sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Entrevista - Jennifer Haben (Beyond The Black): Metal, Emoção e Conexão Global

Por Paula Butter

Beyond The Black, a banda de Metal Sinfônico alemã que tem agitado os palcos ao redor do mundo nos últimos anos, está na expectativa do lançamento de seu novo álbum, intitulado “Break the Silence”. Então, começamos 2026 com um grande presente para os headbangers, uma entrevista com Jennifer Haben, onde a simpática vocalista esclarece alguns pontos sobre o conceito desta obra, que já está disponível, pela gravadora Nuclear Blast, no dia de hoje (09/01/26).

Paula: É um prazer ter você aqui conosco para esta entrevista. Como você está hoje?

Jennifer: Estou bem. Tive uma semana muito corrida na semana passada. Fizemos algumas coisas ótimas com muitas das músicas captadas do Wacken e também outros projetos, e isso foi muito bom para poder contar um pouco mais sobre o álbum.

Paula: Ah, sim, estou muito animada. O lançamento é no dia 9 de janeiro, eu acho. É logo no começo do Ano Novo, então acredito que todo mundo esteja bastante ansioso pelo álbum.

Gostaria de começar com algumas perguntas sobre as três primeiras músicas, que foram lançadas como singles antes do álbum. Esses singles contam com várias participações, incluindo o Lord of the Lost e também com a cantora japonesa Asami. Acho isso muito interessante, adorei o álbum!

Essas três músicas parecem representar capítulos diferentes do disco, cada uma com uma identidade própria. Elas representam a variedade de Break the Silence?

Jennifer: Até agora, ainda não contamos a história completa. Ainda falta um single que, sim, vai apresentar o final deste capítulo.

Como eu já disse antes, todos esses videoclipes, do começo ao fim, funcionam quase como um pequeno filme, porque pensamos em um conceito completo para explicar às pessoas sobre o que estamos falando. Indo além, Break the Silence é um álbum sobre comunicação.

Desde o início, quando começamos a pensar no que escrever, percebemos que todos estávamos mais ou menos na mesma sintonia: as pessoas não estão mais conectadas — ou pelo menos não o suficiente. Elas estão mais divididas do que nunca, pelo menos é assim que sentimos.

Ao mesmo tempo, temos a internet, que nos deixa hiperconectados, mas sem conversas realmente profundas. Parece que as pessoas apenas expressam suas opiniões, sem ouvir o outro lado. Elas não querem entender de verdade o que o outro tem a dizer, apenas expor seu próprio ponto de vista. Acho isso muito perigoso. Acredito que poderíamos nos reconectar se tentássemos compreender o que o outro quer dizer com o coração, e não apenas pelas palavras.

Edu Lawless - @edulawless

Paula: Sim, concordo totalmente com você. Break the Silence é um álbum muito forte, e o título também é muito impactante. A capa do álbum é linda e chama muita atenção logo de primeira.

O que tudo isso significa para você e para a banda neste momento? Vocês estão tocando em muitos festivais e já estiveram no Brasil este ano, no Bangers Open Air (obs.: entrevista realizada em dezembro de 2025). O que esse álbum representa para você pessoalmente e para a trajetória da banda?

Jennifer: Acho que todo álbum revela um pouco mais sobre a personalidade da banda e sobre a fase em que estamos vivendo. Desde Beyond the Black, o álbum anterior, tudo estava mais relacionado à confiança. Já era possível sentir que estávamos mais seguros do que antes, que sabíamos melhor o que estávamos fazendo e o que queríamos.

Desta vez, foi um desenvolvimento em direção a algo mais profundo, no qual realmente quisemos expor nossas preocupações sobre como o mundo está evoluindo. Queríamos mostrar às pessoas o que sentimos. É empolgante ver isso finalmente se concretizando. Agora faltam alguns meses… não, na verdade, só um mês.

Paula: Nem isso, na verdade.

Jennifer: Exatamente, está muito perto. Há outras músicas no álbum das quais eu realmente me orgulho, então mal posso esperar para que as pessoas as escutem.

Paula: Preciso dizer que já ouvi o álbum. Agradeço à Nuclear Blast pela oportunidade. Acho que ele reúne muitos sons e culturas diferentes. É um disco muito diverso: cada música é diferente, cada uma conta uma história. Há elementos culturais de várias partes do mundo, de diferentes países e tradições. É como se muitas culturas estivessem reunidas em um único álbum.

Esse equilíbrio entre melodia, emoção e intensidade sempre esteve presente no Beyond the Black. Essa visão já existia desde o início ou foi se desenvolvendo ao longo do tempo?

Jennifer: Você diz de modo geral ou especificamente para este álbum?

Paula: Para este álbum.

Jennifer: Certo. A visão surgiu já no início do processo criativo, quando começamos a pensar no novo álbum. Desde o começo sabíamos qual seria o tema central: comunicação. Acho que foi a primeira vez que isso ficou definido antes mesmo de começarmos a compor as músicas.

Ter isso em mente ajudou muito no conceito geral, inclusive no que você mencionou sobre idiomas e culturas diferentes. Comunicação não é apenas alemão ou inglês, é algo global. Queríamos nos conectar com pessoas do mundo inteiro, por isso escolhemos diferentes idiomas e exploramos essas ideias.

Por exemplo, em “Rising High”, tivemos aquela voz africana antes mesmo de pensarmos em criar uma música do Beyond the Black ao redor dela. Foi quase um recomeço para nós. O mesmo aconteceu com os vocais búlgaros, japoneses e outros.

A ideia era nos inspirar nesses elementos e criar algo a partir deles, sem forçar a música a ser algo que ela não é. Queríamos criar algo harmônico a partir do que já existia na identidade do Beyond the Black.

Edu Lawless - @edulawless

Paula: Este álbum é muito verdadeiro. Tenho uma pergunta: se você tivesse que apresentar o Beyond the Black e Break the Silence para alguém que não conhece a banda, como descreveria?

Jennifer: Eu diria que é possível encontrar muitas emoções diferentes, elementos bem metal, mas também partes orquestrais, eletrônicas e com uma pegada de rock. No conjunto, há muitas dinâmicas diferentes.

Paula: Ótimo! E como foi trabalhar com outras bandas, como o Lord of the Lost e a cantora Asami (obs:. vocalista da banda de Metal japonesa Lovebites)? São duas vertentes muito fortes. Como foi essa colaboração?

Jennifer: Foi incrível. Eu sou apaixonada pelo Japão, então para mim estava claro que eu queria ter um vocal japonês neste álbum, além de letras em japonês. No início, pensei em cantar eu mesma (risos), mas percebi que talvez não fosse a melhor escolha, então precisávamos de outra pessoa. Fiquei muito feliz que a Asami tenha aceitado participar.

A ideia de “Can You Hear Me” é mostrar que sentimos as mesmas coisas, mesmo estando tão distantes no mundo: solidão, a tentativa de alcançar o outro, de ter conversas e emoções profundas.

Já com o Chris Harms, do Lord of the Lost, foi algo muito especial. Ele é um cantor incrível. Não conversamos muito antes de gravar juntos, mas senti que encontrei um novo amigo nele, porque compartilhamos um nível emocional parecido. Quando ele gravou e me enviou as partes vocais, foi como se tivesse acrescentado uma dimensão totalmente nova à música. Isso não acontece com frequência em colaborações, então foi realmente especial.

Edu Lawless - @edulawless

Paula: É muito emocionante e tocante. Em “Can You Hear Me”, há um contraste muito forte entre os vocais. Como foi, para você, essa experiência de contrastar a sua voz com a dela?

Jennifer: Para mim, é sempre importante trabalhar com uma voz diferente da minha. Esse contraste permite alcançar diferentes níveis emocionais e torna a música mais interessante para quem ouve. Acho que essa faixa é um ótimo exemplo disso.

Paula: Tenho muitas perguntas, estou até um pouco nervosa (risos). Como fundadora do Beyond the Black, hoje é mais fácil separar seus papéis como líder da banda, compositora e cantora?

Jennifer: Você pode repetir a pergunta? Desculpe.

Paula: Claro. Existe uma divisão clara de responsabilidades dentro da banda? Como funciona o processo quando vocês estão compondo e gravando, considerando que você também é compositora e líder?

Jennifer: Obrigada por esclarecer. A composição no Beyond the Black é feita principalmente por mim e pelo nosso guitarrista, Chris. Fazemos grande parte do trabalho juntos. Quando se trata de decisões gerais, nós quatro decidimos em conjunto, mas cada um tem responsabilidades específicas, como merchandising ou outros aspectos. Ninguém faz tudo sozinho, e eu também não faço tudo sozinha. Cada um tem suas funções.

Edu Lawless - @edulawless

Paula: Hoje em dia, vemos muitas bandas na mídia por conflitos internos, e isso não é bom para o heavy metal (risos).

Jennifer: Estou tentando manter meus caras unidos.

Paula: E você consegue, isso é incrível.

Jennifer: Para mim, é muito importante que o tempo que passamos juntos seja bom. Se você não estiver se divertindo, não faz sentido ser músico. Na turnê, ter a equipe certa e boas pessoas por perto também é fundamental.

Paula: Eu vi vocês em São Paulo e senti uma energia muito positiva. Dá para perceber que vocês são uma banda de verdade. Foi incrível assistir ao show.

Jennifer: Muito obrigada.

Paula: Posso fazer mais uma pergunta? Como está o seu tempo?

Jennifer: Acho que ainda tenho uns cinco minutos antes da próxima entrevista.

Paula: Após o lançamento do álbum, vocês pretendem fazer uma turnê específica para Break the Silence?

Jennifer: Sim, teremos uma turnê pela Europa em janeiro e fevereiro. Vamos tocar algumas das músicas novas, claro. A turnê começa por volta de 15 de janeiro, logo após o lançamento do álbum, então estaremos bem ocupados.

Paula: E vocês pretendem voltar ao Brasil em 2026 ou 2027?

Jennifer: Ainda não sabemos, mas quando estivemos aí e vimos o público incrível, dissemos: “Precisamos voltar”. A energia foi maravilhosa, e tocar para pessoas assim é algo que amamos. Com certeza voltaremos, só não sabemos quando.

Paula: No Brasil, a banda é muito querida. Eu sou uma grande fã — adoro sua voz, seu estilo e o som moderno da banda. Posso fazer uma pergunta pessoal?

Jennifer: Claro!

Paula: O que você gosta de fazer quando não está no palco?

Jennifer: Boa pergunta (risos). Gosto de assistir a séries. Mas, sinceramente, minha vida gira muito em torno da música. Também gosto de estar com minha família. Tenho uma afilhada, e passar tempo com ela realmente ilumina meu coração.

Paula: Que bonito. Eu também sou mãe, e a família é muito importante para mim.

Jennifer: Eu não sou mãe, sou “apenas” a tia.

Paula: Mas hoje em dia é quase como ser mãe.

Jennifer: De certa forma, sim.

Paula: Muito obrigada pelo seu tempo.

Jennifer: Muito obrigada pelo seu tempo e pelo seu interesse. Espero voltar ao Brasil muito em breve.

E atenção aos amantes do Metal Sinfônico: Não deixe de conferir a obra de arte musical “Break the Silence”! Em tempo, ainda no mês de janeiro de 2026, o Beyond The Black dará início à sua próxima turnê europeia como atração principal, Rising High, coincidindo com o lançamento de seu aguardado sexto álbum de estúdio, lançado hoje, dia 9 de janeiro.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Beyond The Black: Quebrando o Silêncio Em Um Mundo Fragmentado

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Por Paula Butter

Mais um lançamento de peso para este início de ano. Estamos falando da banda alemã Beyond The Black, que chega em 2026 com seu sexto álbum de estúdio, Break The Silence.

Inicialmente, convém dizer que se trata de uma obra bastante conceitual, com várias nuances ao longo das faixas. Conforme a própria banda divulgou, Break The Silence possui raízes no metal melódico e influências étnicas, explorando temas como comunicação, força interior, resiliência e a necessidade urgente de reconexão em um mundo dividido. Novamente vemos o caos mundial como parte de uma obra musical, mas esta, em particular, foge do óbvio, pois nos apresenta o caos apenas como uma peça de um quebra-cabeça, em que cada parte vai se encaixando ao longo da audição.

A primeira faixa, “Rising High”, já mostra uma mistura de sons e riffs enérgicos, com pausas características na melodia, para um retorno dos vocais em força total, trazendo uma mensagem clara de superação e renascimento. Logo na sequência, chega a faixa-título, “Break The Silence”, que entrega exatamente o que promete: elementos bem característicos do metal sinfônico, com os vocais poderosos de Jennifer Haben, que reforçam a identidade da banda e comprovam tratar-se de uma canção atemporal.

Com “The Art Of Being Alone”, que conta com a participação do grupo Lord Of The Lost, também em ascensão no mainstream, o tom se torna mais sério. O início é belíssimo, quase onírico, porém carregado de melancolia. A junção musical das duas bandas alcança um alto nível, agradando tanto aos fãs quanto àqueles que ainda não conheciam o trabalho do Beyond The Black. Inclusive, esta foi uma das faixas escolhidas como single e ganhou videoclipe de divulgação do novo álbum.

Após essa pancada espiritual, chega “Let There Be Rain”, com a belíssima participação do grupo vocal feminino The Mystery of the Bulgarian Voices. O folk tradicional da Bulgária torna a música bastante peculiar, sem que ela perca peso ou melodia. A faixa funciona como um respiro para o ouvinte, deixando o disco ainda mais interessante e adicionando um novo elemento cultural à construção de Break The Silence. Além disso, evidencia como a música pode quebrar barreiras ao unir estilos distintos de forma assertiva.

Até este ponto, já é possível perceber que o disco representa um marco na carreira da banda. Apesar do ótimo antecessor, que ampliou significativamente o público do Beyond The Black e levou o nome do grupo a grandes festivais mundiais, este novo lançamento consegue superá-lo. Em tempo, dentre tantas diversidades, surge “Raven”, uma das minhas faixas favoritas do álbum. Além das participações especiais de diversos artistas, nesta música em particular, a banda resgata momentaneamente suas raízes, lembrando-nos de que, apesar das mudanças, o conforto ainda habita o âmago de sua essência.

Na sequência, temos mais uma peça importante: “The Flood”, que incorpora elementos industriais ao som da banda, transmitindo uma sensação de imperfeição e indiferença. Para equilibrar as forças, surge “Can You Hear Me”, um pedido carregado de emoção e um nó na garganta, com a excelente participação vocal da cantora Asami, da banda japonesa Lovebites. A união de sua voz com a de Haben resulta em uma faixa intensa, repleta de sentimentos à flor da pele, reforçando mais uma vez o contraponto cultural presente no álbum.

Quase ao final do disco, vale uma licença poética para comentar a oitava faixa, “(La vie est un) Cinéma”, que em português significa “(A vida é um) cinema”. Trata-se de uma verdadeira pérola, tanto na letra quanto no instrumental. Não é de hoje que o francês exerce forte apelo quando bem inserido na música pesada, e aqui o resultado é um deleite para os ouvidos. A canção carrega uma mensagem poderosa de união e entrega pessoal, que se manifesta em momentos cruciais, tanto na vida quanto nos filmes. A penúltima faixa, “Hologram”, é muito boa, embora não se destaque tanto quanto as demais.

Por fim, o álbum se encerra com “Weltschmerz”, termo alemão que, segundo o Dicionário Cambridge, expressa uma tristeza profunda e um desalento em relação ao mundo, sendo frequentemente citado como exemplo de sentimentos complexos sem tradução direta para o inglês. A proposta musical aqui se aproxima do metal sinfônico, mas incorpora elementos sonoros e instrumentais que remetem a uma atmosfera digna de “Senhor dos Anéis”, fazendo o ouvinte sentir parte da melancolia à qual o termo se refere. Um encerramento bastante assertivo.

Assim, vale sair da zona de conforto e apreciar Break The Silence, novo álbum do Beyond The Black, com lançamento marcado para o dia 9 de janeiro de 2026. Tudo indica que este trabalho tem grande potencial para figurar entre os melhores lançamentos do ano.

Heilemania