quinta-feira, 21 de maio de 2026

John Diva & The Rockets Of Love: Your Favorite Drug e a Arte do Exagero (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

A cena hard rock europeia sempre viveu do delicado equilíbrio entre reverência e exagero. Poucas bandas contemporâneas conseguem compreender tão bem essa dinâmica quanto John Diva & The Rockets Of Love. Em Your Favorite Drug, previsto para outubro de 2026 via Frontiers Music Srl, o grupo alemão abandona parte da abordagem caricatural que marcou seus trabalhos anteriores para entregar um álbum mais sólido, coeso e musicalmente convincente. Sem abrir mão da estética glam, dos refrões gigantescos e do espírito hedonista do hard rock oitentista, a banda soa mais consciente de sua identidade artística — e, principalmente, mais eficiente na construção das músicas.

Produzido por Hannes Braun, o disco aposta em guitarras encorpadas, refrões cuidadosamente arquitetados e uma produção que privilegia impacto sem sacrificar dinâmica. O primeiro single, “Bigger Than America”, já indicava essa direção: uma celebração escancarada do hard rock melódico, construída para arenas imaginárias e refrões feitos sob medida para permanecer na memória após poucos minutos.

“The Devil’s Got My Back” abre o álbum com todos os elementos clássicos do hard rock californiano: riffs diretos, bateria pulsante e guitarras ocupando o centro da mixagem enquanto baixo, teclados e bateria sustentam a base com eficiência. O refrão é imediatamente contagiante, impulsionado por excelentes backing vocals e harmonias vocais bem distribuídas. O solo, técnico sem soar excessivo, reforça a proposta da faixa e encerra uma abertura extremamente eficiente.

Mantendo a energia da abertura, “Bigger Than America” surge embalada por palmas e levadas típicas do hard rock de arena dos anos 80. Mais cadenciada, a música investe fortemente em camadas vocais e coros que ampliam seu caráter hímnico. O trabalho de guitarras é particularmente inspirado, especialmente na transição para o solo, onde a banda desacelera momentaneamente para inserir um belo trecho acústico antes da retomada explosiva do refrão final. É uma composição que entende perfeitamente a estética que deseja homenagear sem parecer mera cópia.

“No Mercy For The Teenage Heart” aposta em uma fórmula bastante tradicional: bumbo marcado, riffs diretos e linhas vocais conduzindo a melodia até um refrão melódico e imediato. Ainda assim, a execução segura impede que a faixa soe genérica. O solo é veloz, agressivo e extremamente bem encaixado, enquanto as harmonias vocais ampliam a sensação de grandiosidade. A banda demonstra aqui um domínio muito maior da dinâmica entre peso e melodia.

“Lamborghina” inicia de maneira atmosférica antes de mergulhar em outra típica composição do grupo. O destaque está na cozinha: baixo e bateria criam uma base sólida e dinâmica, permitindo que as guitarras apareçam apenas nos momentos certos, sem excessos. Os vocais também merecem atenção, especialmente pelas notas mais altas e pelos backing vocals cuidadosamente distribuídos. A sonoridade das guitarras remete diretamente ao hard rock clássico, sobretudo na ponte que antecede o solo. Já as harmonias finais acrescentam uma camada melódica extremamente eficiente.

A faixa-título é provavelmente o momento em que as influências de Mötley Crüe se tornam mais evidentes. Repleta de groove, riffs simples e refrões massivos, “Favorite Drug” funciona quase como uma síntese da proposta do álbum. O refrão, carregado de coros e backing vocals, é daqueles feitos para multidões. Nos versos, baixo e bateria trabalham de maneira mais contida, abrindo espaço para a condução vocal e para um solo melódico extremamente bem construído. A pausa antes do refrão final, praticamente sustentada apenas por voz e bateria, cria um excelente senso de tensão e catarse.

“S.M.I.L.E.” abre com um solo imediatamente marcante e se diferencia pelo uso constante de coros já durante os versos, algo menos comum no restante do álbum. O refrão, curiosamente mais econômico em backing vocals, cria um contraste interessante com a condução da música. Mais uma vez, baixo e bateria trabalham em perfeita sintonia, permitindo que as guitarras circulem livremente pela composição. O solo segue uma linha extremamente clássica, melódica e agradável, reforçando o caráter nostálgico da faixa sem soar datado.

“Love Is Cold” chega impulsionada por guitarras rápidas antes de desacelerar para um andamento mais cadenciado e melódico. A construção da música é inteligente: enquanto baixo e bateria sustentam a dinâmica principal, as guitarras evitam exageros e priorizam a melodia. Os teclados adicionam uma atmosfera épica ao refrão e ajudam a preparar o terreno para um excelente solo, que desemboca em uma ponte minimalista baseada apenas em voz e teclados. É um dos momentos mais melodicamente sofisticados do disco.

Uma guitarra seca e pesada introduz “Girls In Overdrive”, provavelmente a faixa mais explicitamente hard rock do álbum. Tudo aqui parece calculado para agradar fãs do gênero: refrão explosivo, coros massivos, riffs diretos, solo virtuoso e uma cozinha extremamente inspirada. Até mesmo o coral adolescente utilizado em determinados momentos funciona dentro da proposta exagerada da música. É o tipo de composição que abraça completamente os clichês do gênero — e justamente por isso funciona tão bem. Facilmente uma das músicas mais fortes do álbum.

“Spectacular” mantém o alto nível do disco e reforça sua unidade sonora. A faixa investe em guitarras constantes, vocais dobrados e jogos de resposta entre diferentes linhas vocais, criando uma dinâmica bastante rica. O refrão em uníssono é puro hard rock de arena. Musicalmente, há referências claras ao hard rock setentista, perceptíveis tanto na abordagem rítmica quanto na construção melódica. O solo surge de forma natural, sem quebrar o fluxo da composição, algo que demonstra maturidade na estruturação das músicas.

Encerrando o álbum, “Soundtrack Of My Life” traz fortes ecos de Bon Jovi, especialmente pelo uso destacado dos teclados que remetem imediatamente a “Runaway”. O refrão funciona como uma verdadeira declaração de amor aos anos 80, enquanto a letra e os arranjos acumulam referências ao auge do hair metal. Ainda que bastante nostálgica, a faixa evita soar puramente derivativa graças à sinceridade com que a banda abraça suas influências.

Your Favorite Drug talvez não reinvente o hard rock melódico, mas definitivamente compreende sua essência melhor do que grande parte das bandas atuais do gênero. Em vez de apostar apenas na nostalgia vazia, John Diva & The Rockets Of Love entrega um álbum extremamente coeso, bem produzido e musicalmente consistente. Há exagero, refrões gigantescos, solos melodiosos e todos os clichês esperados — mas executados com convicção, competência e senso de identidade.

Para fãs de hard rock oitentista, trata-se facilmente de um dos lançamentos mais sólidos e divertidos de 2026.

***ENGLISH VERSION***

The European hard rock scene has always thrived on a delicate balance between reverence and excess. Few contemporary bands understand that dynamic as well as John Diva & The Rockets Of Love. On Your Favorite Drug, scheduled for release in October 2026 via Frontiers Music Srl, the German outfit steps away from part of the caricatural approach that defined some of its earlier work in favor of a record that feels tighter, more cohesive, and far more musically convincing. Without abandoning the glam aesthetics, gigantic choruses, and hedonistic spirit of ’80s hard rock, the band sounds far more aware of its artistic identity — and, above all, far more effective in its songwriting.

Produced by Hannes Braun, the album leans heavily on thick guitar tones, meticulously crafted hooks, and a production style that prioritizes impact without sacrificing dynamics. Lead single “Bigger Than America” already pointed toward this direction: an unapologetic celebration of melodic hard rock built for imaginary arenas and choruses designed to stay lodged in your memory after a single listen.

“The Devil’s Got My Back” opens the album with every classic ingredient of Californian hard rock: straightforward riffs, pounding drums, and guitars dominating the mix while bass, keyboards, and rhythm section efficiently hold the foundation together. The chorus is instantly infectious, driven by excellent backing vocals and well-layered harmonies. The solo, technical without becoming indulgent, reinforces the track’s purpose and closes the opener on a high note.

Maintaining the momentum established by the opener, “Bigger Than America” arrives wrapped in handclaps and grooves straight out of the golden era of ’80s arena rock. More restrained in tempo, the track relies heavily on layered vocals and massive choruses that amplify its anthemic nature. The guitar work is particularly inspired, especially during the transition into the solo, where the band briefly pulls back for a tasteful acoustic passage before exploding back into the final chorus. It is a song that perfectly understands the aesthetic it seeks to celebrate without ever sounding like a mere imitation.

“No Mercy For The Teenage Heart” follows a fairly traditional formula: pounding kick drums, direct riffs, and vocal lines guiding the melody toward an immediate and highly melodic chorus. Still, the band’s confident execution prevents the track from feeling generic. The solo is fast, aggressive, and perfectly placed, while the vocal harmonies heighten the sense of grandeur. Here, the band demonstrates a far stronger command of the balance between heaviness and melody.

“Lamborghina” begins atmospherically before diving into another quintessential composition from the group. The rhythm section deserves special mention: bass and drums create a solid yet dynamic foundation, allowing the guitars to step forward only when necessary, never overplaying. The vocals are also a highlight, particularly the higher notes and carefully arranged backing vocals. The guitar tone screams classic hard rock, especially during the bridge leading into the solo, while the closing harmonies add an extra melodic layer that works remarkably well.

The title track is probably the moment where the influence of Mötley Crüe becomes most apparent. Packed with groove, simple riffs, and massive choruses, “Favorite Drug” feels almost like a manifesto for the entire album. The chorus, overloaded with gang vocals and layered harmonies, was clearly designed for large crowds. During the verses, bass and drums pull back slightly, leaving room for the vocal delivery and an extremely well-crafted melodic solo. The breakdown before the final chorus — carried almost entirely by vocals and drums — creates an excellent sense of tension and release.

“S.M.I.L.E.” opens with an immediately memorable solo and distinguishes itself through the constant use of gang vocals during the verses, something less common throughout the rest of the album. Interestingly, the chorus itself is more restrained in terms of backing vocals, creating a compelling contrast with the song’s verses. Once again, bass and drums lock together perfectly, allowing the guitars to move freely across the arrangement. The solo follows a highly classic, melodic, and undeniably enjoyable approach, reinforcing the nostalgic character of the track without sounding dated.

“Love Is Cold” arrives driven by rapid-fire guitars before shifting into a more controlled and melodic groove. The song structure is intelligently crafted: while bass and drums sustain the main dynamics, the guitars avoid unnecessary excess and focus on melody instead. The keyboards add an epic atmosphere to the chorus and help pave the way for an excellent solo that eventually transitions into a minimalist bridge based solely on vocals and keyboards. It stands as one of the album’s most melodically sophisticated moments.

A dry, heavy guitar riff introduces “Girls In Overdrive”, arguably the album’s most unapologetically hard rock-oriented track. Everything here feels engineered to satisfy fans of the genre: explosive choruses, massive gang vocals, direct riffs, a flashy guitar solo, and an inspired rhythm section. Even the teenage choir used in certain moments works perfectly within the song’s exaggerated spirit. This is the kind of composition that fully embraces every cliché of the genre — and succeeds precisely because of that. Easily one of the strongest tracks on the album.

“Spectacular” maintains the album’s high standards while reinforcing its sonic consistency. The track invests heavily in constant guitar presence, layered vocals, and call-and-response vocal arrangements that create a rich sense of dynamics. The unison chorus is pure arena hard rock. Musically, the song contains clear references to ’70s hard rock, noticeable both in its rhythmic approach and melodic construction. The solo emerges naturally without disrupting the flow of the song, demonstrating a notable level of maturity in the band’s songwriting.

Closing the album, “Soundtrack Of My Life” carries strong echoes of Bon Jovi, particularly through its prominent keyboard work, which immediately recalls “Runaway.” The chorus functions as a genuine love letter to the ’80s, while the lyrics and arrangements pile up references to the golden age of hair metal. Despite its overt nostalgia, the track avoids sounding purely derivative thanks to the sincerity with which the band embraces its influences.

Your Favorite Drug may not reinvent melodic hard rock, but it certainly understands the genre’s essence better than most contemporary bands operating within it. Rather than relying solely on empty nostalgia, John Diva & The Rockets Of Love delivers an album that is cohesive, well-produced, and musically consistent throughout. The excess, gigantic choruses, melodic solos, and every expected cliché are all present — but executed with conviction, skill, and a genuine sense of identity.

For fans of ’80s hard rock, this is easily one of the strongest and most entertaining releases of 2026.

Manfred Pollert

Zan/Cody: Sleaze Sombrio Além da Nostalgia (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Formado por Zinny Zan e Harry Cody, dupla original do cultuado Shotgun Messiah, o Zan/Cody retorna em 2026 com Beautiful ‘N Damned, um álbum que resgata parte da essência do sleaze hard rock escandinavo que ajudaram a moldar no fim dos anos 80, mas sem se prender ao simples exercício nostálgico. Em vez de tentar reproduzir mecanicamente a estética do passado, a dupla aposta em uma abordagem mais ampla e ousada, incorporando elementos eletrônicos, atmosferas sombrias e texturas modernas que expandem significativamente o alcance sonoro do projeto.

As guitarras afiadas de Harry Cody continuam sendo o principal alicerce da identidade musical do duo, enquanto os vocais carismáticos de Zinny Zan transitam com naturalidade entre o hard rock clássico, o dark pop noventista e até nuances industriais. Mixado por Chris Laney, o disco soa contemporâneo sem abrir mão da personalidade vintage que tornou o Shotgun Messiah uma referência cult dentro do gênero. Mais do que uma celebração do passado, Beautiful ‘N Damned funciona como uma releitura madura, melancólica e por vezes experimental da estética sleaze.

A abertura já estabelece um padrão elevado. Em “Sever” as guitarras de Harry Cody surgem afiadas e dinâmicas, enquanto os vocais inicialmente carregados de efeitos criam uma atmosfera moderna sem comprometer a identidade da faixa. A melodia é extremamente contagiante e o refrão, embora altamente acessível, evita cair na previsibilidade radiofônica. Os elementos eletrônicos — teclados, camadas de efeitos e processamento vocal — aparecem de forma inteligente, reforçando a conexão entre o hard rock clássico e uma estética mais contemporânea. Ainda assim, a essência do material remete diretamente ao que Zinny e Harry construíram no final dos anos 80. Uma abertura forte e extremamente eficiente.

Mais pesada e agressiva, “I Am The Shit” aposta em backing vocals inspirados na escola clássica do hard rock oitentista. A linha vocal limpa cria um contraste interessante com a densidade instrumental, enquanto os efeitos aplicados ao refrão adicionam modernidade sem soar artificiais. Há aqui uma autoconfiança quase debochada, reforçada pela própria citação ao Shotgun Messiah, funcionando como uma espécie de manifesto de identidade artística. O equilíbrio entre nostalgia e atualização sonora continua sendo um dos maiores méritos do álbum.

Mais próxima do sleaze tradicional, “Ride Or Die” desacelera ligeiramente o andamento para explorar melhor a dinâmica instrumental. As linhas de baixo ganham destaque, assim como os pequenos fraseados de guitarra espalhados pela composição. O refrão é direto, melódico e extremamente eficiente, enquanto as passagens narradas antes do solo adicionam novas camadas dramáticas à música. O solo de Harry Cody surge perfeitamente encaixado, técnico sem excessos, valorizando a construção melódica em vez do virtuosismo gratuito.

Ja em “Suffer City” a intro conduzida pelo baixo cria uma atmosfera quase cinematográfica antes da entrada dos vocais carregados de efeitos, aproximando a faixa de uma estética industrial/darkwave. O andamento lento transforma a música em algo situado entre uma power ballad sombria e uma balada melancólica influenciada pelo universo dark das décadas de 80 e 90. Zinny Zan entrega uma de suas interpretações mais emocionais do disco, enquanto o solo melancólico reforça o caráter introspectivo da composição. É uma das músicas mais densas e emocionalmente sofisticadas do álbum.

“She Walks With Violence” vem com uma introdução eletrônica sustentada por um baixo distorcido que aprofunda ainda mais a imersão nas referências dark/góticas do disco. Tudo aqui soa propositalmente melancólico, distante do sleaze tradicional que muitos poderiam esperar de Zan/Cody. Mesmo utilizando recursos modernos de produção, a faixa carrega uma aura tipicamente noventista, como se tivesse sido concebida na transição entre o hard rock decadente e o rock alternativo sombrio do início daquela década. O resultado é quase esquizofrênico em sua proposta estética — e justamente por isso tão fascinante.

A abertura de “Damn” com cello imediatamente diferencia a faixa das anteriores antes de Harry Cody recolocar o álbum nos trilhos do sleaze rock mais clássico. Os vocais aparecem mais limpos, o andamento é mais acelerado e o refrão assume uma estrutura tradicional, direta e eficiente. O cello permanece presente durante boa parte da música, adicionando profundidade e dramaticidade ao arranjo sem comprometer o peso das guitarras. O solo segue a cartilha clássica do gênero: objetivo, melódico e perfeitamente conectado à ponte que conduz ao refrão final.

Uma batida hard rock sólida e um riff extremamente característico introduzem “Let’s Be Heroes”. A linha vocal melódica se encaixa com precisão no instrumental, enquanto a guitarra base conduz a música com segurança até um refrão carregado de efeitos que remetem diretamente ao pop rock dos anos 90. A melancolia presente em todo o álbum permanece evidente nos vocais, contrastando com um solo totalmente ancorado na tradição do hard rock clássico. A combinação de elementos aparentemente incompatíveis funciona surpreendentemente bem, tornando a faixa uma das mais complexas do disco em termos de identidade sonora.

A faixa-título, “Beautiful ‘N Damned”, mergulha inicialmente em uma estética pop rock noventista carregada de batidas e efeitos eletrônicos típicos da época. Quando as guitarras assumem o protagonismo, porém, a composição revela um refrão forte, melódico e extremamente eficiente, remetendo diretamente ao hard rock clássico. Existe um equilíbrio muito bem construído entre baixo e guitarras: o primeiro domina os versos com linhas pulsantes, enquanto as guitarras explodem no refrão com enorme impacto melódico.

“Bad Bad Man” é talvez o momento mais experimental do álbum. Com fortes influências de blues e gospel americano, a música começa de maneira quase minimalista antes de se transformar em algo próximo de uma “missa eletrônica”, sustentada por corais e vocais intensamente processados. O andamento extremamente lento cria uma sensação quase hipnótica, tornando a experiência desconfortável em alguns momentos — propositalmente. É uma faixa que rompe completamente com as expectativas tradicionais do hard rock e amplia ainda mais a personalidade artística do disco.

“Tear It All Down” chega encerrando o álbum. Zan/Cody retornam ao sleaze/hard rock mais clássico através de uma introdução explosiva conduzida por guitarras e solos típicos do gênero. Os vocais limpos e melódicos, acompanhados por excelentes backing vocals, conduzem a faixa até um refrão grandioso e extremamente eficiente, sustentado por respostas em coro muito bem construídas. É um encerramento forte, energético e estrategicamente mais acessível após a sequência mais experimental do álbum.

Beautiful ‘N Damned definitivamente não é um disco voltado ao fã conservador do sleaze rock. Trata-se de um trabalho que exige mente aberta, justamente por desafiar constantemente as convenções esperadas do gênero. Embora profundamente conectado às atmosferas das décadas de 80 e 90, o álbum evita os clichês mais óbvios do revivalismo nostálgico, preferindo explorar influências dark, industriais e pop de maneira bastante pessoal.

Mais do que revisitar o passado, Zinny Zan e Harry Cody parecem interessados em reinterpretar artisticamente tudo aquilo que ajudaram a construir décadas atrás. O resultado é um álbum ousado, melancólico, irregular em alguns momentos, mas artisticamente muito mais interessante do que a maioria dos trabalhos atuais associados ao sleaze revival. Para fãs de Shotgun Messiah, rock melódico sombrio e da estética dark/pop dos anos 90, trata-se de uma audição altamente recomendável.

***ENGLISH VERSION***

Formed by Zinny Zan and Harry Cody, the original duo behind cult Swedish hard rock outfit Shotgun Messiah, Zan/Cody return in 2026 with Beautiful ‘N Damned, an album that revives part of the Scandinavian sleaze hard rock essence they helped shape in the late ’80s — but without falling into mere nostalgic self-indulgence. Rather than mechanically recreating the aesthetics of the past, the duo embraces a broader and more daring approach, incorporating electronic elements, dark atmospheres, and modern textures that significantly expand the project’s sonic scope.

Harry Cody’s razor-sharp guitars remain the main pillar of the duo’s musical identity, while Zinny Zan’s charismatic vocals move naturally between classic hard rock, ’90s dark pop, and even industrial nuances. Mixed by Chris Laney, the album sounds contemporary without sacrificing the vintage personality that turned Shotgun Messiah into a cult reference within the genre. More than simply celebrating the past, Beautiful ‘N Damned works as a mature, melancholic, and at times experimental reinterpretation of the sleaze aesthetic.

The opening track immediately establishes a high standard. On “Sever”, Harry Cody’s guitars sound sharp and dynamic, while the effect-laden vocals create a modern atmosphere without compromising the song’s identity. The melody is highly infectious, and the chorus — despite being extremely accessible — never slips into predictable radio-friendly territory. Electronic elements such as keyboards, layered effects, and vocal processing are used intelligently, reinforcing the connection between classic hard rock and a more contemporary aesthetic. Even so, the essence of the material clearly recalls what Zinny and Harry created in the late ’80s. A strong and remarkably effective opener.

Heavier and more aggressive, “I Am The Shit” relies on backing vocals inspired by the classic ’80s hard rock school. The clean vocal lines create an interesting contrast with the dense instrumentation, while the effects applied to the chorus add modernity without sounding artificial. There’s an almost tongue-in-cheek self-confidence running through the track, reinforced by the direct reference to Shotgun Messiah itself, functioning almost like a manifesto of artistic identity. The balance between nostalgia and sonic reinvention remains one of the album’s greatest strengths.

Closer to traditional sleaze, “Ride Or Die” slightly slows the pace in order to better explore its instrumental dynamics. The bass lines become more prominent, as do the subtle guitar phrases scattered throughout the arrangement. The chorus is direct, melodic, and highly effective, while the spoken passages before the solo add new dramatic layers to the song. Harry Cody’s solo fits perfectly within the composition — technical without excess, prioritizing melodic construction over gratuitous virtuosity.

On “Suffer City”, the bass-driven intro creates an almost cinematic atmosphere before the heavily processed vocals enter, bringing the song closer to an industrial/darkwave aesthetic. The slow tempo transforms the track into something suspended between a dark power ballad and a melancholic piece heavily influenced by the dark scene of the ’80s and ’90s. Zinny Zan delivers one of his most emotional performances on the album, while the melancholic solo reinforces the introspective nature of the composition. It stands as one of the album’s densest and emotionally richest moments.

“She Walks With Violence” arrives with an electronic introduction sustained by a distorted bass line, pushing the album even deeper into its dark/gothic references. Everything here feels intentionally melancholic, far removed from the traditional sleaze sound many might expect from Zan/Cody. Even while using modern production techniques, the track carries a distinctly ’90s aura, as though it had been conceived during the transition between decadent hard rock and the darker side of early alternative rock. The result is almost schizophrenic in its aesthetic proposal — and precisely because of that, utterly fascinating.

The cello-driven opening of “Damn” immediately sets the song apart before Harry Cody pulls the album back toward a more classic sleaze rock direction. The vocals are cleaner, the tempo is faster, and the chorus embraces a traditional, direct, and highly effective structure. The cello remains present throughout much of the song, adding depth and dramatic weight to the arrangement without compromising the guitars’ impact. The solo follows the genre’s classic formula: concise, melodic, and perfectly connected to the bridge leading into the final chorus.

A solid hard rock groove and a highly characteristic riff introduce “Let’s Be Heroes”. The melodic vocal line fits the instrumental perfectly, while the rhythm guitar confidently drives the song toward a chorus drenched in effects that strongly recall ’90s pop rock aesthetics. The melancholy that permeates the entire album remains evident in the vocals, contrasting with a solo deeply rooted in classic hard rock tradition. The combination of seemingly incompatible elements works surprisingly well, making this one of the album’s most complex tracks in terms of sonic identity.

The title track, “Beautiful ‘N Damned”, initially dives into a ’90s pop rock aesthetic loaded with electronic beats and effects typical of the era. Once the guitars take center stage, however, the song reveals a strong, melodic, and extremely effective chorus that directly channels classic hard rock. There is a very well-constructed balance between bass and guitars: the former dominates the verses with pulsating lines, while the latter explode during the chorus with massive melodic impact.

“Bad Bad Man” is perhaps the album’s most experimental moment. Strongly influenced by American blues and gospel, the song begins in an almost minimalist fashion before evolving into something close to an “electronic sermon,” sustained by choirs and intensely processed vocals. The extremely slow pacing creates an almost hypnotic sensation, making the experience deliberately uncomfortable at times. It is a track that completely breaks away from traditional hard rock expectations while further expanding the album’s artistic personality.

“Tear It All Down” closes the album by bringing Zan/Cody back to a more classic sleaze/hard rock approach through an explosive introduction driven by guitars and genre-typical solos. The clean, melodic vocals — accompanied by excellent backing vocals — guide the song toward a grandiose and highly effective chorus built around well-crafted gang responses. It’s a strong, energetic, and strategically accessible ending following the album’s more experimental stretch.

Beautiful ‘N Damned is definitely not an album aimed at conservative sleaze rock fans. This is a record that demands an open mind precisely because it constantly challenges the genre’s expected conventions. Although deeply connected to the atmospheres of the ’80s and ’90s, the album avoids the most obvious clichés of nostalgic revivalism, preferring instead to explore dark, industrial, and pop influences in a highly personal way.

More than revisiting the past, Zinny Zan and Harry Cody seem interested in artistically reinterpreting everything they helped build decades ago. The result is a bold, melancholic, occasionally uneven album, yet artistically far more compelling than most contemporary releases associated with the sleaze revival movement. For fans of Shotgun Messiah, dark melodic rock, and the dark/pop aesthetics of the ’90s, this is highly recommended listening.

Tallee Savage

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Cobertura de Show: Graveyard– 08/05/2026 – Basement/CWB

Dia 8 de maio de 2026, sexta-feira chuvosa e fria e pela primeira vez a banda sueca Graveyard pisa em solo curitibano, uma honra. Tendo em vista que da última vez que a banda veio ao Brasil, foi com apresentação única em São Paulo. Mas os fãs não desanimaram e finalmente fomos agraciados com uma perna da turnê, nossos agradecimentos à Xaninho Records. 

Inicialmente estava prevista a abertura dos trabalhos pela competente Bike, banda paulistana que está excursionando com o Graveyard, mas aproximadamente duas semanas antes, foi anunciado também a banda Space Grease, para nossa alegria ser completa. Ambas as bandas trazem uma atmosfera bem setentista, com pitadas de psicodelia e não deixam em nada a desejar em matéria de originalidade. Principalmente os músicos da Bike, que deram show de técnica, e também em especial o baterista da Space Grace que hipnotizou a todos os que chegaram mais cedo, sem falar no carisma e da vibe da vocalista, que nos fez voltarmos no tempo, para uma época mais livre e experimental. 

O evento aconteceu no Basement cultural, casa de shows que vem se concretizando no circuito de shows internacionais e nacionais de médio porte, com público cada vez maior e atrações inéditas na cidade, que antes não encontravam muito espaço nas tradicionais casas de Curitiba. Mas como o local ainda está em constante evolução, algumas melhorias ainda tardam a acontecer, como o calor que faz na área do palco, mas acredito que com o tempo, isso será sanado. 

Outro ponto importante, foi que o público das bandas da noite, principalmente do Graveyard, sentiram falta de um espaço com elevação para poder conferir melhor a performance da banda. Pois nas duas primeiras atrações, o local estava tranquilo, dando uma chance a todos de verem as movimentações do palco. Quando a banda principal subiu ao palco, por volta das 21h30, os fã de baixa estatura dispunham de duas opções: ficar em frente ao palco, com calor insuportável e sendo empurrados constantemente, ou ir para o final da platéia, com o mesmo nivelamento do chão, resultando em zero chances de ver algo. Mas tudo bem, pegue os limões e faça uma limonada “o importante disto é que o evento foi um sucesso e faltaram espaços livres entre o público, sucesso garantido e merecido”. 

Importa também ressaltar que a banda de Gotemburgo não era muito conhecida do grande público brasileirol, apesar da excelente qualidade de suas composições e destaque para o lado artístico da banda, que sempre trabalha com grandes artistas gráficos em seus álbuns, o que os tornam únicos e sempre um prazer em ver uma nova arte by Graveyard. Certa vez tive o prazer de entrevistar o baixista Truls Mörck e em uma determinada pergunta sobre a arte dos álbuns, ele relatou que sempre deu muito valor às capas dos álbuns, pois ainda adolescente, costumava ir às lojas de discos e escolher as melhores artes, Coincidências a parte, durante a apresentação da primeira banda, com a casa ainda bem vazia, eis que surge um Truls na platéia, bem concentrado apreciando o momento, e ninguém o reconheceu (Pelo menos acho eu… .) pois foi só depois de vinte minutos que tomei coragem de trocar algumas palavras com ele, gente como agente.

Mas vamos falar um pouco sobre a apresentação, acredito que o palco pequeno prejudicou um pouco a dinâmica dos músicos, que de tempos em tempos esbarravam nos pedestais, e também, tendo em vista os shows das outras cidades, deu para perceber uma redução considerável na estrutura de palco deles. Mas é a velha máxima, quem é bom mesmo, consegue tocar em qualquer lugar, e desta vez não foi diferente. A atmosfera acolhedora e a proximidade com a platéia conferiu um ar nostálgico e claramente agradou à banda, que deu tudo de si, inclusive muito suor, para um Basement lotado de fãs de boa música. O blues com ares modernos que só eles sabem executar, foi de chorar a alma bluseira que existe dentro de nós.

O quarteto formado em 2006, consegue algo único em seu hard rock, psicodelia e muito blues, trazem a sonoridade setentista que tanto aprendemos a amar, mas com atualização e identidade própria, para não cair no erro do som genérico. Os vocais e guitarras de  Joakim Nilsson são impressionantes e técnicos, mas quando o baixista Truls assume os vocais, também dá uma identidade mais melodiosa às músicas. Para fechar com maestria, Jonatan Larocca-Ramm nas guitarras e Oskar Bergenheim na bateria, fazendo um estrago que não cabia no local, tamanha orgia bluseira, no melhor sentido.

Por fim, o setlist contou com os principais sucessos da banda, com destaque para o álbum “6” lançado em 2023, uma verdadeira obra prima. Inclusive para os que tiverem interesse, pesquisem os videoclipes da banda, são cinematográficos, pura arte. Curitiba agradece imensamente a oportunidade de ter presenciado ao vivo estas três bandas de excelente calibre. Parabéns também à produção, que apesar do local estar cheio, conseguiu uma noite muito pacífica e velutina.




Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Xaninho Discos 



Graveyard – setlist:

Please Don't

Cold Love

No Good, Mr. Holden

Breathe In Breathe Out

No Good, Mr. Holden

From a Hole in the Wall

Ain't Fit to Live Here

Rampant Fields

Bird of Paradise

An Industry of Murder

Hisingen Blues

Goliath

Uncomfortably Numb

Twice

Evil Ways

Hard Times Lovin'

Satan's Finest

The Siren

terça-feira, 19 de maio de 2026

Cobertura de Show: Draconian – 16/05/2026 – Carioca Club/SP

Hoje, o Draconian se destaca como um dos nomes mais importantes do gothic doom metal mundial e chega ao seu oitavo disco em uma fase interessante da carreira. Após dois álbuns com Heike Langhans nos vocais, o mais recente trabalho da banda marca o retorno de Lisa Johansson, vocalista original que havia deixado o grupo em 2012. Atualmente, a banda é formada por Anders Jacobsson nos vocais guturais, Lisa Johansson nos vocais limpos, Johan Ericson e Niklas Nord nas guitarras, Daniel Arvidsson no baixo e Jerry Torstensson na bateria.

Os suecos, junto da cantora Emma Ruth Rundle, estrearam sua turnê conjunta pela América Latina no sábado, 16 de maio, na Carioca Club.

Pela segunda vez no Brasil, a banda já conquista uma casa maior e forma uma legião de fãs que os esperavam ansiosos e curiosos pelo setlist, por se tratar do primeiro show da turnê.

Dessa vez, estavam acompanhados de Emma Ruth Rundle, que, apesar de não ser exatamente do doom metal, tem uma carreira consolidada tanto em seu projeto solo quanto na banda Marriages. Além disso, a artista também escreve poesias e pinta quadros.

Desde o começo da tarde já era possível ver muitos fãs ansiosos na porta do Carioca Club, casa em que o Draconian viria estrear seu novo álbum, In Somnolent Ruin. A banda chegou por volta das 14h para a passagem de som e, apesar do calor que fazia em São Paulo, fez um meet & greet gratuito para os fãs que estavam na porta, conversando e tirando fotos.

Apesar de alguns questionamentos sobre a organização da fila, o meet & greet começou pontualmente às 15h e, às 16h, a fila já contornava o quarteirão da casa. As camisetas deixavam bem claro que, além da banda principal, muitos também aguardavam ansiosamente pela cantora Emma.

As portas se abriram às 16h35, e os fãs foram entrando e se acumulando em frente ao palco enquanto aproveitavam uma ótima playlist do DJ da casa, que envolveu o Carioca ao som de bandas de metal mais sombrio, como Theatre of Tragedy e Paradise Lost.

Pontualmente às 18h, Emma entrou no palco, cumprimentou a plateia, sentou-se em sua cadeira e iniciou seu show apenas com voz e violão. Abrindo com Living With the Black Dog, de seu primeiro álbum, Some Heavy Ocean, era perceptível a curiosidade do público que, em grande parte, ainda não conhecia a carreira solo da cantora. Emma então finalizou sua primeira música, apresentou-se e agradeceu ao público por recebê-la tão bem em sua primeira vez no Brasil.

O estilo que Emma segue é mais próximo do dark folk e post-rock, com um clima introspectivo e sombrio, utilizando muitos elementos de ambiência no timbre da voz e do instrumento. É um estilo que, apesar de dialogar com a banda principal, se distancia bastante do que o público do metal costuma escutar.

Na segunda música, Arms I Know So Well, apesar de enfrentar um problema técnico com o som de seu violão, resolveu tudo rapidamente sozinha e continuou a música de onde havia parado, recebendo muito carinho da plateia. A artista utilizava uma técnica de dedilhado intercalada com palhetadas e afinava o violão diversas vezes para as diferentes músicas.

Seguiu com Citadel e Blooms of Oblivion, que pareceu ser uma das músicas mais aguardadas pelos fãs da cantora. Emma também trouxe ao setlist duas músicas ainda não lançadas, executadas pela primeira vez nesse show.

Quando seguiu para sua próxima música, Darkhorse, faixa de seu quarto álbum, fez uma dedicação: “Essa é para Jennie”, uma fã que lhe entregou um presente antes do show  um colar com um pingente de cavalo, simbolizando a capa do álbum. Inclusive, Emma usava o colar durante a apresentação, mostrando o carinho que tem por seus fãs.

Para finalizar, puxou Marked for Death e foi muito bem recebida pela plateia que estava ali para prestigiar sua estreia no Brasil. A cantora encerrou o show agradecendo ao público e, a pedido do fotógrafo, tirou a clássica foto com os fãs.

Emma fez uma belíssima apresentação, preparando o público presente com uma atmosfera sombria e intimista. Mesmo utilizando apenas voz e violão, entregou um show cheio de detalhes e sensibilidade. No entanto, era perceptível que parte da plateia não se interessou tanto pelo som da cantora, muitas vezes aproveitando o momento para conversar alto, o que interferia na experiência das demais pessoas, já que o som de Emma é mais delicado e qualquer barulho acabava atrapalhando. Apesar disso, Emma se emocionou durante o show, demonstrando gratidão por sua primeira apresentação no Brasil. É uma artista completa, que merece ainda mais espaço  talvez acompanhada de artistas com uma proposta mais próxima da sua.

Após o primeiro show, era notável uma movimentação na pista: alguns fãs de Emma indo para mais longe do palco e os fãs do Draconian se aproximando da grade. As cortinas se abriram às 19h05, dando início ao show da banda principal.

O Draconian iniciou sua apresentação com a estreia ao vivo de I Welcome Thy Arrow, faixa de seu mais recente álbum, In Somnolent Ruin. A plateia vibrava ainda mais com a entrada dos vocalistas Lisa Johansson e Anders Jacobsson. Após cumprimentarem a plateia, trouxeram duas músicas que não eram tocadas ao vivo desde 2019: The Wretched Tide e The Last Hour of Ancient Sunlight. A surpresa pareceu emocionar os fãs, que cantavam junto a plenos pulmões.

“The Wretched Tide” é originalmente gravada por Heike Langhans, antiga vocalista da banda que substituiu Lisa após sua primeira passagem pelo grupo. No entanto, Lisa conquistou todos com sua voz meiga e potente, interpretando a faixa de forma leve e emocionante.

Seguiram com Heavy Lies the Crown, conduzida pelos guitarristas Johan Ericson e Niklas Nord, trazendo um timbre sombrio e pesado logo complementado pela voz doce de Lisa. A música foi extremamente bem recebida pelo público, que acompanhava os vocalistas cantando junto. Durante a faixa, era possível ver Anders sinalizando para a mesa de som algum ajuste técnico, provavelmente relacionado ao retorno de palco.

Em seguida veio A Scenery of Loss, faixa também tocada na primeira passagem da banda pelo país. Anders iniciou a música com uma parte falada e, ao longo da canção, os dois vocalistas alternavam entre os guturais densos de Anders e os vocais agudos e melancólicos de Lisa. 

Anders parecia sentir profundamente a música durante as partes instrumentais, trazendo performances intensas e sensíveis  inclusive colocando a touca de seu sobretudo para criar uma estética ainda mais gótica. Lisa, por sua vez, entregava melancolia e delicadeza em um lindo vestido verde-escuro, além de demonstrar muita simpatia com a plateia, fazendo questão de olhar para as pessoas que estavam ali.

Seguindo para a próxima, as guitarras iniciaram e os fãs já previam o que vinha por aí: The Face of God. Também executada ao vivo pela primeira vez, a música foi apresentada por Anders durante a introdução enquanto a plateia gritava animada e acompanhava o ritmo com palmas.

Na sequência, vieram mais duas faixas do novo álbum também executadas ao vivo pela primeira vez: Asteria Beneath the Tranquil Sea e Cold Heavens. A primeira trouxe um momento mais introspectivo, com Lisa brilhando praticamente sozinha acompanhada apenas por camadas de synths e strings. Foi um dos momentos mais bonitos do show, e a cantora foi ovacionada pela plateia. Logo depois, Cold Heavens trouxe uma energia mais intensa e animada, fazendo o público cantar coros de “hey, hey, hey” e pular junto, emocionado.

Após os aplausos, Anders voltou a animar a plateia enquanto o baixista Daniel Arvidsson caminhava para a frente do palco levantando seu baixo com uma mão enquanto tocava, arrancando reações empolgadas do público. Muitos levantavam os celulares para registrar a performance.

Era a vez de Lustrous Heart, faixa do álbum Under a Godless Veil. No início, Anders pareceu novamente um pouco incomodado com algo relacionado ao microfone ou ao retorno, o que o fez atrasar levemente algumas entradas. Ainda assim, a performance da banda fez com que o público praticamente não percebesse a pequena falha. “Muito obrigado”, agradeceu o músico ao final.

Então chegou outra estreia ao vivo: Misanthrope River. Apesar de não ter levantado tanto a plateia quanto a faixa anterior, talvez por conta da expectativa criada anteriormente, foi um momento mais contemplativo do show.

Em seguida, Anders apresentou Heaven Laid in Tears (Angel’s Lament), faixa carregada de temas luciferianos e atmosfera gótica. O público claramente aguardava pela música e cantava alto junto aos vocalistas. Quase no final da música, fãs entregaram uma bandeira do Brasil para Lisa, que a ergueu durante o último refrão, emocionando a plateia. Após esse grande momento, a banda puxou a também inédita ao vivo Claw Marks on the Throne, seguida por Seasons Apart, cantada em coro pelo público junto de Lisa.

Para encerrar a noite, a banda agradeceu novamente aos fãs e iniciou uma de suas músicas mais conhecidas, The Sethian. Durante a música, Lisa se aproximou ainda mais da plateia, cantando ajoelhada bem próxima da grade.

Após um show carregado de sentimento, entrega e emoção, o Draconian estreou sua turnê latino-americana com uma apresentação completa, trazendo cinco músicas novas e diversos clássicos, deixando no público a sensação de ter assistido a uma performance intensa, fiel e memorável.





Realização: Sellout Tours



Emma Ruth Rundle – setlist:

Living With the Black Dog

Arms I Know So Well

Citadel

Blooms of Oblivion

(Sem nome) – Nova música

(Sem nome) – Nova música

Darkhorse

Marked for Death


Draconian – setlist:

I Welcome Thy Arrow

The Wretched Tide

The Last Hour of Ancient Sunlight

Heavy Lies the Crown

A Scenery of Loss

The Face of God

Asteria Beneath the Tranquil Sea

Cold Heavens

Lustrous Heart

Misanthrope River

Heaven Laid in Tears (Angels' Lament)

Claw Marks on the Throne

Seasons Apart

The Sethian

Dimmu Borgir: A Serpente Troca de Pele (Also In English)

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Por Michelle F. Santana 

Dimmu Borgir é uma das bandas mais importantes e influentes do black metal sinfônico, formada na Noruega em 1993 por Shagrath e Silenoz durante a ascensão da segunda onda do black metal norueguês. Conhecida por unir agressividade extrema, atmosferas sombrias e arranjos orquestrais grandiosos, a banda construiu sua identidade explorando temas ligados à morte, ocultismo, misantropia, espiritualidade e transformação humana, sempre equilibrando brutalidade e sofisticação musical.

Oito anos após "Eonian" (2018), o grupo retorna com Grand Serpent Rising, um álbum que resgata parte da essência mais obscura e agressiva do Dimmu Borgir sem abandonar completamente sua grandiosidade sinfônica.

Produzido novamente por Fredrik Nordström responsável por clássicos como "Puritanical Euphoric Misanthropia" (2001) e "Death Cult Armageddon" (2003) o disco aposta em uma sonoridade mais orgânica, visceral e equilibrada, priorizando riffs, atmosfera e intensidade ao invés de excessos orquestrais constantes. O retorno do produtor Fredrik reforça essa sensação de reconexão com as origens da banda. 

Após anos dividindo opiniões com trabalhos mais experimentais, Dimmu Borgir retorna de forma triunfal em Grand Serpent Rising, um álbum que reafirma a essência da banda, trazendo elementos que marcaram parte de sua trajetória.

Mesmo sendo um disco com 13 faixas, Grand Serpent Rising dificilmente se torna cansativo. Pelo contrário: a consistência das composições mantém a intensidade do começo ao fim. Os riffs estruturados, a orquestração é bem dosada, os vocais impecáveis de Shagrath e a atmosfera sombria fazem do álbum um verdadeiro prato cheio para fãs de black metal sinfônico. 

“Ascent” surge como um dos momentos mais fortes do álbum justamente por equilibrar peso, velocidade e atmosfera, remetendo diretamente ao Dimmu Borgir do início dos anos 2000. A guitarra de Silenoz brilham com precisão nessa faixa.

A faixa “The Qryptfarer” reforça o lado mais obscuro e agressivo do disco, sustentada por riffs marcantes e uma construção quase sufocante em determinados momentos.

“Ulvgjeld & Blodsødel”, cantada na língua nativa da banda, representa um retorno claro às raízes norueguesas do grupo. A faixa carrega uma atmosfera ritualística e sombria que aproxima novamente o Dimmu Borgir de elementos mais tradicionais do black metal, sem perder a grandiosidade característica da banda.

Em “Phantom of the Nemesis” que o álbum encontra seu ponto de equilíbrio mais impressionante. Aqui, o lado sinfônico reaparece, mas sem sufocar os riffs ou a agressividade das guitarras. Pelo contrário: a orquestração com os riffs reforçando a sensação cinematográfica sem transformar a música em um excesso de grandiosidade artificial. A faixa deixa claro que o elemento sinfônico continua sendo parte fundamental da identidade do Dimmu Borgir apenas mais equilibrado e melhor integrado à composição.

O encerramento com a instrumental “Gjoll” é outro grande acerto do álbum. Extremamente atmosférica, a faixa conduz o ouvinte por paisagens sombrias que remetem quase visualmente a florestas frias e obscuras do norte europeu. Os riffs mais arrastados, aliados às camadas ambientais e à construção melancólica da música, criam um fechamento preciso e elegante para o disco, encerrando Grand Serpent Rising com sensação de grandiosidade sem precisar recorrer a excessos.

E talvez seja justamente aí que esteja a força de Grand Serpent Rising: não em tentar reviver o passado, mas em compreender que até mesmo a escuridão evolui. Como uma serpente trocando de pele nas sombras das florestas norueguesas, o Dimmu Borgir retorna mais maduro, agressivo e consciente da própria identidade, transformando peso, melancolia e grandiosidade em um ritual sonoro sombrio e imponente.

***ENGLISH VERSION***

Dimmu Borgir is one of the most important and influential bands in symphonic black metal, formed in Norway in 1993 by Shagrath and Silenoz during the rise of the second wave of Norwegian black metal. Known for uniting extreme aggressiveness, dark atmospheres, and grandiose orchestral arrangements, the band built its identity by exploring themes related to death, occultism, misanthropy, spirituality, and human transformation, always balancing brutality and musical sophistication.

Eight years after "Eonian" (2018), the group returns with Grand Serpent Rising, an album that reclaims part of Dimmu Borgir's darkest and most aggressive essence without completely abandoning its symphonic grandiosity.

Produced once again by Fredrik Nordström—responsible for classics such as "Puritanical Euphoric Misanthropia" (2001) and "Death Cult Armageddon" (2003)—the record bets on a more organic, visceral, and balanced sound, prioritizing riffs, atmosphere, and intensity over constant orchestral excesses. The return of producer Fredrik reinforces this sense of reconnection with the band's origins.

After years of dividing opinions with more experimental works, Dimmu Borgir makes a triumphant return in Grand Serpent Rising, an album that reaffirms the band's essence, bringing back elements that marked part of their trajectory.

Even as a 13-track album, Grand Serpent Rising rarely becomes tiresome. On the contrary: the consistency of the compositions maintains the intensity from start to finish. The structured riffs, well-measured orchestration, Shagrath's flawless vocals, and the dark atmosphere make the album a true feast for symphonic black metal fans.

“Ascent” emerges as one of the album's strongest moments precisely because it balances heaviness, speed, and atmosphere, directly recalling the Dimmu Borgir of the early 2000s. Silenoz's guitars shine with precision on this track.

The track “The Qryptfarer” reinforces the darker and more aggressive side of the record, sustained by striking riffs and an almost suffocating structure at certain points.

“Ulvgjeld & Blodsødel”, sung in the band's native language, represents a clear return to the group's Norwegian roots. The track carries a ritualistic and dark atmosphere that once again brings Dimmu Borgir closer to more traditional elements of black metal, without losing the band's characteristic grandiosity.

It is in “Phantom of the Nemesis” that the album finds its most impressive point of balance. Here, the symphonic side reappears, but without suffocating the riffs or the aggressiveness of the guitars. On the contrary: the orchestration works with the riffs, reinforcing the cinematic feel without turning the music into an excess of artificial grandiosity. The track makes it clear that the symphonic element remains a fundamental part of Dimmu Borgir's identity—just more balanced and better integrated into the composition.

The closing with the instrumental “Gjoll” is another great success of the album. Extremely atmospheric, the track leads the listener through dark landscapes that almost visually evoke the cold, dark forests of Northern Europe. The slower, dragging riffs, combined with ambient layers and the song's melancholic build, create a precise and elegant closing for the record, ending Grand Serpent Rising with a sense of grandiosity without having to resort to excesses.

And perhaps that is precisely where the strength of Grand Serpent Rising lies: not in trying to revive the past, but in understanding that even darkness evolves. Like a serpent shedding its skin in the shadows of the Norwegian forests, Dimmu Borgir returns more mature, aggressive, and aware of its own identity, transforming heaviness, melancholy, and grandiosity into a dark and imposing sonic ritual.



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Cobertura de Show: Bangers Open Air – 26/04/2026 – Memorial da América Latina/SP

O segundo e último dia, domingo, chegou prometendo tanto quanto o primeiro, ou seja, muita gente para prestigiar mais 12 horas dos mais diferentes estilos dentro do metal, além de um sol forte como sempre, sem ameaças de chuva. Para quem chegou mais cedo, felizmente não houve problemas para entrar, conseguindo assistir às primeiras atrações do Ice e do Sun sem maiores transtornos. Ponto para os organizadores que, após as reclamações do dia anterior, decidiram liberar a entrada do público geral mais cedo.

Dessa vez, não consegui ter muito tempo para conferir as feiras e outras atrações que o festival oferece, como a feira geek, de tatuagem e gastronômica, nem mesmo a tão disputada signing session, com destaque para a do Within Temptation, onde a simpática e super receptiva Sharon den Adel fez questão de atender todos que não conseguiram pegar senha.

Outra coisa legal é ver a molecada – que até certa idade não paga – curtindo os shows ao lado de seus pais. E havia muitas presentes, ainda bem, pois é sinal de que o estilo estará mais vivo do que nunca daqui a alguns anos.

Infelizmente, eu, Gabriel Arruda, não consegui ver os piratas do Visions of Atlantis devido a problemas com o transporte público para chegar ao local do festival. Por sorte, consegui pegar os momentos finais dos alemães do Primal Fear, que sempre dão uma aula de como fazer um show de heavy metal. O destaque sempre vai para o excelente Ralf Scheepers, com seus incríveis agudos, e para Thalía Bellazecca, que vem assumindo muito bem o posto de guitarrista ao lado de Magnus Karlsson não só pela sua competência, mas também por ser uma das poucas mulheres negras dentro do estilo. Que, através dela, isso possa mudar. Mais uma vez não tivemos a presença do Matt Sinner devido a um acidente na sua perna. Dirk Schlächter, do Gamma Ray, acabou assumindo a missão. 

NEVERMORE HONRA O LEGADO DE WARREL DANE EM APRESENTAÇÃO MEMORÁVEL

Texto: Gabriel Arruda

Fotos: Edu Lawless

Depois de alguns minutos, era vez de pular para o palco Ice para ver um dos shows mais aguardados desta quarta edição. Jamais imaginaria que o Nevermore fosse retomar as atividades por conta da ausência de Warrel Dane, um de seus fundadores, falecido em 2017, e do baixista James Sheppard, que se aposentou há alguns anos.

Com prós e contras – mais prós, ainda bem – o guitarrista Jeff Loomis, junto com o baterista Van Williams, os únicos da formação original, decidiu voltar com uma nova formação para honrar o legado da banda, que foi muito importante no metal no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Esse retorno também permite conquistar uma nova geração de fãs e se apresentar para aqueles que nunca tiveram a oportunidade de ver a banda no passado, como foi o caso de muitas pessoas que estiveram no Bangers e também no side show, que aconteceu dois dias depois no Carioca Club. Vale lembrar que a banda já havia tido uma experiência em festivais no Brasil, se apresentando no extinto Live 'n Louder, em 2006. Ou seja, sabiam bem o que fazer.

Logo na abertura com Narcosynthesis, que também abre o estupendo Dead Heart in a Dead World (2000), já mostravam que não estavam para brincadeira. A banda estava muito bem ensaiada: Jeff – ao lado do jovem Jack Cattor – despejava riffs esmagadores, enquanto Van Williams, junto ao baixista Semir Özerkan, mantinha a versatilidade rítmica intacta. E, claro, o vocalista Berzan Önen mostrou que vem sendo a escolha certa para assumir o posto do saudoso Warrel, conseguindo emular suas características, mas também apresentando sua própria personalidade.

Por ser um festival, onde os shows são mais curtos e cronometrados, a banda precisou escolher bem as músicas do setlist. Mesmo com pouco tempo, fizeram bonito. Trouxeram músicas do This Godless Endeavor (1999), como My Acid Words e Born, tocadas mais para o final e grandes destaques do show. Até mesmo o pouco lembrado Enemies of Reality (2003) marcou presença com a faixa-título. No entanto, foram as músicas de Dead Heart in a Dead World (2000) que mais empolgaram os fãs: além de Narcosynthesis, vieram The River Dragon Has Come, Inside Four Walls e Engines of Hate, mostrando que o quinteto de Seattle ainda tem muito a oferecer. Sem dúvidas, um dos melhores shows do dia, fazendo valer a pena a espera.

EXPLOSÃO MODERNA SOB O SOL: AMARANTHE ENTREGA ENERGIA E CONEXÃO NO BANGERS OPEN AIR 2026 

Texto: Michelle F. Santana

Fotos: Edu Lawless

Sob um sol escaldante de aproximadamente 30 °C, às 15h em ponto no Hot Stage, o Amaranthe transformou a tarde do segundo dia de Bangers Open Air em um verdadeiro espetáculo de energia e intensidade. Formada em 2008, na Suécia, a banda se consolidou como um dos nomes mais marcantes do metal moderno, apostando em uma proposta pouco convencional: três vocalistas dividindo o protagonismo, Elize Ryd nos vocais limpos, Nils Molin também no limpo e Mikael Sehlin trazendo o peso gutural. Essa combinação, que poderia soar arriscada, ao vivo se mostra extremamente coesa e poderosa. Mesmo sob condições adversas, a banda entregou presença de palco impecável, performance carregada de paixão, conexão e explosão.

Conhecida por transitar entre diferentes vertentes sonoras, Amaranthe encontrou um público completamente entregue, diverso em idade, mas harmônico na intensidade. Era possível ver fãs cantando cada faixa com entusiasmo, transformando o show em uma experiência coletiva. A abertura já veio como um impacto direto, com “Fearless”, “Viral” e “Digital World” levando o público ao limite da euforia. No meio desse turbilhão, “Amaranthine” surgiu como um respiro emocional, delicada, luminosa, arrancando um coro forte e carregado de sentimento. No palco, Elize se mostrou extremamente carinhosa e conectada com o público, enquanto Nils trouxe uma energia visceral e Mikael sustentou o peso com brutalidade precisa, criando um equilíbrio que define a identidade da banda.

Com qualidade sonora consistente e vocais impecáveis, o Amaranthe entregou um show que alterna entre o intenso e o sensível, muito impulsionado pela suavidade e brilho da voz de Elize. Em sua segunda passagem pelo Brasil, a banda deixou claro que não veio para ser passageira. Ao contrário, reforçou sua força dentro do metal contemporâneo, mostrando que o gênero segue evoluindo, conquistando espaço e quebrando barreiras. Foi um show marcante, daqueles que não apenas entretêm, mas ficam, pulsando na memória de quem esteve ali, sob o mesmo sol, vivendo o espetáculo.

WINGER SE DESPEDE DO BRASIL COM SHOW CARREGADO DE CLÁSSICOS

Texto: Gabriel Arruda

Fotos: Edu Lawless

A tarde foi reservada para as bandas de hard rock. Em comparação às edições anteriores, este ano contou com a presença de poucas bandas do gênero, mas que acertaram na escolha, mesmo com essa “minimalização". Infelizmente, não foi possível assistir a todo o show dos suecos do Crazy Lixx, já que o Winger tocou praticamente no mesmo horário, o que gerou muitas reclamações por parte dos fãs que curtem ambas as bandas. Por conta da longa espera e, muito provavelmente, por ser a última chance de vê-los ao vivo no Brasil, muitos optaram pelo Winger, o que já era esperado.

Kip Winger, que dispensa apresentações, junto com os renomados Reb Beach (guitarra), Paul Taylor (teclado/guitarra), Rod Morgenstein (bateria) e o recém-chegado Howie Simon (guitarra), mostraram que a banda resistiu ao tempo, mesmo enfrentando certa rejeição e chacota — vide o caso da animação Beavis and Butt-Head e o famoso episódio do dardo arremessado por Lars Ulrich, baterista do Metallica, na foto de Kip.

Mesmo sem ter ensaiado e com pequenos problemas técnicos no início – que deixaram Kip e Reb visivelmente irritados – a banda conseguiu conquistar não só os fãs devotos, mas também aqueles que não são tão familiarizados com o grupo e passaram a apreciá-lo depois do que viram, contribuindo para tornar o show (repleto de clássicos) ainda melhor. E clássicos é o que não faltou. O setlist foi concentrado no primeiro álbum, homônimo, e no "In the Heart of the Young" (1990), com músicas como Seventeen, Can’t Get Enough, Miles Away, Rainbow in the Rose, Time to Surrender, Headed for a Heartbreak, Easy Come Easy Go e Madalaine. Do Pull (1993), apenas Down Incognito marcou presença, além de Stick the Knife In and Twist, do recente Seven (2023), que abriu o show de forma tímida. Uma pena a banda decidir encerrar as atividades, pois ainda se mostra em plena forma.

SMITH/KOTZEN TRANSFORMA ESTREIA EM UM DOS GRANDES MOMENTOS DO BANGERS OPEN AIR

Texto: Gabriel Arruda

Fotos: Edu Lawless

O penúltimo show do palco Ice foi um dos mais aguardados desde o anúncio, principalmente por se tratar de uma estreia. Estou falando, é claro, do Smith/Kotzen, talvez o melhor duo surgido nos últimos anos. Quem, em sã consciência, imaginaria Ritchie Kotzen ao lado do grande Adrian Smith, do Iron Maiden, criando um projeto que unisse suas influências em comum. O resultado foi um excelente disco de estreia, lançado durante a pandemia, que traz fortes influências do hard rock setentista e do blues, ou seja, um classic rock de primeira, que ao vivo soa ainda melhor. 

O mais interessante é ver que os dois, ao lado dos brasileiros Bruno Valverde (bateria) e Julia Lage (baixo), não seguem um protocolo rígido no palco. É simplesmente uma banda tocando como se estivesse em um ensaio: fazendo jams, trocando sorrisos e olhares de forma espontânea, como em um show intimista. Outro destaque é o lado vocal do Adrian, que surpreende com um timbre muito marcante. Já Bruno e Julia impressionam pela energia e maestria, reforçando ainda mais o peso e a qualidade da banda com toda a experiência que carregam.

O setlist não trouxe muitas surpresas, apesar do mistério criado por Bruno e Julia em entrevista aqui na Road To Metal. Ainda assim, músicas como Life Unchained, Black Light e Blindsided se destacaram logo de cara, ao lado de Taking My Chances e Darkside, que conta com um solo maravilhoso de Adrian. Got a Hold on Me, um hard/blues fulminante, também empolgou o público.  Por mais previsível que fosse, Wasted Years, composição de Adrian no Iron Maiden, marcou presença no set. E, no fim das contas, tinha que ser ela para encerrar um dos melhores shows do dia.

ENTRE NOSTALGIA E INTENSIDADE: WITHIN TEMPTATION TRANSFORMA O BANGERS OPEN AIR 2026 EM UM ESPETÁCULO EMOCIONAL



No segundo dia de festival, pontualmente às 18h25, no Ice Stage do Bangers Open Air 2026, o Within Temptation subiu ao palco e fez mais do que um show, construiu uma experiência emocional que atravessou gerações. Formada em 1995, na Holanda, e liderada pela icônica Sharon den Adel, a banda entregou um setlist profundamente nostálgico, costurando diferentes fases da carreira com precisão e sensibilidade. A abertura com “Go to War”, faixa do álbum Bleed Out (2023) que curiosamente ficou de fora da última passagem pelo Brasil, já indicava o tom da apresentação. Em seguida, clássicos como “The Howling”, “Stand My Ground” e “Bleed Out” incendiou o público, que se entregou a um coro potente, guiado pela voz lírica de Sharon em contraste com o peso das guitarras. Em “Ritual”, Sharon dedicou às mulheres, a banda reforçou sua mensagem de empoderamento, ecoando forte em uma plateia diversa e conectada.

Sharon brilhou com uma presença magnética, com suas danças, conduzindo o público com naturalidade e emoção. Na primeira metade do show, sua voz parecia guardar força, como se preparasse o terreno para o que viria e veio. Após mencionar o calor intenso, mesmo no início da noite, a apresentação ganhou outra dimensão a partir de “In the Middle of the Night” e “Forsaken”, elevando a energia a um nível quase catártico. A inclusão de “Paradise (What About Us?)”, eternizada na colaboração com Tarja Turunen, intensificou ainda mais o clima épico. Era impossível não notar a quantidade de fãs vestindo camisetas da banda pelo festival, um reflexo claro de sua relevância e conexão com o público ao longo dos anos.

Na reta final, o Within Temptation transformou emoção em memória viva com as músicas “Ice Queen” e "Mother Earth", que em um dos momentos mais simbólicos do show, Sharon dedicou “Mother Earth” ao Brasil, destacando o país como uma nação de riquezas naturais imensas, o que deu à música um peso emocional ainda maior ao vivo, trouxe lágrimas e um coro carregado de nostalgia, reafirmando o impacto duradouro da banda. Mais do que técnica impecável, o grupo entrega significado: suas músicas transitam entre o íntimo e o político, denunciando mazelas do mundo enquanto criam um espaço de pertencimento. O resultado foi um espetáculo intenso, diverso e profundamente humano um daqueles momentos que ultrapassam o palco e se instalam na memória de quem esteve presente. Within Temptation não é apenas uma banda; é parte da história afetiva de seus fãs. E, naquela noite, escreveu mais um capítulo inesquecível.


COM UMA REUNIÃO HISTÓRICA, ANGRA ENTREGA O SHOW MAIS SIMBÓLICO DE SUA CARREIRA


Enfim, chegamos ao último show do dia. Normalmente, em festivais grandes como o Bangers, uma banda internacional de grande porte é escolhida como headliner. Para a surpresa de muita gente, o Angra foi o nome escolhido para encerrar essa quarta edição. Mas não seria um show comum, como os fãs estão acostumados a ver. Na ocasião, a organização, junto com o management da banda, idealizou uma reunião histórica: Edu Falaschi (vocal), Kiko Loureiro (guitarra) e Aquiles Priester (bateria) se juntaram aos remanescentes Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli para um encontro que muitos, como eu, achava improvável. Além disso, o show marcou o encerramento de um ciclo e o início de outro, com a saída de Fabio Lione e a entrada de Alírio Netto como seu substituto.

Tudo aconteceu conforme prometido, até mais. O show passeou por todas as fases da banda ao longo de seus 35 anos, com uma produção de palco surpreendente com pirotecnia e uma passarela que aproximava ainda mais os músicos do público. Nesse quesito, foi, sem dúvida, a melhor experiência visual ao vivo da história da banda.

Mesmo com pouco tempo de ensaio, todos entregaram o máximo de seu potencial — com destaque para Bruno, que ensaiou apenas uma vez devido à sua agenda com o projeto Smith/Kotzen. Apesar do nervosismo, Alírio fez uma boa estreia ao cantar músicas da fase do saudoso Andre Matos, começando por Nothing to Say e Angels Cry, demonstrando personalidade e competência. Impressiona não só sua presença de palco — muito influenciada por sua experiência no teatro —, mas também sua coragem. Após muito tempo fora do repertório, “Wuthering Heights” voltou ao set sem depender de convidados, mostrando que ele está pronto para encarar esse desafio.

Era visível a emoção de Alírio durante o show. Vale lembrar que ele quase integrou a banda no passado, após a saída de Edu Falaschi. Esse sentimento ajudou a encerrar o primeiro ato com Carolina IV, do Holy Land (1996), e que não era executada há bastante tempo. Ainda sobre esse primeiro ato, tivemos a última participação de Fabio Lione como vocalista do Angra, interpretando Tides of Changes (Part I & II), Lisbon e Vida Seca. No entanto, sua participação poderia ter sido mais extensa, incluindo mais músicas de sua fase. Fica a impressão de que houve certo desconforto: o volume de seu microfone parecia mais baixo em comparação ao de Alírio e Edu. Ainda assim, o Mago, como é conhecido, mostrou por que é uma força da natureza, superando qualquer adversidade com sua performance consistente. Segundo relatos de amigos que estavam presentes, Fabio não permaneceu no palco durante todo o restante do show, preferindo ficar no meio do público, tirando fotos e aproveitando o momento, retornando apenas no final – o que pode ajudar a explicar essa percepção.

O segundo e principal ato do show foi o mais comemorado da noite. Afinal, depois de dezenove anos, Rafael, Felipe, Kiko, Edu e Aquiles estavam ali juntos novamente. Não importavam deslizes, erros ou mesmo ausências – o que realmente importava era que todos estavam reunidos outra vez, em paz entre si e com os rancores do passado deixados de lado. Foi uma verdadeira reunião, como o próprio espetáculo se propõe, privilegiando os clássicos de Rebirth, que neste ano completa 25 anos. O público pôde celebrar músicas como Nova Era, Millennium Sun, Heroes of Sand, Acid Rain e a faixa-título, além de outros clássicos dessa fase, como Waiting Silence, Ego Painted Grey, a mais pop Bleeding Heart – embalada por um mar de luzes que parecia alcançar até a estação Barra Funda do metrô – e Spread Your Fire.

Já o terceiro e último ato começou de forma emocionante, com uma homenagem ao saudoso Andre Matos. Um vídeo foi exibido mostrando o vocalista na época em que ainda integrava a banda, durante um show no Japão, acompanhado da primeira parte de Silence and Distance, inicialmente executada de forma mecânica, antes de Alírio Netto e Edu Falaschi – que dividiram os vocais –, ao lado de Marcelo Barbosa, Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt – protagonizando a primeira aparição do grupo com três guitarristas, algo muito aguardado pelos fãs –, Felipe Andreoli e Bruno Valverde darem continuidade à música. Ainda houve tempo para a formação Nova Era – como é conhecida o line-up responsável pelos álbuns Rebirth (2001), Temple of Shadows (2004) e Aurora Consurgens (2006) – retornar ao palco em Late Redemption, com Alírio dividindo os vocais novamente com Edu. A célebre Carry On, com todos reunidos no palco, encerrou um show que, mesmo antes de acontecer, já havia entrado para a história, deixando a expectativa de que essa reunião volte a acontecer mais vezes.


O Bangers Open Air vem, ano após ano, se consolidando como um dos principais festivais de música do país. Isso simboliza um sentimento de orgulho, pois o heavy metal segue mostrando seu devido valor em uma terra onde, muitas vezes, estilos mais fúteis recebem maior atenção.

Em especial nesta edição, tanto o público que acompanha o festival desde a primeira realização quanto aqueles que tiveram a oportunidade de vivenciar essa experiência pela primeira vez demonstraram um apoio incomensurável. Afinal, esta quarta edição foi uma das mais difíceis de ser realizada devido a algumas baixas na organização, mas, felizmente, resistiu a todas as adversidades graças ao apoio massivo do público, que compareceu em peso nos dois dias e quase levou o festival ao sold out, algo inédito em relação às edições anteriores.

Agora, resta a expectativa e a ansiedade para 2027, que certamente promete ser novamente uma experiência memorável para os fãs de música pesada.


Realização: Bangers Open Air

Press: Agência Taga


Nevermore – setlist:

Narcosynthesis

Enemies of Reality

The River Dragon Has Come

Beyond Within

Inside Four Walls

Engines of Hate

My Acid Words

Born


Amaranthe – setlist:

Fearless

Viral

Digital World

Damnation Flame

Maximize

Strong

PvP

The Catalyst

Chaos Theory

Amaranthine

The Nexus

Call Out My Name

Archangel

That Song

Drop Dead Cynical


Winger – setlist:

Stick the Knife In and Twist

Seventeen

Can't Get Enuff

Down Incognito

Miles Away

Rainbow in the Rose

Time to Surrender

Headed for a Heartbreak

Easy Come Easy Go

Madalaine


Smith/Kotzen – setlist:

Life Unchained

Black Light

Wraith

Blindsided

Taking My Chances

Darkside

Got a Hold on Me


Within Temptation – setlist:

We Go to War

The Howling

Stand My Ground

Bleed Out

Ritual

In the Middle of the Night

The Heart of Everything

Faster

Wireless

Lost

Forsaken

Paradise (What About Us?)

Don't Pray for Me

Ice Queen

Mother Earth

White Noise

Scars

Running

Wasted Years


Angra – setlist:

Ato I

Nothing to Say

Angels Cry

Tide of Changes - Part I e Part II

Lisbon

Vida seca

Wuthering Heights

Carolina IV


Ato II

Nova Era

Waiting Silence

Millennium Sun

Heroes of Sand

Ego Painted Grey

Bleeding Heart

Spread Your Fire

Acid Rain

Rebirth


Ato III

Silence and Distance

Late Redemption

Carry On