segunda-feira, 6 de julho de 2026

Scheff Tolle Adriaens: Elegância Melódica (Also In English)

Pride And Joy Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Movido por uma paixão genuína pela sonoridade do rock e do pop dos anos 1980, o trio Scheff Tolle Adriaens estreia com Let's Stop The World, um álbum que celebra a elegância melódica da era de ouro do AOR e do West Coast Rock. Reunindo o experiente compositor e produtor Darin Scheff, o multi-instrumentista Christian Tolle e o talentoso músico holandês Morris Adriaens, o projeto combina refinamento instrumental, composições cuidadosamente elaboradas e uma produção moderna que preserva o charme clássico do gênero. As referências a Toto, Chicago, Bryan Adams e Mr. Mister são evidentes, mas jamais soam como mera reprodução; servem como ponto de partida para uma identidade própria e convincente.

O disco abre com Headstone On The Highway, primeiro single do projeto e uma excelente carta de apresentação. A combinação entre guitarras e teclados é construída com precisão cirúrgica, sustentada por uma produção cristalina que valoriza cada detalhe do arranjo. Os backing vocals, cuidadosamente distribuídos, e as sutis mudanças melódicas revelam um nível de sofisticação que estabelece imediatamente o padrão de qualidade do álbum.

Na sequência surge a faixa-título, Let's Stop The World, que traz as participações de Jason Scheff no baixo e Roger Schaffrath na guitarra slide. O resultado é um AOR ainda mais melódico, apoiado em timbres elegantes e uma execução impecável. A composição amplia o alcance emocional do trabalho sem comprometer sua coesão, demonstrando que o trio sabe equilibrar acessibilidade e requinte musical.

Com uma delicada introdução de piano e guitarra, How Do I Get Over You apresenta uma das baladas mais inspiradas do álbum. A construção gradual da música, sustentada por uma base rítmica discreta e extremamente eficiente, permite que a interpretação vocal ocupe o centro das atenções. Embora remeta diretamente às grandes power ballads dos anos 1980, sua produção contemporânea impede qualquer sensação de datada, oferecendo um equilíbrio elegante entre nostalgia e modernidade.

A energia aumenta com Walk Through The Fire, faixa que aproxima o trio do hard rock melódico. Guiada por riffs sólidos e teclados discretos, mas essenciais para enriquecer a textura sonora, a música apresenta um refrão mais direto e uma pegada mais intensa. Ainda assim, mantém intactas as características que definem o álbum: melodias fortes, produção refinada e arranjos cuidadosamente planejados.

Sem perder intensidade, What Love's Done To Us mantém o clima mais pesado e coloca a guitarra em posição de destaque. Os backing vocals remetem imediatamente à escola de Def Leppard, criando camadas vocais que enriquecem o refrão sem sobrecarregar a mixagem. O solo surge de maneira orgânica, funcionando como extensão natural da composição em vez de mero exercício técnico — uma escolha que evidencia a maturidade dos músicos envolvidos.

Introduzida por texturas atmosféricas de teclado, Let's Rise rapidamente evolui para um hard rock clássico, contando com a participação de Lauren Scheff no baixo. A faixa explora uma cadência tipicamente oitentista, enriquecida por guitarras limpas e intervenções de órgão Hammond que adicionam profundidade e personalidade ao arranjo. São detalhes como esses que impedem o álbum de cair na previsibilidade.

Com forte apelo cinematográfico, Rain, também com Lauren Scheff no baixo, soa como trilha sonora ideal para um blockbuster dos anos 1980. A introdução grandiosa conduz naturalmente a um refrão explosivo e extremamente memorável, enquanto o solo mantém o padrão de elegância presente em todo o disco. É uma composição construída para permanecer na memória do ouvinte muito depois de seu término.

A surpreendente introdução de Fly, baseada em piano e bateria antes da entrada gradual dos demais instrumentos, demonstra mais uma vez o cuidado do trio com a dinâmica das composições. A melodia vocal conduz a faixa com segurança, enquanto baixo, teclados e guitarras criam uma atmosfera épica que transita com naturalidade entre o AOR e o hard rock melódico. O solo final funciona como desfecho perfeito para uma das músicas mais completas do álbum.

Encerrando o trabalho, Standing On The Edge Of The World sintetiza todos os elementos apresentados anteriormente. Hard rock, AOR, pop sofisticado e influências da Costa Oeste norte-americana convivem em perfeita harmonia, resultando em uma conclusão elegante e emocionalmente satisfatória. Os teclados, guitarras e harmonias vocais dividem protagonismo de forma equilibrada, reforçando a consistência artística do projeto.

Let's Stop The World não busca reinventar o AOR nem o hard rock melódico. Sua grande virtude está justamente em compreender profundamente a essência desses estilos e reinterpretá-los com competência, sensibilidade e qualidade técnica. Scheff Tolle Adriaens demonstra que ainda há espaço para produzir música inspirada no passado sem abrir mão de personalidade e relevância. Para os admiradores do rock melódico sofisticado, este é um trabalho que merece ser descoberto — e revisitado.

***ENGLISH VERSION***

Driven by a genuine passion for the sound of 1980s rock and pop, Scheff Tolle Adriaens make an impressive debut with Let's Stop The World, an album that celebrates the melodic elegance of the golden age of AOR and West Coast Rock. Bringing together accomplished songwriter and producer Darin Scheff, multi-instrumentalist Christian Tolle, and talented Dutch musician Morris Adriaens, the trio delivers a record that combines instrumental sophistication, meticulously crafted songwriting, and modern production while preserving the timeless appeal of the genre. Influences ranging from Toto and Chicago to Bryan Adams and Mr. Mister are unmistakable, yet they never feel derivative, serving instead as the foundation for a distinctive musical identity.

The album opens with Headstone On The Highway, the band's debut single and an outstanding introduction to what follows. The interplay between guitars and keyboards is executed with remarkable precision, supported by crystal-clear production that allows every musical detail to breathe. Carefully layered backing vocals and subtle melodic shifts immediately establish the album's refined character and impressive level of craftsmanship.

The title track, Let's Stop The World, follows with guest appearances from Jason Scheff on bass and Roger Schaffrath on slide guitar. The result is an even more melodic slice of AOR, built upon elegant tones and flawless performances. The song broadens the album's emotional scope without disrupting its cohesion, demonstrating the trio's ability to balance accessibility with sophisticated songwriting.

Opening with delicate piano and guitar, How Do I Get Over You stands as one of the album's finest ballads. Its gradual development, supported by a restrained yet highly effective rhythm section, allows the vocal performance to take center stage. While clearly inspired by the great power ballads of the 1980s, its polished contemporary production prevents it from sounding dated, striking an elegant balance between nostalgia and modernity.

The pace picks up with Walk Through The Fire, a track that leans more heavily into melodic hard rock. Built around solid guitar riffs and tastefully integrated keyboards, it delivers one of the album's most direct and energetic choruses. Even so, it retains the defining characteristics that run throughout the record: memorable melodies, polished production, and thoughtfully constructed arrangements.

Without losing momentum, What Love's Done To Us continues the heavier approach while placing the guitar firmly in the spotlight. The layered backing vocals immediately evoke the classic Def Leppard sound, adding richness and depth without overwhelming the mix. The guitar solo emerges naturally from the arrangement, functioning as a genuine extension of the composition rather than simply showcasing technical ability—an approach that highlights the maturity of the musicians involved.

Introduced by atmospheric keyboard textures, Let's Rise quickly evolves into classic melodic hard rock and features Lauren Scheff on bass. The song embraces a distinctly '80s rhythmic feel, enhanced by clean guitar passages and tasteful Hammond organ accents that provide additional warmth and personality. It's these subtle production choices that prevent the album from ever becoming predictable.

With unmistakable cinematic appeal, Rain, also featuring Lauren Scheff on bass, feels tailor-made for the soundtrack of an '80s blockbuster. Its grandiose opening naturally gives way to an explosive and instantly memorable chorus, while the restrained yet expressive guitar solo perfectly complements the song's emotional impact. It is one of the album's most immediate and memorable highlights.

The unexpected piano-and-drums introduction of Fly, followed by the gradual entrance of the remaining instruments, once again showcases the trio's attention to musical dynamics. The vocal melody confidently leads the composition while bass, keyboards, and guitars create an epic atmosphere that effortlessly bridges AOR and melodic hard rock. The closing guitar solo provides the perfect conclusion to one of the album's strongest and most fully realized performances.

Closing the record, Standing On The Edge Of The World brings together every element introduced throughout the album. Melodic hard rock, AOR, sophisticated pop, and West Coast influences coexist seamlessly, resulting in a finale that feels both elegant and emotionally rewarding. Keyboards, guitars, and layered vocal harmonies share the spotlight with remarkable balance, reinforcing the artistic consistency of the entire project.

Let's Stop The World does not attempt to reinvent AOR or melodic hard rock. Instead, its greatest strength lies in its deep understanding of what made those genres timeless, reinterpreting their essence with confidence, technical excellence, and genuine musical sensitivity. Scheff Tolle Adriaens prove that it is still possible to honor the past while creating music that feels fresh, authentic, and relevant. For fans of sophisticated melodic rock, this is an album well worth discovering—and revisiting.

Divulgação 

Kickin Valentina: Hard Rock Em Estado Puro (Also In English)

Mighty Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Desde sua formação em 2013, o Kickin Valentina consolidou-se como um dos principais representantes do hard rock de rua contemporâneo, equilibrando a irreverência do sleaze rock com a energia crua do rock'n'roll clássico. Em Anthems From The Underground, o quarteto norte-americano reafirma sua identidade sem abrir mão de pequenas evoluções na composição e na produção. O resultado é um trabalho que presta homenagem às raízes mais underground do gênero, mas que também evidencia uma banda cada vez mais madura e consciente de sua própria sonoridade.

A abertura com "Generation Time Bomb" deixa claro, logo nos primeiros segundos, qual será a proposta do álbum. A energia é explosiva, mas nunca descontrolada. As referências ao sleaze clássico e ao hard rock dos anos 1980 aparecem de maneira natural, sustentadas por uma cozinha precisa, onde baixo e bateria trabalham em perfeita sintonia. As guitarras dialogam constantemente, enquanto D.K. Revelle conduz a faixa com uma melodia vocal forte, enriquecida por backing vocals discretos, porém extremamente eficazes.

Na sequência, "Dance Of Destruction" mantém a intensidade elevada, adicionando doses generosas de punk rock ao DNA sleaze da banda. É uma música claramente construída para funcionar ao vivo, com refrão direto e atitude contagiante. O solo começa de maneira surpreendentemente melódica, contrastando com a agressividade da faixa, mas acaba se encaixando perfeitamente dentro da proposta, demonstrando que o Kickin Valentina sabe equilibrar peso e musicalidade sem comprometer sua identidade.

"Rock N Roll Casualty" desacelera ligeiramente o andamento e aproxima o disco de um hard rock mais tradicional. O refrão ganha maior destaque melódico sem sacrificar a energia construída nas músicas anteriores. Em alguns momentos, especialmente na interpretação vocal, surgem ecos de Alice Cooper, enquanto o trabalho da seção rítmica imediatamente antes do solo demonstra o cuidado da banda com os detalhes dos arranjos.

Com uma introdução mais melódica, "Don't Be Mad" amplia o espectro sonoro do álbum. O baixo assume papel de protagonista durante praticamente toda a faixa, conduzindo a dinâmica da composição. O refrão é um dos mais acessíveis do disco, fortemente apoiado pelos backing vocals, enquanto o solo evita exibicionismos desnecessários e serve exclusivamente à canção. É, até aqui, o momento mais radiofônico do álbum.

"Silver Moon" sintetiza praticamente todas as características apresentadas anteriormente. Alternando naturalmente entre momentos mais sleaze e passagens mais voltadas ao hard rock clássico, a música mantém equilíbrio entre agressividade e melodia. O trabalho vocal de D.K. Revelle merece destaque especial pela naturalidade com que alterna interpretações limpas e rasgadas, enquanto o solo de guitarra acrescenta personalidade sem roubar o protagonismo da composição.

Com peso, groove e uma abordagem mais crua, "Dog Fight" mergulha ainda mais profundamente na tradição do sleaze rock. As influências de Mötley Crüe aparecem de forma evidente, mas jamais soam como mera cópia. A força da música está justamente na simplicidade eficiente: riffs sólidos, poucos backing vocals, excelente interação entre guitarra e seção rítmica e um solo extremamente orgânico, que parece surgir naturalmente da estrutura da composição.

"Good Time Bad Guys" reforça a fórmula vencedora apresentada até aqui. Logo nos primeiros compassos fica evidente o quanto a banda domina sua linguagem musical. O trabalho de guitarras e baixo forma uma base extremamente consistente, sustentada por uma bateria sempre precisa. Os backing vocals adicionam dimensão ao refrão, tornando-o um dos mais memoráveis do álbum e certamente um dos pontos altos para futuras apresentações ao vivo.

Em "Overdose On Cloud 9", o Kickin Valentina deixa transparecer suas principais influências. É possível identificar elementos que remetem a Kiss, Mötley Crüe e Guns N' Roses, mas nunca como exercício de nostalgia ou simples homenagem. A banda absorve essas referências e as transforma em algo próprio, sustentada por uma base instrumental sólida, linhas vocais extremamente melódicas e um solo de guitarra executado com excelente senso de equilíbrio.

A introdução de "Bulletproof Sound" remete imediatamente ao hard rock clássico de Los Angeles, especialmente pelo fraseado inicial da guitarra e pela interpretação vocal. No entanto, rapidamente a música assume personalidade própria através do uso inteligente de efeitos vocais e de uma produção que valoriza cada instrumento no momento exato. A mixagem merece destaque por proporcionar clareza mesmo nos momentos mais intensos do álbum.

Encerrando o trabalho, "Just Like A Movie" funciona como uma síntese de tudo o que o Kickin Valentina apresenta ao longo do disco. Apesar do início mais cadenciado e das guitarras limpas, a energia permanece intacta. O refrão é um dos mais inspirados do álbum, sustentado por uma excelente combinação entre melodia, backing vocals e timbres de guitarra cuidadosamente escolhidos. O resultado é um encerramento forte, memorável e capaz de deixar no ouvinte a sensação de que o álbum poderia facilmente continuar por mais algumas faixas.

Anthems From The Underground talvez não reinvente o hard rock, mas também nunca pretende fazê-lo. Sua força reside justamente na honestidade de sua proposta. O Kickin Valentina compreende perfeitamente a essência do sleaze rock e entrega um álbum direto, pesado, extremamente divertido e carregado de personalidade. Sem recorrer a excessos técnicos ou produções artificiais, a banda aposta em riffs marcantes, refrães memoráveis e uma energia praticamente ininterrupta do primeiro ao último acorde. Para os fãs do hard rock mais cru, sujo e autêntico, este é, sem dúvida, um dos lançamentos mais consistentes da carreira do grupo.


***ENGLISH VERSION***

Since their formation in 2013, Kickin Valentina have established themselves as one of the leading names in contemporary street hard rock, balancing the swagger of sleaze rock with the raw energy of classic rock 'n' roll. With Anthems From The Underground, the American quartet once again reaffirms its identity while allowing subtle refinements in both songwriting and production to shine through. The result is an album that pays tribute to the genre's underground roots while showcasing a band that has become increasingly confident and self-assured in its musical direction.

Opening track "Generation Time Bomb" immediately sets the tone. The energy is explosive without ever feeling chaotic. Classic sleaze and '80s hard rock influences flow naturally throughout the song, supported by a tight rhythm section where bass and drums lock together with remarkable precision. The twin guitars constantly interact, while D.K. Revelle delivers a commanding vocal performance complemented by perfectly restrained backing vocals that enhance the melody without overwhelming it.

"Dance Of Destruction" follows with the same relentless intensity, injecting healthy doses of punk rock into the band's sleaze-driven formula. It is clearly designed with the live stage in mind, driven by an instantly memorable chorus and infectious attitude. The solo begins with an unexpectedly melodic approach that contrasts with the song's aggression before fitting seamlessly into the overall arrangement, demonstrating the band's ability to balance power and melody without sacrificing authenticity.

With "Rock N Roll Casualty", the album shifts toward a more traditional hard rock approach. The pace relaxes slightly, allowing a stronger melodic chorus to emerge while maintaining the momentum established by the opening tracks. D.K. Revelle's vocal delivery occasionally recalls the theatrical style of Alice Cooper, while the interaction between bass and drums leading into the guitar solo highlights the band's attention to detail when constructing its arrangements.

A more melodic introduction signals the arrival of "Don't Be Mad", expanding the album's sonic palette. Here, the bass assumes a leading role throughout much of the composition, guiding its dynamics with confidence. The chorus is among the most accessible on the record, supported by rich backing vocals, while the guitar solo avoids unnecessary flashiness, serving the song rather than competing with it. It stands as the album's most radio-friendly moment without compromising its hard rock credentials.

"Silver Moon" successfully combines virtually every stylistic element introduced thus far. Seamlessly shifting between sleaze rock grit and classic hard rock melodies, the track maintains an impressive balance between aggression and accessibility. D.K. Revelle deserves particular praise for effortlessly moving between clean melodic passages and gritty vocal textures, while the guitar solo adds personality without overshadowing the song itself.

Driven by weight, groove and a deliberately raw approach, "Dog Fight" dives even deeper into the sleaze tradition. The influence of Mötley Crüe is unmistakable, yet the band never falls into imitation. Instead, the song thrives on its straightforward execution: muscular riffs, restrained backing vocals, outstanding chemistry between guitars and rhythm section, and a solo that feels completely organic within the composition.

"Good Time Bad Guys" reinforces the winning formula established throughout the album. Within seconds, the listener is reminded of how comfortably Kickin Valentina inhabit this musical territory. The guitars and bass create a remarkably solid foundation, while the drums consistently provide exactly what each section requires. The well-placed gang vocals elevate the chorus into one of the album's catchiest moments and will undoubtedly become a live favorite.

With "Overdose On Cloud 9", the band's influences become more apparent. Traces of Kiss, Mötley Crüe and Guns N' Roses can all be identified, though never as direct imitation or nostalgic tribute. Instead, Kickin Valentina absorb those influences into their own identity, delivering a track built upon strong instrumental interplay, highly melodic vocal lines and another tastefully executed guitar solo.

The opening guitar work of "Bulletproof Sound" immediately evokes the classic Los Angeles hard rock scene, particularly through its phrasing and vocal approach. However, the song quickly establishes its own character through intelligent vocal effects and a polished production that allows every instrument to occupy its own sonic space. The mix deserves special recognition for maintaining clarity even during the album's heaviest moments.

Closing the album, "Just Like A Movie" serves as a fitting summary of everything Kickin Valentina have delivered up to this point. Although it begins with a more restrained pace and cleaner guitar textures, the intensity never fades. The chorus ranks among the strongest on the record, combining memorable melodies, layered backing vocals and carefully selected guitar tones. It provides a powerful and satisfying conclusion, leaving the listener wishing the album had a few more tracks to offer.

Anthems From The Underground does not attempt to reinvent hard rock, nor does it need to. Its greatest strength lies in its honesty. Kickin Valentina fully understand the essence of sleaze rock and deliver an album that is direct, heavy, energetic and packed with personality. Rather than relying on excessive technicality or overproduced arrangements, the band places its faith in memorable riffs, infectious choruses and an almost relentless sense of momentum from the opening note to the closing chord. For fans of raw, unapologetic hard rock, this stands as one of the strongest releases of the band's career.

Divulgação 

Speed Stroke: Tradição com Fôlego Novo (Also In English)

Scarlet Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Com seu quarto álbum de estúdio, Damage Control, os italianos do Speed Stroke reafirmam sua identidade ao fundir a energia contagiante do sleaze rock escandinavo com a tradição do hard rock oitentista. Produzido por Erik Mårtensson (Eclipse), o disco transforma a tensão entre permanecer fiel às próprias raízes e buscar evolução em um conjunto de canções que privilegia grandes refrães, riffs marcantes e uma produção moderna, cristalina e extremamente eficiente.

A abertura com "Glorious Breakdown" deixa claro que a banda não pretende perder tempo. Impulsionada pela bateria precisa de Dario Capacci (Trick Or Treat), a faixa combina velocidade, peso e melodias memoráveis em uma síntese convincente entre heavy metal tradicional e hard rock. Os dois solos dialogam entre si de forma inteligente, enquanto a breve mudança de andamento adiciona dinâmica antes do retorno explosivo ao tema principal.

O clima muda em "Heart of the City", que aposta em uma abordagem mais cadenciada e coloca baixo e voz em primeiro plano. O timbre encorpado das guitarras, os backing vocals cuidadosamente distribuídos e um solo extremamente elegante reforçam a atmosfera clássica da composição. Em alguns momentos, a influência de AC/DC aparece de forma sutil, mas sem soar derivativa, culminando em um encerramento grandioso.

A faixa-título representa um dos pontos de equilíbrio do álbum. "Damage Control" reúne o peso da abertura e a pegada mais acessível da segunda música, consolidando a assinatura sonora do Speed Stroke. O destaque fica para os arranjos vocais, modernos e muito bem construídos, que acrescentam riqueza à produção sem comprometer a espontaneidade característica do hard rock.

"State of Shock" eleva novamente a intensidade. A introdução com vocais processados cria uma atmosfera quase cinematográfica antes da entrada das guitarras. O refrão talvez seja o mais melódico do álbum até esse momento, enquanto o solo impressiona pela técnica sem abrir mão da musicalidade. É uma faixa que demonstra como a banda consegue equilibrar agressividade e apelo comercial com naturalidade.

A irreverente "Italian Coglione" introduz teclados e novas texturas logo nos primeiros compassos. Apesar do título provocativo e do evidente tom humorístico, a composição mantém a consistência do álbum ao misturar hard rock, sleaze e passagens cantadas em italiano, ampliando a personalidade da banda sem comprometer a coesão do repertório.

Em "In Flames", o Speed Stroke entrega outro exemplar de hard'n'heavy sustentado por um refrão extremamente eficiente. A produção merece destaque: cada instrumento encontra seu espaço na mixagem, valorizando tanto os riffs quanto as linhas vocais. É uma daquelas músicas que parecem ter sido compostas pensando na resposta do público ao vivo.

A grande surpresa do álbum surge em "Blessed By Misery", um blues rock sofisticado que conta com a participação de Giorgia Colleluori (Sinner, IT'sALIE). O contraste entre sua voz e a de Jack acrescenta novas nuances emocionais ao disco, enquanto a instrumentação transita naturalmente entre o blues e o hard rock. O solo de guitarra é um dos mais inspirados do trabalho, e o inesperado encerramento com saxofone oferece um dos momentos mais elegantes de Damage Control.

O jogo de palavras de "All For The Weak End" antecipa outra excelente composição. A influência do Aerosmith aparece principalmente na condução vocal e na construção do refrão, mas o Speed Stroke imprime personalidade suficiente para evitar qualquer sensação de mera homenagem. A produção novamente merece elogios pela clareza e pelo equilíbrio entre todos os elementos da banda.

A penúltima faixa, "Walls”, mantém o alto nível do álbum ao destacar a cozinha formada por baixo e bateria, permitindo que as guitarras trabalhem com maior liberdade. O refrão foge um pouco da estrutura adotada nas músicas anteriores, trazendo variedade ao repertório sem romper sua unidade. O solo, extremamente melódico, figura entre os melhores momentos guitarrísticos do disco.

Encerrando o trabalho, "Chain Reaction" assume definitivamente a faceta mais sleaze da banda. Os efeitos aplicados aos vocais na introdução, os coros abundantes e o discreto piano ao fundo acrescentam novas camadas à composição, que fecha o álbum de forma leve, divertida e extremamente contagiante.

Mais do que uma coleção de boas músicas, Damage Control evidencia uma banda plenamente consciente de sua identidade. O Speed Stroke evita reinventar o gênero, mas demonstra enorme competência ao atualizá-lo através de uma produção contemporânea, arranjos vocais sofisticados e um repertório consistente do início ao fim. Em um cenário onde muitos grupos apostam apenas na nostalgia, os italianos conseguem prestar reverência aos grandes nomes do hard rock sem abrir mão de personalidade própria.

Se algumas composições seguem estruturas bastante familiares, a qualidade da execução, a força dos refrães e o refinamento da produção compensam amplamente qualquer previsibilidade. Damage Control confirma o Speed Stroke como um dos nomes mais sólidos da nova geração do hard rock europeu e certamente agradará tanto aos fãs do sleaze escandinavo quanto aos admiradores do hard rock clássico dos anos 1980.

***ENGLISH VERSION***

With their fourth studio album, Damage Control, Italy's Speed Stroke further solidify their identity by seamlessly blending the swagger of Scandinavian sleaze rock with the timeless appeal of classic '80s hard rock. Produced by Erik Mårtensson (Eclipse), the record transforms the tension between staying true to one's roots and embracing evolution into a collection of infectious songs driven by massive hooks, explosive riffs and a polished, contemporary production.

Opening track "Glorious Breakdown" wastes no time in setting the tone. Powered by Dario Capacci's (Trick Or Treat) thunderous drumming, the song combines the urgency of traditional heavy metal with the groove of melodic hard rock. Layered gang vocals, a memorable chorus and a pair of complementary guitar solos inject excitement throughout, while a brief tempo shift adds extra dynamics before launching back into full-speed attack.

The mood shifts with "Heart of the City", a more restrained, groove-oriented number where the bass lines and lead vocals take center stage. Rich guitar tones, carefully arranged backing vocals and an elegant solo reinforce the song's classic hard rock character. There are subtle hints of AC/DC in its swagger, yet the band never crosses the line into imitation, delivering instead a track that feels both familiar and refreshingly genuine.

The title track finds the perfect middle ground between the aggression of the opener and the melodic sensibilities of its predecessor. "Damage Control" encapsulates the band's musical identity, balancing driving rhythms with memorable vocal arrangements. The layered harmonies deserve particular praise, adding depth and modernity without sacrificing the raw energy that defines the band's sound.

"State of Shock" immediately raises the intensity once again. Processed vocals create an atmospheric introduction before the guitars explode into one of the album's strongest riffs. Its chorus is arguably the most melodic up to this point, while the technically impressive yet tasteful guitar solo proves that Speed Stroke understand that virtuosity works best when it serves the song rather than overshadowing it.

The tongue-in-cheek "Italian Coglione" introduces keyboards and fresh sonic textures, bringing a welcome change of pace. Despite its provocative title and humorous approach, the track remains firmly rooted in the band's formula, cleverly mixing hard rock, sleaze and lyrics in Italian without disrupting the album's overall cohesion.

"In Flames" delivers another hard-hitting anthem built around muscular riffs and an irresistibly catchy chorus. Once again, the production stands out, allowing every instrument to breathe naturally within the mix. It's easy to imagine this becoming one of the album's live highlights, with its infectious energy perfectly suited for audience participation.

Perhaps the biggest surprise comes with "Blessed By Misery", a sophisticated blues-rock number featuring Giorgia Colleluori (Sinner, IT'sALIE). Her vocal chemistry with Jack introduces an entirely new emotional dimension to the album. While the arrangement gradually incorporates the band's trademark hard rock elements, it never loses its bluesy soul. A beautifully crafted guitar solo and an unexpected saxophone outro make this one of the record's most memorable moments.

The cleverly titled "All For The Weak End" offers another standout performance. Drawing subtle inspiration from Aerosmith, particularly in its vocal phrasing and chorus construction, the song nevertheless retains enough originality to establish its own identity. Once again, the impeccable production allows every musical layer to shine, highlighting the band's attention to detail.

The penultimate track, ”Walls”, continues the album's impressive consistency by placing greater emphasis on the rhythm section, giving the guitars more room to explore melodic textures. Its chorus deviates slightly from the established formula, adding welcome variety without compromising the record's cohesion. The melodic guitar solo ranks among the album's finest instrumental performances.

Closing track "Chain Reaction" fully embraces the band's sleaze rock influences. Processed vocals, gang choruses and subtle piano embellishments enrich an already infectious composition, providing a fun, energetic finale that perfectly encapsulates the album's spirit.

Rather than attempting to reinvent hard rock, Damage Control succeeds by refining and modernizing its classic ingredients. Speed Stroke demonstrate remarkable confidence in their songwriting, combining memorable hooks, tasteful musicianship and outstanding production into an album that feels authentic rather than nostalgic.

While some songs naturally rely on familiar structures, the strength of the performances, the consistently high-quality songwriting and Erik Mårtensson's immaculate production ensure that the album never loses momentum. Damage Control confirms Speed Stroke as one of the most promising contemporary European hard rock acts, delivering a record that should appeal equally to fans of Scandinavian sleaze, classic '80s hard rock and melodic heavy music alike.

Veronica Anacleti

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Issa: Melodia em Alta (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Após consolidar seu nome como uma das vozes mais consistentes do AOR contemporâneo, a norueguesa Issa Oversveen retorna com Fire And Ice, um álbum que reafirma sua posição de destaque dentro do melodic rock europeu. O trabalho ganha relevância ao evidenciar o quanto sua proposta permanece atual: uma combinação cuidadosamente equilibrada entre a grandiosidade melódica dos anos 1980 e uma produção moderna, limpa e cinematográfica.

Com todas as composições assinadas pelos irmãos Tom Martin e James Martin, "Fire And Ice" não tenta reinventar o gênero. Seu objetivo é outro: aperfeiçoar uma fórmula clássica através de arranjos refinados, refrães memoráveis e uma atmosfera que transita naturalmente entre o AOR tradicional, o hard rock melódico e discretas influências synthwave.

A abertura com "The Call Of Love" estabelece imediatamente as coordenadas do álbum. Teclados envolventes, guitarras elegantes e uma produção cristalina criam o cenário ideal para que Issa apresente uma interpretação segura e carregada de personalidade. É uma faixa que não surpreende pela inovação, mas pela eficiência com que executa cada elemento característico do gênero.

"Stranded" eleva a intensidade logo em seguida. Sustentada por uma linha de baixo particularmente inspirada, a música combina peso e melodia de forma exemplar. O refrão surge com força avassaladora, cercado por camadas de teclados e backing vocals que ampliam sua dimensão radiofônica. É uma daquelas composições construídas para permanecer na memória após poucas audições.

A faixa-título mantém o alto nível. "Fire And Ice" aposta numa arquitetura musical mais elaborada do que seu refrão aparentemente simples sugere. O trabalho de teclados conduz a narrativa da música, enquanto guitarras e seção rítmica oferecem a sustentação necessária para que a voz de Issa brilhe. O resultado é um dos momentos mais sofisticados do álbum.

Com "Sea Of Desire", o disco desacelera para apresentar sua grande power ballad. Piano, guitarras emotivas e uma interpretação vocal particularmente sensível criam uma atmosfera que remete diretamente à era dourada das baladas do melodic rock. A música evita excessos sentimentais graças à elegância dos arranjos e ao equilíbrio entre emoção e contenção.

"All Or Nothing" devolve o protagonismo às guitarras. Mais direta e orientada ao hard rock, a faixa aposta em riffs robustos e um refrão menos açucarado que a média do álbum. A presença marcante do baixo e o excelente solo central reforçam seu apelo mais roqueiro.

"The Shadow Of Night" mergulha sem reservas na estética oitentista. Os timbres clássicos de sintetizadores são utilizados com inteligência, funcionando como parte essencial da composição em vez de simples elemento nostálgico. A combinação entre teclados exuberantes, guitarras melódicas e uma interpretação vocal segura transforma a música em mais um dos pontos altos do trabalho.

"Bullet On The Road" apresenta uma das composições mais elegantes do repertório. Sua introdução quase épica conduz a uma construção gradual que culmina num refrão contagiante e emocionalmente eficiente. É uma faixa que demonstra a maturidade dos compositores ao equilibrar acessibilidade e sofisticação.

Se existe uma música capaz de sintetizar a proposta estética de Fire And Ice, essa música é "Pay The Price". A influência dos anos 1980 aparece em cada detalhe: dos sintetizadores exuberantes aos riffs cristalinos e ao refrão monumental. Ainda assim, a produção moderna impede que a faixa soe como mera reprodução do passado. É nostalgia reinterpretada com competência.

"One Step To Paradise" aposta numa abordagem mais simples e direta. Sem grandes floreios, a composição cresce gradualmente até atingir um refrão eficiente e envolvente. Sua força está justamente na objetividade e na capacidade de manter a dinâmica do álbum sem comprometer sua coesão.

A influência synthwave retorna em "Running From The Night". Os teclados assumem papel de destaque ao lado das guitarras, criando uma atmosfera que remete tanto ao AOR clássico quanto às releituras modernas do gênero. O resultado é uma faixa vibrante e extremamente agradável.

Encerrando o disco, "The Waiting Game" funciona como uma síntese de tudo o que foi apresentado anteriormente. Não oferece grandes surpresas, mas reafirma as qualidades que sustentam o álbum: melodias fortes, refrães marcantes e uma produção impecável. É um fechamento seguro e coerente para uma obra construída com atenção aos detalhes.

Fire And Ice não busca revolucionar o melodic rock nem romper fronteiras estilísticas. Sua força reside justamente na compreensão profunda dos códigos do gênero e na capacidade de executá-los com excelência. A química entre as composições dos irmãos Martin e a interpretação carismática de Issa produz um álbum extremamente consistente, repleto de refrões memoráveis e arranjos sofisticados.

Mais do que uma simples celebração da nostalgia oitentista, Fire And Ice demonstra como o AOR ainda pode soar relevante quando executado com talento, bom gosto e convicção. Um trabalho que confirma Issa como uma das principais representantes da atual cena melódica europeia e que merece ser redescoberto por uma nova geração de ouvintes.

***ENGLISH VERSION***

Having firmly established herself as one of the most consistent voices in contemporary AOR, Norwegian singer Issa Oversveen returns with Fire And Ice, an album that further cements her standing within the European melodic rock scene. The record remains remarkably relevant, showcasing a carefully balanced blend of 1980s melodic grandeur and a modern, polished, cinematic production.

With every song penned by brothers Tom and James Martin, Fire And Ice does not seek to reinvent the genre. Instead, its mission is to refine a classic formula through sophisticated arrangements, memorable hooks, and an atmosphere that effortlessly moves between traditional AOR, melodic hard rock, and subtle synthwave influences.

Opening track "The Call Of Love" immediately establishes the album’s sonic identity. Lush keyboards, elegant guitar work, and crystal-clear production provide the perfect backdrop for Issa to deliver a confident and characterful vocal performance. It may not surprise through innovation, but it excels through the sheer effectiveness with which it executes every hallmark of the genre.

"Stranded" raises the intensity from the outset. Driven by a particularly inspired bass line, the song masterfully balances weight and melody. Its towering chorus arrives with undeniable force, surrounded by layers of keyboards and backing vocals that enhance its radio-friendly appeal. This is the kind of song designed to linger in the listener’s mind long after the first spin.

The title track maintains the album’s high standards. "Fire And Ice" reveals a more sophisticated musical architecture than its seemingly straightforward chorus initially suggests. Rich keyboard textures guide the song’s narrative, while the guitars and rhythm section provide a solid foundation for Issa’s voice to shine. The result is one of the album’s most accomplished moments.

With "Sea Of Desire," the pace slows to deliver the record’s quintessential power ballad. Piano, emotive guitar work, and an especially heartfelt vocal performance create an atmosphere that recalls the golden era of melodic rock balladry. The song avoids descending into sentimentality thanks to the elegance of its arrangements and its careful balance between emotion and restraint.

"All Or Nothing" places the spotlight firmly back on the guitars. More direct and hard rock-oriented than much of the album, the track relies on muscular riffs and a chorus that is less sugary than the record’s average. A prominent bass performance and an excellent central guitar solo further enhance its rock credentials.

"The Shadow Of Night" embraces the aesthetics of the 1980s without hesitation. Classic synthesizer tones are employed intelligently, functioning as an essential component of the composition rather than mere nostalgic decoration. The combination of lush keyboards, melodic guitars, and another assured vocal performance makes this one of the album’s standout tracks.

"Bullet On The Road" ranks among the most elegant compositions in the set. Its near-epic introduction leads into a gradual build-up that culminates in a contagious and emotionally resonant chorus. It is a song that highlights the composers’ maturity, balancing accessibility with genuine sophistication.

If there is one track capable of encapsulating the album’s overall aesthetic, it is "Pay The Price." The influence of the 1980s is present in every detail, from the expansive synthesizers and crystalline guitar tones to its monumental chorus. Yet the contemporary production prevents the song from feeling like a mere recreation of the past. Instead, it is nostalgia reinterpreted with skill and conviction.

"One Step To Paradise" adopts a simpler and more direct approach. Without unnecessary embellishments, the song gradually builds toward an effective and engaging chorus. Its strength lies in its straightforwardness and its ability to maintain the album’s momentum without compromising overall cohesion.

The synthwave influence returns on "Running From The Night." Keyboards take center stage alongside the guitars, creating an atmosphere that draws equally from classic AOR and modern reinterpretations of the genre. The result is a vibrant and immensely enjoyable track.

Closing the album, "The Waiting Game" serves as a summary of everything that has come before. It offers few surprises, yet successfully reinforces the qualities that define the record: strong melodies, memorable choruses, and impeccable production. It is a safe but satisfying conclusion to an album crafted with great attention to detail.

Fire And Ice does not seek to revolutionize melodic rock or push stylistic boundaries. Its strength lies in its profound understanding of the genre’s core principles and its ability to execute them with exceptional confidence. The chemistry between the Martin brothers’ songwriting and Issa’s charismatic vocal delivery results in a remarkably consistent album filled with memorable hooks and sophisticated arrangements.

More than a simple celebration of 1980s nostalgia, Fire And Ice demonstrates how AOR can still sound fresh and relevant when performed with talent, taste, and conviction. It is an album that confirms Issa’s status as one of the leading figures in today’s European melodic rock scene and one that deserves to be rediscovered by a new generation of listeners.

Alison Martin

quarta-feira, 1 de julho de 2026

De fã a ídolo: a trajetória de Chris Young no Crashdïet

Baixista detalha seu caminho até fazer parte da banda, o retorno às raízes sleaze em Art of Chaos, a estreia no Sweden Rock, as expectativas para os shows no Brasil em janeiro e muito mais

Por Thais Navarro (@_thais_navarro)

Há quase vinte anos, Chris Young já era fã de Crashdïet, gravando covers de guitarra no quarto e administrando uma comunidade de fãs da banda no Orkut. Hoje, ele é o baixista oficial do grupo sueco.

Nesta entrevista, Chris conta esse caminho em detalhes, desde o primeiro contato com a banda até a estreia no Sweden Rock Festival. A conversa também passa pelo momento atual do Crashdïet: o retorno às raízes sleaze no álbum Art of Chaos, a aproximação com os fãs nas redes sociais e a expectativa para os shows da banda no Brasil, entre outros temas.

Chris também fala sobre o Midnight Danger, seu projeto solo de synthwave, e os planos para os próximos anos.

Confira a conversa completa abaixo!

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PARTE 1 — A trajetória até entrar na banda

Conte um pouco da sua história como fã do Crashdïet até chegar e fazer parte da banda.

CHRIS: É uma história que começa há muito tempo já. São praticamente duas décadas desde que eu conheci a banda, que foi quando aconteceu a tragédia com o Dave Lepard. Eu vi uma matéria falando sobre a banda e sobre esse acontecimento. Nunca tinha escutado falar do Crashdïet antes. E a partir dessa matéria eu resolvi procurar, queria ver como era o som daqueles caras.

Eu já tinha YouTube na época. Procurei pelo nome da banda só, e na época acho que o primeiro clipe que apareceu foi Riot in Everyone. Na hora que eu vi aquele clipe, achei fantástico, porque pensei que não existiam bandas novas fazendo algo desse estilo glam que remete aos anos 80.

Me apaixonei na hora e comecei a procurar outras coisas e outros clipes. Foi aí que conheci o álbum Rest in Sleaze e fiquei encantado. E claro, foi uma tragédia o Dave Lepard ter falecido tão jovem, e naquele momento a banda nem tinha planos de continuar. Então pensei: agora que surgiu uma banda nova que faz um som que eu acho massa, com visual que eu acho massa, já acabou, infelizmente.

Mas eles decidiram continuar, e virou uma febre. Lembro que no Brasil mesmo foi uma grande febre quando o Crashdïet voltou depois e lançou o The Unattractive Revolution em 2007, e aí teve o show em 2008. Era uma cena que estava muito legal, a galera realmente curtia bastante a banda. Eu fazia parte dessa cena. Fui no show em São Paulo em 2008, e naquela época eu escutava praticamente só Crashdïet. Crashdïet era o que estava no meu MP3 player na época.

E aí, depois, aconteceu de novo: o Olli Herman saiu da banda e vieram com o Generation Wild. Nessa época, entre esses dois álbuns, eu comecei a gravar alguns vídeos tocando covers de Crashdïet na guitarra. Um dos motivos para eu fazer isso foi que eu não conseguia imaginar começar uma banda nesse estilo no Brasil, em Porto Alegre. Não conhecia pessoas que estariam dispostas a fazer algo desse gênero, principalmente por causa do visual. Eu já tinha uma banda de metal melódico, já sabia como era difícil ter uma banda. Sabia dessa dificuldade, e não conseguia imaginar encontrar pessoas dispostas a trabalhar nesse gênero.

Mas eu queria tocar isso, queria tocar alguma coisa nesse estilo. Então comecei a gravar alguns covers no quarto mesmo e postei no YouTube. Na época o YouTube não era monetizado, ninguém queria ser influencer, ninguém queria viralizar, não se falava dessa forma, não tinha esse objetivo. Coloquei os vídeos porque eu gostava mesmo, queria registrar. Era para mim, ou para de repente mostrar para alguns amigos. A gente também tinha uma comunidade no Orkut sobre o Crashdïet, que foi muito importante para o crescimento da banda no Brasil, e compartilhava esses vídeos com a galera lá que curtia a banda. Comecei gravando um, mas depois fui gravando mais alguns, durante um bom tempo — praticamente todas as músicas até o Savage Playground.

Na turnê do Generation Wild, quando a banda foi pro Brasil, ainda tinha uma hype muito grande, o show foi lotado, acho que foi sold-out, assim como o de 2008. Nessa época rolou uma campanha da galera da comunidade do Orkut mandando e-mails para a banda, pedindo para que eu tocasse uma música com eles. Isso durou, acho, o mês anterior ao show ou dois meses antes, mas eles nunca responderam ninguém, nunca me mandaram e-mail, nunca falaram nada.

Daí eu fui pro show normalmente — já iria de qualquer forma —, saí de Porto Alegre, fui para São Paulo, fui no show do Rio de Janeiro também. No final da história, eu cheguei no dia do show e pensei: "vou pra frente do hotel, parece que eles estão nesse hotel aqui." Não me lembro como fiquei sabendo, mas era pertinho do Inferno Club, em São Paulo. Fiquei esperando ali na frente porque queria tirar uma foto, dar um oi.

Aí o tour manager da época chegou e me perguntou: "Você que é o Chris Young?" Eu disse que sim, e ele falou: "Então vem comigo aqui." Na hora eu gelei: "Caramba, o que é isso?" Entrei, já estava o Eric Young ali, ele me cumprimentou, já sabia quem eu era. E ele falou que eu ia tocar uma música com eles — eles tinham curtido a ideia, ouvido os meus covers. Eu não acreditava que aquilo ia acontecer.

Foi muito legal, muito massa. Tinha um casal de amigos com a gente lá e eles também ficaram sem acreditar. Depois saí dali e fui pro Inferno Club, a gente se encontrou no backstage e combinamos tudo - eles foram muito legais comigo. E aí rolou! Eu toquei Tikket com eles no show, foi muito massa mesmo. Eu nem imaginava que aquilo tinha acontecido de verdade.

A partir dali a gente acabou mantendo a amizade, e eu ajudei bastante em questão de merchandise para o Brasil. Então acabei mantendo bastante contato com eles por causa disso.

Depois eu vim para a Suécia em 2012, de férias, inclusive assisti o Crashdïet com o Mötley Crüe e o Hardcore Superstar. A gente se encontrou de novo, e quando a banda foi pro Brasil outras vezes a gente sempre se encontrava — eu ajudava em algumas coisas dos shows. Sempre foi muito bacana.

Depois eu me mudei para a Suécia em 2015 — aí o Simon Cruz já tinha saído da banda — e a gente permaneceu amigo por esse tempo todo. Quando eu me mudei pra cá, eles também estavam com esse problema, o Simon não estava mais na banda, precisavam de um vocalista, e a cena toda estava meio em baixa por aqui. Eu queria encontrar alguma banda aqui também, e foi muito difícil — não foi só o Crashdïet que teve a baixa e ficou sem o Simon, várias bandas pararam de tocar nessa época.

Comecei minha banda solo, meu projeto solo, o Midnight Danger, que é dentro do synthwave. E a coisa foi funcionando muito bem, o que eu nem imaginava. Foi um projeto que comecei totalmente por hobby, por gostar de sintetizadores e trilha sonora dos anos 80. Pensei: "vou fazer isso por hobby enquanto não encontro uma banda." E no final se tornou meu projeto principal.

Até que eu tive contato com o pessoal da Lipz, que estava lançando o Scaryman em 2018 e precisava de um baixista. Entrei em contato com eles e vi que estavam voltando para um estilo mais sleaze/glam. Entrei na banda, a gente fez bastante coisa junto. Foi minha primeira experiência como baixista. Eu entrei quando o álbum já estava pronto; fizemos shows na Suécia e fora, e gravamos juntos o álbum Changing the Melody. No final, por questão de prioridades, acabei saindo da Lipz, numa época em que o Midnight Danger estava prestes a sair em turnês.

Até que, no ano passado, eu recebi uma ligação do Martin Sweet. O que aconteceu foi que a banda tinha um show na Alemanha num sábado — ele me ligou numa quarta-feira — e o Peter London teve um problema de saúde. Ele estava sem condição de fazer aquele show, e a banda ficou pensando: "e agora, o que a gente faz? A gente cancela?" Mas com tantosaltos e baixos na própria carreira do Crashdïet, era muito chato ter que cancelar mais um show — claro, mais uma tragédia, o Peter London no hospital, sem poder fazer o show, mas pra eles foi péssimo ter que lidar com mais um cancelamento, que já tinha acontecido por diversos motivos durante os anos.

Ele me perguntou se eu teria condições de substituir o Peter nesse show de sábado, na Alemanha. Além da amizade, eu sempre fui muito fã da banda, então topei. Eles já tinham me chamado outras vezes. No ano anterior, o próprio Peter me ligou pedindo para substituí-lo. Só que, no dia seguinte daquela ligação, eu estava saindo em turnê com o Midnight Danger e não pude. Outra vez anterior eu topei fazer, mas eles optaram por cancelar os shows por questões de logística.

Então, eu já tinha sido chamado antes. Dessa vez, quando o Martin me chamou, eu falei: "Tô dentro, pode contar comigo." Perguntei: "O show é sábado, é? Quantas músicas?" — "12 músicas." Tudo bem, ele mandou o setlist. Eu já conhecia boa parte das músicas, sabia tocar por causa dos covers de guitarra, mas era na guitarra, não no baixo. Só que ele falou:"a gente vai ter um ensaio para esse show, e é hoje à noite."

Eram 11 da manhã. Peguei o baixo, peguei as músicas, comecei a ensaiar como me lembrava delas na guitarra, mas já transcrevendo para o baixo. Pensei: "já sei a base das músicas, agora vamos ver como elas funcionam ao vivo, como é realmente no baixo." Em questão de cinco horas passei as 12 músicas e vi mais ou menos como funcionava. Pensei: "vamos conseguir ensaiar hoje à noite, e tenho mais três dias até o show para alinhar isso."

Fui pro ensaio, e eles estavam numa bad vibe, o que eu entendo perfeitamente. Mas eu estava pilhado, querendo fazer a coisa acontecer. Eu voltei pra casa empolgado, alinhei o que precisava nos dias seguintes. Fomos pra Alemanha, fizemos o show no festival, e foi um show animal, muito massa, muito legal. Notei que a vibe deles já tinha mudado um pouco — eles estavam chateados com a situação, mas, no momento que fizemos esse anúncio oficial (de que eu substituiria o Peter), o ânimo mudou; fomos fazer o show todo mundo empolgado, e a gente se deu muito bem.

A gente já tinha essa amizade há muitos anos, mas com o John Elliot foi a primeira vez que tive de fato esse tipo de experiência — o ensaio e o show foram a primeira vez que encontrei ele pessoalmente. O Michael Sweet eu já tinha encontrado algumas outras vezes; ele até fez uma participação em um vídeo do Midnight Danger, mas a gente nunca tinha saído pra tomar uma cerveja ou algo assim. No final a gente se deu muito bem, foi muito bacana a viagem toda. Fizemos um show animal, e voltei pra casa realizado.

Aconteceu que, dali a cinco dias, tinha o show de aniversário do Crashdïet, de 20 anos do Rest in Sleaze. E eu já ia tocar nesse show como abertura, com o Midnight Danger. Eles me falaram, nessa viagem e logo que voltamos, nos primeiros dias: "o Peter não está bem mesmo, talvez ele tenha que passar mais um tempo no hospital. Talvez a gente precise da sua ajuda nesse show, porque senão é isso ou cancelar o evento." E para eles teria sido uma tragédia muito grande cancelar esse show — seria mais um cancelamento dentre tantos que já aconteceram por diversos motivos, mas de um show extremamente importante. O show estava sold-out, e tinham pessoas vindo de todos os lugares — do Japão, do Brasil, dos Estados Unidos, de vários lugares da Europa. Cinco dias antes, cancelar o show significaria lidar com reembolsos de muita gente vindo de longe. No final, em conversas que tivemos depois, fora desse contexto, eles me disseram: "isso poderia ter sido o fim da banda se a gente tivesse cancelado esse show". Então eles me convidaram para fazer esse show e eu topei.

Foi um dos shows mais importantes da carreira da banda: um show esgotado em Estocolmo, depois de anos de altos e baixos, fazer um show esgotado em casa, com pessoas vindo de todo lugar, celebrando 20 anos do álbum da banda — aquele álbum que eu escutei lá atrás, com o qual comecei essa história, e que é extremamente importante não só pra banda, mas para toda a cena. É o álbum que redefiniu o que é o sleaze a partir dos anos 2000.

Foi um dos shows mais importantes da carreira da banda. Fizemos esses shows juntos e tudo foi muito massa. Eles se divertiram, eu me diverti, a gente se deu muito bem e todo mundo ficou muito feliz. As famílias deles também estavam lá vendo os shows, ficaram muito felizes, apoiaram.

Toda essa experiência foi muito legal. Eu fico nervoso antes de shows às vezes, e imaginaria que esse seria um show em que ficaria extremamente nervoso, mas estava super confortável no momento em que subi no palco. Eu tinha um pouco de receio do que as pessoas iam achar, porque, enfim, eu era um cara de fora da banda — talvez quisessem ver a formação clássica. Mas no momento em que subi no palco, com a galera gritando e festejando, pensei: "estou confortável, sei exatamente o que tenho que fazer", e o show simplesmente fluiu. Foi muito massa.

Depois desses shows, fui em turnê com o Midnight Danger. Quando voltei, continuei conversando com o Martin sobre shows, sobre material do Rest in Sleaze que ainda não tinha sido divulgado. E ele disse: "a gente precisa conversar." Um dia eu estava mais perto de Estocolmo e acabei indo na casa dele. Eles me colocaram a situação da banda naquele momento, com o Peter lidando com questões pessoais. E me perguntaram se eu tinha interesse em entrar na banda. Recebi esse convite já que todos tinham concordado, inclusive o Peter, de que ele precisava se afastar da banda por um tempo, e perguntaram se eu tinha interesse de substituí-lo. Eu abracei a oportunidade.

E desde então tenho feito o meu melhor com a banda, e faço isso com muito orgulho, muito amor também, porque eu adoro demais tudo isso. É uma longa história, mas eu não consigo resumir mais do que isso.

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PARTE 2 — Rebranding, redes sociais, Art of Chaos, Sweden Rock e os shows no Brasil

Você comentou que postava vídeos antigamente, e desde que você entrou na banda, temos notado um rebranding nas redes sociais, uma aproximação maior com os fãs, uma frequência de postagens maior. Como tem sido isso?

CHRIS: Acho que a primeira coisa que a gente conversou a respeito disso foi sobre a cara que a gente queria dar pro álbum, pra essa fase da banda, pro Art of Chaos. A gente conversou isso inclusive junto com o pessoal da gravadora. E naquele momento a gente alinhou — já dava pra imaginar que seria esse o caminho — mas falamos explicitamente: a ideia da banda agora é um retorno às raízes.

E você consegue sacar isso no álbum. Lembro de quando escutei as músicas pela primeira vez, as demos, e eu senti na hora: "isso é Crashdïet raiz". Muita coisa se perdeu no meio do caminho — teve muita coisa boa também, óbvio, mas com o tempo a formação muda, entra-se numa rotina de gravadora, de lançamentos, de turnês, e algumas coisas se perdem. A gente precisava resgatar isso.

Pra mim foi absurdamente natural concluir isso, porque foi ali que eu conheci a banda, foi ali que me apaixonei por ela. É o que eu mais gosto do Crashdïet, essa identidade sleaze/glam. A gente conversou sobre isso: tudo que a gente fizer daqui pra frente vai ter essa identidade de novo, e as pessoas precisam ver isso — precisam escutar isso nas músicas e precisam ver isso.

Hoje em dia, tem que estar presente em mídia social, não tem jeito. Eu entendo que é trabalhoso, que demora — mas a gente precisava mostrar isso pros fãs. Isso me lembrou muito também a época da comunidade do Orkut — era uma comunidade de fãs, e a banda bombou no Brasil por causa dela. Eu era o "dono" da comunidade (não fui eu que a criei, mas depois eu a assumi). Lembro como foi legal construir essa comunidade de fãs no Brasil.

Então uniu tudo isso. É difícil falar que esses conteúdos remetem ao início da banda, porque no início não existiam reels no Instagram, mas a gente consegue mostrar essa ideia — que a banda está unida, que tem essa identidade.

E, como eu já tinha feito esse trabalho com a comunidade do Orkut, eles também viram que, durante a turnê do H.E.A.T, eu postava bastante. Acharam legal e confiaram em mim pra fazer isso. Mas a gente também faz bastante coisa junto. A gravadora também incentivou.

E se a vibe na banda estivesse ruim, se as coisas não estivessem legais, se todo mundo estivesse fazendo tudo por obrigação, também não ficaria bom, não teria essa comunicação com os fãs. Mas estão todos muito bem entrosados, confortáveis com o trabalho de todo mundo, empolgados, e a gente quer comunicar isso pros fãs — e a rede social é o melhor jeito de fazer isso hoje em dia.

Como você tem sentido a recepção do álbum novo?

CHRIS: Incrível. Lembro quando a gente começou a conversar com a gravadora sobre lançar o álbum em vinil e em CD e havia aquela incerteza: será que vai o álbum vai vender bem? Será que as pessoas vão gostar? Será que vão aceitar mais uma mudança de formação na banda? Porque, antes de começar a liberar esse material, teve que vir também o comunicado oficial de que o Peter estava se afastando. Naquele momento eu já imaginava que poderia haver alguma reação negativa dos fãs, mas não lembro de ver um único comentário negativo sobre isso.

Naquele momento, já na primeira foto que divulgamos, acho que as pessoas conseguiram captar: "eles estão voltando com tudo mesmo, voltando pras origens." Aquilo já deu mais confiança sobre como seria a recepção das músicas. Depois saiu "Satizfaction", e acho que foi a prova de que precisávamos: "realmente essa banda está de volta." Depois vieram os outros singles, claro, mas naquele momento, com o vídeo de "Satizfaction" e a música, deu pra ver que uma galera que já tinha meio que abandonado a banda voltou e começou a participar de novo, comentar, compartilhar, escutar. A gente viu isso no número de ouvintes e nas vendas de álbum — mesmo sem ter sido lançado ainda, ele já estava esgotado.

No primeiro single a gente já conseguiu provar que a banda ainda tinha muita qualidade, que estava voltando, resgatando uma energia que tinha meio que se perdido, e deu pra ver que as pessoas gostaram. Depois que o álbum saiu, isso só se confirmou. Dá pra ver isso nos shows — fizemos o show do Sweden Rock Festival e, depois, compartilhando material de lá, a resposta que a gente tem em cada música nova, cada vez que compartilhamos algo, está sendo muito bacana mesmo. As pessoas estão na expectativa dos shows. Acho que essa é uma resposta positiva dos fãs para essa formação e para esse álbum.

E como foi para você tocar no Sweden Rock Festival?

CHRIS: Foi absurdamente emocionante. Eu nunca tinha ido ao Sweden Rock. Vim pra Suécia em 2012 e eu preferi não ir — fui ver o Mötley Crüe com Crashdïet e Hardcore Superstar na Finlândia. Tinha que escolher, não dava pra fazer as duas coisas na época. Depois voltei pro Brasil, e em 2015 me mudei pra Suécia. Em 2015, foi muito aperto pra mudar pra cá, e não deu certo ir também. No ano seguinte também não. Em 2017, pensei: "a gente podia ter ido esse ano", mas tinha que ter planejado antes, porque não tinha mais ingresso, não tinha mais hotel — "quem sabe no ano que vem."

E foi indo assim, até que chegou um momento em que falei: "quer saber, eu vou pro Sweden Rock no dia em que eu tocar no Sweden Rock." E eu não sabia nem com qual banda seria — podia imaginar até com o próprio Midnight Danger, porque a gente tem feito shows com bandas de metal e tocado em festivais de metal.

Foi isso que eu tinha determinado. Mas olha: algum tempo atrás, mesmo há um ano, eu não sonharia que dessa vez eu realmente iria realizar isso — tocar pela primeira vez no Sweden Rock, e com o Crashdïet. Foi realmente muito emocionante, e a gente pegou um horário bom, num dia legal — foi o último dia do festival, headliner de um dos palcos, e tinha muita gente lá, estava lotado. Podia ter acontecido de as pessoas não se interessarem em ver a banda, se o álbum não tivesse sido legal, se a energia não tivesse sido boa. Mas o pessoal foi lá e ficou o show inteiro.

Foi sensacional. Eu nunca tinha tocado para um público tão grande, nunca tinha visto aquela cena na minha frente. É especial, é uma lembrança para sempre. Muita emoção — me emocionei bastante depois do show.

Onde você busca suas referências musicais no geral, tanto pro Crashdïet quanto pra todos os seus projetos? Tem outras formas de arte que te inspiram, que contribuem com seus processos criativos?

CHRIS: Acho que principalmente filmes — minha resposta tem mais a ver com o Midnight Danger mesmo, uma resposta mais direta. Você identifica isso mais diretamente no Midnight Danger, porque ele é baseado em trilhas sonoras de jogos e de filmes. Mas eu não faço isso de forma planejada, do tipo "vou buscar referências aqui ou ali." Simplesmente acontece. Eu vejo coisas, escuto coisas que me deixam motivado, que me colocam num estado de espírito que resulta numa música, às vezes numa melodia.

Por exemplo, filmes já têm suas trilhas sonoras, mas não é bem isso — é a ambientação do filme. Não é eu olhar um filme e pensar "essa música aqui me inspira a fazer uma música."

É mais: o que esse filme me remete, como eu me sinto com relação a ele. Muitas vezes, eles criam uma atmosfera que me deixa inspirado. Por exemplo, o inverno aqui é muito frio e escuro. No meio da tarde já está escurecendo, tem aquelas luzes mais amareladas, e isso cria uma vibe. É meio difícil de explicar, mas tenho inspirações que vêm das coisas mais variadas.

Normalmente começo por uma melodia; depois que tenho a primeira melodia, o resto é construído a partir dela, e aí desconecta um pouco da inspiração original. Mas, em geral, são coisas variadas, de forma totalmente espontânea — às vezes uma lembrança de infância: viajando de carro com a família, com sono, deitado no banco de trás, tudo escuro, meu pai escutando música com um cigarro aceso. Isso cria uma ambientação, e eu penso em alguma coisa. É meio que por esse lado.

Eu queria falar um pouco agora sobre os shows no Brasil no ano que vem — é a primeira vez que você vai tocar aqui realmente como parte da banda. Como tem sido isso pra você? Quais são suas expectativas pros shows aqui e na Argentina?

CHRIS: Vai ser uma honra fazer esses shows com o Crashdïet no Brasil. É um lugar muito especial pra banda, e é de onde eu vim. Foi no Brasil que a gente construiu essa comunidade, foi no Brasil que tudo isso começou para mim. Então é importante pra banda — pra eles tem um significado —, mas o significado pra mim é muito maior. Foi no Brasil que eu conheci a banda, foi no Brasil que eu cresci, que eu comecei a tocar guitarra e conheci boa parte das pessoas dessa cena.

Estou muito empolgado, muito honrado. Acho que, de todos os shows que a gente tem pela frente agora, esses do Brasil e da Argentina são os que eu estou com a maior expectativa de fazer. Não estou muito satisfeito em fazer esses shows em janeiro por causa do verão — é muito, muito calor. E calor com cabelo armado, maquiagem, corrente, tudo mais, e botas, é um pouco difícil. Essa parte é a que está me pegando um pouco, mas fora isso estou muito entusiasmado mesmo. Nunca fui pra Argentina, e ouvi dizer que o público lá também é muito massa.

Para fechar, uma pergunta mais aberta: quais são os seus planos pro futuro?

CHRIS: São duas dinâmicas diferentes pro Midnight Danger e pro Crashdïet. O Crashdïet já está com o novo álbum lançado, a gente já tem essas turnês, já está tocando em festivais. Imagino que, daqui pra frente, vai ser mais desse processo — a gente quer pegar shows maiores, festivais. Acho que o Sweden Rock provou que a gente pode tocar em qualquer festival de rock/metal do mundo e ter um bom resultado de público, ter uma apreciação das pessoas que estão lá.

A curto prazo, a gente vai ensaiar mais, vai colocar mais músicas no repertório, pra poder trabalhar melhor com ele. O objetivo é fazer essas turnês bem-sucedidas, marcar mais shows e tocar em festivais. Em algum momento a gente vai pensar num novo álbum — já falamos sobre isso. Mas acho que, com o Crashdïet, hoje é isso: vamos promover o Art of Chaos, fazer o máximo que a gente conseguir com esse álbum. Acho isso importante.

Com o Midnight Danger, por enquanto, tenho escolhido não marcar shows pra cumprir esses compromissos com o Crashdïet, mas isso já aconteceria normalmente, porque preciso produzir um novo álbum — assinei contrato com uma gravadora. E é uma gravadora de metal — o Midnight Danger estava assinado com uma gravadora de synthwave, retrowave, especializada nessa cena. Porém, nesses últimos dois anos, tenho feito shows com bandas de metal, festivais de metal, e foi meio que o caminho natural esse público e pessoas do music business desse ramo do metal olharem pro Midnight Danger, chamarem atenção, e recebi uma proposta que achei bem interessante.

Meu objetivo agora, também sem pressa porque precisa ser um material de qualidade, é produzir esse novo álbum com o Midnight Danger, finalizá-lo. Não tenho pressa pra fazer isso acontecer, porque o que importa pra mim é a qualidade. Preciso que o álbum, assim como os anteriores, comunique aquilo que eu sinto com relação ao synthwave, ao retrowave, e todo esse processo de composição musical que a gente estava falando antes — preciso estar alinhado com isso também.

Depois que esse álbum estiver lançado, pretendo sim fazer turnês com ele. Acho que lançar esse álbum com um selo de metal vai abrir portas para mais shows e festivais de metal. E, nesse meio do caminho, tenho feito shows com Crashdïet, conhecido pessoas dessa cena, e as pessoas dessa cena têm me conhecido um pouco melhor.

As coisas vão se alinhar. Não pretendo deixar nada para trás, só pretendo organizar tudo pra dar o passo certo com cada projeto. Então é isso: estou muito feliz, muito contente com tudo que está acontecendo nos dois projetos e com tudo que a gente tem planejado pra eles.

The Pretty Reckless: O Ciclo da Redenção (Also In English)

Fearless Records (Imp.)

O Fim e o Recomeço Coexistem em Dear God

Por Michelle F. Santana 

Cinco anos após Death by Rock and Roll, o The Pretty Reckless retorna com Dear God, seu quinto álbum de estúdio. Formada em 2009, em Nova York, a banda é composta por Taylor Momsen (vocal), Ben Phillips (guitarra), Mark Damon (baixo) e Jamie Perkins (bateria). Ao longo da carreira, o quarteto consolidou uma identidade que mistura hard rock, rock alternativo, blues rock e elementos de grunge, equilibrando riffs marcantes, refrãos melódicos e letras que exploram conflitos existenciais, espiritualidade e a natureza humana.

Produzido por Jonathan Wyman em parceria com Taylor Momsen e Ben Phillips, Dear God aprofunda essa proposta ao apresentar um conceito centrado em temas como mortalidade, culpa, fé, redenção e transformação. O principal eixo narrativo está na trilogia Life Evermore, cujas partes aparecem propositalmente fora da ordem cronológica — II, III e I. A escolha rompe a linearidade da narrativa e convida o ouvinte a reconstruir sua própria interpretação, sugerindo que o fim, o recomeço e a evolução coexistem dentro do mesmo ciclo.

Do ponto de vista instrumental, o álbum mantém a sonoridade que o The Pretty Reckless vem aperfeiçoando nos últimos trabalhos. Ben Phillips entrega riffs sólidos e melodias bem construídas, alternando peso e atmosfera sem recorrer ao excesso de virtuosismo. A cozinha formada por Mark Damon e Jamie Perkins sustenta as composições com firmeza, oferecendo uma base consistente que permite às guitarras e aos vocais ocuparem o protagonismo. A produção é limpa, encorpada e moderna, preservando a energia do grupo sem comprometer a dinâmica das músicas.

Taylor Momsen continua sendo o grande destaque. Sua interpretação transita naturalmente entre momentos de vulnerabilidade e explosão, imprimindo intensidade às composições sem depender apenas da potência vocal. Sua evolução como intérprete fica evidente na maneira como conduz cada faixa, adaptando a voz às diferentes atmosferas propostas pelo disco.

Entre os destaques está "For I Am Death", uma das faixas mais pesadas do álbum. Com riffs marcantes, clima sombrio e uma interpretação intensa de Momsen, a música representa um dos momentos de maior impacto e sintetiza a faceta mais obscura do trabalho.

Na sequência, "When I Wake Up", escolhida como um dos singles e acompanhada por um videoclipe, apresenta uma energia completamente diferente. Com forte influência de punk rock, a faixa aposta em guitarras rápidas, andamento acelerado e um refrão extremamente acessível. Seu espírito despretensioso e contagiante faz dela uma das músicas mais divertidas do álbum, oferecendo um contraste bem-vindo em meio às composições de atmosfera mais densa.

"Love Me" surge como um dos momentos mais delicados de Dear God. Funcionando quase como uma power ballad, a faixa desacelera o ritmo sem abandonar o peso característico da banda, privilegiando a construção emocional e permitindo que Taylor Momsen entregue uma de suas interpretações mais sensíveis do disco.

Já "Dear God", faixa-título, resume boa parte da proposta conceitual do álbum. Com uma construção mais atmosférica e contemplativa, a música explora questionamentos sobre fé, culpa e redenção, encerrando o trabalho de forma coerente com a narrativa apresentada ao longo da audição.

Comparado a álbuns como Going to Hell e Death by Rock and Roll, Dear God não busca reinventar a identidade do The Pretty Reckless. Pelo contrário, reforça a fórmula que consolidou a banda como um dos principais nomes do rock contemporâneo, refinando elementos já conhecidos e investindo mais na atmosfera e na construção conceitual do que em mudanças significativas de direção.

Dear God é um álbum consistente, sustentado por uma produção competente, interpretações marcantes e um conceito narrativo que desperta curiosidade do início ao fim. A decisão de apresentar a trilogia Life Evermore fora da ordem cronológica demonstra ambição artística e acrescenta uma camada extra à experiência do ouvinte.

Ainda assim, quando a atenção se volta exclusivamente para a música, o disco dificilmente transmite a sensação de estar diante de um novo capítulo na trajetória da banda. Em vez de romper com a própria fórmula, o The Pretty Reckless prefere aperfeiçoá-la, entregando um trabalho seguro, coeso e tecnicamente impecável.

Essa escolha certamente agradará aos fãs, mas também levanta uma questão inevitável: até que ponto permanecer fiel à própria identidade deixa de ser uma demonstração de consistência e passa a limitar a capacidade de surpreender? Dear God não responde a essa pergunta. Em vez disso, reafirma que o The Pretty Reckless domina sua própria linguagem - ainda que, desta vez, tenha preferido caminhar por terrenos já familiares.

***ENGLISH VERSION***

The End and the Beginning Coexist on Dear God

Five years after Death by Rock and Roll, The Pretty Reckless returns with Dear God, its fifth studio album. Formed in 2009 in New York, the band consists of Taylor Momsen (vocals), Ben Phillips (guitar), Mark Damon (bass), and Jamie Perkins (drums). Throughout its career, the quartet has forged a distinctive identity that blends hard rock, alternative rock, blues rock, and grunge influences, balancing memorable riffs, melodic choruses, and lyrics that explore existential conflict, spirituality, and human nature.

Produced by Jonathan Wyman alongside Taylor Momsen and Ben Phillips, Dear God expands on that foundation with a concept centered on mortality, guilt, faith, redemption, and transformation. The album's central narrative revolves around the Life Evermore trilogy, whose three chapters are deliberately presented out of chronological order—Part II, Part III, and finally Part I. This choice disrupts the story's linear progression and invites listeners to construct their own interpretation, suggesting that endings, new beginnings, and personal growth coexist within the same cycle.

Instrumentally, the album continues the sound that The Pretty Reckless has refined over its last few releases. Ben Phillips delivers solid riffs and carefully crafted melodies, balancing heaviness with atmosphere without relying on excessive virtuosity. The rhythm section, anchored by Mark Damon and Jamie Perkins, provides a steady, confident foundation that allows the guitars and vocals to remain at the forefront. The production is clean, full-bodied, and modern, preserving the band's raw energy while maintaining the songs' dynamic range.

Taylor Momsen remains the album's undeniable centerpiece. Her performance moves effortlessly between vulnerability and explosive intensity, bringing emotional weight to the material without depending solely on vocal power. Her growth as a vocalist is evident in the way she shapes each song, adapting her delivery to match the diverse moods explored throughout the record.

Among the highlights is "For I Am Death," one of the album's heaviest tracks. Driven by crushing riffs, a dark atmosphere, and one of Momsen's most commanding performances, it stands as one of the record's defining moments and perfectly captures its darker side.

Next comes "When I Wake Up," released as one of the album's singles and accompanied by a music video. It offers a completely different kind of energy, drawing heavily from punk rock with its fast-paced guitars, driving rhythm, and irresistibly catchy chorus. Its carefree, infectious spirit makes it one of the album's most entertaining songs, providing a welcome contrast to the record's more introspective and brooding moments.

"Love Me" emerges as one of Dear God's most delicate compositions. Functioning almost as a power ballad, it slows the pace without abandoning the band's signature weight, favoring emotional development and allowing Taylor Momsen to deliver one of her most heartfelt vocal performances on the album.

The title track, "Dear God," encapsulates much of the album's conceptual vision. Built around a more atmospheric and contemplative arrangement, it wrestles with questions of faith, guilt, and redemption, bringing the record to a close in a way that feels both coherent and emotionally satisfying.

Compared to albums such as Going to Hell and Death by Rock and Roll, Dear God makes no attempt to reinvent The Pretty Reckless' identity. Instead, it reinforces the formula that established the band as one of modern rock's leading acts, refining familiar elements while placing greater emphasis on atmosphere and conceptual storytelling rather than pursuing a dramatic stylistic shift.

Dear God is a cohesive album, supported by strong production, compelling performances, and a narrative concept that sustains the listener's curiosity from beginning to end. Presenting the Life Evermore trilogy out of chronological order is an ambitious artistic decision that adds another layer to the listening experience.

Even so, when the focus shifts solely to the music itself, the album rarely feels like a truly new chapter in the band's evolution. Rather than breaking away from its established formula, The Pretty Reckless chooses to refine it, delivering a record that is confident, cohesive, and technically accomplished.

That decision will undoubtedly satisfy longtime fans, but it also raises an inevitable question: at what point does remaining faithful to one's identity stop being a sign of consistency and start limiting the ability to surprise? Dear God never attempts to answer that question. Instead, it reaffirms that The Pretty Reckless has mastered its own musical language—even if, this time, it chooses to walk along familiar ground.

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