephanie
Há bandas que passam anos aperfeiçoando uma fórmula até transformá-la em assinatura. O desafio, depois disso, é conseguir permanecer reconhecível sem se tornar previsível. O Audrey Horne parece ter encontrado uma solução particularmente eficiente para esse problema: manter o DNA intacto enquanto muda constantemente a maneira de apresentá-lo.
Quatro anos depois de Devil’s Bell, a banda norueguesa retorna com Achilles, seu oitavo álbum de estúdio, lançado em 4 de setembro de 2026 pela Napalm Records. São onze faixas e pouco mais de 44 minutos em que Toschie, Ice Dale, Thomas Tofthagen, Espen Lien e Kjetil Greve percorrem hard rock, heavy metal, classic rock, melodias setentistas, AOR e algumas incursões mais progressivas sem permitir que o disco pareça uma coleção de referências.
A banda conhece Thin Lizzy, Led Zeppelin, AC/DC, Dio e Iron Maiden, mas não parece interessada em montar um museu dessas influências. As guitarras gêmeas de Ice Dale e Tofthagen são parte fundamental dessa identidade, enquanto Toschie continua sendo um dos grandes responsáveis por fazer o material soar imediatamente Audrey Horne. A produção, conduzida por Arve “Ice Dale” Isdal, também procura preservar uma qualidade mais orgânica e próxima da sensação de banda tocando junta.
Mas Achilles tem algo a mais. Por trás dos riffs e dos refrões feitos para serem cantados com uma cerveja levantada no meio da plateia, existe um disco atravessado por temas como guerra, polarização, fascismo, medo e fragilidade. O próprio título nasceu quase por acidente, mas acabou fazendo sentido quando a banda percebeu que a figura de Aquiles poderia ser relacionada às vulnerabilidades do mundo contemporâneo, especialmente em uma sociedade cada vez mais dependente de tecnologia e infraestrutura digital.
1. “Achilles”
A primeira impressão de Achilles é imediata: a banda não quer uma introdução longa para preparar o terreno. A faixa-título entra praticamente como uma declaração.
Guitarras pesadas, baixo bastante presente e uma bateria que rapidamente estabelece o tamanho da composição. Toschie aparece com aquela voz rouca e teatral que parece sempre estar a meio caminho entre cantar uma música e contar uma história.
Depois do impacto inicial, a música começa a abrir espaço para passagens mais atmosféricas e progressivas. As guitarras deixam de funcionar apenas como uma parede de peso e passam a construir camadas, enquanto a melodia ganha uma dimensão quase épica.
2. “In the Eye of the Hurricane”
Se a abertura é grandiosa, “In the Eye of the Hurricane” é onde o Audrey Horne começa a mostrar sua habilidade em transformar classic rock em algo extremamente moderno.
As guitarras gêmeas de Ice Dale e Thomas Tofthagen são imediatamente reconhecíveis. Existe aquela influência de Thin Lizzy e Wishbone Ash nas harmonias, mas também uma espécie de brilho AOR que remete ao hard rock do final dos anos 1970 e começo dos 1980.
Toschie canta com bastante espaço, deixando que o refrão seja realmente o centro da composição. E esse é um daqueles refrões que parecem ganhar tamanho cada vez que retornam. A faixa tem uma qualidade muito “de palco”.
3. “Vampires”
“Vampires” é onde o álbum começa a ficar perigosamente viciante. O riff é simples o suficiente para entrar imediatamente na cabeça, mas não tão simples a ponto de parecer descartável. Existe groove, existe espaço e existe aquele tipo de melodia que parece pedir uma plateia inteira cantando junto.
4. “God Damn Beautiful”
Aqui acontece uma das melhores surpresas do álbum: Espen Lien assume os vocais.
E o mais interessante é que a música não soa como uma interrupção na identidade do Audrey Horne. Pelo contrário: parece uma peça que estava faltando. “God Damn Beautiful” tem uma influência de Thin Lizzy particularmente evidente, tanto no trabalho das guitarras quanto na forma como a melodia se desenvolve. Mas o elemento que realmente a diferencia é a voz de Lien. Ela é menos teatral do que a de Toschie e possui um caráter mais direto, quase casual. Isso combina perfeitamente com a música.
5. “Pretty Little Lies”
Depois de quatro faixas essencialmente construídas para levantar o público, “Pretty Little Lies” muda completamente o clima. E é uma mudança necessária.
A música é uma balada, mas não exatamente aquela balada de power metal construída para esperar o grande solo final. Toschie canta de maneira mais contida, deixando que a fragilidade da interpretação ocupe o primeiro plano. A guitarra limpa cria espaço e a música cresce aos poucos até alcançar um final mais dramático. É provavelmente uma das melhores performances vocais do álbum.
6. “Prodrome”
“Prodrome” é minúscula. Um minuto e três segundos. E, justamente por isso, seria muito fácil perguntar por que ela está aqui.
A resposta está na posição. Depois de “Pretty Little Lies”, a faixa funciona como uma pequena passagem instrumental que prepara o terreno para “Insanity”. Em vez de avaliá-la isoladamente, ela funciona como uma dobradiça dentro do álbum.
7. “Insanity”
E então o Audrey Horne pisa no acelerador. “Insanity” é provavelmente a faixa em que o peso do Achilles aparece com maior clareza.
O riff tem aquela sensação de cavalgada típica do heavy metal britânico, as guitarras trabalham harmonias mais agressivas e Kjetil Greve conduz tudo com uma bateria que parece empurrar a música para frente a cada compasso.
A comparação com Iron Maiden não é gratuita. A música foi concebida como uma espécie de prequela de “Hallowed Be Thy Name”, e essa influência aparece não apenas na velocidade, mas na própria construção narrativa.
8. “Hell Is Eternity”
“Hell Is Eternity” começa com uma das linhas de baixo mais interessantes do disco. E isso não é um detalhe pequeno.
O baixo de Espen Lien recebe bastante espaço na mixagem e cria um groove que segura a música enquanto as guitarras entram aos poucos. Depois, o Audrey Horne começa a acelerar. Existe novamente aquela sensação de Iron Maiden, mas a música tem uma pegada mais hard rock e menos puramente heavy metal.
9. “Six Feet in the Ground”
“Six Feet in the Ground” volta a diminuir a velocidade, mas não perde peso. Existe uma melancolia evidente na composição, especialmente nas linhas vocais.
O trabalho de guitarra limpa cria um contraste interessante com os momentos mais pesados, e o baixo novamente aparece com bastante personalidade. É uma música que parece mais introspectiva.
10. “Running Through the Night”
Se havia alguma dúvida de que o Iron Maiden estava entre as referências mais fortes desse álbum, “Running Through the Night” resolve.
A música começa com uma energia que lembra imediatamente o heavy metal britânico dos anos 1980, inclusive na maneira como as guitarras constroem aquela sensação de corrida permanente. As guitarras têm aquele caráter melódico que é próprio da banda, enquanto Toschie transforma a velocidade em uma espécie de narrativa.
11. “New Star Falling”
Fechar um álbum de hard rock com uma power ballad é uma decisão que poderia facilmente soar previsível. “New Star Falling” consegue escapar disso.
A música começa melódica, quase contemplativa, e vai crescendo gradualmente até chegar a um final que utiliza novamente o trabalho de guitarras duplas de maneira muito eficiente. Toschie está especialmente confortável aqui. Sua voz tem espaço para crescer junto com o arranjo, e a música não tenta acelerar o processo.
Confira a tracklist completa de Achilles:
1. Achilles
2. In the Eye of the Hurricane
3. Vampires
4. God Damn Beautiful
5. Pretty Little Lies
6. Prodrome
7. Insanity
8. Hell Is Eternity
9. Six Feet in the Ground
10. Running Through the Night
11. New Star Falling
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