segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Heavens Edge: A Tempestade Continua (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Formado na Filadélfia no início dos anos 1980, o HEAVENS EDGE retorna com Philadelphia, seu novo álbum e uma celebração de quatro décadas de trajetória. Depois do elogiado Get It Right, a banda combina o DNA do hard rock americano clássico com uma abordagem mais contemporânea, explorando uma variedade musical maior sem abrir mão de grandes refrãos, melodias marcantes e atitude. Philadelphia soa como a afirmação de uma banda que reencontrou seu impulso criativo e ainda tem muito a dizer.

Após a introdução instrumental de The Tempest, que evoca literalmente uma tempestade antes de desembocar em um belo solo de Reggie Wu, chegam os primeiros acordes de LFG. A influência de Van Halen é perceptível no trabalho de guitarra, enquanto a entrada abrupta, sem uma transição convencional a partir da introdução, pode surpreender o ouvinte. É, contudo, uma escolha que rapidamente se justifica: o que temos aqui é hard rock clássico em sua forma mais eficiente, sustentado por um refrão imediato e daqueles feitos para ganhar força diante de uma plateia. Wu desfila pela música com precisão, deixando espaço para uma cozinha afiada, antes de encerrar com outro solo de grande qualidade.

You're Mine Tonight mantém o álbum firmemente ancorado no hard rock, mas adota uma abordagem mais direta. Os numerosos coros e backing vocals ampliam a dimensão melódica, enquanto Mark Evans entrega uma interpretação segura e perfeitamente integrada à composição. O instrumental é preciso, especialmente nas mudanças de ritmo, e ganha novas camadas à medida que a música avança. É um primeiro sinal de que Philadelphia não pretende simplesmente reproduzir o passado: há uma preocupação evidente em acrescentar textura e dinamismo às estruturas tradicionais.

O primeiro single, What's He Got, talvez seja a expressão mais imediata dessa filosofia. Com andamento cadenciado e absolutamente familiar ao gênero, a música coloca a voz de Evans no centro da melodia, enquanto os backing vocals criam a tensão necessária para conduzir o ouvinte ao refrão. Cativante sem ser excessivamente calculada, é fácil entender por que foi escolhida como cartão de visitas do álbum. Até o solo mantém essa abordagem essencialmente melódica, reforçando a sensação de que o HEAVENS EDGE sabe exatamente onde quer chegar.

Com claras referências ao Bon Jovi da era New Jersey, Definite Maybe surge como outra forte candidata a favorita dos fãs. As variações de guitarra, a linha vocal melódica de Evans e os coros cuidadosamente posicionados desembocam em mais um refrão feito para ser cantado em conjunto. A cadência favorece os arranjos vocais e reforça aquela combinação de acessibilidade e peso que definiu boa parte do hard rock oitentista. É o tipo de composição que os fãs do HEAVENS EDGE esperam — e provavelmente não reclamarão de receber.

Uma delicada introdução de piano e voz abre Wrong Or Right, antes que a música mergulhe no território clássico das power ballads. Baixo, bateria e guitarras limpas estabelecem a base, enquanto a guitarra solo e o piano percorrem a composição lado a lado. Mais uma vez, porém, são os vocais e os backing vocals que assumem o protagonismo. O solo, com suas dobras bem construídas, acrescenta personalidade a uma fórmula conhecida. Não há aqui qualquer tentativa de reinventar a power ballad, mas todos os elementos essenciais estão presentes — e funcionam.

Why Can't This Be Love introduz uma das facetas mais interessantes do álbum. A batida é tradicional, mas os timbres de bateria e os efeitos aplicados à voz conferem uma aparência contemporânea à produção. As guitarras, em grande parte sem distorção, também contribuem para essa sensação. O mérito está justamente em conseguir atualizar elementos familiares sem descaracterizar a identidade da banda. O refrão melódico e os backing vocals reforçam a vocação pop do HEAVENS EDGE, enquanto novas texturas impedem que a música soe como mera repetição de uma fórmula antiga.

De volta a uma abordagem mais clássica, Young Hearts começa com baixo e bateria em primeiro plano e acelera o ritmo do álbum. Continua sendo inequivocamente hard rock, mas os efeitos discretos sobre a voz principal acrescentam um toque moderno à produção. A composição é direta, sem excessos, e o baixo ganha espaço particularmente interessante durante os versos, construindo uma base sólida para os demais instrumentos. É mais um exemplo de como o HEAVENS EDGE consegue preservar sua linguagem tradicional enquanto adiciona pequenas doses de novidade.

Seguindo por uma linha mais próxima do Aerosmith — uma das influências evidentes da banda — I'll Be Just Fine (Without You) aposta em um groove envolvente. No refrão, a música se transforma em uma composição extremamente melódica e fácil de memorizar, com os backing vocals desempenhando papel fundamental. Como acontece em boa parte de Philadelphia, a música não existe isoladamente: ela acrescenta uma nova cor ao álbum e ajuda a ampliar sua variedade sem romper a unidade do conjunto.

A acústica I Wish You Would aprofunda ainda mais essa diversidade. A bela interpretação vocal de Mark Evans é acompanhada por backing vocals e arranjos de cordas que criam uma atmosfera inédita dentro do disco. Instrumentos acústicos de corda e percussão substituem a habitual parede de guitarras, permitindo que a composição respire de maneira diferente. O resultado acrescenta não apenas variedade, mas também uma camada adicional de textura e complexidade ao álbum.

Fechando o disco, No Way Out reúne boa parte dos elementos apresentados ao longo de Philadelphia. É uma combinação equilibrada entre o clássico e o moderno: timbres e escolhas de composição mais contemporâneos convivem com uma identidade que permanece inconfundivelmente ligada ao hard rock tradicional. Vocais e guitarras continuam no centro das atenções, enquanto o baixo ganha novamente destaque na base e os backing vocals ajudam a construir outro refrão de fácil assimilação.

No fim, Philadelphia entrega exatamente o tipo de álbum que se espera de uma banda com a história do HEAVENS EDGE, mas evita ficar preso ao passado. O equilíbrio entre estruturas clássicas e escolhas mais contemporâneas é provavelmente sua maior virtude. Cada composição acrescenta alguma coisa ao conjunto, seja através de novas texturas, diferentes abordagens vocais ou pequenas mudanças de dinâmica, fazendo com que o álbum soe mais variado e elaborado do que uma simples celebração de suas raízes.

É um trabalho que deve agradar especialmente aos fãs da banda, mas que também mostra um HEAVENS EDGE confortável o suficiente com sua própria identidade para experimentar sem perder o rumo. E há uma pequena ironia na maneira como tudo termina: depois de toda essa viagem por diferentes facetas do hard rock, Philadelphia retorna aos sons de chuva que abriram The Tempest. Um detalhe simples, mas que fecha o álbum como um círculo — e confirma que, quatro décadas depois, o HEAVENS EDGE ainda sabe onde começa e termina sua tempestade.


***ENGLISH VERSION***

Formed in Philadelphia in the early 1980s, HEAVENS EDGE return with Philadelphia, their new album and a celebration of four decades together. Following the acclaimed Get It Right, the band combines the DNA of classic American hard rock with a more contemporary approach, exploring a broader musical palette without sacrificing big choruses, memorable melodies and attitude. Philadelphia sounds like the statement of a band that has rediscovered its creative momentum and still has plenty to say.

Following the instrumental introduction of The Tempest, which literally evokes a storm before giving way to a beautiful Reggie Wu guitar solo, the opening chords of LFG arrive. The Van Halen influence is noticeable in the guitar work, while the abrupt entrance, with no conventional transition from the intro, may catch some listeners off guard. It is, however, a choice that quickly makes sense: this is classic hard rock at its most effective, driven by an immediate chorus that seems tailor-made to gain even more power in a live setting. Wu tears through the track with precision, leaving plenty of room for a razor-sharp rhythm section before closing with another excellent solo.

You're Mine Tonight keeps the album firmly rooted in hard rock but takes a more direct approach. The numerous harmonies and backing vocals broaden its melodic dimension, while Mark Evans delivers a confident performance that fits the composition perfectly. The instrumental work is precise, particularly in the rhythmic shifts, and gains new layers as the song progresses. It is an early indication that Philadelphia is not simply interested in recreating the past: there is a clear effort to add texture and dynamism to traditional structures.

The first single, What's He Got, may be the most immediate expression of this philosophy. With a steady, unmistakably genre-friendly groove, the song places Evans' voice at the heart of the melody, while the backing vocals create the tension needed to lead the listener into the chorus. Catchy without sounding overly calculated, it is easy to understand why it was chosen as the album's calling card. Even the guitar solo follows this essentially melodic approach, reinforcing the feeling that HEAVENS EDGE know exactly where they want to go.

With clear references to Bon Jovi's New Jersey era, Definite Maybe emerges as another strong candidate for fan favorite. The guitar variations, Evans' melodic vocal line and carefully placed harmonies lead into yet another chorus designed to be sung along to. The song's pace works perfectly with the vocal arrangements, reinforcing that combination of accessibility and weight that defined much of '80s hard rock. It is precisely the kind of song HEAVENS EDGE fans expect — and will probably be more than happy to get.

A delicate piano-and-vocal introduction opens Wrong Or Right before the song moves into the classic territory of the power ballad. Bass, drums and clean guitars establish the foundation, while the lead guitar and piano weave their way through the arrangement. Once again, however, the vocals and backing harmonies take center stage. The solo, with its carefully constructed layered parts, adds personality to a familiar formula. There is no attempt here to reinvent the power ballad, but all the essential ingredients are present — and they work.

Why Can't This Be Love introduces one of the album's most interesting facets. The beat is traditional, but the drum tones and vocal effects give the production a contemporary edge. The largely clean guitars contribute to the same feeling. The real achievement lies in the band's ability to update familiar elements without compromising its identity. The melodic chorus and backing vocals reinforce HEAVENS EDGE's pop sensibility, while the added textures prevent the song from sounding like a mere repetition of an old formula.

Returning to a more classic approach, Young Hearts begins with bass and drums front and center, picking up the pace after the preceding tracks. It remains unmistakably hard rock, but subtle effects on the lead vocal add a modern touch to the production. The composition is direct and free of unnecessary embellishment, while the bass takes on a particularly interesting role during the verses, providing a solid foundation for the other instruments. It is another example of how HEAVENS EDGE can preserve their traditional language while introducing small doses of something new.

Taking a more Aerosmith-influenced direction — one of the band's obvious touchstones — I'll Be Just Fine (Without You) is built around an engaging groove. In the chorus, the song becomes highly melodic and instantly memorable, with the backing vocals playing a key role. As is the case with much of Philadelphia, the track does not exist in isolation: it adds another color to the album and broadens its stylistic range without disrupting the overall cohesion.

The acoustic I Wish You Would deepens that diversity even further. Mark Evans delivers a beautiful vocal performance surrounded by backing vocals and string arrangements that create an atmosphere unlike anything else on the record. Acoustic stringed instruments and percussion replace the band's usual wall of guitars, allowing the composition to breathe in a different way. The result adds not only variety, but another layer of texture and complexity to the album.

Closing the record, No Way Out brings together many of the elements explored throughout Philadelphia. It is a balanced combination of classic and modern: more contemporary tones and songwriting choices coexist with an identity that remains unmistakably rooted in traditional hard rock. Vocals and guitars remain at the center, while the bass once again takes a prominent role in the foundation and the backing vocals help build another highly accessible chorus.

Ultimately, Philadelphia delivers exactly the kind of album one would expect from a band with HEAVENS EDGE's history, while refusing to remain trapped in the past. The balance between classic structures and more contemporary choices is arguably its greatest strength. Each composition adds something to the whole, whether through new textures, different vocal approaches or subtle shifts in dynamics, making the album feel more varied and sophisticated than a simple celebration of the band's roots.

It is a record that should particularly appeal to longtime fans, but it also shows a HEAVENS EDGE comfortable enough with their own identity to experiment without losing their way. And there is a small touch of irony in the way it all ends: after this journey through the different facets of hard rock, Philadelphia returns to the sound of rain that opened The Tempest. A simple detail, but one that brings the album full circle — and confirms that, four decades on, HEAVENS EDGE still know exactly where their storm begins and ends.

Alex Cihanowic

Entrevista - Sanctuary: “Eu nunca tinha realmente conversado com o Warrel”

Por: Renato Sanson

 

Algumas bandas atravessam gerações, estilos e mudanças de formação sem perder a essência que as tornou especiais. O Sanctuary é um desses nomes. Com uma história marcada por grandes momentos do Heavy Metal, a banda agora inicia uma nova fase com a chegada de Joseph Michael, seu novo vocalista.

Para conhecer melhor essa nova voz e entender o que podemos esperar desse novo capítulo, conversamos com Joseph sobre sua trajetória, sua entrada no Sanctuary, as expectativas para o futuro, o desafio de assumir os vocais de uma banda com um legado tão importante e, claro, sobre música, influências e os próximos passos do grupo.

Em uma conversa franca e especial, Joseph abre o jogo sobre como foi receber o convite, como tem sido fazer parte dessa história e o que significa vestir a camisa de uma das grandes instituições do Metal.

Confira a entrevista e conheça o homem por trás da nova voz do Sanctuary!

Você assumiu os vocais do Sanctuary depois da era Warrel Dane. Sentiu alguma pressão? Ou encarou isso como uma forma de homenagear o legado dele?

Joseph: Sim. É louco como tudo aconteceu. Eu e o meu guitarrista da outra banda, o Witherfall, estávamos acordados, escrevendo para o nosso segundo disco, quando vimos duas pessoas da banda solo do Warrel, que estavam no Brasil, publicarem que ele havia falecido. Estávamos acordados até muito tarde, acho que eram umas cinco da manhã, e estávamos um pouco bêbados. Não conseguíamos acreditar. 

O Jake tinha tocado em uma banda chamada Iced Earth, e o Sanctuary iria abrir para o Iced Earth. Então, quando recebemos a notícia, ficamos todos meio decepcionados, porque íamos àquele show, íamos conhecer o pessoal, ficar no ônibus com eles e tudo mais. 

Eu nunca tinha realmente conversado com o Warrel. Só tinha me encontrado com ele uma vez e estava muito ansioso para conhecer aqueles caras, ficar com eles no ônibus e coisas assim. Quando o Warrel faleceu, pensamos que o Sanctuary tinha acabado. Eles tinham outra banda que iria entrar naquela turnê, mas o baterista dessa banda acabou se machucando. 

Então, o John Schaffer mandou uma mensagem para o Lenny, dizendo: 'cara, eu sei que você vai perder muito dinheiro se não fizer essa turnê, e nós realmente precisamos que vocês deem um jeito nisso. Talvez encontrem um vocalista'. Eles procuraram, procuraram e procuraram, mas não encontraram ninguém. Finalmente, ele perguntou ao Jake se eu faria isso. E, sim, foi uma grande honra, porque o Warrel era um dos meus cantores favoritos quando eu estava crescendo.

 A pressão, na verdade, não era tanto 'será que consigo alcançar essa extensão vocal?' ou 'será que consigo cantar essas músicas?'. O problema era que eu tinha que aprender todo aquele material em cerca de um mês e meio. Foi muito em cima da hora, muito perto de quando a turnê iria acontecer. Eu sabia que alguns fãs ficariam ali, um pouco céticos, mas acho que acabou sendo muito mais uma celebração do que qualquer outra coisa. Naquela primeira turnê, todas as noites eram como: 'OK, essa é pelo Warrel. Vamos fazer essa turnê, e todo mundo vai participar, celebrar e lembrar do Warrel'.

Fantástico, acabou sendo uma mudança repentina, mas você conseguiu manter o legado vivo. Falando sobre o novo single do Sanctuary, como tem sido a recepção?

Joseph: Tem sido ótima desde o começo. Foi por isso que decidimos continuar. Estávamos no meio do processo de composição de um disco quando a Covid chegou, e o Sanctuary não é uma daquelas bandas em que você pode simplesmente fazer tudo pela internet ou algo assim. Aqueles caras são da velha escola e precisam estar tocando na mesma sala. É assim que eles trabalham e desenvolvem as partes das músicas. 

Quando a Covid chegou, não havia voos, não havia dinheiro, porque não havia turnês. Então, isso realmente atrapalhou tudo. Agora que estamos começando a voltar para a estrada e fazer shows, temos dinheiro para terminar o disco. E acabamos de assinar com uma excelente gravadora, então isso não é mais um problema. Vamos voltar ao estúdio daqui a alguns meses para terminar o álbum.

 

Uma curiosidade: você é parente do Ronnie James Dio?

Joseph: Sou, sim. Sim, ele é meu primo.

Incrível! (risos)

Joseph: (risos) É, eu nunca cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Só conversei um pouco com ele pelo telefone. Mas, recentemente, fui ao evento Bowling for Ronnie e fiquei um tempo com a Wendy Dio. Então, ainda mantenho um pouco de contato com aquele círculo de pessoas.

Sobre o retorno do Sanctuary, a banda voltou com o mesmo espírito de antes ou com uma nova visão para o futuro?

Joseph: Sim, eu diria que está um pouco mais moderno. É um pouco mais moderno do que Refuge Denied (1987), Into the Mirror Black (1989) ou qualquer outro disco daquela época. O Lenny está em uma fase em que quer que o som seja um pouco mais sombrio e pesado, meio na linha de The Year the Sun Died (2014). Eles já estavam caminhando nessa direção. 

Mas, com o meu alcance vocal, acabamos trazendo um pouco mais daquela sonoridade old school de volta. É meio que isso: quando você quer levar uma banda como essa para o futuro, precisa fazer as duas coisas. É preciso manter aquelas características, atingir aquelas notas, chegar aos agudos e ter aquela dose de loucura, mas, ao mesmo tempo, a produção é muito mais a de uma banda moderna atualmente.

 

Quando você começou sua jornada como vocalista? Foi muito jovem? Aproveitando o gancho, e suas influencias vocais, quem são?

Joseph: Ah, quando eu era adolescente. Originalmente, eu era guitarrista e não conseguia encontrar um vocalista de que eu gostasse. Então, acabei aprendendo a cantar. Foi assim que aconteceu (risos).

Eu, definitivamente, tenho um pouco de influência do Warrel, do Dio... No heavy metal, gosto muito do Geoff Tate, do King Diamond, do Sebastian Bach e até do Zak Stevens, do Savatage. Tenho uma variedade grande de influências. 

Também ouço algumas coisas de teatro musical, como o Colm Wilkinson, que é um cantor irlandês. Artistas como a Tori Amos também me influenciaram. Até o Bon Jovi. Há muitas coisas que o Bon Jovi fazia que, se você ouvir com atenção, vai pensar: “Ah, eu reconheço isso. Eu reconheço isso”.

Bom, para encerrar já que o nosso tempo é curto vou te colocar na fogueira (risos): quais são os seus cinco álbuns de Heavy Metal favoritos?

Joseph: (risos) Essa é fácil! Conspiracy, do King Diamond (1989); Awake, do Dream Theater (1994) — esse é o melhor do Dream Theater, na minha opinião. Eu diria Operation: Mindcrime, do Queensrÿche (1988); The Number of the Beast, do Iron Maiden (1982). As pessoas vão me odiar por isso, mas eu tenho que escolher... É uma disputa entre Rust in Peace (Megadeth) e The Black Album (Metallica). Para mim, é um desses dois. É difícil escolher apenas cinco, porque existem muitas bandas das quais eu poderia colocar três discos no meu Top 5. 

Poderia colocar, por exemplo, três álbuns do King Diamond ou três do Savatage. Eu nem coloquei um deles na lista, mas Edge of Thorns (1993) também é um disco excelente. Mas, se tiver que escolher cinco, eu coloco The Black Album (1991) acima de Rust in Peace (1990), apesar de eu adorar a maneira como o Marty Friedman toca. É mais pela sonoridade, pela produção e pelas músicas.

Ok, eu prefiro Black Album (risos).

Joseph: (risos) Algumas pessoas não gostam desse disco. Do Warrel, eu adoro o Refuge Denied (1987), mas também tem o This Godless Endeavor (2005), do Nevermore. Esse também é um excelente disco de metal. São discos sensacionais!

Eu amo Rust in Peace (1990), mas Black Album (1991) é um modo diferente de enxergar o Heavy Metal.

Joseph: É realmente incrível.


Sanctuary Site Oficial 

sábado, 22 de agosto de 2026

Cobertura de Show: Swallow The Sun – 11/08/2026 – Hangar 110/SP

Na noite de 11 de agosto, o Hangar 110, em São Paulo, recebeu a terceira passagem do Swallow the Sun pelo Brasil, um dos nomes mais respeitados do doom/death metal finlandês, em uma apresentação marcada pela atmosfera sombria, introspectiva e profundamente melancólica. Um bom público compareceu para prestigiar a banda durante a passagem da turnê Shining Over Latin America e encontrou um espetáculo que privilegiou a música e a ambientação em detrimento da interação direta. Formado em Jyväskylä, em 2000, o grupo construiu, ao longo de mais de duas décadas, uma identidade baseada na combinação entre peso, melodia e atmosferas densas, características que se mostraram especialmente fortes ao vivo.

Com Mikko Kotamäki (vocal), Juha Raivio (guitarra), Juho Räihä (guitarra), Matti Honkonen (baixo) e Juuso Raatikainen (bateria) no palco, a apresentação teve início com "Innocence Was Long Forgotten", faixa do álbum Shining, de 2024, estabelecendo imediatamente o clima que dominaria toda a noite. Sem grandes discursos ou tentativas de transformar o show em um palanque, o Swallow the Sun deixou que suas próprias composições conduzissem a experiência. "Descending Winters" e "New Moon" deram sequência ao setlist, alternando passagens pesadas com momentos de maior delicadeza, enquanto "Under the Moon & Sun" reforçou o caráter contemplativo da apresentação. A sensação era de que o público não estava simplesmente assistindo a um show, mas sendo conduzido para dentro do universo sombrio criado pela banda. O repertório também funcionou como uma retrospectiva de diferentes fases da carreira, que começou com The Morning Never Came, em 2003, e chegou ao mais recente Shining.

A sequência formada por "Don't Fall Asleep (Horror, Part 2)", "Out of This Gloomy Light" e "November Dust" aprofundou ainda mais essa proposta. Em vez de buscar explosões constantes de energia, o Swallow the Sun trabalhou com contrastes, silêncios e longas construções instrumentais, permitindo que cada mudança de andamento tivesse seu impacto. "Out of This Gloomy Light", inclusive, remete aos primeiros anos da banda, já que a composição surgiu na demo homônima lançada antes do álbum de estreia e posteriormente foi lançada no álbum The Morning Never Came (2003). Já "Hope" trouxe uma das passagens mais emblemáticas da noite, recuperando o espírito do terceiro álbum do grupo, lançado em 2007 e conhecido justamente por transformar a ideia de esperança em matéria-prima para uma música carregada de desesperança.

Se havia pouca comunicação verbal entre banda e público, isso não significou falta de conexão. Pelo contrário: músicas como "MelancHoly" e "Falling World" encontraram um público imerso, que respondeu muito mais por meio do silêncio concentrado, dos aplausos e da entrega às canções do que por meio de uma participação ruidosa. A própria "Falling World", presente originalmente em New Moon, mostrou como o grupo consegue transformar melodia e peso em uma experiência quase cinematográfica. A apresentação ainda avançou para "These Woods Breathe Evil", encerrando o set principal de maneira densa, sombria e sem concessões, representando uma das fases mais importantes da trajetória da banda.

O bis trouxe "Deadly Nightshade" e "Swallow (Horror, Part 1)", duas escolhas particularmente adequadas para concluir uma noite tão carregada de sombras. A última faixa, originalmente presente em The Morning Never Came, ainda estabeleceu uma ligação direta entre o presente e os primeiros passos do grupo. O repertório apresentado em São Paulo, portanto, percorreu diferentes momentos da carreira sem abandonar aquilo que sempre esteve no centro da proposta do Swallow the Sun: a capacidade de transformar dor, solidão e melancolia em música.

Na apresentação, o quinteto mostrou que nem todo grande show precisa ser construído sobre discursos, brincadeiras ou interação constante. O Swallow the Sun fez justamente o contrário: criou uma espécie de bolha de isolamento dentro do Hangar 110, na qual peso, melancolia e introspecção falaram mais alto. Para quem estava disposto a mergulhar nessa atmosfera, foi uma experiência intensa e imersiva, fiel à essência de uma banda que transformou a tristeza em uma de suas mais poderosas formas de expressão. 


Texto: Marcelo Gomes



Realização: Overloard Brasil



Swallon The Sun – setlist:

Innocence Was Long Forgotten

Descending Winters

New Moon

Under the Moon & Sun

Don't Fall Asleep (Horror, Part 2)

Out of This Gloomy Light

November Dust

Hope

MelancHoly

Falling World

These Woods Breathe Evil

Deadly Nightshade

Swallow (Horror, Part 1)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Iron Savior: A Essência Permanece (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Formada em Hamburgo, o Iron Savior chega aos 30 anos de carreira com Deathbringer, seu novo álbum de estúdio e sucessor de Firestar (2023). Produzido por Piet Sielck no tradicional Powerhouse Studio, o disco retoma o formato conceitual e mergulha novamente na combinação que se tornou a assinatura da banda: power metal vigoroso, refrãos grandiosos, velocidade e ficção científica. Com produção robusta e composições carregadas de energia, Deathbringer não apenas celebra três décadas de trajetória, como reafirma o Iron Savior em plena forma.

Deathbringer traz o Iron Savior exatamente como sempre foi — e talvez esse seja precisamente seu maior mérito. Em vez de perseguir tendências ou tentar reinventar uma fórmula que já se mostrou eficiente, Piet Sielck retorna ao território que conhece como poucos: o power metal de raízes germânicas, construído sobre riffs precisos, refrãos monumentais e uma produção que transforma cada guitarra em uma declaração de princípios. E vale lembrar que Sielck não é apenas o líder do Iron Savior, mas também um dos nomes ligados à primeira formação do Helloween.

A grande força do álbum está justamente naquilo que une todas as suas faixas: o caráter hínico, grandioso e imediatamente reconhecível. É uma característica que acompanha o Iron Savior desde seus primeiros trabalhos e que permanece intacta aqui. O disco também representa o retorno da banda ao formato de álbum conceitual, depois do projeto Reforged, dedicado às regravações de seu material da era Noise Records, e do interessante álbum de covers.

A jornada começa com a breve introdução instrumental e épica Shadows Of Neverness, que prepara o terreno para a faixa-título. Deathbringer entra em cena em alta velocidade, carregada de energia e com força suficiente para capturar imediatamente a atenção do ouvinte. Na sequência, Light In The Dark acelera ainda mais o passo, com claras referências ao Blind Guardian dos primeiros álbuns. A associação não é gratuita: Thomas “Thomen” Stauch, baterista da formação clássica do Blind Guardian, fez parte do Iron Savior em seus primeiros anos. O resultado é uma faixa que representa o power metal teutônico em sua essência.

Creature’s Tale surge como outro dos grandes momentos do álbum. Sem abandonar a identidade do Iron Savior, a música se aventura por um território mais cru, próximo ao heavy metal tradicional, mas preserva sua atmosfera épica e o característico uso de backing vocals. É um bom exemplo de como a banda consegue introduzir pequenas variações sem colocar em risco uma identidade construída ao longo de três décadas.

Back From The Fires Of Hell começa de maneira um pouco mais cadenciada, mas rapidamente se encaixa na proposta central do álbum: power metal melódico com a assinatura inconfundível do Iron Savior. Mais uma vez, o refrão é melódico e épico, reforçando a atmosfera grandiosa do disco. E, apesar da proximidade entre algumas soluções musicais, Deathbringer não chega a se tornar monótono.

Mais um hino dá continuidade à jornada. To Boldly Go aposta ainda mais na melodia e apresenta um trabalho de guitarra típico do power metal alemão. A faixa soa um pouco mais leve em boa parte de seu andamento, embora algumas passagens mais obscuras introduzem um contraste interessante. É uma variação discreta, mas suficiente para ampliar a dinâmica do álbum.

Fechando o conjunto de singles previamente lançados, Climbing Higher é provavelmente a faixa mais imediatamente acessível do disco. Construída para ser cantada por qualquer plateia em um show do Iron Savior, possui aquele tipo de refrão que parece destinado aos palcos. É, sem dúvida, a composição mais “comercial” do álbum, sem que isso represente uma concessão à identidade da banda. O uso de efeitos eletrônicos, particularmente na bateria, também acrescenta uma novidade à sonoridade tradicional do grupo.

Entre as faixas apresentadas como bônus, No Deal retorna ao power metal com o carimbo do Iron Savior. Menos rebuscada e mais agressiva que sua antecessora, mantém a continuidade sonora do álbum e não causa qualquer ruptura em sua narrativa musical.

Dawn Of Deliverance novamente flerta com a linguagem do Blind Guardian, trazendo um power metal essencialmente germânico e inúmeras linhas de guitarra. O trabalho instrumental de Piet e Piesel merece destaque, assim como a impressionante variedade de backing vocals, que transforma a faixa em mais um dos grandes hinos do disco.

Com uma abordagem diferente e vocais particularmente limpos, Gunslinger apresenta um início pouco convencional para os padrões do álbum, mas permanece firmemente dentro do universo do power metal. Sua maior contribuição está em oferecer um momento de maior cadência, quebrando parcialmente a sequência de velocidade e intensidade. O refrão é mais direto que os anteriores, mas a sonoridade do Iron Savior permanece evidente, deixando claro que a faixa pertence ao mesmo universo. Uma “acalmada” bem-vinda — se é que podemos chamar de calma uma música do Iron Savior.

De volta à velocidade habitual e aos vocais mais rasgados, Never To Yield retoma integralmente a sonoridade característica do disco. O refrão melódico, cercado por camadas de backing vocals, reforça aquela atmosfera épica que se tornou uma das marcas registradas da banda. Mais uma vez, tudo está bem colocado e produzido, favorecendo uma audição fluida e revelando uma composição essencialmente melódica.

Encerrando a parte autoral do álbum, Forever And A Day cumpre sua função sem surpresas: é mais uma competente faixa de power metal, encerrando a jornada dentro dos parâmetros que o Iron Savior estabeleceu para Deathbringer.

E ainda há espaço para um último tributo. Fechando o álbum, a banda apresenta uma versão de Fever, do Judas Priest, uma de suas maiores influências. Originalmente lançada em Screaming For Vengeance, a música funciona como um bônus bastante apropriado para concluir o disco.

Deathbringer chega reafirmando a identidade de uma banda que, após três décadas, conhece perfeitamente seu território. O Iron Savior entrega aqui exatamente aquilo que seus fãs esperam: power metal alemão vigoroso, melodias marcantes, refrãos feitos para grandes plateias e uma produção poderosa.

Pode faltar ao álbum o elemento de surpresa capaz de redefinir os rumos do gênero, mas sobra consistência. E, em uma carreira de 30 anos, saber exatamente quem você é pode ser uma das maiores demonstrações de força. Deathbringer talvez não acrescente uma nova página à história do power metal, mas confirma o Iron Savior como um de seus nomes mais sólidos e fiéis à própria essência.

***ENGLISH VERSION***

Formed in Hamburg, Iron Savior reaches the 30-year mark with Deathbringer, their new studio album and the follow-up to 2023’s Firestar. Produced by Piet Sielck at the band’s long-established Powerhouse Studio, the record returns to the concept-album format while once again diving into the combination that has become the band’s trademark: powerful power metal, huge choruses, speed and science fiction. With a robust production and compositions packed with energy, Deathbringer not only celebrates three decades of the band’s career but also confirms Iron Savior in outstanding form.

Deathbringer delivers Iron Savior exactly as they have always been — and perhaps that is precisely its greatest strength. Rather than chasing trends or attempting to reinvent a formula that has already proven successful, Piet Sielck returns to the territory he knows better than most: German-rooted power metal built on precise riffs, monumental choruses and a production that turns every guitar part into a statement of intent. It is also worth remembering that Sielck is not only the leader of Iron Savior, but was also one of the figures involved in the early formation of Helloween.

The album’s greatest strength lies precisely in what unites all of its tracks: their anthemic, grandiose and immediately recognizable character. It is a quality that has accompanied Iron Savior since their earliest work and remains completely intact here. The album also marks the band’s return to the concept-album format following the Reforged project, dedicated to re-recording their material from the Noise Records era, and the interesting covers album.

The journey begins with the brief, epic instrumental introduction Shadows Of Neverness, which sets the stage for the title track. Deathbringer bursts in at full speed, loaded with energy and powerful enough to grab the listener’s attention immediately. Light In The Dark then pushes the pace even further, with clear references to Blind Guardian’s early albums. The connection is hardly coincidental: Thomas “Thomen” Stauch, drummer of Blind Guardian’s classic lineup, was part of Iron Savior during their early years. The result is a track that captures the essence of Teutonic power metal.

Creature’s Tale emerges as another of the album’s major highlights. Without abandoning Iron Savior’s identity, the song ventures into a rawer territory, closer to traditional heavy metal, while retaining its epic atmosphere and the band’s characteristic use of backing vocals. It is a good example of how the band can introduce subtle variations without compromising an identity built over three decades.

Back From The Fires Of Hell starts at a slightly more measured pace but quickly settles into the album’s central proposition: melodic power metal with the unmistakable Iron Savior stamp. Once again, the chorus is melodic and epic, reinforcing the record’s grandiose atmosphere. And despite the familiarity of some of its musical ideas, Deathbringer never becomes monotonous.

Another anthem continues the journey. To Boldly Go leans even further into melody and features guitar work typical of German power metal. The track feels somewhat lighter for much of its duration, although darker passages introduce an interesting contrast. It is a subtle variation, but enough to broaden the album’s dynamics.

Closing out the set of previously released singles, Climbing Higher is probably the album’s most immediately accessible track. Built to be sung by any audience at an Iron Savior show, it possesses exactly the kind of chorus that seems destined for the stage. Without question, it is the album’s most “commercial” composition, although that never comes at the expense of the band’s identity. The use of electronic effects, particularly on the drums, also adds a fresh touch to the group’s traditional sound.

Among the tracks presented as bonus material, No Deal returns to power metal bearing the unmistakable Iron Savior stamp. Less elaborate and more aggressive than its predecessor, it maintains the album’s sonic continuity without disrupting its musical narrative.

Dawn Of Deliverance once again flirts with the language of Blind Guardian, delivering quintessentially German power metal and an abundance of guitar lines. The instrumental work by Piet and Piesel deserves particular mention, as does the impressive variety of backing vocals, which transforms the song into yet another of the album’s anthemic highlights.

With a different approach and particularly clean vocals, Gunslinger opens in an unconventional manner by the album’s standards, but remains firmly rooted in the power metal universe. Its main contribution is to provide a more measured moment, partially breaking up the sequence of speed and intensity. The chorus is more direct than those of the preceding tracks, but Iron Savior’s sound remains unmistakable, leaving no doubt that the song belongs to the same universe. A welcome change of pace — if we can really call anything on an Iron Savior album “calm.”

Back to the album’s customary speed and grittier vocals, Never To Yield fully embraces its established sound. The melodic chorus, surrounded by layers of backing vocals, reinforces the epic atmosphere that has become one of the band’s trademarks. Once again, everything is well arranged and produced, making for a smooth listening experience while revealing another fundamentally melodic composition.

Closing the album’s original material, Forever And A Day fulfills its role without surprises: another solid power metal track that brings the journey to an end within the parameters Iron Savior have established for Deathbringer.

And there is still room for one final tribute. Closing the album, the band delivers a version of Fever by Judas Priest, one of their greatest influences. Originally released on Screaming For Vengeance, the song works as a fitting bonus with which to bring the record to a close.

Deathbringer arrives reaffirming the identity of a band that, after three decades, knows its territory inside out. Iron Savior deliver precisely what their fans expect: vigorous German power metal, memorable melodies, choruses designed for huge audiences and a powerful production.

The album may lack the element of surprise capable of redefining the genre’s direction, but it more than makes up for it with consistency. And after 30 years, knowing exactly who you are can be one of the greatest demonstrations of strength. Deathbringer may not add an entirely new chapter to the history of power metal, but it confirms Iron Savior as one of the genre’s most solid bands — and one of its most faithful to their own essence.

Thomas Spengler 


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Black Pantera: O Mundo Tem Pele Preta

Deckdisc (Nac.)

Por Lais Rüdiger (@lais.rudiger) e Eduardo Okubo Jr. (@eduardookubojunior)

Continental, o quinto álbum do trio formado por Charles Gama (guitarra e vocais), Chaene da Gama (baixo e vocais) e Rodrigo Pancho (bateria e percussão) tem a missão de seguir o sucesso de crítica e público do Perpétuo (2024), que foi o passo mais importante da banda para furar a bolha do underground e de expandir seu público.

As letras continuam versando sobre representatividade, sobre racismo, desigualdade social, política e igualdade de gênero. Dessa vez a mistura agrega geopolítica, globalização, viagens no tempo e até samurais.

Continental, ao mesmo tempo que mantém a identidade da banda (tem peso, velocidade e a agressividade do Hardcore Punk, Trash Metal e Hardcore), também flerta com novos estilos: temos aceno ao Punk Rock-Pop em "Velho Jeans Rasgado" e "Sic Mundus", MPB com "Quando Canto" com a voz poderosa de Sandrá Sá e a belíssima "Banzo" com a companhia de Chico César e até trilhas sonoras.


Continental 

"Nós somos a América do Sul" 

"Nós não somos seus inquilinos" 

"Eles não são o mundo"

E assim começa a faixa "Continental" com uma muralha sonora, crua, rápida e pesada mostrando que o Black Pantera segue sendo a mesma banda que não tem medo de tocar o dedo na ferida das mazelas da sociedade. E aqui temos a participação especial mais inusitada e importante do álbum: "porque eu tenho que acreditar que a história vai ser sempre feita por eles?" Milton Santos aponta que podemos ser uma força criativa e transformadora que pode ditar os destinos do mundo.

O Mundo somos todos nós e o mundo tem pele preta!



Serotonina 

"Você pode ser fã de RDP, BTS, Negra Li, Jorge Be...Rock , Funk, Rap..." O baixo do Chaene da Gama comanda essa faixa cheia de groove e com a bela voz da Duquesa dando um toque feminino e feminista para a faixa. 

"Não vou gastar meu alfabeto com vacilão" já escuto as plateias cantando junto esse refrão marcante.

Hórus

Com foco na religiosidade, “Hórus” traz explicitamente em sua letra elementos que transitam entre o catolicismo e religiões de matriz africana, assim como a simbologia da divindade egípcia que dá título a música. Uma crítica social ao corpo negro, que na grande maioria das vezes é apontado sob os holofotes de maneira pejorativa ou como ameaça, tendo que limitar seus movimentos e tomar cuidado na hora de se vestir para não ser confundido com o estereótipo pré conceituado de ladrão. E esse julgamento acontece até mesmo entre os próprios negros, quando colocados em posições de vigiar e punir para monitorarem cada passo daqueles que possuem a sua cor de pele. 

Dentre os versos da canção, a cidade natal da banda, Uberaba, recebe também a sua homenagem, lembrando sempre a importância que o Black Pantera carrega por destacar suas raízes.    

Quando Canto (com Sandra Sá)

No batuque do tambor de “Quando Canto”, faixa em parceria e iniciada com a voz de Sandra Sá, ocorre a exaltação do povo preto pelo povo preto. A fusão do singular com o plural. O destaque da coletividade, da reunião das vozes que perduram sua luta através das gerações. A morte ganha protagonismo, para dimensionar o empenho dos que foram até o fim buscando por melhores condições de vida e que agora finalmente chegaram num lugar aonde a dor não os alcança. E apesar da passagem física dos que já foram, a herança da voz permanece.  

Gostaria de destacar a bela união sonora gerada pelo metálico da guitarra e os instrumentos de percussão, que vão ganhando intensidade ao longo da música e explodem na bateria de Rodrigo Pancho.

Velho Jeans Rasgado

Uma bela faixa que começa com o baixo marcante do Chaene e um "Hey, Hey, Hey" que já entrega a influência do Punk Rock, me lembrou Ramones, melódica e dançante.

"Quantas vezes o horizonte foi a minha casa"

Uma faixa que narra as dificuldades de quem faz o corre, que vive na estrada; temos o sofrimento, superação, resiliência; a saudade de quem amamos; e quem sabe as conquistas merecidas no final da jornada. É uma bela homenagem para todos que vivem de música, se apresentando para 10, 20, 100 ou uma arena cheia. 

E que bom que o corre de vocês valeu a pena, Charles! 

Negusa Nagast 

Bateria, baixo, riffs poderosos e a marcante voz de Chaena da Gama (cantando cada vez melhor) comandam a faixa. "Deixa a Gira girar, que ela vai te guiar..." uma belíssima faixa que mostra a evolução do trio como músicos. O título da música significa na língua ge'ez Rei dos Reis, e era uma referência ao último imperador etíope, que é uma figura sagrada para o movimento rastafári.

Start The Game

A ferocidade de “Start The Game” está mergulhada no universo dos jogos de vídeo game, numa narrativa que destaca a individualidade de cada jogador em busca de chegar ao final de uma fase para avançar para a seguinte, sem pensar no coletivo. Cada um por si, mentes manipuladas para estarem em combate umas com as outras a todo momento e a ponderação do quanto custou chegar até o fim da linha para alguns poucos jogadores. Mal sabem eles que essas cartas já são marcadas e, na verdade, o jogo nunca chega num término real, porque depois da última fase, tudo recomeça. 

Uma reflexão sobre as questões sociais de manipulação e poder.

Obsoleto 

"Preciso de atualização, me sinto obsoleto", verdade que as vezes todos nos sentimos assim com essa loucura que é o mundo moderno. A faixa vai direto ao ponto, com essa letra que aparenta ser simples, mas que traz uma reflexão atual e universal. Aqui temos outra aguardada participação mais do que especial: Derrick Green (vocalista do Sepultura), cuja performance vocal encaixa perfeitamente com o som do Black Pantera. Derrick mostra que envelheceu bem, como um bom vinho e a dobradinha com Charles Gama é maravilhosa.  

O vocalista da maior e mais influente banda de Metal do Brasil bem que poderia dar uma canja em algum show do trio de Uberaba.

Meu sonho é ouvir “é Black Pantera do Brasil, um, dois, três, quatro".

P.S.: Temos uma inesperada homenagem ao Metallica na faixa Black Pantera, é isso mesmo?

W.P.P.

Começando pelo refrão, a visceral “W.P.P.” descreve como pessoas brancas e com poder aquisitivo reclamam a todo o momento de fatos rotineiramente banais, o que ironicamente ficou conhecido na Internet como White People Problem. A letra também destaca o privilégio branco, as regras que não são aplicadas e a justiça da impunidade, de uma Lei que não é válida para todos. 

Aborda ainda uma temática muito polarizada, que é remetente as questões das ações de políticas públicas, que buscam minimizar as discrepâncias de direitos na fenda criada no período da escravidão e que perdura até os dias atuais.

Banzo (com Chico César)

Black Pantera é uma banda que sempre vai tocar nas feridas deixadas nos negros. A temática de “Banzo” – palavra existente e de origem banto – é envolta numa malemolência sonora diferenciada do habitual e com versos na voz de Chico César, retratando a questão da saúde mental e física que a negritude carrega desde a época da escravidão. 

Remetendo a uma comparação entre brancos e negros, entre quem tem recursos e quem não tem, essa letra destaca o fato de que somente quem passa por uma determinada situação tem o real entendimento das dores provocadas por ela. Afinal de contas, é muito fácil falar de meritocracia quando se tem recursos financeiros. Na prática, uma barriga vazia não significa somente fome, mas também uma limitação orgânica para obtenção e desfrute de um melhor aprendizado teórico. Sem combustível para um corpo, são a mente consequentemente também não consegue ficar sã. E vice-versa. 

Uma criança que perde o brilho da infância trabalhando cresce sendo um adulto amargurado muitas das vezes, o que pode se transformar numa raiva não compreendida pelos chefes que só vivem para manter as aparências. O rico não sobreviveria um dia sendo pobre.


Yasuke

‘Temos trilha sonora de abertura de anime? Temos sim! Mais uma piscadela da banda para a Cultura Geek. Yasuke, personagem do anime de mesmo nome, e que por sua vez é baseado na história real do primeiro Samurai negro do Japão. E a temática do personagem cabe perfeitamente no discurso da banda. 

Agora resta um desejo: Chaene tem que aparecer vestido de Samurai algum dia desses nas apresentações ao vivo da banda, empunhando sua katana e seu baixo como um verdadeiro Samurai que ele é.

Sic Mundus

Ouvir os dois irmãos cantando junto a letra da música é absurdamente bom, uma letra esperta, cheia de referências. "O Passado se faz presente, ninguém veio do futuro para nos salvar" o nosso destino está em nossas próprias mãos, não podemos continuar passivos diante das injustiças, da máquina de moer gente e dos devoradores de mente. Mais uma bela música com refrão delicioso de se cantar ao vivo junto com a banda e balançando a cabeça junto, e, fazendo a gente refletir sobre o mundo no qual vivemos. 

"Sic mundus creatus est" - "Assim o mundo foi criado" piscou e perdeu mais uma referência Geek, desta vez à série da Netflix Dark.

Punhos Cerrados

Descrevendo um posicionamento corporal de encorajamento, “Punhos Cerrados” é uma exaltação ao partido revolucionário socialista norte americano dos Panteras Negras, criado em 1966. O grupo foi formado com o intuito de proteger a população negra, através de patrulhas armadas e combatendo a violência policial. Mais uma vez um ato de autoproteção do povo preto. 

Além da defesa armada, o grupo urbano também desenvolvia projetos sociais comunitários. E é justamente por conta desse movimento que ganhou notória visibilidade na questão dos direitos civis e na luta antirracista que esse trio fundou uma banda e a nomeou de Black Pantera. Mas que fique bem claro: estude sobre os movimentos revolucionários e não confunda o oprimido com o opressor!


Divulgação

Velveteen Queen: Hard Rock Renovado (Also In English)

Silver Lining Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Segundo álbum da sueca Velveteen Queen, The Greater Good mergulha de cabeça na tradição do hard rock americano, mas o faz com uma produção contemporânea e uma energia que impede o disco de soar como simples exercício de nostalgia. A banda transita com naturalidade entre hard rock, sleaze e glam, tendo Guns N’ Roses, Hanoi Rocks e Shotgun Messiah como referências evidentes, enquanto acrescenta elementos próprios suficientes para manter a identidade intacta.

“Too Far Gone” dá o pontapé inicial com riffs provocantes, produção afiada e todos os ingredientes do sleaze rock clássico, incluindo um refrão feito para ser cantado em coro. Os efeitos sobre os vocais aparecem com alguma frequência ao longo do disco, mas não chegam a comprometer o resultado. Na faixa-título, a banda desloca ligeiramente o foco para o hard rock, deixando o sleaze em segundo plano e apostando em uma sonoridade mais orgânica. O arranjo é particularmente bem construído e ganha um toque especial com o piano de Peter Keys, do Lynyrd Skynyrd.

É justamente nessa capacidade de alternar abordagens sem perder o fio condutor que The Greater Good encontra um de seus maiores méritos. “Talk or Walk” combina hard rock e sleaze em uma faixa conduzida por um riff de guitarra bastante eficiente, enquanto “Adrenaline” aproxima-se do universo do Aerosmith, sobretudo pelo groove e pelas linhas vocais. Direta, orgânica e imediatamente assimilável, é uma daquelas músicas que revelam sua força já na primeira audição.

“Can’t Go Back in Time” retoma a influência do Guns N’ Roses, desta vez sob uma perspectiva mais moderna, enquanto “Chains” quebra o ritmo com uma abordagem semi acústica construída sobre violão e voz. A interpretação de Samuel Nilsson é um dos destaques, mostrando que a banda não depende exclusivamente das guitarras elétricas para sustentar sua personalidade.

Quando as guitarras voltam a dominar, “It Ain’t Over” recupera o peso e a energia do álbum, combinando hard rock contemporâneo e referências clássicas. O refrão melódico e os backing vocals acrescentam uma dimensão mais acessível à composição. “Liar” “Best of the Best” seguem pela mesma estrada, explorando a zona de fronteira entre hard e sleaze, mas sempre com timbres e efeitos que atualizam a fórmula. Na segunda, a introdução marcada pela bateria cria expectativa para a entrada dos demais instrumentos, enquanto os backing vocals, quase melancólicos, estabelecem um interessante contraponto à voz principal.

A reta final reserva outra mudança de atmosfera. “Sorry” surge como uma balada construída sobre guitarra e voz, com vocais completamente limpos e um arranjo que combina guitarras acústicas e elétricas. A voz rouca de Nilsson encaixa-se perfeitamente nesse contexto mais intimista, dando à faixa uma carga emocional que contrasta com a energia predominante no restante do disco.

“Try (To Believe Me)” fecha o álbum retomando o hard rock americano e seu groove característico, funcionando quase como uma síntese de tudo o que veio antes. O trabalho das guitarras se destaca, enquanto os vocais de Nilsson, reforçados pelos backing vocals nos momentos certos, conduzem a composição até o encerramento.

The Greater Good mostra uma Velveteen Queen afiada e consciente de suas referências. O álbum certamente encontrará seu público entre os fãs do hard rock americano e do sleaze, especialmente aqueles que ainda reconhecem no Guns N’ Roses uma das grandes referências do gênero. A diferença é que a banda não se limita a reproduzir fórmulas: há uma preocupação evidente em atualizar timbres, produção e arranjos, mantendo o equilíbrio entre o clássico e o moderno.

A variedade entre as faixas também evita que o álbum caia na repetição, alternando momentos mais pesados e diretos com passagens acústicas e baladas. A produção precisa e moderna de Søren Andersen contribui decisivamente para esse equilíbrio, mantendo o som vigoroso sem retirar da banda sua característica mais orgânica.

No fim, The Greater Good não pretende recriar o hard rock — e tampouco precisa disso. Seu mérito está em entender exatamente o que torna esse estilo tão irresistível e traduzir essa fórmula para uma nova geração. A Velveteen Queen sabe de onde veio, sabe onde quer chegar e, principalmente, parece estar se divertindo bastante no caminho.


***ENGLISH VERSION***

The second album from Swedish band Velveteen Queen dives headfirst into the traditions of American hard rock, but does so with contemporary production and an energy that keeps the record from sounding like a mere exercise in nostalgia. The band moves effortlessly between hard rock, sleaze and glam, with Guns N’ Roses, Hanoi Rocks and Shotgun Messiah serving as obvious reference points, while adding enough of its own character to maintain a distinct identity.

“Too Far Gone” kicks things off with provocative riffs, razor-sharp production and all the ingredients of classic sleaze rock, including a chorus made for singing along. Vocal effects appear with some frequency throughout the album, but never to the point of compromising the overall result. On the title track, the band shifts its focus slightly toward hard rock, pushing the sleaze elements into the background in favor of a more organic sound. The arrangement is particularly well constructed and gets an added touch of class from the piano played by Peter Keys of Lynyrd Skynyrd.

It is precisely this ability to switch between different approaches without losing the album’s overall direction that becomes one of The Greater Good’s greatest strengths. “Talk or Walk” blends hard rock and sleaze around a highly effective guitar riff, while “Adrenaline” moves closer to the Aerosmith universe, particularly through its groove and vocal lines. Direct, organic and immediately accessible, it is one of those songs that reveals its appeal after a single listen.

“Can’t Go Back in Time” revisits the Guns N’ Roses influence, this time from a more modern perspective, while “Chains” breaks the momentum with a semi-acoustic approach built around acoustic guitar and vocals. Samuel Nilsson’s performance is one of the highlights, demonstrating that the band does not rely exclusively on electric guitars to sustain its identity.

When the guitars take over again, “It Ain’t Over” restores the album’s weight and energy, combining contemporary hard rock with classic influences. The melodic chorus and backing vocals add a more accessible dimension to the song. “Liar” and “Best of the Best” follow a similar path, exploring the territory between hard rock and sleaze while using modern tones and effects to update the formula. On the latter, the drum-led introduction builds anticipation before the other instruments and lead vocals enter, while the almost mournful backing vocals provide an interesting counterpoint to the main vocal line.

The final stretch of the album brings another change of atmosphere. “Sorry” arrives as a guitar-and-vocal ballad, featuring completely clean vocals and an arrangement that combines acoustic and electric guitars. Nilsson’s raspy voice fits the more intimate setting perfectly, giving the song an emotional weight that contrasts with the energy dominating much of the record.

“Try (To Believe Me)” closes the album by returning to American hard rock and its characteristic groove, functioning almost as a summation of everything that came before. The guitar work stands out, while Nilsson’s vocals, reinforced by backing vocals at just the right moments, carry the song through to the finish.

The Greater Good presents a sharp Velveteen Queen fully aware of its influences. The album should certainly find an audience among fans of American hard rock and sleaze, particularly those who still regard Guns N’ Roses as one of the genre’s defining reference points. The difference is that the band does not simply reproduce established formulas: there is a clear effort to modernize the tones, production and arrangements while maintaining a balance between the classic and the contemporary.

The variety between the tracks also keeps the album from becoming repetitive, moving between heavier, more direct moments, acoustic passages and ballads. Søren Andersen’s precise, modern production plays a decisive role in maintaining that balance, keeping the sound powerful without stripping away the band’s more organic character.

Ultimately, The Greater Good has no intention of reinventing hard rock — and it doesn’t need to. Its strength lies in understanding exactly what makes the genre so irresistible and translating that formula for a new generation. Velveteen Queen knows where it came from, knows where it wants to go and, most importantly, sounds like it is having a hell of a good time along the way.

Divulgação