Mostrando postagens com marcador 2026. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2026. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de outubro de 2026

Entrevista – Chaos Synopsis celebra 20 anos de história, lança novo single e prepara próximos passos na estrada

Maycon Avelino

Em entrevista, Friggi e Jairo Vaz fazem um balanço de 2026, comentam a participação no Bangers Open Air, antecipam detalhes do próximo álbum e falam sobre a turnê brasileira ao lado do Six Feet Under.

Por Stephanie Ferreira – @instephanie

Vinte anos de história, uma agenda que voltou a ganhar fôlego e a vontade de seguir fazendo aquilo que sempre moveu a banda: tocar, compor e pegar a estrada. Para o Chaos Synopsis, 2026 tem sido um ano de retomada e novas conquistas, marcado pelo relançamento da primeira demo do grupo, por uma sequência de shows que incluiu uma passagem pelo Nordeste e pela participação no Bangers Open Air. Agora, a banda se prepara para apresentar Perfect Recipe, single inédito que chega às plataformas em 23 de outubro, enquanto avança na produção de seu próximo álbum.

Em meio à renovação da formação e ao trabalho de composição, o grupo também se prepara para dividir os palcos com o Six Feet Under em quatro apresentações no Brasil, a partir de 30 de outubro. O momento representa a oportunidade de ampliar o contato com o público e retomar o ritmo de atividades que marcou boa parte da trajetória da banda.

Em entrevista, Friggi (bateria) e Jairo Vaz (vocal e baixo) revisitam os acontecimentos do ano, contam como a relação construída com os fãs ao longo de duas décadas se manifesta nos shows, explicam como diferentes influências se encontram no processo de composição e antecipam o que vem pela frente. Entre reflexões sobre a trajetória e histórias de bastidores, a conversa também revela um aspecto que permanece central para o Chaos Synopsis: a amizade entre os integrantes e o prazer de viver o heavy metal para além do palco.


Olhando para tudo o que aconteceu até aqui, como vocês definiriam 2026 para o Chaos Synopsis?

Friggi e Jairo: Foi um ano muito bom, porque, desde a pandemia, a gente estava fazendo poucos shows, comparado com o que fez a vida inteira. Sempre fizemos muitos shows, mas, quando voltamos depois da pandemia, estávamos fazendo bem menos do que estávamos acostumados.

Este ano já começamos com tudo, relançando nossa primeira demo no aniversário de 20 anos, exatamente no mesmo dia em que ela saiu, em 2006. Depois, fomos para o Nordeste, fizemos oito shows, voltamos e já fomos tocar no Bangers. E continuamos fazendo outros shows.

É muito trabalho, e eu sentia falta de fazer tanta coisa. É o que a gente vive para fazer, nosso futebol de final de semana.

Com essa movimentação, acabamos nos animando e pensamos que precisávamos lançar uma música nova antes dos shows com o Six Feet Under. Também voltamos a compor o álbum novo. Estamos animados e agora é só não deixar esfriar de novo. A pandemia deu aquela esfriada, mas voltamos com tudo, como sempre trabalhamos.

Vocês começaram o ano com uma turnê pelo Nordeste. Como foi essa passagem por lá e o que mais marcou vocês nessa experiência?

Friggi e Jairo: Todos os shows foram massa! A gente sempre teve muito apoio no Nordeste desde o começo da banda. Nossa primeira demo foi lançada por um selo de Fortaleza, então sempre tivemos uma boa divulgação por lá. Mesmo assim, ficamos espantados com a quantidade de pessoas que realmente são fãs da banda.

Teve gente que foi a mais de um show porque queria ver de novo, além de pessoas que esperaram muito tempo para nos assistir. Acho que fomos à Bahia apenas muitos anos atrás e nunca tínhamos voltado. Então, havia muita gente com vontade de ver a banda que ainda não tinha tido essa oportunidade.

Também foi interessante ouvir as histórias do público. Como são 20 anos desde o lançamento da demo, vários contavam que, quando eram adolescentes, ouviam nossas músicas com os amigos, reunidos para tomar cachaça e escutar a banda.

A galera chamava as músicas pelos nomes e cantava junto. Eu sabia que esse material tinha chegado lá, mas a realidade superou a expectativa. Esperava muito essa viagem, mas não tinha noção de que as pessoas no Nordeste esperavam ainda mais pela nossa chegada.

Luca Apperti

Depois dessa passagem pelo Nordeste, vocês chegaram ao Bangers Open Air. Como foi subir ao palco do festival e o que isso representou para a banda?

Friggi e Jairo: O lance do Bangers começou bem antes do show. Quando o festival foi anunciado, no ano passado, já mudou muita coisa, inclusive na turnê do Nordeste. Todo mundo sabia que a gente ia tocar e veio falar com a gente, porque conhece nosso corre e sabe que, ao longo desses 20 anos, construímos uma relação muito boa com o pessoal.

Todo mundo ficou muito feliz com o anúncio. Para mim, isso foi mais legal até do que o show em si. A galera veio escrever para a gente e vibrou junto, então esse reconhecimento foi muito importante.

Também tem a realização de um sonho. A gente luta há muito tempo por isso e vive o heavy metal. Lembro de tocar baixo sozinho na casa dos amigos e pensar: “Cara, um dia eu vou estar num festival, vou tocar num lugar legal, vou tocar com uma galera”.

Se o meu eu adolescente olhasse para mim hoje, eu falaria: “Caralho, mano, vocês conseguiram fazer uns bagulhos foda, hein?”. Que massa!

O novo single, Perfect Recipe, chega às plataformas em 23 de outubro. Por que vocês escolheram este momento para lançar a música?

Friggi e Jairo: Liricamente falando, essa foi a primeira música em que escrevi a letra. A gente sempre segue um tema, e escolhi um para o álbum novo há algum tempo. Essa foi a história que mais me chamou a atenção dentro dessa temática. Como foi a primeira letra que escrevi, acabei encaixando na primeira música que compusemos para o álbum. As coisas se casaram.

Tem muitas outras coisas novas vindo, com bastante riff legal, mas acho que essa música é a cara do Chaos Synopsis. Ela tem nossos riffs, nossa identidade e meu tipo de cantar. Também traz algumas novidades que o Darc trouxe, mas continua representando o que é o Synopsis. É uma forma de mostrar a formação nova e coroar este ano com um som muito característico nosso.

Em todo álbum, a gente procura incluir coisas novas sem abrir mão do nosso estilo, da energia, do peso e dos riffs. Quando o Diego entrou, incorporamos mais as melodias dele. Agora, com o Darc, também buscamos incluir as características de cada um para somar coisas diferentes, mantendo a identidade da banda. Essa música tem tudo isso.

Com dois guitarristas de características distintas, Darc e Diego, como vocês integram as ideias de cada um para construir uma sonoridade que preserve a identidade do Chaos Synopsis?

Friggi e Jairo: Depois de todo esse tempo, a gente já tem uma maneira própria de compor. Sempre trabalhei com estúdio, então algumas coisas facilitam o processo, como trabalhar remotamente ou começar alguma coisa por aqui.

Essa música seguiu o padrão que usamos nos últimos anos. Gostamos de incorporar as influências e o estilo de cada integrante, mas geralmente começamos com alguma ideia minha e vamos incluindo as outras aos poucos.

A música começou comigo e com o Jairo. Estávamos aqui, eu na guitarra e ele no baixo, e fizemos o começo da composição. Depois, separamos as partes dos solos. Quando decidi a base do solo do Diego, por exemplo, já sabia que ele faria algo melódico, que é uma característica dele de que gostamos muito. Então, construí aquela parte pensando nisso.

A parte do Darc também foi pensada para ele, com um solo no começo e um arranjo no meio. O estilo dele é um pouco diferente do nosso, com influências de death e black metal e outras abordagens melódicas. Queríamos trazer essa identidade para a música.

Nesse caso específico, o Diego estava presente no dia da composição. O Friggi estava chato para caramba, tive que expulsá-lo do estúdio porque ele não aceitava nada. Depois, ele voltou, já tinha tomado uma cerveja, veio abraçando e falando: “Pô, ficou bom para caralho!”. Na hora de gravar, ele mudou várias coisas.

Mas é assim, sempre foi. Funciona, graças a Deus.

Luca Apperti

Em que etapa está a produção do próximo álbum? Já existe uma previsão de lançamento?

Friggi e Jairo: A previsão é entre março e abril. A gente já tem várias músicas, mas ainda precisa terminar de compor algumas. Todas as letras, a capa e as ideias do álbum já estão encaminhadas. Agora, precisamos sentar e finalizar tudo.

Também tem a questão da agenda e de reunir a banda para trabalhar nas músicas. Tenho várias composições que fiz meio que sozinho há bastante tempo, então precisamos chamar os caras para finalizar tudo juntos. O álbum tem que sair, porque já temos um monte de coisa programada dependendo dele.

E o que vocês podem adiantar sobre a temática do álbum?

Friggi e Jairo: Para quem gosta de churrasco, está bom! (risos)

Em Perfect Recipe, trouxe a história do Armin Meiwes, que é o canibal de Rotemburgo. Ele é bem conhecido. Várias bandas escrevem sobre ele. Acho que o Rammstein tem uma música sobre essa história, entre outras bandas. É um pouco dessa temática que a gente vai trazer, e ela já começa com essa história.

A partir de 30 de outubro, vocês participam da turnê brasileira do Six Feet Under, com apresentações em Belo Horizonte, Limeira, São Paulo e Curitiba. Como surgiu essa oportunidade e o que significa para vocês dividir essa sequência de shows com a banda?

Friggi e Jairo: Gosto bastante da ideia porque lembro que, quando entrei na banda, os meninos ouviam muito Cannibal Corpse, principalmente na época do Chris Barnes.

É a primeira vez do Six Feet Under aqui, então é mais uma daquelas coisas que são sonhos de adolescente. É pensar: “Pô, vou conhecer o cara, vou estar ali junto”.

Hoje, talvez eu já não sinta a mesma emoção de conhecer alguém que fez parte da minha adolescência, mas continua sendo algo muito legal. É algo que fica para a história: a primeira vez que os caras vieram para o Brasil, o Chaos Synopsis estava junto.

Também é uma oportunidade de tocar para um público maior, conhecer mais gente e encontrar pessoas que já conhecem a banda nessas cidades. A gente sempre curte estar na estrada, independentemente de qualquer coisa. Estar com uma banda grande, com uma banda underground ou sozinho é algo que vivemos para fazer.

Quando tem outra banda junto, dividindo essa experiência, sempre rolam coisas legais. Vai ser massa: curtição, novas amizades, falar besteira, dar risada e fazer os shows. Quando você passa mais tempo junto, vive experiências muito legais.

O que o público pode esperar do setlist desses quatro shows?

Friggi e Jairo: No Bangers, já atualizamos o setlist. Voltamos a tocar algumas músicas bem antigas, do primeiro álbum, que não tocávamos havia mais de 15 anos. Também começamos a tocar Coronavírus, que lançamos em 2020, mas nunca tínhamos apresentado ao vivo até este ano.

Agora tem essa música nova, mas ainda não sabemos exatamente o que vamos fazer. Vamos chegar e tocar.

Falamos bastante sobre o passado e o presente. E o futuro? Pensando nos próximos cinco anos, o que vocês ainda querem realizar com o Chaos Synopsis?

Friggi e Jairo: A gente quer continuar fazendo o que sempre fez. Esse álbum está vindo depois de um tempão sem lançar nada, então queremos retomar de vez o ritmo que tínhamos antes da pandemia, com força total. Continuar lançando álbuns, fazendo turnês e lançando clipes. Estar na estrada e se divertir.

O que a gente mais gosta de fazer é estar na estrada junto. Somos amigos, gostamos de estar juntos e dar risada. É como se fosse uma excursão de escola.

Você entra no carro, dirige 24 horas para chegar a outro lugar, toca, já vai direto para o próximo e continua dando risada e curtindo. Acho que a maioria das bandas vive isso, mas o Chaos Synopsis vive muito intensamente: dirigir, dar risada, tocar, fazer amizade e curtir. Acho que isso é o principal para viver o heavy metal.

Também temos algumas coisas que queremos fazer e ainda não fizemos. No ano que vem, vamos tocar em um lugar onde nunca tocamos. Existem tipos de lançamentos que temos vontade de fazer e nunca fizemos. Acho que no ano que vem, ou no próximo, dá para desenvolver essas ideias.

Para finalizar, que mensagem vocês deixam para os fãs que acompanham a trajetória do Chaos Synopsis?

Friggi e Jairo: Esse som vai vir com tudo. Está muito massa. A gente meio que fez a sinopse do caos mesmo nessa música, juntando tudo o que geralmente fazemos.

Ela já começa com os dois pés no peito, então tenho certeza de que vocês vão curtir. Espero ver vocês nos shows que vamos fazer este ano aqui no Brasil.

Toda vez que encontrarem a gente, é só colar. Quem conhece sabe que gostamos de trocar ideia e nos divertir. Quero ver todo mundo no mosh, até porque, nesse som novo em São Paulo, a gente vai fazer um negócio bem legal. Espero todo mundo curtindo, se matando lá no meio, sem machucar o amiguinho.

E vão ao show do Hangar, que vai ser foda. Tem uma novidade lá que vai acontecer.

Cobertura de Show: Apocalyptica – 16/10/2026 – Carioca Club/SP

Apesar da sexta-feira chuvosa, o Carioca Club, em São Paulo, recebeu um bom público no último dia 16 para acompanhar o retorno do Apocalyptica ao país com a turnê Apocalyptica Plays Metallica Vol. 2. Formado pelos violoncelistas Eicca Toppinen, Perttu Kivilaakso e Paavo Lötjönen, o grupo finlandês contou com Mikko Kaakkuriniemi na bateria. A proposta de unir a música clássica à intensidade do heavy metal ganhou novos contornos nas mãos dos violoncelistas finlandeses, que revisitaram clássicos do Metallica e reservaram algumas surpresas para os fãs.

A introdução com “The Ecstasy of Gold”, composição de Ennio Morricone imortalizada na abertura dos shows do Metallica, preparou o clima para uma noite em que a força das cordas assumiria o protagonismo, sem deixar a agressividade das versões originais em segundo plano.

“Ride the Lightning” abriu a apresentação com peso e precisão, enquanto o público demonstrava entusiasmo e cantava o refrão. Na sequência, “Enter Sandman” elevou a temperatura do ambiente. Antes de começar, Eicca Toppinen saudou os presentes e pediu que todos cantassem junto, antecipando uma noite dedicada ao repertório do Metallica. A resposta veio de maneira arrebatadora: os fãs cantaram praticamente a música inteira, criando um daqueles momentos memoráveis da apresentação.

“Creeping Death” manteve a intensidade, com as vozes tentando acompanhar alguns versos até explodirem no refrão, enquanto “For Whom the Bell Tolls” reforçou a capacidade do Apocalyptica de reproduzir a atmosfera monumental dos clássicos sem depender de guitarras distorcidas para impor respeito.

Em seguida, “The Call of Ktulu” trouxe um dos momentos mais especiais da noite. Perttu Kivilaakso comentou que o público teria uma experiência incrível, e Eicca destacou a importância da faixa, gravada pelo Apocalyptica com a linha original de baixo de Cliff Burton. A lembrança do saudoso músico, cuja contribuição foi fundamental para a identidade sonora do Metallica, acrescentou um significado especial à execução.

Na sequência, veio uma das surpresas do repertório: “St. Anger”, faixa-título do controverso álbum lançado em 2003. Apesar da curiosidade despertada pela escolha, foi o momento que menos empolgou o público. Ao final, Perttu perguntou quem conhecia o disco e identificou um fã que demonstrava entusiasmo. Em tom bem-humorado, aproveitou para brincar com a possibilidade de ele também gostar de outro trabalho que dividiu opiniões: Lulu, colaboração do Metallica com Lou Reed lançada em 2011.

A reação mais morna, porém, ficou para trás quando “The Four Horsemen” recolocou a apresentação nos trilhos, seguida pela devastadora “Blackened”, que voltou a provocar uma resposta explosiva dos presentes. Sem grandes anúncios, o Apocalyptica emendou “Master of Puppets” e fez o Carioca Club praticamente vir abaixo.

A combinação entre a execução precisa dos violoncelos e a participação dos fãs mostrou como essas composições continuam poderosas mesmo quando reinterpretadas por instrumentos tradicionalmente associados à música erudita. A apresentação não se limitou a reproduzir melodias conhecidas: o grupo soube preservar a agressividade, as mudanças de andamento e a dramaticidade das composições, explorando as possibilidades de seus instrumentos para conferir novas nuances a cada arranjo.

Depois de tanta intensidade, “Nothing Else Matters” ofereceu uma pausa emocional e se transformou em um dos pontos altos da noite. A interpretação delicada, conduzida pelas cordas, encontrou no público um coro afinado e espontâneo. Perttu comentou que os fãs haviam transformado a casa no “Karaokê Club”, classificando aquele momento como o mais bonito de toda a turnê.

A observação fez sentido diante da participação calorosa, que deu à canção uma atmosfera particularmente emocionante. Na sequência, “Seek & Destroy” agitou o público, mas a surpresa ainda não havia terminado: o grupo também homenageou o Sepultura com “Refuse/Resist”, aproximando dois universos fundamentais do metal e arrancando uma reação especial dos fãs brasileiros. A homenagem demonstrou que a conexão com o público brasileiro vai além do tributo ao Metallica, passando também pelo reconhecimento do Sepultura como um dos maiores nomes do metal sul-americano.

Para encerrar a noite, “One” funcionou como uma escolha certeira, reunindo dramaticidade, peso e passagens de grande intensidade musical, com os versos de James Hetfield ganhando destaque na interpretação instrumental. A faixa coroou uma apresentação que mostrou como a música do Metallica permanece aberta a novas interpretações sem perder sua essência.

Mesmo com a chuva e o caráter tradicionalmente exigente de uma sexta-feira à noite, o bom público do Carioca Club participou ativamente de uma experiência que alternou momentos de pura agressividade, passagens emocionais e surpresas bem escolhidas. Com a turnê Apocalyptica Plays Metallica Vol. 2, os finlandeses reafirmaram sua identidade singular: transformar o violoncelo em instrumento de combate e provar que a fronteira entre a música clássica e o heavy metal pode ser muito mais estreita do que parece.

Texto: Marcelo Gomes

Fotos: André Tavares


Realização: Overload Brasil

Press: Tedesco Comunicação & Mídia


Apocalyptica – setlist:

The Ecstasy of Gold

Ride the Lightning

Enter Sandman

Creeping Death

For Whom the Bell Tolls

The Call of Ktulu

St. Anger

The Four Horsemen

Blackened

Master of Puppets

Nothing Else Matters

Seek & Destroy / Refuse/Resist

One

Cobertura de Show: Amorphis – 18/10/2026 – Carioca Club/SP

Entre o peso e a melodia, Amorphis transforma o Carioca Club em um reencontro de emoções

A noite de domingo tinha uma ansiedade pairando no ar. Depois de tanta expectativa, finalmente havia chegado o dia de receber o Amorphis em São Paulo. O encontro era aguardado por fãs que acompanham diferentes capítulos da trajetória dos finlandeses, que construíram uma identidade própria ao longo de mais de três décadas e que seguem encontrando maneiras de conectar peso, melodia e atmosferas que parecem transportar o ouvinte para outro lugar. No Carioca Club, em Pinheiros, o prelúdio daquela noite já anunciava que estávamos diante de mais um daqueles encontros marcantes para os amantes do metal melódico.

A apresentação fazia parte da passagem brasileira da turnê Borderland, que leva aos palcos a fase mais recente da banda sem deixar de lado composições que ajudaram a consolidar seu nome na história do metal. A expectativa, portanto, envolvia tanto a oportunidade de ouvir o material mais novo ao vivo quanto a possibilidade de reencontrar músicas que acompanham os fãs há anos. Com a casa relativamente cheia e o público começando a se preparar para uma noite de muito peso, a abertura ficou por conta do Throw Me to the Wolves, representante da nova geração do metal brasileiro.


Throw Me to the Wolves: técnica e peso surpreendentes

Foi a primeira vez que assisti a um show do Throw Me to the Wolves e confesso que a impressão deixada pela banda foi bastante positiva. O quinteto paulistano trabalha com uma combinação de death metal melódico e elementos de metalcore, equilibrando agressividade, riffs marcantes e passagens melódicas. Em uma abertura, existe o desafio de conquistar a atenção de um público que, muitas vezes, já chega com a cabeça voltada para a atração principal. A banda, porém, demonstrou qualidade técnica e presença suficientes para transformar aquele primeiro contato em uma experiência que merece ser destacada por conta própria.

Diogo Nunes foi um dos grandes responsáveis por essa impressão. O vocalista tem um domínio impressionante das diferentes possibilidades da própria voz e consegue transitar por registros extremos com intensidade e segurança. É daqueles casos em que assistir à performance ao vivo ajuda a compreender a dimensão do trabalho vocal, porque a execução acontece diante dos nossos olhos, sem que seja possível ignorar o esforço, o controle e a expressividade envolvidos. O que Diogo faz com a voz é absurdo, absurdo, absurdo! 

Na bateria, Maycon Avelino sustentou a apresentação com consistência, precisão e uma cadência que se manteve firme do início ao fim. Em um repertório que exige bastante da execução rítmica, a bateria tem papel fundamental para manter o peso sem comprometer a clareza dos arranjos. Foi justamente essa segurança que me chamou a atenção, especialmente pela maneira como a base se manteve coesa enquanto os demais instrumentos exploravam suas possibilidades.

As guitarras de Gui Calegari e Fabrício Fernandes também merecem destaque. Os dois demonstraram entrosamento e domínio técnico, alternando riffs pesados e linhas melódicas que ajudam a definir a sonoridade do grupo. Além da execução, vale registrar um detalhe que chama a atenção de quem acompanha o universo das guitarras: ambos estavam tocando instrumentos da Solar Guitars. A presença dos instrumentos da marca no palco soma um elemento interessante à apresentação, mas o que realmente se sobressaiu foi a maneira como os guitarristas conduziram o material, com firmeza e boa articulação entre as partes.

Fábio Fulini, por sua vez, completou a formação no baixo, contribuindo para a sustentação de uma base que precisa acompanhar a intensidade das guitarras e da bateria sem perder definição. O conjunto funcionou muito bem, e essa combinação entre os músicos ajudou a dar corpo à apresentação. Saí daquele primeiro contato com a sensação de ter descoberto uma banda que merece ser acompanhada de perto, principalmente por quem procura nomes da cena nacional capazes de unir técnica, peso e identidade.

O Throw Me to the Wolves cumpriu a missão de aquecer a noite, mas foi além do papel protocolar de banda de abertura. Para mim, a apresentação serviu como uma excelente oportunidade de conhecer o trabalho do grupo em seu ambiente mais natural, o palco. E, considerando a qualidade demonstrada pelos músicos, fica a curiosidade para acompanhar os próximos passos dessa trajetória.


Amorphis: uma noite de peso, atmosfera e conexão com o público

Depois da abertura, a expectativa voltou a tomar conta do Carioca Club. O intervalo parecia aumentar a ansiedade de quem aguardava a atração principal, e o início do jogo de luzes foi o sinal de que a espera estava chegando ao fim. Então, entre o apagar e o acender das luzes, a magia começou: o Amorphis subiu ao palco e deu início a uma apresentação que tinha tudo para ser especial.

Desde o começo, era possível perceber o quanto aquele encontro significava para as pessoas presentes. Havia uma vontade evidente de acompanhar cada música, reconhecer as passagens, cantar junto e fazer parte daquele momento. A energia que vinha da plateia ajudou a estabelecer o tom do espetáculo, criando uma relação de proximidade entre banda e público que se manteve ao longo da apresentação. Em vez de uma audiência que apenas observa o que acontece no palco, o Carioca Club se tornou parte ativa daquela experiência, respondendo às músicas e demonstrando o quanto a obra dos finlandeses encontra espaço na vida de quem os acompanha.

Uma das características mais interessantes do Amorphis é a capacidade de trabalhar com contrastes sem perder a própria identidade. Embora o grupo tenha raízes importantes no death metal melódico, sua trajetória passou por transformações que ampliaram consideravelmente o repertório sonoro. Hoje, o peso convive com melodias elaboradas, elementos progressivos, passagens atmosféricas e referências ao folclore finlandês, especialmente à tradição mitológica e poética do Kalevala. Essa combinação faz com que a música da banda tenha uma dimensão narrativa muito particular, alternando momentos de maior agressividade com trechos que parecem convidar o ouvinte a mergulhar em outra paisagem.

Ao vivo, essa identidade ganha força justamente pela maneira como os diferentes elementos se complementam. As guitarras dão sustentação ao peso e às melodias, enquanto os arranjos ampliam a sensação de atmosfera sem retirar a intensidade das composições. A voz de Tomi Joutsen também é fundamental para essa dinâmica, pela capacidade de transitar entre os registros extremos e melódicos que fazem parte da personalidade do Amorphis. Essa alternância ajuda a construir a tensão e a profundidade das músicas, permitindo que a banda explore diferentes intensidades sem perder a conexão com quem está diante do palco.

O repertório percorreu diferentes momentos da discografia, combinando faixas mais recentes com composições que já ocupam um lugar especial na história do grupo. A abertura com “Bones”, seguida por “Light and Shadow” e “Silver Bride”, estabeleceu uma sequência que reuniu diferentes aspectos da identidade musical da banda. “Wrong Direction” e “Death of a King” deram continuidade a essa construção, enquanto “Fog to Fog” ajudou a conduzir o espetáculo por outras nuances do repertório.

Ao longo da apresentação, músicas como “The Castaway”, “The Lantern” e “The Moon” ampliaram esse percurso, evidenciando como o Amorphis consegue explorar diferentes atmosferas sem abandonar a força das guitarras e da base rítmica. Já “Sampo” trouxe ao repertório uma composição que dialoga diretamente com as referências mitológicas presentes na obra do grupo. Essa ligação com a tradição cultural finlandesa é um dos elementos que tornam a banda tão particular, porque suas músicas frequentemente ultrapassam a experiência imediata do peso e da melodia para construir imagens, narrativas e sensações.

A apresentação também reservou espaço para momentos importantes da trajetória do Amorphis, incluindo “The Smoke”, “Magic and Mayhem” e “Black Winter Day”, esta última acompanhada de um trecho de “My Kantele”. A presença dessas composições ajudou a aproximar diferentes fases da carreira, lembrando que a identidade atual da banda foi construída a partir de uma trajetória de experimentação e mudanças. Para os fãs que acompanham o grupo há mais tempo, são músicas que carregam o peso da história; para quem se aproximou da banda em fases posteriores, representam a oportunidade de conhecer melhor as raízes de uma sonoridade que continua em transformação.

“Dancing Shadow” e “House of Sleep” conduziram o repertório para seus momentos finais, antes de “The Bee” encerrar a apresentação no bis. A escolha das músicas permitiu que a noite transitasse entre diferentes facetas do Amorphis, mantendo o equilíbrio entre o peso, a melodia e as passagens mais envolventes. Ao observar a resposta do público, ficava evidente que o repertório não era composto apenas por canções reconhecíveis, mas por músicas que carregam significados diferentes para cada pessoa presente.

E talvez seja justamente essa a força de uma banda que atravessou tantas fases sem perder sua personalidade. O Amorphis não depende de uma única fórmula para construir sua música. Existe espaço para a agressividade, para a contemplação, para a melodia e para os arranjos mais elaborados, e tudo isso se encontra em uma identidade que permanece reconhecível. A apresentação no Carioca Club mostrou como esses elementos funcionam juntos e como a relação construída com os fãs continua sendo parte essencial dessa experiência.

Outro detalhe importante desta passagem foi a presença de Pyry Hanski no baixo. O músico, que também integra a banda finlandesa ...And Oceans, acompanhou o Amorphis nesta etapa da turnê, substituindo temporariamente Olli-Pekka Laine. Mesmo com a alteração na formação, a apresentação manteve a força coletiva que sustenta a sonoridade do grupo. É um lembrete de que as turnês também envolvem adaptações e circunstâncias pessoais, enquanto a música precisa seguir encontrando seu caminho até o público.

Quando a música também encontra a nossa história

Para mim, entretanto, aquela noite teve uma camada adicional de significado. O show do Amorphis carregava um apelo emocional ligado a questões pessoais, algo que tornou a experiência particularmente intensa. Há momentos em que o trabalho de cobertura nos coloca diante de uma banda que admiramos, e precisamos observar a apresentação com atenção aos detalhes, à execução, ao repertório e à resposta da plateia. Mas também existem noites em que a relação pessoal com a música atravessa esse olhar profissional e transforma a experiência em algo difícil de traduzir apenas por critérios técnicos.

Ao fim, o Amorphis deixou a impressão de uma noite marcada pela entrega, pela consistência musical e pela conexão com os fãs. O domingo terminou, mas a experiência permaneceu. E talvez seja essa a melhor maneira de definir o que aconteceu no Carioca Club: uma noite em que o peso e a melodia encontraram espaço para caminhar juntos, enquanto a música fazia aquilo que sabe fazer tão bem, aproximar pessoas, despertar lembranças e criar novas histórias.





Realização: Bangers Open Air


Throw Me to the Wolves – setlist:

Chaos

Days of Retribution

Fragments

Angels Fall

Forsaken Fears

Tartarus

Gaia


Amorphis – setlist:

Bones

Light and Shadow

Silver Bride

Wrong Direction

Death of a King

Fog to Fog

Thousand Lakes

The Castaway

The Lantern

The Moon

Sampo

The Smoke

Black Winter Day

Dancing Shadow

House of Sleep

Bis

The Bee

terça-feira, 20 de outubro de 2026

John Coffey: A Força de Gritar Junto Quando o Mundo Pesa

Long Branch Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Existem bandas que transformam a agressividade em identidade. Outras conseguem fazer dela uma linguagem para falar sobre aquilo que nem sempre sabemos como expressar. O John Coffey pertence às duas categorias. Em Not Alone, seu sexto álbum de estúdio, o quinteto neerlandês transforma guitarras abrasivas, vocais intensos e ritmos acelerados em um trabalho que fala de resistência, empatia e conexão humana. São dez faixas distribuídas em pouco mais de 30 minutos, sem espaço para grandes desvios, mas com algumas mudanças de dinâmica que impedem o disco de se tornar apenas uma sequência de pancadas.

Lançado pela Long Branch Records, o álbum chega depois do retorno da banda às atividades, iniciado com FOUR, de 2023, após um hiato de aproximadamente sete anos. Em vez de tentar recuperar o passado nota por nota, o John Coffey retoma os elementos que ajudaram a construir sua identidade e os coloca a serviço de um repertório que alterna urgência punk, peso hardcore, melodias de rock alternativo e passagens de sensibilidade grunge. Essa combinação também aparece nas primeiras avaliações internacionais, que destacam tanto a energia instrumental quanto a capacidade do grupo de abrir espaço para refrões mais acessíveis.

Nick Helderman

1. Hang the Choir

A abertura é um dos momentos mais eficientes do disco. Os riffs têm um ataque quase imediato, enquanto as mudanças de voz ampliam a impressão de que a música está sendo construída por várias pessoas, e não apenas conduzida por um vocalista. Essa dimensão coletiva combina com o tema da faixa, que aborda a defesa de quem sofre preconceito ou é tratado como alguém que não pertence ao ambiente ao redor.

A composição não precisa de uma introdução longa para estabelecer sua identidade. O John Coffey aposta em uma estrutura compacta, com energia suficiente para imaginar a música funcionando como um dos pontos de explosão de um show. A melodia ajuda a fixar o refrão, mas as guitarras preservam a aspereza necessária para que a mensagem não soe domesticada.

2. Not Alone

A faixa-título representa uma das decisões mais importantes do álbum: desacelerar depois de uma abertura tão explosiva. Em vez de continuar na mesma direção, o John Coffey reduz a pressão instrumental e deixa a melodia ocupar o primeiro plano. A voz de David Achter de Molen ganha uma característica mais aberta e emocional, com uma abordagem que aproxima a música do grunge e do rock alternativo.

O contraste funciona porque a delicadeza não parece artificial. A faixa foi escrita em memória de Niels van den Ham, amigo da banda que morreu por suicídio, e transforma essa perda em um chamado à escuta, à compreensão e à importância de procurar conexão quando a vida se torna difícil. A própria banda apresentou a música como uma lembrança de que aquilo que sentimos não precisa ser enfrentado em isolamento.

Esse contexto muda a maneira como o refrão é recebido. A mensagem aparece como o centro emocional de um disco que entende a música pesada como espaço de acolhimento. Em um álbum relativamente curto, a faixa-título também funciona como ponto de equilíbrio: ela dá profundidade ao que veio antes e prepara o ouvinte para as mudanças de dinâmica que ainda estão por vir.

3. Push Push Push

Se “Not Alone” abre uma janela para o lado mais vulnerável da banda, “Push Push Push” volta a fechar os punhos. A música recupera o caráter físico do álbum com riffs angulares, mudanças de acentuação e uma sensação de urgência que mantém o ouvinte em alerta.

O trabalho das guitarras merece atenção. Em vez de depender exclusivamente de acordes pesados e velocidade, a faixa utiliza pequenas quebras e movimentos menos previsíveis para criar tensão. Essa abordagem aproxima o John Coffey de uma tradição de hardcore que valoriza tanto a força do impacto quanto a personalidade do riff.

A composição pode parecer caótica em uma primeira aproximação, mas existe organização por trás dessa impressão. Os elementos se encaixam para produzir uma descarga de energia controlada, e a curta duração evita que a ideia perca força. É uma das faixas que melhor representam o lado mais agressivo do álbum.

4. It's You

“It's You” muda novamente a temperatura do disco. As guitarras continuam pesadas, mas as melodias assumem uma importância muito maior, aproximando a faixa do rock alternativo e de uma tradição de refrões amplos, feitos para serem cantados em conjunto.

A voz de Achter de Molen funciona especialmente bem nesse contexto. Sua interpretação mantém a aspereza característica do grupo, mas deixa espaço para uma entrega mais melódica. O resultado é uma música que não precisa abandonar o peso para alcançar um público mais amplo.

5. Do Not Teach

A calmaria relativa não dura muito. “Do Not Teach” recupera uma postura mais confrontadora e aposta em uma sonoridade que mistura o peso do hardcore com elementos menos convencionais. A presença de uma sirene e de um coro infantil acrescenta estranheza à composição, criando uma atmosfera que contrasta com a agressividade das guitarras.

A ideia é interessante porque amplia a paleta sonora do disco sem afastar a banda de suas raízes. Ao mesmo tempo, é um dos momentos em que a execução parece menos coesa. A introdução tem impacto, mas a transição para o restante da faixa não desenvolve todo o potencial daquela escolha inicial. A música continua pesada, embora a estrutura não seja tão convincente quanto a das melhores composições do álbum.

6. Call of the Bear

“Call of the Bear” é uma das composições mais frenéticas do álbum. A bateria acelera, os riffs se acumulam e a faixa parece constantemente prestes a ultrapassar os próprios limites. O resultado é um dos momentos mais próximos do hardcore caótico e do mathcore, com mudanças de ritmo que tornam a experiência menos linear.

O contraste entre passagens aceleradas e trechos mais melódicos impede que a música se resuma à velocidade. Existe uma preocupação em construir um refrão reconhecível, embora a composição por vezes exagere na insistência de sua mensagem de superação. A intenção é clara, mas algumas escolhas acabam tornando o resultado um pouco mais óbvio do que o restante do álbum.

Ainda assim, instrumentalmente, a faixa é um destaque. O John Coffey demonstra como pode transitar entre o caos e a melodia sem perder completamente o controle. É o tipo de composição que deve ganhar outra dimensão quando executada diante de um público disposto a transformar cada mudança rítmica em movimento.

7. I Don't Care, I Won't Give Up On You

Depois da intensidade de “Call of the Bear”, a sétima faixa apresenta uma mudança de textura. A influência do grunge aparece com mais clareza, tanto no peso das guitarras quanto na atmosfera emocional da composição. A música mantém uma base robusta, mas a interpretação vocal ganha um tom mais vulnerável, criando um contraste interessante com o título, que sugere insistência e compromisso.

É uma das faixas em que a dimensão afetiva do álbum aparece sem depender de uma balada tradicional. O John Coffey não abandona o volume nem transforma a composição em um intervalo contemplativo. Em vez disso, utiliza a melodia para revelar outro lado da mesma intensidade presente nas músicas mais rápidas.

8. Time Is Up Now

Com “Time Is Up Now”, o John Coffey volta a acelerar. A faixa é direta, inquieta e construída para manter o movimento constante, com uma combinação de riffs insistentes e ganchos melódicos que tornam a música mais memorável do que uma simples explosão de energia.

A sensação é de urgência: a bateria não deixa o arranjo se acomodar, enquanto as guitarras conduzem a composição para a frente. O refrão, por sua vez, cria um contraponto interessante à velocidade, oferecendo um ponto de apoio que o ouvinte consegue reconhecer mesmo em meio à intensidade instrumental.

9. Hope In – Fear Out

O título já aponta para uma ideia de transformação, e a música traduz essa perspectiva em uma composição movida por riffs pesados, ritmo firme e uma energia afirmativa. “Hope In – Fear Out” não tenta soar contemplativa; sua esperança é apresentada como algo que exige ação, movimento e disposição para enfrentar aquilo que paralisa.

A faixa funciona como uma síntese temática de Not Alone. Depois de músicas que exploram vulnerabilidade, confronto e apoio mútuo, o John Coffey retorna ao peso para construir uma mensagem de resistência. A sonoridade continua agressiva, mas a composição não é tão sombria quanto algumas das faixas anteriores.

10. All Bark, No Bite

O encerramento escolhe uma solução diferente da abertura. Em vez de terminar com a maior velocidade possível, “All Bark, No Bite” trabalha com contrastes entre passagens mais contidas e momentos de maior intensidade. As guitarras alternam tensão e abertura, enquanto os riffs apresentam pequenas mudanças que dão personalidade à composição.

A dinâmica entre peso e suavidade funciona como uma espécie de resumo do disco. O John Coffey demonstra que, às vezes, a força está justamente no espaço deixado entre uma explosão e outra.


Nick Helderman

Confira a tracklist completa:

1. Hang the Choir

2. Not Alone

3. Push Push Push

4. It's You

5. Do Not Teach

6. Call of the Bear

7. I Don't Care, I Won't Give Up on You

8. Time Is Up Now

9. Hope In – Fear Out

10. All Bark, No Bite

Cobertura de Show: Glam Slam Party – 17/10/2026 – Jai Club/SP

 

Glam Slam Party celebra o hard rock, a força feminina e o encontro de gerações na Jai Club

Com Cassidy Paris como uma das grandes surpresas da noite, Lorraine Lewis ovacionada pelo público e Stevie Rachelle resgatando o espírito do glam metal, a festa reuniu diferentes momentos do rock em São Paulo

A Jai Club, na Vila Mariana, em São Paulo, foi palco de uma noite dedicada ao hard rock e ao glam metal no sábado, 17 de outubro. A Glam Slam Party, que celebrou seus cinco anos de existência, reuniu Cassidy Paris, Lorraine Lewis - com participação de Tony West - e Stevie Rachelle, em uma programação que conectou novas vozes do rock a artistas que ajudaram a construir a identidade do gênero.

Entre riffs marcantes, refrões cantados em coro e a energia característica do estilo, a noite também serviu como lembrete de que o rock segue vivo, renovando seus representantes sem abrir mão de suas raízes. E, se o repertório nostálgico tinha força suficiente para mobilizar a plateia, a presença de uma artista da nova geração mostrou que há muito mais por vir.

Cassidy Paris: uma grata surpresa

Cassidy Paris foi uma das grandes surpresas da noite. Para quem ainda não havia assistido a um show da australiana, a apresentação na Jai Club foi uma oportunidade de descobrir uma artista que combina qualidade musical, personalidade e presença de palco. Mais do que reproduzir a estética do hard rock clássico, Cassidy demonstra segurança para ocupar esse espaço e imprimir sua própria identidade.

O repertório percorreu diferentes momentos de sua trajetória, com músicas como Walking on Fire, Danger e Midnight Desire, do álbum New Sensation (2023), além de faixas do trabalho mais recente, Bittersweet (2025), como Wannabe, Stronger, Getting Better e Nothing Left to Lose. A sequência evidenciou a conexão entre as influências clássicas do gênero e uma abordagem contemporânea, com melodias marcantes e refrões feitos para ganhar força ao vivo.

O que mais chama a atenção, porém, é a naturalidade com que Cassidy sustenta sua performance. Há potência vocal, atitude e domínio de palco, elementos fundamentais para um estilo musical que sempre exigiu mais do que técnica: exige personalidade. Sua apresentação foi uma grata descoberta e reforçou a percepção de que o rock tem ganhado cada vez mais representantes incríveis, capazes de manter sua essência e, ao mesmo tempo, apontar para o futuro.

A força feminina esteve no centro desse momento. Cassidy não precisou recorrer à nostalgia para conquistar seu espaço, fez isso por meio do próprio repertório, da entrega e da presença. Ao longo do show, foi conquistando o público da Jai Club e mostrando que existe uma nova geração preparada para assumir o protagonismo no rock. Foi uma apresentação que deixou a vontade de acompanhar os próximos passos da artista e de vê-la novamente no palco.

Lorraine Lewis: uma plateia inteira na mesma sintonia

Se Cassidy representou a descoberta, Lorraine Lewis entregou um daqueles momentos em que a conexão entre artista e público se torna evidente. Vocalista do Femme Fatale, grupo que ganhou projeção no final dos anos 1980, Lorraine carrega uma história ligada a uma das fases mais emblemáticas do hard rock. Canções como Falling in and Out of Love e Waiting for the Big One fazem parte desse legado.

Na Jai Club, a recepção foi à altura dessa trajetória: Lorraine foi ovacionada, e a multidão entoou todas as músicas do repertório. A resposta coletiva deu à apresentação um caráter especial, transformando cada faixa em um reencontro entre a cantora e um público que conhecia as canções e estava pronto para cantá-las do início ao fim.

A setlist passeou por diferentes nuances do repertório, começando com Baby's Gun e Back in Your Arms, passando por Falling in and Out of Love, Bad Love e Home Is Where the Heart Is, e chegando a momentos de maior intensidade com Letters from the Psychward, Crazy Train e I Just Wanna Hate. O encerramento com Jackson completou uma apresentação marcada pela participação da plateia.

A participação de Tony West acrescentou outro elemento ao show, reforçando o espírito de colaboração que marcou a noite. Mas o grande destaque foi Lorraine: uma artista que não apenas revisita um repertório importante para o hard rock, como mantém uma relação viva com as músicas e com quem as acompanha.

Stevie Rachelle e a celebração do glam metal

A presença de Stevie Rachelle completou o encontro de gerações proposto pela Glam Slam Party. Conhecido como vocalista do Tuff, banda norte-americana formada no início dos anos 1990, o cantor representa uma vertente do glam metal que ajudou a consolidar a estética e a sonoridade associadas à cena de Los Angeles. O grupo lançou What Comes Around Goes Around em 1991, disco que integra a trajetória do artista.

A participação de Stevie deu à programação um vínculo direto com a história do gênero, em uma noite que não se limitou a reproduzir o passado, mas reuniu artistas de diferentes momentos do rock no mesmo palco. Sua presença, ao lado de Lorraine Lewis e Cassidy Paris, reforçou a identidade da festa: celebrar o glam e o hard rock como expressões musicais que continuam encontrando público e espaço para novas histórias.

A Glam Slam Party funcionou como um ponto de encontro entre diferentes gerações de fãs e artistas. A memória afetiva das canções, a energia do palco e a descoberta de novos nomes coexistiram em uma noite que valorizou tanto a herança do gênero quanto sua continuidade.

Texto: Stephanie Ferreira

Fotos: Edu Lawless


Realização: Glam Slam Party


Cassidy Paris – setlist:

Walking on Fire

Wannabe

Stronger

I Still Think About You (Danger Danger cover)

Midnight Desire

Fundamentally

Danger

Like I Never Loved You

Getting Better

Nothing Left to Lose

Watch the Fire (W.E.T cover)


Lorraine Lewis – setlist:

Baby's Gun 

Back in Your Arms

Falling in & Out of Love

Bad Love

Home is Where the Heart

Don't Call Me Your Angel

Living Like There's No Tomorrow 

Waiting For The Big One

Letters from the Psychward

Crazy Train (feat. Tony West, Ozzy Osbourne cover)

I Just Wanna Have (feat. Tony West, Ramones cover)

Jackson


Stevie Rachelle – setlist:

Ruck A Pit Bridge

Spit Like This

In Dogs We Trust

Good Guys Wear Black

I Hate Kissing You Goodbye 

So Many Seasons

All New Generation

American Hairband

Nothing But A Good Time (Poison cover)

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Cobertura de Show: The Gathering – 15/10/2026 – Audio/SP

The Gathering e os 30 anos de Mandylion: Emoção e Nostalgia

Sabe quando você vai a um show e, depois, fica tentando encontrar palavras para explicar o que acabou de viver, mas simplesmente não consegue? Pois é, estou tentando escrever sobre o show do The Gathering celebrando os 30 anos de Mandylion e confesso que está difícil. Não por falta do que dizer, mas porque parece que nenhuma palavra consegue chegar perto do que foi aquela noite.

Primeiramente, preciso dizer que, para uma pessoa como eu, que quase nunca chora, sentir vontade de chorar durante praticamente o show inteiro foi uma experiência e tanto! Mas também, convenhamos: estamos falando de Mandylion, um dos meus discos preferidos da vida, tocado na íntegra pela formação daquela época. Como é que a pessoa fica normal diante de uma coisa dessas?

A primeira vez que ouvi esse álbum eu tinha 15 anos. Quinze! E foi um daqueles discos que abrem a sua cabeça, sabe? Que fazem você descobrir coisas novas, enxergar a música de outra maneira e perceber que existe um mundo inteiro para além daquilo que você já conhece. Naquela época, eu jamais imaginaria que um dia teria a oportunidade de ver essas músicas ao vivo, com a formação original. E olha só, hoje, aos 33 anos, eu estava lá.

É muito louco pensar nisso. A gente cresce, a vida acontece, tanta coisa muda, mas algumas músicas continuam morando naquele cantinho especial dentro da gente. E, de repente, você está ali, diante delas, tentando processar tudo ao mesmo tempo.

E eu nem comecei a falar do show ainda! Mas, antes, vamos falar de Mandylion?

Para quem não conhece a história, o The Gathering é uma banda holandesa formada em 1989, que começou sua trajetória explorando sonoridades mais próximas do death/doom metal. Mas foi em 1995, com o lançamento de Mandylion, que o grupo deu um passo decisivo para construir a identidade pela qual se tornaria conhecido.

O disco marcou a chegada de Anneke van Giersbergen aos vocais e trouxe uma mudança importante na sonoridade da banda, misturando peso, atmosferas sombrias, passagens progressivas e melodias que fugiam bastante do que se costumava ouvir no metal naquela época.

A formação de Mandylion reunia Anneke nos vocais, René Rutten e Jelmer Wiersma nas guitarras, Frank Boeijen nos teclados, Hugo Prinsen Geerligs no baixo e Hans Rutten na bateria.

E o resultado foi um daqueles trabalhos que envelhecem muito bem. Na época, o álbum chamou a atenção justamente por essa combinação de peso e delicadeza, com uma sonoridade atmosférica e uma vocalista que tinha uma maneira muito particular de interpretar as músicas. Com o tempo, Mandylion se consolidou como um dos grandes discos do metal gótico dos anos 90 e uma referência para muita gente que veio depois.

E não é difícil entender o motivo. Basta ouvir “Eléanor”, “Strange Machines”, “Leaves” ou a maravilhosa “Sand and Mercury” para perceber que existe algo muito especial ali.

Não é só um disco importante para a história do The Gathering. É um disco que marcou a vida de muita gente. E, pelo que vi naquela noite, não estou falando apenas de mim.

Anneke van Giersbergen é um acontecimento à parte

Gente, o que dizer dessa mulher?

Anneke tem uma voz linda, etérea, daquelas que parecem te puxar para dentro da música. Mas não é só a voz. É a maneira como ela canta, como se movimenta, como se conecta com as pessoas e como consegue transmitir tanta coisa sem precisar fazer esforço para chamar a atenção.

Ela tem um carisma absurdo! É uma cantora premiada, com uma trajetória incrível, mas que mantém uma leveza e uma simpatia que tornam tudo ainda mais especial. E sabe o que acho mais legal? A gente costuma ouvir falar muito bem dela nos bastidores, principalmente sobre a maneira como trata os fãs e como gosta de interagir com o público. Quando você vê isso acontecendo ao vivo, percebe que não é só conversa. Ela realmente parece gostar daquela troca.

Durante o show, Anneke agradeceu diversas vezes pelo carinho, pela recepção e pelo que chamou de lindo coral brasileiro. Dava para perceber que ela estava genuinamente impressionada com o que estava ouvindo.

Aliás, a reação dela quando começou “Eléanor” foi uma das coisas mais bonitas da noite. Assim que ela começou a cantar, o público veio junto com uma força absurda. Anneke ficou claramente surpresa e, em vários momentos, colocou a mão perto do ouvido para ouvir melhor aquela multidão cantando. Imaginem a cena!

E não foi só nessa música. O público cantou durante o show inteiro, e Anneke fez questão de agradecer diversas vezes. Comentou sobre o jet lag, as poucas horas de sono e agradeceu por ter tanta gente ajudando a cantar.

Meus amigos, se vocês precisam de ajuda para cantar, pode deixar que o brasileiro resolve!

Mas, brincadeiras à parte, foi realmente emocionante ver a reação dela. A cantora disse o quanto achava aquele carinho lindo e o quanto ela e os músicos se sentiam abençoados por receber tanto amor.

E acho que essa troca foi uma das coisas mais bonitas do show. Não era só uma banda tocando para um público. Era uma multidão devolvendo, em forma de canto, todo o amor que aquelas músicas receberam durante esses 30 anos.

Uma catarse coletiva. E não estou exagerando!

Eu juro que teve momentos em que olhei ao redor e pensei: gente, o que está acontecendo aqui? Era gente chorando, gente cantando com os olhos fechados, gente com as mãos na cabeça, naquele clássico gesto de quem está tentando entender o que acabou de presenciar. E, no meio disso tudo, sempre aparecia alguém soltando um “PQP, QUE SHOW É ESSE?!”.

E eu entendia perfeitamente, porque estava pensando exatamente a mesma coisa.

Foi uma emoção coletiva muito difícil de explicar. Parecia que todo mundo ali estava vivendo alguma coisa pessoal, mas, ao mesmo tempo, estávamos todos sentindo a mesma coisa juntos.

Sem exagero, parecia um ritual. Um culto sagrado ao som de Mandylion. E olha que nem sou de ficar romantizando tudo, mas aquela noite mereceu!

Foi uma experiência sensorial e emocional profunda. Tinha a música, a voz da Anneke, os instrumentos, milhares de pessoas cantando e aquela sensação de que você estava vivendo um momento que não se repetiria daquela mesma maneira.

E acho que é isso que torna um show inesquecível. Não é só ouvir as músicas de que você gosta. É sentir que está compartilhando algo muito maior do que você, mesmo sem conhecer a pessoa que está chorando do seu lado.

O público brasileiro foi um espetáculo à parte. E a produção também merece reconhecimento, porque tudo funcionou muito bem. Os músicos estavam entrosados, a execução foi impecável e as músicas mantiveram aquela atmosfera tão característica da banda.

Mas, sinceramente? Meu olhar voltava o tempo todo para Anneke. Ela estava brilhando, conduzindo tudo com aquela voz maravilhosa e um carisma que parece não ter fim.

E ainda teve muito mais além de Mandylion

A celebração não ficou restrita ao álbum, e o repertório trouxe outras músicas importantes da fase de Anneke no The Gathering.

Tivemos “On Most Surfaces”, do Nighttime Birds (1997), e “Travel”, do experimental How to Measure a Planet? (1999), mostrando um pouco dessa evolução musical da banda ao longo dos anos.

Também tocaram “Liberty Bell” e “Third Chance”, esta última especialmente interessante por não ser tocada desde 2007, conforme o histórico de apresentações da banda.

É muito legal quando uma banda entende que celebrar um disco clássico não significa necessariamente ficar presa a ele. Essas outras músicas ajudaram a ampliar a experiência e lembrar que a fase de Anneke foi muito além de Mandylion.

E aí veio “Saturnine” para fechar a noite.

Olha, que escolha acertada! Uma das músicas mais emblemáticas dessa fase, com aquele clima que parece abraçar a gente e apertar o coração ao mesmo tempo. Foi um encerramento lindo, daqueles que deixam você emocionalmente destruída, mas feliz por ter vivido aquilo.

Eu não consigo imaginar uma maneira melhor de terminar aquela noite.

E agora, como é que eu explico isso?

Sabe o que mais me pega quando penso nesse show? É lembrar daquela menina de 15 anos que ouviu Mandylion pela primeira vez e não fazia ideia de tudo o que ainda viveria. Naquela época, eu não imaginava que, tantos anos depois, estaria diante daquela banda, ouvindo aquelas músicas ao vivo, cantando junto e quase chorando do começo ao fim.

E não é só nostalgia. Acho que é também perceber o quanto a música acompanha a gente, mesmo quando a vida muda completamente. A gente cresce, passa por tanta coisa, conhece outras bandas, descobre novos discos, muda de opinião sobre um monte de coisas, mas alguns álbuns continuam ali, intactos em sua importância.

E, de repente, você tem a chance de viver algo que, durante anos, parecia impossível. Foi exatamente isso que senti naquela noite: uma mistura de alegria, nostalgia e gratidão por finalmente ver ao vivo um disco que marcou tanto a minha vida.

Saí do show tentando processar tudo o que tinha vivido, mas algumas experiências não precisam ser explicadas em detalhes. Basta sentir e agradecer por ter estado ali. Mandylion fez parte de quem eu era aos 15 anos e agora também faz parte da memória de uma das noites mais emocionantes que já vivi.

Aquela menina que descobriu o disco jamais imaginaria que, tantos anos depois, estaria ali, cantando e quase chorando ao ouvir aquelas músicas ao vivo. E tenho certeza de que ela ficaria feliz em saber que, mesmo depois de tanto tempo, esse amor continua vivo.


Texto: Michelle F. Santana

Fotos: Jaqueline Souza (Headbangers News) 


Realização: Honorsounds 

Press: Hoffman & O'Brian


The Gathering – setlist

Eléanor

Fear the Sea

In Motion #1

On Most Surfaces (Inuït)

Broken Glass

Waking Hour

Probably Built in the Fifties

Liberty Bell

Analog Park

In Motion #2

Leaves

Sand and Mercury

Strange Machines

Bis

Travel

Third Chance

Saturnine