sexta-feira, 10 de julho de 2026

Crying Steel - Clássico Até o Último Riff (Also In English)

Pride And Joy Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Com mais de quatro décadas de trajetória, o Crying Steel ocupa uma posição de respeito entre os pioneiros do heavy metal italiano. Após conquistar reconhecimento no cenário underground durante os anos 1980 e retomar suas atividades em meados dos anos 2000, o grupo permanece fiel à estética que ajudou a consolidar, equilibrando a tradição do metal clássico com uma produção contemporânea. Agora, o quinteto retorna com Agent Steel, novo trabalho lançado pela Pride & Joy Music, reafirmando sua identidade através de riffs cortantes, melodias marcantes e participações especiais de peso, como a de Ralf Scheepers (Primal Fear).

A abertura com "The Arrival" deixa claro, desde os primeiros segundos, qual será o terreno explorado pela banda. Guitarras tipicamente oitentistas, bateria precisa e vocais extremamente agudos formam uma introdução eficiente ao universo do álbum. Algumas passagens de guitarra limpa quebram positivamente a predominância da distorção, acrescentando dinâmica ao arranjo. Ainda assim, o excesso de notas extremamente agudas na interpretação vocal acaba tornando alguns momentos um pouco cansativos.

"You Got the Look" mantém a mesma proposta, mas adiciona mais velocidade à fórmula. A melodia é forte e memorável, embora novamente seja interrompida por frequentes incursões ao registro mais alto do vocalista. Os backing vocals aparecem bastante destacados na mixagem, chegando, em determinados momentos, a competir com a voz principal. O solo de guitarra segue a cartilha do heavy metal tradicional e cumpre perfeitamente sua função.

Com pouco mais de dois minutos e meio, "Under Cover" é uma descarga direta de energia. Sua construção remete imediatamente ao Judas Priest dos anos 1980, apostando em riffs acelerados, bumbo duplo constante e um refrão objetivo. Sem espaço para excessos ou firulas, a faixa entrega exatamente aquilo que promete.

Conduzida por um riff muito bem construído e uma bateria extremamente consistente, "Just Played On" sintetiza praticamente todos os elementos que definem o heavy metal clássico. As guitarras pesadas dialogam com um baixo firme e bem encaixado, enquanto os vocais transitam entre registros médios e explosões agudas, reforçando uma das principais características da banda.

Até aqui, entretanto, surge o maior problema de Agent Steel. "To Remember" mantém praticamente a mesma estrutura apresentada nas faixas anteriores. Não há qualquer problema em uma banda permanecer fiel ao seu estilo, mas existe uma linha tênue entre coerência estética e repetição. Embora as melodias vocais ainda consigam diferenciar parcialmente as composições, começa a surgir a sensação de que determinadas ideias estão sendo recicladas, reduzindo o impacto individual das músicas.

A segunda metade do disco começa com "Coming Home", que apresenta pequenas mudanças no timbre das guitarras e oferece um pouco mais de respiro ao ouvinte. O andamento permanece fiel ao metal tradicional, mas as harmonizações de guitarra e o solo, tecnicamente refinado e muito bem timbrado, elevam significativamente a qualidade da faixa. A passagem construída apenas com guitarras acrescenta textura e profundidade ao arranjo.

"My Heart Still Rocks" funciona como um dos momentos mais interessantes do álbum. A cadência mais controlada, aliada aos backing vocals de caráter quase épico, cria uma atmosfera diferente daquela apresentada até então. Apesar de o vocal continuar explorando constantemente notas muito altas, a composição oferece variedade suficiente para renovar o interesse do ouvinte.

Essa sensação continua em "Queen of Grinder", outra faixa que desacelera parcialmente a velocidade sem perder peso. O destaque fica novamente para o excelente trabalho da dupla baixo/bateria e para as guitarras, que assumem maior protagonismo. A estrutura do refrão e os solos distribuídos ao longo da música evitam que a composição caia na previsibilidade observada anteriormente.

Em seguida, "You Steal My Soul" devolve o álbum à velocidade máxima. Embora apresente diversas mudanças de andamento que enriquecem sua construção, ela inevitavelmente remete às primeiras faixas do disco. Nesse ponto, a sensação de familiaridade excessiva volta a aparecer, reforçando a principal limitação do trabalho.

O encerramento chega com "No One's Crying", que conta com a participação especial de Ralf Scheepers. Sua presença acrescenta personalidade e agressividade à música, oferecendo um tempero tipicamente germânico ao heavy metal do Crying Steel. É uma conclusão forte e bastante apropriada para um álbum que nunca esconde suas influências mais clássicas.

Agent Steel é um disco tecnicamente competente, muito bem executado e produzido com evidente respeito às tradições do heavy metal europeu. As performances instrumentais são consistentes, os riffs possuem qualidade e os solos demonstram excelente domínio técnico. No entanto, a excessiva uniformidade entre as composições acaba limitando seu impacto como obra completa. A falta de contrastes mais significativos faz com que parte do repertório soe excessivamente semelhante, reduzindo o fator surpresa ao longo da audição.

Agent Steel não reinventa a fórmula do Crying Steel — e, em momento algum, parece interessado em fazê-lo. O quinteto aposta na fidelidade absoluta ao heavy metal tradicional, entregando um repertório tecnicamente sólido, sustentado por riffs consistentes, solos inspirados e uma seção rítmica impecável. O problema é que essa mesma fidelidade acaba trabalhando contra o álbum: a pouca variação estrutural entre as composições faz com que diversas faixas compartilhem uma identidade sonora excessivamente homogênea, reduzindo o impacto individual de momentos que, isoladamente, funcionam muito bem.

Ainda assim, seria injusto classificar Agent Steel como um trabalho apenas correto. Trata-se de um álbum honesto, executado com competência e evidente paixão pelo metal oitentista, capaz de agradar em cheio aos fãs mais ortodoxos do gênero. Para quem cresceu sob a influência de nomes como Judas Priest, Accept e Primal Fear, este é um lançamento que reafirma a longevidade e a autenticidade do Crying Steel. Já para ouvintes que esperam maior variedade composicional ou alguma evolução em relação à fórmula clássica, Agent Steel pode soar excessivamente conservador. Em um mercado cada vez mais competitivo, onde tradição e inovação precisam caminhar lado a lado, o Crying Steel escolhe permanecer fiel às suas origens — uma decisão artisticamente respeitável, ainda que limite o alcance e o impacto de um disco que tinha potencial para ser ainda mais memorável.

***ENGLISH VERSION***

With more than four decades of history behind them, Crying Steel have earned a respected place among the pioneers of Italian heavy metal. After establishing themselves in the underground scene throughout the 1980s and returning to active duty in the mid-2000s, the band has remained true to the sound they helped shape, balancing the traditions of classic metal with a contemporary production approach. Now, the five-piece returns with Agent Steel, their latest release through Pride & Joy Music, reaffirming their identity with razor-sharp riffs, memorable melodies, and high-profile guest appearances, most notably Ralf Scheepers (Primal Fear).

Opening track "The Arrival" makes the band's intentions crystal clear from the very first seconds. Vintage-inspired guitar work, precise drumming, and soaring high-pitched vocals provide an effective introduction to the album's musical landscape. Occasional clean guitar passages break up the wall of distortion, adding welcome dynamics to the arrangement. However, the constant reliance on extremely high vocal registers occasionally becomes excessive, making parts of the performance feel somewhat fatiguing.

"You Got the Look" follows the same blueprint while injecting a little more speed into the formula. Its vocal melody is strong and memorable, although it is once again interrupted by frequent excursions into the singer's upper register. The backing vocals sit prominently in the mix, at times competing with the lead vocal itself. Meanwhile, the guitar solo sticks faithfully to the classic heavy metal playbook and fulfills its role perfectly.

Clocking in at just over two and a half minutes, "Under Cover" is a straightforward burst of energy. Its construction immediately recalls 1980s Judas Priest, relying on fast-paced riffs, relentless double bass drumming, and a direct, no-nonsense chorus. Free from unnecessary embellishments, the song delivers exactly what it promises.

Driven by a tightly crafted guitar riff and exceptionally solid drumming, "Just Played On" encapsulates virtually every hallmark of traditional heavy metal. Crushing guitars interact seamlessly with a tight, punchy bass performance, while the vocals alternate between mid-range passages and explosive high notes, reinforcing one of the band's defining trademarks.

Up to this point, however, Agent Steel reveals its biggest weakness. "To Remember" follows almost the exact same structural template established by the previous tracks. There is certainly nothing wrong with a band staying true to its signature sound, but there is a fine line between stylistic consistency and repetition. Although the vocal melodies still provide some distinction, a sense of recycled ideas begins to emerge, diminishing the individual impact of the songs.

The album's second half opens with "Coming Home", introducing subtle changes in the guitar tone that give the listener a welcome breath of fresh air. The pacing remains firmly rooted in traditional metal, but the tasteful guitar harmonies and a technically refined, beautifully crafted solo significantly elevate the track. A section built entirely around layered guitars adds both texture and depth to the arrangement.

"My Heart Still Rocks" stands out as one of the album's most engaging moments. Its more restrained tempo, combined with almost epic-sounding backing vocals, creates an atmosphere that differs noticeably from everything heard up to that point. While the lead vocals continue to rely heavily on soaring high notes, the composition offers enough variation to renew the listener's interest.

That feeling continues with "Queen of Grinder", another track that eases back on the speed without sacrificing any of its weight. Once again, the excellent rhythm section deserves praise, while the guitars take center stage. The chorus structure and strategically placed guitar solos prevent the song from falling into the predictability that affects some of the earlier material.

Next comes "You Steal My Soul", bringing the album back to full throttle. Although its numerous tempo shifts enrich the arrangement, it inevitably recalls the opening tracks. At this stage, the feeling of excessive familiarity resurfaces, once again highlighting the album's primary shortcoming.

The closing track, "No One's Crying", features a special guest appearance by Ralf Scheepers, whose unmistakable voice injects additional personality and aggression into the song, adding a distinctly Germanic edge to Crying Steel's traditional heavy metal approach. It serves as a powerful and fitting conclusion to an album that never attempts to disguise its classic influences.

Agent Steel is a technically accomplished record, executed with confidence and produced with an obvious respect for the traditions of European heavy metal. The musicianship is consistently strong, the riffs are well-crafted, and the guitar solos showcase excellent technical ability. Nevertheless, the excessive uniformity between the songs ultimately limits the album's overall impact. The lack of more pronounced contrasts causes parts of the tracklist to sound overly similar, reducing the element of surprise as the record progresses.

Agent Steel does not attempt to reinvent Crying Steel's formula—and at no point does it seem interested in doing so. Instead, the band embraces traditional heavy metal with unwavering commitment, delivering a technically solid collection of songs built upon powerful riffs, inspired guitar work, and an impeccable rhythm section. Ironically, that very commitment works against the album, as the limited structural variation causes several tracks to share an almost identical sonic identity, diminishing the impact of moments that are genuinely impressive when taken individually.

Even so, it would be unfair to dismiss Agent Steel as merely a competent effort. This is an honest album, performed with conviction and driven by a genuine passion for classic '80s heavy metal, making it particularly rewarding for the genre's most devoted followers. For listeners raised on bands such as Judas Priest, Accept, and Primal Fear, this release reaffirms Crying Steel's longevity and authenticity. Those seeking greater compositional diversity or a more adventurous evolution of the band's classic formula, however, may find the record overly conservative. In today's increasingly competitive metal landscape, where tradition and innovation often need to coexist, Crying Steel chooses to remain firmly rooted in its origins—a respectable artistic decision, even if it ultimately limits the reach and lasting impact of an album that had the potential to be even more memorable.

Annarita Mancini

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Pride Of Lions: Melodic Rock Sofisticado e Sem Perder as Raízes

 


Por: Caco Garcia
Fotos: Divulgação 
English Version Below

A dupla Jim Peterik e Toby Hitchcock segue impecável em sua proposta neste oitavo álbum do Pride of Lions, trazendo seu Melodic Rock de produção refinada, instrumental primoroso, melodias e refrãos pegajosos.

"Unbridled" será lançado dia 10/07 via Frontiers Records, e mostra aquela conhecida habilidade de Peterik em criar potenciais hits. Claro, dificilmente teremos uma nova "Eye of the Tiger", até porque os tempos são outros, mas a capacidade de criar melodias  e refrãos cativantes segue intacta, como podemos perceber na abertura, e que dá nome ao álbum.

"Unbridled" inicia com uma intro de guitarras, e tem uma pegada mais Hard Rock, exibindo elementos familiares aos fãs do POF, como os duetos vocais, mesclando os tons mais baixos e maduros de Peterik, com o registro mais alto de Hitchcock, e claro, melodias e refrão irresistíveis

"Edge of Forever" traz Peterik nas vozes principais durante os versos, em um Melodic Rock contemporâneo e com um pé nas raízes clássicas. Destaque para linhas melodiosas das guitarras. O tema fala sobre nosso planeta, que parece enfrentar um colapso, mas que tem solução.

As baladas difícilmente ficam de fora em se tratando do estilo, e temos aqui "Don't Waste a Wish on Me" e "What the Whole World Needs to Know", que podem não chegar a um status de "memoráveis", mas cumprem seu papel, com melodias vocais apuradas e bons ganchos, sendo que na primeira Toby Hitchcock se encarrega dos vocais principais, e na segunda isso fica a cargo de Peterik, com as duas vozes se complementando nos refrãos.

Ainda na parte das baladas, destaca-se "Hell or High Water", que traz arranjos orquestrais, e lembra momentos de outros projetos de Peterik, como o World's Stage, contribuindo para uma diversificação maior no álbum.

E ainda "Ride the Lightning", cover AOR do clássico do Metallica. Não, estou mentindo, é só uma brincadeira hahaha! Apesar do título ser o mesmo, não tem nada ver com os Thrashers, é mais uma balada suave, destacando o alcance e feeling da voz de Tobby Hitchcock, uma das mais marcantes do Melodic Rock e AOR contemporâneos.

Há momentos mais suaves e melódicos, mas menos "baladeiros", como a agradável "I'll Be Your Rock", onde os dois dividem os vocais, em linhas cheias de emoção, em uma letra trazendo mensagens positivas e de empatia.

Nessa linha também temos "I Can See in the Dark", onde destaco as melodias marcantes de teclado, e claro, as guitarras, sempre com intervenções refinadas e de bom gosto. 

E com jeitão de Hit, "Lose Like a Winner", que remete aquela aura anos 80 do estilo, com melodias apuradas no teclado e guitarras, e claro, um refrão pegajoso.

Não faltam também outros momentos mais enérgicos e rockers, como na vibrante "1.000 Long Goodbyes" e "Can't let it Go".

O álbum fecha com "A Mighty Noise", que inicia ao piano e voz, para depois ganhar cores e melodias vibrantes,  se mostrando um soft rock dançante, de linhas vocais cativantes e pegajosas.

Um álbum consistente e sólido, de um grupo já consolidado, que une muito bem as raízes 80's com as nuances contemporâneas. Cumpre bem seu papel, vai agradar seus fãs e os aficionados em Melodic Rock e AOR.



******** English Version*******

Pride Of Lions: Sophisticated Melodic Rock Without Losing Its Roots


By: Caco Garcia
Photos: Promotional

The duo of Jim Peterik and Toby Hitchcock remains flawless in their approach on this eighth Pride of Lions album, delivering Melodic Rock characterized by refined production, exquisite instrumentation, and catchy melodies and choruses.

"Unbridled" is set for release on July 10th via Frontiers Records and showcases Peterik's well-known knack for crafting potential hits. Of course, a new "Eye of the Tiger" is unlikely—times have changed, after all—but the ability to create captivating melodies and choruses remains intact, as evidenced by the opening title track.

"Unbridled" kicks off with a guitar intro and leans into a Hard Rock vibe, displaying elements familiar to POF fans—such as vocal duets blending Peterik's mature, lower register with Hitchcock's higher range—alongside, naturally, irresistible melodies and a catchy chorus.

"Edge of Forever" features Peterik on lead vocals during the verses, offering a blend of contemporary Melodic Rock and classic roots. The melodic guitar lines are a highlight. The song addresses the state of our planet, which seems to be facing collapse yet holds the potential for a solution.

Ballads are a staple of the genre, and this album includes "Don't Waste a Wish on Me" and "What the Whole World Needs to Know." While they may not quite reach "memorable" status, they serve their purpose well with polished vocal melodies and strong hooks; Hitchcock handles lead vocals on the first, while Peterik takes the lead on the second, with both voices complementing each other in the choruses.

Also among the ballads, "Hell or High Water" stands out; featuring orchestral arrangements, it evokes moments from other Peterik projects—such as World's Stage—and adds greater stylistic diversity to the album. And then there's "Ride the Lightning"—an AOR cover of the Metallica classic. No, I'm kidding—just a joke, hahaha! Despite sharing the title, it has nothing to do with the thrash metal band; instead, it’s a smooth ballad that highlights the range and emotional depth of Tobby Hitchcock’s voice—one of the most distinctive in contemporary Melodic Rock and AOR.

There are other softer, melodic moments—though not quite ballads—such as the pleasant "I'll Be Your Rock." Here, the two share vocal duties, delivering emotion-filled lines and lyrics that convey positive messages and empathy.

"I Can See in the Dark" follows a similar path; I’d highlight the striking keyboard melodies and, of course, the guitars, which always feature refined, tasteful playing.

Then there’s "Lose Like a Winner," a track with a real hit-single vibe. It evokes that classic '80s aura, featuring polished keyboard and guitar melodies and, naturally, a catchy chorus.

There is no shortage of energetic, rock-oriented moments either, such as the vibrant "1,000 Long Goodbyes" and "Can't Let It Go."

The album closes with "A Mighty Noise." It begins with just piano and vocals before blossoming into vibrant colors and melodies, ultimately revealing itself as a danceable soft-rock track with captivating, infectious vocal lines.

It is a solid, consistent album from an established group that successfully blends '80s roots with contemporary nuances. It hits the mark perfectly and is sure to please both existing fans and aficionados of Melodic Rock and AOR.


Tracklist 
1. Unbridled
2. Edge Of Forever
3. Don’t Waste A Wish On Me
4. 1000 Long Goodbyes
5. What The Whole World Needs To Know
6. I’ll Be Your Rock
7. Hell Or High Water
8. Ride The Lightning
9. Lose Like A Winner
10. I Can See In The Dark
11. I Can’t Let Go
12. A Mighty Noise

Label: Frontiers 

PRIDE OF LIONS are:
Toby Hitchcock and Jim Peterik: Lead Vocals
Ed Breckenfeld: Drums And Percussion
Mike Aquino: Lead Electric And Acoustic Guitar
Keyboards: Jim Peterik
Secondary Guitar: Jim Peterik
Bass Guitar: Bob Lizik






terça-feira, 7 de julho de 2026

Soulwitch: O metal sinfônico curitibano que une ocultismo, orquestra e protagonismo feminino

Lucas de Melo - @olucasdemelo_

Por Michelle F. Santana (@mii.santanna) e Paula Butter (@paulabutter.rocks)

Dois anos após o lançamento de Principium, a Soulwitch segue construindo uma das trajetórias mais consistentes do metal sinfônico brasileiro. Formada em Curitiba (PR), a banda reúne peso, arranjos orquestrais e uma identidade conceitual densa, ancorada em espiritualidade, hermetismo e simbolismo, numa proposta que dialoga com referências internacionais do metal sinfônico sem abrir mão de uma voz própria.

À frente do grupo está a vocalista e diretora artística Maria Sliviany, responsável pelas letras, pelo figurino e pela narrativa visual que atravessa o álbum. Lançado pelo selo Voice Music, Principium percorre temas como amor, morte, transformação da consciência e renascimento, os chamados princípios herméticos, traduzidos em faixas como Teufelsbuhlschaft, que explora os arquétipos da bruxaria e da Inquisição, e Beltane, selecionada para o Roadie Crew Online Fest, um dos principais eventos digitais de metal do país.

Em junho de 2026, às vésperas de um show especial no Teatro Paiol, em Curitiba, para celebrar os dois anos do disco, Maria Sliviany conversou com a Road To Metal, e falou sobre o processo criativo por trás das músicas, a filosofia que atravessa cada faixa e videoclipe, e também o papel da mulher no cenário do metal brasileiro. Para ela, a Soulwitch vai além de uma banda: é uma ferramenta de cura, uma ponte entre o humano e o divino, e um convite ao autoconhecimento. "A música tem que ser sentida antes de ser compreendida", disse ela, sintetizando em uma frase o que Principium busca provocar em quem ouve.

Confira a seguir a entrevista na íntegra:

Michelle: Prazer enorme conversar com você. Eu ouvi a banda e, como fã de metal sinfônico, fiquei muito feliz de conhecer uma banda brasileira com tamanha qualidade. Muito obrigada mesmo!

Maria: Nossa, eu que agradeço, Michelle. Esse reconhecimento significa muito para nós. Querendo ou não, a gente faz tudo com muito amor e muito trabalho. As bandas brasileiras também precisam de visibilidade, então acho que existem muitas bandas boas que, às vezes, o público simplesmente ainda não conhece. Fico muito feliz que você tenha gostado, de coração. Para nós, isso significa muito, ainda mais vindo de uma fã de metal sinfônico.

Michelle: Falando um pouquinho sobre isso, Maria, na sua visão, o que faz uma banda brasileira de metal sinfônico conseguir se destacar em um cenário que é tão europeu?

Maria: Então, pela quantidade de bandas e pela quantidade de conteúdo que temos hoje nas redes sociais, acaba sendo bem difícil. O metal sinfônico é bem nichado. Querendo ou não, tem a questão dos arranjos orquestrais e toda uma imersão, uma atmosfera diferente dentro do metal. Eu sempre falo que é como se fosse uma trilha sonora se juntando com o peso do metal. É um trabalho muito massa de fazer, mas exige demais também.

Toda essa parte quem cria é o Jack. Ele é o criador da banda e quem dá origem a todas essas músicas. Por ser tecladista, ele tem o conhecimento necessário para construir toda essa atmosfera e todo esse universo que o metal sinfônico exige.

Luca de Melo - @olucasdemelo_

Michelle: É bem cinematográfico, né? Muito trabalhado.

Maria: É porque você consegue se transportar para uma época, para um lugar. Acho que a ideia da Soulwitch e do metal sinfônico em si sempre foi isso. E cada banda vai trazer uma personalidade, um conceito, uma ideia. Você ouve Nightwish, Epica, Within Temptation... Todas elas têm algo em comum, mas também têm algo muito diferente, com muita personalidade, tanto na temática quanto na sonoridade.

A gente também tem essas bandas como referência e sempre quis trazer a nossa própria identidade. Acho que a gente sempre acaba se espelhando em outras bandas, porém trazendo também as nossas ideias e a nossa personalidade para criar uma arte única.

Paula: Com relação à arte e ao figurino, eu vi que vocês têm um trabalho muito grande com isso. O álbum, a capa, a arte... É uma coisa muito perfeita e muito bem-feita que, atualmente, é difícil ver em bandas nacionais. Eu queria saber como surgem essas ideias: o figurino da banda, os videoclipes... O quanto dá de trabalho elaborar esses conceitos, esses figurinos? Isso vem de dentro de você?

Maria: Eu falo que a nossa criação é muito fluida. Eu acredito que a arte tem que nascer dessa sensibilidade do artista. Tem toda a parte técnica, que é super necessária. O conhecimento geral da música, saber estruturar uma música, a técnica que você vai utilizar, tanto como instrumentista quanto como vocalista, é essencial. Mas a alma tem que falar através desse sentimento, dessa liberdade que a arte permite, porque, se você pensa demais, a arte acaba travando.

Então, a gente sempre tenta fazer tudo de uma forma muito fluida, livre de amarras. A Soulwitch se torna bruxa também dentro desse conceito por conta dessa liberdade de expressão.

E a questão do figurino, do audiovisual, dos videoclipes e da parte gráfica é uma extensão disso. Eu sou apaixonada por arte. Estudei arte, estudo arte, consumo arte. Sou apaixonada por moda, por cinema e por arte gráfica. Adoro frequentar museus. Eu acho que, se a gente pode proporcionar uma experiência completa para o público, por que não? Por que não entregar o melhor? Por que não entregar um universo? A gente faz isso com esse propósito.

Hoje eu até trouxe aqui o disco da Soulwitch, que a Paula comentou. Se você for analisar, tem toda essa questão através da arte gráfica, das cores e do videoclipe também. Inclusive, tem uma foto no encarte que foi feita com o figurino de "Teufelsbuhlschaft". A gente quis trazer esse link para que o público tivesse uma imersão completa nessa experiência.

Divulgação

Michelle: Eu acho que vocês conseguem exprimir bastante essa estética, que é muito marcante. E, você falando desse processo criativo, Maria, qual foi a primeira imagem ou ideia que surgiu antes mesmo das filmagens começarem?

Maria: Você diz quando a gente já tinha as músicas prontas ou no início de tudo mesmo?

Michelle: Eu acredito que quando vocês já tinham a música pronta. Como vocês imaginavam esse clipe, que ficou muito bonito? Parabéns!

Maria: Ai, obrigada! "Teufelsbuhlschaft" foi escolhida como o primeiro single por ser a raiz da banda. Foi a primeira música que lançamos para anunciar o álbum, mas também a primeira a ser composta. O Jack já tinha esse instrumental há muitos anos e, quando ele me mostrou, foi a primeira letra que eu escrevi.

Foi algo muito intuitivo, porque, quando escutei toda aquela sonoridade que ele trouxe, ela me remeteu a uma época, a um cenário e a um sentimento também. Era como se ela contasse uma história: uma perseguição, mas que não termina com um final triste.

A questão da integração das sombras, da cura e de trazer a história de uma bruxa no século XVI não representa um fim, e sim um novo começo, porque a morte não representa um fim; ela é uma transmutação.

E a gente também pode morrer diversas vezes em vida. Quantas vezes a gente chega e fala: "Cara, é hora de mudar. É hora de fazer algo diferente." A gente se renova constantemente. Sempre foi essa a ideia: a transmutação e a integração das sombras.

O preto e o branco vêm com isso. O preto como a integração da sombra, enquanto o branco representa a nossa essência, que nunca se perde, apesar de tudo o que a gente passa, dos altos e baixos da nossa vida.

Eu acredito que essa é a principal lição, a principal mensagem que a gente gostaria de trazer.

Paula: E, tocando nesse assunto, você acabou de falar que vocês conseguem unir temas como amor, morte, transformação, renascimento e os princípios herméticos. O que eu acho muito interessante é que isso chega muito facilmente ao ouvinte, porque, se você for analisar as letras, é uma música que te toca imediatamente. A primeira vez que eu ouvi o álbum, eu me apaixonei pelas letras, porque é aquilo que você falou: tem a parte das sombras, tem a parte do renascimento e da própria vida. Parece que é uma história sendo contada, e ela ficou acessível para vários ouvintes. Tem bandas que fazem obras extremamente boas, mas que, às vezes, ficam um pouco complicadas para todo mundo. Com vocês, eu tenho a impressão de que muita gente que nem escutava esse tipo de música passou a escutar. Já fazem dois anos desde o lançamento do álbum, e ele continua muito atual. Tem muita gente descobrindo ou redescobrindo esse trabalho. A gente mesmo fala: "Olha, você já ouviu?" E todo mundo que ouve acaba gostando. Como vocês se sentem vendo essa repercussão?

Maria: Primeiro, Paula, muito obrigada pelas palavras. Eu vou guardar muito isso para mim, porque é esse feedback que a gente ama receber. É por isso que eu gosto tanto de manter contato com o público, porque eu tenho muito interesse em saber o que a Soulwitch desperta em vocês. E ouvir isso de você é muito lindo, porque é um desafio tanto em questão técnica quanto conceitual.

Ontem (22/07) eu estava conversando com a Maria Correia, do Heavy Metal Online, e eu falei sobre isso para ela. A magia se divide em duas polaridades. A primeira é a questão do conhecimento racional, ligada aos estudos. E a outra é a parte intuitiva, do inconsciente e do sentimento, que também está ligada ao ritual.

Eu pensava: ‘como é que a gente vai conseguir trazer a magia de uma forma humanizada e de um jeito que as pessoas não apenas compreendam, mas sintam?’

Eu acredito que a música tem que ser sentida antes de ser compreendida, porque cada pessoa vai ter a sua interpretação. Eu posso trazer essa temática, mas cada um de vocês vai ouvir e vai ter um sentimento, uma memória e algo que desperta em vocês de forma única. Esse é o verdadeiro poder da arte.

É muito gratificante ter esse feedback e saber que você realmente mergulhou nesse universo que a gente tenta trazer, porque essa sempre foi a ideia.

Paula: E vocês já estão pensando em um novo projeto? Alguma coisa já está sendo trabalhada ou vocês vão focar mesmo nos shows, que vai ter agora no dia 27/06 (N.T.: a entrevista foi realizada no dia 23/06, quatro dias antes do show), e para os quais estamos todos ansiosos?

Maria: Fico feliz que você vá, Paula. Gostaria que a Michelle também fosse.

Michelle: Ah, eu queria muito! Estou em São Paulo, esperando vocês por aqui.

Maria: Pois é! São Paulo está nos encantando, porque a gente quer muito tocar aí. A Soulwitch está louca para fazer um show em São Paulo. Quem sabe no próximo ano? Seria maravilhoso.

Sobre os planos da banda, a gente nunca para. Claro que a gente não pode falar sobre as novas composições, mas é que nem eu digo: se a gente deixa de compor, parece que para de respirar, porque é o que a gente ama fazer.

Então, a Soulwitch está sempre em atividade, sempre compondo. O Jack está sempre lá, que nem uma maquininha, fazendo as músicas, passando para mim, e a gente vai trabalhando.

Enquanto isso, a banda precisa acontecer. O ao vivo é muito importante para nós. Esse show no teatro é uma experiência muito legal, muito diferente. O teatro permite que você tenha uma proximidade muito grande com o público. Durante a apresentação, às vezes a gente faz uma pausa, conversa com o pessoal e explica um pouquinho sobre o que fala cada música. E, no final do show, ter esse feedback, conseguir dar um abraço no pessoal, conversar e conhecer quem é o nosso público... O teatro permite muito isso.

Então, estamos muito ansiosos para esse sábado e, claro, seguimos com os shows.

Michelle: Você estava falando da expectativa para essa comemoração dos dois anos do álbum. Existe alguma faixa que ganhou um significado completamente diferente para você depois desses dois anos?

Maria: Eu acho que cada faixa é como um filho. Você vai amar todas. Cada uma tem a sua peculiaridade, porque tem dias em que uma música vai fazer mais sentido pelo que você está vivendo.

Tem dias em que você está mais introspectiva e vai estar mais "Aura Spectrum". Você teve um sonho, um desdobramento astral, uma revelação, e pensa: "Cara, isso faz total sentido para mim."

Em outros dias, você está com sangue nos olhos, cheia de revolta, e vem "Pandemonium". É aquela coisa: "Eu preciso falar, preciso ouvir, preciso cantar essa música hoje."

Então, cada música é vivida de uma forma diferente. Dependendo do momento, elas acabam falando por si só.

Eu amo todas as músicas e espero que o público também goste. Claro que cada um vai se conectar de uma forma mais especial com uma em específico. A gente sempre brinca que é como uma caixa de bombons: você sempre vai ter um preferido. (risos)

Voice Music (Nac.)

Paula: Como você definiria a Soulwitch para uma pessoa que vai ao show pela primeira vez e está ouvindo a banda pela primeira vez?

Maria: Eu sempre digo que a Soulwitch é uma ponte entre os limiares. Ela é uma conexão do nosso lado humano com o divino. E, na minha visão, o divino é o nosso eu superior. É a emancipação da consciência do ser. É essa questão do equilíbrio, em que a gente encontra as nossas forças interiores. E é uma oportunidade de dar voz a pessoas que não puderam falar em sua época e também aos registros que carregamos na nossa alma.

Eu acredito muito que vivi outras vidas e que consigo resgatar essas memórias através dos meus sentimentos. Quando a gente compõe as músicas, deixamos que esse sentimento nos transporte. É um momento de cura, um momento de resgate.

A Soulwitch não é apenas uma banda. Ela é uma filosofia de vida, uma ferramenta de cura. Ela consegue resgatar vozes silenciadas, tanto do passado quanto do presente, e também trazer energias futuras. É um universo.

Michelle: E quando você começou nesse universo, Maria? Nesse universo mágico e ritualístico que vocês trazem e exprimem tão bem na arte de vocês. Quando foi o seu primeiro contato com esse universo?

Maria: Eu acho que isso é algo que a gente carrega desde o nascimento. Mas sempre existe um momento de despertar, algum momento específico da sua vida em que isso vem com tudo. É como uma serpente que está adormecida e desperta. É como se fosse a kundalini: a nossa serpente, o nosso instinto, o nosso lado humano despertando para se conectar com esse eu superior, com esse divino, com essa consciência cósmica, essa consciência maior que nós temos.

Não tem um momento específico. Foi um despertar que foi acontecendo e que continua acontecendo. Acho que, a cada dia, a gente acaba se conhecendo mais. Eu vivo uma jornada de autoconhecimento e expresso muito isso nas letras da Soulwitch. Eu posso estar bem velhinha e, com certeza, ainda vou estar descobrindo coisas novas e vivendo novas experiências.

Paula: A tua postura e o teu figurino transmitem feminilidade, mas, ao mesmo tempo, muito poder. Você acaba sendo uma inspiração para muitas cantoras, principalmente daqui de Curitiba e também de outros estados. Só que esse mundo da música, às vezes, é um pouco cruel. O que você diria para essas cantoras que ainda não encontraram esse poder dentro delas? Que conselho você daria para aquelas que, de repente, pensam em desistir?

Maria: Eu acho que o autoconhecimento é a chave de tudo. Eu sempre digo que a verdadeira magia está nisso. Você tem que ter controle sobre você mesma, controle sobre a sua sombra, primeiramente, e reconhecer aquilo que te machuca, que te limita, que te afeta.

Então, em vez de ignorar isso, eu acho que você tem que encarar como se fosse um espelho, aceitar, integrar e ir resolvendo tudo dentro de você. É um processo de respeito ao seu próprio tempo.

Cara, todos nós passamos por muita coisa. Todo mundo tem uma história, todo mundo tem uma ferida. Então, eu acho que nunca é uma questão de desistir. É uma questão de integrar tudo isso. E, quando você integra a sua sombra, ela vira poder.

Até em "Teufelsbuhlschaft", se você for analisar essa jornada da bruxa que eu trago, é quando a igreja toma dela essa liberdade. As mãos, que são um instrumento de trabalho e, para mim, algo sagrado, ficam manchadas pelo preto, que representa a sombra. Só que ela não se desfaz disso. Até o final, ela permanece com essas marcas, e aquilo se transforma em algo poderoso, em uma ferramenta de poder para ela.

Então, acho que as mulheres têm que ter isso em mente, porque a mulher já é uma maga por natureza. Existe essa energia lunar que a mulher carrega, porque a gente tem o poder da geração. Só a mulher pode gerar a vida. E a magia é isso: criação. É criar a sua própria realidade.

Então, como você falou, Paula, existe a nossa feminilidade, mas também existe o nosso poder. E o feminino é isso. Também é encontrar o seu masculino, o seu sol, a hora de brilhar, a hora de trazer isso para o mundo, para o público.

Para conseguir se conectar com outras pessoas, você primeiro precisa se resolver consigo mesma. O feminino, a lua, tudo isso representa essa imersão interior. É um momento de recolhimento para integrar essas sombras e, só então, brilhar com o seu sol.

É esse o conselho que eu deixaria para as meninas. Espero que elas encontrem esse equilíbrio entre o feminino e o masculino dentro delas.

Paula: Muito obrigada pelo conselho.

Maria: Eu adorei essa pergunta. Achei muito massa, porque é uma oportunidade de compartilhar essas ideias. Eu queria estar em uma roda de meninas, conversando e conhecendo também as experiências delas. Quem sabe a gente não tenha essa oportunidade algum dia?

Paula: Só um adendo: aqui em Curitiba a gente tem um grupo, não sei se você já ouviu falar, chamado FeMetal. É uma iniciativa muito legal. A gente tenta reunir as mulheres da cena independente, sejam elas musicistas, empresárias ou de outras profissões. Tudo gira em torno do heavy metal. Por isso o nome FeMetal. A gente tenta fortalecer esse lado feminino de todas elas, mas ainda é difícil.

Maria: É difícil, Paula? Como assim? O que acaba acontecendo?

Paula: Porque, às vezes, existe muita desunião nesse meio musical. Falta um pouquinho mais de união.

Maria: Eu acho que muitas feridas acabam vindo à tona. Então é isso que a gente fala: quando a gente não está bem resolvido com a gente mesma, acaba ferindo os outros também, porque a gente está ferida.

O cenário tem muito essa questão do ego. Então, eu acho que a união deveria acontecer por um propósito maior. Essa disputa para tentar fazer uma brilhar mais do que a outra não pode existir, porque eu acredito que há espaço para todo mundo.

Paula: Mas, graças a Deus, está perseverando. A união está ficando cada vez maior. Eu considero isso uma vitória, por enquanto.

Maria: Também acho que pode começar por grupos menores. Por exemplo, três bandas unidas ou algo assim. Porque eu acho que, quanto mais gente envolvida, às vezes pode surgir algum desentendimento. Mas o importante é as coisas fluírem.

Paula: É por isso que eu te perguntei sobre as meninas, as novas cantoras, que acabam desistindo. Elas precisam encontrar esse poder, essa magia, essa força natural que existe dentro delas. Precisam amar mais. O teu álbum, o teu conceito... O conceito da Soulwitch ajuda muito nisso. Muitas meninas gostam muito e admiram esse trabalho. Então é bem legal.

Maria: Nossa, eu fico lisonjeada de saber que tantas mulheres se conectam com isso. Quer dizer que realmente o nosso propósito está funcionando, que a gente está tocando pessoas, fazendo com que elas despertem para também investir esse tempo nelas, investir essa energia.

A gente sabe que não é fácil. Todo mundo tem a sua rotina, às vezes falta tempo. Você pensa: 'ah, eu vou investir em arte', mas a gente sabe que o retorno é complicado. Mesmo assim, a gente não pode desistir. Tem que encontrar uma força, um propósito nisso.

Então, eu fico feliz de estar inspirando essas mulheres, porque acredito que cada uma tem algo único para trazer através da própria arte. Eu apoio muito a questão do autoral, porque ele permite criar algo realmente único.

Claro que existem as bandas cover, que fazem parte de um cenário muito movimentado, mas o autoral é o novo. Toda banda deveria buscar criar suas próprias músicas. A gente precisa de novas bandas. Precisa dar continuidade a essa história.

Paula: Sim, com certeza. Eu concordo plenamente com você. Precisamos de autoral, precisamos de identidade, de arte. Não apenas de coisas feitas por inteligência artificial. Lógico que ela ajuda em algumas tarefas do dia a dia, mas não na arte. Não na criação. A gente ainda precisa da música, do ser humano, do artista, do fotógrafo e de tudo aquilo que nos permite ser quem somos. E essa questão do autoral também... Eu sempre faço essa reflexão. Tem tanto artista maravilhoso que, meu Deus, eu fico impressionada! E, às vezes, as pessoas preferem recorrer ao computador para fazer alguma coisa, em vez de chamar um artista, até mesmo o próprio vizinho. Tem muita gente boa.

Maria: Eu não consigo nem imaginar como alguém consegue fazer uma música através da inteligência artificial. A tecnologia vem para ajudar, mas também pode acabar destruindo muita coisa.

A inteligência artificial pode ser uma ferramenta, mas ela nunca vai ter a alma do artista. Então é uma situação bem complicada. Eu não vejo isso com muitos bons olhos.

Paula: É por isso que a gente tem que exaltar aqueles que realmente contratam artistas, que fazem tudo do jeito que vocês fizeram. Graças a Deus, ainda tem bastante banda fazendo isso.

Maria: Sim, com certeza.

Michelle: Qual é o maior obstáculo que você enxerga hoje em dia em ser independente e também ser uma mulher à frente de uma banda?

Maria: Eu acho que passa muito pela questão que a Paula trouxe: as oportunidades. Mas a gente sempre encontra, na dificuldade, um novo caminho.

Eu nunca me dou por derrotada. A gente realmente não desiste de nada. Sabemos que, às vezes, os passos para uma banda como a nossa conseguir tocar são muito complicados, quando não deveriam ser.

Eu acho que ainda faltam muitas oportunidades para bandas autorais no ao vivo. Tanto que a gente faz a produção dos nossos próprios eventos por causa disso. Mas acabou sendo algo muito positivo, porque conseguimos oferecer uma estrutura de teatro que proporciona uma imersão maravilhosa.

Além da conexão com o público, existe toda a qualidade sonora que um teatro oferece quando você escolhe um espaço com boa estrutura.

Mas, claro, toda essa correria fica por conta da banda. Tem a locação do teatro, técnico de som, técnico de luz, venda de ingressos, divulgação... Tudo é responsabilidade nossa. Não é apenas fazer um cartaz; é divulgar o evento, organizar toda a campanha e cuidar de toda a parte burocrática.

Para o público, normalmente a divulgação começa cerca de dois meses antes, mas o trabalho de organização começa muito antes disso.

A gente está aí para isso e sempre vai procurar novas oportunidades. Mas eu acredito que um dos maiores desafios continua sendo encontrar os parceiros certos para conseguir realizar esses shows.

Paula: E, para encerrar, deixa uma mensagem para os fãs.

Maria: Eu só tenho a agradecer ao nosso público, que é maravilhoso. Sem vocês, a gente não seria nada. A música vive por causa do público.

Eu amo ter essa conexão com vocês. Espero que algo do que eu tenha dito aqui hoje fique com vocês, que desperte alguma coisa aí dentro e possa ajudá-los de alguma forma.

Hoje a gente falou muito sobre integração das sombras. Espero, de coração, que vocês encontrem o próprio caminho.

E eu também estou sempre disponível para conversar. Então podem me mandar mensagem no direct do Instagram. Qualquer dúvida, qualquer conselho... Estou aqui para isso também. Sou superaberta. Podem mandar mensagem que a gente conversa.

Black Label Society: O Peso da Despedida (Also In English)

MNRK Heavy (Imp.)

Por Michelle F. Santana (@mii.santanna)

Raras são as bandas que conseguem cruzar quase trinta anos de estrada, preservando uma assinatura musical tão autêntica quanto o Black Label Society. Criado em 1998 pelo guitarrista, cantor e compositor Zakk Wylde, o projeto moldou sua discografia ao redor de acordes gigantescos, groove metal, nuances de doom, southern rock, blues e, prioritariamente, a herança do Black Sabbath. Ladeado por Dario Lorina, John DeServio e Jeff Fabb, Wylde apresenta em Engines of Demolition um registro que resume perfeitamente os elementos que transformaram o conjunto em um pilar do heavy metal moderno, mas injeta um teor sentimental incomum em seu histórico. Editado em março de 2026, o álbum surge também como o trabalho inaugural de estúdio após a partida de Ozzy Osbourne, mentor e parceiro de longa data do líder da banda, um acontecimento que molda profundamente o clima da obra.

Logo nos primeiros instantes, fica claro que a produção técnica prioriza o impacto sonoro sem sacrificar a definição do áudio. As guitarras se apresentam encorpadas, as frequências baixas ganham enorme destaque e cada componente encontra seu devido posicionamento na mixagem. O produto final é um disco vigoroso, natural e dotado de grande vivacidade, hábil em mesclar momentos avassaladores a trechos melancólicos sem romper a unidade do projeto. O trabalho de estúdio exalta os traços estilísticos do Black Label Society, retendo o aspecto rústico tradicional do quarteto ao mesmo tempo em que joga luz sobre sutilezas instrumentais que ornamentam cada composição.

A faixa de abertura, "Name in Blood", dita o rumo do trabalho sem rodeios. Funciona como uma verdadeira declaração de princípios do Black Label Society: riffs demolidores, cadência envolvente e um refrão marcante que a consolida como um dos pontos altos do catálogo. A fusão de groove, agressividade e linhas melódicas potentes qualifica a música como uma forte candidata a integrar a lista de hinos atemporais da banda.

Em seguida, "The Hand of Tomorrows Grave" adota uma perspectiva mais obscura e reflexiva. As guitarras transitam entre o peso bruto e harmonias nostálgicas, enquanto Wylde exibe um canto carregado de sentimento, acentuando o ambiente denso que domina boa parte das canções.

A faceta mais terna desabrocha em "Better Days & Wiser Times", uma das composições lentas mais inspiradas da produção recente do conjunto. Bebendo das fontes do blues e do rock sulista, a canção atesta o talento de Wylde para edificar melodias comoventes sem apelar para o sentimentalismo barato. Trata-se de uma pausa necessária que enriquece a dinâmica do álbum.

Por sua vez, "Broken and Blind" resgata a rispidez habitual do grupo. Acordes cortantes, percussão massiva e uma rítmica contagiante fazem desta faixa um prato cheio para os entusiastas do lado mais extremo do Black Label Society. Novamente, a virtuosidade de Wylde surge sob medida: suas intervenções individuais impressionam pelo senso musical, evitando o exibicionismo técnico vazio.

Contudo, qualquer análise sobre Engines of Demolition seria incompleta sem focar em "Ozzy's Song", o encerramento da jornada. Estruturada no início apenas sob piano e violão, a peça ganha corpo gradualmente até desaguar em um solo tocante, servindo como uma despedida poética para Ozzy Osbourne. A entrega vocal de Wylde expõe uma fragilidade real, tornando a música um dos tributos mais honestos já feitos ao eterno Príncipe das Trevas. Longe de ser apenas uma homenagem, a faixa discute a perda de forma ampla, permitindo a conexão imediata de qualquer ouvinte com seu tema.

No aspecto técnico, Engines of Demolition comprova os motivos que mantêm Zakk Wylde no topo do escalão dos guitarristas mais admirados do metal. Suas criações seguem inconfundíveis, os solos fundem precisão e paixão, enquanto a seção rítmica capitaneada por John DeServio e Jeff Fabb entrega um alicerce robusto e massivo. A atuação de Dario Lorina agrega novas camadas harmônicas, sofisticando os arranjos sem desvirtuar o espírito da banda.

À frente do microfone, Wylde exibe o que talvez seja uma de suas marcas vocais mais expressivas em anos. Seu timbre permanece áspero e potente, mas ganha um amadurecimento cênico perceptível, em especial nos momentos mais intimistas.

Frente a registros como Order of the Black, Catacombs of the Black Vatican e Doom Crew Inc., Engines of Demolition funciona como uma antologia refinada de todas as eras do Black Label Society. O disco mescla a agressividade dos primeiros tempos, o polimento das criações recentes e uma carga afetiva sem precedentes. O objetivo não é reconstruir os pilares do grupo, mas lapidá-los de forma formidável, provando que ainda existe muito vigor em sua conhecida fórmula. Parte expressiva da crítica especializada e dos entusiastas já o classifica como o principal petardo do grupo em muito tempo, motivado exatamente pelo equilíbrio entre solidez, peso e sensibilidade.

Engines of Demolition entrega com precisão tudo o que se busca em um grande registro do Black Label Society: guitarras colossais, solos marcantes, refrões que colam na mente e um vigor emocional raramente visto na história do conjunto. É uma obra que honra o próprio passado ao mesmo tempo em que extrai novos propósitos por meio da saudade, do companheirismo e da exaltação ao legado de Ozzy Osbourne. Para os seguidores de Zakk Wylde, configura-se como um item obrigatório; para o cenário do heavy metal atual, firma-se como um dos grandes marcos de 2026.

Divulgação

***ENGLISH VERSION***

Few bands have managed to endure for nearly three decades while preserving such a distinctive musical identity as Black Label Society. Founded in 1998 by guitarist, vocalist, and songwriter Zakk Wylde, the band has built its discography around colossal riffs, groove metal, touches of doom, southern rock, blues, and, above all, the enduring legacy of Black Sabbath. Joined by Dario Lorina, John DeServio, and Jeff Fabb, Wylde delivers Engines of Demolition, an album that perfectly encapsulates everything that has made Black Label Society a cornerstone of modern heavy metal while introducing an uncommon emotional depth to the band's catalog. Released in March 2026, it also stands as the group first studio album following the passing of Ozzy Osbourne, Wylde longtime mentor and musical brother—an event that profoundly shapes the album's atmosphere.

From the opening moments, it becomes evident that the production prioritizes sheer sonic impact without sacrificing clarity. The guitars are massive and full-bodied, the low end is thunderous, and every instrument occupies its own space in the mix. The result is a powerful yet organic record that seamlessly balances crushing heaviness with moments of heartfelt melancholy without ever losing its cohesion. The production embraces Black Label Society's trademark sound, preserving the band's raw edge while highlighting subtle instrumental nuances that enrich every composition.

The opening track, "Name in Blood" immediately sets the tone. It serves as a bold statement of intent: crushing riffs, an irresistible groove, and a memorable chorus that firmly establishes it as one of the album's standout moments. Its blend of groove, aggression, and soaring melodies makes it a strong contender to join the band's timeless anthems.

Next comes "The Hand of Tomorrows Grave" which embraces a darker and more introspective approach. The guitars shift effortlessly between crushing heaviness and mournful harmonies, while Wylde delivers one of his most emotionally charged vocal performances, reinforcing the somber atmosphere that permeates much of the record.

The album's softer side emerges with "Better Days & Wiser Times" one of the finest ballads Black Label Society has written in recent years. Rooted in blues and southern rock influences, the song showcases Wylde's remarkable ability to craft deeply moving melodies without slipping into sentimentality. It offers a welcome moment of reflection while enhancing the album's dynamic flow.

Meanwhile, "Broken and Blind" brings back the band's signature intensity. Razor-sharp riffs, thunderous drumming, and an irresistible groove make it a highlight for fans of Black Label Society's heavier side. Once again, Wylde's guitar work strikes the perfect balance between virtuosity and musicality, delivering technically brilliant solos that always serve the song rather than becoming mere displays of skill.

However, no discussion of Engines of Demolition would be complete without "Ozzy's Song" the album's deeply emotional closing track. Beginning with little more than piano and acoustic guitar, the composition gradually builds into an unforgettable guitar solo, serving as a heartfelt farewell to Ozzy Osbourne. Wylde vocal performance is remarkably vulnerable, making this one of the most sincere tributes ever dedicated to the Prince of Darkness. More than just a tribute, the song explores grief in a universal way, allowing listeners to connect with its message on a profoundly personal level.

From a technical standpoint, Engines of Demolition reaffirms why Zakk Wylde remains one of heavy metal's most respected guitarists. His unmistakable riffs remain as powerful as ever, while his solos combine technical precision with genuine emotion. The rhythm section, anchored by John DeServio and Jeff Fabb, provides a massive and unwavering foundation, while Dario Lorina adds fresh harmonic textures that enrich the arrangements without compromising the band's unmistakable identity.

Behind the microphone, Wylde delivers what may well be his most expressive vocal performance in years. His signature gritty voice retains all of its power but reveals a newfound emotional maturity, particularly during the album's more intimate moments.

Compared to albums such as Order of the Black, Catacombs of the Black Vatican, and Doom Crew Inc., Engines of Demolition feels like the definitive culmination of every era of Black Label Society. It combines the raw aggression of the band's early years, the refined songwriting of its more recent releases, and an unprecedented emotional resonance. Rather than reinventing the band's formula, the album perfects it, proving that there is still plenty of creative fire left within Black Label Society's signature sound. It stands as one of the band's strongest and most emotionally compelling releases in years.

Engines of Demolition delivers everything one could hope for from a great Black Label Society album: colossal riffs, unforgettable guitar solos, instantly memorable choruses, and an emotional weight rarely heard in the band's history. It is a record that honors its own legacy while discovering new meaning through loss, brotherhood, and the enduring spirit of Ozzy Osbourne. For longtime fans of Zakk Wylde, it is an essential listen; for the modern heavy metal landscape, it firmly establishes itself as one of 2026's defining releases.

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Deep Purple: Peso e evolução sem nostalgia (Also In English)

Valhall Music (Nac.) / ear-MUSIC (Imp.)

Por Michelle F. Santana (@mii.santanna)

Falar de Deep Purple é falar de uma das bandas mais importantes da história do hard rock. Formada em 1968, a banda ajudou a moldar o gênero ao lado de gigantes como Led Zeppelin e Black Sabbath, construindo uma carreira que atravessa gerações. Mesmo depois de tantas mudanças na formação, o grupo continua encontrando formas de se reinventar. Em Splat!, o Deep Purple mostra que não vive do passado. Em vez de apostar na nostalgia, a banda refina sua identidade e entrega um álbum pesado, criativo e cheio de energia.

Muito desse resultado passa pelas mãos do experiente produtor Bob Ezrin, que mais uma vez entende perfeitamente o que faz o Deep Purple soar tão especial. A produção é moderna, com algumas influências progressivas espalhadas pelo disco, mas sem perder o som orgânico que sempre marcou a banda. A mixagem é impecável: todos os instrumentos aparecem com clareza, as guitarras soam pesadas, o baixo tem bastante presença e os teclados brilham o tempo todo. O resultado é, sem dúvida, um dos álbuns mais pesados da carreira do Deep Purple.

O grande mérito de Splat! é mostrar que experiência e criatividade podem andar juntas. O álbum não tenta repetir clássicos como Machine Head ou Perfect Strangers. Pelo contrário, usa toda a bagagem da banda para criar algo novo sem perder sua essência. As letras acompanham essa proposta, trazendo críticas sociais, reflexões pessoais e o bom humor irônico que sempre fez parte da identidade do Deep Purple.

Musicalmente, o disco impressiona do começo ao fim. Os riffs de Simon McBride estão entre os mais pesados já gravados pela banda, mas sem abrir mão da melodia. Um dos grandes destaques são os duelos entre a guitarra de McBride e os teclados e órgãos de Don Airey. Os dois parecem desafiar um ao outro o tempo inteiro, criando alguns dos momentos mais empolgantes e eletrizantes do álbum.

A abertura com "Arrogant Boy" já mostra que a banda veio com tudo. A música traz riffs fortes, muita energia e um refrão que gruda na cabeça logo na primeira audição.

Em "Diablo", o Deep Purple surpreende com a participação especial do astro country Keith Urban. A parceria pode parecer inesperada, mas funciona muito bem. A troca de guitarras dá uma nova cara à música sem tirar a personalidade da banda.

"Sacred Land" é uma das grandes surpresas do disco. A música é uma verdadeira pancada sonora, mas chama atenção por trazer discretas influências da música celta em meio ao hard rock tradicional. Essa mistura funciona muito bem e deixa a faixa ainda mais interessante.

O clima muda em "The Beating of Wings", uma linda balada com fortes influências do blues. A música cresce aos poucos e ganha ainda mais força graças às linhas de baixo elegantes e cheias de personalidade de Roger Glover, um dos grandes destaques da faixa.

"Guilt Trippin" mantém o nível lá em cima com muito peso, um groove contagiante e uma banda totalmente à vontade explorando seu lado mais pesado.

Em "Third Call", é a vez de Ian Paice mostrar que continua em excelente forma. Aos 78 anos, o lendário baterista entrega uma performance cheia de energia, sustentando um groove rápido, preciso e extremamente envolvente.

O álbum termina em alta com a faixa-título, "Splat!". A introdução de baixo e bateria já chama a atenção logo de cara, preparando o terreno para um dos momentos mais criativos do disco: o solo de teclado de Don Airey, inspirado no timbre clássico do clavinet, antes da banda fechar o álbum com muita intensidade.

Comparado aos trabalhos mais recentes, Splat! soa mais consistente e inspirado. Não vejo o álbum como um exercício de nostalgia. Pelo contrário, acredito que o Deep Purple apenas refinou sua essência, mostrando que ainda é capaz de criar músicas relevantes sem precisar repetir o passado. É um disco que respeita sua história, mas olha para frente.

Splat! mostra um Deep Purple inspirado, pesado e com muita vontade de criar. A banda não tenta provar que ainda consegue fazer grandes discos — ela simplesmente faz. Com riffs marcantes, produção impecável, excelentes performances de todos os músicos e composições que equilibram peso, melodia e criatividade, o álbum confirma que o Deep Purple continua sendo uma das grandes referências do hard rock. Talvez não esteja entre os maiores clássicos da carreira, mas certamente é um dos melhores trabalhos desta fase da banda.

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***ENGLISH VERSION***

Talking about Deep Purple means talking about one of the most important bands in the history of hard rock. Formed in 1968, the band helped shape the genre alongside giants like Led Zeppelin and Black Sabbath, building a career that has spanned generations. Even after so many lineup changes, the group continues to find new ways to reinvent itself. With Splat!, Deep Purple proves it has no interest in living in the past. Instead of relying on nostalgia, the band refines its identity and delivers a heavy, creative, and energetic album.

Much of that success comes from the experienced hands of producer Bob Ezrin, who once again understands exactly what makes Deep Purple sound so special. The production is modern, with subtle progressive influences woven throughout the album, yet it never loses the organic feel that has always been one of the band's trademarks. The mix is impeccable: every instrument has its own space, the guitars sound massive, the bass is full and prominent, and the keyboards shine throughout the record. The result is, without a doubt, one of the heaviest albums in Deep Purple's career.

The greatest strength of Splat! is how it shows that experience and creativity can go hand in hand. Rather than trying to recreate classics like Machine Head or Perfect Strangers, the album builds on everything the band has learned over the years to create something fresh without losing its identity. The lyrics follow the same path, blending social commentary, personal reflections, and the sharp sense of irony that has always been part of Deep Purple DNA.

Musically, the album is impressive from beginning to end. Simon McBride riffs are among the heaviest the band has ever recorded, yet they never sacrifice melody. One of the album's biggest highlights is the intense musical dialogue between McBride's guitar and Don Airey's keyboards and Hammond organ. The two constantly challenge each other, creating some of the most exciting and electrifying moments on the record.

The opening track, "Arrogant Boy" immediately shows that the band means business. Driven by powerful riffs, infectious energy, and a chorus that sticks after the very first listen, it's a fantastic way to kick off the album.

On "Diablo" Deep Purple surprises listeners with a guest appearance from country superstar Keith Urban. It may seem like an unlikely collaboration, but it works remarkably well. The guitar interplay adds a fresh dimension to the song without taking away from the band's unmistakable identity.

"Sacred Land" is one of the album's biggest surprises. It's a true hard-hitting track, but what really stands out is its subtle incorporation of Celtic musical influences into Deep Purple's classic hard rock souThend. The combination feels natural and gives the song a unique character.

The mood shifts with "Beating of Wings" a beautiful blues-inspired ballad. The song gradually builds in intensity, lifted by Roger Glover's elegant and expressive bass lines, making it one of the album's most memorable moments.

"Guilt Trippin" keeps the energy high with crushing riffs, an irresistible groove, and a band that sounds completely at home embracing its heavier side.

On "Third Call" it's Ian Paice who steals the spotlight. At 78 years old, the legendary drummer proves he's still in outstanding form, delivering a fast, precise, and energetic groove that drives the song with remarkable power.

The album closes on a high note with the title track, "Splat!". The striking bass-and-drums introduction immediately grabs the listener's attention before leading into one of the album's most creative moments: Don Airey's keyboard solo, inspired by the classic clavinet sound, setting the stage for a powerful and explosive finale.

Compared to the band's most recent releases, Splat! feels more cohesive and inspired. I don't see it as a nostalgic record. Instead, I believe Deep Purple has simply refined its essence, proving that it can still create exciting and relevant music without repeating the past. It's an album that honors the band's legacy while continuing to move forward.

Splat! finds Deep Purple sounding inspired, heavy, and full of creative energy. The band doesn't try to prove it can still make great albums— it simply does. With memorable riffs, flawless production, outstanding performances from every musician, and songs that perfectly balance heaviness, melody, and creativity, the album confirms that Deep Purple remains one of hard rock's greatest institutions. It may not stand among the absolute classics of the band's career, but it is undoubtedly one of the strongest releases of this chapter in its remarkable journey.

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Khemmis: O Prazer de Soar Pesado

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Khemmis Lança Álbum Homônimo e Consolida Lugar no Doom Metal Contemporâneo

Por Paula Butter

Khemmis, banda formada em 2012 em Denver, Colorado, chega ao seu quinto álbum de estúdio carregando o peso de uma trajetória sólida e uma reputação construída tijolo a tijolo dentro do doom metal contemporâneo. Lançado em 12 de junho de 2026 pela Nuclear Blast Records, o disco homônimo representa um momento de virada: após o introspectivo e denso Deceiver, lançado em 2021, o grupo formado por Ben Hutcherson, Phil Pendergast, Zach Coleman e o novo baixista David Small aposta em uma sonoridade mais direta, urgente e celebratória. Entretanto não abrem mão da escuridão lírica e da profundidade emocional que sempre foram sua marca. 

A obra é composta por oito faixas, que surpreendem à medida em que o ouvinte progride, pois mostram uma sonoridade mais enérgica, com nuances variadas, muitos riffs, melodia, peso, e tudo se conecta como uma teia bem construída. É o tipo de álbum que não requer esforço para ser apreciado, você simplesmente aperta o play e segue até o fim, e tranquilamente, volta ao início para mais um pouco. 

O ponto de partida é a empolgante “Invocation of the Dreamer” que além de abrir o álbum, também foi o primeiro single com direito a videoclipe. Na sequência, a bela “Corpsebloom Garden”, que já aponta uma direção mais dinâmica de grupo, com riffs marcantes, solos melódicos, bateria forte e vocal alternado do gutural para o lírico. E sem tempo para respirar, chega a pesada e com a identidade da banda bem presente “Grief’s Reverie”.  A quarta faixa  “Beneath the Scythe” levanta qualquer um da zona de conforto, e com um videoclipe bem peculiar que vale a pena conferir.  

Destacam-se também “Tomb of Roses” com variações de tons, entre balada e peso, e a bem trabalhada “Carrion King” com solos de guitarra em destaque, e que também surpreende pela dinamicidade. Para fechar a obra, “Benediction Tones” com um tom bem épico, que vai caminhando para o doom metal, uma música que também carrega muito a identidade da banda. 

Além de ser uma álbum para os apreciadores do gênero, também agrada facilmente os ecléticos, pois possui todos os elementos instrumentais para agradar aos ouvidos de todos aqueles que simplesmente gostam de música pesada. 

Outro destaque fica para a arte da capa, por Christopher Remmers, bem como dos encartes especiais, belíssimos e ao mesmo tempo bucólicos, para lembrar que ainda existem artistas de carne e osso para transmitir a mensagem dos músicos ao mundo. 

Parafraseando um trecho da entrevista que fiz com o guitarrista da banda: “As oito faixas do disco, entre elas os singles "Invocation of the Dreamer" e "Beneath the Scythe", celebram, nas palavras do próprio Ben Hutcherson, "a alegria de criar, experienciar e amar o Heavy Metal". A entrevista está disponível na íntegra no site da Road To Metal clicando aqui.

Por fim, quando a música vem regada de entusiasmo, e é feita por músicos apaixonados pelo que fazem, o resultado nunca desaponta. É a análise de um disco que pode muito bem ser um marco na carreira do Khemmis.

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