quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Entrevista – The Cruel Intentions: Dez anos de estrada, um novo álbum e a esperada turnê brasileira

Jørn Veberg

Mats Wernerson fala sobre a identidade da banda, a recepção de All Hail Hypocrisy e a esperada estreia no Brasil em 2027

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Por Thais Navarro (@_thais_navarro)

Poucos meses após o lançamento de All Hail Hypocrisy, terceiro álbum do The Cruel Intentions, o baixista Mats Wernerson conversou com a Road to Metal sobre os bastidores da banda escandinava. Na entrevista, ele fala sobre como a identidade sonora do grupo se consolidou ao longo de dez anos de estrada, o impacto que a trilha sonora de Peacemaker teve no alcance internacional da banda, o momento atual da cena sleaze e os planos para os próximos meses — que incluem, finalmente, a chegada ao Brasil em maio de 2027.

Confira a conversa completa abaixo!


Mats, muito obrigada pelo seu tempo e pela sua música. Como você descreveria a identidade atual do The Cruel Intentions (TCI)? Vocês têm uma fórmula única nas músicas que torna a banda muito singular. Como vocês desenvolveram essa identidade ao longo dos anos, e como ela se consolida agora em All Hail Hypocrisy?

Mats: O que temos hoje vem de anos e anos de nós quatro tocando juntos, nos divertindo. Sinto que estamos melhores do que nunca hoje. A gente se conhece muito bem depois de 10 anos.

Acho que o som veio do primeiro álbum: punk rock, muita atitude, bem sujo. O segundo álbum foi mais polido, um pouco mais melódico. Então acho que é uma mistura muito boa dessas duas fases chegando em All Hail Hypocrisy. E acho que encontramos nosso equilíbrio perfeito entre sujeira e melodia nesse álbum, porque não queremos nos tornar uma banda totalmente melódica de rock, nem nada disso. Queremos manter nossa identidade, que é punk, metal, sleaze, tudo em uma boa mistura. E acho que encontramos isso perfeitamente em All Hail Hypocrisy, e é orgânico, por causa do tempo que passamos juntos, tocando e em turnê. É super orgânico e eu amo o som do novo álbum.


É definitivamente um álbum incrível, E você mencionou as turnês — a reputação dos shows intensos do TCI é uma parte central da banda. Como isso é construído no palco e o quanto é importante pra você entregar aos fãs essa experiência ao vivo intensa e memorável?

Mats: É muito importante, e acho que não conseguiríamos fazer diferente: simplesmente acontece naturalmente quando subimos ao palco. Essa última semana estivemos em Gatlinburg, Tennessee, tocando dois shows. Estávamos muito cansados por causa do jet lag e de algumas noites mal dormidas. E no momento em que subimos ao palco, nada daquele cansaço importava mais — você não sente nada disso. Olhei pro Kristian (N. Solhaug, guitarrista do TCI) e ele tinha aquele sorriso enorme no rosto, e pensei: "ok, agora é hora do show, porra." Aí foi 100% de energia.


Você também se alimenta da energia da plateia, como no show de Oslo (em maio) — um local bem pequeno. Isso também é outra coisa, porque nos shows maiores as pessoas ficam a alguns metros de distância, mas ainda assim você se alimenta dessa energia da plateia, e ver as pessoas cantando junto te dá ainda mais energia. Então acho que não conseguiríamos fazer nada além de 100% de energia rock and roll.

Vocês vêm ao Brasil e a outros países da América Latina no próximo ano. Quais são suas expectativas para essa turnê, e o que os fãs brasileiros podem esperar?

Mats: As expectativas estão muito altas, na verdade. É algo que eu sonho desde que consigo me lembrar — todos nós. O Lizzy (DeVine, vocalista do TCI) esteve no Brasil há 10 anos com o Lizzy DeVine solo. Ele tem contado algumas histórias, e eu tenho amigos de bandas como Eclipse e Crashdïet que também já estiveram lá — todo mundo diz que é incrível. São muitas viagens, noites longas, mas ainda assim uma das plateias mais insanas do mundo, pelo que ouço desde bandas como Iron Maiden e, como eu disse, até dos meus amigos. Então, as expectativas estão muito altas, e acho que a América Latina pode esperar o mesmo de nós — vamos dar tudo de nós. Vamos fazer shows como headliners, então vai ser mais longo, vamos tocar mais músicas do Vains of Jenna. Sei que tem muitos fãs do Vains of Jenna, então vamos tocar algumas a mais do que o normal. É um setlist totalmente rock and roll, com muitas músicas do novo álbum, os clássicos, e as músicas do Peacemaker.

Interessante você ter mencionado o Peacemaker — o quanto isso fez diferença pra vocês como banda? Eu assisti essa série de TV em parte por causa da trilha sonora, e a cena do Vigilante saindo da prisão ao som de Jawbreaker foi ˜mind-blowing˜. Como foi aparecer na série, e o quanto isso mudou as coisas pra banda?

Mats: Teve um impacto enorme, começando já pelos primeiros trailers. Tivemos "Borderline Crazy" no comercial de TV americano e canadense antes mesmo da série estrear. Depois o streaming disparou — muito streaming vindo da América do Sul, do Reino Unido e dos Estados Unidos, coisa que a gente nunca tinha visto antes. Antes a Suécia era nosso país número um, mas agora acho que o Brasil é o nosso país número um no Spotify, pelo menos no último ano.

Então o streaming ficou uma loucura. A série ia ao ar com um episódio por semana, se não me engano, e o quarto episódio teve a cena do Vigilante. Depois disso, o canal no YouTube, o Instagram e o Facebook explodiram, com comentários tipo "obrigado, James Gunn, por me apresentar essa banda". Comentários pedindo pra gente ir ao Brasil ficaram ainda mais comuns, e eu amo isso. Foi muito surreal ouvir nossa música em uma série do James Gunn — a gente ama o James Gunn, e Peacemaker é uma série muito boa.


Você mencionou o Crashdïet, e estamos em uma ótima fase de lançamentos vindos da cena sleaze. Como você descreveria o estado atual dessa cena, e o que você espera daqui pra frente?

Mats: Acho incrível o que está acontecendo com a cena sleaze agora. Parece um verdadeiro renascimento, com a gente, o Crashdïet e o Confess lançando singles e álbuns juntos ao longo desta primavera. E ver pessoas do mundo todo ficando muito felizes com esses lançamentos de singles e álbuns. Acho que é um momento incrível pro nosso tipo de música, sleaze rock e rock and roll em geral. Muitas bandas boas, muitos álbuns bons saindo.

Onde você e a banda costumam buscar referências musicais? Outras formas de arte inspiram vocês, dentro ou fora do rock?

Mats: É muito difícil dizer o que me inspira. Quando escrevo música, geralmente é mais o estado de espírito em que você está naquele momento. Eu não costumo ouvir muita música enquanto estou escrevendo a minha própria, porque fico muito ocupado com isso. Mas no período antes de All Hail Hypocrisy, eu estava ouvindo bastante Tuk Smith and the Restless Hearts, o que acho que transparece um pouco em algumas músicas — talvez "When Eden Burn" penda um pouco mais pro lado melódico, tipo rock and roll.

Então a inspiração pode vir de qualquer lugar: da vida cotidiana, simplesmente de viver, basicamente. Eu escrevo a maior parte da música junto com o Lizzy, e ele escreve todas as letras, então acho que a inspiração dele vem da vida dele, das experiências dele, dos 10 anos com a galera, todas as noites tarde da madrugada, as festas e as turnês que fizemos juntos. Muita coisa aconteceu, e a gente costuma conversar sobre isso e rir enquanto escrevemos as músicas. Tipo "Porridge Head", por exemplo.

Eu ia perguntar justamente sobre essa.

Mats: É uma música muito especial. Eu tinha aquele riff há muito tempo. É um riff especial; acho que foi o Erik Martensson, da Eclipse, nosso produtor, que disse que o riff era foda, e a gente continuou trabalhando nele, mas não conseguia encontrar o tema certo pra letra. Então o Lizzy começou a escrever sobre "porridge head". "Porridge Head" é um termo usado dentro da banda, a gente usa isso há 10 anos. Agora virou mais uma coisa nossa: temos bonés, eu tenho uma camiseta que diz "Porridge Head", e as pessoas começaram a falar sobre isso, o que foi muito engraçado pra gente ver. Acho que alguns dos versos são na verdade sobre mim, de quando eu era mais novo e bebia muito. Então é isso, um Porridge Head.


Tipo a parte "stains of vomit on your chest of food you never had"?

Mats: Talvez. Talvez já tenha acontecido. Quem sabe!

Eu também amo as letras. O Lizzy, como você disse, é um excelente letrista.

Mats:  Sim, ele é muito bom. As letras dele são insanamente boas, tem um lado sombrio e tem humor — às vezes bem sério, às vezes só tipo "foda-se". Eu amo a mistura e o estilo de escrita dele, e ele cria tudo tão rápido.

Você diria que "Porridge Head" é sua música favorita do álbum, ou tem outras?

Mats: Depende. Eu ouvi esse álbum tantas vezes enquanto estávamos mixando e no período antes do lançamento. Muito no carro, na academia, ou correndo, só pra descobrir como deveríamos organizar a ordem das faixas. Então tive várias músicas favoritas ao longo dos meses antes do lançamento, e isso continuou mudando desde que começamos a tocar essas músicas ao vivo. Muda de show pra show.

Agora mesmo acho que "Triple Threat" é minha favorita pra tocar ao vivo, porque é brutal — pesada, rápida, tem tudo, e as pessoas curtem muito quando tocamos as músicas novas, especialmente "Triple Threat" e "All Hail Hypocrisy". Então é uma música diferente pra cada dia.

Vocês querem tocá-la ao vivo? E mais músicas do álbum?

Mats: Sim, vamos fazer mais. Na verdade, já começamos a ensaiar "Porridge Head" — e eu amei, adoro tocá-la, tem muita energia punk rock. Acho que vamos colocar essa no setlist, pras datas da América Latina.

Agora que já se passaram alguns meses desde o lançamento de All Hail Hypocrisy, como você se sente em relação à recepção do público?

Mats: Tem sido uma loucura. Tem sido muito bom, muito além de qualquer coisa que eu poderia imaginar. Quando terminamos no estúdio, eu e o Lizzy conversamos e dissemos: "Nós nos amamos. Isso somos nós, esse é com certeza nosso melhor álbum." Eu já tinha um pressentimento de que as pessoas iriam gostar, mas não nesse nível: tivemos tantas críticas fantásticas do mundo todo. A crítica da Road to Metal foi espetacular.

Estamos chegando ao final. Depois de três álbuns incríveis, quais são seus planos para o futuro em geral?

Mats:  Planos e metas — vamos ver. Temos alguns shows chegando ainda este ano: voltaremos aos Estados Unidos em algumas semanas, e pouco antes disso vamos tocar no Rock the Sun, em Barcelona, com Eclipse e Michael Monroe. Vamos fazer uma turnê sueca com o Hardcore Superstar em outubro e novembro, que estou muito ansioso pra fazer. Eu amo o Hardcore Superstar, todos nós amamos, somos grandes fãs da música e da galera, e nos damos muito bem com eles. Esse é o plano por enquanto.

No próximo ano vamos ter ainda mais shows — vamos fazer o Monsters of Rock Cruise em maio, e depois seguir direto pro México e todas as datas da América Latina, que é um sonho se tornando realidade. Outro sonho seria o Japão. Nunca estivemos lá, então essa é a próxima meta, conseguir alguns shows no Japão. E então estamos começando a escrever o quarto álbum agora. Já começamos a pensar em títulos, sons, músicas, já tenho alguns riffs.

É ótimo ouvir isso. Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Mats: Apenas que estou muito animado para ir ao Brasil e aos outros países. Nunca estive na América Latina — só estive no México, perto de Tulum, em cruzeiros. Então estou muito animado para conhecer todos esses países em apenas cinco ou seis dias. Vai ser bem corrido, mas é isso que estou mais ansioso pra fazer: tocar essas músicas para o que parece ser nossa maior base de fãs.

Nunca tivemos uma resposta a um anúncio de turnê como a que tivemos com a América Latina. Foi uma loucura, centenas de comentários e compartilhamentos, gente dizendo "aí sim, finalmente, porra!", porque estavam esperando havia muito tempo. Já faz uns 10 anos.

Lembro da primeira vez que alguém escreveu "come to Brazil", foi tipo há uns 10 ou 11 anos, e eu nunca pensei que a gente fosse conseguir chegar lá. Desde quando começamos, as pessoas já escreviam "come to Brazil", "come to Argentina". Então estou muito feliz de ir até aí e tocar essas músicas novas pra vocês.

"Come to Brazil" é mesmo uma coisa bem popular por aqui, a gente é bem insistente.

Mats: Sim, e funcionou! Dessa vez funcionou mesmo.


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