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sábado, 3 de outubro de 2026

Voodoo Highway: De Volta às Raízes de Sempre (Also In English)

Pride And Joy Music (Imp.),

Por Flavio Borges 

Há bandas que revisitam o passado por nostalgia. Outras simplesmente parecem ter nascido na década errada. O Voodoo Highway pertence a uma terceira categoria: conhece profundamente a tradição do hard rock, não faz questão de escondê-la e, justamente por isso, consegue transformar referências clássicas em algo que soa genuinamente seu.

The Satan Inqviesta marca o retorno do grupo italiano aos álbuns de estúdio depois de quase uma década. E, se havia alguma dúvida sobre o caminho que a banda pretendia seguir, ela desaparece logo nos primeiros acordes. O Voodoo Highway não está interessado em modernizar artificialmente sua sonoridade, tampouco em transformar o passado em uma peça de museu. Seu território continua sendo aquele em que riffs pesados, groove, melodias fortes e uma boa dose de teatralidade convivem com a tradição do hard rock britânico.

Deep Purple, Rainbow, Uriah Heep, Led Zeppelin e Whitesnake são referências fáceis de identificar, mas o mérito está justamente em como elas são utilizadas. O Voodoo Highway conhece sua linhagem, mas não se limita a reproduzi-la. Há algo de muito natural na maneira como a banda combina hard rock setentista, blues rock, heavy metal tradicional e elementos mais melódicos. Não existe a necessidade de demonstrar o tempo todo de onde vieram suas influências — elas simplesmente fazem parte do DNA do grupo.

E se há um elemento capaz de traduzir essa personalidade, é o Hammond de Massimiliano Sabbadini.

Mais do que uma assinatura sonora, o instrumento funciona quase como um segundo protagonista. Sabbadini sabe quando ocupar o primeiro plano e quando recuar, criando diferentes texturas ao longo do álbum. Em alguns momentos, o Hammond assume o comando e estabelece um verdadeiro duelo com as guitarras de Filippo Romeo; em outros, permanece discretamente à margem, acrescentando atmosfera e profundidade. Essa versatilidade é talvez o maior trunfo instrumental de The Satan Inqviesta.

É uma diferença importante. Muitas bandas que trabalham com o hard rock clássico utilizam o Hammond como um recurso estilístico quase obrigatório. Aqui, ele é parte orgânica da composição. Está presente sem jamais se tornar repetitivo, e suas diferentes sonoridades são utilizadas de acordo com aquilo que cada música pede.

A abertura, October's Rust, apresenta imediatamente esse universo, combinando riffs robustos, Hammond em evidência e uma melodia que aproxima o hard rock setentista de uma sensibilidade mais melódica. Space Invaders leva essa fórmula ainda mais longe e talvez seja a faixa que melhor sintetiza a identidade do álbum: guitarra e órgão disputando espaço, groove consistente e aquela atmosfera que remete diretamente à escola britânica dos anos 1970.

Mas o disco não depende exclusivamente do peso. A Song Of May mostra um Voodoo Highway mais contemplativo e melódico, enquanto 60k Degrees mergulha com mais intensidade no blues rock. Já a faixa-título acrescenta uma dimensão mais teatral e sombria ao repertório, explorando o imaginário ocultista que acompanha o álbum sem sacrificar sua objetividade.

Outro aspecto que merece atenção é a voz de Federico Di Marco. Seu desempenho está longe de seguir uma única fórmula. O vocal é moldado de acordo com cada composição, tanto em timbre quanto em intensidade, evitando aquela abordagem excessivamente uniforme que muitas vezes aparece em discos de hard rock. Di Marco não tenta dominar as músicas a qualquer custo; sua voz funciona como mais um instrumento dentro dos arranjos, encontrando o tom adequado para cada momento.

Essa ausência de exageros é uma das qualidades do álbum. The Satan Inqviesta não precisa de grandes demonstrações técnicas para chamar atenção. A banda parece muito mais interessada em fazer as músicas funcionarem — e elas funcionam justamente porque cada elemento ocupa seu espaço.

Isso não significa que o disco seja perfeito. A mesma fidelidade às raízes que constitui sua força também estabelece seus limites. Quem procura inovação ou uma ruptura significativa com os cânones do hard rock encontrará poucas surpresas. Alguns refrãos e estruturas caminham por terrenos bastante conhecidos, e faixas como Serpent's Choir, Your Love Is Such A Tease e The Lord Of Flies não atingem o mesmo impacto dos melhores momentos do álbum.

Mas há uma diferença importante entre previsibilidade e falta de personalidade. O Voodoo Highway pode até trabalhar com fórmulas conhecidas, mas sabe fazê-lo com convicção e, principalmente, com músicos que parecem genuinamente envolvidos com aquilo que estão tocando.

E essa sensação atravessa todo o disco.

Existe prazer em tocar em The Satan Inqviesta. Ele está nos riffs, na bateria, nas intervenções do Hammond, na maneira como as guitarras se encontram e, sobretudo, na forma como as músicas respiram. A banda não parece preocupada em provar que consegue tocar hard rock à moda antiga. Simplesmente parece gostar de fazê-lo.

Também ajuda o fato de o álbum ser direto. Com aproximadamente meia hora de duração, The Satan Inqviesta apresenta suas ideias sem excessos e encerra a viagem antes que a fórmula tenha tempo de se desgastar. É uma qualidade cada vez mais rara em lançamentos contemporâneos e que combina perfeitamente com a proposta do grupo.

No fim das contas, The Satan Inqviesta não pretende reinventar o hard rock — e talvez seja justamente por isso que funcione tão bem. O Voodoo Highway entende que suas referências não precisam ser escondidas para que sua música tenha personalidade. Pelo contrário: ao assumir sua herança, a banda consegue trabalhar dentro dela com segurança, espontaneidade e identidade.

Depois de quase uma década desde seu último álbum de estúdio, o retorno poderia ter vindo acompanhado de concessões ou de uma tentativa de acompanhar tendências. Não é o caso. O Voodoo Highway volta exatamente onde parece se sentir mais confortável: entre guitarras carregadas de riffs, vocais bem colocados, blues, groove e um Hammond que continua sendo uma de suas armas mais poderosas.

The Satan Inqviesta não olha para o passado com nostalgia. Olha para ele com conhecimento. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.

***ENGLISH VERSION***

Some bands revisit the past out of nostalgia. Others simply seem to have been born in the wrong decade. Voodoo Highway belongs to a third category: a band that understands the traditions of hard rock inside out, makes no attempt to hide them and, precisely because of that, manages to turn classic influences into something that feels genuinely its own.

The Satan Inqviesta marks the Italian band's return to the studio after almost a decade. And if there was ever any doubt about which direction Voodoo Highway intended to take, it disappears within the first few chords. This is not a band interested in artificially modernising its sound, nor in turning the past into a museum piece. Their territory remains one where heavy riffs, groove, strong melodies and a healthy dose of theatricality coexist with the traditions of British hard rock.

Deep Purple, Rainbow, Uriah Heep, Led Zeppelin and Whitesnake are easy reference points to identify, but the real achievement lies in how those influences are used. Voodoo Highway knows its lineage, but never settles for simply reproducing it. There is something remarkably natural about the way the band combines '70s hard rock, blues rock, traditional heavy metal and more melodic elements. There is no need to constantly prove where the influences came from — they are simply part of the band's DNA.

And if there is one element capable of translating that personality, it is Massimiliano Sabbadini's Hammond organ.

More than just a sonic trademark, the instrument almost becomes a second protagonist. Sabbadini knows when to step into the spotlight and when to pull back, creating a variety of textures throughout the album. At times, the Hammond takes command and engages in a genuine duel with Filippo Romeo's guitars; elsewhere, it remains subtly in the background, adding atmosphere and depth. That versatility may well be The Satan Inqviesta's greatest instrumental strength.

It is an important distinction. Many bands working within classic hard rock use the Hammond almost as an obligatory stylistic device. Here, it is an organic part of the songwriting. It is always present without ever becoming repetitive, and its different tones are deployed according to what each song demands.

The opening track, October's Rust, immediately establishes this territory, combining muscular riffs, prominent Hammond and a melody that brings '70s hard rock closer to a more melodic sensibility. Space Invaders takes the formula even further and may be the track that best encapsulates the album's identity: guitar and organ fighting for space, a solid groove and an atmosphere that points directly back to the British school of the 1970s.

But the album does not rely solely on weight. A Song Of May reveals a more contemplative and melodic side of Voodoo Highway, while 60k Degrees dives deeper into blues rock. The title track, meanwhile, adds a darker, more theatrical dimension to the record, exploring the occult imagery surrounding the album without sacrificing the band's direct approach.

Another aspect worth highlighting is Federico Di Marco's vocal performance. His delivery never follows a single formula. The vocals are shaped around each composition, both in tone and intensity, avoiding the overly uniform approach that can often appear on hard rock records. Di Marco never tries to overpower the songs; instead, his voice functions as another instrument within the arrangements, finding the right character for each moment.

That lack of excess is one of the album's strengths. The Satan Inqviesta does not need flashy displays of technical ability to make an impression. Voodoo Highway seems far more interested in making the songs work — and they do, precisely because every element is given room to breathe.

That does not mean the album is flawless. The same devotion to its roots that gives the record its strength also defines its limitations. Anyone looking for innovation or a significant break with the conventions of hard rock will find few surprises here. Some choruses and structures travel well-worn paths, while tracks such as Serpent's Choir, Your Love Is Such A Tease and The Lord Of Flies do not quite match the impact of the album's strongest moments.

But there is an important difference between predictability and a lack of personality. Voodoo Highway may be working with familiar formulas, but they do so with conviction and, above all, with musicians who sound genuinely invested in what they are playing.

And that feeling runs throughout the record.

There is a real sense of enjoyment in The Satan Inqviesta. You can hear it in the riffs, the drums, the Hammond passages, the way the guitars interact and, above all, in the way the songs are allowed to breathe. The band never sounds as though it is trying to prove that it can play old-school hard rock. It simply sounds like a band that loves doing it.

The album's directness also works in its favour. At roughly half an hour, The Satan Inqviesta presents its ideas without excess and gets out before the formula has a chance to wear thin. That is an increasingly rare quality in contemporary releases, and one that suits the band's approach perfectly.

Ultimately, The Satan Inqviesta does not attempt to reinvent hard rock — and perhaps that is precisely why it works so well. Voodoo Highway understands that its influences do not have to be concealed for its music to have personality. On the contrary, by embracing its heritage, the band is able to work within it with confidence, spontaneity and identity.

Almost a decade after their previous studio album, the comeback could have arrived with concessions or an attempt to follow current trends. It does not. Voodoo Highway returns to the place where it seems most comfortable: somewhere between riff-driven guitars, well-judged vocals, blues, groove and a Hammond organ that remains one of its most powerful weapons.

The Satan Inqviesta does not look to the past with nostalgia. It looks back with knowledge. And there is a world of difference between the two.

Divulgação 



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