quinta-feira, 11 de junho de 2026

Tarja: Grandiosidade e Intimidade (Also In English)

Valhall Music (Nac.) / earMUSIC (Imp.)

Por Michelle F. Santana

Desde que iniciou sua carreira solo após deixar o Nightwish, Tarja Turunen construiu uma discografia marcada pela constante busca por equilíbrio entre metal, música clássica e experimentação. Em Frisson Noir, seu mais novo álbum de estúdio, a cantora finlandesa parece finalmente reunir todas as facetas de sua identidade artística em uma obra coesa, madura e profundamente pessoal. O resultado é um trabalho que remete tanto à grandiosidade de My Winter Storm (2007) quanto ao peso de What Lies Beneath (2010), mas com uma personalidade própria que o coloca entre os pontos mais altos de sua trajetória solo.

Em Frisson Noir, a artista parece olhar para toda essa trajetória e transformá-la em arte. Descrito pela própria Tarja como um de seus trabalhos mais pessoais, o álbum mergulha em temas ligados à memória, identidade, emoções e experiências que moldaram sua visão de mundo. O próprio título sugere uma dualidade entre fascínio e escuridão, beleza e melancolia, elementos que acompanham Tarja desde os primeiros passos de sua carreira e que aqui encontram uma de suas expressões mais maduras.

O disco abre com uma breve introdução instrumental que funciona como um portal para a experiência proposta por Tarja. Sons meditativos, sinos que evocam atmosferas orientais e uma ambientação quase hipnótica conduzem o ouvinte para dentro do universo do álbum.

A faixa-título, "Frisson Noir", surge logo em seguida e estabelece o tom da obra. Iniciando de forma intimista através do piano, a composição cresce gradualmente até explodir em riffs marcantes e passagens orquestrais grandiosas. É uma música pesada, envolvente e carregada de tensão dramática, condensando em poucos minutos tudo aquilo que faz o metal sinfônico funcionar tão bem.

"The Eternal Return" aposta em contrastes inteligentes. A canção começa com intensidade, mas interrompe abruptamente sua agressividade para mergulhar em uma passagem operística delicada e intimista. A transição é executada com naturalidade e demonstra o domínio que Tarja possui sobre dinâmica e narrativa musical, antes de a faixa retornar ao peso para um desfecho impactante.

Um dos momentos mais aguardados do álbum é "Leap of Faith", que marca mais uma colaboração entre Tarja e Marko Hietala. É impossível não sentir certa nostalgia ao ouvir os dois dividindo os vocais novamente. O timbre rouco e característico de Marko complementa perfeitamente a voz lírica de Tarja, criando uma química que permanece intacta. Somado às orquestrações exuberantes e aos riffs pesados, o resultado é uma das faixas mais grandiosas do disco.

Em "At Sea", a artista explora de maneira brilhante sua ligação com a música clássica, contando com as participações especiais de Mervi Myllyoja no violino e Nikolas Pokki no piano. Eles conduzem uma atmosfera elegante que remete a uma apresentação erudita, enquanto o metal surge como elemento complementar e não como protagonista absoluto. O violino assume papel fundamental na construção emocional da faixa, culminando em um encerramento onde instrumentos e voz se fundem de forma magistral.

"The Trace Outlives" é uma das faixas mais pesadas do álbum e conta com a participação de Sayo Komada no shamisen, instrumento tradicional japonês que contribui para a construção de uma ambientação inspirada na cultura do país. A composição faz referência ao fenômeno conhecido como "Johatsu" termo que significa "evaporação" e é utilizado para descrever pessoas que desaparecem voluntariamente sem deixar rastros no Japão. No entanto, a música utiliza esse conceito como uma metáfora para questões relacionadas à saúde mental e às marcas emocionais que permanecem mesmo após o desaparecimento físico, algo reforçado pelo videoclipe. O tema despertou o interesse de Tarja e serviu como ponto de partida para uma composição que incorpora elementos tradicionais orientais sem perder sua identidade metálica. O resultado é uma faixa sombria e intrigante, cuja atmosfera e melodia chegam a remeter, em alguns momentos, a "Smooth Criminal", clássico de Michael Jackson. O videoclipe amplia ainda mais essa sensação imersiva.

"Tango", que tem a participação especial do Apocalyptica, revela outra faceta da cantora. Funcionando como uma homenagem à Argentina, país pelo qual Tarja nutre profundo carinho e onde viveu durante anos, a faixa mistura influências latinas e eruditas com grande naturalidade. É também uma das músicas que melhor evidenciam o caráter autobiográfico presente ao longo de todo o álbum.

Após tantos momentos grandiosos, "Anemoia" surge como uma pausa necessária. A balada deposita sua força na interpretação emocional da cantora e no delicado trabalho do violão, criando uma das composições mais belas e sensíveis do repertório. Aqui, o peso não está nos riffs, mas na emoção transmitida por cada nota.

Já "I Don't Care" traz uma colaboração inesperada e extremamente bem-sucedida com Dani Filth. Os elementos sombrios e quase industriais dialogam perfeitamente com a estética do vocalista, enquanto Tarja mantém o caráter épico da composição. O contraste entre as vozes cria momentos memoráveis, reforçados por um refrão intenso, uma atmosfera envolvente e um solo que acrescenta ainda mais profundidade emocional à música.

"Against the Odds" conta com a participação especial de Chad Smith, baterista do Red Hot Chili Peppers, que imprime à faixa o groove característico de seu estilo sem comprometer a essência sinfônica de Tarja. A música funciona perfeitamente como o capítulo final da narrativa proposta pelo álbum, amarrando seus temas centrais e reforçando a identidade sonora da artista. Seu desfecho não poderia ser mais épico: grandioso, emocionante e digno dos créditos finais de um filme, encerrando a jornada de forma memorável.

"Outro" retoma os elementos da introdução e fecha o ciclo iniciado na abertura. Se a intro funciona como um convite para entrar no universo criado por Tarja, o desfecho atua como um despertar gradual, conduzindo o ouvinte de volta à realidade após uma jornada musical imersiva.

Se fosse necessário definir Frisson Noir em apenas uma palavra, ela seria: imersivo. Cada elemento do álbum — dos arranjos orquestrais aos riffs, dos videoclipes às interpretações vocais — contribui para criar uma experiência que vai além da simples audição. Tarja entrega um trabalho que reúne o melhor de suas diferentes fases, ao mesmo tempo em que demonstra coragem para explorar novos caminhos.

Frisson Noir é mais do que um álbum de metal sinfônico: é uma declaração artística de uma artista que continua expandindo seus horizontes criativos após décadas de carreira. Um disco ambicioso, pessoal e executado com excelência, que certamente figura entre os momentos mais inspirados de sua discografia solo e merece ser apreciado do início ao fim. O resultado é uma obra cinematográfica, intensa e emocionalmente envolvente, que reafirma por que Tarja continua sendo uma das vozes mais importantes e influentes do metal sinfônico.


***ENGLISH VERSION***

Since launching her solo career after leaving Nightwish, Tarja Turunen has built a discography defined by a constant pursuit of balance between metal, classical music, and experimentation. On Frisson Noir, her latest studio album, the Finnish singer finally seems to bring together every facet of her artistic identity into a cohesive, mature, and deeply personal work. The result is an album that recalls both the grandeur of My Winter Storm (2007) and the heaviness of What Lies Beneath (2010), while possessing a distinct personality that places it among the finest achievements of her solo career.

On Frisson Noir, Tarja appears to reflect upon her entire journey and transform it into art. Described by the artist herself as one of her most personal works, the album dives into themes of memory, identity, emotions, and experiences that have shaped her worldview. Even the title suggests a duality between fascination and darkness, beauty and melancholy—elements that have accompanied Tarja since the earliest stages of her career and that find one of their most mature expressions here.

The album opens with a brief instrumental introduction that serves as a gateway into the experience Tarja has crafted. Meditative sounds, bells evoking Eastern atmospheres, and an almost hypnotic ambiance guide the listener into the album's universe.

The title track, "Frisson Noir," arrives shortly afterward and establishes the tone of the record. Beginning intimately with piano, the composition gradually builds before erupting into powerful riffs and grand orchestral passages. It is a heavy, captivating piece filled with dramatic tension, condensing into a few minutes everything that makes symphonic metal so effective.

"The Eternal Return" thrives on intelligent contrasts. The song begins with intensity but abruptly interrupts its aggression to plunge into a delicate and intimate operatic passage. The transition is executed naturally and demonstrates Tarja's mastery of dynamics and musical storytelling before the track returns to its heavier side for an impactful conclusion.

One of the album's most anticipated moments is "Leap of Faith," which marks another collaboration between Tarja and Marko Hietala. It's impossible not to feel a sense of nostalgia hearing the two share vocals once again. Marko's rough and distinctive voice perfectly complements Tarja's operatic style, creating a chemistry that remains as strong as ever. Combined with lush orchestration and crushing riffs, the result is one of the album's most majestic tracks.

On "At Sea," Tarja brilliantly explores her connection to classical music, joined by special guests Mervi Myllyoja on violin and Nikolas Pokki on piano. Together, they create an elegant atmosphere reminiscent of a classical performance, while metal serves as a complementary element rather than the primary focus. The violin plays a fundamental role in shaping the song's emotional landscape, culminating in a finale where voice and instruments merge beautifully.

"The Trace Outlives" is one of the heaviest songs on the album and features Sayo Komada on the shamisen, a traditional Japanese instrument that helps create an atmosphere inspired by Japanese culture. The composition references the phenomenon known as "Johatsu"—a term meaning "evaporation" that is used to describe people who voluntarily disappear without leaving a trace in Japan. However, the song uses this concept as a metaphor for mental health struggles and the emotional scars that remain even after physical absence, an idea further reinforced by the music video. The theme sparked Tarja's interest and served as the starting point for a composition that incorporates traditional Eastern elements without sacrificing its metallic identity. The result is a dark and intriguing track whose atmosphere and melody occasionally evoke "Smooth Criminal," Michael Jackson's classic hit. The music video further enhances the song's immersive quality.

"Tango," featuring a special appearance by Apocalyptica, reveals another side of the singer. Functioning as a tribute to Argentina—a country for which Tarja holds deep affection and where she lived for many years—the song blends Latin and classical influences with remarkable naturalness. It is also one of the tracks that best highlights the autobiographical character present throughout the album.

After so many grand moments, "Anemoia" arrives as a welcome pause. The ballad draws its strength from Tarja's emotional performance and delicate acoustic guitar work, creating one of the most beautiful and sensitive compositions on the record. Here, the weight lies not in the riffs but in the emotion conveyed through every note.

"I Don't Care" brings an unexpected and highly successful collaboration with Dani Filth. The dark, almost industrial elements blend perfectly with the vocalist's aesthetic, while Tarja preserves the song's epic character. The contrast between their voices creates memorable moments, reinforced by an intense chorus, an engaging atmosphere, and a solo that adds even more emotional depth to the track.

"Against the Odds" features a special appearance by Chad Smith, drummer of the Red Hot Chili Peppers, who injects the song with his signature groove without compromising Tarja's symphonic essence. The track works perfectly as the final chapter of the album's narrative, tying together its central themes while reinforcing the artist's sonic identity. Its conclusion could not be more epic: grand, emotional, and worthy of a film's closing credits, bringing the journey to a memorable end.

"Outro" revisits the elements introduced in the opening track and closes the cycle that began at the album's start. If the intro serves as an invitation into Tarja's universe, the finale acts as a gradual awakening, guiding the listener back to reality after an immersive musical journey.

If Frisson Noir had to be defined in a single word, it would be: immersive. Every element of the album—from the orchestral arrangements and riffs to the music videos and vocal performances—contributes to an experience that goes far beyond simple listening. Tarja delivers a work that gathers the finest aspects of her different creative phases while simultaneously demonstrating the courage to explore new directions.

Frisson Noir is more than a symphonic metal album; it is an artistic statement from a musician who continues to expand her creative horizons after decades of performing. An ambitious, personal, and masterfully executed record, it undoubtedly ranks among the most inspired moments of her solo discography and deserves to be experienced from beginning to end. The result is a cinematic, intense, and emotionally engaging work that reaffirms why Tarja remains one of the most important and influential voices in symphonic metal.

Divulgação 





Dan Byrne: O Nascimento de uma Identidade (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Dan Byrne chega ao seu aguardado álbum de estreia, This Is Where The Show Begins, após uma ascensão meteórica na cena rock britânica. Impulsionado pelo sucesso do EP Beginnings, por uma intensa agenda de shows e pelo apoio consistente da rádio Planet Rock, o cantor e compositor apresenta um trabalho que combina a energia do hard rock contemporâneo com uma sensibilidade emocional genuína. Repleto de personalidade, melodias marcantes e interpretações vocais arrebatadoras, o disco revela um artista disposto a transitar entre força e vulnerabilidade sem comprometer sua identidade. Mais do que um cartão de visitas, este álbum soa como a declaração de intenções de um nome que tem potencial para ocupar espaço de destaque no rock moderno.

A abertura com “Saviour” estabelece imediatamente as bases do trabalho. Trata-se de um hard rock moderno sustentado por guitarras encorpadas, baixo pulsante e uma performance vocal intensa. Influências são facilmente identificáveis — especialmente ecos de Soundgarden e da escola vocal de Chris Cornell — mas Byrne evita a armadilha da mera imitação. Há uma clara intenção de romper fórmulas tradicionais, combinando elementos de diferentes vertentes do rock de maneira orgânica e convincente.

“She’s The Devil” mantém parte do peso sonoro da faixa de abertura, mas desloca o foco para a construção melódica. O destaque absoluto continua sendo a voz de Byrne, que domina a canção com naturalidade. A seção rítmica trabalha de forma eficiente, especialmente o baixo e a bateria, enquanto o solo de guitarra introduz uma estética mais clássica em contraste com a produção contemporânea. O resultado é uma faixa que equilibra agressividade e acessibilidade com competência.

A terceira faixa, “Praise Hell”, representa a primeira grande mudança de atmosfera do álbum. Com influências evidentes do gospel norte-americano, a composição desacelera o andamento e amplia o espaço para a interpretação vocal. Os teclados assumem papel central na condução da melodia, enquanto elementos de groove enriquecem a dinâmica instrumental. É uma canção que demonstra maturidade na construção dos arranjos e impede que o álbum caia na previsibilidade. Além disso, oferece um dos momentos mais expressivos para Byrne exibir a amplitude e o controle de sua voz.

Em “Sober”, o artista amplia ainda mais o espectro sonoro do disco. A faixa parte de uma base hard rock relativamente tradicional, mas evolui para um refrão moderno, pesado e extremamente melódico. É um excelente exemplo da capacidade de Byrne em fundir referências distintas sem perder coerência. Os timbres foram cuidadosamente selecionados para valorizar o vocal, reforçando uma característica recorrente ao longo de toda a obra: a produção está sempre a serviço da canção.

O peso retorna com força em “Cherry & Leather”, uma das composições mais agressivas do álbum. Elementos eletrônicos aparecem de maneira estratégica, complementando — e não substituindo — a instrumentação orgânica. Em alguns momentos, Byrne remete à expressividade de Corey Glover, do Living Colour, influência clara do cantor. O baixo distorcido cria uma base sólida e moderna, enquanto guitarras e sintetizadores dialogam de forma interessante, ampliando as possibilidades sonoras do trabalho.

“Death Of Me” surge como um dos pontos altos do disco. Construída sobre um piano sombrio e uma base rítmica econômica, a canção cresce gradualmente até alcançar um refrão de proporções épicas. A composição impressiona pelo equilíbrio entre emoção e sofisticação. Camadas vocais, efeitos utilizados com parcimônia e uma instrumentação que alterna peso e delicadeza fazem desta uma faixa rica em detalhes. É o tipo de música que revela novos elementos a cada audição, demonstrando um cuidado composicional acima da média.

A sequência mantém o alto nível com “Temple”, que aposta em uma abordagem mais introspectiva. Piano, baixo e voz conduzem os versos antes da explosão de um refrão altamente memorável. Pequenos elementos de gospel aparecem novamente nos arranjos vocais, enriquecendo a textura da música sem soar excessivos. Byrne demonstra excelente controle interpretativo, explorando nuances emocionais que reforçam a força da composição.

“Pulling Me Under” une timbres clássicos de guitarra a uma base rítmica moderna dominada pelo baixo distorcido. A dualidade entre tradição e contemporaneidade define a essência da faixa. Enquanto versos e refrão remetem ao hard rock clássico por meio dos coros e harmonizações vocais, a produção mantém uma sonoridade atual. O refrão possui caráter grandioso, e Byrne entrega uma de suas melhores performances em todo o álbum.

Com “Hate Me”, surgem influências claras do rock britânico e norte-americano do início dos anos 2000. A combinação de teclados atmosféricos, guitarras pesadas e refrão marcante cria uma sonoridade familiar, mas eficiente. O mérito da faixa está justamente na contenção: Byrne evita excessos, utilizando backing vocals e efeitos apenas quando realmente contribuem para a construção da música. O resultado é uma composição moderna e equilibrada.

O encerramento fica por conta de “Home”, que sintetiza boa parte dos elementos apresentados ao longo do disco. Um coral gospel introduz a faixa antes da entrada de guitarras, baixo e bateria em uma explosão de energia. Os versos recuam para criar contraste, permitindo que o refrão alcance impacto máximo. Trata-se de um fechamento emocionalmente forte e musicalmente representativo, deixando a sensação de que a jornada foi cuidadosamente planejada do início ao fim.

This Is Where The Show Begins cumpre com folga aquilo que se espera de um álbum de estreia: apresenta a identidade do artista, evidencia suas qualidades e aponta caminhos promissores para o futuro. Embora algumas influências sejam facilmente perceptíveis, Dan Byrne demonstra personalidade suficiente para evitar o rótulo de simples discípulo de seus ídolos. Seu mérito está justamente na capacidade de absorver elementos do hard rock, do rock alternativo, do gospel e até de abordagens mais modernas de produção, transformando tudo isso em algo coeso e contemporâneo.

O álbum olha para frente. É um trabalho que desafia classificações fáceis, equilibra acessibilidade e profundidade e confirma Dan Byrne como uma das vozes mais interessantes da nova geração do rock britânico. Um debut sólido, ambicioso e, acima de tudo, autenticamente apaixonado pela música que celebra.


***ENGLISH VERSION***

Dan Byrne arrives at his highly anticipated debut album, This Is Where The Show Begins, following a meteoric rise on the British rock scene. Fueled by the success of the Beginnings EP, an extensive touring schedule, and strong support from Planet Rock radio, the singer-songwriter delivers a record that combines the energy of contemporary hard rock with genuine emotional depth. Packed with personality, memorable melodies, and captivating vocal performances, the album reveals an artist willing to balance power and vulnerability without compromising his identity. More than just an introduction, this record feels like a statement of intent from a musician with the potential to become a major force in modern rock.

Opening track “Saviour” immediately establishes the album’s foundations. Built on muscular guitars, a driving bass line, and an intense vocal performance, it showcases modern hard rock at its finest. Influences are easy to spot—particularly echoes of Soundgarden and the vocal legacy of Chris Cornell—but Byrne avoids the trap of simple imitation. Instead, he demonstrates a clear desire to break away from traditional formulas, blending elements from different branches of rock in an organic and convincing manner.

“She’s The Devil” retains much of the weight of the opener while shifting the focus toward melody. Byrne’s voice remains the undeniable centerpiece, commanding the song with effortless authority. The rhythm section performs admirably, particularly the bass and drums, while the guitar solo introduces a more classic-rock aesthetic that contrasts effectively with the contemporary production. The result is a track that balances aggression and accessibility with confidence.

The album’s third track, “Praise Hell” marks the first major shift in atmosphere. Drawing heavily from American gospel influences, the song slows the pace and creates more room for vocal expression. Keyboards take center stage in driving the melody, while subtle groove elements enrich the instrumental dynamics. It is a composition that demonstrates maturity in its arrangement and prevents the album from becoming predictable. More importantly, it offers one of the record’s finest showcases of Byrne’s vocal range and control.

With “Sober” Byrne broadens the album’s sonic palette even further. The track begins with a relatively traditional hard rock foundation before evolving into a modern, heavy, and highly melodic chorus. It is an excellent example of Byrne’s ability to merge diverse influences without sacrificing cohesion. Every sound appears carefully selected to enhance the vocal performance, reinforcing a recurring theme throughout the album: the production always serves the song rather than overshadowing it.

The heaviness returns in full force with “Cherry & Leather” one of the album’s most aggressive compositions. Electronic elements are incorporated strategically, complementing rather than replacing the organic instrumentation. At times, Byrne’s delivery recalls the expressive power of Living Colour’s Corey Glover, a clear influence on the singer. Distorted bass lines provide a modern and powerful foundation while guitars and synthesizers interact effectively, expanding the album’s sonic possibilities.

“Death Of Me” emerges as one of the album’s standout moments. Built around a dark piano motif and a restrained rhythm section, the song gradually builds toward an epic chorus. The composition impresses through its balance of emotion and sophistication. Layered vocals, carefully applied effects, and instrumentation that shifts seamlessly between heaviness and delicacy make this a remarkably detailed piece. It is the kind of song that reveals new nuances with every listen, highlighting a level of compositional craftsmanship that rises above the norm.

The quality remains high with “Temple” which embraces a more introspective approach. Piano, bass, and vocals guide the verses before giving way to a highly memorable chorus. Subtle gospel influences reappear in the vocal arrangements, enriching the texture without feeling excessive. Byrne demonstrates excellent interpretive control, exploring emotional nuances that further strengthen the song’s impact.

“Pulling Me Under” combines classic guitar tones with a modern rhythm section driven by distorted bass. This duality between tradition and contemporary sensibilities defines the track’s identity. While the verses and chorus evoke classic hard rock through their vocal harmonies and backing arrangements, the production maintains a thoroughly modern character. The chorus feels grand and expansive, while Byrne delivers one of his strongest vocal performances on the entire album.

With “Hate Me” clear influences from early-2000s British and American rock come to the forefront. Atmospheric keyboards, heavy guitars, and a memorable chorus create a familiar yet effective sound. The track’s greatest strength lies in its restraint: Byrne avoids overindulgence, employing backing vocals and effects only when they genuinely contribute to the song’s structure. The result is a balanced and contemporary composition.

Closing track “Home” brings together many of the elements explored throughout the album. A gospel choir introduces the song before guitars, bass, and drums erupt with dramatic force. The verses pull back to create contrast, allowing the chorus to achieve maximum impact. It serves as an emotionally powerful and musically representative conclusion, leaving the impression that the entire journey has been carefully planned from beginning to end.

This Is Where The Show Begins comfortably fulfills everything one expects from a debut album: it establishes the artist’s identity, showcases his strengths, and points toward an exciting future. While some influences are unmistakable, Dan Byrne possesses more than enough personality to avoid being dismissed as merely following in the footsteps of his heroes. His greatest achievement lies in his ability to absorb elements of hard rock, alternative rock, gospel, and even modern production techniques, transforming them into something cohesive and contemporary.

Rather than looking backward, this album looks firmly ahead. It is a work that defies easy categorization, balances accessibility with depth, and confirms Dan Byrne as one of the most intriguing voices emerging from the new generation of British rock. A strong, ambitious debut and, above all, a record that radiates a genuine passion for the music it celebrates.

Divulgação 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Evermore: A Nova Força do Power Metal (Also In English)

Scarlet Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Com Mournbraid, os suecos do Evermore dão um passo decisivo em sua evolução artística e reforçam sua posição entre os nomes mais promissores da nova geração do power metal europeu. Em seu terceiro álbum de estúdio, o trio amplia a fórmula apresentada nos trabalhos anteriores ao combinar a velocidade e a agressividade características do gênero com um refinado senso melódico, refrães memoráveis e uma abordagem lírica mais madura, focada nos conflitos internos e nas fragilidades da condição humana.

Sustentado por uma produção ampla e cristalina, Mournbraid encontra um equilíbrio convincente entre peso, emoção e grandiosidade. O resultado é um álbum que respeita as tradições do power metal sem soar preso ao passado, explorando novas nuances dentro de uma identidade já bem estabelecida.

A introdução instrumental "The Void" estabelece imediatamente a atmosfera épica do disco. Construída sobre camadas de teclados sinfônicos e percussão cinematográfica, a faixa funciona como uma abertura solene para a explosiva "Underdark". A primeira composição completa do álbum apresenta todos os elementos que definem o som do Evermore: riffs velozes, bateria incansável, melodias grandiosas e uma performance vocal impressionante, marcada por agudos extremos executados com notável controle técnico. O refrão surge como um dos primeiros grandes momentos do disco, enquanto os teclados acrescentam profundidade sem competir com o peso das guitarras.

"Nightstar Odyssey" reduz ligeiramente a velocidade, mas preserva intacta a sensação de grandiosidade. A influência do Edguy da fase inicial é perceptível, especialmente na combinação entre melodias heroicas e refrães expansivos. A dinâmica mais variada da composição permite que a banda explore diferentes atmosferas sem comprometer a coesão da faixa.

Acelerando novamente o andamento, "Titans" remete diretamente à energia dos primeiros trabalhos do Helloween. A agressividade dos riffs e os vocais sobrepostos evocam a escola germânica do power metal, enquanto o refrão incorpora elementos mais modernos que aproximam a canção de nomes como HammerFall, Edguy e Avantasia. As mudanças de andamento e os momentos mais contemplativos demonstram uma maturidade composicional que impede a faixa de se tornar apenas mais um exercício de velocidade.

"Oath Of Apathy" introduz uma atmosfera mais sombria e contemplativa. O protagonismo inicial do baixo e dos teclados cria uma tensão interessante antes da entrada das guitarras. Aqui, o Evermore demonstra habilidade para construir camadas sonoras mais sofisticadas, aproximando-se novamente de certas características do Edguy da era Vain Glory Opera até Mandrake, mas com uma abordagem mais pesada e contemporânea. O refrão figura entre os mais fortes do álbum, sustentado por um excelente trabalho de harmonização vocal.

A sequência central do disco mantém o alto nível. "The Illusionist (Raise The Curtain)" aposta em uma abordagem mais teatral, reforçando as inevitáveis comparações com o Avantasia dos primeiros anos. Ainda assim, o Evermore evita cair na mera imitação ao imprimir personalidade própria às composições. O uso de teclados simulando sinos acrescenta dramaticidade à música, enquanto a bateria se destaca não apenas pela precisão técnica, mas também pela criatividade de suas viradas e acentuações.

"Armored Will" apresenta uma faceta mais agressiva da banda. Com menos ornamentações vocais e um foco maior nos riffs, a música estabelece uma ponte eficiente entre o heavy metal tradicional e o power metal moderno. Essa mudança de perspectiva contribui para a diversidade do álbum e evita a sensação de repetição que frequentemente afeta trabalhos excessivamente homogêneos do gênero.

"Ravens At The Gates" segue caminho semelhante, flertando inicialmente com o heavy metal tradicional antes de revelar sua verdadeira natureza power metal através de um refrão expansivo e altamente melódico. A influência de bandas como Primal Fear pode ser percebida na construção dos riffs e na abordagem mais musculosa das guitarras, mas a composição mantém identidade própria graças ao excelente trabalho melódico.

A faixa-título representa o momento mais ambicioso e agressivo do disco. "Mournbraid" incorpora elementos que extrapolam os limites tradicionais do power metal, flertando ocasionalmente com o death metal melódico da fase clássica do In Flames e até com a agressividade do thrash metal germânico de Kreator e Destruction. Apesar dessa diversidade de influências, a composição jamais perde sua essência melódica. O resultado é uma das músicas mais complexas e impressionantes do álbum, destacando especialmente o trabalho da bateria e das guitarras.

Encerrando a edição com faixa bônus, "Old Man's Tale" oferece um contraste bem-vindo. A balada combina piano, teclados sinfônicos e uma interpretação vocal carregada de emoção, funcionando como um epílogo elegante após a intensidade da jornada anterior.

Mais do que uma simples celebração dos elementos clássicos do power metal, Mournbraid demonstra que o Evermore possui talento suficiente para dialogar com o legado dos grandes nomes do gênero sem se tornar refém dele. Embora as influências sejam evidentes, a banda consegue integrá-las a uma identidade própria, apoiada por composições sólidas, excelente execução técnica e uma produção de alto nível. Em um cenário frequentemente saturado por fórmulas repetitivas, o Evermore entrega um álbum vibrante, inspirado e extremamente consistente — um dos lançamentos mais fortes do power metal europeu em 2026.


***ENGLISH VERSION***

With Mournbraid, Swedish power metal outfit Evermore take a decisive step forward in their artistic evolution, further cementing their status as one of the most promising acts of the new European power metal generation. On their third studio album, the trio expands upon the foundations laid by their previous releases, combining the speed and aggression that define the genre with a refined melodic sensibility, memorable choruses, and a more mature lyrical approach centered on inner struggles and the complexities of the human condition.

Backed by a massive yet crystal-clear production, Mournbraid strikes a convincing balance between heaviness, emotion, and grandeur. The result is an album that honors power metal’s traditions without sounding trapped by them, exploring new shades and textures within a well-established musical identity.

Instrumental opener “The Void” immediately establishes the album’s epic atmosphere. Built around layers of symphonic keyboards and cinematic percussion, the track serves as a solemn introduction to the explosive “Underdark.” The album’s first full composition showcases everything that defines Evermore’s sound: lightning-fast riffs, relentless drumming, soaring melodies, and a remarkable vocal performance marked by sky-high notes delivered with impressive technical control. The chorus emerges as one of the record’s first standout moments, while the keyboards add depth without ever overshadowing the crushing guitar work.

“Nightstar Odyssey” eases off the accelerator slightly while preserving the album’s sense of grandeur. Early-era Edguy influences are evident, particularly in the combination of heroic melodies and expansive choruses. The song’s more dynamic structure allows the band to explore different moods without sacrificing cohesion.

Picking up the pace once again, “Titans” channels the energy of Helloween’s formative years. The aggressive riffing and layered vocals evoke the classic German power metal school, while the chorus incorporates more modern elements that bring to mind bands such as HammerFall, Edguy, and Avantasia. Changes in tempo and more reflective passages reveal a compositional maturity that elevates the track beyond a simple exercise in speed and technicality.

“Oath Of Apathy” introduces a darker, more contemplative atmosphere. The prominent role of bass and keyboards during the opening moments creates a compelling sense of tension before the guitars enter. Here, Evermore demonstrate an ability to build more sophisticated sonic textures, recalling aspects of Edguy’s Vain Glory Opera to Mandrake era, albeit through a heavier and more contemporary lens. The chorus ranks among the album’s strongest, supported by outstanding vocal harmonies.

The album’s central section maintains the high standard. “The Illusionist (Raise The Curtain)” embraces a more theatrical approach, inevitably inviting comparisons with early Avantasia. Nevertheless, Evermore avoid mere imitation by injecting the song with their own personality. The use of bell-like keyboard textures adds an extra layer of drama, while the drumming stands out not only for its precision but also for the creativity of its fills and accents.

“Armored Will” showcases a more aggressive side of the band. With fewer vocal embellishments and a stronger emphasis on riff-driven songwriting, the track builds an effective bridge between traditional heavy metal and modern power metal. This shift in perspective contributes to the album’s diversity and helps prevent the sense of repetition that often affects overly homogeneous releases within the genre.

“Ravens At The Gates” follows a similar path, initially flirting with traditional heavy metal before revealing its true power metal nature through a soaring and highly melodic chorus. The influence of bands such as Primal Fear can be heard in the muscular guitar work and riff construction, yet the song maintains its own identity thanks to its strong melodic focus.

The title track represents the album’s most ambitious and aggressive moment. “Mournbraid” pushes beyond the traditional boundaries of power metal, occasionally flirting with the melodic death metal of classic-era In Flames and even the ferocity of German thrash legends Kreator and Destruction. Despite this broad range of influences, the song never loses sight of its melodic core. The result is one of the album’s most complex and impressive compositions, with particularly outstanding performances from both the rhythm section and the guitarists.

Closing the special edition, bonus track “Old Man’s Tale” provides a welcome contrast. The ballad combines piano, symphonic keyboards, and an emotionally charged vocal performance, serving as an elegant epilogue after the intensity of the preceding journey.

More than a celebration of power metal’s classic elements, Mournbraid demonstrates that Evermore possess the talent and vision required to engage with the genre’s legacy without becoming constrained by it. While the influences are clear, the band successfully integrates them into a distinctive identity built on strong songwriting, exceptional musicianship, and first-class production. In a landscape often saturated by formulaic releases, Evermore deliver a vibrant, inspired, and remarkably consistent record—one of the strongest European power metal albums of 2026.

Magnus Högfeldt

terça-feira, 9 de junho de 2026

Godthrymm: Doom Complexo e Profundo

 


Texto Por: Fernanda Luísa 

A banda GODTHRYMM foi formada em 2017, em Halifax na Inglaterra,  e traz neste seu novo álbum, “Projections”, o terceiro da banda, uma consolidação de um time que conta com veteranos do Doom Metal inglês,  como Hamish Hamilton Glencross e Shaun Taylor-Steels, cujos currículos exibem nomes como: My Dying Bride, Anathema, Solstice, Vallenfyre.

E expandindo esse time, temos Bob Crolla ("Sasquatch Bob") no baixo, além disso a banda enriqueceu sua sonoridade adicionando Catherine Glencross (teclados e vocais) e, mais recentemente, Kris McLaughlin (guitarras). 

Com uma sonoridade bem trabalhada e com influências das bandas citadas acima, é notório a qualidade e todo o cuidado com cada faixa, cada linha instrumental, resultando em um Doom Metal complexo, e profundo, e provavelmente no álbum mais agressivo do grupo.

A bateria tem uma pegada bem cadenciada,  e os vocais marcantes se destacam, inclusive tendo lindas partes em que Catherine Glencross nos brinda com sua voz.  O contrabaixo muito preciso e guitarras em tons de afinações originais, ainda assim, lembrando as influências musicais que já esperamos dentro do estilo.

Com seu Doom da escola inglesa, nos submerge em sonoridades oníricas, com as letras que nos levam para uma grande reflexão sobre nossos próprios pensamentos sobre a vida, as perdas, e até mesmo a esperança.


Destaco músicas como: “The Sun Never Fell”, com sua beleza melancólica, onde os vocais mais limpos e melodiosos dos Glencross se complementam; "Endure My Skin”, que traz como convidado Aaron Stainthorpe, o que dá ainda mais possibilidades nas variações vocais em meio a densidade soturna, etérea e também agressiva; e “Jewels”, destacando as tocantes melodias no piano e guitarras pesadas, que criam a cama perfeita para os vocais de Catherine, que soam ora suaves, ora dramáticos.

Como um todo,  “Projections” é notório e merece a atenção devida aos fãs e novos ouvintes. 



********ENGLISH VERSION**********

The band GODTHRYMM was formed in 2017 in Halifax, England, and their new album, "Projections," their third, consolidates a lineup that includes veterans of English Doom Metal such as Hamish Hamilton Glencross and Shaun Taylor-Steels, whose resumes boast names like My Dying Bride, Anathema, Solstice, and Vallenfyre.

Expanding this lineup is Bob Crolla ("Sasquatch Bob") on bass. Furthermore, the band has enriched its sound by adding Catherine Glencross (keyboards and vocals) and, more recently, Kris McLaughlin (guitars).

With a well-crafted sound and influences from the aforementioned bands, the quality and care put into each track and instrumental line are evident, resulting in a complex and profound Doom Metal sound, and arguably the group's most aggressive album yet.

The drums have a well-paced rhythm, and the striking vocals stand out, including beautiful parts where Catherine Glencross delights us with her voice. The bass is very precise, and the guitars are in original tunings, still reminiscent of the musical influences we've come to expect from the style.


With its English-school Doom, it immerses us in dreamlike sounds, with lyrics that lead us to a deep reflection on our own thoughts about life, loss, and even hope.

I highlight songs like: "The Sun Never Fell," with its melancholic beauty, where the cleaner and more melodic vocals of the Glencross complement each other; "Endure My Skin," which features Aaron Stainthorpe as a guest, giving even more possibilities for vocal variations amidst the somber, ethereal, and also aggressive density; and "Jewels," highlighting the touching melodies on the piano and heavy guitars, which create the perfect bed for Catherine's vocals, which sound sometimes soft, sometimes dramatic.

Overall, "Projections" is noteworthy and deserves the attention it receives from fans and new listeners alike.


Selo: Profound Lore Records

TRACKLIST:
1. Trenches Deep
 2. Truth In My Own
 3. The Sun Never Fell
 4. Endure My Skin
 5. Jewels
 6.Hope Is Eternal




Epitaph: Imprimindo Sua Identidade em um Metal Contemporâneo sem Perder Raizes

 


Completando seus 26 anos de existência, mas com músicos com uma bagagem ainda maior, a banda Epitaph, de Porto Alegre (RS), lançou recentemente seu segundo full-lenght, "Digital Screams", 17 anos após seu debut. Um tempo bem razoável, mas sabemos das dificuldades e riscos que uma banda independente corre para lançar material, e ainda um álbum completo e em formato físico.

Bom, a espera valeu a pena, e com o álbum físico em mãos, pude sentir mais precisamente a evolução de "Digital Screams" com relação ao seu antecessor, "Gettin Down to Business" (2010), e é o que se espera, e o que creio que todo artista busca: evoluir com relação a si mesmo.

Sim, o Heavy Metal tradicional da Epitaph ganhou ainda mais contornos Thrash, enriquecendo o som com mais pegada, e ainda trazendo elementos do Hard, Southern e Classic Rock com essa roupagem contemporânea e muito coesa.

A bela arte gráfica já chama a atenção, e quando o CD começa a rodar, também já se percebe a qualidade da produção sonora, e em seguida das composições, onde podemos ver que a banda foi maturando um trabalho de alta qualidade, dispondo de toda a experiência e entrosamento adquiridos nesses anos todos.

Sobre a arte, feita por Rômulo Dias e com projeto gráfico de Juliana Louis e fotos de Diogo Nunes, traz na capa o personagem que aparece no primeiro álbum, e na foto da banda no encarte, podem ser encontradas diversas referências à cultura pop, Rock, Metal e outras, coisas que fizeram e fazem parte da vida dos músicos.

Na parte lírica, a Epitaph contou novamente com letras do escritor Denis Winston Brum, que aborda de forma crítica e ácida vários temas atuais.  Ainda há a participação especial de Gustavo Demarchi, da banda brasileira de Rock Progressivo Apocalypse, na faixa-título, onde, além de colaborar com a letra, novamente divide vocais com Joe F. Louder, a exemplo de “Death Belt”, do álbum de estreia.

A produção, por Lucas Santorum, está excelente, realçando essa evolução da banda, que soa contemporânea e ainda mais pesada, mas sem perder as raízes. 

"Digital Screams" traz oito faixas, apresentando alto nível. Dinâmico e empolgante, é daqueles albums em que ouvimos sem pular nenhuma faixa, e quando chega ao fim, já dá vontade de ouvir de novo!

Acho que para expressar bem o que senti no momento em que coloquei o álbum no player, foi como um nocaute! "Loser's Life" entra com uma introdução pesada, para em seguida os riffs e a pegada da cozinha te acertarem em cheio! J. Louder ataca com vocais agressivos e altos, e já nesta abertura podemos perceber claramente a pegada mais pesada e Thrash, trazendo à mente aqueles grandes nomes da Bay Area. 

Riffs cortantes, andamento dinâmico, refrão marcante e solos que alternam velocidade e técnica, com precisos wha-whas. Bateção de cabeça garantida. Grande abertura.

E sem tempo de recuperar o fôlego, o riff marcante de "The Girl Who Loved the Dead" já prende de imediato. A primeira faixa apresentada de "Digital Screams", com o lançamento do vídeo dia 09/05, traz riffs em profusão, guitarras nervosas e com variações de andamento, ora com trechos mais rápidos, ora com outros mais cadenciados e carregadas de peso. 

E seguindo o tema da letra e vídeo, há uma passagem que traz aquele clima de mistério e tensão. 

Na sequência, a auto intitulada “Epitaph”, que inicia com uma citação a Allan Poe, tem andamento mais arrastado e carregada de groove. Riffs marcantes e a cozinha trazendo peso e precisão,  com Fábio Figueiredo mostrando peso e refino nos graves, e César “Five” pesando a mão e também mostrando sua versatilidade. Baterias “reais”, daquelas da escola de mestres como Paice.

Abro parênteses para ressaltar as variações e arranjos elaborados nas linhas vocais, guitarras e cozinha, algo que é recorrente nas oito faixas, mostrando todo o cuidado e trabalho que a banda dedicou, alcançando um alto nível. 

Road of Fire”, uma das minhas favoritas , segue mantendo o nível lá em cima, dando uma pisada no acelerador, trazendo slide guitars, riffs e refrão marcantes, algo também recorrente no álbum. O groove se une ao peso, com alternância desses trechos que trazem a malícia do Hard e Southern Rock contemporâneo, com passagens mais agressivas, e Joe Louder mais uma vez traz linhas versáteis, com agudos estilo Halford. 

E as guitarras…ah as guitarras! Trabalho impecável, com a dupla Marlon e André Canhoto destilando peso, técnica, melodia e criatividade nas bases, arranjos, solos e riffs. Ambos, assim como os demais músicos, trabalham em prol das composições, dosando precisamente e tendo o protagonismo quando a música pede. 

E esse parágrafo acima usei para introduzir a faixa título, e outra das minhas favoritas. Um excelente cartão de visitas para apresentar a alguém o álbum, e corroborar o que falei acima. “Digital Screams”, uma das duas faixas mais longas do álbum, é uma paulada na orelha do início ao fim. 

Traz a participação e letra de Gustavo Demarchi, que divide os vocais com Joe, e a inspiração lírica foi a polarização política acirrada nas redes sociais, além do avanço da tecnologia de Inteligência Artificial (IA), com suas polêmicas, prós e contras, defensores e opositores. 

Carregada de urgência, a música nos transmite um clima de tensão, com seu andamento cadenciado, climático e pesadíssimo. O dueto entre Demarchi e Louder soa como um discurso de alerta, com interpretações cheias de teatralidade e aflição. 

A dupla de guitarras nos trazem riffs solos que enfatizam essa tensão, seja quando atuam individualmente, ou nos momentos que dividem as melodias e soam gêmeas. 

Depois dessa tensão e peso, novamente a banda dá uma pisada no acelerador em “National Guard”, uma faixa dinâmica, de riffs rápidos e cortantes, destacando o groove no refrão, os wha-whas novamente dando as caras com destaque, e as melodias Heavy Tradicional que surgem após os solos. 

Realmente, a banda reuniu com coesão os elementos de Heavy Metal Tradicional, Thrash e as influências individuais neste álbum. 

National Guard” é um bom exemplo, pois por mais que soe Heavy Metal naquela linha Judas (que, convenhamos, é sinônimo de Metal), há esses outros elementos, e claro, ao final criam a marca pessoal da Epitaph. 

A letra, a exemplo da faixa título, também aborda as questões do uso das redes sociais e ferramentas virtuais para fins escusos, como perpetuar fake news e discursos de ódio. "O Captain, my Captain, you teach me to hate..."

E na faixa seguinte, nada de tirar o pé do acelerador. “Something Better than God” tem pegadas de Heavy Metal tradicional, mas seguindo essa marca pessoal que a banda imprimiu, mesclando com coesão as suas inspirações. 

Destaque para os vocais agressivos e lá em cima de Joe, numa linha Halford/Bobby Blitz. E claro, preste atenção nas letras ácidas do álbum. Em "Something...", temos uma crítica ao uso da religião em benefício próprio, idolatria e venda, literal, de ilusões.

Fechando, temos “Blue Cave”. E na primeira audição do álbum pensei: “Já é a última!?!?” 

Isso mostra a dinâmica e a qualidade do disco, que jamais cansa o ouvinte, daqueles álbuns de se ouvir sem pular uma faixa.

Blue Cave”, mais uma das minhas favoritas, segue o ritmo mais acelerado, com o baixo fazendo a intro, para em seguida os riffs entrarem pesadíssimos e com César sentando a mão sem dó no seu kit. 

Aqui acho que temos um dos refrãos mais marcantes do álbum. E para quem não é de Porto Alegre e região, “Blue Cave” é uma famosa boate da capital.  A história da letra é tipo, digamos, estilo "Don't Stop Believing", mas com uma realidade mais dura, onde a garota da cidade pequena acaba seguindo caminhos não tão sonhados inicialmente.

Para situar o ouvinte, posso dizer que ela soa como um Judas Priest com pegada mais thrash. E claro, destaque para as variações vocais de Joe, e os excelentes solos, novamente tendo o uso de wha-whas, mesclando melodia e tensão, e ainda o violão “Southern” com que a faixa vai se despedindo.

Ufff! Agora é recuperar o fôlego e colocar para rodar de novo! Discaço de Metal!

Concluindo, ressalto novamente a evolução da banda, materializada e registrada em "Digital Screams", um ótimo álbum de Metal, pesado, orgânico e contemporâneo, sem perder as raízes.


Texto: Caco Garcia
Fotos: Divulgação, Vinny Vanoni

Epitaph é:
Joe F. Louder: Vocais 
César Five: Bateria 
Fábio Figueiredo: Baixo
Marlon Steindorff: Guitarras
André "Canhoto" Carvalho: Guitarras

Adquira o CD físico via direct no Instagram da Epitaph 









segunda-feira, 8 de junho de 2026

Spread Eagle: Rebeldia Em Alto Volume (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)
Por Flavio Borges

Após um longo intervalo entre lançamentos de estúdio, o Spread Eagle retorna com The Brutal Divine, seu quarto álbum e um novo capítulo na trajetória de uma das bandas mais autênticas do hard rock norte-americano. Lançado pela Frontiers Music Srl, o disco canaliza toda a energia acumulada em anos de estrada e a transforma em uma coleção de canções que equilibram peso, melodia e atitude. Com uma abordagem mais sombria e agressiva, sem abandonar suas raízes, a banda entrega um trabalho que reafirma sua relevância no cenário atual e demonstra que ainda há muito combustível em seu tanque criativo.

A abertura com “Flat Earth Vultures” é envolta em uma atmosfera intrigante. A introdução, construída gradualmente por guitarras e vocais carregados de suspense, desemboca em um hard rock cru e vigoroso. O refrão surge de forma direta e eficiente, enquanto a guitarra assume papel central durante toda a execução, alternando momentos de agressividade e melodia. O solo, sustentado por uma base sólida de baixo e bateria, evidencia a qualidade técnica da banda sem comprometer a energia visceral da composição.

Com forte influência punk, “Street Noise” surge como um dos momentos mais diretos do álbum. Rápida, agressiva e desprovida de excessos, a faixa se apoia em uma seção rítmica simples, porém extremamente eficaz. O solo de guitarra acrescenta um toque de hard rock à estrutura essencialmente punk, criando um interessante contraste entre os dois universos.

“Gunflower” amplia essa fusão de estilos ao incorporar elementos mais evidentes do heavy metal. Enquanto os versos são sustentados por riffs robustos e uma abordagem mais metálica, o refrão mergulha de cabeça na urgência e na simplicidade do punk rock. O trabalho de baixo merece destaque especial, conferindo peso e profundidade à composição. Em determinados momentos, os timbres de guitarra evocam claramente a influência do Motörhead, reforçando a identidade híbrida da faixa.

Em “Jail Rat”, o grupo mantém a energia punk, mas investe em uma construção mais elaborada. Pequenos solos surgem ao longo da música, enriquecendo os arranjos sem comprometer a agressividade da proposta. As passagens em que a velocidade diminui aproximam a composição do heavy metal tradicional, enquanto os efeitos aplicados aos vocais de Ray West acrescentam uma camada moderna que contrasta com a crueza normalmente associada ao punk. Mais uma vez, a guitarra se destaca como protagonista absoluta.

A cadenciada “Forbidden Local Honey” oferece uma mudança de dinâmica bem-vinda. Com uma batida quase tribal e uma rica textura de guitarras, a faixa se aproxima mais do hard rock clássico, embora mantenha traços do espírito punk que permeia o álbum. Os backing vocals reforçam o apelo melódico do refrão, enquanto o baixo ganha protagonismo ao conduzir os versos e sustentar o solo com notável competência.

A grande surpresa do disco talvez seja “Pushed To The Limit”. Com forte inspiração no hard rock e no heavy metal dos anos 70, a música remete aos primeiros trabalhos do Judas Priest. Os riffs são diretos e marcantes, a seção rítmica mantém tudo firmemente ancorado, e os vocais exploram melodias que remetem ao estilo clássico de Rob Halford. O solo, mais técnico e veloz, representa um dos pontos altos do álbum.

Quando surge “Ant Farm”, o Spread Eagle quebra completamente as expectativas. A música incorpora timbres contemporâneos, guitarras mais densas e uma produção que dialoga diretamente com o metal alternativo e o grunge dos anos 90. É uma das faixas mais ousadas do trabalho, mostrando que a banda não está interessada apenas em revisitar fórmulas do passado, mas também em expandir seu vocabulário musical.

“Scars In Our Eyes (City Kids)” equilibra tradição e modernidade de forma particularmente eficiente. O baixo aparece em destaque logo na introdução, conduzindo uma composição de andamento moderado e forte apelo melódico. As harmonizações vocais são cuidadosamente trabalhadas e o solo surge no momento exato, acrescentando intensidade sem quebrar a atmosfera construída pela música.

“Inside A Shrunken Head” representa o mergulho definitivo no punk rock. Direta, veloz e sem concessões, a faixa remete ao hardcore nova-iorquino do início dos anos 90. É uma composição construída para o impacto imediato, com poucas mudanças de andamento e foco total na energia bruta. Ainda assim, a presença de um solo bem elaborado impede que a música se torne excessivamente previsível.

Encerrando o álbum, “Makebeliever” funciona como uma síntese perfeita da proposta artística de The Brutal Divine. A música transita naturalmente entre heavy metal, punk rock e hard rock, reunindo em poucos minutos todos os elementos explorados ao longo do disco. O resultado é uma conclusão coerente para um trabalho que faz da mistura de estilos sua principal identidade.

Mais do que um simples retorno, The Brutal Divine apresenta um Spread Eagle revitalizado e disposto a desafiar expectativas. A combinação de hard rock, heavy metal e punk rock não busca agradar a todos os públicos — e talvez seja justamente essa sua maior virtude. Trata-se de um álbum que exige uma audição aberta, disposto a cruzar fronteiras estilísticas sem pedir licença. Em um cenário frequentemente dominado por bandas que reproduzem fórmulas consagradas, o Spread Eagle entrega um trabalho com personalidade, coragem e autenticidade. Nem todas as experiências propostas pelo disco atingem o mesmo nível de excelência, mas sua recusa em seguir caminhos previsíveis torna The Brutal Divine uma audição relevante e, acima de tudo, genuína.


***ENSLIGH VERSION***

After a lengthy gap between studio releases, Spread Eagle returns with The Brutal Divine, its fourth studio album and a new chapter in the career of one of American hard rock’s most authentic bands. Released through Frontiers Music Srl, the record channels years of road-tested energy into a collection of songs that balance heaviness, melody, and attitude. Embracing a darker and more aggressive approach without abandoning its roots, the band delivers a work that reaffirms its relevance in today’s scene and proves there is still plenty of fuel left in its creative tank.

Opening track “Flat Earth Vultures” arrives wrapped in an intriguing atmosphere. Built gradually through suspenseful guitar work and haunting vocal lines, the introduction eventually erupts into a raw and vigorous hard rock assault. The chorus is immediate and effective, while the guitar takes center stage throughout the song, shifting effortlessly between aggression and melody. Supported by a solid bass-and-drums foundation, the solo showcases the band’s technical prowess without sacrificing the visceral energy that drives the composition.

With a strong punk influence, “Street Noise” stands out as one of the album’s most straightforward moments. Fast, aggressive, and stripped of unnecessary embellishments, the track relies on a simple yet highly effective rhythm section. The guitar solo injects a dose of hard rock flair into an otherwise punk-oriented framework, creating an engaging contrast between the two worlds.

“Gunflower” expands this stylistic fusion by incorporating more overt heavy metal elements. While the verses are driven by robust riffs and a distinctly metallic approach, the chorus dives headfirst into the urgency and simplicity of punk rock. The bass performance deserves special recognition, adding both weight and depth to the arrangement. At times, the guitar tones evoke the unmistakable influence of Motörhead, reinforcing the track’s hybrid identity.

On “Jail Rat” the band maintains its punk energy while opting for a more elaborate construction. Short guitar leads appear throughout the song, enriching the arrangements without compromising the raw aggression at its core. Slower passages bring the composition closer to traditional heavy metal territory, while the vocal effects applied to Ray West’s performance add a modern layer that contrasts with the roughness typically associated with punk. Once again, the guitar emerges as the song’s dominant force.

The more measured “Forbidden Local Honey” provides a welcome shift in dynamics. Driven by a nearly tribal beat and rich guitar textures, the track leans more toward classic hard rock while retaining traces of the punk spirit that runs throughout the album. The backing vocals enhance the melodic appeal of the chorus, while the bass takes on a leading role, guiding the verses and underpinning the solo with remarkable confidence.

Perhaps the album’s biggest surprise is “Pushed To The Limit”. Drawing heavily from the hard rock and heavy metal sounds of the 1970s, the song recalls the early work of Judas Priest. The riffs are direct and memorable, the rhythm section keeps everything firmly grounded, and the vocal melodies echo the classic style associated with Rob Halford. The faster, more technical solo ranks among the album’s standout moments.

When “Ant Farm” arrives, Spread Eagle completely shifts expectations. The song embraces contemporary tones, denser guitar textures, and a production style that speaks directly to alternative metal and the grunge movement of the 1990s. It is one of the album’s boldest compositions, demonstrating that the band is not merely interested in revisiting past formulas but also in expanding its musical vocabulary.

“Scars In Our Eyes (City Kids)” balances tradition and modernity with notable effectiveness. The bass takes center stage from the outset, driving a mid-tempo composition rich in melodic appeal. The vocal harmonies are carefully crafted, and the solo arrives at precisely the right moment, adding intensity without disrupting the atmosphere established by the song.

Meanwhile, “Inside A Shrunken Head” represents the album’s most uncompromising dive into punk rock. Fast, direct, and unapologetic, the track evokes the spirit of early-1990s New York hardcore. Built for immediate impact, it features few tempo changes and remains focused on sheer energy. Even so, a well-executed guitar solo prevents the song from becoming overly predictable.

Closing the album, “Makebeliever” serves as a perfect summary of The Brutal Divine’s artistic vision. The song flows naturally between heavy metal, punk rock, and hard rock, bringing together all the elements explored throughout the record. The result is a fitting conclusion to an album whose defining characteristic is its seamless blending of styles.

More than just a comeback, The Brutal Divine presents a revitalized Spread Eagle willing to challenge expectations. Its combination of hard rock, heavy metal, and punk rock is not designed to please everyone—and that may well be its greatest strength. This is an album that demands an open-minded listener, one willing to embrace stylistic boundaries being crossed without hesitation. In a landscape often dominated by bands content to recycle established formulas, Spread Eagle delivers a work of personality, conviction, and authenticity. Not every experiment reaches the same level of success, but the band’s refusal to follow predictable paths makes The Brutal Divine a compelling and, above all, genuine listening experience.

Keith Celentano