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sábado, 24 de outubro de 2026

Cobertura de Show: Amorphis – 18/10/2026 – Carioca Club/SP

Entre o peso e a melodia, Amorphis transforma o Carioca Club em um reencontro de emoções

A noite de domingo tinha uma ansiedade pairando no ar. Depois de tanta expectativa, finalmente havia chegado o dia de receber o Amorphis em São Paulo. O encontro era aguardado por fãs que acompanham diferentes capítulos da trajetória dos finlandeses, que construíram uma identidade própria ao longo de mais de três décadas e que seguem encontrando maneiras de conectar peso, melodia e atmosferas que parecem transportar o ouvinte para outro lugar. No Carioca Club, em Pinheiros, o prelúdio daquela noite já anunciava que estávamos diante de mais um daqueles encontros marcantes para os amantes do metal melódico.

A apresentação fazia parte da passagem brasileira da turnê Borderland, que leva aos palcos a fase mais recente da banda sem deixar de lado composições que ajudaram a consolidar seu nome na história do metal. A expectativa, portanto, envolvia tanto a oportunidade de ouvir o material mais novo ao vivo quanto a possibilidade de reencontrar músicas que acompanham os fãs há anos. Com a casa relativamente cheia e o público começando a se preparar para uma noite de muito peso, a abertura ficou por conta do Throw Me to the Wolves, representante da nova geração do metal brasileiro.


Throw Me to the Wolves: técnica e peso surpreendentes

Foi a primeira vez que assisti a um show do Throw Me to the Wolves e confesso que a impressão deixada pela banda foi bastante positiva. O quinteto paulistano trabalha com uma combinação de death metal melódico e elementos de metalcore, equilibrando agressividade, riffs marcantes e passagens melódicas. Em uma abertura, existe o desafio de conquistar a atenção de um público que, muitas vezes, já chega com a cabeça voltada para a atração principal. A banda, porém, demonstrou qualidade técnica e presença suficientes para transformar aquele primeiro contato em uma experiência que merece ser destacada por conta própria.

Diogo Nunes foi um dos grandes responsáveis por essa impressão. O vocalista tem um domínio impressionante das diferentes possibilidades da própria voz e consegue transitar por registros extremos com intensidade e segurança. É daqueles casos em que assistir à performance ao vivo ajuda a compreender a dimensão do trabalho vocal, porque a execução acontece diante dos nossos olhos, sem que seja possível ignorar o esforço, o controle e a expressividade envolvidos. O que Diogo faz com a voz é absurdo, absurdo, absurdo! 

Na bateria, Maycon Avelino sustentou a apresentação com consistência, precisão e uma cadência que se manteve firme do início ao fim. Em um repertório que exige bastante da execução rítmica, a bateria tem papel fundamental para manter o peso sem comprometer a clareza dos arranjos. Foi justamente essa segurança que me chamou a atenção, especialmente pela maneira como a base se manteve coesa enquanto os demais instrumentos exploravam suas possibilidades.

As guitarras de Gui Calegari e Fabrício Fernandes também merecem destaque. Os dois demonstraram entrosamento e domínio técnico, alternando riffs pesados e linhas melódicas que ajudam a definir a sonoridade do grupo. Além da execução, vale registrar um detalhe que chama a atenção de quem acompanha o universo das guitarras: ambos estavam tocando instrumentos da Solar Guitars. A presença dos instrumentos da marca no palco soma um elemento interessante à apresentação, mas o que realmente se sobressaiu foi a maneira como os guitarristas conduziram o material, com firmeza e boa articulação entre as partes.

Fábio Fulini, por sua vez, completou a formação no baixo, contribuindo para a sustentação de uma base que precisa acompanhar a intensidade das guitarras e da bateria sem perder definição. O conjunto funcionou muito bem, e essa combinação entre os músicos ajudou a dar corpo à apresentação. Saí daquele primeiro contato com a sensação de ter descoberto uma banda que merece ser acompanhada de perto, principalmente por quem procura nomes da cena nacional capazes de unir técnica, peso e identidade.

O Throw Me to the Wolves cumpriu a missão de aquecer a noite, mas foi além do papel protocolar de banda de abertura. Para mim, a apresentação serviu como uma excelente oportunidade de conhecer o trabalho do grupo em seu ambiente mais natural, o palco. E, considerando a qualidade demonstrada pelos músicos, fica a curiosidade para acompanhar os próximos passos dessa trajetória.


Amorphis: uma noite de peso, atmosfera e conexão com o público

Depois da abertura, a expectativa voltou a tomar conta do Carioca Club. O intervalo parecia aumentar a ansiedade de quem aguardava a atração principal, e o início do jogo de luzes foi o sinal de que a espera estava chegando ao fim. Então, entre o apagar e o acender das luzes, a magia começou: o Amorphis subiu ao palco e deu início a uma apresentação que tinha tudo para ser especial.

Desde o começo, era possível perceber o quanto aquele encontro significava para as pessoas presentes. Havia uma vontade evidente de acompanhar cada música, reconhecer as passagens, cantar junto e fazer parte daquele momento. A energia que vinha da plateia ajudou a estabelecer o tom do espetáculo, criando uma relação de proximidade entre banda e público que se manteve ao longo da apresentação. Em vez de uma audiência que apenas observa o que acontece no palco, o Carioca Club se tornou parte ativa daquela experiência, respondendo às músicas e demonstrando o quanto a obra dos finlandeses encontra espaço na vida de quem os acompanha.

Uma das características mais interessantes do Amorphis é a capacidade de trabalhar com contrastes sem perder a própria identidade. Embora o grupo tenha raízes importantes no death metal melódico, sua trajetória passou por transformações que ampliaram consideravelmente o repertório sonoro. Hoje, o peso convive com melodias elaboradas, elementos progressivos, passagens atmosféricas e referências ao folclore finlandês, especialmente à tradição mitológica e poética do Kalevala. Essa combinação faz com que a música da banda tenha uma dimensão narrativa muito particular, alternando momentos de maior agressividade com trechos que parecem convidar o ouvinte a mergulhar em outra paisagem.

Ao vivo, essa identidade ganha força justamente pela maneira como os diferentes elementos se complementam. As guitarras dão sustentação ao peso e às melodias, enquanto os arranjos ampliam a sensação de atmosfera sem retirar a intensidade das composições. A voz de Tomi Joutsen também é fundamental para essa dinâmica, pela capacidade de transitar entre os registros extremos e melódicos que fazem parte da personalidade do Amorphis. Essa alternância ajuda a construir a tensão e a profundidade das músicas, permitindo que a banda explore diferentes intensidades sem perder a conexão com quem está diante do palco.

O repertório percorreu diferentes momentos da discografia, combinando faixas mais recentes com composições que já ocupam um lugar especial na história do grupo. A abertura com “Bones”, seguida por “Light and Shadow” e “Silver Bride”, estabeleceu uma sequência que reuniu diferentes aspectos da identidade musical da banda. “Wrong Direction” e “Death of a King” deram continuidade a essa construção, enquanto “Fog to Fog” ajudou a conduzir o espetáculo por outras nuances do repertório.

Ao longo da apresentação, músicas como “The Castaway”, “The Lantern” e “The Moon” ampliaram esse percurso, evidenciando como o Amorphis consegue explorar diferentes atmosferas sem abandonar a força das guitarras e da base rítmica. Já “Sampo” trouxe ao repertório uma composição que dialoga diretamente com as referências mitológicas presentes na obra do grupo. Essa ligação com a tradição cultural finlandesa é um dos elementos que tornam a banda tão particular, porque suas músicas frequentemente ultrapassam a experiência imediata do peso e da melodia para construir imagens, narrativas e sensações.

A apresentação também reservou espaço para momentos importantes da trajetória do Amorphis, incluindo “The Smoke”, “Magic and Mayhem” e “Black Winter Day”, esta última acompanhada de um trecho de “My Kantele”. A presença dessas composições ajudou a aproximar diferentes fases da carreira, lembrando que a identidade atual da banda foi construída a partir de uma trajetória de experimentação e mudanças. Para os fãs que acompanham o grupo há mais tempo, são músicas que carregam o peso da história; para quem se aproximou da banda em fases posteriores, representam a oportunidade de conhecer melhor as raízes de uma sonoridade que continua em transformação.

“Dancing Shadow” e “House of Sleep” conduziram o repertório para seus momentos finais, antes de “The Bee” encerrar a apresentação no bis. A escolha das músicas permitiu que a noite transitasse entre diferentes facetas do Amorphis, mantendo o equilíbrio entre o peso, a melodia e as passagens mais envolventes. Ao observar a resposta do público, ficava evidente que o repertório não era composto apenas por canções reconhecíveis, mas por músicas que carregam significados diferentes para cada pessoa presente.

E talvez seja justamente essa a força de uma banda que atravessou tantas fases sem perder sua personalidade. O Amorphis não depende de uma única fórmula para construir sua música. Existe espaço para a agressividade, para a contemplação, para a melodia e para os arranjos mais elaborados, e tudo isso se encontra em uma identidade que permanece reconhecível. A apresentação no Carioca Club mostrou como esses elementos funcionam juntos e como a relação construída com os fãs continua sendo parte essencial dessa experiência.

Outro detalhe importante desta passagem foi a presença de Pyry Hanski no baixo. O músico, que também integra a banda finlandesa ...And Oceans, acompanhou o Amorphis nesta etapa da turnê, substituindo temporariamente Olli-Pekka Laine. Mesmo com a alteração na formação, a apresentação manteve a força coletiva que sustenta a sonoridade do grupo. É um lembrete de que as turnês também envolvem adaptações e circunstâncias pessoais, enquanto a música precisa seguir encontrando seu caminho até o público.

Quando a música também encontra a nossa história

Para mim, entretanto, aquela noite teve uma camada adicional de significado. O show do Amorphis carregava um apelo emocional ligado a questões pessoais, algo que tornou a experiência particularmente intensa. Há momentos em que o trabalho de cobertura nos coloca diante de uma banda que admiramos, e precisamos observar a apresentação com atenção aos detalhes, à execução, ao repertório e à resposta da plateia. Mas também existem noites em que a relação pessoal com a música atravessa esse olhar profissional e transforma a experiência em algo difícil de traduzir apenas por critérios técnicos.

Ao fim, o Amorphis deixou a impressão de uma noite marcada pela entrega, pela consistência musical e pela conexão com os fãs. O domingo terminou, mas a experiência permaneceu. E talvez seja essa a melhor maneira de definir o que aconteceu no Carioca Club: uma noite em que o peso e a melodia encontraram espaço para caminhar juntos, enquanto a música fazia aquilo que sabe fazer tão bem, aproximar pessoas, despertar lembranças e criar novas histórias.





Realização: Bangers Open Air


Throw Me to the Wolves – setlist:

Chaos

Days of Retribution

Fragments

Angels Fall

Forsaken Fears

Tartarus

Gaia


Amorphis – setlist:

Bones

Light and Shadow

Silver Bride

Wrong Direction

Death of a King

Fog to Fog

Thousand Lakes

The Castaway

The Lantern

The Moon

Sampo

The Smoke

Black Winter Day

Dancing Shadow

House of Sleep

Bis

The Bee

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