domingo, 27 de setembro de 2026

Airbourne: Quando o Rock N' Roll Não Precisa Pedir Licença

Spinefarm Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Há bandas que usam um álbum homônimo para marcar um recomeço. O Airbourne faz algo um pouco diferente em seu sexto trabalho de estúdio: coloca o próprio nome na capa como se estivesse fincando uma bandeira. Airbourne, lançado em 4 de setembro de 2026 pela Spinefarm Records, chega sete anos depois de Boneshaker e funciona menos como uma reinvenção e mais como uma declaração de identidade. É o Airbourne em sua forma mais concentrada: guitarras altas, bateria seca e explosiva, refrões feitos para multidões, solos que não economizam atitude e uma relação quase religiosa com o rock de arena.

A produção ajuda bastante nessa proposta. Brian Howes, que já havia trabalhado com a banda em Black Dog Barking, retorna à produção, enquanto Mike Fraser assume novamente a engenharia de som e Zakk Cervini fica responsável pela mixagem. As gravações passaram pelo Music Farm, próximo a Byron Bay, utilizando equipamentos Neve historicamente ligados às gravações de AC/DC, Rose Tattoo e outros nomes fundamentais do rock australiano. Não é um detalhe meramente decorativo: o disco foi construído para soar grande, físico e, principalmente, como uma banda tocando rock’n’roll com o amplificador no limite.

E há uma questão inevitável antes mesmo de chegar à primeira faixa: AC/DC. O Airbourne nunca escondeu essa influência. Joel O’Keeffe já declarou que considera o AC/DC a maior banda de rock’n’roll de todos os tempos e, portanto, não vê a comparação como um problema. A diferença é que, neste álbum, o Airbourne parece menos interessado em provar que consegue escapar dessas referências e mais interessado em mostrar o que consegue fazer dentro delas.

Divulgação 

1. Gutsy

Começar um álbum homônimo com uma música chamada Gutsy é quase uma declaração de princípios. A faixa entra sem pedir licença, com aquele tipo de riff que imediatamente estabelece a identidade do disco. A guitarra de Joel O’Keeffe chega acompanhada por uma bateria que parece empurrar tudo para frente, enquanto o vocal rouco mantém aquela mistura de provocação e celebração que é praticamente uma assinatura do Airbourne.

O interessante é que Gutsy não tenta ser sofisticada. Ela trabalha justamente com a eficiência do hard rock clássico: riff forte, verso direto, refrão grande e espaço suficiente para que cada instrumento respire. E existe uma razão para ela funcionar tão bem como abertura. A música já vinha sendo apresentada ao vivo antes do lançamento do álbum e, segundo a própria banda, foi escolhida como a primeira amostra justamente por representar essa postura de enfrentamento.


2. Alive After Death (Last Plane Out)

Se Gutsy apresenta a identidade, Alive After Death mostra o quanto o Airbourne consegue transformar essa identidade em uma grande canção.

A música tem uma construção particularmente eficiente. A guitarra conduz tudo com uma sensação de urgência, enquanto Joel canta como se estivesse disputando espaço com os próprios amplificadores. O refrão é daqueles que parecem existir para serem devolvidos pelo público.

Mas existe algo mais interessante aqui. A letra transforma a própria experiência do rock em uma espécie de mecanismo de sobrevivência: enquanto houver música, palco e alguém disposto a tocar, a história continua. Essa ideia conversa diretamente com o tema de legado que reaparece no final do álbum.


3. Here She Comes

Aqui aparece uma das primeiras pequenas surpresas do disco. Here She Comes ainda tem guitarras enormes e o mesmo senso de espetáculo, mas sua construção é mais melódica. Existe uma atmosfera quase de power ballad, só que filtrada pelo vocabulário do Airbourne. O resultado não abandona o peso, apenas permite que a música respire um pouco mais.

E há uma história curiosa por trás dela. A faixa nasceu durante uma tempestade que atingiu o estúdio onde a banda gravava em Byron Bay. A situação foi tão intensa que uma árvore caiu perto do ônibus onde Justin Street estava dormindo. A experiência acabou inspirando a imagem de “Here she comes” associada ao furacão e, posteriormente, a letra ganhou o conhecido duplo sentido característico da banda.

A participação de Bryan Adams e Mutt Lange na composição também ajuda a explicar por que a faixa apresenta um acabamento um pouco diferente. Em vez de simplesmente acelerar, o Airbourne trabalha aqui com uma melodia mais aberta e um refrão feito para arenas.


4. Kid In A Candy Store

Se existe uma faixa que recupera imediatamente o Airbourne mais descarado, é Kid In A Candy Store. O riff tem aquela sujeira deliciosa do hard rock tradicional, enquanto Joel conduz a música com uma interpretação que parece sorrir enquanto canta. A estrutura é simples, mas o arranjo tem detalhes suficientes para evitar que ela seja apenas mais uma faixa rápida.

O breakdown no meio é especialmente interessante porque deixa a guitarra brincar com uma linguagem mais próxima do hard rock oitentista, antes de devolver a música para sua estrutura principal. É um daqueles momentos em que o Airbourne mostra que conhece muito bem o repertório que está revisitando.


5. Sky High

Depois de quatro músicas que praticamente atropelam o ouvinte, Sky High reduz um pouco a velocidade. A faixa tem um andamento mais controlado e um riff mais arrastado, permitindo que o peso apareça de maneira diferente. É um daqueles momentos em que o Airbourne prova que não precisa estar permanentemente acelerado para soar agressivo.


6. Who Put The Rhythm In You?

A segunda parceria com Bryan Adams e Mutt Lange é uma das composições mais interessantes do disco porque apresenta uma camada mais calculada de composição.
O riff continua sendo Airbourne, mas existe uma preocupação maior com a construção do refrão. A música tem aquele tipo de gancho que permanece na cabeça depois que a faixa termina.


7. Christmas Bonus

Agora chegamos ao momento mais controverso do disco. Christmas Bonus é uma faixa deliberadamente vulgar, sexual e caricata. Musicalmente, ela segue a cartilha do Airbourne com competência, mas sua letra trabalha com um humor que pode facilmente envelhecer pior do que os riffs.

A própria banda nunca pretendeu tratá-la como uma canção natalina convencional. Pelo contrário: a ideia nasceu justamente da vontade de fazer algo completamente distante dos tradicionais clichês natalinos. O solo de guitarra brinca com a linguagem natalina e transforma o clichê em parte do arranjo, o que dá à faixa uma camada musical mais interessante do que sua letra poderia sugerir.


8. Last Man Standing

E então o disco volta a ficar muito forte. Last Man Standing tem uma construção de hino clássico. O riff inicial já cria aquela sensação de “música de entrada”, enquanto o refrão parece pedir uma multidão inteira cantando junto.

É uma faixa menos acelerada, mas talvez mais pesada justamente por causa disso. As guitarras trabalham com acordes largos e bastante espaço entre as frases, e Joel utiliza a voz com uma agressividade controlada que combina muito bem com o andamento. É um dos momentos em que a banda consegue transformar simplicidade em impacto.


9. Rock 'N' Roll Ya

Se Last Man Standing é um hino, Rock 'N' Roll Ya é praticamente uma convocação. A música tem uma estrutura extremamente direta, com um refrão construído para interação com o público e uma guitarra que mantém o movimento constante.
É uma faixa que talvez não revele uma nova faceta da banda, mas também não precisa revelar. É exatamente o tipo de composição que ganha uma dimensão diferente quando imaginada ao vivo.


10. Bogotá

Aqui está uma das grandes joias do álbum. Bogotá começa com uma parede de feedback que imediatamente muda a textura da guitarra. A influência de Eddie Van Halen aparece de maneira muito mais explícita, especialmente na abordagem do instrumento e na maneira como o solo ocupa o espaço da música.

Mas o mais interessante é que Joel não tenta reproduzir Van Halen. Ele absorve aquela linguagem e a transforma em uma versão mais suja, pesada e direta do próprio Airbourne. A própria banda destaca que essa foi a primeira vez que Joel utilizou uma guitarra inspirada na famosa “Frankenstein” de Eddie Van Halen, o que explica a escolha estética da faixa.


11. Hells Got No Vacancy

Hells Got No Vacancy volta ao hard rock mais direto, com um riff pesado, vocal rasgado e uma estrutura feita para ser tocada em volume alto.
É também uma das músicas que mais evidencia o problema inevitável do álbum: depois de tantas faixas baseadas em princípios semelhantes, algumas começam a funcionar mais como variações de uma mesma ideia do que como identidades completamente separadas.


12. Send Me To Rock 'N' Roll Heaven

O encerramento muda completamente a perspectiva do álbum. Até aqui, Airbourne passou boa parte do tempo celebrando o presente: festas, sexo, estrada, amplificadores, liberdade e o prazer quase infantil de tocar rock.

Send Me To Rock 'N' Roll Heaven olha para trás. A música é uma homenagem aos artistas que ajudaram a construir o universo musical da banda e que já partiram. Lemmy, Bon Scott, Malcolm Young, John Bonham, Little Richard, Doc Neeson, Eddie Van Halen e Ozzy Osbourne aparecem nessa celebração da história do rock.

E isso dá outro significado ao álbum inteiro. De repente, o Airbourne deixa de parecer apenas uma banda reproduzindo uma fórmula clássica e passa a assumir o papel de uma banda que sabe que está carregando uma tradição.


Divulgação 

Confira a tracklist completa:

Gutsy 
Alive After Death (Last Plane Out) 
Here She Comes
Kid In A Candy Store 
Sky High 
Who Put The Rhythm In You? 
Christmas Bonus
Last Man Standing
Rock 'N' Roll Ya
Bogotá
Hells Got No Vacancy 
Send Me To Rock 'N' Roll Heaven

Cobertura de Show: Helloween – 19/09/2026 – Suhai Music Hall/SP

A turnê de 40 anos do Helloween chegou ao Suhai Music Hall, em São Paulo, no dia 19, com a força de quem ainda tem muito a dizer. A banda alemã apresentou tanto os clássicos que moldaram o power metal quanto o material recente do álbum "Giants & Monsters", de 2025. Trinta anos depois da estreia brasileira, em 1996, o público continua sendo um dos mais fiéis do planeta: gritou, cantou e respondeu a cada provocação dos músicos com uma energia que só quem acompanha o estilo entende. Foi uma celebração de legado e presente, sem nostalgia barata.

A formação atual, composta por Michael Kiske (vocal), Andi Deris (vocal), Kai Hansen (guitarra e vocal), Michael Weikath e Sascha Gerstner nas guitarras, Markus Grosskopf no baixo e Dani Löble na bateria, funciona como uma engrenagem sofisticada. A alternância entre os três vocalistas não é só um recurso artístico: ela dá descanso real a vozes que enfrentam melodias extremamente exigentes. Enquanto um recupera o fôlego, o outro entra em cena e mantém a intensidade. O resultado é um show que respira, ganha dinâmica e nunca perde o fôlego.

Instrumentalmente, a banda mostrou que o tempo foi generoso. Os riffs continuam afiados, os solos conversam com precisão e a cozinha de Grosskopf e Löble empurra tudo para frente com a mesma força de décadas atrás. Depois de 30 anos visitando o Brasil, os músicos ainda soam em excelente forma: sem excessos, sem relaxamento, com a confiança de quem domina o próprio repertório.

O setlist abriu com o clássico "March of Time" e logo mergulhou em "The King for a 1000 Years", ganhando o público rapidamente. Andi Deris lembrou que aquele era o último show da turnê e provocou o público para fazer o maior barulho possível. A resposta veio à altura, antes de Kai Hansen assumir o centro do palco para introduzir um dos maiores clássicos da banda, "Future World". "This Is Tokyo", de "Giants & Monsters", trouxe a fase atual para o centro do palco e, logo em seguida, a banda resgatou "We Burn". A música foi apresentada no Brasil somente uma vez, em 1996. Cantada exclusivamente por Deris, o momento ganhou um significado especial para quem acompanha a banda desde aquela época.

A sequência continuou equilibrando eras. "Twilight of the Gods" ficou por conta de Kiske, com apoio de Kai no refrão; "Ride the Sky" devolveu Hansen aos vocais do petardo dos primeiros anos. O equilíbrio entre passado e presente continuou sendo um dos pontos altos da apresentação. "Into the Sun" proporcionou um dos momentos mais emocionantes da noite ao colocar Andi e Kiske lado a lado. Uma das grandes surpresas do setlist foi "I'm Alive", que voltou ao repertório somente nesse show, transformando o Suhai Music Hall em uma verdadeira festa. Teve até um pequeno deslize de Kiske, que se empolgou demais e voltou antes do solo terminar, mas ninguém ligou. Depois, Andi retornou para "Hey Lord!", apontando para cima antes de anunciar que aquela era "para Ele". "Universe (Gravity for Hearts)", também do álbum de 2025, teve uma recepção mais discreta, mas serviu para mostrar que o Helloween não está simplesmente vivendo de suas glórias passadas, continua criando e promovendo seu material recente no palco.

O solo de bateria de Löble, com as tradicionais pausas para a participação do público, preparou o terreno para "I Want Out", um daqueles clássicos absolutos capazes de transformar qualquer casa de shows em um gigantesco karaokê. Cantada por Andi e Kiske, com a participação maciça dos fãs e uma chuva de papel picado no final, a música foi um dos momentos mais grandiosos da noite. A seguir, "A Tale That Wasn't Right", que, segundo Deris, trouxe a calmaria antes da tempestade. Kiske pegou o violão, arriscou trechos de "Suspicious Minds", de Elvis Presley, e "Yesterday", dos Beatles, acompanhado pelo público, antes de Andi assumir o instrumento para iniciar a canção do Helloween. Quando toda a banda retornou durante o solo, sob um verdadeiro mar de celulares, o resultado foi simplesmente emocionante e sensacional.

A reta final começou com Andi pregando uma peça na plateia ao anunciar que "A Little Is a Little Too Much" seria a última música, fazendo uma pausa dramática antes de revelar que, na verdade, seria a última representante de "Giants & Monsters". O susto rapidamente deu lugar a mais uma sequência histórica: Kai Hansen voltou aos vocais para "Heavy Metal (Is the Law)", resgatando novamente os primórdios do Helloween, e depois a banda encarou a longa e épica "Halloween", uma T viagem por diferentes climas e passagens musicais que ultrapassa os dez minutos. O bis começou com Michael Kiske sozinho em "Eagle Fly Free". Depois de se perder brevemente após o primeiro refrão, ele entregou o trecho para a plateia, que evidentemente não se importou nem um pouco com a pequena derrapada e continuou cantando em alto e bom som. Andi então assumiu "Power", fazendo novamente o público participar em massa, antes dos dois vocalistas dividirem os vocais em "Dr. Stein", que praticamente colocou o Suhai Music Hall abaixo. Para encerrar a noite que funcionou como uma verdadeira retrospectiva viva da trajetória do Helloween, ainda houve espaço para um pequeno trecho de "Keeper of the Seven Keys", apenas o suficiente para matar a saudade e deixar no ar uma última lembrança de uma das obras mais importantes da história do power metal.

Desde aquela primeira apresentação brasileira, em 1996, o vínculo entre Helloween e seus fãs no país atravessou mudanças de formação, diferentes fases musicais e três décadas de história, mas permanece intacto. A atual formação mostrou que a banda encontrou uma maneira particularmente eficiente de unir experiência, técnica e energia. A alternância dos vocais, a força instrumental e um repertório que passeia pelos primórdios da carreira até "Giants & Monsters" fizeram da apresentação muito mais do que uma comemoração de aniversário: foi uma demonstração de que, após 40 anos de Helloween e 30 anos de encontros com o público brasileiro, os Pumpkins ainda sabem exatamente como transformar suas histórias em uma grande noite de heavy metal. 


Texto: Marcelo Gomes




Realização: Mercury Concerts




 March of Time

 The King for a 1000 Years

 Future World

 This Is Tokyo

 We Burn

 Twilight of the Gods

 Ride the Sky

 Into the Sun

 I'm Alive

 Hey Lord!

 Universe (Gravity for Hearts)

 I Want Out

 A Tale That Wasn't Right

 A Little Is a Little Too Much

 Heavy Metal (Is the Law)

 Halloween

 Eagle Fly Free

 Power

 Dr. Stein

 Keeper of the Seven Keys  

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Resenha - Ricky de Camargo: The Truth Is Out There

 

Por Denis A. Lacerda

Nota: 09.0/10.0

O novo single “The Truth Is Out There” amplia o universo instrumental construído pelo guitarrista RICKY DE CAMARGO e apresenta uma composição que aposta menos na demonstração gratuita de técnica e mais na criação de uma narrativa sonora. A participação especial de Dallton Santos acrescenta outra personalidade às guitarras e ajuda a transformar a faixa em uma espécie de diálogo musical sobre o desconhecido, o cosmos e as perguntas que permanecem sem resposta. O resultado é uma peça que procura despertar a imaginação sem depender de uma estrutura excessivamente complexa para sustentar seu interesse.

Essa escolha encontra respaldo na própria trajetória do músico. Natural de Sorocaba (SP), nascido em 1988, RICKY DE CAMARGO acumula mais de duas décadas de dedicação à música e construiu uma discografia autoral composta por Origins (2019), Maverick (2021), Relentless (2022) e Beast Mode (2025). Ao longo desses trabalhos, a guitarra permaneceu como eixo de uma linguagem que transita pelo Rock, Metal, Progressivo e Fusion, mas sem transformar o virtuosismo em finalidade absoluta.

Em entrevistas, o próprio guitarrista já explicou que procura escrever músicas que sejam “legais de se ouvir e tocar”, evitando complicar as composições sem necessidade. Essa filosofia é particularmente relevante em “The Truth Is Out There”, porque a faixa consegue utilizar recursos técnicos como parte da construção musical, e não como uma sucessão de exibições instrumentais. O equilíbrio entre passagens mais elaboradas, melodias e atmosferas permite que o ouvinte acompanhe a composição sem precisar necessariamente analisá-la sob uma perspectiva estritamente guitarrística.

A presença de Dallton Santos merece atenção justamente por esse aspecto. Em vez de funcionar apenas como um convidado inserido para acrescentar prestígio ao lançamento, sua participação reforça a proposta de estabelecer diferentes perspectivas dentro da guitarra instrumental. A escolha também dá continuidade a uma característica que RICKY DE CAMARGO vem desenvolvendo em seus trabalhos mais recentes: a ampliação de sua paleta sonora por meio de colaborações com outros músicos. No projeto seguinte a Beast Mode, por exemplo, o guitarrista já havia anunciado participações de Edu Ardanuy, Roberto Barros e Dallton Santos.

Como prévia do próximo álbum, “The Truth Is Out There” cumpre ainda uma função importante: demonstra que RICKY DE CAMARGO continua interessado em evoluir sem romper com aquilo que sustenta sua identidade. A faixa combina peso, ambiência, musicalidade e diferentes possibilidades de expressão da guitarra para construir uma experiência que pode ser apreciada tanto por instrumentistas quanto por ouvintes que simplesmente buscam uma boa composição de Rock/Metal instrumental. É justamente nessa capacidade de colocar a técnica a serviço da música que reside um dos pontos mais interessantes deste novo capítulo da carreira do guitarrista.

Entrevista - Adulfe: Quando o Modern Metal se Funde ao Underground Nacional

 

- Olá Bruno. Obrigado pela sua gentileza em nos atender. Parabéns pelo lançamento do álbum “Anxiety”, pois o material ficou de primeira...

R: Muito Obrigado! nós que agradecemos o reconhecimento, foi um trabalho árduo, e que chegou no resultado que queríamos.

- Como você pode descrever o trabalho na composição deste tipo de sonoridade?

R: Bom, nesse estilo em especifico que foi Deathcore, buscamos uma sonoridade mais bruta, direta e pesada com pouquíssimas passagens melódicas, ao contrario do 1º álbum, guitarras bem presentes, bastante breakdowns e vocais guturais, foi um estilo que nunca trabalhamos antes, então o nosso produtor teve uma parte importante na nossa incorporação nesse estilo.

- Eu escutei o álbum diversas vezes e, só após várias tentativas, consegui captar parte das suas ideias. Os fãs têm sentido este tipo de dificuldade também?
R: olha, sinceramente não, pra quem já está acostumado com o estilo, sabe que muitas vezes pela distorção e os guturais não dá pra entender a letra, porem ao lê-la creio q ideia do álbum fica bem clara, que tratamos de doenças mentais, como ansiedade e depressão e qual a sensação que elas causam e o quão importante é trata-las

- Existem planos para o relançamento de “Anxiety” através da MS Metal Records na Europa, que é atual gravadora de vocês?

- Adorei o fato de trabalharem com o inglês, mas isso não pode vir a atrapalhar vocês no mercado nacional?

R: Sim e não, nosso objetivo realmente não é o mercado nacional, pois esse estilo é muito pouco valorizado aqui no brasil e nós sabemos disso, por isso o inglês e por isso o trabalho com a MS Metal Records lá fora.

- Como estão rolando os shows em suporte ao disco? A aceitação está sendo positiva?

R: Olha, mais do que o esperado as pessoas tem elogiado bastante, e sempre mencionando nossas musicas nas redes sociais, e o shows estão bem enérgicos, do jeito que queríamos, os fãs comprando bastante merch, está fluindo bem.

- Quem assinou a capa do CD? Qual a intenção dela e como ela se conecta com o título?

R. Quem fez a capa foi o Carlos Fides, pra nós o melhor nesse contexto, ficamos muito satisfeitos com o resultado. Sobre como a capa se conecta com o titulo, nela nós vemos uma pessoa sentada, abraçando as pernas e com muitos espinhos nela, isso é a forma ilustrada de como uma pessoa ansiosa se sente, os pensamentos descontrolados, vontade de fazer tudo mas sem conseguir se mexer como se tivesse vários espinhos a prendendo daquele jeito e não sabendo como sair disso.

- “Anxiety” foi todo produzido pela banda, confere? Foi satisfatório seguirem por este caminho?

R. confesso que o caminho foi mais difícil que o esperado, pois mesmo sendo metal, nunca trabalhamos com deathcore, então era tudo novo pra todos, mas vendo por um outro lado isso nos forçou a evoluir técnica e psicologicamente então creio que no final das contas o saldo foi positivo.

- Imagino que já estejam trabalhando em um novo full lenght. Se sim, como está se dando o processo e como ele está soando?

R. a sim estamos sim, mas ele vai soar um pouco diferente, buscamos uma sonoridade mais moderna como Motionless in White e BMTH estão fazendo hoje, mas está ficando incrível.

- Novamente parabéns pelo trabalho e vida longa ao ADULFE... Agora é contigo para as suas considerações finais... 

R. R. Nós que agradecemos o espaço, foi muito bom conversar com vocês, sigam a @_Adulfe no Instagram, e nas outras redes sociais, nossa musica está em todas as plataformas digitais, Spotfy, Deezer, Itunes, Youtube...


Um grande abraço e até a próxima

Valeu!

Entrevista - Epitaph: "Tínhamos um Material Forte, que Lapidamos Dentro do Estilo que a Banda é...Puro Heavy Metal!"

 


Por: Caco Garcia 
Fotos: Divulgação/Arquivo da banda e Vinny Vanoni

Formada em Porto Alegre RS, e com quase três décadas de história a Epitaph passa por um momento especial, lançando no final de junho seu segundo full-lenght, "Digital Screams", o qual vem sendo muito bem recebido por critica e público.

O álbum traz uma banda muito mais coesa, adicionando mais peso e novos elementos ao seu Heavy/Trash Metal.

Conversamos com um dos seus fundadores, o baterista César "Five", que nos contou mais detalhes do álbum e planos e expectativas para levar o nome da Epitaph cada vez mais longe.


RtM:"Digital Screams" chegou 17 anos depois de "Gettin' Down to Business". O que fez esse processo levar tanto tempo? Claro, há sempre as dificuldades enfrentadas por uma banda independente.

César Five: O "Digital Screams" teve seu processo de lançamento atrasado devido aos problemas que todas as bandas têm, como troca de integrantes, falta de recursos financeiros, de como o mercado do heavy metal estava e como as pessoas consomem música, além da pandemia e a enchentes aqui no RS, mas nunca pensamos em não lançar o álbum físico. 


RtM: Realmente, mesmo com os custos e também com crescimento do streaming, sempre há público que prefere e gosta de ter o material físico.

César Five: Eu já estaria fora da música se não existisse meios de lançar o CD físico, pois é a realização material da tua obra, da tua música. As pessoas diziam que não existiriam mais livros e filmes, mas eles estão aí assim como LPs ,CDs e outras mídias físicas, pois sempre haverá quem prefira esse material. Esse atraso acabou por ajudar na qualidade final do trabalho, pois acertamos todos os detalhes que acabaram por tornar esse álbum como queríamos.

RtM: O álbum impressiona pela qualidade sonora, produção, arte gráfica e edição física. Em tempos de streaming, é louvável aa bandas independentes investirem em um CD físico, sabendo dos altos custos envolvidos, e o retorno geralmente mais lento. 

César Five: Embora as despesas de fazer um álbum físico sejam grandes, decidimos fazer 200 cópias(comprem, pois vai virar raridade) que felizmente estão sendo vendidas rapidamente. Era fundamental para nós lançarmos o álbum físico, mesmo pressionados pelo tempo entre o primeiro álbum e esse, queríamos que essas músicas chegassem às pessoas como uma obra completa, e não aos pedaços, como singles espalhados pelas plataformas. 


RtM: Que ótimo, recentemente vimos artigos falando sobre o aumento das vendas de CDs, então isso é satisfatório para quem seguiu acreditando no material físico.

César Five: Sim, isso é ótimo. E a espera e o esforço valeram a pena. Ter o material físico te coloca em outro patamar, até para negociar shows, e o fã pode ir no show e levar na hora a lembrança. Nesse momento você encontra as pessoas que gostam da tua música.


RtM: E complementando o que comentamos antes, muitas bandas independentes acabam lançando apenas singles por questões financeiras, mas a Epitaph  apostou em um álbum completo, concebido como uma obra única, mesmo diante de tantos desafios.

César Five: Não haveria sentido para nós lançarmos singles nas plataformas digitais, que embora fundamentais hoje em dia, não te trazem nada além de contatos e curtidas, e que não demonstram se o material é forte e se chegou ao público. 

E depois de ver o trabalho pronto, acharia uma grande injustiça não tornar um material físico o esforço de todos que compuseram, gravaram, produziram, escreveram as letras, conceberam e fizeram a capa, todo o trabalho gráfico, enfim a alma de tudo virar um simples arquivo, sem vida que pode ser deletado com apenas um toque após ser escutado. 


RtM: Sim, a materialização da obra. Como colecionador e defensor da mídia física, eu aplaudo a iniciativa de todos que seguem lançando CDs e LPs.

César Five: Gostaria que fosse lançado em LP mas os altos custos impossibilitaram, mas esse CD tem encarte, letras, fotos, capa que faz a experiência da audição muito mais interessante.

RtM: Ao ouvir o álbum, fica evidente uma evolução em direção a um Heavy Metal mais pesado, com influências de Thrash,  e ainda elementos de Hard, Southern e Classic Rock. Gostaria que você comentasse a respeito desses novos elementos e detalhes que você comentou antes, e evolução sonora da Epitaph.

César Five: As músicas desse álbum são as influências de todos os músicos que estiveram na banda nesses longos anos. Todos de alguma forma colaboraram e são devidamente creditados no encarte e são parte importante da história da banda. A entrada do André “Canhoto”Carvalho e o Fábio Figueiredo, como guitarrista e baixista respectivamente, foram as peças que faltavam para seguirmos em frente. 



RtM: Eles chegaram somando e contribuindo para essa nova fase 

César Five: Exato. O Canhoto e o Fábio não entraram apenas para gravar o que estava pronto, mas sim colocar as suas personalidades e estilos nas músicas e alteraram o que foi preciso. Assim funciona uma banda que quer chegar a algum lugar. Tínhamos um material forte, que lapidamos dentro do estilo que a banda é...puro Heavy Metal.


RtM: A faixa-título aborda temas extremamente atuais, como polarização nas redes sociais e Inteligência Artificial, com a tecnologia aproximando as pessoas, mas também gera conflitos e desumanizando as relações. Gostaria que vocês comentassem a respeito dessa faixa, onde novamente vocês contaram com a colaboração de Gustavo Demarchi (Apocalypse).

César Five: O Gustavo Demarchi é um amigo de longa data, que hoje mora em Portugal, pedimos a ele na época para escrever a letra do que virou a "Digital Screams", pois ele sempre foi ótimo letrista, tanto na The Wise, Apocalypse e outros projetos dele. A música foi feita pelo Marlon Steindorff e eu, e ele gostou muito, e já escreveu as partes dele e as do Joe. 

No dia da gravação foi muito divertido, pois ambos estavam preparados e deram um show de profissionalismo. Acho essa música sensacional, e o Canhoto colaborou com mais riffs depois. Acho que ela uma música de alto nível, temos muito orgulho dela.


RtM: “Loser’s Life” abre o álbum, e também se destaca, sendo uma excelente apresentação para quem vai ouvir a banda pela primeira vez, tendo uma pegada pesadíssima. Comentem também um pouco mais sobre essa faixa.

César Five: Na hora que estávamos construindo o tracklist do CD, colocamos a Loser´s Life como faixa de abertura pois ali resume o que é o Digital Screams: muitos riffs, paradinhas de bateria, thrash, e um refrão maravilhoso, tem várias levadas de bateria e solos sensacionais, e o Joe canta a letra com muita força.


RtM: E temos a “The Girl Who Loved the Dead”, que foi o primeiro single e vídeo do álbum, com uma temática bem interessante, e mostrando já alguns desses novos elementos do som da banda, provavelmente sendo esse um dos motivos que foi escolhida para a primeira amostra do trabalho. O que vocês podem nos falar mais a respeito dessa faixa e suas inspirações?

César Five: A "The Girl" é uma letra do Dênis, a música tem partes minhas, do antigo guitarrista Marcelo Fernandez, o baixista André Soares e do Marlon. Ela tem partes diversas, e chama atenção pelo tema acústico no meio, que deu um ar de Mercyful Fate e King Diamond. Todos sabíamos que seria essa a música single e do vídeo, é forte, cheia de passagens diferenciadas e foi filmada pelo Renato da Chama Video em 4 horas apenas. Ficou com cara daqueles filmes da Hammer de terror dos anos 60. 

Cena do vídeo "The Girl Who Loved the Dead"

RtM: As letras de Denis Winston Brum voltam a trazer críticas sociais, políticas e religiosas bastante contundentes. Como funciona essa parceria entre compositor e letrista? As músicas nascem primeiro ou a temática das letras acaba influenciando os arranjos?

César Five: O Dênis Winston, além de escritor com vários livros editados, roteirista, é uma verdadeiro máquina de produzir cultura, é amigo pessoal meu desde 1991, padrinho do meu filho e fã de heavy metal, ficção científica e filmes de terror antigos. A Epitaph já estava compondo material e mostramos a música e ele logo compôs a letra da clássica Remote Control que foi feita lá em 2000 e se mantém atual até hoje. 

A parceria naturalmente cresceu onde mandávamos a música na sua estrutura básica e ele desenvolvia com ideias suas ou sugestão de letras nossas. Às vezes mudávamos os arranjos para melhor adaptar as letras aos vocais do Joe.



RtM: E é notório o cuidado que vocês tiveram com as letras.

César Five: A Epitaph sempre se preocupou com as letras. No primeiro álbum ele escreveu oito letras, eu a "Wrong Choice" e o Gustavo Demarchi a "Metal Wings". A música "Red White and Blue" é tão atual que só mudou o Bush e sua guerra do Afeganistão pelo Trump e o Irã, é atemporal pois o mundo infelizmente vive de guerras.

E para o "Digital Screams" mantivemos a equipe de compositores, com o Dênis com 5 letras, eu com a "Road of Fire" (adaptada pelo Dênis), Gustavo Demarchi com a faixa título e o Joe com a "Blue Cave". Os temas são ótimos e mantém a qualidade e fortalecem a parte musical.


RtM"Blue Cave" encerra o álbum com uma narrativa bastante humana, inspirada em uma realidade conhecida dos gaúchos. Como surgiu essa história e por que vocês escolheram fechar o disco justamente com essa música?

César Five: A Blue Cave, ou Gruta Azul, é o nome de uma famosa boate aqui de Porto Alegre, e o Joe F. Louder, fazia os trabalhos da parte gráfica da casa e das moças que trabalhavam lá, inclusive da hoje famosa Andressa Urach. A inspiração veio daí e ele transformou numa ótima letra, que seria interessante se chegasse a Andressa. 

A parte instrumental que finalizou a música foi do Canhoto, pois achamos que deveria ter algo que fechasse o CD de forma diferente e ele trouxe aquele momento acústico que deu uma classe incrível ao álbum.


RtM: A produção de Lucas Santorum conseguiu preservar um som orgânico e pesado, algo que muitos fãs sentem falta em produções excessivamente digitais. Qual era a proposta sonora que vocês tinham em mente antes de entrar em estúdio?

César Five: O Lucas foi aquele que chegou no momento certo. Já tínhamos as músicas prontas, as baterias já todas gravadas , a pré produção pronta, mas não encontrávamos o som que queríamos. Felizmente ele entendeu o que buscávamos: um som estilo as produções do Andy Sneap, pesado, moderno e contemporâneo, mas sem ser “modernoso”, afinal somos uma banda de heavy Metal Tradicional. 

Gravamos no seu estúdio o LST, guitarras, baixo e parte dos vocais, e não só trabalhou como técnico de som, mas como produtor, opinando, cobrando esforços para aquele take a mais. Como presente, ele gravou o solo de guitarra inicial da música "National Guard" e não vemos a hora de gravar com ele novamente.

RtM: O personagem da capa do primeiro álbum retorna em "Digital Screams", e o encarte traz diversas referências à cultura pop, Rock e Metal. Existe uma intenção de criar uma identidade visual contínua para a Epitaph, conectando passado e presente da banda?

César Five: O personagem da capa, é o mesmo que está no Getting Down To Business, ele é enigmático, e ainda vamos descobrir o que ele guarda na sua maleta. Mantivemos a ideia de ser ele o cara digitalizado no novo álbum, assim como um personagem relacionado a banda. 

O encarte tem referências ao primeiro álbum como a gárgula e o relógio, e o trabalho gráfico da Juliana Louis foi incrível, pois eu ia pedindo referências que me marcaram e ela ia adaptando na foto do encarte...ali tem coisas de séries de TV, bandas, personagens históricos, frases clássicas enfim é um bom passatempo escutar o CD e ir procurando tais referências.

A foto do encarte traz várias referências marcantes para César e a banda.

RtM: Finalizando, depois de um disco tão forte e de uma resposta que vem sendo bastante positiva da imprensa e do público, quais são os próximos passos da Epitaph? A ideia é intensificar os shows e diminuir o intervalo até o próximo álbum?

César Five: O momento é de divulgar o CD seja por shows ou através de contatos que impulsionem que ele chegue a mais pessoas. Estamos muito satisfeitos com a repercussão do álbum, pois sabíamos que o material é forte, pois mostra nosso crescimento como músicos e compositores. 

Montar uma agenda de shows não é simples, pois todos temos empregos regulares e famílias e conciliar datas e logística é complicado, mas temos objetivos que é de tocar novamente em outros estados, abrir shows internacionais se possível. 

Algumas músicas ficaram de fora desse álbum serão gravadas com o Lucas e serão lançadas como singles de tempos em tempos com vídeo clipe. Mas se depender de mim ainda haverá outro full lenght da Epitaph.


RtM: Muito obrigado, César, sucesso à vocês nesses próximos passos, e mais uma vez parabéns pelo trabalho! Pessoal, ouçam! 
César Five: agradeço ao Road To Metal pelo espaço muito importante para a banda. Obrigado a todos que tem comprado o álbum físico, ido aos shows e que de alguma forma estão ajudando a Epitaph a crescer.


Epitaph é:
Joe F. Louder nos vocais, Marlon Steindorff e André Carvalho "Canhoto" nas guitarras, Fabio Figueiredo no baixo e César "Five" Louis na bateria


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Resenha do Álbum