quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Entrevista - David Defeis: 45 anos do Casamento do Metal e o Romantismo Bárbaro



Por: Carlos Garcia e Gabriel Arruda
Edição: Carlos Garcia

Há quarenta e cinco anos, David DeFeis lidera o Virgin Steele, banda que se tornou referência por unir Heavy Metal, música clássica, literatura, teatro e mitologia em obras conceituais marcantes. 

David e o VS criaram uma identidade forte, inclusive denominando seu estilo como Barbaric-Romantic Metal. Convicto em seus direcionamentos, David é um artista que ama a música e coloca a alma e coração no que faz.

Nesta entrevista exclusiva ao Road to Metal - onde buscamos celebrar esses 45 anos de carreira - o músico fala sobre suas inspirações, sua filosofia artística, convicções pessoais, revisita momentos importantes da carreira e revela novidades sobre o futuro da banda.

Confira a seguir, e espero que aprecie tanto quanto nós!




RtM: Olá David, obrigado por dispor deste tempo para conversar conosco, um ano bem especial que o Virgin Steele comemora 45 anos de existência. 

Vamos lá então! Depois de 45 anos de carreira, o que ainda te motiva a continuar compondo?
David Defeis: Confesso que tenho um amor profundo pela música. Sabe, eu vivo, respiro e a venero. E isso, junto com a palavra escrita, o som e a visão, viver a vida do jeito que vivo, me mantém inspirado. As pessoas ao meu redor me inspiram, meus animais me inspiram, as experiências do dia a dia me fazem querer documentar em palavras e música o que acontece no mundo.


RtM: Ao longo da sua carreira você sempre falou da música quase como algo sagrado. Hoje você reafirma que segue apenas aquilo em que acredita, independentemente das opiniões externas.
David Defeis: Sim, continuo considerando a música uma entidade sagrada.
Ela faz parte do meu universo espiritual. É quase como uma divindade, por isso procuro permanecer fiel a ela. Esse é o combustível que me move.

Quando termino uma música, volto a ouvi-la algum tempo depois e ela ainda consegue provocar exatamente a emoção que senti ao criá-la — seja alegria, fúria, lágrimas ou esperança — sei que consegui alcançar aquilo que buscava.
Esse é o meu verdadeiro parâmetro.


RtM: E o que você gostaria ainda de realizar como artista que até o momento ainda não foi possível?
David Defeis: Boa pergunta... Eu venho documentando cada um de nossos shows e juntando todo esse material, e quero montar um filme e documentário estilo o "The Sound Remains the Same" do Led Zeppelin. Então é um trabalho visual, sabe, oral, mas também algo além disso. 

É o que está acontecendo na mente, na alma, a fusão mente, corpo e espírito da música. É algo nessa linha com o qual estamos trabalhando agora. Tenho mixado horas e horas de faixas, anos de luta e história.

 
RtM: O Virgin Steele sempre se destacou por transformar mitologia, tragédias gregas e acontecimentos históricos em música. De onde surgiu esse fascínio e por que esses temas continuam sendo uma fonte tão rica de inspiração para você?
David DeFeis: Eu cresci no mundo da mitologia, o meu pai era diretor de teatro e produtor. Então eu cresci assistindo peças inspiradas em tragédias gregas, Shakespeare e coisas dessa natureza. 

Então, depois de assistir, eu dizia: "Certo, vou ler". E lia os mitos. E, sabe, depois de muitos anos fazendo isso, meio que entra dentro de você, se cristaliza e se manifesta de várias maneiras na sua vida, sabe, esses mitos universais e tudo mais. Então, por outro lado, as pessoas devem entender que eu não estou tentando dar uma aula de história. 

Às vezes, uso esses mitos como ponto de partida para o que quero expressar sobre o que está acontecendo no mundo hoje. Então, é uma fusão de elementos com essas coisas.


RtM: E você já cogitou lançar livros, ou comic books, algo assim, inclusive com essas histórias que você criou para os álbuns conceituais?
David Defeis: É uma ideia muito boa! Vamos ver no futuro. E eu gostaria de lançar uma biografia, ou algo assim, é uma ótima ideia, talvez para futuras reedições ou algo do tipo, algo assim seria interessante. 

Eu gostaria mesmo de fazer a biografia, a autobiografia, a história do Virgin Steel, meu lugar nisso. E, sabe, como eu vivenciei tudo desde o primeiro dia até o que está acontecendo agora e além. Então haverá algum tipo de livro desse tipo. 

Mas o que você está dizendo, sim, eu entendo. (N.do R.: neste momento David pega uma copia do CD "House of Atreus" e mostra na tela) Tipo, sim, você pega esse trabalho e faz algo visual com ele. Claro, acho que os fãs iriam gostar sim.


RtM: Acho que seria interessante, há muitas histórias fantásticas. Acho que tem muitas coisas que você gostaria de fazer.
David Defeis: Há muita coisa que quero fazer e muita coisa que ainda farei. Sim, enquanto eu estiver respirando na Terra, farei todas essas coisas. Gostaria de fazer como antigamente, havia um canal chamado, vocês provavelmente tinham no Brasil, chamado VH1. E eles faziam um programa chamado Behind the Music. 

Gostaria de fazer isso para este álbum, para este álbum, para todos os álbuns (David mostra vários álbuns da banda). Sabe, algo assim. Para me aprofundar em cada disco. Fiz um pouco disso com algumas das coisas que lançamos nos últimos dois anos, mas eu realmente gostaria de mergulhar fundo, bem fundo, bem fundo, sabe, em cada um, explicar o que estava acontecendo com cada faixa do disco. 

Então, sim, isso está nos meus planos. Também um projeto histórico, bem, acho que seria um filme porque hoje em dia, quem compra DVDs? Não sei. Algumas pessoas ainda compram, eu acho. Mas algo que seja disponibilizado no YouTube ou em qualquer outro lugar, algo que explique toda a história do que fizemos com a Virgin Steele ao longo dos anos, algo assim. Isso também está acontecendo.


RtM: Seria fantástico! Você deve ter muito material incrível arquivado.
David Defeis: Isso pode acontecer mais ou menos quando fizermos... Esse negócio de filme do show ao vivo provavelmente vai acabar sendo um box set, porque eu provavelmente tenho uns dois ou três shows atuais que eu gostaria de lançar e talvez dois ou três shows de arquivo, porque temos uns 30 e poucos shows da turnê do "House of Atreus", alguns com imagens, outros sem. 

Então tem bastante coisa. Mas falando nisso, vamos fazer o relançamento do "Life Among the Ruins" no final de agosto. E para acompanhar, quando o lançamos pela primeira vez, lançamos uma coleção de vídeos chamada "Tale of the Snakeskin Voodoo Man". Tinha uns 24 minutos. 

Eu revisei, coloquei mais vídeos. Agora tem cerca de uma hora. Então tem faixas extras como "Crown of Thorns", um clipe, "Jet Black", um monte de coisas. E também tem a gente no estúdio. Então é uma coisa bem legal. Então, quando o álbum sair no final de agosto, esse filme, por assim dizer, também será lançado.


RtM: Muita, muita coisa legal para os fãs.
David Defeis: E também tem um monte de outros vídeos que fiz nas últimas semanas, algumas coisas para "Marriage...", "Crown of Glory" já tem um vídeo para ela, "House of Dust" e alguns dos trabalhos extras que estão em "Life Among the Ruins". Então, sim, vai ter muita coisa visual sendo lançada do final do verão até o outono.


RtM: Sua interpretação vocal e sua presença de palco são extremamente marcantes. Quais artistas mais influenciaram seu estilo quando você começou? E atualmente, existe algum cantor, compositor ou banda que ainda consiga surpreendê-lo?
David Defeis: Falando especificamente em vocalistas, Rober Plant, Freddie Mercury, todo mundo que esteve no Deep Purple ou Rainbow! (Risos) Todas aquelas vozes! Gillan, Coverdale, Hughes, Graham Bonett! Todos eles.


RtM: Graham Bonett estará aqui para um show único no próximo domingo.
David Defeis: Excelente! Eu vi ele alguns anos atrás. Dio também, obviamente, eu amo o Dio! Então, sim, todas essas pessoas. Mas outra coisa que tentei incorporar na minha voz foi o estilo de pessoas que não são cantores, mas tocam guitarra. 

Pessoas como Jimmy Page, Eddie Van Halen. Sabe, eu queria trazer esse tipo de estilo vocal para a minha voz. É por isso que faço muitas das coisas malucas que faço, porque, acho que eu deveria ser guitarrista, mas segui outro caminho. 

Então pensei: "Tudo bem, se não vou tocar guitarra, vou fazer disso a guitarra" (N. do R.: David aponta para sua garganta). Essa tem sido outra grande inspiração para mim. Ouvir os solos das pessoas e pensar: "Como posso incorporar isso à minha voz?"


RtM: Que interessante isso! 
David Defeis: Bom, e voltando para a outra parte da pergunta, bom, eu continuo ouvindo as mesmas pessoas que me influenciaram lá no início, mas de novos artistas gosto de muitos, alguns se tornaram meus amigos, e tem esse cara, que eu gosto muito, não sei se vocês conhecem, o Matthew Knight do Eternal Winter

Um grande cantor e guitarrista. Eu gosto de ouvi-los. Eu não fico pesquisando ou procurando, mas as coisas que vão cruzando meu caminho, eu tento ouvir e prestar atenção. Ah, vou ouvir isso aqui, isso é legal, isso não, e assim vai, e seguimos em frente.


RtM: O que você acha da música atual? Acha que falta personalidade ou algo mais orgânico como os artistas antigamente faziam?
David Defeis: Você Sabe, eu não quero desmerecer ninguém nem nada do tipo, mas muita coisa que eu faço soa parecida com outras coisas. Parece que todo mundo quer usar os mesmos estúdios, os mesmos amplificadores, o mesmo som, sabe? Então não vejo muita variação. Acho que, às vezes, as pessoas, principalmente hoje em dia com a internet, encontram algo que funciona para um grupo e copiam, dizendo: "Ok, vamos ser assim também". 

Mas antigamente, as bandas eram completamente diferentes, sabe? O AC/DC não soava como UFO, não soava como Black Sabbath, Led Zeppelin ou Rush, sabe? Eram todas muito diferentes. Então, essa sempre foi a mentalidade que eu queria ter. 


RtM: Sim, buscar a própria identidade, a evolução...
David Defeis: Então, eu quero fazer o que faz sentido para mim, o que é honesto para o meu ser físico e o que é honesto para os meus ouvidos, o que está aqui dentro, a mente, o corpo, o espírito, a conexão, e trazer isso à tona na composição e tentar fazer algo que seja único para a banda, em vez de tentar imitar outra coisa. Você pode se inspirar em algo, sim, mas não precisa fazer uma cópia descarada, sabe? 

Eu nem quero copiar o que já fizemos antes. Eu estava tentando continuar em movimento, manter a linha em movimento, sabe? Sim, eu poderia voltar e dizer, "certo, vou escrever outra 'Burning of Rome' ou algo assim", mas isso não é realmente honesto. Se isso acontecer de forma natural, por causa do seu estado de espírito, e funcionar dessa maneira, e for algo realmente viável, não uma imitação, então tudo bem. 

Mas meu objetivo é sempre continuar a expandir os limites e tentar ir aonde nunca fomos antes, sem deixar de lado as raízes de onde viemos, sabe, levar isso até o fim. 

Esse é o meu objetivo e é o que tento fazer. É o meu trabalho. 


RtM: Às vezes, as pessoas ficam esperando por algo diferente, como você disse, um novo "Marriage" ou "Atreus", mas não. Você está fazendo o que sempre fez e seguindo em frente. Do "Nocturnes of Hellfire..." e "Black Light Bacchanalia", eu vi algumas críticas negativas, mas acho que as pessoas às vezes não entendem o que você está fazendo. Só ficam procurando os discos antigos, não veem que a banda precisa evoluir, e não apenas fazer o mesmo álbum repetidamente.
David Defeis: Existem bandas que fazem isso e são muito bem-sucedidas. Sabemos quais são essas bandas. Mas isso nunca foi um interesse meu. Nunca foi interesse de ninguém da banda repetir dessa forma. Sim, eu acho que, sabe, o que você pensa fora das gravações, e o que você traz para as gravações. 

Se sua mente for limitada, sabe, se você só quiser uma coisa, então você não vai conseguir algumas dessas outras tangentes, para onde a banda vai, mas você pode abrir sua mente para outras músicas, voltar a ela mais tarde e pensar:"ah, isto aqui é legal". Isso já aconteceu antes. 

Eu já vi coisas tipo:  "eu realmente não gostei de 'Visions of Eden'!" Quatro anos depois, "ah, é meu álbum favorito". Sei lá. às vezes as pessoas precisam amadurecer musicalmente antes de poderem apreciar algo dessa natureza. É como quando você era criança e não queria comer espinafre ou, sabe, qualquer coisa (Risos). Então você fica mais velho e pega o gosto.

É a natureza da vida e você sabe, não dá para agradar a todos e nós não tentamos agradar a todos, apenas tentamos fazer algo que seja honesto com quem somos e o que somos em qualquer momento, e é isso, e é por isso que ainda estamos aqui 45 anos depois. Poderíamos ter seguido o outro caminho e então, sabe...sumido no éter, nunca mais sermos vistos em lugar nenhum. 


RtM: David, The Marriage e House of Atreus foram considerados por muitos como alguns dos maiores álbuns conceituais da história do The Have Married. Você acha que eles receberam o reconhecimento que realmente merecem?
David Defeis: Bem, eles receberam muitos elogios, o que me deixa feliz. Poderiam ter ido mais longe? Sim, quero dizer, essa é outra questão. Existe a música e existe o lado comercial.
Às vezes, eles não se encontram. Existem ótimos filmes que as pessoas não conhecem, livros, discos, o que for. E existem certas coisas que é preciso fazer se você quiser se manter na vanguarda do lado comercial. 

Nós sempre estivemos muito ocupados vivendo nossas vidas. Sim, estávamos envolvidos na promoção e fazendo isso, aquilo e mais um monte de coisas, mas nunca foi como se fôssemos obrigados a fazer algo que alguém quisesse nos obrigar a fazer se não acreditássemos nisso. Então, sempre fizemos o que queríamos fazer. Por isso, nem sempre entramos no jogo do lado comercial. 

Então, isso pode ter, a longo prazo, prejudicado um pouco o sucesso, mas esse nunca foi o objetivo do grupo. Nunca foi meu objetivo ser a maior banda do mundo. O que eu queria era criar um estilo de vida, ter uma carreira e um estilo de vida que funcionasse para todos os membros do grupo, que se encaixasse bem com a personalidade de cada um. 

E conseguimos isso. Então, no que me diz respeito, alcançamos o que nos propusemos a fazer e continuamos em frente. E para onde isso nos levará... Bom, veremos o que acontece nos próximos anos. 


RtM: Os álbuns do Exorcist, Original Sin e Piledriver se tornaram cult para os fãs, inclusive do Virgin Steel. E vocês gravaram duas músicas do álbum do Exorcist em "Nocturnes of Hellfire". Fale um pouco mais sobre esses álbuns como  foi a composição e gravação deles. O que eles significam para vocês?
David Defeis: Exorcist e Original Sin foram feitos super, super rápido.
Eu e o Edward sentamos em frente a uma máquina de lavar em um porão. E começamos a compor os dois discos. Eles foram compostos bem rápido, provavelmente, sei lá, em uma semana ou algo assim. E então ensaiamos os dois discos por umas duas ou três semanas. E depois fomos para o estúdio e gravamos.

O Exorcist foi feito em três dias, assim como Original Sin. Talvez Original Sin tenha sido feito em dois dias. Gravado e mixado rapidinho. Entramos, saímos. Muito honesto e orgânico. Foi como se estivéssemos pegando fogo!


RtM: Foi tudo muito, muito orgânico! (Risos)
David Defeis: Muito orgânico (mais risos). Eu sempre me senti feliz por termos feito esses álbuns e estou muito orgulhoso deles e do que eles significam para as pessoas. Mas eu sempre senti que, droga, se tivéssemos pegado toda aquela energia que foi investida nesses discos, nesses riffs e em algumas dessas ideias e a transformado mais no estilo do Virgin Steele e lançado como um outro álbum da banda, teria sido um trabalho realmente muito, muito forte. É por isso que eu quis revisitar a "Black Mass.'


RtM: Os riffs e refrãos são maravilhosos!
David Defeis: Edward (Pursino) e eu conversamos sobre isso. Então eu disse: por que não revisitamos algumas dessas coisas e vemos o que podemos fazer no universo do Virgin Steele com isso? E esse foi o resultado dessas faixas, o resultado dessa mentalidade. E eu não me importaria de revisitar mais algumas delas. Eu realmente gostei disso.

E especialmente a "Lucifer's Lament", eu gostaria de revisitá-la algum dia. Falando apenas em excesso, tínhamos a tela original, fizemos "Conjuration of the Watcher", eu reescrevi, eu disse: "Ok, vamos tornar isso mais clássico no meio, trazer aquela outra seção" e fizemos algumas outras coisas, tipo "Fire God" do Pile Driver, que foi... esse é outro disco que fizemos naquela época, esse foi na verdade o primeiro, depois fizemos o  "Exorcist" e "Original Sin".

Então, sim, eu pensei, sim, sempre amamos "Fire God", vamos revisitá-la, vamos adicionar algumas coisas novas e ver onde isso vai dar. E aquilo funcionou e está em "House of Atreus PT 1". Então, sim, há muitas ideias ali que eu acho que ainda poderiam ser exploradas em outro âmbito. Então, talvez... veremos como vai ser.


RtM: Ah, ótimo, seria muito bom. Bom, próxima pergunta... Eu sei que é difícil escolher, mas existe algum álbum específico da sua carreira do qual você se orgulha especialmente? O que torna esse disco tão significativo para você?
David Defeis: Eu amo todos eles. São como filhos, sabe, que você tem, ou animais de estimação que você ama, enfim. Então, todos eles têm um significado muito, muito forte para mim. Mas acho que um dos que eu realmente gosto muito é o "Visions of Eden". Fiquei muito satisfeito com a composição e com a versão de aniversário, com o som que ele tem agora. E para mim, é como quando as pessoas falam sobre Led Zeppelin, elas falam muito sobre Led Zeppelin IV, por causa da voz de Robert Plant e tudo mais. 

Acho que este, "Visions of Eden", foi um momento realmente especial, porque para onde eu queria ir, as músicas realmente combinavam com a voz naquele momento, e fiquei muito satisfeito com o resultado final daquele disco. Esse é um dos meus favoritos, mas eu realmente amo todas eles. Sabe, amo todos mesmo.


RtM: Você considera que "Visions of Eden" foi composta quase como uma trilha sonora de filme, e você certa vez a descreveu como "a Barbaric Romantic Movie of the Mind". Você já considerou trabalhar profissionalmente com trilhas sonoras para filmes?
David Defeis: Falando em VISIONS OF EDEN… Bem… sim, é algo que eu almejo. Eu penso cinematograficamente quando estou compondo e consigo enxergar as possibilidades visuais inerentes a todas as músicas… Então, sim, eu adoraria compor a trilha sonora completa de um filme…

RtM: Falando em trilhas sonoras, o Virgin Steele também teve uma música na trilha sonora de um filme de terror dos anos 80, não é? O que você se lembra dessa experiência?
David Defeis: Sim… o filme se chama "ZOMBIE NIGHTMARE", e a música do VIRGIN STEELE que aparece nele é "WE RULE THE NIGHT", do álbum Noble Savage. Há outros dois filmes que usam músicas do VIRGIN STEELE: um é HEAR NO EVIL, estrelado por Martin Sheen e Marlee Maitlan. 

A música usada é ON THE WINGS OF THE NIGHT, e o outro filme se chama CASUALTY OF LOVE, e usa as músicas: LOVE IS PAIN, NEVER BELIEVED IN GOOD-BYE e SNAKESKIN VOODOO MAN.

Sobre o filme ZOMBIE NIGHTMARE, o que eu me lembro é que o filme era realmente um daqueles filmes de terror trash, mas o que joga a seu favor é a cena em que WE RULE THE NIGHT é usada… Uns jovens estão dirigindo em uma rodovia ouvindo a música no volume máximo e atropelam o personagem principal, que era interpretado por Jon Michael Thor, da banda THOR. 

Aquela cena foi a mais impactante do filme... Ah, sim... o filme também contou com Adam West, o Batman original da série de TV, e com uma Tia Carrera bem jovem... que mais tarde alcançou a fama com o filme "Wayne's World", entre outros.


RtM: Continuando com o "Visions of Eden", você acha que a jornada trágica de Lilith, marcada pela opressão e destruição cultural, serve como um reflexo ainda mais preciso do colapso espiritual que testemunhamos na sociedade atual?
David Defeis: Sim... desde que essa história surgiu, ela ressoa em todas as épocas, em todas as eras, e continuará a ressoar eternamente, pois fala diretamente da profanação e erradicação do Princípio da Deusa que outrora habitava tão livremente a Divindade, bem como da destruição do Paganismo e do Gnosticismo, e ainda carregamos essas cicatrizes hoje. Sim, especialmente hoje, pois a situação só piora.


RtM: E qual foi álbum mais desafiador,  não apenas musicalmente, mas também em termos de conceito, composição, letras, qual foi o maior desafio para você?
David Defeis: Provavelmente são dois. Um foi o "House of Atreus", porque é um trabalho enorme, muito grande.  Tentar dar sentido àquela história e fazer com que não fosse enorme... eram três CDs, mas poderiam ter sido uns 90! (risos)  mas você não quer cortar, mas precisa fazer com que faça sentido e de uma forma digerível. Então esse foi um disco complicado, mas foi bem fácil de gravar. 

O outro que foi complicado foi o último álbum, "Passion of Dionysus". Esse foi um disco complicado porque havia muita coisa que eu queria dizer ali. E, novamente, eu não queria que fosse longo, não queria cortar nada, mas não queria que tivesse quatro CDs. Então, tratava-se de tentar descobrir como trabalhar com esse material, torná-lo compreensível e trazer à tona todos os detalhes. Na minha opinião, portanto, esses dois discos foram provavelmente os mais difíceis de fazer.


David, seus álbuns mais recentes têm abordado uma sonoridade mais sinfônica e teatral. Alguns fãs sentem falta da abordagem mais pesada e intensa do Metal, enquanto que outros apreciaram essa evolução artística. Você acompanha as críticas e as reações dos fãs nas redes? Depois de tantos anos na indústria da música, como você lida com elogios e críticas
David Defeis: Eu não... eu não acompanho muito as críticas e coisas do tipo, nem Facebook, Instagram ou qualquer coisa parecida. Eu simplesmente vivo minha vida. Eu não vivo online, a menos que esteja fazendo algo como isto. Estamos conversando. Sim, eu já tenho muita coisa acontecendo no meu mundo. Fico muito feliz quando recebo feedback, sabe? 

As pessoas dizem, por exemplo, sobre o último álbum, muita gente me perguntou: "Nossa, como você conseguiu esse som? Como isso aconteceu?  Como você conseguiu fazer com que todas essas ideias musicais diferentes pudessem ser ouvidas? Como você conseguiu fazer isso na mixagem?" Ou também "este disco significa tanto para mim que quero fazer uma tese de mestrado sobre ele". 

Muitas das nossas obras acabaram em trabalhos de conclusão de curso por algum motivo, House of Atreus, Dionisyus, Visions, tudo isso. "Marriage of Heaven and Hell" acabou em algum contexto acadêmico universitário, o que também é muito gratificante. Então, estou ciente do que acontece com as pessoas que gostam e não gostam, mas, eu ainda vou fazer as minhas próprias coisas, não vou fazer mais de algo só porque as pessoas gostaram, e também não vou fazer menos de algo só porque não gostaram. 

Acredito firmemente no meu próprio julgamento sobre o que quero fazer e o que a banda é, e todos no grupo têm ideias muito fortes sobre como as coisas devem soar e ser, e nós vamos discutir entre nós, mas não brigar, conversar entre nós e chegar a uma solução sobre onde queremos estar, e essa é a única coisa que realmente importa: com quem você está trabalhando.


RtM: São gostos e opiniões, e como você falou antes, não dá para agradar todo mundo.
David Defeis: Não... para mim, no final das contas, se alguém não gosta de um disco específico, não é um problema. Existem muitos discos no mundo, você pode ouvir outra coisa e gostar, sabe? Você pode gostar daqui a cinco anos ou 15 anos, quem sabe?

Existem muitos discos que são lançados que eu não gosto, e tem muitos discos que eu gosto. Quem se importa? (Risos) Não vou sair por aí ligando para o artista. Então, é isso, a gente continua fazendo o que faz. Eu saio, olho para o céu, olho para as árvores lá no alto e penso: "Nossa, que incrível, né? Preciso registrar isso. Quero escrever algo tão bonito quanto isso." Essa é realmente a minha inspiração.


RtM: Inclusive houve a transição de "The House of Atreus" do estúdio para a produção teatral alemã "Klytaimnestra", e foi certamente um marco.
Nessa produção, atores de teatro tradicional , em vez de cantores de heavy metal, interpretaram suas composições.
Como compositor e arranjador, como foi dirigir esses artistas e adaptar sua música para esse ambiente teatral?
David Defeis: Foi definitivamente um marco! Quando assisti a um ensaio completo no teatro, pensei comigo mesmo: "Uau... talvez esta música possa e vá sobreviver muito depois de eu virar pó".

Trabalhar com aqueles atores, muitos dos quais não eram cantores realmente experientes, foi um desafio, mas também uma inspiração. Descobri que quando existem limites... limitações como tais... em qualquer capacidade, se pensarmos neles não como limites, mas como desafios, então a porta se abre para maior criatividade e improvisação. 

Eu sou totalmente a favor da improvisação (em todos os aspectos da minha vida), é isso que me mantém em movimento e é isso que alimenta minhas composições.


RtM: "The House of Atreus" continua sendo uma das obras mais queridas pelos fãs. Quão desafiador foi traduzir a brutalidade, as maldições de sangue e a intensidade emocional da tragédia grega antiga em uma ópera metal, preservando o poder bruto do seu estilo "romântico bárbaro"?
David Defeis: Traduzir toda aquela brutalidade, maldições de sangue e emoções cruas não foi a parte mais difícil do trabalho... Isso veio naturalmente assim que me imergi completamente na história. 

Eu conhecia a história intimamente... emocionalmente, portanto, pude ficar "possuído" e, como um xamã, exalar todo aquele drama na música e na letra. O difícil foi condensar a obra para que não se tornasse uma peça divagante que se prolongasse indefinidamente. Sim, é uma obra longa... três CDs completos! Mas, como eu disse, poderia ter sido ainda mais longa. 

Eu queria expandir, desenvolver... alongar, musicalmente, liricamente e emocionalmente, mas ainda assim acessível ao público de Rock/Metal. Quando comecei a trabalhar nela, sempre tive em mente que seria apresentado no palco como uma "Ópera", então o aspecto teatral sempre esteve em primeiro plano.


RtM: E há uma curiosidade interessante sobre a capa do álbum, que apresenta um escudo real que pertence à sua família, não é? Imagino que haja uma história fascinante por trás dessa relíquia.
Como ter uma peça tão pessoal da história da sua família na capa tornou essa história trágica de vingança, justiça e destino ainda mais significativa para você?
David Defeis: Sim, essa capa é um escudo que está na minha família há bastante tempo. O primo do meu pai, Cosimo, o trouxe de suas viagens e o presenteou à minha família. Ela estava pendurada na parede da casa onde cresci há anos. 

Quando saí de casa, ganhei de presente. Sempre quis que as capas dos álbuns do VIRGIN STEELE refletissem tanto a música contida neles quanto o ambiente/estilo de vida da época e do lugar onde a música foi criada. Sempre olho ao redor da minha casa para ver o que pode "falar comigo"... e aquela peça saltou aos meus olhos! Então eu disse: "É essa... é essa!" Então sim, ela tem um significado especial para mim.


RtM: Prosseguindo um pouco mais sobre alguns dos álbuns mais queridos por nós , e pela maioria dos fãs, no "The Marriage of Heaven and Hell (Parts I & II)". Durante esse período incrivelmente prolífico de composição, como vocês equilibraram a crueza e a agressividade da Parte I com a sofisticação melódica e os arranjos orquestrais da Parte II, de modo que ambos os álbuns se complementassem tão naturalmente?
David Defeis: Os dois álbuns foram essencialmente compostos ao mesmo tempo, com exceção das músicas EMALAITH, PROMETHEUS THE FALLEN ONE e CROWN OF GLORY (Unscarred). Essas três músicas foram escritas depois que gravamos toda a PARTE 1 e as faixas restantes da PARTE 2. Gravamos toda a PARTE 1 e boa parte da PARTE 2 simultaneamente. Sabíamos o que estaria na PARTE 1, então finalizamos todas essas faixas primeiro e depois voltamos e terminamos de onde tínhamos parado nas faixas da PARTE 2. 

O lado orquestral do projeto estava crescendo, e as faixas restantes da PARTE 2 realmente exigiam e se beneficiaram dessa abordagem mais sinfônica. O que resultou na coesão de ambos os discos decorre do fato de que as ideias para ambas as partes foram concebidas simultaneamente como uma única obra de grande escala.


RtM: Olhando para trás hoje, você vê esse "casamento" entre o Céu e o Inferno mais como uma reconciliação pacífica de nossa natureza dual, ou como um conflito eterno e necessário entre forças opostas?
David Defeis: Ambos. Quando essa dualidade é reconciliada/integrada... um novo e empolgante terceiro elemento surge... quando ambos estão em constante conflito, o desejo, a busca pela integração, permanece e seguirá em frente até que seja harmonizado.


RtM: E sobre o "The Passion of Dionysus",  que você colocou entre os dois álbuns mais desafiadores para você. Ele foi inspirado na tragédia grega de Eurípides para explorar a tensão entre razão e instinto, ordem e liberdade. Ao mesmo tempo, a capa do álbum é impactante, retratando você em imagens que evocam crucificação e martírio.
Como essa imagem poderosa e sacrificial se conecta com a paixão e o sofrimento de Dionísio em Tebas? 
David Defeis: A capa retrata Dionísio. Uma das várias maneiras pelas quais ele teria sido morto, além de ter sido despedaçado por suas seguidoras Mênades, é que ele foi pendurado em uma árvore... e existe, de fato, um antigo amuleto de cerca de 4.000 anos atrás que reflete esse cenário de crucificação. 

Dionísio é um dos muitos deuses-homens que morrem e ressuscitam, como Osíris, Adônis, Mitra, etc... e Jesus, que é o último de uma longa linhagem de tais seres. Dionísio sofre por suas crenças... pela liberdade que ele traz, por sua aparência, por sua história de origem... sua sensualidade, e a lista continua.


RtM: E como essa parábola mitológica reflete o que você vê hoje em um mundo cada vez mais dividido e lutando contra a perda da liberdade?
David Defeis: A cruz tem sido um símbolo sagrado desde os tempos anteriores à Lua. Os quatro braços da cruz representam os quatro elementos físicos: terra, fogo, água e ar. O quinto elemento é o espírito, que está ligado, preso ou pregado aos quatro primeiros elementos físicos/materiais. 

Uma pessoa crucificada representa uma alma/espírito preso/pregado ao corpo físico. Os pregos que prendem o ser humano à cruz são os nossos desejos humanos e, ao morrermos simbolicamente, descartamos ou nos livramos dos nossos desejos e da nossa natureza inferior e renascemos como Deus. 

Não mais "pregados" à cruz dos 4 elementos... estamos livres, desimpedidos... livres... Como mencionei há pouco, além de ser despedaçado, também se dizia que Dionísio foi pendurado na "Árvore"... ou, em essência, numa "Cruz"... onde morreu para a sua natureza inferior e renasceu. 

O Hierofante dos Mistérios de Dionísio, representando o próprio Deus, era simbolicamente "crucificado" durante essas magníficas celebrações rituais. Até mesmo Odin, da mitologia nórdica, teria sido pendurado de cabeça para baixo em uma árvore por nove noites.

Ele buscou isso por conta própria, sacrificando-se para obter sabedoria/conhecimento... então essa história de ser pendurado em uma árvore remonta a tempos muito antigos. Sim! Quando a liberdade está em jogo... o Deus se levanta.


RtM: Bom, estamos chegando na parte final da entrevista, então temos mais algumas perguntas finais. 

Neste mundo acelerado de hoje, dominado pelas redes sociais e pelo consumo imediato de informação. Você ainda acredita que o Heavy Metal tem ainda o poder de inspirar, transformar e elevar a vida das pessoas?
David DeFeis: Sim. Eu acredito que continua tendo esse poder.
Ainda encontro pessoas que estão descobrindo hoje artistas que eu conheci décadas atrás pela primeira vez. Vejo jovens ouvindo Led Zeppelin, Deep Purple, Virgin Steele e tantas outras bandas com a mesma paixão que eu senti quando descobri essa música. Isso mostra que essa força continua existindo.

A música sempre será capaz de emocionar e transformar as pessoas, desde que seja feita de maneira honesta.
Quando nasce do coração, das convicções do artista, ela permanece viva.



RtM: Você está sempre compondo, remixando álbuns e trabalhando em novos projetos, os relançamentos dos "Marriage" e "Life Among the Ruins" já estão chegando (N. do R.: Foram lançados dia 21/08). Além dessas reedições, já existe algum plano para um novo álbum?
David Defeis: Na verdade, temos algo em torno de três álbuns completos em diferentes estágios de produção. Há muita música pronta.
O primeiro a ser lançado será simplesmente aquele que terminarmos primeiro.
Estamos trabalhando em vários projetos ao mesmo tempo, e existe um deles que provavelmente será o próximo lançamento oficial.

Também estamos desenvolvendo esse projeto envolvendo um concerto e um filme, que falamos anteriormente.

Além disso, pensamos na possibilidade de lançar um álbum com raridades, mas não seria apenas uma coletânea, eu gostaria de incluir também músicas inéditas.
Existe uma enorme quantidade de material esperando o momento certo para ser finalizado.


RtM: Que maravilha! E outra pergunta que muitos fãs fazem: Edward Pursino ainda faz parte do Virgin Steele?
David DeFeis: Sim. Edward continua fazendo parte da banda. As pessoas não o veem mais no palco, mas ele continua gravando conosco.
Ele participou do último álbum e também está presente no material novo que estamos produzindo.

O Edward continua participando da parte de estúdio, apenas deixou de viajar conosco por motivos pessoais, que talvez ele próprio possa explicar melhor. Mas a porta permanece completamente aberta, se amanhã ele decidir voltar aos palcos, teremos novamente três guitarristas na banda. Será muito bem-vindo.

Aliás, mantenho contato com praticamente todos os antigos integrantes do Virgin Steele. Converso frequentemente com Rob DeMartino. Também falei recentemente com Joey Ayvazian.

Frank Gilchriest também continua próximo. Inclusive produzi uma música que ele escreveu e gravou. Sempre gostei de manter essas portas abertas. Quem fez parte da história da banda continua sendo parte da família.


RtM: Sobre o VS nas redes sociais, muitos fãs perguntam sobre isso, inclusive eu. O site oficial sempre traz novidades quando há um lançamento, mas você nunca foi muito ativo em redes sociais como Instagram ou Facebook. Existe alguma possibilidade de vermos você mais presente nesses canais? Ou simplesmente prefere dedicar seu tempo à música?
David DeFeis: Como eu disse anteriormente, esse não é o tipo de vida que escolhi viver.
Tenho sentimentos bastante contraditórios em relação às redes sociais. Reconheço que elas fizeram muito bem em determinadas situações e aproximaram muitas pessoas, mas também causaram muitos problemas.

Vivemos em uma época de excesso de informações falsas, teorias conspiratórias e uma necessidade constante de exposição. Prefiro manter certa distância disso. Nós usamos as redes sociais apenas quando realmente existe algo importante para comunicar, como um novo álbum, um show, um videoclipe, uma turnê.

Quando temos algo relevante para dizer, nós falamos. Mas não vejo sentido em aparecer todos os dias apenas para mostrar o que comi no café da manhã, o que almocei ou abrir caixas diante da câmera, isso simplesmente não me interessa.

Também não gostaria de ver Jimmy Page ou Robert Plant fazendo esse tipo de conteúdo! (risos)


RtM: Ótimos pontos de vista.
David Defeis: Yeah...Então... não faz sentido para mim agir dessa maneira, muitas pessoas acreditam que todo artista sonha em ser famoso, que todos querem ser a maior banda do planeta, tipo "olhem pra mim, olhem pra mim! Somos a maior banda da terra"! Nunca foi esse o objetivo do Virgin Steele, nosso objetivo sempre foi fazer a música em que acreditamos. É nisso que dedicamos nossa vida.

Quando estamos em turnê, estamos completamente presentes. Depois de cada shows, você me verá sempre com o público, cumprimentando, abraçando, conversando,  autografando o que quiserem...estar lá fisicamente.
Esse contato humano é muito mais importante para mim do que qualquer número de seguidores.

Se eu tiver algo realmente importante para compartilhar, vocês saberão, caso contrário, prefiro simplesmente continuar vivendo e criando música. Quando os novos videoclipes começarem a ser lançados, no fim de agosto, vocês voltarão a nos ver com mais frequência, até lá, prefiro deixar que a música fale por si.


RtM: E nós esperamos vocês mais presentes nos palcos também. Esperamos ver o Virgin Steele novamente no Brasil. Quem sabe no Bangers Open Air?
David DeFeis: Eu adoraria. Tivemos experiências maravilhosas no Brasil. O público brasileiro é absolutamente fantástico.

Sempre fomos recebidos com um entusiasmo incrível. Gostaria muito de voltar.
Se houver promotores ouvindo esta entrevista, saibam que temos total interesse em retornar.


RtM: Você se lembra das apresentações que fizeram no Brasil?
David DeFeis: Claro. Lembro dos shows em São Paulo e Curitiba. Também participamos de programas de rádio durante aquela visita. Foram momentos muito especiais. Gostei de cada minuto que passamos aí.

A energia do público brasileiro é realmente extraordinária. Espero sinceramente que possamos voltar em breve.


RtM: Após quase cinco décadas de Virgin Steele, qual você acredita ser o maior legado da banda?
David Defeis: A música. O vasto conjunto de obras que existe. As músicas que expandem os limites do que o Rock e o Metal podem ser.


RtM: Você costuma ouvir de músicos mais jovens que sua música os inspirou a formar bandas ou a seguir sua própria visão artística? Aqui no Brasil, por exemplo, a banda Phantom Star, que Lançou o álbum de estreia deles, em junho, citou você e o Virgin Steele como uma de suas maiores inspirações.
David Defeis: Eu recebo notícias de novas bandas que foram inspiradas pelo VIRGIN STEELE, e isso é sempre algo que eu pessoalmente acho muito gratificante, recompensador e que revigora a alma. Quando a música de alguém toca outra alma... mundos nascem... Agradeço muito por me falar sobre a banda PHANTOM STAR! Vou ouvir atentamente o que eles têm a oferecer!



RtM: Obrigado de coração David, há muito tempo queríamos fazer esta entrevista, e claro, há centenas de coisas ainda que gostaríamos de falar sobre esses 45 anos de VS. Deixamos este espaço para que você envie uma mensagem aos fãs brasileiros, que continuam aguardando seu retorno e também um novo álbum do Virgin Steele.
David DeFeis: Quero agradecer, de coração, a todos os fãs brasileiros. Nós adoramos tocar no Brasil. Voltaremos.
Novamente, se houver promotores assistindo ou lendo a esta entrevista, saibam que queremos muito tocar novamente aí.

Também teremos muita música nova chegando.
Obrigado por ouvirem nossa música. Obrigado por acreditarem no Virgin Steele durante todos esses anos. Obrigado por caminharem conosco.
Nós amamos vocês. Até muito em breve.

Agradeço a vocês dois, Carlos e Gabriel, por ouvirem, entenderem e por toda a gentileza e amizade.

With Noble Cheers and a LOUD…BY THE GODS!


Thanks to David Defeis and Mark (VS office) for your kindness.

Noble Cheers!













quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Kamelot: Grandioso Por Natureza (Also In English)

Napalm Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Depois de mais de três décadas de carreira, o Kamelot já não precisa provar que sabe construir mundos. Dark Asylum, seu 14º álbum de estúdio, apenas leva essa habilidade a um território ainda mais sombrio, teatral e cinematográfico. 

Ambientado no fictício RavenHill Asylum, o disco mergulha em temas como identidade, loucura, fé e transformação, combinando narrativa conceitual, orquestrações grandiosas e o power metal melódico que se tornou a assinatura da banda. Mais do que reinventar sua fórmula, o Kamelot a refina — e, em vários momentos, parece reencontrar justamente os elementos que fizeram de sua música uma referência dentro do metal sinfônico.

A introdução “Sanctorium” estabelece o cenário antes mesmo que a primeira música propriamente dita comece. Narração e piano constroem uma atmosfera inquietante, preparando a entrada de “Ashen World”, primeiro single e uma das faixas que melhor resumem a proposta do álbum. A guitarra veloz abre caminho para a entrada de Tommy Karevik, que novamente demonstra por que se tornou uma das vozes mais importantes do metal contemporâneo. 

Seu registro é simultaneamente poderoso e teatral, enquanto as orquestrações ampliam a dimensão épica da composição. A participação de Ignacia Fernández, com seus vocais guturais, introduz um contraste agressivo que ajuda a estabelecer desde cedo a atmosfera mais obscura de Dark Asylum.

A faixa-título aprofunda essa sensação. “Dark Asylum” começa pesada e sombria, mas progressivamente incorpora melodias mais marcantes e mudanças de andamento que acrescentam uma discreta dimensão progressiva à composição. O trabalho de Thomas Youngblood, particularmente no solo, encontra excelente contraponto nos teclados de Oliver Palotai. É uma composição que reúne praticamente todos os elementos que o público espera do Kamelot sem soar como mera repetição de fórmulas.

“Sanctuary” reduz o andamento e amplia consideravelmente o peso dramático. Com Karevik, Clémentine Delauney e Ignacia Fernández dividindo os vocais, a música explora diferentes registros e perspectivas dentro da narrativa. A alternância entre voz limpa, vocais guturais e os efeitos vocais utilizados pela banda cria um dos momentos mais sombrios do álbum, enquanto o refrão devolve à composição sua característica melódica. É um exemplo particularmente eficiente de como o Kamelot utiliza seus convidados para ampliar a paleta sonora sem perder a própria identidade.

Depois da breve e enigmática “Nocte Veritas”, “One Last Masquerade” coloca Tobias Sammet ao lado de Karevik. A combinação funciona naturalmente: o peso dramático de Sammet encontra a versatilidade do vocalista do Kamelot em uma composição de power metal melódico, sustentada por um refrão amplo e repleta de nuances vocais. A produção de Sascha Paeth, que retorna ao comando do Kamelot, também se faz sentir aqui. Há uma textura ligeiramente mais áspera e orgânica nos arranjos, acrescentando personalidade a uma produção que, de modo geral, é extremamente limpa e detalhada.

“Ivy, My Dear” representa uma mudança significativa de atmosfera. Construída sobre instrumentos acústicos, a balada introduz uma dimensão quase medieval que ainda não havia aparecido com tanta força no álbum. Karevik aproveita o espaço para explorar sua faceta mais teatral, alternando delicadeza e potência e alcançando regiões de sua voz pouco exploradas nas faixas anteriores. A composição é particularmente rica em detalhes e, dentro do conceito de Dark Asylum, funciona quase como uma peça de trilha sonora.

Se existe uma música que resume o Kamelot em sua forma mais imediatamente reconhecível, é “Godlike Alchemy”. Segundo single do álbum, a faixa reúne velocidade, melodias marcantes, orquestrações e um refrão construído para permanecer na memória depois da primeira audição. As linhas vocais e instrumentais caminham praticamente em uníssono, criando um daqueles momentos em que a grandiosidade da banda não depende do excesso, mas da eficiência da composição.

“The Sleeping Mind (Orphic Paradigm)” acelera novamente o ritmo. Mais direta e menos ornamentada, a faixa aproxima-se do Kamelot mais tradicional e oferece a Alex Landenburg uma oportunidade de mostrar seu trabalho de bateria, especialmente nos dois bumbos. O piano que antecede o solo de Youngblood é outro detalhe bem resolvido em uma composição que privilegia velocidade e impacto.

“Kaleidoscope” retoma as orquestrações e os grandes coros, funcionando como uma síntese bastante eficiente do lado power metal melódico da banda. As mudanças de andamento são acompanhadas por uma base instrumental extremamente coesa, enquanto teclados, guitarras e vocais se encaixam sem que nenhum elemento pareça deslocado. Karevik novamente brinca com diferentes possibilidades vocais, mantendo a música acessível mesmo quando sua estrutura se torna mais elaborada.

“Enigma (Think of Me)” surpreende pela dinâmica. Uma introdução que parece anunciar uma balada dá lugar a uma passagem pesada e quebrada, antes de a música reduzir novamente sua intensidade para piano e voz. O resultado é um dos momentos mais interessantes do álbum justamente por trabalhar com contraste. E, apesar das mudanças, há uma constante: em nenhum momento o Kamelot deixa de soar como Kamelot. Para alguns ouvintes, essa familiaridade poderá ser interpretada como falta de ousadia; para outros, é exatamente o que torna Dark Asylum tão convincente.

“Cassandra's Disease” reforça essa capacidade de alternar atmosferas. Piano e guitarra pesada dividem espaço em uma composição de andamento quebrado e forte caráter teatral, permitindo que Karevik explore novamente toda a extensão de sua interpretação. O refrão extremamente melódico, reforçado por backing vocals bem posicionados, acrescenta uma nova camada à narrativa e mantém a sensação de mistério que percorre todo o álbum.

Um dos maiores pontos de ruptura vem com “Beneath the Moon (Tunglið)”. Cantada em islandês por Rannveig Sif Sigurðardóttir, com a participação vocal de Sólveig Sara Leupold e violino de Lea-Sophie Fischer, do Eluveitie, a faixa abandona momentaneamente o núcleo mais tradicional do Kamelot para mergulhar em uma atmosfera folk-gótica. 

A presença de Rannveig tem ainda um significado especial para os seguidores antigos da banda: a soprano islandesa já havia participado de The Fourth Legacy, de 1999, na faixa “The Inquisitor”. Quase três décadas depois, seu retorno estabelece uma inesperada ponte com o passado do Kamelot. O resultado é uma das experiências mais particulares do álbum.

“The Puppet King” recoloca a banda em terreno familiar, mas sem abandonar as nuances construídas ao longo do disco. Guitarras rápidas, mudanças rítmicas, teclados cuidadosamente integrados e uma base extremamente coesa servem de suporte para outra grande interpretação de Karevik. O solo é econômico e eficiente, e o momento em que a instrumentação desaparece para deixar apenas a voz prepara adequadamente a chegada do último refrão.

“Sanctum Requiem” encerra o álbum de maneira coerente com seu conceito. Instrumental e dominada pelo piano, a composição abandona a velocidade e deixa no ar uma atmosfera sombria e contemplativa. Mais do que um simples encerramento, funciona como o último capítulo de uma história que começou a ser construída antes mesmo da primeira faixa.

"Dark Asylum" não é um álbum que procura reinventar o Kamelot — e talvez essa seja justamente sua maior força. A banda parece compreender que sua identidade já é suficientemente poderosa para não precisar ser constantemente desconstruída. O que existe aqui é um trabalho mais maduro e complexo, mas também surpreendentemente acessível, no qual o power metal melódico, as orquestrações e a teatralidade são utilizados com precisão.

As 15 faixas podem, à primeira vista, sugerir uma experiência excessivamente longa, mas a variedade de atmosferas e a quantidade de detalhes impedem que o álbum se torne cansativo. Algumas composições são curtas e funcionam como elementos de transição dentro do conceito, enquanto outras assumem proporções mais épicas. A sequência é cuidadosamente construída e recompensa audições repetidas.

Também merece destaque a produção de Sascha Paeth, responsável por recuperar uma sonoridade ligeiramente mais orgânica sem abrir mão da clareza característica das produções modernas, enquanto Jacob Hansen garante uma mixagem e masterização que permitem que cada camada encontre seu espaço. Guitarras, teclados, orquestrações, coros e bateria formam um conjunto monumental, mas nunca excessivamente congestionado.

Acima de tudo, porém, Dark Asylum pertence a Tommy Karevik. Sua interpretação atravessa todo o álbum, passando da delicadeza à dramaticidade, do registro mais melódico aos momentos de maior intensidade, sempre com controle e personalidade. Se a intenção do Kamelot era construir uma experiência conceitual capaz de unir narrativa, atmosfera e grandes canções, encontrou em seu vocalista o intérprete ideal.

No fim, Dark Asylum é menos uma reinvenção do que uma reafirmação. O Kamelot conhece profundamente a linguagem que ajudou a consolidar e demonstra aqui que ainda é capaz de utilizá-la com inteligência, riqueza de detalhes e, sobretudo, boas canções. É um álbum que deve satisfazer plenamente os fãs de longa data, mas que também oferece uma excelente porta de entrada para quem procura power metal melódico com ambição sinfônica e teatral. Depois de tantos anos, o Kamelot não precisa abrir um novo caminho. Basta mostrar, com a segurança de quem conhece o território, por que continua sendo um dos nomes mais relevantes dentro dele.


***ENGLISH VERSION***

After more than three decades of career, Kamelot no longer needs to prove that it knows how to build worlds. Dark Asylum, the band’s 14th studio album, simply takes that ability into darker, more theatrical and cinematic territory. Set within the fictional RavenHill Asylum, the record delves into themes of identity, madness, faith and transformation, combining a conceptual narrative, grand orchestral arrangements and the melodic power metal that has become the band’s trademark. Rather than reinventing their formula, Kamelot refines it — and, at several points, seems to rediscover precisely the elements that made the band such an important name in symphonic metal.

The introduction “Sanctorium” establishes the setting before the first proper song even begins. Narration and piano create an unsettling atmosphere, preparing the arrival of “Ashen World”, the first single and one of the tracks that best summarizes the album’s concept. Fast guitars pave the way for Tommy Karevik’s entrance, once again demonstrating why he has become one of contemporary metal’s most important vocalists. His voice is both powerful and theatrical, while the orchestral arrangements expand the song’s epic dimension. The contribution of Ignacia Fernández, with her guttural vocals, provides an aggressive contrast that helps establish the darker atmosphere of Dark Asylum from the outset.

The title track deepens that feeling. “Dark Asylum” begins heavy and ominous, but gradually incorporates more prominent melodies and tempo changes that add a subtle progressive dimension to the composition. Thomas Youngblood’s work, particularly on the solo, finds an excellent counterpart in Oliver Palotai’s keyboards. It is a composition that brings together virtually every element listeners expect from Kamelot without sounding like a mere repetition of old formulas.

“Sanctuary” slows the pace and considerably increases the dramatic weight. With Karevik, Clémentine Delauney and Ignacia Fernández sharing vocal duties, the song explores different registers and perspectives within the narrative. The alternation between clean vocals, gutturals and the vocal effects employed by the band creates one of the album’s darkest moments, while the chorus restores its trademark melodic character. It is a particularly effective example of how Kamelot uses its guests to expand its sonic palette without compromising its own identity.

After the brief and enigmatic “Nocte Veritas”, “One Last Masquerade” brings Tobias Sammet together with Karevik. The combination works naturally: Sammet’s dramatic presence meets the versatility of Kamelot’s vocalist in a melodic power metal composition built around a broad, anthemic chorus and filled with vocal nuances. The production of Sascha Paeth, who returns to the helm of Kamelot, is also evident here. There is a slightly rougher, more organic texture to the arrangements, adding character to an album whose production is otherwise exceptionally clean and detailed.

“Ivy, My Dear” represents a significant change of atmosphere. Built around acoustic instrumentation, the ballad introduces an almost medieval dimension that had not appeared with such force earlier in the album. Karevik uses the space to explore his more theatrical side, moving between delicacy and power and reaching areas of his voice that had not been explored in the preceding tracks. The composition is particularly rich in detail and, within the concept of Dark Asylum, almost functions as a piece of soundtrack music.

If there is one song that sums up Kamelot in its most immediately recognizable form, it is “Godlike Alchemy”. The album’s second single brings together speed, memorable melodies, orchestration and a chorus designed to stay in the listener’s head after the first spin. The vocal and instrumental lines move almost in unison, creating one of those moments where the band’s grandeur depends not on excess, but on the efficiency of the songwriting.

“The Sleeping Mind (Orphic Paradigm)” picks up the pace again. More direct and less ornate, the track brings Kamelot closer to its traditional sound and gives Alex Landenburg an opportunity to showcase his drumming, particularly his double-bass work. The piano leading into Youngblood’s solo is another well-executed detail in a composition that prioritizes speed and impact.

“Kaleidoscope” brings back the orchestration and huge choirs, working as a highly effective synthesis of the band’s melodic power metal side. The tempo changes are supported by an exceptionally tight instrumental foundation, while keyboards, guitars and vocals fit together without any element feeling out of place. Karevik once again plays with different vocal approaches, keeping the song accessible even as its structure becomes more elaborate.

“Enigma (Think of Me)” surprises through its dynamics. An introduction that initially appears to announce a ballad gives way to a heavy, broken section before the song once again strips down to piano and vocals. The result is one of the album’s most interesting moments precisely because it works through contrast. And despite all the changes, there is one constant: Kamelot never stops sounding like Kamelot. For some listeners, that familiarity may be interpreted as a lack of adventurousness; for others, it is precisely what makes Dark Asylum so convincing.

“Cassandra’s Disease” reinforces the band’s ability to shift atmospheres. Piano and heavy guitar share the spotlight in a composition built around a broken rhythm and a strong theatrical character, once again allowing Karevik to explore the full range of his performance. The extremely melodic chorus, reinforced by well-placed backing vocals, adds another layer to the narrative while maintaining the sense of mystery that runs throughout the album.

One of the biggest departures comes with “Beneath the Moon (Tunglið)”. Sung in Icelandic by Rannveig Sif Sigurðardóttir, with vocal contributions from Sólveig Sara Leupold and violin by Lea-Sophie Fischer of Eluveitie, the song temporarily abandons Kamelot’s more traditional core to delve into a folk-gothic atmosphere. Rannveig’s presence carries an added significance for longtime followers of the band: the Icelandic soprano previously appeared on The Fourth Legacy, from 1999, on “The Inquisitor”. Almost three decades later, her return creates an unexpected bridge to Kamelot’s past. The result is one of the album’s most distinctive experiences.

“The Puppet King” brings the band back onto familiar ground without abandoning the nuances developed throughout the record. Fast guitars, rhythmic shifts, carefully integrated keyboards and an extremely tight rhythm section provide the foundation for another powerful performance from Karevik. The solo is economical and effective, while the moment when the instrumentation drops away to leave only the voice appropriately sets up the arrival of the final chorus.

“Sanctum Requiem” closes the album in a way that is entirely consistent with its concept. Instrumental and dominated by piano, the composition leaves behind the speed and creates a dark, contemplative atmosphere. More than simply an ending, it functions as the final chapter of a story that began taking shape even before the first track.

Dark Asylum is not an album that seeks to reinvent Kamelot — and perhaps that is precisely its greatest strength. The band seems to understand that its identity is already powerful enough that it does not need to be constantly dismantled and rebuilt. What we have here is a more mature and complex work that is also surprisingly accessible, in which melodic power metal, orchestration and theatricality are used with precision.

The 15-track running time may initially suggest an overly long experience, but the variety of atmospheres and sheer amount of detail prevent the album from becoming tiring. Some compositions are short and work as transitional elements within the concept, while others take on more epic proportions. The sequencing is carefully constructed and rewards repeated listens.

Sascha Paeth’s production also deserves special mention, bringing back a slightly more organic sound without sacrificing the clarity associated with modern productions, while Jacob Hansen’s mixing and mastering ensure that every layer finds its place. Guitars, keyboards, orchestration, choirs and drums form a monumental whole without ever becoming excessively congested.

Above all, however, Dark Asylum belongs to Tommy Karevik. His performance runs through the entire album, moving from delicacy to drama, from melodic passages to moments of greater intensity, always with control and personality. If Kamelot’s intention was to create a conceptual experience capable of bringing together narrative, atmosphere and great songs, they found the ideal interpreter in their vocalist.

In the end, Dark Asylum is less a reinvention than a reaffirmation. Kamelot knows the language it helped establish intimately, and here the band demonstrates that it can still use it with intelligence, attention to detail and, above all, strong songwriting. It should fully satisfy longtime fans, while also providing an excellent entry point for anyone looking for melodic power metal with symphonic ambition and theatrical flair. After all these years, Kamelot does not need to forge a new path. It only needs to show, with the confidence of a band that knows the territory inside out, why it remains one of the most relevant names within it.

Natalie Enemede


terça-feira, 25 de agosto de 2026

Coreleoni: Hard Rock Visceral e Moderno

Reigning Phoenix Music (Imp.)

Por Anderson Bellini - @andersonbellinii

Quando Leo Leoni, guitarrista e membro fundador do Gotthard, criou o CoreLeoni em 2017, a proposta inicial estava diretamente ligada ao resgate de uma parte importante da história do hard rock suíço: revisitar os clássicos dos primeiros anos do Gotthard e manter viva a sonoridade que ajudou a transformar a banda em uma das referências do gênero. Com o passar dos anos, porém, o projeto ganhou identidade própria e passou a funcionar como uma banda de fato.

É justamente essa identidade que chega ao seu quarto capítulo de estúdio com “Generection”, álbum que será lançado em 11 de setembro de 2026 pela Reigning Phoenix Music e que representa, talvez, o trabalho mais ambicioso e pesado do CoreLeoni até aqui.

Ao lado de Leoni estão Eugent “Gent” Bushpepa nos vocais, Jgor Gianola nas guitarras, Mila Merker no baixo e Alex Motta na bateria. É o segundo álbum do grupo com Bushpepa, vocalista que novamente demonstra enorme força e versatilidade, mas que desta vez também parece mais à vontade para imprimir sua própria personalidade às composições.

“Generection” nasce predominantemente de material inédito e tem uma diferença importante em relação aos trabalhos anteriores: todos os integrantes participaram de maneira mais efetiva do processo de composição. O resultado, entretanto, não descaracteriza a assinatura de Leo Leoni. Pelo contrário. O guitarrista consegue incorporar novas ideias sem abrir mão dos elementos que construíram sua identidade ao longo de décadas.

E é impossível falar deste disco sem mencionar sua sonoridade.

A produção aposta em uma abordagem analógica, buscando reproduzir a sensação e a profundidade das gravações clássicas dos anos 1970 e 1980, mas sem abrir mão da potência de uma produção contemporânea. Guitarras encorpadas, bateria orgânica, baixo pulsante e vocais muito presentes fazem com que o álbum soe simultaneamente vintage e atual.

O título “Generection” funciona perfeitamente como conceito. O CoreLeoni procura estabelecer uma ponte entre diferentes gerações de fãs de rock: apresenta aos mais jovens uma sonoridade que nasceu décadas atrás e, ao mesmo tempo, oferece aos veteranos uma viagem nostálgica pelos tempos áureos do hard rock melódico.

“Generation Rock”, primeiro single, talvez seja a melhor representação dessa ideia. O riff poderoso, o refrão imediatamente assimilável e a sonoridade analógica deixam claro desde os primeiros segundos qual é a proposta do álbum.

Mas “Generection” não vive apenas de nostalgia. Há momentos em que o CoreLeoni olha para frente e flerta abertamente com sonoridades mais modernas e pesadas. “Howling At The Moon”, por exemplo, é uma das maiores demonstrações dessa nova faceta.

A história da música, aliás, é particularmente interessante para os fãs de Gotthard. A composição nasceu de uma ideia desenvolvida por Jgor Gianola e Steve Lee durante sessões de composição do Gotthard no início dos anos 1990. Décadas depois, o material foi redescoberto e reconstruído para o CoreLeoni.

Essa conexão com o passado aparece em diversos momentos do disco, mas nunca de maneira puramente arqueológica. Leo Leoni conhece profundamente a fórmula que ajudou a construir o Gotthard clássico — riffs marcantes, melodias fortes, refrões grudentos e equilíbrio entre peso e acessibilidade — e utiliza esse conhecimento para construir um álbum que poderia facilmente ter sido lançado em outra época, mas que não soa deslocado em 2026.

E talvez seja justamente essa a grande força de “Generection”.


FAIXA A FAIXA

01. LAST GOODBYE

O disco começa com “Last Goodbye”, e a primeira impressão é imediata: estamos diante de um riff potente, encorpado e cheio de energia. A guitarra de Leo Leoni traz aquela característica que os fãs dos primeiros discos do Gotthard reconhecerão imediatamente.

Eugent Bushpepa também chama atenção logo de cara. Em alguns momentos, sua interpretação remete inevitavelmente ao saudoso Steve Lee, não por uma tentativa de imitá-lo, mas pela maneira como consegue transitar entre força, melodia e emoção.

O destaque fica ainda para o duelo de guitarras entre Leo Leoni e Jgor Gianola, que funciona como uma espécie de cartão de visitas para o que virá pela frente.

02. GENERATION ROCK

Faixa que dá nome ao álbum e uma das mais importantes do disco.

“Generation Rock” reúne praticamente todos os ingredientes que fizeram o Gotthard da era Steve Lee conquistar tantos fãs: acordes marcantes, melodias fortes, guitarras poderosas e, principalmente, um refrão daqueles que grudam na cabeça depois da primeira audição.

Há momentos que lembram bastante “Dream On”, do álbum Lipservice, de 2006. A diferença está justamente na produção: aqui, a sonoridade analógica se torna muito evidente e ajuda a transportar o ouvinte para outra época.

É nesta faixa que entendemos perfeitamente a proposta de “Generection”. O passado e o presente estão dividindo o mesmo espaço.


03. HOWLING AT THE MOON

Começa com uma atmosfera mais sombria até que um riff pesado entra em cena, trazendo uma pegada quase industrial, com alguns elementos que podem lembrar o peso do Rammstein.

Teclados aparecem de maneira bastante presente e ajudam a construir o clima da música, enquanto as guitarras de Leoni e Gianola novamente protagonizam bons momentos.


04. SEX ON THE BEACH

O título já entrega boa parte da proposta.

“Sex On The Beach” é aquela música que pede estrada, motocicleta, sol e uma viagem rumo ao litoral. O clima é descontraído e divertido, mas sem abandonar o peso característico do CoreLeoni.

O riff traz uma pegada que remete aos anos 1960, com uma influência blues bastante perceptível. É uma das faixas mais leves e divertidas do disco, funcionando como uma espécie de respiro entre momentos mais pesados.

Rock’n’roll sem muita preocupação — exatamente como deve ser.

05. BELIEVE

Uma das melhores músicas do álbum.

“Believe” começa de maneira delicada, com Eugent Bushpepa acompanhado por uma bonita melodia de piano. Aos poucos, a música cresce até desembocar em um refrão grandioso, daqueles que imediatamente remetem às grandes baladas do hard rock dos anos 1980.

Whitesnake é uma referência inevitável aqui.

É também uma das faixas em que Bushpepa mais demonstra sua identidade como cantor. O vocal é potente, mas também extremamente versátil e emocional.

“Believe” mostra que o CoreLeoni não precisa depender exclusivamente da nostalgia para funcionar. Quando Leo Leoni e sua banda apostam em uma grande composição, o resultado fala por si só.

06. VISION CORELIONE

Uma das grandes surpresas do álbum.

“Vision” em uma nova roupagem para uma das grandes músicas do Gotthard, originalmente lançada no álbum “Open”, de 1999.

Leo Leoni não tenta simplesmente copiar a gravação original. A música recebe uma roupagem mais moderna e passa a soar como uma composição genuinamente pertencente ao universo do CoreLeoni.

As melodias originais são respeitadas, especialmente no refrão, mas os novos arranjos dão outra personalidade à faixa.

Para os fãs de Gotthard, é um presente. Para quem conhece a versão original, uma releitura que merece atenção.

Parabéns, Leo.

07. ROCK’N’ROLL REBEL

A música começa com um efeito de voz reverso que imediatamente remete a “Higher”, faixa de abertura de “Dial Hard”, do Gotthard.

A partir daí, porém, o CoreLeoni parte para um território mais pesado, com uma influência que passa pelo grunge dos anos 1990.

A bateria é empolgante e a guitarra mantém aquela pegada poderosa que caracteriza o disco. O solo, apesar do peso da composição, segue uma linha bastante melódica.

É provavelmente a faixa que mais soa como um verdadeiro soco no estômago. Pesada, agressiva e direta.


08. DON’T TELL ME

Hard rock em sua forma mais clássica.

“Don’t Tell Me” remete diretamente ao Gotthard da época de Steve Lee, especialmente pela construção do refrão. É aquele tipo de música que não precisa de grandes invenções para funcionar.

O refrão é grudento, os backing vocals tornam tudo ainda mais empolgante e a guitarra mantém o equilíbrio perfeito entre peso e melodia.

É praticamente impossível ouvir a música sem sentir vontade de acompanhar o ritmo.


09. I’M AFRAID I’M IN LOVE

Outra faixa que poderia facilmente ter aparecido em um álbum clássico do Gotthard, nesse caso, no “Need To Beleve”.

“I’m Afraid I’m In Love” possui todos aqueles elementos que Leo Leoni sabe utilizar tão bem: riff marcante, melodia acessível, refrão forte e uma construção que cresce naturalmente até o momento de maior impacto.

É uma música que poderia tranquilamente ter sido escolhida como single e ganhar um videoclipe.

Eugent novamente entrega uma interpretação muito segura, reforçando que sua presença no CoreLeoni não é apenas uma substituição de vocalista, mas uma nova fase para o projeto.


10. YEARNING

“Yearning” começa com violão e voz e imediatamente apresenta uma atmosfera diferente do restante do disco.

Talvez seja a música que menos me remeta ao Gotthard, e justamente por isso merece destaque.

É uma balada hard rock com forte apelo pop, arranjos muito bem construídos e uma carga emocional bastante significativa. Leo Leoni mostra aqui que continua dominando uma das artes mais difíceis do rock: escrever músicas simples, acessíveis e, ao mesmo tempo, emocionalmente eficientes.

É o tipo de faixa que poderia facilmente ter encontrado espaço nas rádios durante os anos 1990 — e, em outra época, não seria difícil imaginá-la entre as músicas mais executadas da MTV.


11. LADY MARMALADE

Uma escolha bastante curiosa para encerrar a experiência do álbum.

Conhecida mundialmente através de diversas versões, “Lady Marmalade” ganhou enorme repercussão na voz de Christina Aguilera e também ficou eternizada na trilha sonora de Moulin Rouge!, de 2001.

O CoreLeoni transforma completamente a música.

Riffs pesadíssimos, guitarras agressivas e uma abordagem genuinamente hard rock fazem com que a composição ganhe uma nova personalidade.

Confesso que nunca fui um grande admirador da versão original. Depois de ouvir esta interpretação, entretanto, passei a enxergar a música de outra maneira.

É uma daquelas versões que conseguem fazer o ouvinte redescobrir uma composição conhecida.


VEREDITO

“Generection” é um excelente disco. Nota 8/10.

Na minha opinião, é facilmente um dos trabalhos mais interessantes relacionados ao universo do Gotthard lançado nos últimos anos.

É importante deixar claro: gosto muito dos discos que o Gotthard gravou com Nic Maeder nos vocais. Entretanto, a banda naturalmente se transformou depois da morte de Steve Lee, em 2010. A proposta passou a ser outra, e isso faz parte da história do grupo.

O CoreLeoni segue por um caminho diferente.

Leo Leoni não tenta esconder suas raízes. Muito pelo contrário: ele as coloca no centro da produção. Os riffs, os refrões, as melodias e a própria construção das músicas remetem constantemente ao Gotthard de sua fase clássica.

Mas “Generection” não é simplesmente uma tentativa de reproduzir o passado.

A participação mais efetiva de toda a banda no processo criativo, a presença de Gent Bushpepa e principalmente a produção analógica dão ao álbum uma identidade própria. O resultado é um disco que consegue olhar para trás sem parecer preso ao passado.

Para os fãs do Gotthard da era Steve Lee, é praticamente um prato cheio.

Para quem gosta de hard rock melódico, guitarras poderosas e refrões que ficam na cabeça, também.

Ouça sem moderação.