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| Long Branch Records (Imp.) |
Por Stephanie Ferreira - @instephanie
Existem bandas que transformam a agressividade em identidade. Outras conseguem fazer dela uma linguagem para falar sobre aquilo que nem sempre sabemos como expressar. O John Coffey pertence às duas categorias. Em Not Alone, seu sexto álbum de estúdio, o quinteto neerlandês transforma guitarras abrasivas, vocais intensos e ritmos acelerados em um trabalho que fala de resistência, empatia e conexão humana. São dez faixas distribuídas em pouco mais de 30 minutos, sem espaço para grandes desvios, mas com algumas mudanças de dinâmica que impedem o disco de se tornar apenas uma sequência de pancadas.
Lançado pela Long Branch Records, o álbum chega depois do retorno da banda às atividades, iniciado com FOUR, de 2023, após um hiato de aproximadamente sete anos. Em vez de tentar recuperar o passado nota por nota, o John Coffey retoma os elementos que ajudaram a construir sua identidade e os coloca a serviço de um repertório que alterna urgência punk, peso hardcore, melodias de rock alternativo e passagens de sensibilidade grunge. Essa combinação também aparece nas primeiras avaliações internacionais, que destacam tanto a energia instrumental quanto a capacidade do grupo de abrir espaço para refrões mais acessíveis.
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| Nick Helderman |
1. Hang the Choir
A abertura é um dos momentos mais eficientes do disco. Os riffs têm um ataque quase imediato, enquanto as mudanças de voz ampliam a impressão de que a música está sendo construída por várias pessoas, e não apenas conduzida por um vocalista. Essa dimensão coletiva combina com o tema da faixa, que aborda a defesa de quem sofre preconceito ou é tratado como alguém que não pertence ao ambiente ao redor.
A composição não precisa de uma introdução longa para estabelecer sua identidade. O John Coffey aposta em uma estrutura compacta, com energia suficiente para imaginar a música funcionando como um dos pontos de explosão de um show. A melodia ajuda a fixar o refrão, mas as guitarras preservam a aspereza necessária para que a mensagem não soe domesticada.
2. Not Alone
A faixa-título representa uma das decisões mais importantes do álbum: desacelerar depois de uma abertura tão explosiva. Em vez de continuar na mesma direção, o John Coffey reduz a pressão instrumental e deixa a melodia ocupar o primeiro plano. A voz de David Achter de Molen ganha uma característica mais aberta e emocional, com uma abordagem que aproxima a música do grunge e do rock alternativo.
O contraste funciona porque a delicadeza não parece artificial. A faixa foi escrita em memória de Niels van den Ham, amigo da banda que morreu por suicídio, e transforma essa perda em um chamado à escuta, à compreensão e à importância de procurar conexão quando a vida se torna difícil. A própria banda apresentou a música como uma lembrança de que aquilo que sentimos não precisa ser enfrentado em isolamento.
Esse contexto muda a maneira como o refrão é recebido. A mensagem aparece como o centro emocional de um disco que entende a música pesada como espaço de acolhimento. Em um álbum relativamente curto, a faixa-título também funciona como ponto de equilíbrio: ela dá profundidade ao que veio antes e prepara o ouvinte para as mudanças de dinâmica que ainda estão por vir.
3. Push Push Push
Se “Not Alone” abre uma janela para o lado mais vulnerável da banda, “Push Push Push” volta a fechar os punhos. A música recupera o caráter físico do álbum com riffs angulares, mudanças de acentuação e uma sensação de urgência que mantém o ouvinte em alerta.
O trabalho das guitarras merece atenção. Em vez de depender exclusivamente de acordes pesados e velocidade, a faixa utiliza pequenas quebras e movimentos menos previsíveis para criar tensão. Essa abordagem aproxima o John Coffey de uma tradição de hardcore que valoriza tanto a força do impacto quanto a personalidade do riff.
A composição pode parecer caótica em uma primeira aproximação, mas existe organização por trás dessa impressão. Os elementos se encaixam para produzir uma descarga de energia controlada, e a curta duração evita que a ideia perca força. É uma das faixas que melhor representam o lado mais agressivo do álbum.
4. It's You
“It's You” muda novamente a temperatura do disco. As guitarras continuam pesadas, mas as melodias assumem uma importância muito maior, aproximando a faixa do rock alternativo e de uma tradição de refrões amplos, feitos para serem cantados em conjunto.
A voz de Achter de Molen funciona especialmente bem nesse contexto. Sua interpretação mantém a aspereza característica do grupo, mas deixa espaço para uma entrega mais melódica. O resultado é uma música que não precisa abandonar o peso para alcançar um público mais amplo.
5. Do Not Teach
A calmaria relativa não dura muito. “Do Not Teach” recupera uma postura mais confrontadora e aposta em uma sonoridade que mistura o peso do hardcore com elementos menos convencionais. A presença de uma sirene e de um coro infantil acrescenta estranheza à composição, criando uma atmosfera que contrasta com a agressividade das guitarras.
A ideia é interessante porque amplia a paleta sonora do disco sem afastar a banda de suas raízes. Ao mesmo tempo, é um dos momentos em que a execução parece menos coesa. A introdução tem impacto, mas a transição para o restante da faixa não desenvolve todo o potencial daquela escolha inicial. A música continua pesada, embora a estrutura não seja tão convincente quanto a das melhores composições do álbum.
6. Call of the Bear
“Call of the Bear” é uma das composições mais frenéticas do álbum. A bateria acelera, os riffs se acumulam e a faixa parece constantemente prestes a ultrapassar os próprios limites. O resultado é um dos momentos mais próximos do hardcore caótico e do mathcore, com mudanças de ritmo que tornam a experiência menos linear.
O contraste entre passagens aceleradas e trechos mais melódicos impede que a música se resuma à velocidade. Existe uma preocupação em construir um refrão reconhecível, embora a composição por vezes exagere na insistência de sua mensagem de superação. A intenção é clara, mas algumas escolhas acabam tornando o resultado um pouco mais óbvio do que o restante do álbum.
Ainda assim, instrumentalmente, a faixa é um destaque. O John Coffey demonstra como pode transitar entre o caos e a melodia sem perder completamente o controle. É o tipo de composição que deve ganhar outra dimensão quando executada diante de um público disposto a transformar cada mudança rítmica em movimento.
7. I Don't Care, I Won't Give Up On You
Depois da intensidade de “Call of the Bear”, a sétima faixa apresenta uma mudança de textura. A influência do grunge aparece com mais clareza, tanto no peso das guitarras quanto na atmosfera emocional da composição. A música mantém uma base robusta, mas a interpretação vocal ganha um tom mais vulnerável, criando um contraste interessante com o título, que sugere insistência e compromisso.
É uma das faixas em que a dimensão afetiva do álbum aparece sem depender de uma balada tradicional. O John Coffey não abandona o volume nem transforma a composição em um intervalo contemplativo. Em vez disso, utiliza a melodia para revelar outro lado da mesma intensidade presente nas músicas mais rápidas.
8. Time Is Up Now
Com “Time Is Up Now”, o John Coffey volta a acelerar. A faixa é direta, inquieta e construída para manter o movimento constante, com uma combinação de riffs insistentes e ganchos melódicos que tornam a música mais memorável do que uma simples explosão de energia.
A sensação é de urgência: a bateria não deixa o arranjo se acomodar, enquanto as guitarras conduzem a composição para a frente. O refrão, por sua vez, cria um contraponto interessante à velocidade, oferecendo um ponto de apoio que o ouvinte consegue reconhecer mesmo em meio à intensidade instrumental.
9. Hope In – Fear Out
O título já aponta para uma ideia de transformação, e a música traduz essa perspectiva em uma composição movida por riffs pesados, ritmo firme e uma energia afirmativa. “Hope In – Fear Out” não tenta soar contemplativa; sua esperança é apresentada como algo que exige ação, movimento e disposição para enfrentar aquilo que paralisa.
A faixa funciona como uma síntese temática de Not Alone. Depois de músicas que exploram vulnerabilidade, confronto e apoio mútuo, o John Coffey retorna ao peso para construir uma mensagem de resistência. A sonoridade continua agressiva, mas a composição não é tão sombria quanto algumas das faixas anteriores.
10. All Bark, No Bite
O encerramento escolhe uma solução diferente da abertura. Em vez de terminar com a maior velocidade possível, “All Bark, No Bite” trabalha com contrastes entre passagens mais contidas e momentos de maior intensidade. As guitarras alternam tensão e abertura, enquanto os riffs apresentam pequenas mudanças que dão personalidade à composição.
A dinâmica entre peso e suavidade funciona como uma espécie de resumo do disco. O John Coffey demonstra que, às vezes, a força está justamente no espaço deixado entre uma explosão e outra.
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| Nick Helderman |
Confira a tracklist completa:
1. Hang the Choir
2. Not Alone
3. Push Push Push
4. It's You
5. Do Not Teach
6. Call of the Bear
7. I Don't Care, I Won't Give Up on You
8. Time Is Up Now
9. Hope In – Fear Out
10. All Bark, No Bite




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