Quando uma banda de metal dos anos 80 pisa no Brasil pela primeira vez, o evento pode ser considerado um marco histórico para o público que conseguiu presenciar aquele acontecimento. Foi isso que aconteceu no Burning House com a colaboração da Dark Dimensions ao trazer pela primeira vez o Sanctuary, lotando a casa e proporcionou uma noite memorável para os fãs após 40 anos de espera.
Não teve banda de abertura, mas poderiam ter encaixado alguém do underground como aconteceu em outros; sendo assim, o foco ficou voltado totalmente para o quinteto e o vocalista Joseph Michael (primo de Ronnie James Dio) que assumiu a difícil missão de substituir Warrel Dane (vocalista fundador falecido em 2017), foi essencial para celebrar toda atenção na continuidade consagrada da banda para quase uma geração inteira que acompanhava os clipes na falecida MTV nos anos 90 entre os discos Refuge Denied (1987) e Into the Mirror Black (1989).
O show abre com problemas na sonorização do microfone em “Arise and Purify” e “Frozen” do terceiro e último disco com Warrel Dane, “The Year The Sun Died (2014), o que não interferiu na performance da banda no palco e logo foi resolvido durante a apresentação. De cara, já se percebia o entusiasmo do palco e público, o som estava excelente vindo dos PAs, as guitarras de Lenny Rutledge – da formação original – e Will Wallner estavam bem pesadas com aquele som cadenciado característico de Heavy/Thrash Metal que a banda executava no passado ficou ainda melhor ao vivo. O baixista e também veterano George Hernandez ficou bem à vontade e impôs o baixo palhetado latente fazendo uma cozinha perfeita com o baterista Dave Budbill. Canhoto, descia o braço com mão pesada, também da formação original e se mostrando em plena forma durante todo o show.
Seguindo com “Die for My Sins”, “Seasons of Destruction” e “Veil of Disguise”, o vocalista Joseph Michael mostrou que não há dúvidas de estar entre um dos melhores vocais da atualidade no compromisso e continuidade na vida sonora do Sanctuary, manteve o timbre e agudos bem difíceis de serem executados ao vivo na afinação original das músicas, distribui carisma, conversou e cumprimentou por várias vezes o público, tomou vinho no palco junto com os integrantes e manteve sua voz com timbre muito parecido com o saudoso Warrel Dane. A expectativa em ouvir os clássicos “Future Tense” e “Taste Revenge” (cantada pelo público do começo ao fim) e “Long Since Dark” conectou todos com algo que vivemos no passado quando escutamos essas músicas pela primeira vez a exaustão com os amigos e cds emprestados (obrigado Luiz por dias memoráveis).
E pra surpresa de todos, um cover de “Breathe”, do Pink Floyd, colocou outro astral na casa mostrando um lado da banda com maestria e olhos atentos a cada detalhe da música e digna de aplau-sos. Momento especial que leva a banda de um extremo ao outro sem perder o respeito com os fãs numa homenagem a um clássico da música global. É algo que falta nas bandas de hoje, tocarem pelo menos um cover de alguém que os representam, que fica na memória e que eleva a qualidade musical de todos os integrantes; ainda embalaram com “White Rabbit”, do Jefferson Airplane.
Fecharam com “Soldiers of Steel” de supressa, mas não estava mais no local pois as luzes e o som mecânico haviam sido ligados sinalizando que havia acabado o show e dezenas de pessoas perderam essa música ao sair.
O Sanctuary deixou um exemplo de várias situações boas ao saímos do show, abre uma nova etapa da sua carreira no Brasil de forma grandiosa e reconhecimento merecido ao logo de todas essas décadas. Parecia que já estiveram aqui por várias vezes da forma como o show foi acontecendo. O memorável Warrel Dane foi lembrado por todos, cantado por todos e com certeza nunca será esquecido, tanto no Sanctuary quanto na carreira grandiosa do Nevermore. Exemplos corajosos assim de levar a continuidade a um legado tão brilhante dão oportunidade para os fãs resgatarem algo que viveram em algum momento de suas vidas, por isso Metal é tão generoso nessa empreitada de continuar a história para novos seguidores, novos ouvintes e novos amantes da música pesada. Tentar continuar é uma lição que o palco mostra para as pessoas que seguir em frente independente das mudanças que aconteceram no caminho, é a decisão mais consciente quando temos.
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