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domingo, 16 de agosto de 2026

Forbidden: Dualidade e Continuidade na História do Thrash Bay Area (Also In English)

BLKIIBLK (Imp.)

Por Roberto Bertz

Após dois ótimos singles lançados em 2025, o Forbidden já sinalizava um disco completo, apontava que o álbum já estava pronto nesse período e começaram uma forte turnê 2025/2026 para apresentar essas músicas ao público algo novo até que pudessem lançar um full length neste ano. 

O disco é auto entitulado, são 11 faixas no total após de 16 anos do último álbum completo, “Omega Wave” de 2010, um distanciamento de 13 anos de seu antecessor  “Green” de 1997 . Talvez seja uma estratégia da banda demorar mais tempo para lançar algo e alcançar novas experiências, experimentações e colocar o público antigo com o atual nas composições, como é o caso novamente deste que está prestes a ser lançado. A começar pela ótima capa chamativa, sempre duas cores bem destacadas e logotipo clássico, trouxe aquela temática da referência na dualidade em forças opostas. 

Entrando no álbum, o Forbbiden faz jus ao DNA da banda que é começar bem o disco e abrir na pancada; “Single Point Failure” evoca a principal característica dos caras na execução do Thrash Metal no contratempo, ponto principal na composição nos anos oitenta marcado pela bateria de Paul Bostaph, hoje, assegurado por Chris Kontos aos 58 anos. O som se mantém até o final no modo “feito na escola” com riffs bem construídos, solos e técnica apurada do antológico Craig Locicero, juntamente ao novo guitarrista Jeremy Von Epp e o baixo do também veterano Matt Camacho dobrando tudo. Os vocais de Norman Skinner, já expondo o disco como todo, sobem o nível numa técnica do agressivo ao melódico, remetendo o passado quando necessário e explorando outras linhas mais agudas levando o som pra outros caminhos. Seguindo, “Burning The Lungs of Earth” continua no mesmo tom; os singles “Divided By Zero” e “Mutually Assured Dys-function” estão muito bem no disco intercaladas entre a sequência das músicas, bem posicionadas no álbum para o ouvinte ter a sensação sempre pulsante, escolhidas como carro-chefe da divulgação são pontos altos entre as melhores. Destaque também para “Psyclops” com clipe de divulgação, “Sycophantasy”, “The Burden” e fecham com a extensa  “Flower of Life (Chaos By Design)” de nove minutos.

A postura do Forbbiden de trazer novos elementos, talvez não agrade totalmente o fã das antigas, mesmo algumas músicas lembrando aquela fase espetacular dos primeiros discos. Por terem uma discografia com poucos álbuns na carreira e espaçamentos com mais de 10 anos entre eles é inquestionável a evolução por parte do processo dos músicos. A dualidade da capa justificam as músicas, fazer uma passagem do passado para o  presente e o que está por vir, sem perder a essência. Ter um disco novo em 2026 de uma banda clássica que atravessa dois séculos como Forbidden é uma vitória na história do Metal global; trazer novo público sem perder o antigo, formar novas bandas, continuarem tocando de forma hipnotizante pra darem continuidade nesse legado vem deixando ao longo dos anos. 


***ENGLISH VERSION***

After two great singles released in 2025, Forbidden had already signaled that a full-length album was on the way. The band indicated that the album was already completed by that time and embarked on a strong 2025/2026 tour to introduce these new songs to the audience, until they could finally release a full-length album this year.

The album is self-titled and features 11 tracks, arriving 16 years after the band's last full-length, Omega Wave (2010), and following a 13-year gap from its predecessor, Green (1997). Perhaps taking longer to release new material is the band's strategy for gaining new experiences, exploring different ideas, and bringing the old and current audiences together through the compositions, as is once again the case with this upcoming release. It starts with a striking cover, featuring two strongly contrasting colors and the classic logo, bringing back the theme of duality and the idea of opposing forces.

Moving into the album itself, Forbidden lives up to the band's DNA of starting strong and hitting hard from the very beginning. “Single Point Failure” evokes one of the band's main characteristics: their execution of Thrash Metal through off-beat rhythms, a key element of their songwriting in the eighties, marked by Paul Bostaph's drumming and now carried by 58-year-old Chris Kontos. The sound remains true to the end, following a classic “old-school” approach with well-crafted riffs, solos, and the refined technique of legendary guitarist Craig Locicero, alongside new guitarist Jeremy Von Epp and veteran bassist Matt Camacho, who doubles everything up. Norman Skinner's vocals, already standing out throughout the album, take things to another level, ranging from aggressive to melodic, recalling the band's past when necessary while exploring higher vocal lines and taking the sound in new directions.

Next, “Burning The Lungs of Earth” continues in the same vein. The singles “Divided By Zero” and “Mutually Assured Dysfunction” fit very well into the album, strategically placed throughout the tracklist to keep the listener's experience constantly pulsating. Chosen as the main tracks for the promotional campaign, they are among the album's highlights. Other standouts include “Psyclops”, which also received a promotional video, “Sycophantasy”, “The Burden” and the extended nine minute closer, “Flower of Life (Chaos By Design)”.

Forbidden willingness to introduce new elements may not fully satisfy longtime fans, even though some songs recall the spectacular early years of the band. Given their relatively small discography and the gaps of more than 10 years between albums, the band's musical evolution is undeniable. The duality represented on the cover reflects the music itself: a transition from the past to the present and what lies ahead, without losing its essence.

Having a new album from a classic band like Forbidden in 2026, a band whose history spans two centuries, is a victory for the global history of Metal. Bringing in a new audience without losing the old one, inspiring new bands, and continuing to perform in such a hypnotic way are all part of the legacy Forbidden has been building and carrying forward over the years.

Phil Emmerson

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Cobertura de Show: Exodus – 09/10/2025 – Carioca Club/SP

Algumas pessoas, inclusive amigos próximos, sempre fazem aquela pergunta: "Ué, você já viu essa banda antes, por que vai de novo?". Sinceramente, acho esse questionamento totalmente fútil e sem noção. Em tempos de tantas perdas e com bandas que marcaram nossa vida deixando de fazer turnês e shows ao vivo, temos mais é que aproveitar todas as oportunidades de vê-las enquanto ainda podemos. 

E foi exatamente isso que eu fiz: lá fui eu, mais uma vez, ver o Exodus ao vivo. Um ano após sua participação no festival Summer Breeze, agora sob o selo do Bangers Open Air, a banda retornou a São Paulo para mais uma apresentação, daquelas impossíveis de descrever em palavras.

Assim como nas outras vezes em que fizeram shows solo no Brasil, o local escolhido para receber os thrashers da Bay Area foi o Carioca Club. Próxima a uma estação de metrô, a casa é palco dos principais shows de heavy metal e rock em São Paulo nos últimos 10 ou 15 anos. 

O público compareceu em peso, mesmo sendo uma quinta-feira, o que já era esperado desde o anúncio em julho. Se não esgotou, faltou pouco, pois mal dava para se mover no recinto de tanta gente que tinha. Nos dias que antecederam o show, a organização já vinha alertando que restavam apenas poucos ingressos, refletindo exatamente no que foi ditou a pouco. 

Vale sempre destacar a importância da logística de horários, especialmente nos dias de hoje, em que está cada vez mais raro ver produtoras e casas de shows respeitarem os horários anunciados. Atrasos grotescos têm se tornado comuns e afetam diretamente o público, que muitas vezes depende do transporte público para voltar para casa com segurança. 

Nesse sentido, a LivinStage, em parceria com a Honorsounds, merece elogios. Tudo foi respeitado, desde a abertura das portas até o início, demonstrando total profissionalismo e comprometimento.

Como é comum em shows de bandas consagradas, a noite contou com uma banda de abertura local, e a escolhida para essa missão foi o Throw Me To The Wolves. Sim, o nome é um pouco complicado, mas ao menos foge do padrão genérico de muitos nomes atuais. 

Na ativa desde 2023, o grupo apresenta uma sonoridade bem diferente da atração principal, com um death metal moderno, técnico e com melodia. Em cerca de meia hora de apresentação, tocaram faixas do recém-lançado (e primeiro) álbum Days of Retribution. O som, no geral, estava satisfatório, apesar de alguns problemas técnicos, principalmente no bumbo da bateria, que ficou inaudível em certos momentos.

Nada disso, porém, comprometeu o brilho do show e o desempenho dos integrantes, com destaque para o vocalista Diogo Nunes, que entregou vocais raivosos e intensos, e o guitarrista Guilherme Calegari, que comandou os riffs pesados com segurança. 

A casa já estava consideravelmente cheia para recebê-los. Parte do público já conhecia o trabalho da banda e até os havia visto em outras ocasiões; outros ainda não tinham tanto contato com o som do grupo, o que resultou em uma recepção um pouco tímida. Ainda assim, foi uma ótima oportunidade para conhece-los, pois trata-se de uma banda promissora, que ainda vai dar muito o que falar.

O único ponto negativo ficou por conta da iluminação, muitas vezes escura demais, o que dificultou o trabalho dos fotógrafos. Tirando isso, uma excelente apresentação, à altura do papel de banda de abertura.

Devidamente aquecidos, restava apenas aguardar as grandes estrelas da noite. Muitos dos presentes já sabiam o que esperar do setlist, anunciado de forma clara pelo backdrop com a arte do Bonded by Blood. Lançado em abril de 1985, o disco ajudou a definir o caráter do thrash metal e, mesmo após 40 anos, continua soando atemporal e influenciando novas gerações. 

Tudo isso fez ainda mais sentido quando, pontualmente às 21h, a banda entrou, em alto e bom som (como deve ser um show do Exodus), com a clássica faixa-título e a explosiva “Exodus”, que rapidamente empolgaram a multidão espremida na pista, onde mal se conseguia dar um passo ou fazer qualquer movimento. Melhor início como esse impossível. 

Quem já teve a chance de ver o Exodus ao vivo sabe exatamente como é a experiência. Sabe aquele famoso ditado “onde o filho chora e a mãe não vê?” Pois é, é bem isso. 

A cada música anunciada, o público reagia com fervor, celebrando e exaltando cada faixa como um hino. A sequência com “And Then There Were None” (com o tradicional “ô, ô, ô” entoado pela plateia), “A Lesson in Violence” e “Metal Command” traduziu perfeitamente essa energia. 

Apesar de essas músicas já serem matadoras por si só, o impacto não seria o mesmo sem a competência de Gary Holt (o melhor guitarrista de thrash metal da história, sem exagero), Lee Altus (guitarra), Tom Hunting (bateria), Steve Brogden (baixo, substituindo temporariamente Jack Gibson por conta de um problema familiar) e Rob Dukes (vocal). 

Aliás, falando no Rob, que mais uma vez vem substituindo Steve “Zetro” Souza com excelência, foi o que mais interagiu com o público e incendiando ainda mais a atmosfera do show.

Mas, claro, o show não ficou restrito somente no celebrado álbum. A partir da metade do set, a banda resgatou faixas de discos posteriores, além de algumas surpresas que nem chegaram a ser tocadas no show da Argentina. 

A primeira delas foi a excelente “Iconoclasm”, única representante da fase com Rob Dukes, retirada do álbum The Atrocity Exhibition: Exhibit A (2007), e com o brasileiro Gerson Polo assumindo o baixo. Ele permaneceu no palco também em “Blacklist”, que já vinha sendo executada na turnê, e em “Fabulous Disaster”, outra surpresa inesperada no set.

Essas duas renderam os momentos mais marcantes da noite, engrossando ainda mais o caldo e elevando o vapor que vinha da roda no centro da pista. Em “Blacklist”, aconteceu a cena mais divertida do show: Rob e Steve seguraram e tocaram a guitarra de Gary Holt enquanto ele tomava uma cerveja – sem álcool, claro, já que ele está sóbrio há bastante tempo. 

Já “Fabulous Disaster” foi recebida com todos os tipos de palavrões imagináveis pela plateia. E, pessoalmente, esse foi o momento mais afetivo para mim também, já que essa música faz parte do primeiro disco, de mesmo nome, que ouvi do Exodus.

Com uma breve melodia de Gary Holt e Tom Hunting brincando com a plateia, como se estivessem regendo uma orquestra, “No Love” regressou ao Bonded by Blood com estilo e com a mesma performance impecável que marcou o início do show, ou seja, impecável. “Deliver Us to Evil”, dedicada ao lendário Paul Baloff, foi antecedida por uma breve apresentação da banda e emendada com a clássica “Piranha”, que já foi regravada por diversas bandas, entre elas o Sepultura. 

A execução contou novamente com a participação de Fábio Seterval, vocalista do Funeral Blood (tributo ao Exodus). Para quem assistiu ao show anterior da banda no Summer Breeze, a lembrança veio de imediato. Um detalhe curioso em Piranha foi a iluminação. Em boa parte, o palco ficou bem escuro. Não se sabe se foi de propósito ou por erro técnico, mas tudo voltou ao normal no final da canção.

Antes de encerrar o show – e, consequentemente, o álbum – a banda preparou uma trinca destruidora com “Brain Dead”, “Impaler” e “The Toxic Waltz”. Um fato interessante sobre “Impaler”, que muita gente ainda desconhece, é que ela foi composta por Kirk Hammett (hoje no Metallica) durante seu tempo no Exodus. 

O riff principal, inclusive, foi reaproveitado em “Trapped Under Ice”, faixa do Metallica no álbum Ride the Lightning (1984). Em “The Toxic Waltz”, rolou a “pegadinha do malandro”: a cada vez que a banda anunciava a música, eles fingiam que iam sair do palco ou tocavam os riffs de “Raining Blood” (Slayer) e “Motorbreath” (Metallica), arrancando risadas da plateia com a brincadeira.

E, como não poderia faltar, o encerramento bombástico veio com “Strike of the Beast”, acompanhada do clássico “Olê, olê, olê, Exodus!” entoado pela plateia e replicado pela guitarra de Gary Holt. Um final à altura de uma noite inesquecível.

Nem todas as bandas gostam de fazer turnês comemorativas centradas em um álbum específico. Afinal, esse tipo de show costuma deixar de lado outras músicas importantes da carreira. 

Mas, no caso de Bonded by Blood, a proposta foi mais do que justa, sendo uma oportunidade única de ouvir o disco sendo executado ao vivo ao invés da versão regravada (Let There Be Blood), que considero o maior erro da história da banda.

E falando da banda, trata-se de um ponto fora da curva. Sempre defendo que eles mereciam muito mais reconhecimento do que algumas bandas que compõem o chamado “Big 4” do thrash metal americano. Infelizmente, alguns atrasos e circunstâncias acabaram impedindo o grupo de alcançar esse mesmo patamar de sucesso.

No fim das contas, assistir a um show do Exodus só aumenta a vontade de vê-los novamente. É uma daquelas bandas pelas quais eu pagaria ingresso quantas vezes fosse necessário. Agora, resta aguardar o novo álbum, previsto para o ano que vem.

Texto: Gabriel Arruda

Fotos: Roberto Sant'Anna


Realização: LivinStage / Honorsounds

Press: Hoffman & O' Brian


Exodus – setlist:

Bonded by Blood

Exodus

And Then There Were None

A Lesson in Violence

Metal Command

Iconoclasm

Blacklist

Fabulous Disaster

No Love

Deliver Us to Evil

Piranha

Brain Dead

Impaler

The Toxic Waltz

Strike of the Beast

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Testament: Thrash Com Alma e Grito de Guerra

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Por Amanda Misturini 

Ícones do thrash metal da Bay Area, o Testament retorna após 5 anos com seu décimo quarto álbum de estúdio, Para Bellum, lançado pela Nuclear Blast Records. O título deriva da expressão latina Si vis pacem, para bellum — que significa “Se queres paz, prepara-te para a guerra”.

O álbum reflete a indignação sobre o rumo em que a humanidade vem caminhando referente às suas criações e desenvolvimento. Para Bellum é a definição que o Testament encontrou, de forma urgente, em gritar ao mundo o caos implementado pela velocidade em que a modernidade tem avançado como suas novas tecnologias têm mudado a forma de agir e pensar da sociedade.

Tal qual uma verdadeira aula de thrash metal e calibrado no mais alto nível de sofisticação, com forte presença da atmosfera black metal - evidenciada pela união das referências de Eric Peterson e Chris Dovas -, cada faixa tem sua personalidade, a fim de agradar a todos os gostos, do fã mais raiz ao mais moderno da banda.

Sem dó nem piedade e com a bateria rasgando o silêncio da expectativa pela nova obra em “For the Love of Pain”, Chris Dovas, com toda a sua potência e técnica surpreendente, deposita sua identidade marcante e fortes referências de black metal junto de Eric Peterson, com quem cultivou uma estreita relação durante todo o processo das novas composições.

Os vocais atuais de Chuck Billy, anteriormente apreciados em “Infanticide A.I” e “Shadow People”, agora impressionam com um gutural sombrio e poderoso, rememorando obras aclamadas da banda no final dos anos 1990 como “The Gathering”.

“Infanticide A.I”, primeiro single do novo álbum, lançado em 21 de agosto deste ano, denuncia a indignação pelos tempos atuais terem sido inundados pela utilização desenfreada de inteligência artificial em diversas esferas da sociedade. Um grande exemplo é a belíssima arte de capa pintada novamente por Eliran Kantor, reflete a essência do álbum como um todo e, especialmente, desta faixa.

Segundo single lançado em 12 de setembro, “Shadow People” possui ótima cadência de ritmo muito característica de um thrash bem estruturado. Equilibrado entre velocidade rápida e moderada, com ótimos riffs, pausas e um foco especial no solo, é uma música que proporciona a todos os instrumentos terem seu brilho e destaque durante todo o andamento.

Para os fãs do velho Testament(o), a essência de clássicos atemporais como “The Ballad”, “The Legacy” e “Return to Serenity” é resgatada na quarta faixa “Meant to Be”. Ela inicia com dedilhados sutis, antecipando a força que estaria por vir. Ter uma música como essa no álbum demonstra o cuidado em acrescentar uma pitada de cada elemento que moldou a identidade da banda em uma única obra, como um respiro sem abandonar o peso e emoção que ela carrega da metade para o final da faixa, apresentando um solo marcante e muito feeling.

“High Moon” inicia sem dó nem piedade com os guturais destruidores de Chuck Billy, anunciando o que seria uma das faixas mais pesadas do álbum.

A receita perfeita para um thrash metal de qualidade é encontrada nessa música: cadência, peso, o baixo de Steve DiGiorgio trazendo a atmosfera obscura, a combinação técnica de Alex Skolnick e Eric Peterson nos riffs marcantes e a precisão da bateria de Chris.

“Witch Hunt” é o convite ideal para um Wall of Death de respeito. Começa com riffs velozes e técnicos, seguidos por um gutural em ascensão que provoca o sentimento de destruir tudo o que vem pela frente. Uma das faixas que revela a verdadeira essência do Testament: crua, veloz, visceral e pesada. Arrisco dizer que a maior demonstração da atmosfera black metal do álbum está presente nessa composição, com a bateria quase que ininterrupta no pedal duplo e riffs que a acompanham de forma perfeitamente sincronizada.

Com um vocal mais limpo que as duas faixas anteriores, Chuck Billy explora uma região média e limpa com drives rasgados em “Nature of the Beast”, lembrando bastante a época de Dark Roots of Earth. Possui grande presença de elementos modernos como a sensação de um ritmo mais dançante e melodias bem distribuídas. Essa faixa possivelmente poderá agradar os fãs mais recentes.

“Room 117”, também com perceptível influência moderna, explora muitas melodias do início ao fim, vocais em uma região média-aguda mas com peso característico mais acentuado no refrão. A combinação criativa da cozinha com os solos traz uma harmonia excelente na metade da música.

“Havana Syndrome” tem um começo marcado por riffs melódicos para depois revelar um thrash pesado e cadenciado, muito bem produzido e equilibrado com vocais rasgados. É uma música que explora tonalidades mais agudas na voz de Chuck e ainda consegue entregar uma estrutura forte e com muita identidade.

“Para Bellum”, faixa-título que encerra a obra, possui a mesma influência moderna das anteriores sem deixar a essência raiz de lado. Longa introdução, seguida de um vocal extremamente visceral e brutal durante toda a extensão da música, devidamente explorada e depositada por Chuck Billy. Com ritmos variados, estrofes pesadas, ponte e refrão entregam muita velocidade utilizando a tradução em latim como elemento expressivo na letra. A música ainda navega nos refrões entre o instrumental do black metal ao mesmo tempo do thrash e finaliza com o dedilhado que assina o fim dessa guerra, o cessar do sofrimento e da angústia moderna. Para Bellum encerra de forma sutil, demonstrando total equilíbrio entre o fim e o início apoteótico da primeira faixa.

Um álbum extraordinário do início ao fim, na medida certa e para todos os gostos, que agrada desde o fã mais raiz ao mais recente. Testament ainda tem muita lenha para queimar e agora, mais do que nunca, com uma máquina na bateria que resgata a energia necessária para continuarem produzindo obras-primas como Para Bellum.

Fred Kowalo