terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Black Swan: Hard Rock de Alto Calibre Reafirma a Força do Supergrupo Em Seu Terceiro Álbum de Estúdio (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

O supergrupo Black Swan retorna em 2026 com Paralyzed, seu terceiro álbum de estúdio, consolidando a química entre quatro nomes de peso do hard rock internacional: Robin McAuley (McAuley Schenker Group), Reb Beach (Winger, Whitesnake), Jeff Pilson (Foreigner, The End Machine, ex-Dokken) e Matt Starr (Ace Frehley, Mr. Big).

O novo trabalho reafirma a proposta do grupo: um hard rock clássico, fortemente ancorado na tradição dos anos 80, mas com produção contemporânea e identidade própria.


Peso, melodia e identidade

A abertura com “When The Cold Wind Blows” estabelece imediatamente o padrão do álbum. Guitarras marcantes, vocais potentes e uma base rítmica coesa demonstram que a engrenagem formada por Pilson e Starr funciona com precisão cirúrgica. O refrão, sustentado por backing vocals bem trabalhados, é daqueles feitos para permanecer na memória.

“Death Of Me” reforça essa energia com abordagem direta e riffs incisivos. A faixa dialoga com o hard rock oitentista sem soar datada, apoiada por solos expressivos de Reb Beach e pela performance vocal intensa de McAuley.

Já “Different Kind Of Woman” evidencia a maturidade musical do quarteto. Com arranjos bem estruturados e dinâmica envolvente, a canção destaca a interação entre guitarra, baixo e bateria, enquanto McAuley explora variações vocais que ampliam o alcance emocional da composição.


Peso ampliado e referências clássicas

“If I Was King” surge como um dos momentos mais pesados do álbum. Com guitarras mais densas e andamento variável, a faixa revela influências mais próximas do heavy metal tradicional, explorando mudanças rítmicas que mantêm a tensão e o interesse ao longo da execução.

“Shakedown” devolve o clima festivo do hard rock clássico, com andamento vibrante e refrão contagiante — um potencial destaque para performances ao vivo.

Em “The Fire And The Flame”, a banda presta homenagem direta à escola clássica do metal melódico. A atmosfera remete à estética consagrada por Ronnie James Dio, especialmente em álbuns como Holy Diver e The Last in Line. A interpretação vocal e os timbres de guitarra reforçam essa conexão, resultando em uma das faixas mais emblemáticas do disco.


Intensidade, velocidade e versatilidade

“I’m Ready” apresenta andamento mais cadenciado, mas sem abrir mão do peso. A condução rítmica sólida sustenta um refrão marcante e abre espaço para mais um solo técnico e expressivo de Beach, enquanto McAuley demonstra plena forma vocal.

A faixa-título, “Paralyzed”, retoma a velocidade com intensidade crescente. As mudanças de tempo e as transições melódicas revelam uma banda segura de sua proposta estética, equilibrando técnica e impacto.

“Carry On” mantém o clima acelerado e reforça o diálogo com o hard rock e o heavy metal dos anos 80, com riffs de forte apelo e atmosfera claramente pensada para o palco.

“Battered And Bruised” introduz elementos mais contemporâneos, com referências que dialogam com a sonoridade das décadas de 1990 e 2000, antes de retornar às raízes melódicas que caracterizam o grupo.

Encerrando o álbum, “What The Future Holds” destaca o baixo de Jeff Pilson na introdução e apresenta forte influência setentista, fechando o repertório com equilíbrio entre melodia e densidade instrumental.

Paralyzed apresenta o Black Swan em plena maturidade artística. O álbum sintetiza as principais virtudes de seus integrantes — experiência, técnica e identidade — em um trabalho coeso, que percorre diferentes nuances do hard rock e do heavy metal clássico sem perder unidade.

Mais do que um exercício nostálgico, trata-se de um registro que reafirma a vitalidade do gênero e posiciona o Black Swan como uma das formações mais consistentes do hard rock contemporâneo.


***ENGLISH VERSION***

High-Caliber Hard Rock Reaffirms the Supergroup’s Strength on Their Third Studio Album

Black Swan return in 2026 with Paralyzed, their third studio album, further cementing the chemistry between four heavyweight names in international hard rock: Robin McAuley (McAuley Schenker Group), Reb Beach (Winger, Whitesnake), Jeff Pilson (Foreigner, The End Machine, ex-Dokken), and Matt Starr (Ace Frehley, Mr. Big).

The new record reinforces the band’s core identity: classic hard rock deeply rooted in the spirit of the 1980s, yet delivered with contemporary production and a confident, modern edge.


Power, Melody and Identity

Opening track “When The Cold Wind Blows” immediately sets the tone. Driving guitars, commanding vocals, and a tightly locked rhythm section showcase the precision of the Pilson/Starr partnership. The chorus—enhanced by layered backing vocals—is undeniably memorable and built for repeat listens.

“Death Of Me” follows with a direct, riff-driven approach. The track channels the golden era of ‘80s hard rock without sounding dated, supported by Reb Beach’s expressive solos and McAuley’s intense vocal performance.

“Different Kind Of Woman” highlights the quartet’s musical maturity. With well-crafted arrangements and dynamic interplay, the song allows each instrument to shine, while McAuley explores a wide emotional range, adding depth and sophistication to the composition.


Expanded Heaviness and Classic Influences

“If I Was King” stands out as one of the album’s heaviest moments. Featuring denser guitar tones and shifting tempos, the track leans closer to traditional heavy metal territory, maintaining tension through structural variations and strong melodic anchors.

“Shakedown” brings back the celebratory essence of classic hard rock, driven by an infectious groove and an anthemic chorus that feels tailor-made for live performances.

On “The Fire And The Flame,” the band pays tribute to the classic metal school associated with Ronnie James Dio, evoking the atmosphere of landmark albums such as Holy Diver and The Last in Line. The vocal phrasing and guitar tones reinforce this connection, resulting in one of the album’s most striking and nostalgic highlights.


Intensity, Speed and Versatility

“I’m Ready” adopts a more measured tempo while maintaining weight and presence. The solid rhythmic foundation supports a powerful chorus and provides space for another technically refined solo from Beach, as McAuley once again demonstrates the strength and clarity of his voice.

The title track, “Paralyzed,” reintroduces speed and urgency. With sharp tempo shifts and melodic transitions, the band delivers a cohesive and confident performance that balances technical proficiency with sheer impact.

“Carry On” sustains the high-energy momentum, blending hard rock and traditional heavy metal elements with riffs that feel purpose-built for the stage.

“Battered And Bruised” incorporates more contemporary textures, nodding to influences from the 1990s and 2000s before seamlessly returning to the melodic core that defines the band’s sound.

Closing track “What The Future Holds” opens with a prominent bass line from Jeff Pilson and carries a noticeable ‘70s influence. The song concludes the album with a balance of melody and instrumental depth, bringing the journey to a satisfying close.

Paralyzed finds Black Swan at full creative strength. The album synthesizes the experience, technique, and identity of its members into a cohesive body of work that explores multiple shades of hard rock and classic heavy metal without losing focus.

Far from a mere nostalgic exercise, Paralyzed stands as a confident and vibrant statement—proof that classic hard rock remains alive, relevant, and in capable hands.

Enzo Mazzeo


Cobertura de Show: Tribulation – 14/02/2026 – Burning House/SP

Com uma aura instigante e uma sonoridade que transcende os rótulos convencionais do metal, a banda sueca Tribulation retornou ao Brasil para sua segunda passagem, prometendo uma noite gótica com peso e músicas marcantes. A expectativa era grande para ver o grupo, conhecido por sua fusão única de black, death e gothic metal, entregar mais uma performance memorável. E, apesar de um pequeno atraso no início do show e de uma mudança inesperada na formação, o público presente não demonstrou sinais de desânimo, apenas uma crescente ansiedade pela experiência que estava por vir. A apresentação, realizada na Burning House, no último dia 14, provou mais uma vez por que o grupo é reverenciado: uma performance imersiva que transforma o palco em um portal para outra dimensão.

No entanto, o maior ponto de interrogação da noite pairava sobre a bateria. Devido a problemas pessoais, o baterista Oscar Leander não pôde acompanhar a banda nesta jornada sul-americana. Para a surpresa e o deleite de muitos, a solução veio em grande estilo: Luana Dametto, baterista da banda Crypta, foi convocada para assumir as baquetas. Tratou-se de uma substituição de última hora que carregava o peso de replicar a complexidade rítmica do Tribulation, mas que, como se verificou, foi conduzida com competência, garantindo que a espinha dorsal sonora da banda permanecesse intacta e poderosa.

Logo no início, a banda demonstrou confiança e entrosamento. A qualidade do som estava impecável, permitindo que cada nuance das guitarras de Adam Zaars e Joseph Tholl, o baixo e vocal gutural de Johannes Andersson e a bateria de Luana Dametto ressoassem com clareza. A performance na bateria mostrou energia e precisão, adaptando-se ao estilo da banda e contribuindo para a solidez da apresentação.

O setlist constituiu uma viagem pela discografia do grupo, equilibrando faixas mais recentes com clássicos. A noite começou com a intensidade de “The Unrelenting Choir”, seguida pela atmosfera sombria de “Tainted Skies” e pela melancolia envolvente de “Nightbound”. A sequência continuou com “Hamartia” e “Suspiria de Profundis”, composição que se estendeu por mais de dez minutos, apresentando momentos criativos que envolveram o público de forma marcante. Não foi diferente com “In Remembrance”, na qual cada compasso construía uma atmosfera capaz de transportar a audiência a outras dimensões. A presença de palco, os movimentos teatrais e as maquiagens características complementaram a experiência auditiva, transformando o show em um verdadeiro ritual.

A segunda parte do set principal manteve a energia e a imersão. “Hungry Waters” e “Saturn Coming Down” evidenciaram a versatilidade da banda, enquanto “Murder in Red” reforçou a atmosfera gótica com vocais profundos. O clímax do set principal foi atingido com “The Lament”, faixa que sintetiza a essência dramática e melódica do Tribulation. Ao final da música, o guitarrista Joseph Tholl protagonizou um momento memorável ao entregar sua guitarra a um fã no meio da plateia, gesto de confiança que permitiu ao admirador tocar alguns acordes até a intervenção da equipe técnica.

O público clamava por mais, e a banda retornou para o aguardado bis. Com “Melancholia”, o Tribulation retomou suas raízes mais sombrias e introspectivas, preparando o encerramento com “Strange Gateways Beckon”. A apresentação deixou a certeza de que a segunda passagem da banda pelo Brasil foi exitosa, superando desafios e oferecendo uma performance que permanecerá na memória dos presentes.


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 





Tribulation – setlist:

The Unrelenting Choir

Tainted Skies

Nightbound

Hamartia

Suspiria de profundis

In Remembrance

Hungry Waters

Saturn Coming Down

Murder in Red

The Lament

Melancholia

Strange Gateways Beckon 

Gotthard: Hard Rock Sem Prazo De Validade

Reign Phoenix Music (Imp.)

Por Anderson Bellini 

Celebrando mais de três décadas de estrada, o Gotthard retorna com More Stereo Crush, um EP de oito faixas que funciona como extensão direta de Stereo Crush, 14º álbum de estúdio lançado em março de 2025. Disponibilizado pela Reigning Phoenix Music, o trabalho reúne músicas oriundas das mesmas sessões de gravação do disco principal, além de versões e colaborações que ampliam o alcance da proposta.

Mais uma vez, a produção ficou nas mãos do guitarrista Leo Leoni ao lado de Charlie Bauerfeind, conhecido por trabalhos com nomes de peso do metal europeu. Frequentemente chamado de “sexto membro não oficial” da banda, Bauerfeind reforça a química já consolidada com o grupo. “Charlie é um viciado em trabalho, assim como nós. Nos conhecemos há tantos anos que nem precisamos conversar sobre muitas coisas. Criativamente, nos entendemos perfeitamente”, afirmou Leoni.

Se Stereo Crush atingiu o topo das paradas suíças misturando hard rock clássico com acabamento moderno, More Stereo Crush surge como um complemento natural — mantendo a energia, reforçando o lado melódico e reafirmando a identidade que sustenta o Gotthard desde os anos 1990.

--------

Faixa a faixa

Right Now

A abertura mantém a mesma pegada harmônica apresentada em Stereo Crush. Com riff marcante e refrão grudento, a banda aposta em um hard rock direto e cativante, mostrando que ainda domina a fórmula que sempre funcionou tão bem.


Ride The Wave

Um dos destaques do EP, traz riff com sabor setentista e um refrão forte, daqueles feitos para ecoar em arenas. A faixa equilibra peso e leveza, com clima quase “verão rock’n’roll”. O final é apoteótico, evocando duelos de guitarra à la Thin Lizzy entre Leo Leoni e Freddy Scherer.


Liverpool (feat. Marc Storace)

Já presente em Stereo Crush, a música ganha nova vida com a participação de Marc Storace, vocalista do Krokus, que excursionou com o Gotthard recentemente. A combinação entre Nic Maeder e Storace funciona com naturalidade, reforçando o lado mais melódico e acessível da banda. É aquele hard rock moderno com leve toque pop que o grupo sabe executar como poucos.


Smiling In The Pouring Rain

Primeiro single do EP, lançado com videoclipe no início de janeiro, é a balada do pacote — território onde o Gotthard sempre se sentiu confortável. Intimista e emocional, a faixa destaca a interpretação de Nic Maeder e carrega uma mensagem de esperança. Segundo Leo Leoni, a ideia foi transmitir positividade mesmo diante das dificuldades. É fácil imaginar a cena ao vivo: guitarras mais suaves, público cantando em coro e o clima emocional tomando conta do ambiente.


Snafu

Aqui o riff assume clara inspiração no hard rock australiano à la AC/DC, com energia crua e refrão empolgante. Remete à fase mais direta da banda, especialmente ao espírito do álbum Bang! (2014). Tem todos os ingredientes para funcionar muito bem no palco.


Don't Miss The Call

A introdução pode surpreender: por alguns segundos, é impossível não lembrar de Alice Cooper e seu clássico Hey Stoopid. A semelhança inicial logo dá lugar à identidade própria da banda, mas a referência serve como um elogio ao clima hard rock oitentista que permeia a faixa. Os backing vocals são muito bem trabalhados, com harmonias marcantes que reforçam o refrão, enquanto o baixo de Marc Lynn aparece com presença e personalidade, sustentando a base com firmeza. É uma música vibrante, que dialoga com o passado sem soar datada.


Mayday

Com introdução de teclado marcante, a faixa evoca a era do saudoso Steve Lee, remetendo a trabalhos como Lipservice (2005) e  do clássico Domino Effect (2007).

Impossível não se lembrar de “Master of Illusion” e “Top of the World”. 

O solo de teclado acrescenta um diferencial interessante à construção da música. Empolgante, é mais uma que deve crescer bastante nas apresentações ao vivo. Vale lembrar que a faixa já havia sido apresentada anteriormente em formato de videoclipe, em 2023.


Burning Bridges (Radio Edit)

Versão editada para rádios da faixa lançada originalmente em Stereo Crush. Mantém a força do álbum principal, agora em formato mais enxuto.

--------

More Stereo Crush não é apenas um apêndice de Stereo Crush, mas um reforço consistente do momento atual do Gotthard. O EP equilibra riffs clássicos, melodias acessíveis e produção refinada, reafirmando a longevidade da banda dentro do hard rock europeu.

O grupo entrega exatamente o que seu público espera: energia, refrões fortes e competência técnica. Para os fãs, é mais um capítulo sólido nessa trajetória que já ultrapassa 30 anos.

More Stereo Crush será lançado em 13 de março de 2026, disponível em MCD, mini LP em edição limitada, pacote especial com Stereo Crush e nas plataformas digitais.

Divulgação 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Cobertura de Show: Azaghal – 13/02/2026 – La Iglesia/SP

Em plena sexta-feira de carnaval, quando as ruas do Brasil ferviam com samba e blocos, o La Iglesia serviu como reduto para os devotos do metal extremo. O “Bloco dos Camisas Pretas” resistiu bravamente, reunindo um público sedento por uma noite de riffs infernais e vocais guturais, comandada pelos finlandeses do Azaghal e precedida pelos brasileiros do Great Vast Forest. Uma noite pesada que trouxe um contraponto à euforia carnavalesca.

A responsabilidade de iniciar os trabalhos ficou com o Great Vast Forest, que apresentou o poderoso black metal brasileiro. Formado por Surgath (vocais), Sallos (guitarra), D. Katharsis (guitarra), Nero (baixo), Nahtaivel (teclados) e Draugr (bateria), o grupo conduziu o público por uma viagem ao submundo, iniciada com "Majestic South", "Wolvesclan" e "Prelude To the Victory". Logo de início, ficou nítida a capacidade da banda em criar paisagens sonoras obscuras, transportando a audiência diretamente para o vale das sombras. Um dos destaques, e um verdadeiro presente para os fãs, foi a potente e reverente versão de "Call From the Grave", do Bathory, que foi muito bem recebida. O set seguiu com a intensidade de "Bloody Winter" e a melancolia de "Memories of the Fire...", culminando com a grandiosidade de "Ride of the Valkyries" e "Imperial Moon", deixando a plateia pronta para os finlandeses.

O Azaghal, veterano do black metal finlandês formado em 1998, subiu ao palco reafirmando sua longa trajetória de devoção ao estilo. Sem rodeios, a banda mergulhou de cabeça em seu repertório, abrindo com a brutalidade de "Alttarini on luista tehty", seguida por "Myrkkyä" e "Filosofi", que intensificaram a aura blasfema e visceral do grupo. A energia crua e a entrega sem concessões criaram uma parede sonora que devastou o que vinha pela frente, reafirmando a reputação do Azaghal como mestre do caos e do terror. 

Com um simples “Como está São Paulo?”, falado em português pelo vocalista, deram início a mais uma pedrada, agora com "Black Terror Metal / Kyy". A transição para "Maailman Viimeinen Yö (Ja Ensimmäinen)" e "Madon sanat" trouxe momentos mais introspectivos, nem por isso menos pesados ou sombrios. O público respondia com devoção, provando a atemporalidade do black metal em contextos improváveis.

Avançando no set, "Syöpäläinen" e "De Masticatione Mortuorum" elevaram a intensidade a níveis infernais, com Ruho martelando a bateria como um possuído, enquanto Narqath berrava como o próprio capiroto. A química entre os membros era visível, resultando em uma execução precisa e devastadora, que manteve o público em estado de transe, provando que o black metal não é apenas música, mas a manifestação de uma escuridão intrínseca, um grito de revolta contra a luz e a conformidade.

Para encerrar a noite, o Azaghal brindou os presentes com uma sequência final de tirar o fôlego. "Mustamaa" e "Agios O Baphomet" prepararam o terreno para a mística "Quetzalcoatl", que trouxe uma dimensão quase ritualística à apresentação, com sua aura enigmática e poderosa. O grand finale com "Kun Aurinko Kuoli" e "Juudas" foi um encerramento apoteótico, deixando claro que o Azaghal não apenas tocou suas músicas, mas encenou um verdadeiro rito de black metal, uma celebração da noite e do caos. A noite no La Iglesia foi um triunfo para o “Bloco dos Camisas Pretas”, uma celebração da escuridão que, em meio à algazarra do carnaval, provou ser o refúgio perfeito para almas que buscam algo mais profundo, visceral e intransigente. 

Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Sabrina Ribeiro para o Cultura em Peso

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Caveira Velha Produções


Great Vast Forest – setlist:

Majestic South 

Wolvesclan 

Prelude to the victory... 

Masters of the Old War 

Call From the Grave (Bathory) 

Bloody Winter 

Memories of the Fire... 

In the Deep Forest... 

Ride of the Valkyries 

Imperial Moon


Azaghal – setlist:

Alttarini on luista tehty 

Myrkkyä 

Filosofi 

Black Terror Metal / Kyy 

Peto 666 

Maailman Viimeinen Yö (Ja EnsimmäInen) 

Madon sanat 

Syöpäläinen 

De Masticatione Mortuorum 

Mustamaa 

Agios O Baphomet 

Quetzalcoatl 

Kun Aurinko Kuoli 

Juudas


sábado, 21 de fevereiro de 2026

Brutal Reality: A Nova Era do Death Metal Brasileiro Acaba de Chegar

 

Por Denis A. Lacerda

Nota: 09.0/10.0

O novo álbum "The Cycle of Fall", da banda BRUTAL REALITY, representa um novo campo que se abre para o Death Metal brasileiro ao apresentar um trabalho que alia agressividade, identidade e um padrão técnico acima do que normalmente se observa no circuito extremo nacional. O disco revela um grupo consciente do próprio posicionamento estético e disposto a dialogar com a tradição do gênero sem abrir mão de personalidade. Logo nos primeiros momentos, faixas como "Mind Controller" evidenciam uma construção sólida de riffs, andamento preciso e um direcionamento musical claramente voltado à contundência.

Um dos principais trunfos do álbum é o desempenho vocal de Julio Cesar, bem na linha de Glen Benton do Deicide. Seu gutural é encorpado, consistente e mantém estabilidade ao longo de todo o repertório, funcionando como eixo de sustentação para a proposta extrema da banda. Não se trata apenas de brutalidade pela brutalidade, mas de uma entrega que conecta diretamente com o conteúdo das letras e com a atmosfera mórbida construída pelos arranjos. Nesse sentido, "Power of Blood" se destaca por sintetizar essa combinação entre força interpretativa e coesão instrumental, reforçando o impacto do álbum no aspecto performático.

A produção é outro elemento que merece destaque. O trabalho apresenta um nível de definição, equilíbrio e peso acima da média do mercado nacional, permitindo que cada instrumento ocupe seu espaço sem comprometer a densidade sonora exigida pelo Death Metal. A mixagem favorece tanto a agressividade quanto a inteligibilidade das estruturas, o que contribui diretamente para a assimilação das composições. Em "The Real Enemy", essa clareza técnica se mostra fundamental para valorizar as mudanças de andamento e a dinâmica interna da faixa, ampliando seu impacto.

No campo conceitual, as letras se destacam por abordarem temas fortes e capazes de provocar reflexão no ouvinte, afastando-se de soluções superficiais ou meramente ilustrativas. A arte de capa complementa esse discurso ao estabelecer uma conexão direta com o conteúdo lírico e com o clima mórbido do álbum, reforçando visualmente a proposta do grupo. É perceptível a influência de nomes como Krisiun, Immolation e Incantation, tanto na estética quanto na abordagem musical, sem que isso comprometa a identidade própria da banda. Dentro desse contexto, "The Fall" sintetiza de forma eficiente o peso conceitual e sonoro proposto pelo álbum.

Em uma análise mais ampla, "The Cycle of Fall" posiciona o BRUTAL REALITY como um projeto com reais condições de despontar no mercado internacional, sobretudo dentro de nichos que valorizam produções autorais, coesas e tecnicamente bem resolvidas no Metal Extremo. O álbum demonstra maturidade composicional, forte presença vocal e um direcionamento artístico claro, elementos fundamentais para ampliar a visibilidade da banda fora do Brasil. Trata-se de um lançamento consistente, direto e altamente recomendável, sendo indispensável para quem acompanha de perto o cenário do Metal Extremo brazuka.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Cobertura de Show: Dark Dimensions Fest II – 08/02/2026 – Burning House/SP

Uma noite pra não esquecer 2026! Essa foi a sensação quando acabou o evento que trouxe a tríplice do metal violento, que ainda não havia se encontrado no mesmo palco: Forbidden, Vio-Lence e Venom Inc. Essa combinação são situações de eventos que nunca imaginaríamos acontecer e assistir, vindo de encontro muito propício para o Brasil. O impacto de presenciar de perto e vivenciar essas bandas tocando fielmente aos discos que as consagraram no passado é uma experiência que talvez não possa acontecer mais nos próximos anos, onde as bandas sentem isso também quando estão no palco pra tocar diante do público brasileiro. Estamos diante de momentos únicos dentro da cena, testemunhando esses acontecimentos, como se viu por aqui entre 2000 e 2010.

A abertura ficou por conta do quinteto mineiro New Democracy, formado da cidade de Varginha/MG em 2012, que trazia Rafael Lourenço (guitarra e vocal), Fabrício Fernandes (guitarra), Marcus Vinícius (baixo), Vinícius “Banzai” (teclados) e Iago “Barstuk” (bateria). Com o público chegando ao local e alguns ajustes no som, conseguiram mandar um death metal melódico, transitando entre bases cadenciadas com bastante groove, alternando a velocidade dos sons, tudo com muito bom entrosamento e dando espaço para convidados em duas músicas: Iara Vilaça e Fábio Seterval, que deu uma chamada na galera: “vamo aeee, vocês estão morreeendo?”. Destaque para Zumbi, Born to Suffer, Unexpected e Creation, no qual fizeram uma apresentação muito honesta na noite.

Na sequência, Venom Inc. mostrou novamente porque não deve nada para a formação original e está entre uma das melhores bandas de metal do século passado, que continuam um legado primitivo de fazer metal insano, com pegada, entusiasmo, energia, carisma, identidade e fidelidade às raízes do passado. Cobri o Kool Metal Fest em 2024, abrindo para o Possessed, e Tony ‘Demolition Man’ está mais revigorado; aos 62 anos de idade, o cara se impõe ao vivo como o saudoso Lemmy se colocava, honra o legado da banda com identidade própria e dá aula de como fazer um verdadeiro show de metal pesado, na postura de palco, sustentando um baixo pesado bem tocado, vocais furiosos, agressivo na sua presença visual e total no controle do público.

O som estava redondo, o desempenho do guitarrista Curran Murphy (com passagens pelo Nevermore e Annihilator) subiu o patamar da qualidade e ficou muito à vontade pra executar os riffs e solos, com total apoio do baterista Marc Jackson, que assumiu as baquetas ano passado e simplesmente massacrou tudo. As músicas transitaram do disco “Avé”, de 2017, e There’s Only Black, de 2022, como “Ave Satanas”, “There’s Only Black”, “Inferno”, e as clássicas “Parasite”, “Black Metal” e “Countess Bathory”. A banda agitou, curtiu, se divertiu muito mais que a última apresentação deles há dois anos... incrível!

Em seguida, e pela segunda vez aqui na Road to Metal, o Vio-Lence volta a São Paulo e não decepciona. A entrada de Sean Killian e seu vocal incrivelmente igual a 40 anos atrás, sendo único membro da formação original, trouxe consigo uma roupa laranja de prisioneiro, quando é ovacionado pelo público logo na intro de Eternal Nightmare. Seguindo com Serial Killer, dá-se então o início a um desfiladeiro de riffs, com circle pits, moshes, stage dives, tudo maravilhoso de se ver num show de thrash!

Mesmo tendo um começo caótico, de uma microfonia desgraçada vindo da mesa e som mecânico tocando junto com a banda, todos no palco se mantiveram firmes e seguiram o repertório, que passou praticamente quase todo Eternal Nightmare (1987) e alguns sons do incrível Oppressing the Masses (1990), como “I Profit” e “Officer Nice”. Entre a terceira e quarta música é que as coisas se ajeitaram na mesa de som, e a banda se impôs por completo no show; foi um regaço até a última nota, sem descanso.

Toda banda entusiasmada por estar ali, e Sean mantendo a violência ininterrupta no microfone enrolado no braço. Destaques para a formação que contava com o baterista Nick Souza, filho de Steve “Zetro” Souza (ex-Exodus), Claudeous Creamer, guitarrista do Possessed, além de Jeff Salgado no baixo e Ira Black (ex-Heathen) destruindo na guitarra; todos entregaram tudo no palco, público cantando todas as músicas, o som muito fiel ao andamento dos discos da carreira; emocionante revê-los com essa qualidade.

Pra fechar, o Forbidden subiu ao palco e não precisaram regular nada, estava tudo perfeito — o perrengue que o Vio-Lence passou no começo do show não apareceu nenhuma fagulha com os caras! Era a oportunidade pra quem não assistiu ou viu a estreia da banda no Brasil, no Summer Breeze — atual Bangers Open Air — de 2024, presenciar de muito perto o som de extrema competência de todos os integrantes. Foi aula de thrash metal, sem sombra de dúvidas!

Impressionante a execução das músicas dos dois primeiros discos (basicamente foi o Forbidden Evil (1988) e Twisted Into Form (1990) que deram a modulação do repertório), por sua vez, não havia uma nota fora, nenhuma trave no instrumental; uma das qualidades técnicas mais incríveis de se assistir. O público agitou todas as músicas, não teve um som ruim, mas fica o destaque para “Infinite”, “Out of Body (Out of Mind)”, “March Into Fire”, “Twisted Into Form”, “Forbidden Evil”, “Step by Step”, “R.I.P.”, tocada pela primeira vez, mais de 7 minutos de thrash que passou voando o tempo, “Through Eyes of Glass”, um regaço ouvir isso ao vivo, “Divided By Zero” (single lançado de 2025) e “Chalice of Blood” pra acabar com tudo.

O vocalista Norman Skinner estava muito à vontade, dilacerando agressividade, passando por partes de melodia onde mostrou uma segurança absurda na banda, sem contar a comunicação e carisma no qual o público sentiu-se mais próximo ainda da banda. É o cara certo pra fazer o Forbidden seguir em frente ao vivo e gravando discos.

No baixo, veterano da formação original Matt Camacho fez a cozinha na medida certa, sem passar ou diminuir nada, peso perfeito para o baterista Chris Kontos, um monstro tocando de luvas e uma pegada fantástica pra executar um thrash metal com tantas variações, mudanças de tempo e andamentos. O estreante na guitarra Jeremy Von Epp teve sua entrada ano passado, mas parece que está na banda há muito tempo, totalmente entrosado, tocou perfeitamente todos os sons.

E, por fim, o criador de clássicos que nenhuma banda conseguiu repetir, Craig Locicero, responsável por tudo que aconteceu no Forbidden até os dias atuais com esta formação. Os discos de estúdio ultrapassam técnica, mas, ao vivo, tem mecanismos na mão desse cara que soa quase uma metodologia particular de tocar, que não havia presenciado até então.

No ano do anúncio da aposentadoria do Dave Mustaine, Locicero não deixa morrer um legado da história de guitarristas que estão parando, que se foram, podem surgir, e ele sendo influência para milhares continuarem. Mostrou, junto com a banda, que é possível hipnotizar alguém que assiste a uma clássica, com guitarristas tocando thrash metal vivo, totalmente em alta performance.

Demorei alguns dias pra entender o que aconteceu quando acabou o show e o que eu estava presenciando nesse dia. O Forbidden é algo que não pode parar, assim como a ousadia e coragem das bandas dessa noite manterem esse espírito vivo. Tem coisas que o Metal não consegue explicar, e precisamos cada vez mais disso mesmo: de coragem e determinação de organizadores assim pra colocar no mesmo dia uma avalanche sonora dessas, que é pra ficar na memória e causar isso nas pessoas... de uma noite pra não esquecer 2026!


Texto: Roberto "Bertz" Vagner


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Dark Dimensions 

Press: JZ Press 


New Democracy – setlist:

Zumbi 

Born To Suffer

Not & Ever

Unexpected 

Modernization 

Creation

101


Venom Inc. – setlist:

War

Parasite

Bloodlust

Ave Satanas

There's Only Black

In Nomine Satanas

Cursed

Inferno

Live Like an Angel (Die Like a Devil)

Metal We Bleed

In League With Satan

Black Metal

Countess Bathory


Vio-Lence – setlist:

Eternal Nightmare

Serial Killer

I Profit

Officer Nice

Phobophobia

Kill on Command

Calling in the Coroner

Bodies on Bodies

Upon Their Cross

World in a World


Forbidden – setlist:

Infinite

Out of Body (Out of Mind)

March into Fire

Twisted into Form

Forbidden Evil

Divided by Zero

Step by Step

R.I.P.

Through Eyes of Glass

Chalice of Blood