Por: Renato Sanson
Há discos que são feitos para serem apreciados. Outros, para serem compreendidos. E existem aqueles que parecem ter sido concebidos justamente para causar desconforto. Martyr of Disbelief (The Exposure), debut da banda gaúcha Torches of Nero, pertence claramente à terceira categoria.
Desde os primeiros acordes, fica evidente que não estamos diante de uma banda preocupada em tornar seu Black Metal mais palatável, moderno ou comercial. Muito pelo contrário. O que existe aqui é uma proposta crua, agressiva e deliberadamente indigesta, como se o grupo tivesse decidido registrar sua essência da maneira mais direta possível e deixado que o ouvinte lidasse com as consequências.
Gravado ao vivo em estúdio, o álbum carrega justamente essa sensação de urgência. Não há aquela preocupação excessiva em polir arestas, corrigir imperfeições ou transformar a música em um produto tecnicamente impecável. O som respira, range, incomoda e, principalmente, transmite a sensação de uma banda tocando diante de você. É justamente nessa aparente falta de preocupação com a perfeição que está boa parte da força do trabalho.
E talvez a palavra “primitivo” seja uma das que melhor definem Martyr of Disbelief (The Exposure). Mas seria injusto resumir o álbum simplesmente ao Black Metal cru de suas raízes. A Torches of Nero mergulha em diferentes referências, indo do extremismo mais rudimentar às sonoridades do Punk e Hardcore finlandês, criando uma mistura que poderia facilmente resultar em algo confuso.
Só que não resulta. É justamente aí que está um dos grandes méritos da banda.
Todas essas influências parecem ser absorvidas e transformadas em algo próprio. Não há a sensação de uma banda simplesmente reproduzindo suas referências favoritas. O resultado possui personalidade suficiente para que, depois de poucos segundos, você consiga reconhecer quem está tocando. E essa é uma qualidade cada vez mais rara em um gênero onde tantas produções acabam soando como variações da mesma fórmula.
A Torches of Nero parece compreender que: identidade não necessariamente nasce da invenção de algo completamente novo, mas da maneira como determinadas influências são reorganizadas dentro de uma linguagem própria.
E a linguagem aqui é brutal. Martyr of Disbelief (The Exposure) não parece interessado em convidar o ouvinte para dentro de sua música. Ele parece querer arrombar a porta.
Existe uma atmosfera blasfema, agressiva e incômoda que percorre todo o trabalho. É aquele tipo de estética que pode causar estranhamento, ou até mesmo assustar, quem não está acostumado com os extremos do Metal. E isso não é uma crítica. É parte fundamental da proposta.
Aliás, talvez seja exatamente isso que faça falta em boa parte da música extrema contemporânea: a disposição de não agradar.
A Torches of Nero não parece preocupada em conquistar novos públicos, tocar em playlists ou suavizar sua identidade para alcançar o mainstream. O disco está confortavelmente distante de tudo isso. Existe uma espécie de orgulho em permanecer marginal, visceral e desconfortável.
E as letras acompanham essa proposta. Mais do que simplesmente utilizar temas controversos como recurso estético, o álbum trabalha com uma linguagem que provoca e questiona. São letras que colocam crenças, certezas e convicções diante do espelho e nem sempre o reflexo é confortável. O objetivo não parece ser oferecer respostas, mas provocar dúvidas.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças de Martyr of Disbelief (The Exposure): ele não quer que você apenas escute; quer que você reaja.
Outro capítulo à parte é a apresentação visual do material. A parte gráfica funciona quase como uma extensão sonora do álbum. As artes são provocativas, carregadas de simbolismo e dialogam diretamente com aquela tradição do Metal extremo oitentista em que capas, encartes e imagens não eram apenas complementos, mas parte fundamental da experiência.
Existe uma clara reverência ao passado, mas sem aquela nostalgia domesticada e inofensiva. A Torches of Nero recupera justamente o lado mais transgressor daquela estética: o blasfemo, o agressivo, o desconfortável e o proibido.
É como se o passado fosse revisitado não para ser reproduzido, mas para recuperar uma atitude que parece ter se perdido em boa parte da música extrema.
Torches of Nero não está tentando provar que sabe tocar Black Metal. Está tentando provar que ainda é possível fazer Black Metal com personalidade.
Martyr of Disbelief (The Exposure) está longe de ser um disco fácil. Não é música para qualquer momento, muito menos para qualquer ouvinte. É áspero, incômodo, agressivo e, em determinados momentos, desagradável.
Mas é justamente por isso que funciona. Porque existe verdade por trás da sujeira.
Em uma época em que até o underground pode parecer excessivamente calculado, produzido e preocupado com sua própria imagem, encontrar uma banda que simplesmente coloca sua música para fora sem pedir licença é algo revigorante.
O debut da Torches of Nero não quer sua aprovação. Quer sua atenção. E depois que os primeiros acordes começam, ignorá-lo se torna uma tarefa bastante difícil.
Mais um adendo importante: o álbum não consta em plataformas digitais. Somente em formato físico lançado pela Black Metal Store. Old school ao talo!

Nenhum comentário:
Postar um comentário