“Foi o melhor show da minha vida”: Iron Maiden emociona gerações em Curitiba
A banda Iron Maiden visitou Curitiba neste dia 28 de outubro de 2026, uma quarta-feira sem chuvas, diga-se de passagem, para sua turnê “Run For Your Lives”, em comemoração aos seus 50 anos de estrada. O grupo inglês pisou pela primeira vez na Arena da Baixada, estádio moderno que abrigou o maior público registrado até hoje na capital, que, segundo a produtora, chegou a 40 mil pessoas. Esta foi a sétima vez em que a “donzela de ferro” pisou por estes lados. A primeira foi no Estádio Couto Pereira, em 1996, ainda com o vocalista Blaze Bayley, que substituiu Bruce Dickinson após sua saída da banda.
O Iron Maiden ainda retornou em 1998, na Pedreira Paulo Leminski; em 2008, já com Bruce nos vocais, também na Pedreira; e tivemos ainda 2011, no Expotrade, em Pinhais (região metropolitana de Curitiba), 2013, no Bioparque, com Ghost e Slayer (sim, é verdade este bilhete!), e 2022, novamente na Pedreira Paulo Leminski. Portanto, passados 30 anos, a maioria dos fãs daquela época estava presente e, claro, com a família. Foi encantador ver tantas crianças neste evento: gerações de pais, avós, netos, casais apaixonados e reuniões de amigos, todos juntos em mais um show sempre inesquecível do sexteto inglês.
Alter Bridge
Mas chega de delongas. O dia também prometia muito, afinal, os californianos do Alter Bridge, que ficaram encarregados de abrir a noite, fizeram um espetáculo um pouco mais intimista, mas com maestria. O grupo conta com uma base sólida de fãs e músicas realmente envolventes, sem falar que lançou um ótimo álbum no começo do ano e, inclusive, abriu o show com a nova “Silent Divine”. Entretanto, nada conseguiu concorrer com a emoção da plateia durante a execução de “Blackbird”, sempre perfeita.
O Alter Bridge conta com Mark Tremonti e seus riffs afiadíssimos, Scott Phillips na bateria dando sua contribuição, seguido do baixo de Brian Marshall e, na sequência, a voz inconfundível de Myles Kennedy. Receita correta, pena que breve. E, apesar de o show ter merecido mais uns 30 minutos pelo calibre de seus músicos, o setlist foi bem escolhido e conseguiu deixar um “convite” certeiro para aqueles que não os conheciam. Curitiba com certeza os aguarda novamente para um show solo.
Iron Maiden
Bom, mas vamos falar de Maiden. Com pontualidade inglesa, o sexteto iniciou a noite com a clássica canção de abertura, “Doctor Doctor”, e, na sequência, os telões do palco e adjacentes mostraram uma viagem a ruas e becos obscuros de outrora, para os primeiros acordes de “Murders in the Rue Morgue”. A esta altura, o estádio já estava praticamente com sua lotação máxima, o que tornava difícil circular entre os setores, que, diga-se de passagem, estavam muito bem organizados, com muitos funcionários para informações e direcionamento.
A sequência de músicas foi inesquecível e bem pensada para não deixar o público desanimado (não que isso seja possível em um show do Iron Maiden). Mas foi em “The Number of the Beast” que os saudosos realmente acordaram para o que estava diante de seus olhos. Deixada de fora da última turnê, de 2024, a canção deixou saudades, e sua volta foi marcada com comemoração, cortesia da pirotecnia de palco que só o Maiden sabe fazer, mas desta vez um pouco mais contida. Cabe uma explicação neste momento: o estádio possui cobertura retrátil, e ela estava fechada; sendo assim, o ambiente fechado limita um pouco o uso de materiais possivelmente inflamáveis. Inclusive, prestando atenção, não vislumbrei nenhum sinalizador, o que deixou Bruce claramente muito feliz.
Momento aguardado por muitos, devido aos “spoilers” do setlist, a execução de “Infinite Dreams” dividiu o público, afinal, muitos desconhecem todo o repertório da banda (perfeitamente compreensível, já que são 50 anos na ativa). O cansaço e o estilo mais lento do clássico fizeram muitos darem uma pausa na euforia e, por que não, sentarem-se nas cadeiras dos setores de arquibancada e no chão da pista. Apesar de a música ser lindíssima e da sequência com a poderosa “Powerslave”, o público só teve a “barra de energia” restaurada com “2 Minutes to Midnight”, que arrasou, com todos cantando com o vocalista e colocando as mãos para cima, fazendo o símbolo em referência ao refrão do petardo.
Todavia, como nada é perfeito, em alguns momentos a percepção foi de que o estádio fechado prejudicou um pouco a acústica para o estilo musical do Iron Maiden. Como já presenciei outros músicos e bandas no local, a sensação foi clara. E, como já escrevi em outras resenhas referentes à Arena da Baixada, prefiro o local com a iluminação da lua e das estrelas, mas, convenhamos, sem hipocrisia, a chuva às vezes dá as caras. Por outro lado, o local fechado previne eventuais percalços da equipe técnica em caso de chuva forte, e, em tempos de super El Niño, ninguém quer pagar para ver. Portanto, foi o melhor para todos: segurança em primeiro lugar.
Na sequência, somente as melhores “porradas”, com o perdão da palavra. Portanto, momento para ficar em seus lugares e curtir o espetáculo, que teve direito a efeitos especiais de cenografia, telões com sensação 3D e, claro, fogos pirotécnicos. Inclusive, em alguns momentos, parecia que o mascote Eddie era projetado para realmente sair da tela e observar os músicos de perto. Destaque para o efeito durante a execução da clássica “Hallowed Be Thy Name”, em que Bruce Dickinson saía de cena para interagir com uma animação fantasmagórica e voltava ao palco em sincronia para a finalização da música, acompanhado do público em uníssono. Realmente foi um espetáculo unindo arte e tecnologia, vindo de uma banda que comemora seus cinquenta anos, mas ainda ensina como se faz um espetáculo de grande porte: uma experiência verdadeiramente inesquecível.
Mas é claro que também sabemos que tantos efeitos ajudam os músicos a dosar a energia para não perder a presença de palco. Levando em consideração a idade dos músicos, eles parecem crianças pulando em cena; por vezes me perguntei: “Como manter joelhos tão fortes aos sessenta e poucos anos?”. Janick Gers sempre dança com sua guitarra, sem nunca perder o ritmo; o baixista Steve Harris, então, dispensa palavras; Bruce Dickinson está cada vez mais concentrado, teatral e técnico; e há ainda o carismático Dave Murray e o “nosso guitarrista” Adrian Smith, cuja maestria conferimos também este ano, em show com a banda Smith/Kotzen. Um parêntese para o novo baterista, Simon Dawson, que veio da parceria com Steve Harris na banda British Lion: a princípio, conseguiu segurar muito bem as baquetas da “donzela”, mas sempre há os saudosos que lembram a magia de Nicko McBrain. Mas cada um tem uma jornada nesta vida, e agora é a vez de Dawson brilhar. Se havia alguém cansado na plateia, com certeza a energia do Iron Maiden o fez mudar o semblante.
E foi com a incomparável “Iron Maiden”, eterna e atual, ou seja, atemporal, que a banda encerrou a primeira parte do show. Após a execução, a banda conversou com o público, apresentou seus integrantes e fez uma “primeira despedida” antes do bis, com direito a um pequeno discurso satisfeito de Bruce sobre os sinalizadores.
A pausa durou pouco, mas serviu para alguns respirarem, até que, subitamente, sons de aviões invadiram o estádio, cada vez mais fortes, e… pronto! Todos começaram a comemorar a chegada de “Aces High”, que desta vez não contou com o avião cenográfico da turnê de 2022, na Pedreira Paulo Leminski, aqui em Curitiba. Agora, a tecnologia fez as vezes do avião, e o impacto foi bem grande: a sinergia entre o digital e o físico, como já falado anteriormente, foi realizada de maneira impecável pelo Iron Maiden. Um avanço bem rápido no estilo de shows da banda, que sempre contou com uma teatralidade acima da média, mas agora conseguiu diminuir a “carga” do cenário nos deslocamentos entre países, e com excelência.
Finalmente, o estádio escureceu, dando espaço para uma atmosfera etérea, com os primeiros acordes de “Fear of the Dark”, todos com as luzes dos celulares prontas para dar início à maravilhosa performance dos músicos, com os solos mais amados de todo fã de heavy metal. As histórias dos fãs eram várias; a mais citada era “Nossa, eu tocava esta quando era adolescente!”, seguida de “Que saudades de tocar as músicas do Maiden!”. A sensação de andar pelo estádio e prestar atenção nos semblantes das pessoas foi divina; esse exercício de “prestar atenção ao redor” nos proporciona repertório para sentir melhor o momento. E esta canção foi única em sua majestade. A finalização veio com a sempre clássica “Wasted Years”, também com efeitos de palco surpreendentes, e famílias cantando em uníssono com a banda.
Um adendo aqui para falar da simpatia do Iron Maiden: por mais que às vezes Bruce fique irritado em alguns países afora, e na maioria das vezes com razão, em todos os shows que tive o privilégio de assistir ele sempre conversou muito com o público e demonstrou respeito a todos que ali estavam. Atitude esta que muitas grandes bandas de rock não têm, e aí o público fica com aquele sentimento de que “faltou algo”. E não: faltou somente empatia por parte de algumas bandas. Com o Iron Maiden, as pessoas fazem sacrifícios para estar no show, pois sabem que vão ser “vistas” e ganhar a experiência completa, e isso explica muito destes 50 anos de estrada e de um público que agrega ao coro a própria família: leva mãe, filho, sobrinho, pois tem a certeza de que vai olhar nos olhos desses entes queridos e escutar “Obrigada por me trazer, foi o melhor show da minha vida!”. E, no dia 28 de outubro de 2026, escutei do meu filho: “Mãe!!! Foi o melhor show da minha vida! Obrigado!”, seguido de um abraço em mim e em meu marido, que o acompanhava na ocasião.
Por fim, só restam palavras para agradecer esta oportunidade de fazer a cobertura do Iron Maiden em Curitiba, minha cidade. Obrigada a toda a equipe da Road To Metal, a equipe da Move Concerts Brasil, a RW7 e aos amigos que lá estavam!
Finalizo com uma apropriação da frase “We always have Paris” para “Nós sempre teremos o Iron Maiden” e claro “Up The Irons”.
Fotos: Thiago C. Bahia
Realização: Move Concerts / RW7 Concerts
Press: Midiorama
Alter Bridge – setlist:
Silent Divide
Addicted to Pain
Cry of Achilles
Fortress
Blackbird
Metalingus
Isolation
Iron Maiden – setlist
Murders in the Rue Morgue
Wrathchild
Killers
Phantom of the Opera
The Number of the Beast
Infinite Dreams
Powerslave
2 Minutes to Midnight
Rime of the Ancient Mariner
Run to the Hills
Seventh Son of a Seventh Son
The Trooper
Hallowed Be Thy Name
Iron Maiden
Bis
Aces High
Fear of the Dark
Wasted Years




























