terça-feira, 7 de julho de 2026

Soulwitch: O metal sinfônico curitibano que une ocultismo, orquestra e protagonismo feminino

Lucas de Melo - @olucasdemelo_

Por Michelle F. Santana (@mii.santanna) e Paula Butter (@paulabutter.rocks)

Dois anos após o lançamento de Principium, a Soulwitch segue construindo uma das trajetórias mais consistentes do metal sinfônico brasileiro. Formada em Curitiba (PR), a banda reúne peso, arranjos orquestrais e uma identidade conceitual densa, ancorada em espiritualidade, hermetismo e simbolismo, numa proposta que dialoga com referências internacionais do metal sinfônico sem abrir mão de uma voz própria.

À frente do grupo está a vocalista e diretora artística Maria Sliviany, responsável pelas letras, pelo figurino e pela narrativa visual que atravessa o álbum. Lançado pelo selo Voice Music, Principium percorre temas como amor, morte, transformação da consciência e renascimento, os chamados princípios herméticos, traduzidos em faixas como Teufelsbuhlschaft, que explora os arquétipos da bruxaria e da Inquisição, e Beltane, selecionada para o Roadie Crew Online Fest, um dos principais eventos digitais de metal do país.

Em junho de 2026, às vésperas de um show especial no Teatro Paiol, em Curitiba, para celebrar os dois anos do disco, Maria Sliviany conversou com a Road To Metal, e falou sobre o processo criativo por trás das músicas, a filosofia que atravessa cada faixa e videoclipe, e também o papel da mulher no cenário do metal brasileiro. Para ela, a Soulwitch vai além de uma banda: é uma ferramenta de cura, uma ponte entre o humano e o divino, e um convite ao autoconhecimento. "A música tem que ser sentida antes de ser compreendida", disse ela, sintetizando em uma frase o que Principium busca provocar em quem ouve.

Confira a seguir a entrevista na íntegra:

Michelle: Prazer enorme conversar com você. Eu ouvi a banda e, como fã de metal sinfônico, fiquei muito feliz de conhecer uma banda brasileira com tamanha qualidade. Muito obrigada mesmo!

Maria: Nossa, eu que agradeço, Michelle. Esse reconhecimento significa muito para nós. Querendo ou não, a gente faz tudo com muito amor e muito trabalho. As bandas brasileiras também precisam de visibilidade, então acho que existem muitas bandas boas que, às vezes, o público simplesmente ainda não conhece. Fico muito feliz que você tenha gostado, de coração. Para nós, isso significa muito, ainda mais vindo de uma fã de metal sinfônico.

Michelle: Falando um pouquinho sobre isso, Maria, na sua visão, o que faz uma banda brasileira de metal sinfônico conseguir se destacar em um cenário que é tão europeu?

Maria: Então, pela quantidade de bandas e pela quantidade de conteúdo que temos hoje nas redes sociais, acaba sendo bem difícil. O metal sinfônico é bem nichado. Querendo ou não, tem a questão dos arranjos orquestrais e toda uma imersão, uma atmosfera diferente dentro do metal. Eu sempre falo que é como se fosse uma trilha sonora se juntando com o peso do metal. É um trabalho muito massa de fazer, mas exige demais também.

Toda essa parte quem cria é o Jack. Ele é o criador da banda e quem dá origem a todas essas músicas. Por ser tecladista, ele tem o conhecimento necessário para construir toda essa atmosfera e todo esse universo que o metal sinfônico exige.

Luca de Melo - @olucasdemelo_

Michelle: É bem cinematográfico, né? Muito trabalhado.

Maria: É porque você consegue se transportar para uma época, para um lugar. Acho que a ideia da Soulwitch e do metal sinfônico em si sempre foi isso. E cada banda vai trazer uma personalidade, um conceito, uma ideia. Você ouve Nightwish, Epica, Within Temptation... Todas elas têm algo em comum, mas também têm algo muito diferente, com muita personalidade, tanto na temática quanto na sonoridade.

A gente também tem essas bandas como referência e sempre quis trazer a nossa própria identidade. Acho que a gente sempre acaba se espelhando em outras bandas, porém trazendo também as nossas ideias e a nossa personalidade para criar uma arte única.

Paula: Com relação à arte e ao figurino, eu vi que vocês têm um trabalho muito grande com isso. O álbum, a capa, a arte... É uma coisa muito perfeita e muito bem-feita que, atualmente, é difícil ver em bandas nacionais. Eu queria saber como surgem essas ideias: o figurino da banda, os videoclipes... O quanto dá de trabalho elaborar esses conceitos, esses figurinos? Isso vem de dentro de você?

Maria: Eu falo que a nossa criação é muito fluida. Eu acredito que a arte tem que nascer dessa sensibilidade do artista. Tem toda a parte técnica, que é super necessária. O conhecimento geral da música, saber estruturar uma música, a técnica que você vai utilizar, tanto como instrumentista quanto como vocalista, é essencial. Mas a alma tem que falar através desse sentimento, dessa liberdade que a arte permite, porque, se você pensa demais, a arte acaba travando.

Então, a gente sempre tenta fazer tudo de uma forma muito fluida, livre de amarras. A Soulwitch se torna bruxa também dentro desse conceito por conta dessa liberdade de expressão.

E a questão do figurino, do audiovisual, dos videoclipes e da parte gráfica é uma extensão disso. Eu sou apaixonada por arte. Estudei arte, estudo arte, consumo arte. Sou apaixonada por moda, por cinema e por arte gráfica. Adoro frequentar museus. Eu acho que, se a gente pode proporcionar uma experiência completa para o público, por que não? Por que não entregar o melhor? Por que não entregar um universo? A gente faz isso com esse propósito.

Hoje eu até trouxe aqui o disco da Soulwitch, que a Paula comentou. Se você for analisar, tem toda essa questão através da arte gráfica, das cores e do videoclipe também. Inclusive, tem uma foto no encarte que foi feita com o figurino de "Teufelsbuhlschaft". A gente quis trazer esse link para que o público tivesse uma imersão completa nessa experiência.

Divulgação

Michelle: Eu acho que vocês conseguem exprimir bastante essa estética, que é muito marcante. E, você falando desse processo criativo, Maria, qual foi a primeira imagem ou ideia que surgiu antes mesmo das filmagens começarem?

Maria: Você diz quando a gente já tinha as músicas prontas ou no início de tudo mesmo?

Michelle: Eu acredito que quando vocês já tinham a música pronta. Como vocês imaginavam esse clipe, que ficou muito bonito? Parabéns!

Maria: Ai, obrigada! "Teufelsbuhlschaft" foi escolhida como o primeiro single por ser a raiz da banda. Foi a primeira música que lançamos para anunciar o álbum, mas também a primeira a ser composta. O Jack já tinha esse instrumental há muitos anos e, quando ele me mostrou, foi a primeira letra que eu escrevi.

Foi algo muito intuitivo, porque, quando escutei toda aquela sonoridade que ele trouxe, ela me remeteu a uma época, a um cenário e a um sentimento também. Era como se ela contasse uma história: uma perseguição, mas que não termina com um final triste.

A questão da integração das sombras, da cura e de trazer a história de uma bruxa no século XVI não representa um fim, e sim um novo começo, porque a morte não representa um fim; ela é uma transmutação.

E a gente também pode morrer diversas vezes em vida. Quantas vezes a gente chega e fala: "Cara, é hora de mudar. É hora de fazer algo diferente." A gente se renova constantemente. Sempre foi essa a ideia: a transmutação e a integração das sombras.

O preto e o branco vêm com isso. O preto como a integração da sombra, enquanto o branco representa a nossa essência, que nunca se perde, apesar de tudo o que a gente passa, dos altos e baixos da nossa vida.

Eu acredito que essa é a principal lição, a principal mensagem que a gente gostaria de trazer.

Paula: E, tocando nesse assunto, você acabou de falar que vocês conseguem unir temas como amor, morte, transformação, renascimento e os princípios herméticos. O que eu acho muito interessante é que isso chega muito facilmente ao ouvinte, porque, se você for analisar as letras, é uma música que te toca imediatamente. A primeira vez que eu ouvi o álbum, eu me apaixonei pelas letras, porque é aquilo que você falou: tem a parte das sombras, tem a parte do renascimento e da própria vida. Parece que é uma história sendo contada, e ela ficou acessível para vários ouvintes. Tem bandas que fazem obras extremamente boas, mas que, às vezes, ficam um pouco complicadas para todo mundo. Com vocês, eu tenho a impressão de que muita gente que nem escutava esse tipo de música passou a escutar. Já fazem dois anos desde o lançamento do álbum, e ele continua muito atual. Tem muita gente descobrindo ou redescobrindo esse trabalho. A gente mesmo fala: "Olha, você já ouviu?" E todo mundo que ouve acaba gostando. Como vocês se sentem vendo essa repercussão?

Maria: Primeiro, Paula, muito obrigada pelas palavras. Eu vou guardar muito isso para mim, porque é esse feedback que a gente ama receber. É por isso que eu gosto tanto de manter contato com o público, porque eu tenho muito interesse em saber o que a Soulwitch desperta em vocês. E ouvir isso de você é muito lindo, porque é um desafio tanto em questão técnica quanto conceitual.

Ontem (22/07) eu estava conversando com a Maria Correia, do Heavy Metal Online, e eu falei sobre isso para ela. A magia se divide em duas polaridades. A primeira é a questão do conhecimento racional, ligada aos estudos. E a outra é a parte intuitiva, do inconsciente e do sentimento, que também está ligada ao ritual.

Eu pensava: ‘como é que a gente vai conseguir trazer a magia de uma forma humanizada e de um jeito que as pessoas não apenas compreendam, mas sintam?’

Eu acredito que a música tem que ser sentida antes de ser compreendida, porque cada pessoa vai ter a sua interpretação. Eu posso trazer essa temática, mas cada um de vocês vai ouvir e vai ter um sentimento, uma memória e algo que desperta em vocês de forma única. Esse é o verdadeiro poder da arte.

É muito gratificante ter esse feedback e saber que você realmente mergulhou nesse universo que a gente tenta trazer, porque essa sempre foi a ideia.

Paula: E vocês já estão pensando em um novo projeto? Alguma coisa já está sendo trabalhada ou vocês vão focar mesmo nos shows, que vai ter agora no dia 27/06 (N.T.: a entrevista foi realizada no dia 23/06, quatro dias antes do show), e para os quais estamos todos ansiosos?

Maria: Fico feliz que você vá, Paula. Gostaria que a Michelle também fosse.

Michelle: Ah, eu queria muito! Estou em São Paulo, esperando vocês por aqui.

Maria: Pois é! São Paulo está nos encantando, porque a gente quer muito tocar aí. A Soulwitch está louca para fazer um show em São Paulo. Quem sabe no próximo ano? Seria maravilhoso.

Sobre os planos da banda, a gente nunca para. Claro que a gente não pode falar sobre as novas composições, mas é que nem eu digo: se a gente deixa de compor, parece que para de respirar, porque é o que a gente ama fazer.

Então, a Soulwitch está sempre em atividade, sempre compondo. O Jack está sempre lá, que nem uma maquininha, fazendo as músicas, passando para mim, e a gente vai trabalhando.

Enquanto isso, a banda precisa acontecer. O ao vivo é muito importante para nós. Esse show no teatro é uma experiência muito legal, muito diferente. O teatro permite que você tenha uma proximidade muito grande com o público. Durante a apresentação, às vezes a gente faz uma pausa, conversa com o pessoal e explica um pouquinho sobre o que fala cada música. E, no final do show, ter esse feedback, conseguir dar um abraço no pessoal, conversar e conhecer quem é o nosso público... O teatro permite muito isso.

Então, estamos muito ansiosos para esse sábado e, claro, seguimos com os shows.

Michelle: Você estava falando da expectativa para essa comemoração dos dois anos do álbum. Existe alguma faixa que ganhou um significado completamente diferente para você depois desses dois anos?

Maria: Eu acho que cada faixa é como um filho. Você vai amar todas. Cada uma tem a sua peculiaridade, porque tem dias em que uma música vai fazer mais sentido pelo que você está vivendo.

Tem dias em que você está mais introspectiva e vai estar mais "Aura Spectrum". Você teve um sonho, um desdobramento astral, uma revelação, e pensa: "Cara, isso faz total sentido para mim."

Em outros dias, você está com sangue nos olhos, cheia de revolta, e vem "Pandemonium". É aquela coisa: "Eu preciso falar, preciso ouvir, preciso cantar essa música hoje."

Então, cada música é vivida de uma forma diferente. Dependendo do momento, elas acabam falando por si só.

Eu amo todas as músicas e espero que o público também goste. Claro que cada um vai se conectar de uma forma mais especial com uma em específico. A gente sempre brinca que é como uma caixa de bombons: você sempre vai ter um preferido. (risos)

Voice Music (Nac.)

Paula: Como você definiria a Soulwitch para uma pessoa que vai ao show pela primeira vez e está ouvindo a banda pela primeira vez?

Maria: Eu sempre digo que a Soulwitch é uma ponte entre os limiares. Ela é uma conexão do nosso lado humano com o divino. E, na minha visão, o divino é o nosso eu superior. É a emancipação da consciência do ser. É essa questão do equilíbrio, em que a gente encontra as nossas forças interiores. E é uma oportunidade de dar voz a pessoas que não puderam falar em sua época e também aos registros que carregamos na nossa alma.

Eu acredito muito que vivi outras vidas e que consigo resgatar essas memórias através dos meus sentimentos. Quando a gente compõe as músicas, deixamos que esse sentimento nos transporte. É um momento de cura, um momento de resgate.

A Soulwitch não é apenas uma banda. Ela é uma filosofia de vida, uma ferramenta de cura. Ela consegue resgatar vozes silenciadas, tanto do passado quanto do presente, e também trazer energias futuras. É um universo.

Michelle: E quando você começou nesse universo, Maria? Nesse universo mágico e ritualístico que vocês trazem e exprimem tão bem na arte de vocês. Quando foi o seu primeiro contato com esse universo?

Maria: Eu acho que isso é algo que a gente carrega desde o nascimento. Mas sempre existe um momento de despertar, algum momento específico da sua vida em que isso vem com tudo. É como uma serpente que está adormecida e desperta. É como se fosse a kundalini: a nossa serpente, o nosso instinto, o nosso lado humano despertando para se conectar com esse eu superior, com esse divino, com essa consciência cósmica, essa consciência maior que nós temos.

Não tem um momento específico. Foi um despertar que foi acontecendo e que continua acontecendo. Acho que, a cada dia, a gente acaba se conhecendo mais. Eu vivo uma jornada de autoconhecimento e expresso muito isso nas letras da Soulwitch. Eu posso estar bem velhinha e, com certeza, ainda vou estar descobrindo coisas novas e vivendo novas experiências.

Paula: A tua postura e o teu figurino transmitem feminilidade, mas, ao mesmo tempo, muito poder. Você acaba sendo uma inspiração para muitas cantoras, principalmente daqui de Curitiba e também de outros estados. Só que esse mundo da música, às vezes, é um pouco cruel. O que você diria para essas cantoras que ainda não encontraram esse poder dentro delas? Que conselho você daria para aquelas que, de repente, pensam em desistir?

Maria: Eu acho que o autoconhecimento é a chave de tudo. Eu sempre digo que a verdadeira magia está nisso. Você tem que ter controle sobre você mesma, controle sobre a sua sombra, primeiramente, e reconhecer aquilo que te machuca, que te limita, que te afeta.

Então, em vez de ignorar isso, eu acho que você tem que encarar como se fosse um espelho, aceitar, integrar e ir resolvendo tudo dentro de você. É um processo de respeito ao seu próprio tempo.

Cara, todos nós passamos por muita coisa. Todo mundo tem uma história, todo mundo tem uma ferida. Então, eu acho que nunca é uma questão de desistir. É uma questão de integrar tudo isso. E, quando você integra a sua sombra, ela vira poder.

Até em "Teufelsbuhlschaft", se você for analisar essa jornada da bruxa que eu trago, é quando a igreja toma dela essa liberdade. As mãos, que são um instrumento de trabalho e, para mim, algo sagrado, ficam manchadas pelo preto, que representa a sombra. Só que ela não se desfaz disso. Até o final, ela permanece com essas marcas, e aquilo se transforma em algo poderoso, em uma ferramenta de poder para ela.

Então, acho que as mulheres têm que ter isso em mente, porque a mulher já é uma maga por natureza. Existe essa energia lunar que a mulher carrega, porque a gente tem o poder da geração. Só a mulher pode gerar a vida. E a magia é isso: criação. É criar a sua própria realidade.

Então, como você falou, Paula, existe a nossa feminilidade, mas também existe o nosso poder. E o feminino é isso. Também é encontrar o seu masculino, o seu sol, a hora de brilhar, a hora de trazer isso para o mundo, para o público.

Para conseguir se conectar com outras pessoas, você primeiro precisa se resolver consigo mesma. O feminino, a lua, tudo isso representa essa imersão interior. É um momento de recolhimento para integrar essas sombras e, só então, brilhar com o seu sol.

É esse o conselho que eu deixaria para as meninas. Espero que elas encontrem esse equilíbrio entre o feminino e o masculino dentro delas.

Paula: Muito obrigada pelo conselho.

Maria: Eu adorei essa pergunta. Achei muito massa, porque é uma oportunidade de compartilhar essas ideias. Eu queria estar em uma roda de meninas, conversando e conhecendo também as experiências delas. Quem sabe a gente não tenha essa oportunidade algum dia?

Paula: Só um adendo: aqui em Curitiba a gente tem um grupo, não sei se você já ouviu falar, chamado FeMetal. É uma iniciativa muito legal. A gente tenta reunir as mulheres da cena independente, sejam elas musicistas, empresárias ou de outras profissões. Tudo gira em torno do heavy metal. Por isso o nome FeMetal. A gente tenta fortalecer esse lado feminino de todas elas, mas ainda é difícil.

Maria: É difícil, Paula? Como assim? O que acaba acontecendo?

Paula: Porque, às vezes, existe muita desunião nesse meio musical. Falta um pouquinho mais de união.

Maria: Eu acho que muitas feridas acabam vindo à tona. Então é isso que a gente fala: quando a gente não está bem resolvido com a gente mesma, acaba ferindo os outros também, porque a gente está ferida.

O cenário tem muito essa questão do ego. Então, eu acho que a união deveria acontecer por um propósito maior. Essa disputa para tentar fazer uma brilhar mais do que a outra não pode existir, porque eu acredito que há espaço para todo mundo.

Paula: Mas, graças a Deus, está perseverando. A união está ficando cada vez maior. Eu considero isso uma vitória, por enquanto.

Maria: Também acho que pode começar por grupos menores. Por exemplo, três bandas unidas ou algo assim. Porque eu acho que, quanto mais gente envolvida, às vezes pode surgir algum desentendimento. Mas o importante é as coisas fluírem.

Paula: É por isso que eu te perguntei sobre as meninas, as novas cantoras, que acabam desistindo. Elas precisam encontrar esse poder, essa magia, essa força natural que existe dentro delas. Precisam amar mais. O teu álbum, o teu conceito... O conceito da Soulwitch ajuda muito nisso. Muitas meninas gostam muito e admiram esse trabalho. Então é bem legal.

Maria: Nossa, eu fico lisonjeada de saber que tantas mulheres se conectam com isso. Quer dizer que realmente o nosso propósito está funcionando, que a gente está tocando pessoas, fazendo com que elas despertem para também investir esse tempo nelas, investir essa energia.

A gente sabe que não é fácil. Todo mundo tem a sua rotina, às vezes falta tempo. Você pensa: 'ah, eu vou investir em arte', mas a gente sabe que o retorno é complicado. Mesmo assim, a gente não pode desistir. Tem que encontrar uma força, um propósito nisso.

Então, eu fico feliz de estar inspirando essas mulheres, porque acredito que cada uma tem algo único para trazer através da própria arte. Eu apoio muito a questão do autoral, porque ele permite criar algo realmente único.

Claro que existem as bandas cover, que fazem parte de um cenário muito movimentado, mas o autoral é o novo. Toda banda deveria buscar criar suas próprias músicas. A gente precisa de novas bandas. Precisa dar continuidade a essa história.

Paula: Sim, com certeza. Eu concordo plenamente com você. Precisamos de autoral, precisamos de identidade, de arte. Não apenas de coisas feitas por inteligência artificial. Lógico que ela ajuda em algumas tarefas do dia a dia, mas não na arte. Não na criação. A gente ainda precisa da música, do ser humano, do artista, do fotógrafo e de tudo aquilo que nos permite ser quem somos. E essa questão do autoral também... Eu sempre faço essa reflexão. Tem tanto artista maravilhoso que, meu Deus, eu fico impressionada! E, às vezes, as pessoas preferem recorrer ao computador para fazer alguma coisa, em vez de chamar um artista, até mesmo o próprio vizinho. Tem muita gente boa.

Maria: Eu não consigo nem imaginar como alguém consegue fazer uma música através da inteligência artificial. A tecnologia vem para ajudar, mas também pode acabar destruindo muita coisa.

A inteligência artificial pode ser uma ferramenta, mas ela nunca vai ter a alma do artista. Então é uma situação bem complicada. Eu não vejo isso com muitos bons olhos.

Paula: É por isso que a gente tem que exaltar aqueles que realmente contratam artistas, que fazem tudo do jeito que vocês fizeram. Graças a Deus, ainda tem bastante banda fazendo isso.

Maria: Sim, com certeza.

Michelle: Qual é o maior obstáculo que você enxerga hoje em dia em ser independente e também ser uma mulher à frente de uma banda?

Maria: Eu acho que passa muito pela questão que a Paula trouxe: as oportunidades. Mas a gente sempre encontra, na dificuldade, um novo caminho.

Eu nunca me dou por derrotada. A gente realmente não desiste de nada. Sabemos que, às vezes, os passos para uma banda como a nossa conseguir tocar são muito complicados, quando não deveriam ser.

Eu acho que ainda faltam muitas oportunidades para bandas autorais no ao vivo. Tanto que a gente faz a produção dos nossos próprios eventos por causa disso. Mas acabou sendo algo muito positivo, porque conseguimos oferecer uma estrutura de teatro que proporciona uma imersão maravilhosa.

Além da conexão com o público, existe toda a qualidade sonora que um teatro oferece quando você escolhe um espaço com boa estrutura.

Mas, claro, toda essa correria fica por conta da banda. Tem a locação do teatro, técnico de som, técnico de luz, venda de ingressos, divulgação... Tudo é responsabilidade nossa. Não é apenas fazer um cartaz; é divulgar o evento, organizar toda a campanha e cuidar de toda a parte burocrática.

Para o público, normalmente a divulgação começa cerca de dois meses antes, mas o trabalho de organização começa muito antes disso.

A gente está aí para isso e sempre vai procurar novas oportunidades. Mas eu acredito que um dos maiores desafios continua sendo encontrar os parceiros certos para conseguir realizar esses shows.

Paula: E, para encerrar, deixa uma mensagem para os fãs.

Maria: Eu só tenho a agradecer ao nosso público, que é maravilhoso. Sem vocês, a gente não seria nada. A música vive por causa do público.

Eu amo ter essa conexão com vocês. Espero que algo do que eu tenha dito aqui hoje fique com vocês, que desperte alguma coisa aí dentro e possa ajudá-los de alguma forma.

Hoje a gente falou muito sobre integração das sombras. Espero, de coração, que vocês encontrem o próprio caminho.

E eu também estou sempre disponível para conversar. Então podem me mandar mensagem no direct do Instagram. Qualquer dúvida, qualquer conselho... Estou aqui para isso também. Sou superaberta. Podem mandar mensagem que a gente conversa.

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