quinta-feira, 16 de abril de 2026

Robin Beck: A Consistência De Uma Que Desafia o Tempo (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Com uma carreira sólida e respeitada dentro do melodic rock, Robin Beck retorna com Living Proof, seu 11º álbum de estúdio, reafirmando não apenas sua longevidade artística, mas também sua capacidade de se manter relevante em um cenário cada vez mais competitivo. Lançado pela Frontiers Music Srl, o trabalho equilibra com precisão a tradição do AOR com uma produção contemporânea, sustentado por uma performance vocal marcante, por colaborações de peso como James Christian(House of Lords) e Tommy Denander (Radioactive), por melodias cativantes, arranjos bem construídos e, sobretudo, pela interpretação sempre marcante da cantora.

A faixa-título abre o disco de forma assertiva, estabelecendo imediatamente o tom do álbum: refrões fortes, guitarras bem posicionadas e uma performance vocal segura e expressiva. Na sequência, “Love and Money” acrescenta peso ao repertório com uma pegada mais hard rock, destacando o diálogo entre riffs encorpados e um refrão de apelo coletivo.

“Trouble or Nothing” introduz nuances mais modernas, com elementos eletrônicos sutis e uma condução mais cadenciada, enquanto “What A Night” resgata o lado mais emotivo do gênero em uma power ballad que cresce progressivamente, ancorada em piano, camadas de teclado e uma interpretação vocal versátil.

O clima mais introspectivo surge em “Karma”, uma das faixas mais densas do álbum, onde Beck explora diferentes nuances interpretativas em meio a uma atmosfera mais sombria. Já “Never Gonna Let You Go” aposta em uma abordagem mais clássica, com forte influência gospel perceptível nos arranjos vocais e na construção do refrão.

A descontração aparece em “Na Na Na”, um hard rock direto e descomplicado, centrado em riffs de guitarra e com um refrão de fácil assimilação. Em contrapartida, “Voodoo” se destaca pela ousadia, incorporando elementos rítmicos e timbres pouco usuais ao longo do álbum, resultando em uma faixa que, apesar da diversidade, mantém coesão com o conjunto.

Na reta final, “Don’t Tempt Me” retoma o DNA clássico do melodic rock, com destaque para a dinâmica entre vocais e instrumentação, além de um solo de guitarra bem encaixado. O encerramento fica por conta de “Let It Rain”, que combina elementos eletrônicos e orgânicos em uma construção crescente, culminando em um refrão marcado por influências gospel e forte carga emocional.

No balanço geral, Living Proof cumpre exatamente o que seu título sugere: é uma prova concreta da vitalidade artística de Robin Beck. Sem reinventar o gênero, o álbum aposta na consistência, na qualidade das composições e na força interpretativa de sua protagonista para entregar um trabalho sólido, coeso e plenamente alinhado às expectativas dos fãs de melodic rock.

***ENGLISH VERSION***

With a long-established and respected career in melodic rock, Robin Beck returns with Living Proof, her 11th studio album, reaffirming not only her artistic longevity but also her ability to remain relevant in an increasingly competitive landscape. Released via Frontiers Music Srl, the record strikes a careful balance between classic AOR traditions and contemporary production, driven by Beck’s commanding vocal performance, high-profile contributions from James Christian (House of Lords) and Tommy Denander (Radioactive), memorable melodies, well-crafted arrangements, and, above all, her consistently compelling delivery.

The title track opens the album with confidence, immediately setting the tone: strong hooks, well-placed guitars, and a vocal performance that is both assured and expressive. “Love and Money” follows by adding extra weight, leaning more into hard rock territory and highlighting the interplay between muscular riffs and a chant-worthy chorus.

“Trouble or Nothing” introduces a more modern edge, blending subtle electronic elements with a more measured pace, while “What A Night” taps into the genre’s emotional core with a power ballad that gradually builds, anchored by piano, layered keyboards, and a versatile vocal performance.

A more introspective mood emerges with “Karma”, one of the album’s densest tracks, where Beck explores a range of vocal nuances within a darker atmosphere. In contrast, “Never Gonna Let You Go” adopts a more classic approach, with strong gospel influences evident in both the vocal arrangements and the structure of the chorus.

A sense of looseness and fun comes through in “Na Na Na”, a straightforward, no-frills hard rock track driven by guitar riffs and an instantly accessible refrain. Meanwhile, “Voodoo” stands out for its boldness, incorporating unconventional rhythms and textures that, despite their diversity, remain cohesive within the album’s framework.

Towards the closing stretch, “Don’t Tempt Me” revisits the core DNA of melodic rock, with particular emphasis on the dynamic interplay between vocals and instrumentation, alongside a well-executed guitar solo. The album closes with “Let It Rain”, a track that blends electronic and organic elements in a gradual build-up, culminating in a chorus enriched by gospel influences and strong emotional weight.

Overall, Living Proof delivers exactly what its title promises: a clear statement of Robin Beck’s enduring artistic vitality. Without attempting to reinvent the genre, the album relies on consistency, strong songwriting, and the power of its lead performance to offer a solid, cohesive work that fully meets the expectations of melodic rock fans.

William Murray

Dark Hearts: Ecos da NWOBHM, Olhos No Futuro (Also In English)

Pride & Joy Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Veteranos da cena britânica surgida na esteira da NWOBHM, o Dark Heart retorna com Shadow of the Night, um trabalho que não apenas reafirma sua relevância, mas também evidencia uma clara evolução estética. Sob a liderança do membro fundador Alan Clark, agora acompanhado pelo guitarrista Nick Catterick, a banda se distancia das amarras do movimento oitentista para explorar uma sonoridade mais ampla, sofisticada e contemporânea. Com produção de Pete Newdeck e masterização assinada por Harry Hess (Harem Scarem), o álbum apresenta um equilíbrio consistente entre peso, melodia e refinamento técnico.

A abertura com “Light The Flame” já estabelece essa nova direção, mesclando hard rock e metal com forte presença de teclados e uma abordagem que remete ao mercado americano e europeu da segunda metade dos anos 80, sem abrir mão de um toque moderno. Na sequência, “Cold Winter” reforça a veia hard n’ heavy, destacando a versatilidade vocal de Clark e um trabalho de guitarras elegante e melódico.

“End Of Tomorrow” introduz uma atmosfera mais sombria, com claras influências de Black Sabbath, explorando cadência e densidade emocional, enquanto “Hands Of Fate” amplia o espectro sonoro ao incorporar elementos que transitam entre Dio e Dokken, combinando peso, técnica e refrões marcantes.

A acessibilidade melódica ganha força em “Spread Your Wings”, uma das faixas mais radiofônicas do disco, com forte DNA AOR, enquanto “Ride The Highway” flerta com estruturas mais elaboradas, aproximando-se momentaneamente do metal progressivo antes de se firmar como um hino de heavy metal clássico.

“You And I” funciona como uma síntese do álbum, reunindo diferentes nuances estilísticas em uma composição sólida e bem estruturada. Já “Life To Crucify” evidencia o lado mais contemporâneo da banda, com maior protagonismo dos teclados e uma produção que privilegia timbres modernos.

Na reta final, “Eyes Of Light” resgata o equilíbrio entre hard e heavy com um refrão poderoso e arranjos vocais bem trabalhados, enquanto “Mortality” mergulha novamente em atmosferas densas e épicas, evocando a fase Dio do Black Sabbath com personalidade própria. O encerramento com “Burned” sintetiza a proposta do álbum ao combinar elementos eletrônicos sutis com uma base de metal melódico, resultando em um desfecho coeso e envolvente.

Shadow of the Night é, acima de tudo, um álbum de reafirmação e maturidade. Ao mesmo tempo em que honra suas raízes, o Dark Heart demonstra capacidade de adaptação e evolução, entregando um trabalho que dialoga tanto com fãs do hard rock tradicional quanto com ouvintes de metal melódico contemporâneo.

***ENGLISH VERSION***

Emerging from the early ’80s British metal underground and responsible for the cult favourite Shadows of the Night (1984), Dark Heart return with Shadow of the Night, a record that feels less like a nostalgic comeback and more like a statement of intent. Spearheaded by founding member Alan Clark alongside guitarist Nick Catterick, the band steps beyond its NWOBHM roots, embracing a broader, more contemporary sound palette. With production by Pete Newdeck and mastering courtesy of Harry Hess (Harem Scarem), the album strikes a confident balance between classic metal grit, melodic sophistication and modern sheen.

Opening cut “Light The Flame” immediately signals that shift. Rooted as much in mid-’80s American and European hard rock as in traditional metal, the track blends muscular riffing with prominent keyboards and arena-ready vocal hooks, all delivered with a subtle modern edge. “Cold Winter” follows with a stronger hard rock leaning, showcasing Clark’s vocal versatility while pairing tight, punchy rhythms with a refined and melodic solo.

A darker tone emerges with “End Of Tomorrow”, where acoustic textures and keys set a brooding atmosphere before giving way to a slow-burning, Sabbath-esque weight. It’s a pivotal moment that expands the album’s emotional range. That sense of diversity continues with “Hands Of Fate”, a track that channels influences from Dio to Dokken, combining piano-driven passages, metallic riffing and soaring vocal harmonies into a dynamic and technically assured piece.

“Spread Your Wings” delivers one of the album’s most accessible moments — a melodic, AOR-tinged anthem driven by strong vocal arrangements and tasteful guitar work — while “Ride The Highway” initially hints at progressive metal complexity before settling into a more straightforward, yet highly effective, classic metal groove with a memorable chorus.

“You And I” acts as something of a microcosm of the album, shifting seamlessly between hard rock warmth and heavier, Sabbath-inspired passages, all while maintaining a cohesive identity. In contrast, “Life To Crucify” leans heavily into a more modern aesthetic, with keyboards taking centre stage and contemporary production values shaping the track’s overall feel.

Towards the final stretch, “Eyes Of Light” reaffirms the band’s command of the hard ‘n’ heavy formula, built around a strong mid-tempo groove, layered vocals and a powerful, well-crafted solo. “Mortality” dives back into darker territory, evoking the Dio-era Black Sabbath sound with a slightly more hard rock-oriented approach, complete with anthemic choruses and a slow-building, epic solo section.

Closing track “Burned” encapsulates the album’s overarching vision: a fusion of melodic metal, subtle electronic textures and classic hard rock sensibilities. It’s a fitting finale that underlines the band’s ability to evolve without losing sight of its roots.

Ultimately, Shadow of the Night is a record of reinvention and maturity. Dark Heart successfully distance themselves from the constraints of the NWOBHM tag, delivering an album that resonates equally with fans of classic hard rock, traditional heavy metal and modern melodic metal.

Divulgação 




terça-feira, 14 de abril de 2026

Cobertura de Show: Monsters Of Rock – 04/04/2026 – Allianz Parque/SP

Realizado no Allianz Parque, em São Paulo, no dia 04 de abril, o Monsters of Rock chegou à sua nona edição reafirmando seu status como um dos principais festivais do gênero no país. Com um line-up diverso que mesclou nomes clássicos e novas promessas, incluindo Guns N' Roses, Lynyrd Skynyrd, Extreme, Halestorm, Yngwie Malmsteen, Dirty Honey e Jayler, o evento foi conduzido com carisma pelos mestres de cerimônia Eddie Trunk e Walcir Chalas, que ajudaram a manter a energia do público entre as apresentações. Em um dia marcado por grandes performances, estrutura de alto nível e uma verdadeira celebração do rock em suas diferentes vertentes, o festival mais uma vez transformou a capital paulista em ponto de encontro obrigatório para fãs de música pesada.

Abrir um festival do porte do Monsters of Rock nunca é uma tarefa simples, ainda mais quando o público chega aos poucos, sem necessariamente conhecer quem está no palco. Foi nesse cenário que a jovem banda britânica Jayler assumiu a responsabilidade de dar início ao dia e fez isso com segurança e personalidade, transformando um horário ingrato em uma oportunidade de converter curiosos em fãs. A banda, liderada pelo carismático James Bartholomew, deu início com “Down Below” e seguiu com “The Getaway” e “No Woman”. A faixa “Riverboat Queen” explodiu com um solo de gaita visceral, que Bartholomew executou enquanto corria pelo palco. Rolou também uma versão blues de “I Believe to My Soul”, de Ray Charles. O encerramento com “Over The Mountain” e “The Rinsk” manteve a aura setentista do som deles e agradou aos presentes. Ao final, uma coisa fica evidente: a semelhança com o Led Zeppelin, tanto no som quanto no visual. Para quem gosta de algo no estilo dos veteranos do Led Zeppelin, é um prato cheio e bem-feito, mas longe de superar seus mestres.

A segunda atração foi a banda Dirty Honey, entregando uma performance robusta e cheia de atitude. Abrindo com a energia de “Won’t Take Me Alive”, a banda rapidamente cativou o público, seguindo com “California Dreamin’” e “Heartbreaker”, que demonstraram a coesão do quarteto. Um dos momentos mais marcantes da apresentação foi durante “Don’t Put Out the Fire”, quando o carismático vocalista Marc LaBelle desceu ao pit, interagindo diretamente com os fãs e elevando a conexão entre banda e público. A performance continuou com a intensidade de “Another Last Time” e “Lights Out”, que prepararam o terreno para o solo de guitarra de John Notto. Encerrando o show com “When I’m Gone” e “Rolling 7s”, o Dirty Honey deixou uma boa impressão, provando que seu hard rock clássico e sem frescuras é adequado para qualquer público.

A apresentação de Yngwie Malmsteen foi uma verdadeira aula de virtuosismo, desmontando qualquer narrativa de que o guitarrista estaria em baixa. Muito pelo contrário: Malmsteen mostrou-se em ótima forma física e técnica, esbanjando precisão e velocidade. Acompanhado por Nick Marino (teclados e vocal), Emi Martinez (baixo) e o excelente baterista Kevin Klingeschmid, o guitarrista sueco abriu a apresentação com a explosiva “Rising Force”, seguiu com “Top Down, Foot Down” e “No Rest for the Wicked”, não dando trégua: passou por “Soldier”, “Into Valhalla”, “Baroque & Roll”, “Relentless Fury” e a sequência épica “Now Your Ships Are Burned / Caprice no. 24”. O público, em sua maioria fãs de Guns N’ Roses, reagiu de forma um pouco morna no início, mas quem foi para ver shredding puro saiu impressionado com a entrega total do mestre.

O set ainda reservou momentos de puro fogo com “Wolves at Your Door”, o medley sensacional “Paganini 4th / Adagio / Far Beyond the Sun / Bohemian Rhapsody”, “Fire and Ice”, “Evil Eye” e uma versão de “Smoke on the Water”, do Deep Purple, cantada pelo próprio guitarrista. Passando por “Trilogy Suite Op. 5”, “Overture” e “Badinerie”, reforçou suas influências clássicas enquanto parecia brincar com seu instrumento. A reta final com “Black Star” e “I’ll See the Light Tonight” encerrou a apresentação com chave de ouro, deixando claro que, apesar de qualquer percepção externa, Malmsteen continua sendo uma lenda no mundo do metal neoclássico, entregando tudo o que se espera de um verdadeiro virtuose.

Na sequência, o Halestorm subiu ao palco e rapidamente mudou o clima do festival. Liderado pela vocalista e guitarrista Lzzy Hale, o que se viu foi uma força da natureza em ação. Lzzy se entrega de corpo e alma a cada nota, correndo pelo palco, interagindo com o público e usando sua voz, que simplesmente beira o absurdo: potente, versátil e cheia de atitude. Para quem não conhecia a banda, saiu do show absolutamente maravilhado. O set começou forte com “Fallen Star”, “Mz. Hyde”, “I Miss the Misery”, “Love Bites (So Do I)” e “Watch Out!”. No entanto, o ponto alto veio com a sequência de “Like a Woman Can”, “I Get Off” e “Familiar Taste of Poison”. A diversidade das músicas proporcionou uma dinâmica envolvente, na qual Lzzy pôde mostrar todo seu talento com seu potente vocal, ora agressivo, ora delicado, em meio a belas melodias que colocaram o Allianz Parque literalmente aos seus pés. Com o jogo ganho, tocaram a pesada “Rain Your Blood on Me”, culminando em um solo de bateria de Arejay Hale, que arriscou ritmos brasileiros e depois usou baquetas gigantes que mais pareciam cabos de vassoura, chegando até a arrancar algumas risadas do público. Encerraram com “Wicked Ways” e “I Gave You Everything”, não deixando pedra sobre pedra e o público sedento por mais.

É engraçado que, antes do show, algumas pessoas da mídia especializada comentavam que Lzzy era exagerada ou que sua voz poderia irritar; depois da apresentação, todos mudaram completamente de ideia. O Halestorm não apenas conquistou novos fãs, mas também solidificou sua reputação como uma das bandas mais empolgantes e autênticas da atualidade, com Lzzy Hale roubando a cena, incendiando o público e transformando a apresentação em um dos momentos mais marcantes do festival.

Com tudo isso, o Extreme subiu ao palco com uma difícil tarefa e, para ajudar, sob uma forte chuva que fez muita gente correr para se abrigar no estádio. Mas, felizmente, o temporal durou poucos minutos e o show continuou com tudo. Arrisco dizer que o Extreme foi a banda que tocou mais pesado no festival, desmistificando a ideia de que sua carreira se resume à balada “More Than Words”. O vocalista Gary Cherone demonstrou ser um performer nato, enquanto o guitarrista Nuno Bettencourt provou que seu virtuosismo está no mesmo patamar de Malmsteen.

Abriram com “It ('s a Monster)” e “Decadence Dance”, já mostrando que o peso viria forte, e logo entraram em “#Rebel” e “Play With Me” (com a intro de “We Will Rock You”, do Queen). Apesar de o som do P.A. ter caído por alguns segundos, ficou evidente que o grupo vai muito além do rótulo de banda de baladas. O ritmo seguiu intenso com “Am I Ever Gonna Change” e “Thicker Than Blood”, revelando composições pesadas e virtuosas que colocam o Extreme no lugar de destaque que merece.

Mesmo as instrumentais “Flight of the Wounded Bumblebee” e “Midnight Express” empolgaram e serviram para mostrar a técnica de Nuno. E, como não poderia faltar, a balada e hit “More Than Words” fez o estádio vir abaixo, com todos cantando. Despediram-se com o groove contagiante de “Get the Funk Out” e o peso de “Rise”, acabando com qualquer estigma que a banda pudesse ter. Com uma performance intensa, técnica e cheia de personalidade, a banda conseguiu equilibrar peso, groove e virtuosismo, deixando claro que não apenas honra seu legado, mas também segue renovada e pronta para conquistar novas gerações.

Era hora do Lynyrd Skynyrd, e o clima já anunciava que não seria um show qualquer. Havia um consenso claro entre o público: a banda é uma verdadeira instituição do southern rock americano e merecia todo o respeito. E foi exatamente isso que aconteceu. Quando iniciaram com “Workin’ for MCA” e “What’s Your Name”, os fãs deram uma recepção calorosa. A sequência seguiu com clássicos como “That Smell”, “I Need You”, “Gimme Back My Bullets”, “Saturday Night Special” e “Down South Jukin’”, mostrando a banda em ótima forma, entregando o som característico de guitarras gêmeas, groove pesado e atitude que define o Lynyrd Skynyrd há décadas.

O clima ficou ainda mais emocionante quando tocaram “Tuesday’s Gone”, dedicada a Gary Rossington, trazendo um momento de homenagem e respeito, preparando o terreno para um dos pontos mais marcantes da noite: “Simple Man”. Com a bandeira do Brasil projetada no telão e o céu iluminado por um mar de celulares, a canção provocou uma reação intensa do público, com muitos fãs visivelmente emocionados, alguns às lágrimas enquanto cantavam esse hino. A banda seguiu com “Gimme Three Steps” e o cover de J.J. Cale, “Call Me the Breeze”, mantendo o público totalmente envolvido. O ápice chegou com o mega hit “Sweet Home Alabama”, que teve uma breve introdução de “Red, White & Blue”. Nessa hora, ninguém ficou parado. Cheguei até a ver um segurança dançando e curtindo o momento, em uma cena que sintetiza perfeitamente o poder da música, e tudo fez sentido.

Para encerrar, a banda voltou para o encore com a épica “Free Bird”, dedicada aos integrantes que já se foram. A homenagem foi especialmente comovente: imagens de Ronnie Van Zant foram projetadas no telão enquanto a banda tocava, permitindo que o público ouvisse mais uma vez a voz do lendário vocalista junto com a formação atual. Foi uma despedida emocionante, respeitosa e grandiosa, deixando claro porque o Lynyrd Skynyrd continua sendo reverenciado como uma das maiores bandas da história do rock. 

O Guns N’ Roses encerrou com autoridade a edição de 2026 do Monsters of Rock no Allianz Parque. Apenas seis meses após um show histórico no mesmo palco, que registrou o maior público da arena, a banda voltou como headliner do festival e entregou uma apresentação energética, dinâmica e cheia de surpresas. O setlist sofreu mudanças em relação à passagem anterior, tornando a apresentação mais especial para os fãs brasileiros que lotaram o festival. Axl Rose, Slash e Duff McKagan mostraram que o fogo do Guns ainda queima forte no palco.

A abertura com a explosiva “Welcome to the Jungle” já incendiou o público, seguida por “Slither” (do Velvet Revolver) e os clássicos “It’s So Easy”, “Live and Let Die” e “Mr. Brownstone”. A menos óbvia “Bad Obsession” agradou os fãs mais atentos, e então veio “Rocket Queen”, resgatando os bons momentos de Appetite for Destruction. Músicas como “Perhaps”, “Dead Horse”, “Double Talkin’ Jive”, “Nothin’”, “You Could Be Mine” e “Civil War” mostraram como a banda estava soando coesa e pesada. Como todos sabem, a voz do Axl hoje não é mais a mesma, mas é interessante como a percepção no show é bem diferente. Você não tem a sensação de que é a voz do Mickey, como muitos dizem por aí.

Um dos momentos mais marcantes foi a homenagem ao saudoso Ozzy Osbourne, com a faixa “Junior’s Eyes”, do Black Sabbath. Foi uma grata surpresa, e Axl comentou sobre a importância da música no início de sua carreira. Já “Knockin’ on Heaven’s Door”, de Bob Dylan, veio com uma introdução de “Only Women Bleed”, do Alice Cooper, e teve seu refrão cantado em dueto pelo estádio todo. Outro destaque foi “New Rose”, do The Damned, com Duff assumindo os vocais e trazendo uma pegada mais punk para o show.

Do material mais recente, tocaram “Atlas”, que deixou o clima morno, mas logo veio o solo do homem da cartola, que, como sempre, foi um espetáculo à parte, levantando o público e reafirmando seu status de ícone. O clímax veio com “Sweet Child o’ Mine”, aquele mega hit que até quem não gosta de Guns conhece. O estádio veio abaixo, mas não parou por aí. A sequência com “Estranged” e “Bad Apples”, tocada pela primeira vez desde 1991, foi um presente para fãs de longa data, e a monumental “November Rain” levou os fãs à loucura.

O encerramento com a eletrizante “Nightrain” e a apoteótica “Paradise City” foi incrível, com o Allianz Parque cantando junto e pulando. O retorno em poucos meses mostrou que a banda não se apresenta para cumprir tabela e reforçou seu status como uma das maiores bandas de rock da história. Para os fãs paulistanos, foi mais uma prova de que, mesmo com o tempo passando, Axl, Slash e companhia ainda sabem como transformar uma apresentação em uma experiência inesquecível.

A nona edição do Monsters of Rock mostrou mais uma vez sua força ao reunir nomes de diferentes vertentes e gerações, entregando uma experiência rica e dinâmica para o público. De apresentações tecnicamente impecáveis, como a de Yngwie Malmsteen, passando pela energia avassaladora do Halestorm, até a afirmação pesada e virtuosa do Extreme, o festival evidenciou que o rock segue vivo. Os veteranos do Lynyrd Skynyrd  e Guns N Roses são mais do que nostalgia e ainda despertam a paixão que dos fãs. O sangue novo do Jayler e Dirty Honey mantiveram a chama viva do estilo em um dia que certamente ficará marcado na memória de quem esteve presente.


Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Ricardo Matsukawa (exceto Guns N' Roses)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Mercury Concerts



Jayler – setlist:

Down Below

The Getaway

No Woman

Riverboat Queen

Lovemaker

I Believe To My Soul [Ray Charles]

Need Your Love

Over The Mountain

The Rinsk 


Dirty Honey – setlist:

Won't Take Me Alive

California Dreamin'

Heartbreaker

The Wire

Don't Put Out the Fire 

 Another Last Time

Lights Out

Guitar Solo

When I'm Gone

Rolling 7s 

Yngwie Malmsteen – setlist:

Rising Force

Top Down, Foot Down

No Rest For The Wicked

Soldier

Into Valhala

Baroque & Roll

Relentless Fury

Now Your Ships Are Burned / Caprice no. 24

Wolves At Your Door

Paganini 4Th / Adagio / Far Beyond The Sun / Bohemian Rhapsody

Fire And Ice

Evil Eye

Smoke On The Water

Trilogy Suite Op 5 / solo / Overture

Badinerie

Black Star

I´ll See The Light Tonight 


Halestorm – setlist:

Fallen Star

Mz. Hyde

I Miss the Misery

Love Bites (So Do I)

WATCH OUT!

Like a Woman Can

I Get Off

Familiar Taste of Poison

Rain Your Blood on Me

Freak Like Me

Wicked Ways

I Gave You Everything 


Extreme – setlist: 

('s a Monster)

Decadence Dance

#REBEL

Play With Me 

 Am I Ever Gonna Change

THICKER THAN BLOOD

Hole Hearted

Flight of the Wounded Bumblebee 

Midnight Express

More Than Words

Get the Funk Out

RISE

Lynyrd Skynyrd – setlist: 

Workin' for MCA

What's Your Name

That Smell

I Need You

Gimme Back My Bullets

Saturday Night Special

Down South Jukin'

Still Unbroken

The Needle and the Spoon

Tuesday's Gone

Simple Man 

Gimme Three Steps

Call Me the Breeze (J.J. Cale cover)

Sweet Home Alabama 

Free Bird 

Guns N Roses – setlist: 

Welcome to the Jungle

Slither (Velvet Revolver)

It's So Easy

Live and Let Die

Mr. Brownstone

Bad Obsession

Rocket Queen 

Perhaps

Dead Horse

Double Talkin' Jive

Nothin'

You Could Be Mine

Civil War

Junior's Eyes (Black Sabbath)

Knockin' on Heaven's Door (Bob Dylan)

New Rose (The Damned)

Atlas

Sweet Child o' Mine

Estranged

Bad Apples 

November Rain

Nightrain

Paradise City

Cobertura de Show: Blackberry Smoke – 12/04/2026 – Tork N' Roll/CWB

Blackberry Smoke: Southern Rock de Primeira Linha em Curitiba

Dia 12 de Abril de 2026, domingo à noite em Curitiba, dia preguiçoso para a maioria das pessoas. Mas não para os fãs desta banda estadunidense da Geórgia, Blackberry Smoke, para eles a ansiedade era surreal. Afinal, a espera foi longa, sete intermináveis anos. O evento ocorreu no Tork N´Roll, casa de shows muito bem estruturada e bem localizada, pronta para proporcionar toda a diversão que o público desta famosa banda de Southern Rock merecia. Aprodução ficou a cargo da Solid Produções e Caveira Velha.

O grande evento da vez na capital curitibana teve seus ingressos esgotados semanas antes da apresentação. No local conversamos com pessoas vindas de vários estados do Brasil, que enfrentaram uma longa viagem para poder estar ali, onde tudo era possível! A animação era realmente contagiante. Faltando quase uma hora para o início da apresentação, o local já estava lotado, com filas para bebidas, alguns haviam até "passado da conta", tudo bem compreensível. Mas devo aplaudir os trajes dos fãs que lá estavam, uma perfeição. A impressão era de que estávamos literalmente em um evento digno de série televisiva americana: pessoas bonitas, sorridentes e muita "azaração" à moda antiga.Atlanta veio à Curitiba!

Desta vez, o show não contou com banda de abertura, tendo início pontualmente às 20h, conforme anunciado. E eis que a euforia começa: entram os músicos e a festa tem início com "Good One Comin' On", com a banda ainda no modo esquenta, talvez impressionados com a energia do público, suficiente para fazer estes americanos simpáticos tirarem o chapéu e brilharem os olhos.

Durante toda a apresentação não faltaram sorrisos de Charlie Starr, Paul Jackson, Richard Turner, Brandon Still, Benji Shanks e do baterista Kent Aberle, e lógico, uma performance impecável de toda a banda. Mas os pontos altos foram, sem dúvida, "Pretty Little Lie", "Waiting for the Thunder", "Ain't Much Left of Me" e a mais aguardada "One Horse Town", acompanhada em uníssono pela plateia, realmente um momento para ficar na memória.

Por fim, foi uma experiência muito gratificante, especialmente para aqueles que acompanham séries televisivas do gênero, como Yellowstone, Sons of Anarchy e Nashville. O Blackberry Smoke teve algumas de suas canções presentes nestas séries de sucesso, e lembrar delas durante o show foi nostálgico. E claro, não podemos esquecer da presença constante do baterista Brit Turner, que nos deixou em 2024, no coração de todos, sempre homenageado por seus amigos acada apresentação.

Este show vai deixar saudades em sua perfeição. Mas ao final, alguns apontamentos em caráter construtivo sempre fazem parte. Quanto à estrutura, o ar condicionado merecia mais atenção, pois a sensação térmica estava passando do suportável; o acesso para a compra de bebidas também estava um pouco difícil, pois para um show sold out em local fechado, deveriam estar disponíveis pontos de hidratação próximos ao palco. Também convém destacar a falta de cordialidade com os profissionais da imprensa, principalmente com os fotógrafos credenciados, o que acabou prejudicando um pouco o resultado final, ainda mais considerando que, em todos os eventos da cidade, a cordialidade costuma ser impecável, seja em shows de médio ou grande porte. Mas nada que desabone este espetáculo: no final, tudo ocorreu como esperado, e o que fica no coração e na alma é o amor à música.

Texto: Paula Butter 

Fotos: Vladimir Silvério 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Solid Music Entertainment

Press: Tedesco Comunicação & Mídia 


Blackberry Smoke – setlist:

Good One Comin' On

Payback's a Bitch

Live It Down

Hammer and the Nail

Shake Your Magnolia

Till the Wheels Fall Off

Let It Burn

Pretty Little Lie

Waiting for the Thunder

You Hear Georgia

Ain't Gonna Wait

Sleeping Dogs

(With Come Together by Beatles interlude)

Azalea

Shakin' Hands With the Holy Ghost

One Horse Town

Ain't Got the Blues

Up in Smoke

Run Away From It All

Bis 

Dancing Days

(Led Zeppelin cover)

Ain't Much Left of Me

(With Mississippi kids by Lynyrd Skynyrd Interlude)

Temple Balls: Mais Afiado Do Que Nunca

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Os finlandeses do Temple Balls dão mais um passo consistente em sua trajetória com o lançamento de Temple Balls, álbum autointitulado que consolida a evolução iniciada em Avalanche (2023). Mais uma vez sob a produção de Jona Tee (H.E.A.T), o grupo apresenta um trabalho que equilibra com precisão energia e refinamento, apostando em uma combinação eficaz de refrões fortes, guitarras afiadas e uma base rítmica sólida.

Logo na abertura, “Flashback Dynamite” estabelece o tom do disco com sua abordagem direta e um refrão de fácil assimilação, evidenciando a habilidade da banda em trabalhar melodias acessíveis sem abrir mão do peso. Na sequência, “Lethal Force” desacelera levemente o andamento, mas reforça a identidade sonora do álbum, destacando o timbre vocal de Arde Teronen e um trabalho de guitarras que já aponta para a coesão do conjunto.

“Tokyo Love” surge como um dos momentos mais cativantes do repertório, com linhas de baixo que ganham protagonismo e uma atmosfera que remete ao Edguy de sua fase mais inspirada. Já “There Will Be Blood” introduz elementos eletrônicos de forma mais evidente, com teclados e timbres que evocam o Turbo, do Judas Priest, ampliando o espectro sonoro do disco sem comprometer sua essência.

O single “We Are The Night” sintetiza bem essa proposta híbrida, transitando entre referências do rock norte-americano e uma abordagem mais moderna, enriquecida por arranjos de teclado e até mesmo um inesperado solo de sax. Em contrapartida, “Hellbound” resgata a veia mais agressiva da banda, com uma pegada que flerta com o Motörhead e entrega uma das performances mais intensas do álbum.

Na segunda metade, o grupo mantém a consistência. “Soul Survivor” aposta no hard rock mais tradicional, com foco em linhas vocais fortes e um refrão pensado para o público. “The Path Within” e “Stronger Than Fire” reforçam a coesão estética do trabalho, equilibrando elementos melódicos e estruturas bem definidas, enquanto “Chasing The Madness” retoma a velocidade e o peso, reafirmando a versatilidade do quinteto.

Encerrando o álbum, “Living In A Nightmare” funciona como uma síntese de suas influências, dialogando com nomes clássicos do hard and heavy europeu como Judas Priest, Black Sabbath e Rainbow. É um fechamento que não apenas respeita a tradição do gênero, mas também evidencia a maturidade de uma banda que parece cada vez mais confortável em expandir seus próprios limites.

Com Temple Balls, o grupo finlandês entrega um trabalho coeso, dinâmico e estrategicamente construído, reforçando sua posição dentro do cenário contemporâneo do hard rock melódico e apontando para voos ainda mais ambiciosos.

***ENGLISH VERSION***

Finnish hard rockers Temple Balls take another confident step forward with their self-titled release, Temple Balls, a record that solidifies the sonic evolution first showcased on Avalanche (2023). Once again produced by Jona Tee (H.E.A.T), the album finds the band striking a fine balance between raw energy and polished songwriting, built on infectious hooks, sharp guitar work, and a powerful rhythmic backbone.

Opening track “Flashback Dynamite” wastes no time in setting the tone, delivering a straight-ahead punch with a highly memorable chorus that highlights the band’s knack for crafting accessible yet hard-hitting material. “Lethal Force” follows with a slightly more restrained pace, but further reinforces the album’s cohesive identity, with Arde Teronen’s distinctive vocal tone and a guitar-driven approach that begins to tie the record together.

“Tokyo Love” stands out as one of the album’s most engaging moments, driven by prominent bass lines and a melodic sensibility reminiscent of Edguy at their peak. Meanwhile, “There Will Be Blood” expands the band’s sonic palette with a stronger electronic edge, featuring keyboard textures and guitar tones that echo Judas Priest’s Turbo era, adding variety without straying from the core sound.

The single “We Are The Night” encapsulates this hybrid approach, shifting between American rock influences and a more modern, keyboard-laden arrangement—complete with an unexpected saxophone solo that adds an extra layer of character. In contrast, “Hellbound” taps into a heavier, more aggressive vein, channeling a Motörhead-like intensity and delivering one of the album’s most hard-hitting performances.

The second half maintains the album’s consistency. “Soul Survivor” leans into classic hard rock territory, with strong vocal lines and a chorus clearly designed for audience participation. “The Path Within” and “Stronger Than Fire” further underline the record’s cohesion, balancing melodic elements with solid structural songwriting, while “Chasing The Madness” brings back the speed and metallic edge, showcasing the band’s versatility.

Closing track “Living In A Nightmare” serves as a fitting summary of the band’s influences, drawing from the legacy of European hard and heavy icons such as Judas Priest, Black Sabbath, and Rainbow. It’s a finale that not only pays tribute to the genre’s roots but also highlights a band growing increasingly confident in pushing its own boundaries.

With Temple Balls, the Finnish outfit delivers a cohesive, dynamic, and strategically crafted album that strengthens their standing within the contemporary melodic hard rock scene—and suggests even bigger things ahead.

Marko Syrjala


Vanden Plas: Sofisticação e Profundidade (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Três décadas após o lançamento de AcCult (1996), os alemães do Vanden Plas revisitam um dos capítulos mais emblemáticos de sua trajetória com AcCult II. Longe de se limitar a um exercício nostálgico, o novo trabalho amplia a proposta original ao apresentar releituras acústicas que equilibram sofisticação, sensibilidade e uma abordagem artística amadurecida.

O repertório mescla versões de composições marcantes da banda — como “Far Off Grace” e “The Ghost Xperiment” — a releituras de clássicos de Metallica e Styx, criando um diálogo interessante entre diferentes universos musicais. Com participação especial de John Helliwell (Supertramp) e uma execução impecável por parte da formação atual, o álbum reafirma a identidade do grupo dentro do metal progressivo, mesmo em um contexto essencialmente acústico.

A abertura com “Far Off Grace” já estabelece o tom do disco. Em uma construção gradual e minimalista, a ausência quase total de percussão na maior parte da faixa valoriza a interpretação de Andy Kuntz, enquanto os arranjos de Stephan Lill se desenvolvem de forma elegante até o clímax final, onde a entrada da percussão amplia a intensidade emocional.

Na sequência, “Holes in the Sky” rompe com essa introspecção inicial ao apostar em uma dinâmica mais energética. A percussão mais presente impulsiona a faixa, enquanto o trabalho de violão e o solo bem estruturado reforçam o caráter técnico da banda. O piano de Alessandro Del Vecchio surge como elemento de refinamento, enriquecendo a textura sonora.

Um dos momentos mais aguardados do álbum, “The Ghost Xperiment” mantém sua essência progressiva ao transpor sua complexidade para o formato acústico. A bateria assume papel central desde os primeiros compassos, enquanto o piano conduz a narrativa até um refrão sustentado por arranjos vocais densos. O uso de cordas adiciona profundidade e contribui para uma das interpretações mais completas do disco.

O primeiro cover aparece em “Boat on the River”, clássico do Styx, que ganha aqui uma leitura delicada e detalhista. A combinação entre cello, acordeão e violão cria uma atmosfera rica, permitindo que a interpretação instrumental se destaque sem perder o caráter melódico da composição original.

“Healing Tree” representa uma mudança de atmosfera, apostando em uma sonoridade mais etérea e textural. A presença de vocais femininos — não creditados oficialmente — adiciona uma nova camada à interpretação de Andy Kuntz, resultando em uma das faixas mais acessíveis do álbum, mesmo dentro de sua complexidade estrutural.

Em “Postcard to God”, o Vanden Plas explora uma abordagem mais tradicional dentro do conceito acústico, com arranjos que combinam piano, violão, contrabaixo e intervenções pontuais de cordas. A performance vocal novamente se destaca, enquanto o solo remete à sonoridade clássica dos instrumentos acústicos, com discretas incursões de elementos eletrônicos.

A releitura de “Nothing Else Matters”, do Metallica, surge como um dos pontos mais delicados do álbum. Iniciando em formato intimista de piano e voz, a faixa se desenvolve gradualmente, incorporando elementos orquestrais e uma abordagem vocal menos fiel à versão original, o que contribui para uma interpretação própria. O resultado é uma versão que respeita a essência da composição, mas encontra identidade própria dentro da proposta do disco.

Encerrando o trabalho, “You Fly” sintetiza a proposta do álbum ao incorporar elementos característicos do metal progressivo em uma roupagem acústica. As mudanças de andamento, os arranjos elaborados e o refrão marcante são complementados pela participação de John Helliwell no saxofone, adicionando uma coloração distinta ao desfecho do álbum.

Mais do que uma celebração de aniversário, AcCult II se apresenta como uma reafirmação artística. Ao revisitar seu repertório com novas perspectivas, o Vanden Plas demonstra maturidade e domínio criativo, entregando um trabalho que dialoga tanto com fãs antigos quanto com ouvintes que buscam sofisticação dentro do gênero.

***ENGLISH VERSION***

Three decades after the release of AcCult (1996), German progressive metal veterans Vanden Plas return to one of the most distinctive chapters of their career with AcCult II. Far from being a mere nostalgic exercise, the album expands on the original concept, delivering a collection of acoustic reinterpretations that balance sophistication, emotional depth, and artistic maturity.

Blending revisited band staples such as “Far Off Grace” and “The Ghost Xperiment” with carefully selected covers from Metallica and Styx, AcCult II builds a compelling bridge between progressive metal and classic rock sensibilities. Featuring a guest appearance by John Helliwell (Supertramp), the record highlights the band’s ability to reshape their identity without losing its core essence.

Opening track “Far Off Grace” immediately sets the tone. Built on a restrained and gradual arrangement, the near absence of percussion for most of the song allows Andy Kuntz’s expressive vocals to take center stage, while Stephan Lill’s acoustic work unfolds with elegance, culminating in a subtle yet powerful climax.

“Holes in the Sky” shifts gears with a more dynamic and rhythm-driven approach. The stronger percussive presence pushes the track forward, while intricate acoustic guitar work and a well-crafted solo underline the band’s technical finesse. Alessandro Del Vecchio’s piano adds an extra layer of refinement, enriching the overall texture.

One of the album’s most anticipated moments, “The Ghost Xperiment”, successfully translates its original complexity into an acoustic setting. The drums establish a strong presence early on, while the piano guides the arrangement toward a chorus supported by lush vocal harmonies. The addition of string arrangements enhances the depth, resulting in one of the album’s most fully realized performances.

The first cover, Styx’s “Boat on the River”, is handled with remarkable sensitivity. The interplay between cello, accordion, and acoustic guitar creates a rich and organic soundscape, allowing the band to reinterpret the track without losing its melodic identity.

“Healing Tree” introduces a shift in mood, leaning into a more atmospheric and textural direction. The inclusion of uncredited female vocals adds an intriguing dimension to Kuntz’s performance, resulting in one of the album’s most accessible yet nuanced tracks.

On “Postcard to God”, Vanden Plas embraces a more traditional acoustic framework. Piano, acoustic guitars, and upright bass form a warm foundation, complemented by subtle string details. Kuntz delivers one of his strongest vocal performances here, while the solo evokes a classical acoustic tone, with brief touches of synthesized elements adding contrast.

Taking on Metallica’s “Nothing Else Matters” is no small task, yet Vanden Plas approach it with confidence and restraint. Beginning as a sparse piano-and-vocal arrangement, the track gradually evolves, incorporating orchestral layers and a more interpretative vocal delivery that diverges from the original. The result is a respectful yet distinctive reimagining that fits seamlessly within the album’s concept.

Closing track “You Fly” encapsulates the essence of AcCult II. With its shifting dynamics, intricate arrangements, and memorable vocal lines, it brings progressive elements into the acoustic realm with ease. John Helliwell’s saxophone contribution adds a unique tonal color, providing a fitting and elegant conclusion.

More than a commemorative release, AcCult II stands as a testament to Vanden Plas’ enduring creativity. By revisiting their catalogue through a refined acoustic lens, the band not only honors their legacy but also reinforces their relevance within the progressive music landscape.

Jannik S. Wagner