Exatamente um ano depois do incrível show realizado na VIP Station, em São Paulo, a ex-vocalista do Nightwish, Anette Olzon, retornou à cidade para uma apresentação que, desde o primeiro momento, prometia ser diferente. Se em 2025 ela havia conquistado o público brasileiro com um show energético, pesado e marcado pela proximidade com os fãs, desta vez a proposta era ainda mais ambiciosa: revisitar grandes clássicos de sua passagem pelo Nightwish acompanhada por banda, coral e uma orquestra sinfônica.
O local escolhido foi o confortável Teatro APCD, na zona norte de São Paulo, e a escolha não poderia ter sido mais acertada. Afinal, aquela não seria uma noite para simplesmente reproduzir um show tradicional de metal. Seria uma experiência essencialmente sinfônica, e o ambiente de teatro, com o público acomodado em suas poltronas, criou o cenário perfeito para que os arranjos ganhassem espaço e fossem apreciados em todos os seus detalhes. Talvez a mesma apresentação não tivesse o mesmo impacto em uma casa de shows convencional.
Antes de Anette, quem teve a missão de aquecer a plateia foi a banda curitibana Magistry, que, curiosamente, também havia realizado a abertura do show da cantora em São Paulo no ano anterior. A diferença é que, desta vez, o grupo estava diante de uma plateia de teatro e fazendo parte de uma noite de proporções muito maiores.
Formado por Lya Seffrin nos vocais, Leonardo Arentz e João Borth nas guitarras, Thiago Parpinelli nos teclados, Leonardo Rivabem no baixo e Johan Wodzynski na bateria, o Magistry entregou uma apresentação bastante consistente e mostrou que a escolha para a abertura não havia sido por acaso.
O grande destaque ficou por conta da carismática Lya Seffrin. Em diversos momentos empunhando um grande leque, a vocalista acrescentou um interessante elemento teatral à apresentação, alternando delicadeza, emoção e potência vocal. O guitarrista Leonardo Arentz também demonstrou bastante simpatia e se comunicou diversas vezes com o público, criando uma conexão muito natural com a plateia.
O repertório passou por músicas dos trabalhos mais recentes da banda e ainda trouxe uma faixa inédita, apresentada pela primeira vez ao vivo. Mas o momento mais especial veio quando os músicos diminuíram a intensidade e prepararam uma pequena apresentação acústica. Thiago Parpinelli assumiu a harpa e criou um momento intimista que, de certa forma, já preparava o público para a atmosfera que dominaria o restante da noite. Uma abertura muito bem escolhida para o espetáculo que estava por vir.
Quando os músicos da Camerata Filarmônica de Indaiatuba começaram a ocupar seus lugares no palco, a expectativa aumentou. A plateia se acomodou em suas cadeiras e, pouco depois, surgiu a maestrina Natália Laranjeira. Depois de cumprimentar o público, ela deu início à introdução de “Taikatalvi”, faixa que abre Imaginaerum. Os primeiros acordes começaram a preencher o teatro e, gradualmente, os músicos da banda de Anette foram tomando seus lugares: Filipe Duarte nos vocais e baixo, Vithor Moraes nos teclados, Sanzio Rocha na guitarra e Kiko Lopes na bateria.
Havia ainda uma conexão especial com a banda de abertura. Lya Seffrin e João Borth participaram do coral, enquanto Thiago Parpinelli assumiu a harpa. Era uma formação que unia diferentes elementos daquela noite e que deixava claro que não estávamos diante de um simples show de rock acompanhado por alguns instrumentos clássicos. A proposta era outra.
Eis que se inicia “Storytime”. Quando Anette Olzon surgiu no palco, o primeiro impacto foi perceber o quanto ela parecia feliz. Com um enorme sorriso no rosto, a cantora cumprimentou o público e iniciou uma apresentação marcada por uma energia impressionante. Durante praticamente todo o espetáculo, Anette parecia uma criança em um parque de diversões. Pulava, brincava com os músicos, interagia com a plateia e demonstrava uma alegria genuína por estar novamente em São Paulo.
Parte dessa espontaneidade certamente vem do entrosamento que ela criou com os músicos brasileiros. A cantora fez questão de manter em sua banda os mesmos profissionais que a acompanharam nas apresentações pela América Latina no ano anterior. A relação entre eles é visível no palco, tamanha a liberdade com que Anette interage com cada um. A conexão foi tão forte que ela chegou a exigir que essa mesma formação estivesse presente também em suas apresentações europeias realizadas nos meses de julho e agosto.
O show seguiu com “7 Days to the Wolves” e “Ghost River”, nas duas com Filipe Duarte dividindo os vocais com Anette. E aqui tivemos um daqueles momentos em que a memória dos fãs inevitavelmente volta ao Nightwish. Em determinadas passagens, bastava fechar os olhos para ter a sensação de que Marko Hietala estava novamente ali. O timbre de Filipe e sua maneira de interpretar a música criaram uma combinação muito interessante com a voz de Anette.
Alguns espectadores talvez tenham sentido falta daquele peso mais evidente das guitarras e de uma sonoridade mais “gorda”, característica de um show tradicional de metal. Mas é importante entender que a proposta daquela noite era outra. Não se tratava de simplesmente reproduzir um show convencional do Nightwish. A intenção era justamente explorar a dimensão sinfônica das músicas.
E isso ficou cada vez mais evidente conforme o repertório avançava.
“Song of Myself”, “Amaranth”, “Rest Calm” e “Scaretale” ganharam novas dimensões com a presença da orquestra e do coral. Em especial, “Scaretale” mostrou como Imaginaerum pode se transformar quando todos aqueles elementos que fazem parte de sua concepção original são apresentados juntos no palco. A música ganhou uma atmosfera quase cinematográfica, reforçando ainda mais o caráter teatral daquele álbum.
Na sequência veio “Last of the Wilds”, instrumental, momento em que Anette fez questão de elogiar sua banda solo e pedir ao público que observasse o quanto aqueles músicos eram incríveis.
Outra novidade em relação ao show realizado em 2025 foi a inclusão de uma música da carreira solo da cantora. Anette escolheu “Like a Show Inside My Head”, do álbum Shine, de 2014. Foi uma maneira interessante de lembrar que, embora sua história com o Nightwish seja naturalmente uma parte gigantesca de sua trajetória, existe também uma Anette com uma identidade musical própria construída ao longo de sua carreira solo.
Mas o clima mudou completamente quando algumas cadeiras foram colocadas no palco. Anette anunciou que prepararia algo realmente especial e que apresentaria uma música que o Nightwish nunca havia tocado ao vivo, somente eles tinham tocado em 2025 em São Paulo e iriam repetir ali.
Começaram então os primeiros acordes de “Turn Loose the Mermaids”.
O teatro mergulhou em uma atmosfera intimista. A música ganhou uma interpretação delicada e emocionante, criando um dos momentos mais bonitos da noite. Em seguida veio “The Islander”, quando Anette gentilmente abriu espaço para Filipe Duarte assumir os vocais. Essa também foi uma música que não havia feito parte do repertório do show do ano anterior, tornando aquele momento ainda mais especial para quem acompanhava a trajetória da cantora no Brasil.
Mas ainda havia uma carta na manga. Depois de uma pequena pausa, Anette anunciou que viria algo realmente especial. E veio. A introdução de “The Poet and the Pendulum” começou a tomar conta do teatro. Naquele momento, finalmente ficou absolutamente claro por que aquela orquestra estava ali.
Ouvir “The Poet and the Pendulum” sendo executada ao vivo por uma orquestra de verdade, acompanhada pela banda e pelo coral, foi uma experiência arrebatadora. Durante seus quase 14 minutos, a música conduziu todos de volta ao final dos anos 2000, época do lançamento de Dark Passion Play, o álbum que marcou a estreia de Anette no Nightwish.
A interpretação foi crescendo gradualmente até atingir seu ápice, enquanto era possível observar diversos rostos na plateia emocionados, alguns literalmente com lágrimas nos olhos, cantando cada palavra como se não houvesse amanhã.
“Getaway, runaway, fly away
Lead me astray to dreamer's hideaway!”
Foi um daqueles momentos em que música e memória se encontram.
A composição também reforça a genialidade de Tuomas Holopainen, tecladista e principal mente criativa por trás do Nightwish. Toda aquela construção, que já era grandiosa na gravação original, ganhou uma dimensão completamente diferente quando executada diante do público por músicos de uma orquestra.
Ao final, a plateia se levantou para aplaudir. Muitos ainda estavam visivelmente emocionados. E então Anette soltou uma frase que provocou ainda mais aplausos: “Nunca fizemos isso com orquestra. Nós fizemos primeiro aqui!”
Uma brincadeira carinhosa com sua antiga banda e, ao mesmo tempo, uma maneira de celebrar aquele momento único em São Paulo.
O clima permaneceu emocional com “Meadows of Heaven”. Antes de começar a música, Anette contou uma pequena história pessoal. Disse que sempre foi cristã e que, quando Tuomas apresentou aquela composição a ela durante as gravações de Dark Passion Play, recebeu a música como uma espécie de bênção. Talvez por isso sua interpretação tenha sido tão intensa.
Anette realmente entregou sua alma naquela música. A orquestra e o coral reforçaram o caráter solene da composição e criaram outro daqueles momentos em que o teatro inteiro parecia respirar no mesmo ritmo. Depois de tanta emoção, Anette anunciou que chegava a hora da última música.
Mas antes fez questão de lembrar que o show realizado exatamente um ano antes, em São Paulo, havia sido muito importante para sua retomada profissional. Segundo a própria cantora, aquela apresentação e a energia que recebeu dos músicos brasileiros haviam dado uma nova força para sua carreira. Ela agradeceu ao público e então perguntou: “Vocês sabem qual é a próxima, né?” A resposta veio imediatamente. “Last Ride of the Day!”
A música começou e Anette pediu para que todos deixassem suas poltronas. O público atendeu imediatamente. Em poucos segundos, o teatro estava novamente tomado por pessoas cantando, dançando e celebrando.
Parecia o fim. Mas ainda havia uma surpresa. Anette contou que havia recebido muitos pedidos do fã-clube brasileiro para apresentar uma música de seu último álbum solo, Rapture, lançado em 2024. E decidiu atender ao pedido. A escolhida foi justamente a faixa-título, “Rapture”, que encerrou definitivamente a apresentação. Foi um fechamento perfeito para uma noite que conseguiu equilibrar passado e presente. O Nightwish esteve presente em boa parte do repertório, mas a carreira solo de Anette também ganhou seu espaço. E talvez seja justamente essa a melhor maneira de definir o show realizado no Teatro APCD.
Não foi simplesmente uma apresentação para fãs do Nightwish, foi uma celebração da música.Uma banda afiada, uma orquestra executando os arranjos com precisão, um coral acrescentando ainda mais profundidade às composições e, no centro de tudo, uma Anette Olzon feliz, emocionada, cheia de energia e com a voz em excelente forma.
A presença da Camerata Filarmônica de Indaiatuba, sob a regência da maestrina Natália Laranjeira, foi fundamental para que a proposta funcionasse. As músicas de Dark Passion Play e Imaginaerum ganharam novas dimensões e mostraram que existe uma riqueza enorme nesses arranjos quando eles são apresentados ao vivo com todos os elementos. E o Teatro APCD foi o cenário perfeito.
A proximidade do público, a disposição das cadeiras e a atmosfera do espaço fizeram com que a apresentação tivesse algo de concerto, algo de espetáculo teatral e, ao mesmo tempo, toda a energia de um show de rock.
Durante o espetáculo, os produtores locais foram chamados ao palco para receber os agradecimentos da própria Anette. E eles haviam preparado algo especial para a cantora. Entregaram a ela um RG brasileiro. Visivelmente emocionada, Anette afirmou que se sente brasileira e revelou que tem planos de, algum dia, morar no Brasil. Depois de uma noite como essa, fica difícil não fazer um convite. Venha Anette, more no Brasil, crie mais música por aqui e continue nos presenteando com noites memoráveis como essa.
Desde os tempos de Nightwish até sua carreira solo, Anette Olzon construiu uma relação muito especial com o público brasileiro. E, em 26 de setembro de 2026, ela escreveu mais um capítulo dessa história. Uma banda excelente, uma orquestra impecável, grandes músicas, memórias, lágrimas, sorrisos e uma cantora visivelmente feliz por estar novamente diante do público brasileiro. Se o show de 2025 marcou a retomada de Anette aos palcos brasileiros, o espetáculo de 2026 mostrou que aquela história estava apenas começando. A Night to Remember. Agora, definitivamente, com uma orquestra.
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