segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Kissin' Dynamite: Um Adeus Sem Fim (Also In English)

Kissin' Dynamite Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Há álbuns que encerram uma fase. Outros tentam abrir uma nova. Kissin' Dynamite, nono trabalho de estúdio do KISSIN' DYNAMITE, faz as duas coisas simultaneamente. Previsto para 18 de setembro de 2026, o disco será o último registro da banda com Hannes Braun nos vocais, transformando aquilo que poderia ser apenas mais um lançamento em um documento de transição.

Braun anunciou em agosto de 2025 sua decisão de deixar os palcos por razões de saúde, mas sua saída não representa um rompimento com o grupo. Ele continuará envolvido como compositor, produtor e uma das principais forças criativas do KISSIN' DYNAMITE. Essa distinção é fundamental para compreender o álbum: estamos diante de uma despedida do vocalista ao vivo, não de uma despedida artística.

E o próprio disco parece consciente dessa diferença.

Kissin' Dynamite combina seis composições inéditas com sete regravações de músicas dos dois primeiros álbuns da banda, Steel of Swabia (2008) e Addicted to Metal (2010). A princípio, a decisão poderia parecer uma tentativa óbvia de capitalizar sobre a nostalgia. Mas existe algo mais interessante acontecendo aqui. As antigas canções são revisitadas por uma banda que passou quase duas décadas amadurecendo, conquistando seu espaço no hard rock europeu e transformando aquela ambição juvenil de conquistar arenas em realidade.

O resultado estabelece um diálogo entre duas versões do KISSIN' DYNAMITE.

Hannes Braun tinha pouco mais de 20 anos quando registrou Steel of Swabia. Em 2026, sua voz retorna às mesmas composições mais encorpada, segura e experiente. As novas gravações não tentam apagar as originais — e tampouco precisam fazê-lo. O que elas oferecem é uma oportunidade de descobrir quanto daquelas melodias, riffs e refrões continua relevante quase duas décadas depois.

É como colocar frente a frente dois retratos da mesma banda: de um lado, a juventude, a energia e a ambição de um grupo que queria chegar às grandes arenas; do outro, a experiência de uma banda que efetivamente chegou lá.

Seis das sete releituras vêm de Steel of Swabia, enquanto “Love Me Hate Me” recupera Addicted to Metal. A escolha funciona quase como uma arqueologia do próprio KISSIN' DYNAMITE. E as participações especiais ampliam essa perspectiva: Saltatio Mortis, Amaranthe, Anna Brunner, Primal Fear, Sam Totman e Eklipse acrescentam novas cores a músicas que já pertenciam ao DNA do grupo.

Mas se as regravações perguntam de onde a banda veio, as seis inéditas precisam responder a uma questão mais difícil: o que o KISSIN' DYNAMITE ainda tem a dizer antes de fechar este capítulo?

“Glory Days”, primeiro single, oferece uma resposta bastante direta. Em vez de transformar o passado em lamento, a banda o celebra. A faixa reúne melodias expansivas, uma atmosfera ensolarada e nostálgica e aquele tipo de refrão concebido para ser devolvido por milhares de vozes. É arena rock em sua essência mais pura — e, neste contexto, a ausência de qualquer tentativa de ruptura parece deliberada. O KISSIN' DYNAMITE não precisa reinventar sua identidade para falar sobre o fim de uma era.

Se “Glory Days” olha para trás com um sorriso, “I Salute You” amplia essa celebração em escala ainda maior. É uma composição épica, bem construída e executada com a precisão que se espera da banda, mas ganha uma dimensão adicional com a participação do Saltatio Mortis. A combinação do hard rock do KISSIN' DYNAMITE com as gaitas de fole e os vocais femininos cria uma das fusões mais interessantes do álbum, sem comprometer a identidade de nenhuma das duas bandas. É uma faixa que consegue soar grandiosa sem perder o caráter festivo que permeia o disco.

“Night Is Calling”, por sua vez, talvez seja a faixa que melhor representa o KISSIN' DYNAMITE em sua zona de conforto — e isso está longe de ser uma crítica. Do primeiro ao último acorde, a música entrega hard rock poderoso, trabalho instrumental preciso e vocais perfeitamente encaixados na composição. O refrão possui aquela qualidade imediata que parece destinada aos palcos, reafirmando uma das maiores virtudes da banda: transformar melodias simples e eficientes em momentos de comunhão com o público.

“I'll Be” desloca o foco para o futuro. Musicalmente, mantém a vocação do grupo para os grandes hinos de arena, mas sua força está no significado. A canção assume a forma de uma promessa de permanência justamente quando Hannes Braun se prepara para deixar os palcos. Ele não estará mais diante do microfone em turnê, mas continuará compondo e produzindo. A aparente contradição transforma a faixa em uma das peças conceitualmente mais importantes do álbum: é uma despedida sem ruptura, uma declaração de que a ausência física não significa o fim da ligação construída entre artista, banda e público.

Em “Nothing Breaks Like a Heart”, a banda novamente aborda a ideia de ruptura, mas sem mergulhar na melancolia. A faixa pode ser interpretada como uma power ballad, embora sua estrutura também permita ouvi-la como um hard rock cadenciado, conduzido mais pela dinâmica e pela melodia do que pelo peso. A temática de superar perdas e aprender com os reveses dialoga diretamente com o momento vivido pelo grupo, mas a composição evita transformar essa circunstância em autopiedade. A ruptura existe; o que importa é aquilo que se constrói depois dela.

E então chega “Good In Goodbye”.

Como encerramento das inéditas — e do próprio álbum — a música assume naturalmente o papel mais emocional do repertório. Trata-se de uma balada em que Hannes Braun abandona qualquer reserva e entrega uma interpretação carregada de emoção. Sua voz, tão importante para a identidade do KISSIN' DYNAMITE desde os primeiros anos, ganha aqui um peso diferente justamente porque sabemos que este é seu último álbum como vocalista da banda.

É impossível ouvir a faixa completamente dissociada desse contexto. Mas o mérito está em ela não depender exclusivamente dele. A composição funciona musicalmente, e a interpretação de Braun transforma o significado da letra em algo maior do que uma simples despedida. Há tristeza, evidentemente, mas também aceitação — e, sobretudo, a sensação de que uma história importante chegou ao seu ponto final sem necessariamente perder seu valor.

É justamente aí que Kissin' Dynamite encontra sua maior força.

O álbum não tenta transformar a saída de Hannes Braun em tragédia, nem utiliza o passado como desculpa para simplesmente repetir fórmulas. As sete regravações colocam a banda de 2026 diante daquela que existia em 2008 e 2010, enquanto as seis inéditas mostram um grupo confortável com sua identidade e consciente do momento que atravessa.

O resultado é menos um epitáfio do que uma celebração.

Kissin' Dynamite funciona como um espelho no qual passado e presente se encontram: a juventude ambiciosa de Steel of Swabia diante da maturidade de uma banda que conquistou seu espaço; o vocalista que sonhava com grandes palcos diante do artista que agora decide deixá-los; e as músicas que ajudaram a construir uma carreira diante de uma nova geração de canções preparadas para carregá-la adiante.

Hannes Braun pode estar deixando os palcos, mas Kissin' Dynamite deixa claro que sua história com a banda está longe de terminar. E talvez essa seja a maior ironia — e também a maior beleza — de um álbum concebido como despedida: no momento em que uma porta se fecha, o KISSIN' DYNAMITE demonstra que ainda existe bastante vida do outro lado.

Mais do que o último álbum de Hannes Braun como vocalista, Kissin' Dynamite é um registro sobre legado, continuidade e transformação. Uma banda olhando para aquilo que construiu, revisitando suas origens e, ao mesmo tempo, tentando descobrir como seguir em frente.

Não é o fim da história.

É apenas o fim de um capítulo.


***ENGLISH VERSION***

Some albums mark the end of an era. Others attempt to open a new one. Kissin' Dynamite, the ninth studio album from KISSIN' DYNAMITE, manages to do both at once. Due for release on September 18, 2026, it will be the band's final record with Hannes Braun on vocals, turning what could have been another chapter in their discography into a document of transition.

Braun announced in August 2025 that he would step away from the stage for health reasons, but his departure does not represent a break with the band. He will remain involved as a songwriter, producer and one of KISSIN' DYNAMITE's key creative forces. That distinction is essential to understanding the album: this is a farewell to Braun as a live vocalist, not a farewell to his artistic relationship with the band.

And the album itself seems fully aware of that difference.

Kissin' Dynamite combines six brand-new compositions with seven re-recordings of songs from the band's first two albums, Steel of Swabia (2008) and Addicted to Metal (2010). At first glance, the decision might look like an obvious exercise in nostalgia. But something more interesting is happening here. These songs are being revisited by a band that has spent almost two decades maturing, establishing itself within the European hard rock scene and turning the youthful ambition of conquering arenas into reality.

The result creates a dialogue between two versions of KISSIN' DYNAMITE.

Hannes Braun was barely in his twenties when he recorded Steel of Swabia. In 2026, his voice returns to those same compositions fuller, more assured and shaped by experience. The new recordings do not attempt to erase the originals — nor do they need to. Instead, they offer an opportunity to discover how much of those melodies, riffs and choruses still holds up almost two decades later.

It is almost like placing two portraits of the same band side by side: on one side, the youth, energy and ambition of a group determined to reach the biggest stages; on the other, the experience of a band that actually made it there.

Six of the seven re-recordings come from Steel of Swabia, while “Love Me Hate Me” revisits Addicted to Metal. The selection works almost like an archaeological dig into KISSIN' DYNAMITE's own history. The guest appearances deepen that perspective, with Saltatio Mortis, Amaranthe, Anna Brunner, Primal Fear, Sam Totman and Eklipse adding new colours to songs that are already part of the band's DNA.

But if the re-recordings ask where the band came from, the six new compositions have to answer a more difficult question: what does KISSIN' DYNAMITE still have to say before closing this chapter?

“Glory Days”, the first single, offers a fairly direct answer. Rather than turning the past into a lament, the band celebrates it. Expansive melodies, a sunny and nostalgic atmosphere, and the kind of chorus designed to be echoed by thousands of voices make this arena rock in its purest form. In this context, the lack of any attempt to reinvent the band's identity feels deliberate. KISSIN' DYNAMITE does not need to redefine itself in order to talk about the end of an era.

If “Glory Days” looks back with a smile, “I Salute You” takes that celebration to an even larger scale. It is an epic, well-crafted composition, performed with the precision expected from the band, but it gains another dimension through the contribution of Saltatio Mortis. The combination of KISSIN' DYNAMITE's hard rock with bagpipes and female vocals creates one of the album's most interesting fusions without compromising either band's identity. It is a track capable of sounding genuinely huge without losing the celebratory spirit running through the record.

“Night Is Calling”, meanwhile, may be the track that best represents KISSIN' DYNAMITE within its comfort zone — and that is far from a criticism. From the opening chord to the final note, it delivers powerful hard rock, precise instrumental work and vocals perfectly integrated into the arrangement. Its chorus has the kind of immediacy that seems destined for the live stage, reaffirming one of the band's greatest strengths: turning simple, effective melodies into moments of collective communion with an audience.

“I'll Be” shifts the focus toward the future. Musically, it retains the band's instinct for huge arena anthems, but its real strength lies in its meaning. The song takes the shape of a promise of permanence precisely as Hannes Braun prepares to leave the stage. He will no longer be standing at the microphone on tour, but he will remain a songwriter and producer. That apparent contradiction makes the track one of the album's most conceptually significant pieces: a farewell without a rupture, a declaration that physical absence does not mean the end of the bond built between artist, band and audience.

On “Nothing Breaks Like a Heart”, the band once again explores the idea of separation without descending into melancholy. It can be heard as a power ballad, although its structure also allows it to be viewed as a more measured hard rock track, driven by dynamics and melody rather than sheer weight. Its theme of overcoming loss and learning from setbacks resonates directly with the band's current circumstances, but the song avoids turning that situation into self-pity. The rupture is real; what matters is what comes after it.

And then comes “Good In Goodbye”.

As the closing track among the new compositions — and the final song on the album — it naturally assumes the record's most emotional role. It is a ballad in which Hannes Braun delivers an unguarded and deeply felt performance. His voice, so central to KISSIN' DYNAMITE's identity since the band's early years, carries a different weight here precisely because we know this is his final album as the band's vocalist.

It is impossible to hear the song completely outside that context. But its strength lies in the fact that it does not depend solely on the circumstances surrounding its release. The composition works on its own terms, while Braun's performance transforms the meaning of the lyrics into something larger than a simple farewell. There is sadness, certainly, but also acceptance — and, above all, the sense that an important story has reached its conclusion without losing its value.

That is where Kissin' Dynamite ultimately finds its greatest strength.

The album does not attempt to turn Hannes Braun's departure into tragedy, nor does it use the past as an excuse to simply repeat old formulas. The seven re-recordings place the 2026 version of the band face to face with the one that existed in 2008 and 2010, while the six new songs show a group comfortable with its identity and fully aware of the moment it is going through.

The result is less an epitaph than a celebration.

Kissin' Dynamite works as a mirror in which past and present meet: the youthful ambition of Steel of Swabia confronted with the maturity of a band that went on to establish itself; the vocalist who once dreamed of conquering the biggest stages standing alongside the artist now choosing to leave them; and the songs that helped build a career placed beside a new generation of compositions prepared to carry that legacy forward.

Hannes Braun may be leaving the stage, but Kissin' Dynamite makes it clear that his story with the band is far from over. And perhaps that is the album's greatest irony — and its greatest beauty. At the very moment one door closes, KISSIN' DYNAMITE makes it clear that there is still plenty of life on the other side.

More than Hannes Braun's final album as the band's vocalist, Kissin' Dynamite is a record about legacy, continuity and transformation. A band looking back at what it has built, revisiting its roots and, at the same time, trying to discover how to move forward.

It is not the end of the story.

It is simply the end of a chapter.

Divulgação

Nestor: Feitos Para o Palco (Also In English)

Napalm Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Formado originalmente em 1989, o NESTOR ressurgiu em 2021 com Kids in a Ghost Town, recuperando para o cenário internacional uma sonoridade que muitos julgavam pertencer definitivamente ao passado: o hard rock melódico sueco moldado pelo AOR e pelo rock de arena dos anos 1980. Teenage Rebel (2024) consolidou essa identidade, transformando a nostalgia em algo mais do que um exercício de arqueologia musical. Com Live at Gothenburg Film Studios, a banda finalmente registra em formato oficial aquilo que seus shows já vinham demonstrando: por trás da estética retrô existe uma formação extraordinariamente segura de sua própria identidade.

Musicalmente, o álbum acerta praticamente em cheio. O set list de 16 faixas percorre os dois discos de estúdio com inteligência, alternando hinos de arena, momentos mais pesados, baladas e faixas de forte apelo AOR sem comprometer o ritmo do espetáculo. “We Come Alive”, “Kids in a Ghost Town” e “Stone Cold Eyes” estabelecem imediatamente a identidade da banda, enquanto “Perfect 10”, “Unchain My Heart” e “Signed in Blood” ampliam a paleta. Na reta final, “Victorious”, “Firesign”, “On The Run”, “Teenage Rebel” e “1989” formam uma sequência particularmente forte, antes de “It Ain’t Me” encerrar o percurso. É um repertório cuidadosamente construído para o palco, onde melodias instantâneas e refrãos monumentais assumem uma dimensão naturalmente maior.

E a banda corresponde à altura. Tobias Gustavsson confirma ser uma das grandes armas do NESTOR ao vivo, preservando a potência e a precisão das gravações sem transformar as canções em reproduções mecânicas. Sua voz continua sendo o centro melódico da banda, mas é a interação entre os músicos que dá peso ao conjunto. Jonny Wemmenstedt equilibra riffs musculosos e guitarras melódicas, enquanto os teclados de Martin Frejinger fornecem aquela camada AOR indispensável à identidade do grupo. Baixo e bateria mantêm tudo ancorado com precisão, permitindo que as músicas cresçam sem perder definição.

Entre os destaques, “On The Run” talvez seja a melhor demonstração de como uma composição já eficiente pode ganhar outra dimensão no palco. Os teclados e guitarras assumem um caráter mais épico, enquanto o refrão confirma sua vocação para arenas. “Victorious” segue a mesma lógica, com sua arquitetura de hino cuidadosamente construída, e “Teenage Rebel” representa talvez o ponto em que passado e presente do NESTOR melhor se encontram. “Firesign”, por sua vez, reforça o lado mais direto e hard rock da banda, enquanto “1989” funciona quase como uma declaração de princípios: o NESTOR não está simplesmente revisitando os anos 1980 — está tentando recuperar a linguagem daquela época e fazê-la funcionar no presente.

É justamente aí que surge a única grande ressalva de Live at Gothenburg Film Studios. A produção é limpa, poderosa e detalhada, e cada instrumento encontra seu espaço na mixagem. Porém, um álbum ao vivo precisa transmitir algo que vai além da execução perfeita: precisa criar a ilusão de presença. E é nesse aspecto que o registro fica aquém do potencial da banda. A plateia aparece de maneira excessivamente discreta e algumas decisões de edição tornam a experiência menos espontânea do que seria desejável. O resultado é tecnicamente impecável, mas nem sempre suficientemente visceral.

A ironia é que essa limitação acaba ressaltando justamente a qualidade do NESTOR. Quanto melhor a banda toca, mais evidente se torna aquilo que o registro não consegue reproduzir completamente. Live at Gothenburg Film Studios confirma que Tobias Gustavsson e seus companheiros possuem repertório, músicos e personalidade suficientes para dominar um grande palco. O que falta não é energia, competência ou grandes canções — é aquela dose de caos, interação e atmosfera que transforma uma excelente performance em uma experiência inesquecível.

No fim, Live at Gothenburg Film Studios é um registro musicalmente excelente de uma banda que parece feita para tocar diante de milhares de pessoas. Talvez seu maior paradoxo seja justamente esse: o álbum prova o quanto o NESTOR é extraordinário ao vivo sem conseguir capturar completamente o que torna um show do NESTOR tão especial.


***ENGLISH VERSION***

Originally formed in 1989, NESTOR returned in 2021 with Kids in a Ghost Town, bringing back to the international scene a sound many had assumed belonged firmly to the past: Swedish melodic hard rock shaped by AOR and the arena rock of the 1980s. Teenage Rebel (2024) consolidated that identity, turning nostalgia into something more substantial than a simple exercise in musical archaeology. With Live at Gothenburg Film Studios, the band finally documents officially what their live shows had already been proving: behind the retro aesthetic lies a remarkably assured band with a firm grasp of its own identity.

Musically, the album gets almost everything right. Its 16-track setlist moves intelligently across both studio albums, alternating arena anthems, heavier moments, ballads and strong AOR-driven material without compromising the pace of the performance. “We Come Alive”, “Kids in a Ghost Town” and “Stone Cold Eyes” immediately establish the band’s identity, while “Perfect 10”, “Unchain My Heart” and “Signed in Blood” broaden the palette. Towards the closing stretch, “Victorious”, “Firesign”, “On The Run”, “Teenage Rebel” and “1989” form a particularly strong sequence before “It Ain’t Me” brings the journey to a close. This is a setlist clearly designed for the stage, where instant melodies and monumental choruses naturally assume a larger dimension.

And the band rises to the occasion. Tobias Gustavsson confirms himself as one of NESTOR greatest live assets, retaining the power and precision of the studio recordings without turning the songs into mechanical reproductions. His voice remains the band’s melodic focal point, but it is the interaction between the musicians that gives the performance its weight. Jonny Wemmenstedt balances muscular riffs with melodic guitar work, while Martin Frejinger’s keyboards provide the essential AOR layer that defines the band’s identity. Bass and drums keep everything firmly grounded, allowing the songs to expand without ever losing clarity.

Among the highlights, “On The Run” may be the clearest example of how an already effective composition can take on another dimension on stage. The keyboards and guitars acquire a more epic character, while the chorus confirms its natural arena potential. “Victorious” follows much the same path, with its carefully constructed anthem-like architecture, while “Teenage Rebel” perhaps represents the point where NESTOR past and present intersect most successfully. “Firesign”, meanwhile, reinforces the band’s more direct hard rock side, while “1989” almost feels like a statement of intent: NESTOR isn’t simply revisiting the 1980s — they are reclaiming the language of that era and making it work in the present.

It is precisely here that the one major reservation about Live at Gothenburg Film Studios emerges. The production is clean, powerful and detailed, with every instrument given its own space in the mix. Yet a live album needs to convey something beyond flawless execution: it needs to create the illusion of presence. And this is where the recording falls short of the band’s potential. The audience is captured too discreetly, while certain editing choices make the experience feel less spontaneous than it should. The result is technically immaculate, but not always visceral enough.

The irony is that this limitation ultimately highlights just how good NESTOR are. The better the band plays, the more apparent it becomes what the recording fails to fully reproduce. Live at Gothenburg Film Studios confirms that Tobias Gustavsson and his bandmates have the songs, musicianship and personality required to command a major stage. What is missing is not energy, competence or great material, but that touch of chaos, interaction and atmosphere that turns an excellent performance into an unforgettable experience.

Ultimately, Live at Gothenburg Film Studios is a musically outstanding document of a band that seems tailor-made for the biggest stages. Perhaps its greatest paradox is precisely this: the album proves just how extraordinary NESTOR are live without fully capturing what makes a NESTOR show so special.

Andreas Diaz Pettersson


Triosphere: Um Retorno Que Valeu Cada Ano de Espera (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Tem bandas que desaparecem por um tempo e deixam aquela dúvida: será que ainda voltam? Com o Triosphere foi exatamente assim. Formada em 2004, na cidade de Trondheim, na Noruega, a banda conquistou seu espaço no heavy metal melódico ao combinar riffs marcantes, refrões envolventes e uma identidade que sempre equilibrou peso e emoção. Depois de lançar The Heart of the Matter, em 2014, os noruegueses passaram mais de dez anos sem apresentar um álbum de inéditas. Mas bastaram os primeiros singles de Oceans Above, Stars Below para mostrar que a espera não foi em vão. O grupo voltou inspirado e com um disco que resgata tudo aquilo que fez tanta gente se apaixonar por sua sonoridade.

O mais interessante é que o Triosphere não tenta reinventar o gênero. Em vez disso, aposta justamente no que sempre fez de melhor. O álbum soa maduro, intenso e muito autêntico, alternando momentos de pura energia com passagens mais introspectivas. Existe um clima épico que acompanha praticamente toda a audição, mas sem excessos. Tudo acontece de forma muito natural.

As letras seguem esse mesmo caminho. O disco fala sobre mudanças, superação, manipulação, abuso de poder e conflitos internos. São temas com os quais qualquer pessoa consegue se relacionar, e isso torna a experiência ainda mais envolvente.

Outro ponto que merece elogios é a produção. A mixagem deixa tudo muito claro, permitindo que cada instrumento tenha seu espaço sem perder o impacto. As guitarras aparecem fortes e definidas, o baixo tem presença, a bateria sustenta o peso das músicas e os teclados entram na medida certa, ajudando a construir essa atmosfera cinematográfica que envolve o álbum.

O trabalho dos músicos também merece destaque. Marius Silver Bergesen entrega riffs marcantes e solos cheios de personalidade, enquanto Ørjan Haraldset e Tor Ole Byberg formam uma base sólida que sustenta o álbum do começo ao fim.

E aí chegamos ao grande trunfo do Triosphere: Ida Haukland. Sua voz continua sendo um dos elementos mais marcantes da banda. Ela canta com uma força impressionante, mas também consegue transmitir fragilidade e melancolia quando a música pede. É justamente esse equilíbrio que faz suas interpretações soarem tão sinceras e emocionantes.

Entre os destaques, a faixa-título, Oceans Above, Stars Below, é praticamente o cartão de visitas do álbum. Ela resume muito bem tudo o que o Triosphere quer apresentar aqui: velocidade, peso, melodias envolventes e momentos mais densos que reforçam o lado emocional do disco.

Já Of Tyrants acelera o ritmo e aposta em um heavy metal direto, com guitarras afiadas e muita energia. Além da força instrumental, a música chama atenção pela letra, que critica a ganância, a manipulação e o abuso de poder de forma bastante contundente.

Quem acompanhou o retorno da banda certamente se lembra de Monster's Ball. Escolhida como primeiro single, a faixa teve a missão de encerrar oficialmente o longo hiato e apresentar novamente o Triosphere ao público. E fez isso muito bem, reunindo riffs marcantes, um refrão forte e toda a personalidade que sempre acompanhou a banda.

Shorelines mostra um lado mais sensível do grupo. A música cresce aos poucos, mistura passagens progressivas com uma enorme carga emocional e entrega um dos momentos mais bonitos de todo o álbum. É impossível não se envolver.

Encore é uma das faixas mais bonitas do álbum. A balada mantém um ritmo calmo do início ao fim, criando uma atmosfera delicada e envolvente. Aqui, a voz de Ida Haukland assume uma abordagem mais suave, entregando delicadeza e emoção, especialmente em um refrão carregado de sentimento.

O grande destaque fica por conta do piano e das guitarras, que se entrelaçam de maneira sutil ao efeito de reverb hall, criando uma sonoridade ampla e profunda. É justamente essa combinação entre a interpretação vocal e a atmosfera dos instrumentos que dá à faixa uma sensação quase etérea, tornando Encore um dos momentos mais emocionais do álbum.

E quando parece que a viagem chegou ao fim, surge Gjenklang. Uma continuação instrumental, mais orquestrada e cinematográfica, de Encore. O título, que significa “eco” ou “ressonância” em norueguês, quebra a sequência de nomes em inglês e fecha o disco de maneira muito simbólica. A sensação é justamente essa: quando a última nota termina, as músicas continuam ecoando na cabeça por um bom tempo.

No fim das contas, Oceans Above, Stars Below não é apenas o retorno de uma banda depois de onze anos. É a prova de que o Triosphere continua sabendo exatamente como unir peso, melodia e emoção sem perder a própria essência. Um disco que conversa tanto com quem acompanha a banda desde o início quanto com quem está chegando agora — e que faz a longa espera ter valido completamente a pena.


***ENGLISH VERSION***

There are bands that disappear for a while and leave you wondering: will they ever come back? That was exactly the case with Triosphere. Formed in 2004 in Trondheim, Norway, the band carved out its place in melodic heavy metal by combining memorable riffs, captivating choruses, and an identity that has always balanced heaviness and emotion. After releasing The Heart of the Matter in 2014, the Norwegian band spent more than ten years without releasing a new studio album. But the first singles from Oceans Above, Stars Below were enough to show that the wait had not been in vain. The band returned inspired, with an album that brings back everything that made so many people fall in love with their sound.

The most interesting thing is that Triosphere does not try to reinvent the genre. Instead, they rely on what they have always done best. The album sounds mature, intense, and incredibly authentic, alternating moments of pure energy with more introspective passages. There is an epic atmosphere that runs through almost the entire listening experience, but never feels excessive. Everything unfolds naturally.

The lyrics follow the same path. The album deals with themes of change, overcoming adversity, manipulation, abuse of power, and inner conflicts. These are themes anyone can relate to in some way, making the experience even more engaging.

Another aspect that deserves praise is the production. The mix keeps everything clear, allowing each instrument to have its own space without sacrificing impact. The guitars sound powerful and defined, the bass has a strong presence, the drums carry the weight of the songs, and the keyboards are used with just the right amount of restraint, helping build the cinematic atmosphere that surrounds the album.

The musicians' performances also deserve recognition. Marius Silver Bergesen delivers memorable riffs and highly distinctive solos, while Ørjan Haraldset and Tor Ole Byberg provide a solid foundation that carries the album from beginning to end.

And then we come to Triosphere greatest asset: Ida Haukland. Her voice remains one of the band's most distinctive elements. She sings with remarkable power, while also being able to convey vulnerability and melancholy whenever the music calls for it. It is precisely this balance that makes her performances feel so genuine and emotionally compelling.

Among the highlights, the title track, Oceans Above, Stars Below, is practically the album's calling card. It perfectly sums up what Triosphere wants to deliver here: speed, heaviness, captivating melodies, and darker, denser moments that reinforce the album's emotional side.

Of Tyrants picks up the pace and goes for a straightforward heavy metal approach, with sharp guitars and plenty of energy. Beyond its instrumental strength, the song stands out for its lyrics, which deliver a pointed criticism of greed, manipulation, and the abuse of power.

Anyone who followed the band's comeback will certainly remember Monster's Ball. Chosen as the first single, the track had the task of officially ending the band's long hiatus and reintroducing Triosphere to its audience. And it did so brilliantly, bringing together memorable riffs, a powerful chorus, and all the personality that has always been part of the band's identity.

Shorelines, on the other hand, reveals a more sensitive side of the band. The song gradually builds, blending progressive passages with an immense emotional weight and delivering one of the most beautiful moments on the entire album. It is impossible not to get swept up in it.

Encore is one of the album's most beautiful tracks. The ballad maintains a calm pace from beginning to end, creating a delicate and captivating atmosphere. Here, Ida Haukland's voice takes on a softer approach, delivering tenderness and emotion, particularly in a chorus filled with feeling.

The real highlight comes from the piano and guitars, which subtly intertwine with a hall reverb effect, creating a wide and deeply resonant sound. It is precisely this combination of the vocal performance and the instrumental atmosphere that gives the track an almost ethereal quality, making Encore one of the album's most emotional moments.

And just when it seems the journey has come to an end, Gjenklang emerges. It is a more orchestral and cinematic instrumental continuation of Encore. The title, which means “echo” or “resonance” in Norwegian, breaks the album's sequence of English titles and brings the record to a highly symbolic conclusion. The feeling is exactly that: when the final note fades away, the songs continue to echo in your mind for a long time.

Ultimately, Oceans Above, Stars Below is more than just the return of a band after eleven years. It is proof that Triosphere still knows exactly how to combine heaviness, melody, and emotion without losing its essence. An album that speaks both to those who have followed the band since the beginning and to those discovering them now — and one that makes the long wait feel completely worthwhile.

Ronny Danielsen


Marcelo Demichelli: O Metal Oriental e Místico em Sua Fase mais Introspectiva

 


Em seu quinto álbum de estúdio "The Rising Inner Eden” (O Éden Interior Em Ascenção), com data de lançamento para este 10/08,2026, o guitarrista, compositor e produtor fonográfico Marcelo Demichelli - da prolífica cena Metal e Underground da região central do RS - apresenta em seu release que esse é o seu trabalho mais conceitual e introspectivo até então.

E realmente após as primeiras audições é o que podemos sentir, além da constante evolução a cada álbum do seu Metal Místico e Oriental, sendo que neste, Demichelli trouxe uma preocupação maior na construção de riffs e melodias marcantes, além de explorar novos elementos, como o Gothic Metal, que faz parte das inspirações do músico.

Este já é o terceiro trabalho produzido, mixado e masterizado pelo próprio artista em seu home studio, o que lhe proporciona tempo e comodidade para trabalhar e maturar as composições.

Afirmo que o álbum terá a capacidade de agradar além do público que é aficionado aos trabalhos instrumentais, principalmente os voltados à guitarra, pois essa trilha sonora carregada de climas densos, intensos e de melodias introspectivas, conduzem o ouvinte por uma jornada que desperta vários sentimentos, como reflexão, surpresa, ansiedade e libertação. 

O álbum inicia com a atmosférica intro "Inner Cure", que embora traga uma atmosfera bem interessante e introspectiva, em minha impressão inicial, poderia ser um pouco mais curta. 

A intro prepara o caminho da jornada, que começa a tomar mais corpo com "A Irmandade Da Fênix". Os riffs e arranjos de fundo apresentam nuances sombrias que demonstram as inspirações Gothic Metal, transitando por climas e atmosferas orientais, que já são característicos do trabalho de Demichelli, e finaliza com belos e introspectivos arranjos ao violão.

Na sequência temos "O Nascer Da Serpente", e aqui o peso dos riffs vêm mais intenso, e já se percebe o que comentei acima, que neste trabalho o guitarrista deu mais ênfase aos riffs e melodias, tornando as músicas mais marcantes. 

As nuances orientais estão bem presentes e mais marcantes. O clima tenso predomina, e nos solos, virtuosos, mas trabalhando para completar os climas que a música busca traduzir ao ouvinte.

Chegamos à faixa título, "The Rising Inner Eden", e aqui novamente podemos sentir as influências Gothic Metal nos riffs e na atmosfera da música, com peso e melodias sombrias e introspectivas, e nos solos temos nuances neoclássicas. 

Em "Silence Kisses but Silence Kills" prosseguimos a jornada, e ela é a faixa mais pesada do trabalho, onde o clima Dark ainda se faz presente, mas o que se sobressai são os trechos que beiram o Metal Extremo, com riffs velozes e nuances Death Metal. 

E essa variedade de riffs e mudanças de atmosferas, por vezes caóticas e com aquela sensação de urgência, mantém o ouvinte atento e interessado, e a cada audição poderá perceber mais detalhes.

Fechando o trabalho temos "Rosa Mystica" (new version/Bonus Track), umas das músicas mais conhecidas de Demichelli ganhou nova roupagem, e posso dizer que ficou ainda mais encorpada, pesada e dinâmica, e casou perfeita com a proposta deste álbum, que traz esse clima mais Dark/Gothic, com mais ênfase nos riffs e melodias.

Marcelo Demichelli demonstra aqui que sua proposta musical está cada vez mais coesa, madura e carregando forte identidade, e alguns excessos de outrora dão lugar a mais melodias, climas e riffs marcantes, e claro, como o título sugere, podemos sentir que é um álbum bem pessoal e transmite essa atmosfera introspectiva.

Os solos seguem como parte marcante, e muitas vezes se sobressaem, mas de forma a contribuir com o todo, quase "conversando" com o ouvinte, sem "exibição gratuita". Sabemos que muitas vezes, nos trabalhos "guitarrísticos", é difícil para o músico segurar aquela vontade de colocar mais notas aqui e ali (risos). Demichelli traz uma forte identidade, capaz de o diferenciar e ser logo reconhecido aos primeiros acordes, algo que todos certamente buscam. 

Um artista que merece ser "descoberto" por mais ouvintes. Não se enveredou por caminhos fáceis, o Metal já é um nicho, e o Metal Instrumental ainda mais.


Tracklist 
1 - Intro - Inner Cure
2 - A Irmandade Da Fênix 
3 - O Nascer Da Serpente 
4 - The Rising Inner Eden 
5 - Silence Kisses but Silence Kills 
6 - Rosa Mystica (new version/Bonus Track)

domingo, 9 de agosto de 2026

Cobertura de Show: Shawn James – 07/08/2026 – Cine Joia/SP

A seleção do Blues-Rock jogou em casa: Shawn James incendeia o Cine Joia 

Era para ser mais uma sexta-feira fria (graças à mudança maluca de tempo) em São Paulo, se não fosse por um detalhe: era dia de show do Shawn James no Cine Joia. Inicialmente, todo o meu conhecimento sobre ele vinha da minha paixão pelos games e da voz inconfundível e absurdamente inacreditável, que saía da trilha de The Last of Us Part II. Mas, para minha sorte, ele me faria ficar de boca aberta inúmeras vezes ao longo daquela noite.

Para quem ainda não conhece a fundo essa figura, Shawn James é um cantor e compositor americano, nascido em Chicago, que transita com perfeição entre o blues, o folk, o soul e o rock pesado. Com um alcance vocal impressionante e letras cruas que parecem sair direto da alma, ele vem construindo uma carreira sólida e visceral desde meados de 2012. E o público paulistano estava com saudade: fazia dois anos que Shawn não pisava em solo brasileiro, o que só ajudava a acumular a energia represada daquela noite.

Mas, vamos começar do início. Cheguei à casa de shows, localizada no coração da Liberdade, pontualmente para o credenciamento. Enquanto aguardava a pulseira, vi parte dos músicos descendo e pude sentir uma animação que de pronto me contagiou. Entrei, peguei um bom lugar, vi fãs devotos com camisetas de diferentes modelos e tipografias e aguardei o início. Deu 21h e, pontualmente, a introdução começou. Aos gritos, os músicos subiram ao palco e, logo em seguida, sob uma ovação que eu nem achava possível para o tamanho daquele local, Shawn apareceu e mandou logo Curse of the World.

Em anos de shows e coberturas, poucas vezes na vida vi fãs cantarem tão alto a ponto de me fazer sentir em um festival para mais de 50 mil pessoas. Eles sabiam cada letra e vibravam como se a seleção brasileira estivesse fazendo um gol na final da Copa. E, de fato, era. A seleção deles estava bem ali, na frente de cada um. Na sequência, ele emendou I Want More e Burn The Witch, com um público que simplesmente não parava de cantar.

Aliás, vale fazer uma pausa obrigatória aqui para falar de Sage, o violonista da banda. Eu simplesmente não consegui tirar os olhos dele o show inteiro. A entrega, a animação e o amor visível pelo que faz são coisas das quais nunca vou me esquecer, principalmente no momento em que ele perdeu totalmente a cabeça e se jogou no público, caindo nos braços da galera. Foi épico!

No intervalo para a próxima música, Shawn comentou que estavam filmando o show e que o motivo de terem escolhido São Paulo era justamente por sermos a melhor plateia do mundo. Fomos o experimento mais legal do projeto, já que era a primeira vez que faziam um registro audiovisual desse tipo.

Na sequência, tivemos Icarus, Orpheus, Flow e Thief And The Moon. Após o final dessa última, os músicos deixaram o palco, dando lugar ao momento acústico de Shawn. Foi quando ele contou que um fã foi ao meet & greet e fez uma "pinky promise" (aquela promessa de dedinho) para convencê-lo a tocar uma música que ele pedia há anos, intitulada When I’m Gone. Shawn brincou que, se ele errasse tudo, a culpa seria desse fã (o que ele disse caindo na risada, claro, já que tocou e cantou majestosamente). Na sequência, contando um pouco sobre como surgiu o convite da produção para vir ao Brasil, engatou American Hearts e The Guardian.

Então, chegou a hora da catarse. Shawn começou a falar sobre a época em que tocava em bares e que, naqueles dias, compôs uma música que teve de deixar de lado para tocar mais covers e sons que mantivessem a atenção das pessoas, já que ninguém queria ouvir baladas. Isso o chateou bastante na época, pois era algo muito visceral dele. Até que, quando o procuraram para inserir uma faixa em The Last of Us Part II, pediram justamente a menos popular: Through The Valley. Nesse momento, o Cine Joia veio abaixo. Todo mundo cantando ainda mais alto, mãos para cima, preenchendo cada centímetro do espaço com uma energia surreal.

Depois desse momento mágico, veio o restante do setlist: Headed for the End, Peace of Mind e My Juliet, entre muita animação, um Shawn extremamente grato e bem no estilo "mestre cervejeiro" que chegou até a provar o drink de uma pessoa da plateia.

Mais à frente, ele compartilhou que, pelo bem da sua saúde mental, teve que dar uma pausa no ano passado para respirar e sair da correria das turnês, o que lhe fez um bem enorme. Contou que, no México, perguntaram se ele estava bem por conta da música forte que cantaria a seguir, e ele respondeu que sim, pois a música era a sua terapia, o lugar onde ele colocava as dores e as deixava ir. Veio então Tired Of Trying, seguida por No Blood e Haunted, na qual ele dividiu a plateia para cantar junto, provando mais uma vez por que a gravação tinha que ser ali.

Em Devil’s Daughters, ele anunciou que seria a última música, arrancando na hora um coro demorado de "Eu não vou embora!" do público. E não foram mesmo. Shawn e a banda voltaram para o bis com Muerte Mi Amor e Let Me Go, encerrando uma noite simplesmente inesquecível.

Saí do Cine Joia com a certeza de que uma troca pura e honesta de energia entre artista e público. O frio de São Paulo ficou do lado de fora; do lado de dentro, Shawn James e sua banda provaram que a música feita com a alma ainda tem o poder de lavar a nossa. Que ele não demore tanto tempo para voltar!





Realização: Move Concerts

Press: ForMusic 


Shawn James – setlist:

The Curse of the Fold

I Want More

Burn the Witch

Icarus

Orpheus

Flow

The Thief and the Moon

When I'm Gone

American Hearts

Son of the Wolf

The Guardian (Ellie's Song)

Through the Valley

Headed for the End

Peace of Mind

My Juliet

Tired of Trying

Burn

No Blood From a Stone

Haunted

The Devil's Daughters

Bis

Muerte mi amor

Let Me Go

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Entrevista – Trovão: Colhendo os Frutos da Persistência

Divulgação 

Por Gabriel Arruda - @gabrielarruda07

Em 2021, em plena pandemia, uma banda que trouxe a influência do heavy metal e hard rock oitentista chamou a atenção do público brasileiro com o disco Prisioneiro do Rock N’ Roll, que marca a estreia do Trovão e que despertou o interesse do público, das mais variadas faixas etárias, por esse resgate clássico do estilo e por ser cantado em português.

Depois de três anos, a banda, agora com uma nova formação e mais consolidada, lançou o Diamante, que, depois de um ano de lançamento, ainda continua rendendo bons frutos e proporcionando shows em festivais importantes, como o Bangers Open Air e o Keep It True, um feito histórico para uma banda que canta na sua língua nativa em um país que respira heavy metal.

Para falar sobre esse momento especial que a banda vem vivendo, o vocalista Gustavo conversou com a Road To Metal para falar sobre esses acontecimentos, o mais recente disco, os novos singles e o novo trabalho, que já está na fase de composição e que será lançado no próximo ano.

2026, até agora, está sendo um ano muito legal para o Trovão. Teve o lançamento do Diamante no ano anterior e a estreia de vocês lá no Bangers. Vocês fizeram recentemente um show bem legal abrindo para o Riot V, em Curitiba, e, muito em breve, vão estar no Keep It True, na Alemanha. São consequências do trabalho que vocês estão fazendo? Como vocês têm vivido esse momento? Em algum instante caiu a ficha de que a banda estava alcançando um novo patamar?

Gustavo: Na verdade, a coisa foi andando passo a passo. A gente lançou o Diamante sem nenhuma pretensão, apenas de lançar mais um disco, já que o Prisioneiro... tinha ido muito bem na época. Acabou sendo uma continuação, mas não foi pensando em fazer grandes shows ou esse monte de coisa. A coisa simplesmente foi acontecendo. O primeiro convite que a gente teve foi para tocar lá fora. Não foi no Keep It True, foi em um evento em Portugal, que teria o Sortilégio como headliner. Mas a parte financeira que eles iam arcar não estava tão interessante para a gente. Acabamos recusando. Depois veio o convite para tocar no Ópera de Arame com o Riot V. E aí foi indo. Depois apareceu o convite do Keep It True. Então foi uma coisa atrás da outra. Mas não era algo que estava programado, que a gente pensou que ia acontecer. As expectativas sempre foram baixas. A gente é uma banda, querendo ou não, de nicho. É uma banda underground. Então não pode ficar sonhando com muita coisa. Eu estou preocupado em fazer um bom material, que é o que vai ficar. O resto é consequência, e a gente está aproveitando cada momento.

Leandro Almeida - @leandroalmeidashow

E olhando para trás, desde a formação do Trovão até hoje, qual você considera ter sido o principal ponto de virada da trajetória da banda?

Gustavo: Eu costumo falar que não teve um ponto de virada. A virada foi quando a gente decidiu gravar o primeiro disco. A partir daí foi uma sequência. A gente gravou, ficou satisfeito com o trabalho e o pessoal gostou bastante. Foi muito bem aceito na época. Até hoje ele é muito bem falado. Depois pegamos tudo o que faltou no primeiro disco e trouxemos para o segundo. Fizemos mais músicas, mais variações. Trabalhamos melhor as letras, a timbragem dos instrumentos e a produção. Então fomos melhorando o trabalho. Para mim, não houve uma virada, e sim uma evolução da banda. Foi consequência da vontade de fazer a coisa muito bem feita.

Agora falando sobre o Diamante, um disco que eu adorei, gostei bastante. Ele foi recebido com muito entusiasmo pelo público. É difícil até escolher uma faixa preferida, porque todas são ótimas. Parabéns mesmo. Mas, se eu fosse escolher uma, seria Olhos da Cidade, que é a que eu mais curto do disco.

Gustavo: Essa também está entre as minhas favoritas. Foi uma música que eu fiz meio de última hora. Ela surgiu para completar o repertório, porque faltava uma balada. Acabei fazendo ela. Dessas músicas do disco, acho que é uma das mais novas que eu compus.

E justamente por essa questão de ser uma balada, de ter aquela melodia logo no início, ela me cativou muito. Foi isso que mais me surpreendeu. Conceitualmente e musicalmente, o que esse álbum representa para o Trovão?

Gustavo: Para a gente, esse foi o ápice da parte criativa. Tudo o que a gente pôde fazer de melhor, fez. Eu lembro que foi um trabalho de dois anos. Pensamos com muito cuidado em tudo: na ordem das músicas, na parte lírica, na capa. Fizemos tudo com muito carinho. Então, para mim, representa isso: o melhor que a gente podia fazer naquele momento. Agora já estamos trabalhando nos materiais futuros.

Todo disco registra um momento específico de uma banda. O que o Diamante diz sobre quem vocês eram durante o processo de composição e gravação?

Gustavo: Fala muito sobre maturidade. Eu, particularmente, consegui gravar algumas tonalidades que, na época do Prisioneiro..., eu não conseguia cantar. Era muito difícil para mim. No Diamante eu consegui. Tem várias músicas em tonalidades que eu jamais imaginaria que conseguiria interpretar. Explorei bastante essa parte vocal. A parte dos solos de guitarra também evoluiu bastante. Os teclados cresceram muito. Quando o Luke foi gravar com a gente, trouxe outras referências de timbres e ideias que agregaram bastante ao som. Agora, nesse próximo disco, vamos contar com o Fusa, que está tocando teclado com a gente. Ele também vai trazer outras referências. Então a gente vai agregando, amadurecendo e se aprimorando. O futuro ninguém sabe, mas eu sei que quero gravar outro disco. Já estou com algumas músicas prontas e também tenho um cover que vou fazer. Vou resgatar mais uma banda nacional desconhecida. Vai ser uma grande surpresa para quem curte. Não vou revelar agora o que é, mas podem ficar tranquilos que vem coisa boa. Depois que a gente finalizar o show do Keep It True, ainda teremos mais um show de encerramento, no final do ano, aqui em São Paulo. Depois vamos parar os shows para nos dedicar somente ao estúdio, à composição e ao próximo trabalho.

Leandro Almeida - @leandroalmeidashow

Continuando falando sobre o Diamante, existe alguma faixa do álbum que ganhou um significado diferente, além de Olhos da Cidade, que a gente comentou agora, seja por ter sido levada aos palcos ou pela forma como foi abraçada pelos fãs?

Gustavo: Acredito que não. Acho que as letras foram abraçadas da maneira que eu imaginei mesmo. Não acho que tenha mudado o significado de nenhuma delas.

Recentemente vocês lançaram um single novo, que é como se fosse uma prévia do que a gente vai ver no terceiro disco, que você comentou que deve sair no ano que vem. Meu Caminho transmite, ao mesmo tempo, uma sensação de perda — você tinha comentado isso comigo antes —, mas também de perseverança e identidade. Temas que parecem dialogar com o momento que o Trovão vive atualmente. Essa conexão foi intencional ou a música acabou ganhando um significado ainda maior conforme a trajetória da banda foi evoluindo?

Gustavo: A letra de Meu Caminho fala sobre perda, sobre luto. Ela conta a história de uma pessoa que perdeu outra e, para continuar sentindo essa pessoa por perto, conversa com ela. A letra fala disso. Nem todo mundo entendeu essa parte. Muita gente levou para o lado da perseverança. Também existe essa questão da perseverança, mas acho que ela é muito mais focada no luto. É uma música mais melancólica.

Junto com esse novo single, Meu Caminho, vocês também fizeram um cover de Olho Animal, da Patrulha do Espaço, e, de certa forma, estabeleceram um diálogo com uma obra que faz parte da história do metal brasileiro. O que motivou essa escolha? E como vocês encontraram esse equilíbrio entre preservar a essência da música original e imprimir a identidade do Trovão nessa nova versão?

Gustavo: A Patrulha do Espaço foi uma das minhas referências para montar o Trovão. Então, acho que nada mais justo do que prestar essa homenagem. Eu fui mais na onda da regravação que eles fizeram no Primos Inter Pares, com o Percy Weiss nos vocais, que também é uma grande influência para mim. É um cover que eu já queria gravar havia algum tempo. Na época do Diamante, eu já cogitava gravar esse som, mas, como eu já tinha feito o cover de Vapor, não queria colocar dois covers no mesmo disco. Então pensei: "Em um material futuro eu lanço essa música." Eu já tinha feito alguns testes em casa, algumas gravações minhas, e tinha dado certo. Depois imprimimos a nossa marca nela. Trabalhamos melhor a questão dos solos, acrescentamos algumas camadas de teclado, sem destoar da música e sem descaracterizar a versão original, mas trazendo mais para a nossa identidade. Então acredito que o resultado ficou bem bacana.

Agora falando um pouquinho do que aconteceu com o Trovão neste ano. Vocês tocaram no Bangers Open Air, um dos festivais mais importantes da América Latina e um objetivo para muitas bandas brasileiras. Como foi receber esse convite e viver essa estreia dentro do que é o maior festival de heavy metal do Brasil e também da América Latina?

Gustavo: Eu já tinha tocado em alguns festivais na época do Selvageria, mas não desse porte. Não eram festivais tão grandes, com tantas bandas internacionais e com uma estrutura como aquela. Então, para a gente, foi uma experiência totalmente nova. Foi bem diferente e muito legal. A gente tocou na festa de abertura, na sexta-feira, na Audio, e depois no Memorial da América Latina, no domingo. Foi fantástico. Um palco excelente, qualidade de som muito boa e um público incrível. Muita gente que não conhecia o Trovão teve a oportunidade de conhecer a banda ali. Como somos uma banda de nicho, existe muita gente de outros estilos que nem imaginava que existíamos. Também conhecemos muita gente de fora: pessoas do Chile, da Argentina e de outros países vizinhos que foram prestigiar o evento. Eles ficaram malucos com a banda e me mandam mensagens até hoje. Foi uma oportunidade muito importante para nós.

E vocês receberam esse convite através do Edu Macedo, da MS Metal. Foi muito legal da parte dele.

Gustavo: Exatamente. Ele colocou a gente no evento. O Edu é fantástico. Um abraço para ele, se estiver vendo esta entrevista. Foi foda. Foi muito legal. Inesquecível.

O que mais marcou você naquele dia? A preparação, a reação do público ou os bastidores, dividindo espaço com artistas consagrados? Pelo que eu sei, você teve a oportunidade de conversar com o Ralf Scheepers e ainda conseguiu um autógrafo em um vinil da primeira banda dele. Você tinha comentado isso comigo antes e eu achei muito legal. Infelizmente eu não consegui assistir ao show de vocês no domingo do Bangers, porque foi no mesmo horário do Smith/Kotzen.

Gustavo: A gente até encontrou o Adrian Smith de relance no túnel que tinha embaixo do palco. Na hora em que eu estava prestes a entrar, ele estava passando pelo mesmo corredor. Existe um corredor subterrâneo onde as bandas circulam, e foi muito legal. Eu vi o Udo, vi um monte de gente. No domingo tinha um espaço onde o pessoal ficava comendo, tinha churrasco, bebida... então as bandas acabavam se encontrando por lá. Eu tinha levado os discos do Tyran' Pace, que foi a primeira banda do Ralf Scheepers. Na sexta-feira eu não consegui encontrá-lo, porque estava uma correria muito grande. Então levei novamente no domingo para ele assinar. Ele ficou impressionado, porque muita gente nem conhece essa fase da carreira dele. O pessoal acha que ele nasceu no Primal Fear, mas não foi assim.

E também teve o Gamma Ray. Muita gente conhece ele por causa do Gamma Ray.

Gustavo: Exatamente. O Tyran' Pace era uma banda dos anos 80, com uma influência muito forte de Judas Priest. Depois ele foi para o Gamma Ray e, em seguida, para o Primal Fear, onde está até hoje. Eu não sei se ele tem algum outro projeto atualmente, mas esses são os que eu conheço.

Só esses mesmo. Ele chegou a fazer uma participação no Avantasia, mas o foco dele sempre foi o Primal Fear.

Gustavo: Ah, então. Acabei pegando o autógrafo e conversando um pouco com ele. Foi uma honra enorme.

Você comentou sobre o fato de terem tocado tanto na pré-party quanto no domingo, e de muitas pessoas que não estavam habituadas ao estilo do Trovão terem se surpreendido com as músicas da banda e com a qualidade de vocês ao vivo. Depois dessas duas apresentações, vocês perceberam mudanças concretas na visibilidade da banda, no alcance, nos convites para shows e também no reconhecimento dentro da cena?

Gustavo: Sempre acontece. Sempre abre novos horizontes. Recebemos outras propostas e estamos conversando com bastante gente, produtores também. Lá no evento a gente conheceu até o dono do Wacken. Ele foi na sexta-feira, tiramos uma foto com ele e tudo mais.

Eu cheguei a encontrar com ele também lá no Bangers.

Gustavo: Legal. A cada dia que passa, a gente acaba fazendo mais contatos, recebendo novos convites e surgindo novas oportunidades. Mas vamos avaliando o que faz sentido e o que não faz. Neste momento, a gente realmente vai parar para fazer um novo disco. Precisamos de tempo para isso. Não tem como manter uma agenda intensa de shows e, ao mesmo tempo, focar na composição. Pelo menos para a gente, não funciona. A cabeça acaba ficando concentrada em uma coisa só. Mas, neste ano, tudo o que a gente queria conquistar, conquistou. Foi muito legal. Até agora, tudo saiu melhor do que a gente imaginava. Nunca pensamos que conseguiríamos fazer tanta coisa em um único ano. Ficamos muito felizes, porque superamos as expectativas que tínhamos.

Leandro Almeida - @leandroalmeidashow

Na sequência, depois do show de hoje, no Sesc Belenzinho (N.T.: a entrevista foi realizada no dia do show, 18/07), vocês embarcam para o Keep It True, na Alemanha. É um festival onde vocês vão dividir palco com Savatage, Saxon e Armored Saint. Levar um trabalho autoral brasileiro para um país que tem uma tradição tão forte no heavy metal — afinal, além do Keep It True, eles têm o Wacken, o Summer Breeze e tantos outros festivais importantes — certamente tem um peso especial. Qual é a expectativa de vocês para essa experiência, que também representa outra grande conquista para o Trovão?

Gustavo: Essa talvez seja a maior conquista. Levar um heavy metal cantado em português para a Alemanha, sendo que a gente ainda é uma banda de nicho, é um grande feito. É uma coisa que eu nunca imaginei que aconteceria. Eu até imaginava que faríamos shows internacionais mais perto daqui, como Bolívia ou Argentina, onde a língua é mais próxima da nossa e existe uma facilidade maior de entendimento. Na Europa, eu pensava mais em Portugal e Espanha, mas isso para um futuro mais distante. Não era uma coisa para acontecer agora. Mas aconteceu. Como eu tinha comentado, nosso primeiro convite internacional foi aquele evento em Portugal, que acabou não acontecendo por questões financeiras. Tenho certeza de que, depois do Keep It True, outros convites vão aparecer. Portugal e Espanha são mercados interessantes para a gente. Agora é fazer bonito, mostrar o nosso trabalho e colher os frutos, ainda mais quando tivermos material novo. Além disso, temos a parceria com a Classic Metal, que faz as prensagens dos nossos discos e CDs, e também com a Lost Helmet, de Portugal. Isso facilita bastante, porque você já tem um braço na Europa, alguém com contatos por lá, e isso ajuda a ampliar as oportunidades.

Acho que cheguei a ver um post da Classic Metal. Acho que eles estavam até mandando o disco do Trovão para o Japão.

Gustavo: Vai para o Japão algumas cópias também. O meu sonho é tocar no Japão. No dia em que eu tocar lá, vou sentir que venci na vida.

E eu sei que você é muito fã do Michael Schenker. Ele gravou aquele disco ao vivo no Budokan. Nossa, acho que seria um sonho para qualquer banda tocar ali. Os Beatles tocaram no Budokan também.

Gustavo: O Japão, para mim, é um grande sonho. Um sonho que eu tenho de conhecer, quanto mais tocar por lá. Acredito que um dia isso possa acontecer. Tenho essa esperança. Quem sabe mais para frente? Vamos ver como as coisas acontecem. Vamos gravar mais material, manter o nível do Diamante e do Prisioneiro. É capaz de isso acontecer lá na frente.

Vai dar certo, sim. Vocês estão fazendo um trabalho muito consistente. Tudo direitinho. Com calma, vocês vão conquistar isso.

Gustavo: Obrigado!

Falando agora sobre a identidade da banda. O Trovão vem construindo uma identidade bastante própria dentro do metal nacional. Na sua visão, quais características fazem a banda ser reconhecida logo nos primeiros minutos de um show ou de uma música?

Gustavo: Acho que muito pelo vocal. A forma como eu canto acaba trazendo uma identidade forte. Eu tenho um jeito específico de cantar. Peguei muita referência dos vocalistas nacionais dos anos 70. Tenho muita influência da forma de cantar do Made in Brazil, do Cornelius, do Percy Weiss, da Patrulha do Espaço. Toda essa aura do rock paulista dos anos 70 e 80. Então eu tenho muito essa veia na questão da voz. Eu não sou um cara supertécnico, superestudado, mas acredito que a forma como eu canto faz com que a pessoa escute e já saiba que sou eu. Agora, com essa questão dos teclados sintetizados e das guitarras, o pessoal também já faz essa associação. Então foi se criando essa identidade. O que eu faço não é uma inovação. Isso sempre existiu, principalmente lá atrás. Mas hoje em dia acabou ficando em desuso. É difícil encontrar uma banda que misture heavy metal, hard rock e AOR. Antigamente existiam várias. Hoje você encontra uma banda de heavy metal, outra de hard n' heavy, outra de AOR lá fora. Mas que faça essa junção toda, atualmente eu realmente não conheço ninguém.

Leandro Almeida - @leandroalmeidashow

Você falou das influências da banda. Como vocês conseguem equilibrar todas essas características? Porque, quando a gente ouve as músicas do Trovão, percebe claramente a influência do heavy metal clássico dos anos 80, mas também do hard rock, do AOR e do melodic rock. E eu noto isso principalmente nos timbres de guitarra. Percebo muita influência do Warren DeMartini, do Ratt, e também do George Lynch, do Dokken.

Gustavo: Em termos de guitarra, minhas principais referências para fazer esse tipo de som são justamente o Warren DeMartini e o George Lynch, do Dokken. Para mim, eles são as grandes referências de guitarra para esse estilo que eu faço. Eu pego muita influência deles mesmo. Sempre tento chegar o mais próximo possível daquilo que me agrada. Às vezes muda alguma coisa no timbre, mas minha base sempre vai ser essa: o hard n' heavy. Sou apaixonado por esse estilo. É o tipo de som que eu realmente gosto. Mas também tem muita influência do Accept e do Judas Priest. Para mim, o Judas é a melhor banda de heavy metal do planeta. Não existe banda mais foda que o Judas. Vou pegando uma coisa aqui, outra ali. Também temos muita referência do Pretty Maids. É uma banda que fazia exatamente isso: misturava heavy metal com hard rock e também com AOR.

Eu adoro o Pretty Maids.

Gustavo: É uma banda de que pouca gente fala, mas fazia isso com excelência.

Você chegou a assistir ao show do Pretty Maids no Bangers Open Air do ano passado?

Gustavo: Não. Acabei não indo.

Que show sensacional! Foi uma realização ver o Pretty Maids ao vivo. Eu também consegui conhecer o Ronnie Atkins.

Gustavo: Conheceu? Ele estava enfrentando um câncer. Nem sei como conseguiu fazer aquele show.

Ele continua se tratando, mas está muito bem e cantando demais. É impressionante.

Gustavo: Demais! O Pretty Maids, para mim, é uma banda-modelo. Se eu tivesse que citar uma banda internacional como referência, seria o Pretty Maids. É uma puta referência para mim.

E naquele dia ele estava muito animado. Acho que, para eles também, foi a realização de um sonho. Afinal, são mais de quarenta anos de estrada. Ele comentou que faltava apenas um show do Pretty Maids no Brasil. Foi realmente um show inesquecível.

Gustavo: Todo mundo que foi falou muito bem.

Agora falando sobre o cenário nacional. Na sua opinião, o metal brasileiro vive um momento de renovação? O que ainda precisa acontecer para que as bandas autorais tenham mais espaço e consigam alcançar novos públicos?

Gustavo: É difícil responder isso. O metal underground ainda tem pouco espaço hoje em dia. Não existem muitos lugares que ofereçam uma boa estrutura. Acho que as bandas precisam correr atrás do próprio trabalho e fazer o melhor possível. É preciso se profissionalizar ao máximo. Eu estou nessa estrada há muitos anos. A primeira vez que subi em um palco foi em 2001. Então já comi muita poeira, já toquei em muito buraco. Sei bem do que estou falando. É preciso ter perseverança. Não se vender por pouco. Tem muita banda que paga para tocar. Eu mesmo já paguei muito para tocar. Tirei dinheiro do bolso e só me ferrei. Então acho que cada banda precisa fazer o seu trabalho e se preocupar em construir uma identidade. Isso é importantíssimo. Não adianta ser apenas uma cópia. É claro que a minha ideia nunca foi criar algo totalmente novo. Não é essa a proposta. A minha ideia sempre foi prestar uma homenagem a tudo aquilo de que eu gosto. Fazer o som que eu gostaria de ouvir em uma banda. Tudo aquilo que eu queria escutar, eu faço no Trovão. Então não é uma questão de inovação, mas é fundamental ter identidade. Identidade visual também. Se preocupar em fazer o melhor possível com os recursos que você tem. Acho que tudo começa por aí. Agora, o que falta? É difícil responder. O heavy metal continua sendo um estilo muito pequeno. É um nicho. E o som que a gente faz é o nicho do nicho. Então não tem muito segredo. É seguir em frente. Gravar discos. Fazer shows. Fazer aquilo em que você acredita de verdade. Não ficar pensando apenas no mercado, porque isso não funciona. Eu tenho o meu trabalho. Não vivo da banda. Os outros integrantes também trabalham. É claro que seria maravilhoso viver da música, mas essa ainda não é a nossa realidade. Como a banda não gera renda suficiente para isso, você precisa fazer tudo com a alma, com o coração, dentro das possibilidades que tem. O restante vai acontecendo naturalmente. As oportunidades aparecem como consequência do trabalho. Hoje a gente vai para a Europa. Tocamos no Bangers. Fizemos vários shows. Vamos tocar hoje no Sesc. Tudo isso aconteceu por causa do trabalho. É simples. Claro que também existe um pouco de sorte. Nem tudo depende apenas da gente. Mas o importante é continuar fazendo. Continuar seguindo em frente.

Leandro Almeida - @leandroalmeidashow

Depois de conquistar festivais importantes, vocês sentem uma responsabilidade maior em representar essa nova geração do metal nacional?

Gustavo: Com certeza. A maioria dos shows que fizemos agora tinha gente de todas as idades. O pai levando o filho, o filho com a camiseta do Trovão... Teve um show que fizemos na Burning House, acho que foi o primeiro da turnê do Diamante. Cara, estava lotado. Tinha criança, adolescente, o pai levando o filho porque o filho gostava da banda. O pai também gostava, mas o filho gostava ainda mais. Também vi gente com mais de 70 anos no show. Isso é muito legal. O que mais me deixa feliz é ver o pessoal mais novo, porque é uma forma de manter tudo isso vivo. Não pode morrer com a nossa geração. As coisas precisam ser passadas para frente. Amanhã eu posso não estar mais aqui.

E o mais legal é que pessoas que nem ouvem o estilo do Trovão acabam gostando da banda. Vou dar um exemplo. Uma amiga minha vai estar no show de hoje. Eu apresentei o Trovão para ela, mas o estilo que ela costuma ouvir é mais metal sinfônico. Mesmo assim, ela falou: "Caramba, a banda é muito legal. Ela resgata esse feeling retrô." Ela gosta de coisas mais clássicas, mas não está acostumada com esse nicho. Ainda assim, gostou tanto que falou que irá assistir ao show hoje.

Gustavo: Isso foi uma conquista nossa. Muita gente de fora do nicho gosta do Trovão. Muita mesmo. Tem gente do black metal que gosta. O Wagner, que foi do Sarcófago, adora o Trovão. O pessoal do Vulcano veio falar comigo assim que lancei o Prisioneiro do Rock'n'Roll. Tem muita gente fora dessa onda do hard and heavy que gosta da banda. Até pessoas que tinham certo preconceito com metal em português acabam gostando do Trovão. Por algum motivo, elas se identificam. Eu não sei explicar exatamente o que é.

Acho que isso acontece porque, apesar de as letras serem em português, quando a gente ouve parece que vocês estão cantando em inglês. É muito difícil encontrar bandas brasileiras que compõem em português, mas que têm essa fluidez na melodia vocal. Acho que esse é um dos grandes diferenciais do Trovão.

Gustavo: Talvez seja pela forma como eu componho as melodias. Eu penso quase como se estivesse escrevendo em inglês. Penso de uma maneira que a melodia deslize sobre a música, sem aquela sensação de encaixe forçado. Eu componho o riff junto com a linha vocal. Não faço primeiro o riff para depois colocar a voz, nem escrevo a letra antes para depois criar a melodia. Eu faço tudo junto. É um processo meio maluco, mas foi a forma que encontrei de compor. Acho que isso acaba criando essa sensação de que a música tem uma sonoridade internacional. Cada compositor tem um método diferente. Não existe regra. Foi assim que eu me encontrei como compositor. Fazia isso no Trovão e também fazia no Selvageria, quando as letras também eram em português.

Já existem músicas novas? Um novo álbum? Outros projetos que o público já pode começar a esperar?

Gustavo: Sim. Na verdade, já tenho três músicas prontas. Também já decidi qual será o próximo cover. Então já posso considerar quatro faixas encaminhadas. A ideia é compor mais cinco músicas, totalizando nove, para gravar o próximo disco. Agora vamos focar totalmente nisso. Mas, antes do álbum de estúdio, quero lançar um trabalho ao vivo. Quero ver se consigo gravá-lo na Alemanha, para não ficar um intervalo muito grande entre um disco e outro. Quero fazer um disco ao vivo de verdade, bem produzido. As faixas ao vivo que lançamos como bônus são praticamente bootlegs, retiradas da mesa de som. Agora queremos fazer um trabalho com mixagem, tratamento e qualidade para se tornar um álbum oficial ao vivo. Como você comentou do Live at Budokan, existem vários discos ao vivo clássicos: Live After Death, Unleashed in the East, Priest... Live!, Stay Alive, do Accept... A ideia é fazer um trabalho que reúna músicas do Prisioneiro e do Diamante. Vamos ver se conseguimos lançar esse material antes do terceiro álbum.

Para a gente encerrar: se daqui a dez anos alguém olhar para a história do Trovão, o que você gostaria que fosse lembrado? Os palcos que a banda conquistou ou o impacto que as músicas tiveram na vida das pessoas? E por quê?

Gustavo: Com certeza, o impacto das músicas. O show é momentâneo. É uma lembrança daquele dia. Agora, o disco é eterno. A gente pode pegar como exemplo as bandas de que gosta. O Dio já se foi. Eu tive a oportunidade de assistir a vários shows dele, acho que três ou quatro. Os shows passaram, mas os discos continuam intactos. O disco é praticamente a imortalização do artista. É a obra que permanece. As músicas são eternas. Ninguém tira isso. Elas sempre vão estar lá, seja no formato físico ou no digital. Então, eu gostaria que o Trovão fosse lembrado pelo impacto das músicas.