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sábado, 10 de outubro de 2026

Cobertura de Show: Angra – 03/10/2026 – Tokio Marine Hall/SP

Existem discos que simplesmente fazem parte da história de uma banda. E existem aqueles que representam um verdadeiro recomeço. Rebirth, lançado pelo Angra em 2001, pertence à segunda categoria. 25 anos depois, o álbum continua carregando um significado especial para os fãs e para a própria trajetória do grupo. Foi justamente essa história de reconstrução que tomou conta do Tokio Marine Hall, em São Paulo, no dia 3 de outubro.

Depois de uma primeira noite dedicada aos 30 anos de Holy Land, o Angra voltou ao palco para revisitar outra fase fundamental de sua carreira. Desta vez, a celebração tinha como personagem principal Rebirth e, como convidado mais do que especial, Edu Falaschi, vocalista que registrou o álbum originalmente. A proposta tinha tudo para ser uma viagem nostálgica, mas acabou funcionando também como uma demonstração de que determinadas músicas conseguem atravessar gerações sem perder força.

Antes do Angra, duas bandas ajudaram a preparar o terreno para uma noite que seria marcada pelo power metal e por muita história.

A primeira foi a Storia. Formada em 2023, a banda vem construindo sua identidade a partir de uma combinação de power metal, elementos progressivos e uma proposta conceitual. Com Pedro Torchetti nos vocais, o grupo aproveitou os poucos minutos disponíveis para apresentar sua sonoridade a um público que ainda chegava ao Tokio Marine Hall. Foi uma abertura objetiva e eficiente, mostrando que existe uma nova geração disposta a manter viva a tradição do metal melódico brasileiro.

Na sequência, foi a vez do Hibria, uma das bandas mais importantes do heavy metal brasileiro das últimas três décadas. E havia uma atração especial naquela apresentação: Angelo Parisotto como novo vocalista da banda, indicado por Alírio Netto, que é seu professor de canto. A banda já havia apresentado Angelo no Bangers Open Air de 2025, iniciando oficialmente uma nova etapa na história do grupo.

A mudança de vocalista é sempre um momento delicado para qualquer banda com uma discografia tão consolidada quanto a do Hibria. Afinal, a voz de Iuri Sanson esteve diretamente associada a alguns dos principais trabalhos do grupo. Mas Parisotto deixou claro, desde os primeiros minutos, que não chegou para simplesmente reproduzir o passado. Com presença de palco, personalidade e, principalmente, segurança nos registros mais agudos, o novo vocalista mostrou que possui recursos para imprimir sua própria identidade ao repertório.

O Hibria aproveitou a oportunidade para apresentar ao público parte dessa nova fase, marcada pelo recém-lançado On the Shortness of Life, oitavo álbum de estúdio da banda. “Pulse”, faixa que abre o disco, esteve no repertório e serviu como uma espécie de cartão de visitas para Parisotto. A música evidencia a combinação de peso, precisão e velocidade que continua sendo uma das marcas registradas do Hibria, mas também aponta para uma banda interessada em olhar para frente.

E, se a novidade estava no vocalista, a segurança instrumental continuava intacta. Guitarras, baixo e bateria trabalharam com a precisão que o público já conhece do Hibria, deixando claro por que o grupo conquistou reconhecimento muito além das fronteiras brasileiras. A banda chegou a fazer turnês pelo Japão, Canadá, Europa e outros países da Ásia, construindo, ao longo de 30 anos, uma trajetória internacional que nem sempre recebe, no Brasil, o reconhecimento proporcional à sua importância.

O repertório recente também dialoga com uma história que inclui músicas como “Shoot Me Down”, “Silent Revenge”, “Against the Wall” e “Millennium Quest”, presentes em apresentações recentes da banda. Em São Paulo, porém, o destaque ficou especialmente para “Pulse”, que funcionou como uma amostra concreta do que o Hibria pretende construir daqui para frente.

Mais do que uma simples banda de abertura, o Hibria entrou no palco com a responsabilidade de apresentar uma nova identidade ao público. E Angelo Parisotto passou pelo teste com méritos. Ainda é cedo para saber exatamente até onde essa nova formação poderá levar a banda, mas a impressão deixada no Tokio Marine Hall foi bastante positiva: o Hibria continua tendo músicos de altíssimo nível e, com um vocalista que demonstra personalidade própria, tem todos os elementos para iniciar um novo capítulo sem precisar renegar aquilo que construiu até aqui.

Com o público devidamente aquecido, chegava finalmente a hora do Angra.

E o início não poderia ser mais simbólico. “Crossing” abriu a apresentação, seguida por “Nothing to Say”, estabelecendo imediatamente a conexão entre diferentes períodos da carreira. “Tide of Changes” trouxe o Angra contemporâneo para dentro de uma noite essencialmente retrospectiva, mostrando que a voz de Alírio Netto se encaixou perfeitamente, inclusive ficando melhor do que a original, na opinião deste que vos escreve. Enquanto isso, “Waiting Silence” e “Millennium Sun” prepararam o terreno para a sequência mais pesada e celebrada do repertório.

Quando “Acid Rain” surgiu, ficou evidente que a proposta não seria simplesmente colocar Rebirth para tocar do início ao fim. O Angra construiu um espetáculo que utilizou o aniversário do álbum como eixo central, mas sem abrir mão de outras músicas fundamentais de sua trajetória.

“Wuthering Heights”, composição de Kate Bush que ganhou uma marcante versão do Angra com o saudoso Andre Matos, foi outro momento especial. Depois vieram “Unholy Wars”, “Lisbon” e “Judgement Day”, mantendo a apresentação em um nível elevado de intensidade.

“Stand Away” trouxe novamente uma conexão com o passado mais distante da banda, enquanto “Bleeding Heart” apareceu em uma interpretação conduzida por Alírio Netto ao piano, que dizia ter sido de improviso. Por favor, Alírio, improvise mais assim!

E é justamente aqui que um dos grandes méritos da noite se torna evidente: o Angra atual não tentou apagar sua própria história em nome da nostalgia. Ao contrário, colocou sua formação presente dentro dessa história.

“Visions Prelude” abriu o caminho para uma sequência que certamente estava entre as mais aguardadas pelo público.

A grande virada emocional da noite, naturalmente, aconteceu quando chegou o momento de receber Edu Falaschi. Então vieram “Heroes of Sand”, “Rebirth” e “Nova Era”.

Para quem acompanhou o Angra no início dos anos 2000, era praticamente impossível não reconhecer, naquele momento, uma fotografia de uma época inteira. “Nova Era”, principalmente, continua sendo uma daquelas músicas que ultrapassaram a condição de faixa de álbum para se transformar em símbolo de uma geração de fãs.

Mas talvez o mais interessante tenha sido perceber que o encontro não se resumiu a uma simples reprodução do passado.

Edu Falaschi voltou ao palco não como alguém tentando recriar 2001, mas como parte viva da história do Angra. Ao lado da formação atual, sua participação transformou aquelas músicas em um encontro entre passado e presente. E isso fez toda a diferença.

A atual formação do Angra — Alírio Netto, Rafael Bittencourt, Marcelo Barbosa, Felipe Andreoli e Bruno Valverde — mostrou que a banda não está presa ao seu passado. Alírio, em particular, ocupa uma posição naturalmente desafiadora: interpretar músicas que foram eternizadas por diferentes vocalistas e, ao mesmo tempo, construir sua própria identidade dentro de uma banda cuja história é tão pesada quanto a sua discografia.

O encerramento foi reservado para “Carry On”, novamente com Edu Falaschi, o que não havia sido combinado previamente. Porém, devido ao ótimo clima em cima do palco, Edu decidiu se unir à banda novamente para encerrar a noite.

Não poderia existir escolha mais adequada. Se Rebirth simbolizava um recomeço para o Angra, “Carry On” representa algo ainda maior: a capacidade de seguir adiante.

E talvez essa seja justamente a melhor maneira de definir a noite de 3 de outubro.

Mais do que uma celebração de 25 anos de um disco, o show no Tokio Marine Hall foi uma celebração da capacidade de transformação do Angra. Rebirth nasceu em um momento de ruptura e reconstrução. Um quarto de século depois, suas músicas continuam sendo capazes de reunir diferentes gerações de fãs diante do mesmo palco.

A noite também mostrou que memória e continuidade não precisam ser conceitos opostos. O Angra pode olhar para trás sem deixar de caminhar para frente.

Angra – 25 anos de Rebirth. Uma história que, definitivamente, ainda não terminou.


Texto: Anderson Bellini

Fotos: Pri Secco


Realização: Top Link Music


Angra – Setlist:

Crossing

Nothing to Say

Tide of Changes

Waiting Silence

Millennium Sun

Acid Rain

Wuthering Heights

Unholy Wars

Lisbon

Judgement Day

Stand Away

Bleeding Heart

Running Alone

Visions Prelude

Angels and Demons

Heroes of Sand

Rebirth

Nova Era

Unfinished Allegro

Carry On

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