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terça-feira, 7 de abril de 2026

Cobertura de Show: D.R.I. + Ratos de Porão – 22/03/2026 – Cine Joia/SP

Se o termo “Crossover” existe desde 1982 é exatamente por conta dessa duas bandas: DRI e Ratos de Porão! Eles foram determinantes para que o Thrash Metal ficasse bem mais pesado ao vivo, forçaram as ban das a usarem cabeçotes e equipamentos melhores, irem para estúdios melhores! Algumas dessas bandas de Thrash Metal a seguir, fizeram uma vez só um disco de Crossover na carreira no final dos anos 80: Exodus, Sepultura, Metallica, Metal Church, Testament, Forbidden, Vio-lence, Kreator, Sodom, Anthrax, Sadus, Slayer, Pestilence, Annihilator, Megadeth, Nuclear Assault, Dark Angel, Possessed, Razor e Death, poderiam ter criado o Crossover mas foram os que se aproveitaram do impacto quando chegou no Thrash. As gravações analógicas com riffs variando velocidade, peso de uma batera nunca vista antes e baixo pesado sem médio/agudo é culpa do DRI e RDP.

O último show turnê das duas bandas que se despedia no domingo na Liberdade, centro de SP, mostrou a força do estilo: uma fila gigante já se formava do lado de fora, e por outro lado, dentro do Cine Joia, um clima de exaustão que desaguou no palco.

A abertura do Imflawed e Questions teve mais disposição em relação as bandas principais. Em sua primeira passagem por SP, o Imflawed de Recife/PE fez uma apresentação curta com 7 sons muito honrosa com público chegando ao chamado do vocalista e guitarrista Arthur Santos para aproveitarem a noite. A mistrura de groove com Thrash rendeu uma boa recepção do público; destaques para “Fear, “Inner War”, “Slave New World” (cover do Sepultura) e “Fuck Your Pride”. O baixista Martin mandou muito bem mesmo escala do de última hora pra cobrir dois shows em SP.

O Questions entrou empolgado e rapidamente e fez valer seus 26 anos de estrada. Muita personalida de, som redondo, com carisma de Edu Revolback sempre agradecendo conversando com a galera, deixaram uma reperório bem agressivo. Destaque para “The Same Blood” e “The Victory Speech” com excelente de sempenho do baterista baterista Eduardo Sasaki e excelente desempenho do guitarrista Pablo Menna.

Em seguida, era a vez do RDP fazer sua parte; tocou os clássicos (quem conhece o RDP sabe o repertório) e manteve a energia de 45 anos no palco. Desta vez, com a ausência de Jão (fora dessa turnê por conta de um acidente de moto), que foi substituído por Maurício Nogueira (ex-Torture Squad) para segurar os shows. Maurício fez uma apresentação muito boa, com muita atenção nos riffs, e deixou a banda à vontade para colocar o público na roda.

Era perceptível o cansaço da turnê mencionado pela banda. Por exemplo, os perrengues com refeição estragada no Rio de Janeiro deixaram João Gordo debilitado, somados aos contratempos em Minas Gerais, ou seja, um caldeirão de incômodos antes de se despedirem da turnê e irem para casa, o que em alguns momentos também refletiu no público.

Mesmo assim, João Gordo não tirou o mérito de entregar um vocal matador aos 64 anos, junto à garra do Boka na bateria e à força da banda no evento como um todo. Destaque para músicas que não aparecem com frequência nos shows, como “Homem Inimigo do Homem”, “Colisão” e, em ano de eleições, “Alerta Antifascista”.

Pra fechar, o DRI cumpriu o repertório da turnê com a apresentação sonora arrebatadora, como sempre fez no Brasil em tempos passados, passando pelos discos Dirty Rotten, Dealing With It, Crossover, 4 of a Kind, Thrash Zone, Definition e Full Speed Ahead. Mas os bastidores para começar o rolê não saíram como o Crossover pede.

Tiveram muitos problemas, a começar pelo atraso de quase uma hora desde a retirada da bateria principal do palco para montar outra totalmente do zero, até posicionar os microfones das peças e pratos, passar o som e regular tudo. Isso quebrou o bom andamento que o RDP havia deixado. Os caras estavam sem roadies, não havia uma equipe de apoio com eles, o DRI fez tudo na raça.

O Spike usa dois cabeçotes de guitarra, um de cada lado do palco, justamente para sustentar o peso que a banda proporciona quando ele abafa o riff e produz aquele impacto que só o Crossover consegue. Mas ele fez tudo sozinho, andando de um lado para o outro com a guitarra, regulando, afinando e timbrando o som. O baixista Greg Orr também teve dificuldades de regular o baixo. Kurt subiu no palco, ele mesmo plugou seu microfone, sacado da mochila, e nada da banda começar.

Quando a banda finalmente começa, durante o repertório, por várias vezes entre as músicas, Spike recorre aos amplificadores para ajustar o som da guitarra, enquanto Kurt liga até um ventilador no palco. Era o DRI, mas não o mesmo que vi no Carioca Club em 2011, que tinha mais brilho e entusiasmo para dizer “nós estamos aqui de volta, pós-pandemia, segurando essa bandeira”.

Existe um cansaço natural após mais de quatro décadas tocando, além do desgaste de deslocamentos constantes de um lugar para outro. Se no final deu tudo certo, o público fez sua parte e participou de tudo. Ainda assim, a história da banda, cravada em eventos de grande porte pelo mundo todo, não justificava passarem por aquilo, justamente pela ausência de colaboradores para fazer o evento funcionar.


Texto: Roberto "Bertz"


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Agência Powerline



Ratos de Porão – setlist:

Alerta antifascista

Morte ao rei

Igreja Universal

Máquina militar

Sofrer

Homem inimigo do homem

Amazônia nunca mais

Farsa nacionalista

Colisão

Expresso da escravidão

Descanse em paz

Paranoia nuclear

Não me importo

Beber até morrer

Crucificados pelo sistema

Pobreza

Caos

Conflito violento

AIDS, pop, repressão


D.R.I. – setlist: 

Who Am I

Beneath the Wheel

Couch Slouch

Thrashard

The Application

Argument Then War

Nursing Home Blues

Dry Heaves

Dead in a Ditch

Suit and Tie Guy

The Five Year Plan

Mad Man

I Don't Need Society

Syringes in the Sandbox

domingo, 1 de março de 2026

Cobertura de Show: Torture Squad – 13/02/2026 – Sesc Bom Retiro/SP

Um período emblemático do calendário brasileiro é o feriado prolongado do carnaval, uma comemoração tão marcante que, por consciência coletiva, foi considerada como o marco do início de um período: todo e qualquer ano só se inicia, de fato, após findar tal comemoração.

Para além disto, ele é um feriado produzido para agradar todos os tipos de públicos, de gregos a troianos: seja quem gosta de sentir o Sol escaldante atrás dos blocos, seja para quem prefere estar presente nos retiros religiosos, ou até mesmo para quem prefere curtir aquele video-game ou um Netflix no conforto dos seus lares.

Felizmente, os amantes de uma música extrema estavam bem-servidos no marco zero do Rock e do Metal no Brasil: a capital paulista. Logo no primeiro dia oficial das celebrações carnavalescas, o SESC Bom Retiro hospedou uma celebração ao Metal extremo com uma autêntica instituição do Thrash Metal nacional: o TORTURE SQUAD.

O primeiro show do ano da banda foi arquitetado de maneira diferenciada: um Teatro, ao invés do palco convencional que uma barricada de riffs agressivos e bateria avassaladora que percorrem o seu caminho, já que “diferenciada” foi a palavra de ordem para esta apresentação.


“CARNAVAL” POSSUI MAIS DE UM SIGNIFICADO NO DICIONÁRIO

Para uma parcela, o último dia 13 de fevereiro foi o primeiro show do ano, o que era causa suficiente para uma animação acima do convencional. Animação esta que pôde ser vista com o público dispersado dentro do teatro do SESC Bom Retiro, mesmo após dar o horário marcado de 20h, socializando com os seus pares. Acontece que esta sensação teria vida curta, pois apesar de ser com atraso, na exata minutagem de 20:11, as luzes se apagaram para dar início à construção de uma atmosfera apropriada.

Proferindo as primeiras notas, HELL IS COMING tem sido uma tradição quase religiosa no uso do começo dos shows do TORTURE SQUAD desde que “Devilish” foi lançado, e assim como o próprio título implica, a avalanche sonora que ela carrega é um convite para quem escuta a adentrarem os portões do Inferno, tal como ocorre no Rio Aqueronte, ponto inicial dos domínios de Hades, o Imperador dos Mortos da mitologia grega.

Sem espaço para sequer a duração de uma batida cardíaca entre uma canção e outra, FLUKEMAN é emendada logo no final da anterior, seguindo o hábito do repertório estar mais centrado no lançamento mais recente, “Devilish” (2023), cujo trabalho teve o ponto de reforçar ainda mais a mescla de duas das vertentes mais extremas do Metal desde o advento de Mayara Puertas e Rene Simionato, há mais de dez anos atrás (em 2015), respectivamente nas tarefas vocais e de guitarra.

E foi justamente Mayara, após o fim da faixa anterior, carregando o dever de manter a maior comunicação entre a banda e o público que realizou uma louvável atitude: uma quebra do protocolo formal do SESC de ver o show sentado numa cadeira. Assim que BURIED ALIVE estava para começar, a mesma tratou de convocar todos a ficarem mais próximos do palco e a curtirem a apresentação da forma como Deus (ou Satanás?) planejou. E uma nota precisa ser feita para esta aqui: a terceira faixa do último álbum carrega uma agressividade tão bem-vinda e infectante que mesmo o ser mais puro e calmo presente é altamente capaz de sentir uma fervura em seu sangue e renunciar a sua capacidade de comportamento formal e estar em linha com o seu modus operandi selvagem, já que é da selva onde nós viemos.


O QUE É CHAMADO DE “TORTURA”, PARA ALGUNS É UM LAR

Como se essa transmissão vigorosa de energia não fosse suficiente, a dupla HELLBOUND e MURDER OF A GOD veio com uma declaração de intenção. Com a alteração de posição da plateia, o quarteto capitalizou a continuação do ritual com os supramencionados petardos, lançados na forma de uma hecatombe auditiva e com o surgimento de moshes (ainda que tímidos, mas presentes) na área situada entre as cadeiras e o palco.

Assim que a total e completa escuridão governou o ambiente, um observador poderia acreditar que o clima pintado era o de um show de Black Metal, para que todos os mortais atualmente preenchendo aquele espaço do SESC Bom Retiro se tornassem um com o meio-ambiente, tal como quando o Cavaleiro de Ouro Régulus de Leão realizou tal façanha ao ascender ao Oitavo Sentido, em CAVALEIROS DO ZODÍACO. Metatextualmente, HELLBOUND serve a este propósito ambiental, mas um dos seus deveres é o de antecipar um certo show à parte que se torna tradicional nas apresentações do “Esquadrão da Tortura”.

A iluminação do palco fica superconcentrada “na cozinha” do grupo. A bateria de Amílcar Cristófaro recebe um tratamento como se ela tivesse feito bullying com ele na infância, dado o nível da “marretagem” recebida, a qual é condição sine qua non para o domínio do kit, e não é à toa que Amílcar é constantemente lembrado ser um dos melhores bateristas que nasceu em solo brasileiro nas opiniões do público em geral. Vê-lo executar um solo em seu instrumento é a pura definição de uma poesia em movimento, e se o ouvinte não sente um fogo pulsando em seu corpo ao testemunhar tal privilégio, o ouvinte em questão está vivendo a vida do jeito errado.

Ato contínuo, o paulistano tomou a frente e discursou para a plateia, prestando homenagem à cena nacional e destacando a produção acústica de nível Lamborguini, além de lamentar a ausência de Jão, membro do RATOS DE PORÃO, que infelizmente não pôde estar presente devido a um acidente de moto que o vitimou dias antes do show.


OLÁ, MI CASA ES SU CASA

Esta foi a brecha para dar as boas-vindas para outra convidada que também merece a alcunha de “especial”. Jéssica Falchi entrou no palco assim que o seu nome foi invocado. Conhecida pela sua passagem na CRYPTA, a paulista vem construindo uma reputação como uma das maiores revelações no cenário nacional, aonde quer que ela vá.

Carregando um carisma tão poderoso, ensinando aos pretendentes que tentam imitar como é que se exala entusiasmo genuíno, a sua aparição inicial veio na forma de WHILE MY GUITAR GENTLY WEEPS, um cover do BEATLES. Apesar da quebra quase radical de ritmo, perfazendo uma guinada de 180⁰ de um lado ao outro, reza uma das regras não escritas do universo que “a calmaria precede a tempestade”.

Provando que essa valia se mantém verdadeira com o teste do tempo, a canção do BEATLES e a sua tranquilidade foram um prelúdio para que uma das principais inspirações da monte-altense fosse lembrada na apresentação. Não é nenhuma surpresa que MARTY FRIEDMAN é um dos motivos que a fez praticar guitarra, demonstrando a honra a um dos seus antepassados, a escolha foi DRAGON MISTRESS, do seu álbum de estreia de 1988.

Ao contrário da balada (que fez com que Mayara trocasse para o vocal limpo), aqui vemos a convidada demonstrar o porquê de estar categorizada como uma revelação, não precisando utilizar palavra nenhuma para deixar isso bem claro, mas sim deixando exalar o seu talento fazer todo o falatório.

Em sequência, HORROR AND TORTURE, PULL THE TRIGGER e THE UNHOLY SPELL são uma trindade que marcam presença da mesma forma que o banho diário faz parte da cultura tupiniquim, servindo como combustível para que o Bloco do Esquadrão continuasse testando a resistência do poderio vindo dos equipamentos do SESC.

Antes delas darem o ar da graça, no entanto, é importante frisar que a vocalista aproveitou o momento para desmentir os rumores do momento, que seria a possibilidade dela integrar a banda sueca de Death Metal Melódico ARCH ENEMY, considerando os mistérios rondando a nova vocalista, deixando claro que a própria integra o TORTURE SQUAD e que o ano atual será marcado por muito trabalho por parte da banda.

EM RETROALIMENTAÇÃO, A VIDA IMITA A ARTE

Uma frase tão comum quando o pôr do Sol acontecendo ao redor das 18h é que todas as coisas boas infelizmente estão fadadas a terem um fim. Em uma realização de um autêntico gran finale, todos fomos agraciados com o retorno da presença contagiante de Jéssica para o ato final: um medley do METALLICA. Não é surpresa nenhuma que a natural de Monte Alto possui a banda dos estadunidenses como uma de suas maiores predileções em vida (ao ponto de realizar diversos covers dela nas suas contas das redes sociais), então não foi nada algo "fora de lugar" um encerramento deste calibre. Olhando em retrospecto, isso acaba sendo uma "homenagem dentro de uma homenagem" (do TORTURE SQUAD à Jéssica, de Jéssica ao METALLICA), no maior clima do filme A ORIGEM, de 2010 encontrando um paralelo à vida real.

E assim foi finalizado o "bloquinho" de Carnaval calmo e tranquilo do Esquadrão da Tortura, perfeito para os que precisam acalmar os ânimos e alcançar um estado zen que o corpo humano consegue atingir.

Assim como a NERVOSA antes deles, é comum achar estranha a performance de um dos atos do Thrash/Death ocorrer dentro de um teatro. Porém, a mensagem aqui fica clara de que esta não é uma apresentação ordinária, mas sim uma dedicatória na forma de show.

Dedicar um show aos seus antepassados que, de certa forma, detém o mesmo sangue brasileiro, é uma das atitudes mais nobres possíveis enquanto na posição não só de musicista, mas de profissional também. Isto por si só reforça o fato de que, mesmo quem tem o – este redator ousa dizer - péssimo gosto de não apreciar música extrema -, faz com que o TORTURE SQUAD mereça o respeito até mesmo por quem curte o lado oposto do espectro musical.

O TORTURE SQUAD é: Mayara Puertas (voz), Castor (baixo), Rene Simionato (guitarra) e Amílcar Cristófaro (bateria).




Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Torture Squad – setlist:

Hell Is Coming

Flukeman

Buried Alive

Hellbound

Murder of A God

Pandemonium

Raise Your Horns

While My Guitar Gently Weeps (Beatles cover; ft. Jéssica Falchi)

Dragon Mistress (Marty Friedman cover; ft. Jéssica Falchi)

Horror And Torture

Pull The Trigger

The Unholy Spell

Metallica medley (ft. Jéssica Falchi)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Cobertura de Show: Dark Dimensions Fest II – 08/02/2026 – Burning House/SP

Uma noite pra não esquecer 2026! Essa foi a sensação quando acabou o evento que trouxe a tríplice do metal violento, que ainda não havia se encontrado no mesmo palco: Forbidden, Vio-Lence e Venom Inc. Essa combinação são situações de eventos que nunca imaginaríamos acontecer e assistir, vindo de encontro muito propício para o Brasil. O impacto de presenciar de perto e vivenciar essas bandas tocando fielmente aos discos que as consagraram no passado é uma experiência que talvez não possa acontecer mais nos próximos anos, onde as bandas sentem isso também quando estão no palco pra tocar diante do público brasileiro. Estamos diante de momentos únicos dentro da cena, testemunhando esses acontecimentos, como se viu por aqui entre 2000 e 2010.

A abertura ficou por conta do quinteto mineiro New Democracy, formado da cidade de Varginha/MG em 2012, que trazia Rafael Lourenço (guitarra e vocal), Fabrício Fernandes (guitarra), Marcus Vinícius (baixo), Vinícius “Banzai” (teclados) e Iago “Barstuk” (bateria). Com o público chegando ao local e alguns ajustes no som, conseguiram mandar um death metal melódico, transitando entre bases cadenciadas com bastante groove, alternando a velocidade dos sons, tudo com muito bom entrosamento e dando espaço para convidados em duas músicas: Iara Vilaça e Fábio Seterval, que deu uma chamada na galera: “vamo aeee, vocês estão morreeendo?”. Destaque para Zumbi, Born to Suffer, Unexpected e Creation, no qual fizeram uma apresentação muito honesta na noite.

Na sequência, Venom Inc. mostrou novamente porque não deve nada para a formação original e está entre uma das melhores bandas de metal do século passado, que continuam um legado primitivo de fazer metal insano, com pegada, entusiasmo, energia, carisma, identidade e fidelidade às raízes do passado. Cobri o Kool Metal Fest em 2024, abrindo para o Possessed, e Tony ‘Demolition Man’ está mais revigorado; aos 62 anos de idade, o cara se impõe ao vivo como o saudoso Lemmy se colocava, honra o legado da banda com identidade própria e dá aula de como fazer um verdadeiro show de metal pesado, na postura de palco, sustentando um baixo pesado bem tocado, vocais furiosos, agressivo na sua presença visual e total no controle do público.

O som estava redondo, o desempenho do guitarrista Curran Murphy (com passagens pelo Nevermore e Annihilator) subiu o patamar da qualidade e ficou muito à vontade pra executar os riffs e solos, com total apoio do baterista Marc Jackson, que assumiu as baquetas ano passado e simplesmente massacrou tudo. As músicas transitaram do disco “Avé”, de 2017, e There’s Only Black, de 2022, como “Ave Satanas”, “There’s Only Black”, “Inferno”, e as clássicas “Parasite”, “Black Metal” e “Countess Bathory”. A banda agitou, curtiu, se divertiu muito mais que a última apresentação deles há dois anos... incrível!

Em seguida, e pela segunda vez aqui na Road to Metal, o Vio-Lence volta a São Paulo e não decepciona. A entrada de Sean Killian e seu vocal incrivelmente igual a 40 anos atrás, sendo único membro da formação original, trouxe consigo uma roupa laranja de prisioneiro, quando é ovacionado pelo público logo na intro de Eternal Nightmare. Seguindo com Serial Killer, dá-se então o início a um desfiladeiro de riffs, com circle pits, moshes, stage dives, tudo maravilhoso de se ver num show de thrash!

Mesmo tendo um começo caótico, de uma microfonia desgraçada vindo da mesa e som mecânico tocando junto com a banda, todos no palco se mantiveram firmes e seguiram o repertório, que passou praticamente quase todo Eternal Nightmare (1987) e alguns sons do incrível Oppressing the Masses (1990), como “I Profit” e “Officer Nice”. Entre a terceira e quarta música é que as coisas se ajeitaram na mesa de som, e a banda se impôs por completo no show; foi um regaço até a última nota, sem descanso.

Toda banda entusiasmada por estar ali, e Sean mantendo a violência ininterrupta no microfone enrolado no braço. Destaques para a formação que contava com o baterista Nick Souza, filho de Steve “Zetro” Souza (ex-Exodus), Claudeous Creamer, guitarrista do Possessed, além de Jeff Salgado no baixo e Ira Black (ex-Heathen) destruindo na guitarra; todos entregaram tudo no palco, público cantando todas as músicas, o som muito fiel ao andamento dos discos da carreira; emocionante revê-los com essa qualidade.

Pra fechar, o Forbidden subiu ao palco e não precisaram regular nada, estava tudo perfeito — o perrengue que o Vio-Lence passou no começo do show não apareceu nenhuma fagulha com os caras! Era a oportunidade pra quem não assistiu ou viu a estreia da banda no Brasil, no Summer Breeze — atual Bangers Open Air — de 2024, presenciar de muito perto o som de extrema competência de todos os integrantes. Foi aula de thrash metal, sem sombra de dúvidas!

Impressionante a execução das músicas dos dois primeiros discos (basicamente foi o Forbidden Evil (1988) e Twisted Into Form (1990) que deram a modulação do repertório), por sua vez, não havia uma nota fora, nenhuma trave no instrumental; uma das qualidades técnicas mais incríveis de se assistir. O público agitou todas as músicas, não teve um som ruim, mas fica o destaque para “Infinite”, “Out of Body (Out of Mind)”, “March Into Fire”, “Twisted Into Form”, “Forbidden Evil”, “Step by Step”, “R.I.P.”, tocada pela primeira vez, mais de 7 minutos de thrash que passou voando o tempo, “Through Eyes of Glass”, um regaço ouvir isso ao vivo, “Divided By Zero” (single lançado de 2025) e “Chalice of Blood” pra acabar com tudo.

O vocalista Norman Skinner estava muito à vontade, dilacerando agressividade, passando por partes de melodia onde mostrou uma segurança absurda na banda, sem contar a comunicação e carisma no qual o público sentiu-se mais próximo ainda da banda. É o cara certo pra fazer o Forbidden seguir em frente ao vivo e gravando discos.

No baixo, veterano da formação original Matt Camacho fez a cozinha na medida certa, sem passar ou diminuir nada, peso perfeito para o baterista Chris Kontos, um monstro tocando de luvas e uma pegada fantástica pra executar um thrash metal com tantas variações, mudanças de tempo e andamentos. O estreante na guitarra Jeremy Von Epp teve sua entrada ano passado, mas parece que está na banda há muito tempo, totalmente entrosado, tocou perfeitamente todos os sons.

E, por fim, o criador de clássicos que nenhuma banda conseguiu repetir, Craig Locicero, responsável por tudo que aconteceu no Forbidden até os dias atuais com esta formação. Os discos de estúdio ultrapassam técnica, mas, ao vivo, tem mecanismos na mão desse cara que soa quase uma metodologia particular de tocar, que não havia presenciado até então.

No ano do anúncio da aposentadoria do Dave Mustaine, Locicero não deixa morrer um legado da história de guitarristas que estão parando, que se foram, podem surgir, e ele sendo influência para milhares continuarem. Mostrou, junto com a banda, que é possível hipnotizar alguém que assiste a uma clássica, com guitarristas tocando thrash metal vivo, totalmente em alta performance.

Demorei alguns dias pra entender o que aconteceu quando acabou o show e o que eu estava presenciando nesse dia. O Forbidden é algo que não pode parar, assim como a ousadia e coragem das bandas dessa noite manterem esse espírito vivo. Tem coisas que o Metal não consegue explicar, e precisamos cada vez mais disso mesmo: de coragem e determinação de organizadores assim pra colocar no mesmo dia uma avalanche sonora dessas, que é pra ficar na memória e causar isso nas pessoas... de uma noite pra não esquecer 2026!


Texto: Roberto "Bertz" Vagner


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Dark Dimensions 

Press: JZ Press 


New Democracy – setlist:

Zumbi 

Born To Suffer

Not & Ever

Unexpected 

Modernization 

Creation

101


Venom Inc. – setlist:

War

Parasite

Bloodlust

Ave Satanas

There's Only Black

In Nomine Satanas

Cursed

Inferno

Live Like an Angel (Die Like a Devil)

Metal We Bleed

In League With Satan

Black Metal

Countess Bathory


Vio-Lence – setlist:

Eternal Nightmare

Serial Killer

I Profit

Officer Nice

Phobophobia

Kill on Command

Calling in the Coroner

Bodies on Bodies

Upon Their Cross

World in a World


Forbidden – setlist:

Infinite

Out of Body (Out of Mind)

March into Fire

Twisted into Form

Forbidden Evil

Divided by Zero

Step by Step

R.I.P.

Through Eyes of Glass

Chalice of Blood

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Megadeth: O Testamento Final de Um Gigante do Metal

 


23 de janeiro de 2026, marcará a data de lançamento do álbum de estúdio final da carreira de um dos gigantes do Metal, o titã do Thrash Megadeth,  criado e capitaneado por seu mentor Dave Mustaine em 1983. 

O álbum será precedido de uma longa turnê de despedida. Produzido por Dave Mustaine e Chris Rakestraw, este 17º álbum conta com o guitarrista Teemu Mäntysaari, o baterista Dirk Verbeuren e o baixista James LoMenzo.

Muitos dos ícones dos 70 e 80, que criaram, pavimentaram e moldaram sub-estilos no Rock Pesado e Metal, já nos deixaram, alguns se aposentaram, e muitos outros já estão na reta final da aposentadoria, então nos resta celebrar o legado e acompanhar os novos nomes que surgem, levando o estilo através de gerações.

Um marco dessa importância merece o máximo de nossa atenção, mesmo que ainda não seja o suficiente, e para essa matéria especial, três redatores do Road, de diferentes gerações, emitiram suas opiniões e prestam sua homenagem ao último testamento de Dave Mustaine e seu Megadeth. 

Parodiando uma cena de "Wayne's World", nos ajoelhamos simbolicamente a Mustaine e proferimos: "não somos merecedores", mas vamos lá, tentamos traduzir em palavras a emoção de ouvir esse derradeiro álbum. (Mas com aquela esperança de que não seja hahahahah).



"Megadeth" por Caco Garcia 


Chegará o momento em que todos os gigantes dos anos 70 e 80 infelizmente não estarão mais nos palcos, e, se não for uma daquelas despedidas momentâneas (veremos se Dave vai se aguentar ficar muito tempo sem compor), chegou a hora de Dave Mustaine, uma daquelas personalidades ímpares da história do Metal, escrever o capítulo final do seu Megadeth, com o último álbum de estúdio e derradeira tour mundial.

Propriamente auto intitulado, um fecho ao qual não são necessários títulos que expressam o sentimento do momento, ou destaque a composição que represente melhor o todo, é simplesmente um álbum do Megadeth, um gigante do Metal, o integrante do Big 4 que ostenta desde sempre o maior apuro técnico.

O álbum me remeteu à era em que Dave criou seu clássicos definitivos, Peace Sells - Rust in Peace - Countdown to Extinction e até Youthanasia, e me senti voltando aos anos 80, sentando no chão ouvindo o “Peace Sells” (ainda ouço vinis assim, sentado no chão, e viajo no tempo).

Mesmo sem a voz entrar, já sabemos que é Megadeth, tal a assinatura sonora marcante que Dave construiu, e o início com “Tipping Point” escancara isso, a identidade da banda. Une a agressividade, melodia e técnica com refino e precisão, despejando riffs e solos cortantes e de puro headbanging.

Sabemos que Dave tem o Punk como uma de suas inspirações, e já homenageou um dos ícones do estilo lá atrás, e “I Don’t Care” tem aquela pegada punk e mais direta, (e talvez, não por acaso, um título similar a uma música do Ramones). E aqui Dave também manda seu recado, que não importa o que pensem, ele tem suas convicções.

Em “Hey God?!” o refino técnico se sobressai, e traz uma levada mais meio tempo,  e é uma música em que Dave apresenta mais de suas crenças, aliás, tem muita coisa bem pessoal no álbum todo.

Em “Let There be Shred”, como o título sugere, fala muito sobre o estilo do Megadeth, que sempre valorizou a técnica, e não poupa riffs e solos arrebatadores. Aliás, temos que ressaltar que Teemu formou uma dupla afiada com Dave, e assimilou muito bem a alma da banda. Na letra, Dave descreve as sensações de estar no palco, e também aquele garoto, que “nasceu com a guitarra nas mãos”.

“Puppet Parade” tem peso, solos e mudanças de tempo típicas, com menos brilho que as demais, mas longe de ser uma peça fraca.

“Another Bad Day” é mais cadenciada, refinada e melódica, mas sem perder a pegada; na sequência, “Made To Kill” traz aquelas mudanças ágeis de ritmo e múltiplos solos, bem típicos do Megadeth clássico; “Obey The Call” é mais Dark, mas mantém a fórmula, com riff e solos em profusão, e mudanças de tempo. 

“I Am War” é pedrada vigorosa, com as nuances clássicas da banda, não tem tanto brilho, mas mantendo a qualidade geral do álbum.  

E a cortina começa a se fechar com “The Last Note”, título com aquele tom de despedida, e ela é como um último testamento, com toques quase melancólicos, trechos com guitarras acústicas dão um tom introspectivo.

Como bônus, o álbum encerra o capítulo final com a versão de Dave para uma das suas contribuições para o Metallica que, segundo ele, melhor representam a sua influência naquela fase inicial da banda, e gravar “Ride The Lightning” para este último álbum, é uma forma de prestar homenagem aos seus companheiros e onde tudo começou. Como diria o poeta, “tudo acaba onde começou”.

Mustaine trouxe aqui algumas das melhores músicas e riffs em muito tempo, creio que ao compor este álbum ele simplesmente fez sem peso ou pressão alguma, somente deixou fluir, compôs para ele e criou um trabalho do Megadeth que qualquer fã gostará de ouvir.




"Megadeth" por Gabriel Arruda 


Cada vez mais tem sido um prazer ver grandes lendas tocando ao vivo e, em alguns casos, lançando trabalhos inéditos, algo que naturalmente gera ansiedade e expectativa sobre o que está por vir, independentemente de comparações. No entanto, conforme o tempo passa, o prazo de validade dessas bandas vai se aproximando do fim. 

Para o Megadeth, esse momento parece cada vez mais próximo, já que a banda está prestes a lançar seu último álbum, seguido de uma vindoura turnê de despedida, que inclusive passará pelo Brasil no mês de maio.


Sucessor de The Sick, The Dying… And The Dead! (2022), o novo trabalho, que chega na próxima sexta-feira (23/01), carrega uma expectativa especial. Afinal, se realmente for o capítulo final, que esteja à altura de sua história. De forma homônima, sem título e trazendo apenas o emblemático Vic Rattlehead em meio às chamas na capa, o álbum faz jus à trajetória do grupo liderado por Dave Mustaine. 

Ao lado de Dirk Verbeuren (bateria), James LoMenzo (baixo) e do estreante Teemu Mäntysaari (guitarra), o Megadeth não se força a repetir formulas, apesar de haver certas influências oitentistas e noventistas em certas ocasiões, mas soando, acima de tudo, puramente Megadeth.

Em 46 minutos, o disco apresenta um trabalho de guitarras competente, algo que já fica evidente em “Tipping Point”, primeiro single e responsável por um videoclipe super bem produzido pelo brasileiro Leo Liberti, que mostra Dave Mustaine e toda a banda presos em um cativeiro. É um thrash convincente, com riffs e solos bem distribuídos, que rendem boas cotoveladas no mosh pit. 



A veia punk, somada ao vocal ameaçador de Mustaine — característica bastante explorada neste álbum — aparece em “I Don’t Care”, outra faixa lançada como single. Sim, o “faça você mesmo” funciona dentro do metal, e o Megadeth é uma das bandas que sabe aproveitar muito bem esse espírito.

A intimidadora “Hey God” e “Let There Be Shred” seguem com ainda mais punch e pegada. O clima catártico da primeira dá lugar à euforia da segunda, que poderia facilmente integrar o álbum Peace Sells… but Who’s Buying? (1986). 

Destaque para as excelentes camadas de guitarra do finlandês Teemu Mäntysaari, que caprichou neste trabalho, substituindo com meritocracia o nosso querido tesouro Kiko Loureiro, desligado da banda no final de 2023. Vale mencionar também “Puppet Parade”, uma das melhores do repertório, com linguagem mais rock n’ roll, além de “Another Bad Day”. Ambas trazem nuances mais obscuras, que logo se dissipam na esmagadora “Mad To Kill”.

Já “Obey The Call” apresenta certa semelhança com Trust, principalmente no início e no refrão de tom melancólico. Em “I Am War”, o que mais chama atenção é o riff inicial, com forte influência hard rock. O encerramento com “The Last Note”, como o próprio título sugere, soa como uma despedida — sentimento que se escancara na narração de Mustaine, acompanhada por melodias de violão clássico nos minutos finais. Porém, não termina por aí. 

Como faixa bônus, Mustaine presta uma homenagem ao Metallica, banda que o revelou, com uma versão mais moderna de “Ride the Lightning”, música que ajudou a compor quando ainda integrava o grupo. Uma bela homenagem, que mostra que o respeito e a gratidão seguem pulsando em seu coração. Ainda bem.


Não é apenas mais um disco em meio a uma carreira de 43 anos, mas sim um sincero “muito obrigado” por ajudar na evolução do heavy metal e por ter sido peça fundamental na criação de um dos subgêneros mais importantes do estilo que é o thrash metal. Gostando ou não, Dave Mustaine é um dos símbolos mais relevantes da história do heavy metal, mesmo sendo, por vezes, rabugento e ácido. 

Se este for realmente o último sinal, aproveite, aprecie e curta sem moderação.





"Megadeth" por Pedro "Rato de Show"



Neste próximo dia 23 de janeiro, o primeiro mês do ano recebe, dentre inúmeros lançamentos no mundo da música, um que certamente chega carregado de um peso simbólico. Falo do 17º e já anunciado último álbum de inéditas do Megadeth, auto-intitulado, e que, diga-se de passagem, uma tremenda tarefa aguardar mais de quatro décadas antes de finalmente produzir o famoso álbum que leva o nome da própria banda.

Tivemos a grande honra e prazer de receber o material antecipado, e posso partilhar aqui um pouco dessas primeiras impressões em contato com sua sonoridade. E logo de cara já adianto: não é o melhor trabalho do Megadeth, mas tampouco o pior. Talvez nem se faça justiça colocá-lo nesse tipo de análise, uma vez que este álbum claramente vem carregado de emoção e sentido, dada a chegada do fim de um dos Big Four do thrash metal americano, o que, por consequência, torna este disco mais sobre legado, trajetória e constância.


De um modo geral, o Megadeth reforça o status alcançado ao longo dos anos e sua inconfundível sonoridade agressiva, rápida e cheia de riffs marcantes, entregando um álbum que se conecta com o passado sem concessões no que diz respeito a fugir de sua essência.

E isso já fica visível logo de cara com Tipping Point, primeiro single lançado e primeira faixa do álbum, que simplesmente grita “Megadeth”. Uma música para lá de feliz não só pelo ritmo e pelos arranjos, que dialogam com os primeiros álbuns, mas também pela grata oportunidade de ver Teemu Mäntysaari brilhando nas execuções, entre palhetadas rápidas e um solo insano. Ao longo do álbum como um todo, ele reforça o motivo da escalação e deixa sua marca, sendo impossível chamá-lo apenas de “o substituto do Kiko”.

I Don’t Care mostra aquele lado mais punk, direto e intransigente do thrash que simplesmente pede uma roda para extravasar energia contida. Aqui já é possível ver brilhando outro nome que, sem dúvida, deixa sua marca ao longo do disco: James LoMenzo. Ainda que não seja aquele baixo extremamente visível e groovado, talvez nem seja esse o objetivo da sonoridade, mas ele se faz presente, e em diversos momentos o ritmo cortante ganha contornos de profundidade.


E se é melodia, naquele estilo música-cantada-anasalada que você quer, Hey God!, primeira música inédita no disco, parece aquela faixa que daria para ouvir o dia todo no rádio sem enjoar, seja pelos riffs hipnóticos, seja pela letra chiclete, em um andamento mais contido. Uma ótima forma de manter a versatilidade do álbum e já entregar bons picos e vales até aqui.

Na sequência, as duas últimas lançadas como single: Let There Be Shred e Puppet Parade. A primeira, o nome já entrega, é um retorno ao lado veloz e agressivo, possivelmente a melhor música para shows do álbum, daquelas que já nascem clássicas, em uma explosão de energia, vigor e peso. Já a segunda segue um caminho mais mid-tempo, narrativo e melodioso, com um lado guitarrístico mais virtuoso.

Como a maioria já pôde conferir quatro dessas cinco primeiras, é importante ressaltar outro nome que é um dos maiores destaques do álbum: Dirk Verbeuren, com controle preciso e brutal das baquetas, trazendo ritmo, cadência e velocidade quando requisitado. Mas, no fim do dia, não tem jeito: as grandes estrelas continuam sendo as guitarras, técnicas, estruturadas e velozes.

Entramos na segunda metade do álbum com outra mid-tempo chiclete, Another Bad Day, que tem aquele andamento fluido e grudento, e mal chega no segundo refrão e você já está cantando junto com o Dave. Made to Kill inicia com uma bateção frenética de Verbeuren, somada a um baixo grosso, e aquela aceleração progressiva das guitarras que dá a sensação de que o álbum não vai terminar antes de provocar um pouco mais de agressividade.



Na reta final, talvez as músicas que mais dão uma sensação de “filler”, não no sentido de realmente o serem, mas mais por não manterem a euforia dos momentos iniciais, Obey the Call traz tensão e cria uma atmosfera, mas, para mim, não funciona tão bem. A música tem sim um final mais rápido e frenético, mas olhando pro conjunto da obra, talvez pudesse se ter mantido por mais tempo a velocidade e a agressividade, em vez desse “acelera” e “freia”.

I Am War segue uma lógica melodiosa de tempo médio, com refrão chiclete. É uma boa música, dentro também da linha narrativa lírica típica do Megadeth, lidando com conflito (interno e externo) e postura, aquela atitude de “vou te mostrar do que eu sou capaz”. E, nesse sentido, esse álbum carrega muito dessa sensação, como várias músicas já mostraram até aqui.

Fechando, The Last Note traz um lado mais emotivo, de fechamento de ciclo e encerramento, mas com uma energia que parece atravessar o álbum inteiro, algo como: “vamos cair, mas vamos cair atirando”.

E claro, realmente finalizando e, de certa forma, até ofuscando o que deveria ser o fim, a faixa bônus Ride the Lightning é, sem sombra de dúvidas, uma das joias do álbum, talvez mais pelo peso simbólico do que pela sonoridade em si.

O polêmico “cover” do Metallica, da música que teve participação de Mustaine em seu breve período na banda, é bonito de se ver, principalmente vindo de uma figura que crescemos ouvindo, e de certa forma até vendo, ser essa persona egocêntrica. 

Aqui, no entanto, ele parece de fato proclamar uma homenagem no próprio fim, retornando ao seu ponto mais remoto, ao começo e ao significado histórico que duas das principais bandas do thrash metal global dividem entre si.

Não, Megadeth (o álbum) não é o melhor disco do ano, tampouco o melhor do acervo desse grande mestre dos riffs rápidos. Não estamos diante da melhor interpretação vocal de Mustaine, apesar de sua voz estar vívida, compatível com um homem de 64 anos que sobreviveu a um câncer de garganta. Não é uma voz frágil ou debilitada, mas é reflexo de décadas de contribuição ao aço, de uma vivência e corrida ímpar que devem ser consideradas e enaltecidas como tal.

No fim do dia, o álbum cumpre o que promete, sendo um retrato fiel de como o Megadeth se manteve leal à própria essência e aos fãs, ainda que, através dos anos, tenha buscado explorar, criar e experimentar, sem nunca perder de vista o que é. 


É poético, bonito e admirável ver a narrativa chegando ao fim e a forma corajosa com que Dave Mustaine decidiu iniciar esse capítulo final, que sim, ainda deve durar alguns anos no que tange aparições e shows, como dito pelo próprio, mas que, em termos de contribuição criativa ao mundo da música, passa a ter em 2026 o último capítulo de Rattlehead.

Vida longa ao Megadeth e às suas contribuições. Agora, resta a torcida para que seu próximo show em nossas terras não seja a última vez que avistemos esses Titãs por aqui. O show acontece exclusivamente em maio, no Espaço Unimed em São Paulo e já se encontra sold out.


"Megadeth" será lançado em 23 de janeiro de 2026, via Tradecraft (selo de Dave Mustaine) em parceria com o selo BLKIIBLK (parte do Frontiers Label Group) globalmente, com lançamento no Brasil pela Shinigami Records, incluindo versão em vinil.







quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Kreator: Brutalidade, Melodia e Maturidade Implacável

Shinigami Records (Imp.) / Nuclear Blast (Imp.)

Por Paula Butter

Janeiro chega com mais um ótimo lançamento, agora na seara do Thrash Metal, com os alemães do Kreator, trazendo sua maestria musical em Krushers Of The World, o aguardado 16º álbum de estúdio. Inclusive, com um título que impõe respeito, um reflexo da consciência histórica, orgulho e da confiança conquistada pela banda ao longo de décadas de estrada.

Musicalmente, Krushers Of The World comprova que o grupo mantém intacta sua essência, porém se aventura em mares mais melódicos e disruptivos, sem perder a brutalidade e energia. Um exemplo dessa pegada aparece na faixa de abertura “Seven Serpents”, que estabelece o tom agressivo, mas também apresenta uma instrumentalidade mais trabalhada na introdução e pinceladas de gótico/mitológico nas letras, escapando um pouco do tradicional. Entretanto as pedaleiras duplas ensurdecedoras aparecem com tudo em  “Satanic Anarchy”, bem como os famosos riff compassados, e a voz poderosa de Mille Petrozza, puro Thrash Metal. Inclusive com uma referência que acalentou o coração dos fãs de horror, o clássico Hellraiser, do diretor Clive Baker, lançado em 1987. 

Destaque para o tom épico e envolvente da música “Krushers Of The World”, não esperava nada menos, em se tratando de Kreator. Temos também “Deathscream”, cujo nome já entrega tudo, energia gritante para ouvidos treinados, uma ótima música para voltar às origens. Em contrapartida, chega  “Blood Of Our Blood”, bem trabalhada nas linhas de baixo e guitarra, com refrões bem acessíveis, com muita melodia, outra prova da versatilidade destes alemães em se tratando de inovar. 

Agora, temos um lado mais tradicional da banda, mas com a qualidade e agressividade extrema de outrora, com “Barbarian” e “Psychotic Imperator”, duas pérolas que ao vivo podem ser perfeitos convites aos famosos mosh pits. E a propósito, quem ainda não teve o prazer de estar no calor humano em um show do Kreator, já coloque a façanha em sua Bucket list.

Na sequência da audição, temos a faixa “Tränenpalast”, com atmosferas sombrias e mais referências ao terror cult sobrenatural, no caso, ao filme Suspiria, original de Dario Argento, lançado em 1977, e que também possui uma releitura mais moderna, do diretor Luca Guadagnino, lançada em 2018. A canção também conta com a participação vocal de Britta Görtz, que casou perfeitamente com o contexto da obra. Inclusive, podemos apreciar a participação da cantora e elementos do filme, que apesar dos flashes impactantes, ficou belíssimo no videoclipe disponibilizado anteriormente ao lançamento do álbum. 

Visualmente, o álbum também se destaca. Inclusive, em um momento onde tudo é criado e porque não, recriado por meio da Inteligência Artificial, a arte de Zbigniew Bielak revisita elementos icônicos da estética clássica do Kreator e os reorganiza em uma composição densa, simbólica e contemporânea. 

Por fim, temos “Loyal To The Grave”, décima e última música do disco, em tom grandioso e sensação de batalhas épicas por vir, que se inicia com vozes de coral ao fundo, para na sequência, dar andamento ao peso ritmado do baixo, bateria em riste, riffs a postos e vocais nervosos. Merece destaque para a audácia criativa, que inclui traços de Metal tradicional e Thrash.

Mais uma vez, o Kreator conseguiu um resultado de qualidade acima da média, tornando Krushers Of The World um trabalho feroz, sólido e criativo, sustentado por uma excelente produção e por composições maduras, que revelam uma banda plenamente consciente de seu legado, sem receio para avançar sem concessões. O Kreator segue implacável, reafirmando seu lugar entre os gigantes do metal extremo enquanto continua a expandir seus próprios limites.

Divulgação