segunda-feira, 9 de março de 2026

Cobertura de Show: Living Colour – 27/02/2026 – Tokio Marine Hall/SP

O Tokio Marine Hall abriu suas portas para receber o lendário Living Colour em sua celebração de quatro décadas de carreira, com a turnê “The Best of 40 Years” trazendo o melhor da banda. O que se viu foi um espetáculo de energia, técnica e paixão, que contagiou uma casa lotada e um público visivelmente animado. Desde o início da apresentação, ficou claro que a banda não estava ali apenas para cumprir tabela, mas para entregar uma performance visceral, digna de sua história e de seu legado musical. A expectativa era alta, e o quarteto não decepcionou, transformando a noite em uma celebração do rock em sua forma mais pura e inovadora.

O quarteto americano, atualmente formado por Corey Glover (vocais), Vernon Reid (guitarra), Doug Wimbish (baixo) e Will Calhoun (bateria), é uma força da natureza. A banda, que sempre desafiou rótulos, mistura com maestria elementos de hard rock, funk, jazz, metal e soul, criando uma sonoridade única e inconfundível. No palco do Tokio Marine Hall, essa fusão foi apresentada com uma intensidade que apenas anos de estrada e uma química impecável podem proporcionar. Glover, com sua voz potente e expressiva, comandava a plateia, enquanto Reid esbanjava solos cheios de personalidade. Wimbish e Calhoun formavam uma “cozinha” cheia de groove, base perfeita para a experimentação sonora do grupo.

O show começou com a pancada de “Leave It Alone”, que imediatamente incendiou a plateia, seguida pela pegada irresistível de “Middle Man”. A banda mostrou, desde o início, sua versatilidade ao emendar um cover surpreendente de “Memories Can't Wait”, do Talking Heads, injetando sua própria identidade na faixa. A sequência continuou com a crítica social de “Ignorance Is Bliss” e a energia contagiante de “Go Away”, mantendo o público em constante movimento. O groove funkeado de “Funny Vibe” antecedeu um “Parabéns a Você” dedicado a alguém do público; Corey chegou a descer do palco para cantar bem próximo ao aniversariante. Na sequência, a intensidade de “Bi” preparou o terreno para outro momento inesperado: o cover de “Hallelujah”, de Leonard Cohen, que ganhou uma interpretação belíssima e emocionante de Corey.

A apresentação continuou ganhando intensidade e explorando diferentes sonoridades. “Open Letter (to a Landlord)” começou introspectiva e logo ganhou novos contornos como somente o Living Colour sabe fazer antes do palco ser dominado pela maestria individual dos músicos. O solo de bateria de Will Calhoun foi um show à parte, uma demonstração de técnica e criatividade que culminou com um trecho de “Baianá”, do Barbatuques, em homenagem à cultura brasileira. Dali em diante, o show ganhou novo fôlego com a poderosa “This Is the Life” e o hino “Pride”, que fez o público cantar em uníssono.

O ápice da noite se aproximava com a sequência avassaladora de clássicos. Então, o baixista Doug Wimbish foi ao microfone para anunciar que fariam algo especial, e a banda entregou uma fusão explosiva de “White Lines (Don't Don't Do It) / Apache / The Message”, transformando o palco em uma pista de dança com o melhor do hip hop. O cover de “You Don't Love Me (No, No, No)”, de Dawn Penn, adicionou um toque reggae, mostrando a pluraridade de influências do grupo. “Glamour Boys” e “Love Rears Its Ugly Head” foram cantadas a plenos pulmões pelos fãs, demonstrando devoção as canções mais emblemáticas do Living Colour. A versão rápida e pesada de “Type” manteve a energia em alta, evidenciando que a banda é mestre em criar dinâmicas surpreendentes. O cover de “Police and Thieves”, de Junior Murvin, trouxe um momento de relativa calmaria.

O grand finale foi, como esperado, marcante. “Time's Up” e o hino “Cult of Personality” levaram o Tokio Marine Hall à loucura, com Corey Glover interagindo intensamente e Vernon Reid disparando riffs que são marca registrada da banda. A energia era intensa, e a sensação de se presenciar um momento histórico era evidente. Sem sair do palco, o bis ocorreu com a melódica e esperançosa “Solace of You”, fechando a noite de maneira apoteótica, com participação calorosa do público, que cantou o refrão por minutos. Com duas horas de apresentação, a banda deixou o palco visivelmente emocionada. O show foi mais do que uma sequência de músicas bem executadas: foi uma aula de presença de palco, diversidade sonora e entrega. Quarenta anos depois, o Living Colour soa atual, afiado e necessário. Quem esteve presente saiu com a sensação de ter assistido não apenas a um grande concerto, mas a uma banda que ainda tem muita lenha para queimar.


Texto: Marcelo Gomes 


Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Top Link Music 


Living Colour – setlist:

Leave It Alone

Middle Man

Memories Can't Wait (Talking Heads cover)

Ignorance is Bliss

Go Away

Funny Vibe

Bi

Hallelujah (Leonard Cohen cover)

Open Letter (to a Landlord)

Drum Solo / Baianá (Barbatuques cover) 

This Is the Life

Pride

White Lines (Don't Don't Do It) / Apache / The Message

You Don't Love Me (No, No, No) (Dawn Penn cover)

Glamour Boys

Love Rears Its Ugly Head

Type

Police and Thieves (Junior Murvin cover)

Time's Up

Cult of Personality

Solace of You 

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