terça-feira, 25 de agosto de 2026

Coreleoni: Hard Rock Visceral e Moderno

Reigning Phoenix Music (Imp.)

Por Anderson Bellini - @andersonbellinii

Quando Leo Leoni, guitarrista e membro fundador do Gotthard, criou o CoreLeoni em 2017, a proposta inicial estava diretamente ligada ao resgate de uma parte importante da história do hard rock suíço: revisitar os clássicos dos primeiros anos do Gotthard e manter viva a sonoridade que ajudou a transformar a banda em uma das referências do gênero. Com o passar dos anos, porém, o projeto ganhou identidade própria e passou a funcionar como uma banda de fato.

É justamente essa identidade que chega ao seu quarto capítulo de estúdio com “Generection”, álbum que será lançado em 11 de setembro de 2026 pela Reigning Phoenix Music e que representa, talvez, o trabalho mais ambicioso e pesado do CoreLeoni até aqui.

Ao lado de Leoni estão Eugent “Gent” Bushpepa nos vocais, Jgor Gianola nas guitarras, Mila Merker no baixo e Alex Motta na bateria. É o segundo álbum do grupo com Bushpepa, vocalista que novamente demonstra enorme força e versatilidade, mas que desta vez também parece mais à vontade para imprimir sua própria personalidade às composições.

“Generection” nasce predominantemente de material inédito e tem uma diferença importante em relação aos trabalhos anteriores: todos os integrantes participaram de maneira mais efetiva do processo de composição. O resultado, entretanto, não descaracteriza a assinatura de Leo Leoni. Pelo contrário. O guitarrista consegue incorporar novas ideias sem abrir mão dos elementos que construíram sua identidade ao longo de décadas.

E é impossível falar deste disco sem mencionar sua sonoridade.

A produção aposta em uma abordagem analógica, buscando reproduzir a sensação e a profundidade das gravações clássicas dos anos 1970 e 1980, mas sem abrir mão da potência de uma produção contemporânea. Guitarras encorpadas, bateria orgânica, baixo pulsante e vocais muito presentes fazem com que o álbum soe simultaneamente vintage e atual.

O título “Generection” funciona perfeitamente como conceito. O CoreLeoni procura estabelecer uma ponte entre diferentes gerações de fãs de rock: apresenta aos mais jovens uma sonoridade que nasceu décadas atrás e, ao mesmo tempo, oferece aos veteranos uma viagem nostálgica pelos tempos áureos do hard rock melódico.

“Generation Rock”, primeiro single, talvez seja a melhor representação dessa ideia. O riff poderoso, o refrão imediatamente assimilável e a sonoridade analógica deixam claro desde os primeiros segundos qual é a proposta do álbum.

Mas “Generection” não vive apenas de nostalgia. Há momentos em que o CoreLeoni olha para frente e flerta abertamente com sonoridades mais modernas e pesadas. “Howling At The Moon”, por exemplo, é uma das maiores demonstrações dessa nova faceta.

A história da música, aliás, é particularmente interessante para os fãs de Gotthard. A composição nasceu de uma ideia desenvolvida por Jgor Gianola e Steve Lee durante sessões de composição do Gotthard no início dos anos 1990. Décadas depois, o material foi redescoberto e reconstruído para o CoreLeoni.

Essa conexão com o passado aparece em diversos momentos do disco, mas nunca de maneira puramente arqueológica. Leo Leoni conhece profundamente a fórmula que ajudou a construir o Gotthard clássico — riffs marcantes, melodias fortes, refrões grudentos e equilíbrio entre peso e acessibilidade — e utiliza esse conhecimento para construir um álbum que poderia facilmente ter sido lançado em outra época, mas que não soa deslocado em 2026.

E talvez seja justamente essa a grande força de “Generection”.


FAIXA A FAIXA

01. LAST GOODBYE

O disco começa com “Last Goodbye”, e a primeira impressão é imediata: estamos diante de um riff potente, encorpado e cheio de energia. A guitarra de Leo Leoni traz aquela característica que os fãs dos primeiros discos do Gotthard reconhecerão imediatamente.

Eugent Bushpepa também chama atenção logo de cara. Em alguns momentos, sua interpretação remete inevitavelmente ao saudoso Steve Lee, não por uma tentativa de imitá-lo, mas pela maneira como consegue transitar entre força, melodia e emoção.

O destaque fica ainda para o duelo de guitarras entre Leo Leoni e Jgor Gianola, que funciona como uma espécie de cartão de visitas para o que virá pela frente.

02. GENERATION ROCK

Faixa que dá nome ao álbum e uma das mais importantes do disco.

“Generation Rock” reúne praticamente todos os ingredientes que fizeram o Gotthard da era Steve Lee conquistar tantos fãs: acordes marcantes, melodias fortes, guitarras poderosas e, principalmente, um refrão daqueles que grudam na cabeça depois da primeira audição.

Há momentos que lembram bastante “Dream On”, do álbum Lipservice, de 2006. A diferença está justamente na produção: aqui, a sonoridade analógica se torna muito evidente e ajuda a transportar o ouvinte para outra época.

É nesta faixa que entendemos perfeitamente a proposta de “Generection”. O passado e o presente estão dividindo o mesmo espaço.


03. HOWLING AT THE MOON

Começa com uma atmosfera mais sombria até que um riff pesado entra em cena, trazendo uma pegada quase industrial, com alguns elementos que podem lembrar o peso do Rammstein.

Teclados aparecem de maneira bastante presente e ajudam a construir o clima da música, enquanto as guitarras de Leoni e Gianola novamente protagonizam bons momentos.


04. SEX ON THE BEACH

O título já entrega boa parte da proposta.

“Sex On The Beach” é aquela música que pede estrada, motocicleta, sol e uma viagem rumo ao litoral. O clima é descontraído e divertido, mas sem abandonar o peso característico do CoreLeoni.

O riff traz uma pegada que remete aos anos 1960, com uma influência blues bastante perceptível. É uma das faixas mais leves e divertidas do disco, funcionando como uma espécie de respiro entre momentos mais pesados.

Rock’n’roll sem muita preocupação — exatamente como deve ser.

05. BELIEVE

Uma das melhores músicas do álbum.

“Believe” começa de maneira delicada, com Eugent Bushpepa acompanhado por uma bonita melodia de piano. Aos poucos, a música cresce até desembocar em um refrão grandioso, daqueles que imediatamente remetem às grandes baladas do hard rock dos anos 1980.

Whitesnake é uma referência inevitável aqui.

É também uma das faixas em que Bushpepa mais demonstra sua identidade como cantor. O vocal é potente, mas também extremamente versátil e emocional.

“Believe” mostra que o CoreLeoni não precisa depender exclusivamente da nostalgia para funcionar. Quando Leo Leoni e sua banda apostam em uma grande composição, o resultado fala por si só.

06. VISION CORELIONE

Uma das grandes surpresas do álbum.

“Vision” em uma nova roupagem para uma das grandes músicas do Gotthard, originalmente lançada no álbum “Open”, de 1999.

Leo Leoni não tenta simplesmente copiar a gravação original. A música recebe uma roupagem mais moderna e passa a soar como uma composição genuinamente pertencente ao universo do CoreLeoni.

As melodias originais são respeitadas, especialmente no refrão, mas os novos arranjos dão outra personalidade à faixa.

Para os fãs de Gotthard, é um presente. Para quem conhece a versão original, uma releitura que merece atenção.

Parabéns, Leo.

07. ROCK’N’ROLL REBEL

A música começa com um efeito de voz reverso que imediatamente remete a “Higher”, faixa de abertura de “Dial Hard”, do Gotthard.

A partir daí, porém, o CoreLeoni parte para um território mais pesado, com uma influência que passa pelo grunge dos anos 1990.

A bateria é empolgante e a guitarra mantém aquela pegada poderosa que caracteriza o disco. O solo, apesar do peso da composição, segue uma linha bastante melódica.

É provavelmente a faixa que mais soa como um verdadeiro soco no estômago. Pesada, agressiva e direta.


08. DON’T TELL ME

Hard rock em sua forma mais clássica.

“Don’t Tell Me” remete diretamente ao Gotthard da época de Steve Lee, especialmente pela construção do refrão. É aquele tipo de música que não precisa de grandes invenções para funcionar.

O refrão é grudento, os backing vocals tornam tudo ainda mais empolgante e a guitarra mantém o equilíbrio perfeito entre peso e melodia.

É praticamente impossível ouvir a música sem sentir vontade de acompanhar o ritmo.


09. I’M AFRAID I’M IN LOVE

Outra faixa que poderia facilmente ter aparecido em um álbum clássico do Gotthard, nesse caso, no “Need To Beleve”.

“I’m Afraid I’m In Love” possui todos aqueles elementos que Leo Leoni sabe utilizar tão bem: riff marcante, melodia acessível, refrão forte e uma construção que cresce naturalmente até o momento de maior impacto.

É uma música que poderia tranquilamente ter sido escolhida como single e ganhar um videoclipe.

Eugent novamente entrega uma interpretação muito segura, reforçando que sua presença no CoreLeoni não é apenas uma substituição de vocalista, mas uma nova fase para o projeto.


10. YEARNING

“Yearning” começa com violão e voz e imediatamente apresenta uma atmosfera diferente do restante do disco.

Talvez seja a música que menos me remeta ao Gotthard, e justamente por isso merece destaque.

É uma balada hard rock com forte apelo pop, arranjos muito bem construídos e uma carga emocional bastante significativa. Leo Leoni mostra aqui que continua dominando uma das artes mais difíceis do rock: escrever músicas simples, acessíveis e, ao mesmo tempo, emocionalmente eficientes.

É o tipo de faixa que poderia facilmente ter encontrado espaço nas rádios durante os anos 1990 — e, em outra época, não seria difícil imaginá-la entre as músicas mais executadas da MTV.


11. LADY MARMALADE

Uma escolha bastante curiosa para encerrar a experiência do álbum.

Conhecida mundialmente através de diversas versões, “Lady Marmalade” ganhou enorme repercussão na voz de Christina Aguilera e também ficou eternizada na trilha sonora de Moulin Rouge!, de 2001.

O CoreLeoni transforma completamente a música.

Riffs pesadíssimos, guitarras agressivas e uma abordagem genuinamente hard rock fazem com que a composição ganhe uma nova personalidade.

Confesso que nunca fui um grande admirador da versão original. Depois de ouvir esta interpretação, entretanto, passei a enxergar a música de outra maneira.

É uma daquelas versões que conseguem fazer o ouvinte redescobrir uma composição conhecida.


VEREDITO

“Generection” é um excelente disco. Nota 8/10.

Na minha opinião, é facilmente um dos trabalhos mais interessantes relacionados ao universo do Gotthard lançado nos últimos anos.

É importante deixar claro: gosto muito dos discos que o Gotthard gravou com Nic Maeder nos vocais. Entretanto, a banda naturalmente se transformou depois da morte de Steve Lee, em 2010. A proposta passou a ser outra, e isso faz parte da história do grupo.

O CoreLeoni segue por um caminho diferente.

Leo Leoni não tenta esconder suas raízes. Muito pelo contrário: ele as coloca no centro da produção. Os riffs, os refrões, as melodias e a própria construção das músicas remetem constantemente ao Gotthard de sua fase clássica.

Mas “Generection” não é simplesmente uma tentativa de reproduzir o passado.

A participação mais efetiva de toda a banda no processo criativo, a presença de Gent Bushpepa e principalmente a produção analógica dão ao álbum uma identidade própria. O resultado é um disco que consegue olhar para trás sem parecer preso ao passado.

Para os fãs do Gotthard da era Steve Lee, é praticamente um prato cheio.

Para quem gosta de hard rock melódico, guitarras poderosas e refrões que ficam na cabeça, também.

Ouça sem moderação.

Hibria: Quando o Tempo Deixa de Ser Medida e Passa a ser Matéria-Prima

Marquee Avalon (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Há algo particularmente interessante em uma banda que chega aos 30 anos de trajetória e decide fazer um álbum sobre a brevidade da existência. Em vez de tratar o tempo como uma abstração, o HIBRIA transforma a passagem dos anos em matéria-prima para discutir consciência, escolhas, limites e a maneira como cada indivíduo decide ocupar o próprio espaço no mundo.

Lançado em 8 de agosto de 2026, On the Shortness of Life é o oitavo álbum de estúdio do grupo gaúcho e chega em um momento importante de sua história. A formação atual reúne Angelo Parisotto nos vocais, Abel Camargo e Velles nas guitarras, Benhur Lima no baixo e William Schuck na bateria. O disco também representa uma nova etapa depois de mudanças importantes na formação e de um período de reconstrução da identidade do HIBRIA.

O título não é uma escolha meramente estética. Ele remete diretamente a De Brevitate Vitae, de Sêneca, texto em que o filósofo estoico questiona justamente a ideia de que a vida seria curta por natureza. Para Sêneca, o problema está menos na quantidade de tempo disponível e mais na maneira como ele é desperdiçado. O HIBRIA leva essa premissa para dentro do heavy metal e constrói um álbum que, apesar de tecnicamente bastante exigente, está menos interessado em demonstrar velocidade do que em explorar diferentes estados de tensão. E isso fica evidente logo nos primeiros minutos.

1. “Undying”

“Undying” é uma abertura extremamente consciente do que se espera do HIBRIA. O primeiro contato com a faixa traz de volta aquela combinação de precisão, velocidade e melodia que ajudou a colocar a banda entre os nomes mais reconhecidos do power metal brasileiro. As guitarras ocupam bastante espaço, mas não transformam a música em uma demonstração gratuita de técnica. Há riffs construídos para conduzir a composição, enquanto a bateria mantém a sensação de urgência.

O vocal também merece atenção logo aqui. Em vez de tentar reproduzir simplesmente o modelo de seus antecessores, ele encontra uma interpretação própria para a música. Existe potência, mas também uma preocupação evidente com a construção melódica das linhas.

“Undying” funciona como uma espécie de declaração de princípios. A letra trata da recusa em viver de maneira automática e da ideia de que aquilo que fazemos com o tempo é mais importante do que a quantidade de tempo que possuímos. É significativo que o álbum comece justamente com uma música chamada “Undying”: a proposta não parece ser negar a morte, mas confrontar a sensação de que estamos desperdiçando a vida enquanto ela acontece.

2. “Fire Away”

“Fire Away” é onde o álbum começa a mostrar que On the Shortness of Life não será uma sequência de músicas construídas sobre a fórmula mais tradicional do power metal. Depois da apresentação explosiva de “Undying”, a segunda faixa trabalha melhor as alternâncias de dinâmica. A guitarra continua sendo protagonista, mas existe uma preocupação maior com o peso do conjunto. É uma música que ganha força justamente quando a banda segura um pouco a necessidade de acelerar.

O resultado é interessante porque coloca o HIBRIA em uma posição menos previsível. O grupo continua tecnicamente preciso, mas a composição não depende exclusivamente de velocidade para transmitir intensidade. Também é uma faixa que ajuda a estabelecer uma das características mais interessantes do disco: a relação entre controle e impulso. A temática de Sêneca aparece de maneira indireta na própria construção musical.

3. “Pulse”

“Pulse” é provavelmente a faixa que melhor explicita o conflito central do álbum. O título já oferece a chave de leitura: o pulso é simultaneamente o sinal físico de que estamos vivos e uma metáfora para o ritmo que o mundo impõe sobre nós.

Musicalmente, isso aparece em uma composição mais inquieta. A sensação é de movimento constante, mas não necessariamente de liberdade. Há tensão na maneira como os instrumentos se organizam, e o vocal trabalha bem essa sensação de confronto.

A letra coloca o indivíduo diante de uma sociedade marcada pela pressa, pelo excesso de estímulos e pela repetição. O problema deixa de ser simplesmente “ter pouco tempo” e passa a ser viver em um ritmo que não foi necessariamente escolhido.

4. “Persist”

“Persist” leva a narrativa para um terreno mais resistente. Se “Pulse” apresenta o conflito, aqui aparece a necessidade de permanecer de pé diante dele. A própria palavra escolhida para o título já indica o caminho: persistir não significa necessariamente vencer, mas continuar apesar daquilo que está tentando interromper o movimento.

É uma das faixas em que o trabalho de baixo e bateria ganha importância especial. Eles formam uma base que dá sustentação às guitarras sem desaparecer atrás delas, algo fundamental em um disco com duas guitarras tão presentes.

Os guitarristas por sua vez, trabalham bem a diferença entre peso e ornamentação. Os solos e frases mais técnicas aparecem, mas não parecem inseridos apenas para cumprir uma obrigação de “metal técnico”.

5. “Melting Alive”

“Melting Alive” é um dos momentos em que o álbum assume uma atmosfera mais pesada e menos preocupada com a velocidade como principal ferramenta de impacto. O próprio título sugere desgaste, deterioração, a sensação de estar sendo consumido pelo tempo ou pelas circunstâncias. E a música parece explorar justamente essa ideia.

Há uma qualidade mais sufocante em sua construção. Em vez de transmitir a sensação de avançar em direção a algum objetivo, a faixa parece colocar o ouvinte dentro de um processo de desgaste. É uma mudança importante na dinâmica do álbum.

Depois de quatro faixas em que existe sempre uma sensação de movimento, “Melting Alive” permite que a tensão seja percebida de outra maneira. Não é preciso correr para transmitir urgência.

6. “Against the Wall”

“Against the Wall” é, para mim, uma das faixas fundamentais do disco. E não apenas porque foi escolhida como single. Aqui o HIBRIA abandona boa parte da urgência que marcou o início do álbum e trabalha com uma abordagem mais guiada pelo groove e pela atmosfera. A própria imprensa japonesa destacou esse contraste ao descrever a música como um número sombrio, com forte presença de groove e maior atenção às melodias vocais.

Essa escolha funciona muito bem. A imagem do indivíduo contra a parede é simples, mas poderosa: não há mais espaço para fugir, adiar ou encontrar distrações. O confronto acontece quando todas as rotas de escape desaparecem. Musicalmente, a banda traduz essa sensação sem precisar exagerar. O peso é mais concentrado. As guitarras parecem menos preocupadas em disparar para frente e mais interessadas em construir uma parede sonora.

7. “Animus”

“Animus” funciona como uma espécie de preparação para o encerramento. O título, derivado do latim e associado à ideia de mente, espírito ou disposição interior, combina com o estágio da narrativa em que o álbum chegou. Depois do despertar, do conflito e do confronto com os próprios limites, resta olhar para dentro.

A faixa tem um caráter mais introspectivo sem abandonar o peso, e é justamente essa combinação que chama atenção.

8. “On the Shortness of Life”

A faixa-título não é simplesmente uma música longa colocada no final para encerrar o disco, ela funciona como a síntese de tudo que veio antes. Dividida nos movimentos “Adiaphora”, “Prohairesis”, “Apatheia”, “Ataraxia” e “Eudaimonia”, a composição assume definitivamente o caráter conceitual anunciado desde o título do álbum.

“Adiaphora” introduz a ideia de aquilo que é indiferente do ponto de vista moral; “Prohairesis” remete à capacidade de escolha deliberada; “Apatheia” representa a liberdade diante das paixões desordenadas; “Ataraxia” aponta para a tranquilidade; e “Eudaimonia”, no pensamento filosófico grego, está relacionada a uma vida realizada ou florescimento humano.

Não é necessário conhecer cada conceito antes de ouvir a música para perceber a progressão. A suíte começa com uma sensação de movimento e tensão e gradualmente passa a trabalhar uma atmosfera mais contemplativa. A técnica continua presente, mas agora existe uma função narrativa mais evidente para ela.


Divulgação

Confira a tracklist completa de On the Shortness of Life:

1. Undying

2. Fire Away

3. Pulse

4. Persist

5. Melting Alive

6. Against the Wall

7. Animus

8. On the Shortness of Life
        I. Adiaphora
II. Prohairesis
III. Apatheia
IV. Ataraxia
V. Eudaimonia

Faixa bônus da edição japonesa:

9. Steel Lord On Wheels (Live Session)

Sinner: Uma Despedida Sem Baixar o Volume

Reigning Phoenix Music (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Há discos que chegam ao fim de uma trajetória tentando transformá-la em monumento. Boom Bang Goodbye escolhe uma alternativa muito mais coerente com a história do Sinner: simplesmente continuar tocando. Anunciado por Mat Sinner como o capítulo final da banda que ele fundou em 1982, o álbum chegou ao público em 31 de julho de 2026 pela Reigning Phoenix Music. São onze faixas e pouco mais de 42 minutos que encerram uma discografia construída ao longo de mais de quatro décadas. O próprio Sinner anunciou que dedicará os próximos anos de sua carreira ao Primal Fear, tornando este lançamento especialmente significativo dentro de sua história.

Mas Boom Bang Goodbye não é um disco de despedida no sentido tradicional. Não há aqui uma banda tentando soar maior do que jamais soou, nem uma sucessão de músicas excessivamente melancólicas para convencer o ouvinte da importância daquele momento. O que Mat Sinner fez foi reunir uma quantidade impressionante de músicos convidados e colocá-los dentro de um repertório que permanece fiel àquilo que construiu: hard rock clássico, heavy metal melódico, vocais marcantes, refrões de arena e uma produção moderna que não sacrifica a identidade setentista e oitentista da composição.

O elenco é quase tão chamativo quanto o próprio disco. Renan Zonta, Michael Bormann, Ronnie Romero, Björn “Speed” Strid, Erik Mårtensson, Michael Sadler, Sascha Krebs e Magnus Karlsson dividem os vocais, enquanto Mat Sinner permanece no baixo e na produção. Alex Scholpp e Jim Müller assumem as guitarras, Moritz Müller fica na bateria e Lisa Müller nos teclados.


1. “Dreams Can Come True”

A primeira coisa que chama atenção em “Dreams Can Come True” é a escolha de Renan Zonta para abrir o álbum. O vocalista do Electric Mob tem uma voz naturalmente associada ao hard rock contemporâneo, mas aqui ele é colocado dentro de uma composição que carrega muito mais da tradição melódica europeia. O resultado é um início que soa grandioso sem precisar recorrer a uma introdução exagerada.

As guitarras entram com bastante clareza e a bateria estabelece rapidamente o andamento, enquanto o refrão trabalha aquela fórmula que Mat Sinner conhece há décadas: versos relativamente contidos preparando uma explosão melódica. É uma abertura bastante simbólica.

2. “Wait”

“Wait” foi uma escolha particularmente acertada como single. Michael Bormann assume os vocais e traz para a música uma interpretação mais rouca e carregada de soul, que combina muito bem com o caráter radiofônico da composição. O refrão é daqueles que se entende imediatamente por que foi escolhido para apresentar o álbum.

Há um detalhe importante na construção: apesar de a música ser bastante acessível, as guitarras não são tratadas como simples acompanhamento. Elas dão peso suficiente para impedir que “Wait” escorregue para o AOR excessivamente polido. É hard rock, mas com acabamento contemporâneo.

3. “Leave It All Behind”

É aqui que Boom Bang Goodbye começa a assumir seu lado mais emocional. Ronnie Romero aparece pela primeira vez e a diferença de interpretação é imediata. Sua voz tem uma força naturalmente dramática, mas a música não tenta transformá-lo em um segundo Ronnie James Dio. Em vez disso, utiliza o alcance e a textura do cantor para construir uma faixa de hard rock melódico bastante clássica.

“Leave It All Behind” tem um andamento mais moderado e uma atmosfera que remete ao lado mais sentimental do hard rock dos anos 1980. A guitarra trabalha mais pela sustentação da melodia do que pela agressividade, e isso é importante porque cria um contraste com o que virá depois.

4. “All Night Long”

E então o disco volta a sorrir. “All Night Long” é uma das faixas que mais carregam aquela sensação de rock de estrada, de noite longa, amplificador ligado e banda tocando até o último cliente deixar o bar.

Ronnie Romero retorna, mas a interpretação aqui é diferente da faixa anterior. A voz está mais solta, enquanto o instrumental aposta em uma pegada mais direta e divertida. É também uma das músicas em que o Sinner mais claramente abraça suas raízes de hard rock tradicional.

5. “Are You Ready”

Björn “Speed” Strid talvez seja um dos convidados que mais poderiam causar estranhamento no papel. O vocalista do Soilwork e do The Night Flight Orchestra está associado a universos bastante diferentes, mas “Are You Ready” mostra que a distância é menor do que parece.

A faixa é uma das mais acessíveis do disco, com um refrão claramente pensado para rádio e uma estrutura que se aproxima bastante do rock melódico. Speed, por sua vez, não força sua assinatura mais agressiva; ele trabalha dentro da música. É uma escolha inteligente.

6. “Born to Run”

“Born to Run” recupera a sensação de estrada, mas com uma abordagem mais melódica. Erik Mårtensson, do Eclipse, assume os vocais e praticamente parece ter sido feito para essa música. Sua interpretação é limpa, precisa e extremamente melódica, sem perder a força necessária para sustentar o refrão.

É uma das faixas mais naturalmente “Sinner” do disco. A guitarra também merece atenção. O solo de Mathias “Don” Dieth é uma das conexões mais interessantes entre o presente e o passado da banda, já que o guitarrista participou da formação clássica do Sinner nos anos 1980.

7. “Hellbreaker”

Aqui o álbum finalmente pisa mais fundo no acelerador. “Hellbreaker” é uma das faixas mais pesadas do disco e Ronnie Romero retorna para uma interpretação muito mais agressiva do que aquela apresentada em “Leave It All Behind”.

O riff é mais seco, a bateria trabalha com mais impacto e as guitarras assumem uma postura que aproxima o Sinner de seu lado heavy metal. É também uma das músicas em que a ligação de Mat Sinner com o Primal Fear parece mais perceptível.

8. “Turn the Page”

“Turn the Page” é uma das grandes surpresas de Boom Bang Goodbye. Michael Sadler, vocalista do Saga, traz uma personalidade completamente diferente para o disco. Sua voz tem uma dimensão mais progressiva e teatral, e a música aproveita isso sem deixar de pertencer ao universo do Sinner.

A faixa começa mais contida e vai ganhando corpo gradualmente. Os teclados de Lisa Müller têm aqui um papel mais evidente, ajudando a criar uma atmosfera quase cinematográfica. As guitarras não precisam disputar espaço com eles; trabalham em camadas. E o refrão é provavelmente um dos mais sofisticados do álbum.

9. “Road to Remember”

Michael Bormann retorna em “Road to Remember”, e a música parece existir em um ponto intermediário entre nostalgia e celebração. As guitarras são mais abertas, o andamento permite que a melodia respire e o refrão tem aquela qualidade de canção que parece construída para ser lembrada anos depois.

10. “Under the Moonlight”

Sascha Krebs assume os vocais de “Under the Moonlight”, mantendo uma conexão interessante com a fase mais recente do Sinner. A música recupera peso depois da atmosfera mais contemplativa de “Road to Remember”. Os riffs são mais encorpados e a bateria de Moritz Müller ganha novamente bastante presença.

11. “Power”

“Power” precisava ser grande. Não necessariamente a música mais pesada, mais rápida ou mais técnica do álbum, mas grande o suficiente para encerrar uma história iniciada em 1982.

Magnus Karlsson assume os vocais e também participa da composição, além de entregar guitarras. O resultado é uma faixa que combina peso, melodia e uma dimensão quase épica. Os teclados ajudam a ampliar o arranjo, enquanto as guitarras trabalham em camadas até chegar a um refrão que parece deliberadamente construído para ser o último grande momento do Sinner.


Divulgação


Confira a tracklist completa de Boom Bang Goodbye:

1. Dreams Can Come True 

2. Wait 

3. Leave It All Behind 

4. All Night Long 

5. Are You Ready 

6. Born to Run 

7. Hellbreaker 

8. Turn the Page
 
9. Road to Remember 

10. Under the Moonlight 

11. Power 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Heavens Edge: A Tempestade Continua (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Formado na Filadélfia no início dos anos 1980, o HEAVENS EDGE retorna com Philadelphia, seu novo álbum e uma celebração de quatro décadas de trajetória. Depois do elogiado Get It Right, a banda combina o DNA do hard rock americano clássico com uma abordagem mais contemporânea, explorando uma variedade musical maior sem abrir mão de grandes refrãos, melodias marcantes e atitude. Philadelphia soa como a afirmação de uma banda que reencontrou seu impulso criativo e ainda tem muito a dizer.

Após a introdução instrumental de The Tempest, que evoca literalmente uma tempestade antes de desembocar em um belo solo de Reggie Wu, chegam os primeiros acordes de LFG. A influência de Van Halen é perceptível no trabalho de guitarra, enquanto a entrada abrupta, sem uma transição convencional a partir da introdução, pode surpreender o ouvinte. É, contudo, uma escolha que rapidamente se justifica: o que temos aqui é hard rock clássico em sua forma mais eficiente, sustentado por um refrão imediato e daqueles feitos para ganhar força diante de uma plateia. Wu desfila pela música com precisão, deixando espaço para uma cozinha afiada, antes de encerrar com outro solo de grande qualidade.

You're Mine Tonight mantém o álbum firmemente ancorado no hard rock, mas adota uma abordagem mais direta. Os numerosos coros e backing vocals ampliam a dimensão melódica, enquanto Mark Evans entrega uma interpretação segura e perfeitamente integrada à composição. O instrumental é preciso, especialmente nas mudanças de ritmo, e ganha novas camadas à medida que a música avança. É um primeiro sinal de que Philadelphia não pretende simplesmente reproduzir o passado: há uma preocupação evidente em acrescentar textura e dinamismo às estruturas tradicionais.

O primeiro single, What's He Got, talvez seja a expressão mais imediata dessa filosofia. Com andamento cadenciado e absolutamente familiar ao gênero, a música coloca a voz de Evans no centro da melodia, enquanto os backing vocals criam a tensão necessária para conduzir o ouvinte ao refrão. Cativante sem ser excessivamente calculada, é fácil entender por que foi escolhida como cartão de visitas do álbum. Até o solo mantém essa abordagem essencialmente melódica, reforçando a sensação de que o HEAVENS EDGE sabe exatamente onde quer chegar.

Com claras referências ao Bon Jovi da era New Jersey, Definite Maybe surge como outra forte candidata a favorita dos fãs. As variações de guitarra, a linha vocal melódica de Evans e os coros cuidadosamente posicionados desembocam em mais um refrão feito para ser cantado em conjunto. A cadência favorece os arranjos vocais e reforça aquela combinação de acessibilidade e peso que definiu boa parte do hard rock oitentista. É o tipo de composição que os fãs do HEAVENS EDGE esperam — e provavelmente não reclamarão de receber.

Uma delicada introdução de piano e voz abre Wrong Or Right, antes que a música mergulhe no território clássico das power ballads. Baixo, bateria e guitarras limpas estabelecem a base, enquanto a guitarra solo e o piano percorrem a composição lado a lado. Mais uma vez, porém, são os vocais e os backing vocals que assumem o protagonismo. O solo, com suas dobras bem construídas, acrescenta personalidade a uma fórmula conhecida. Não há aqui qualquer tentativa de reinventar a power ballad, mas todos os elementos essenciais estão presentes — e funcionam.

Why Can't This Be Love introduz uma das facetas mais interessantes do álbum. A batida é tradicional, mas os timbres de bateria e os efeitos aplicados à voz conferem uma aparência contemporânea à produção. As guitarras, em grande parte sem distorção, também contribuem para essa sensação. O mérito está justamente em conseguir atualizar elementos familiares sem descaracterizar a identidade da banda. O refrão melódico e os backing vocals reforçam a vocação pop do HEAVENS EDGE, enquanto novas texturas impedem que a música soe como mera repetição de uma fórmula antiga.

De volta a uma abordagem mais clássica, Young Hearts começa com baixo e bateria em primeiro plano e acelera o ritmo do álbum. Continua sendo inequivocamente hard rock, mas os efeitos discretos sobre a voz principal acrescentam um toque moderno à produção. A composição é direta, sem excessos, e o baixo ganha espaço particularmente interessante durante os versos, construindo uma base sólida para os demais instrumentos. É mais um exemplo de como o HEAVENS EDGE consegue preservar sua linguagem tradicional enquanto adiciona pequenas doses de novidade.

Seguindo por uma linha mais próxima do Aerosmith — uma das influências evidentes da banda — I'll Be Just Fine (Without You) aposta em um groove envolvente. No refrão, a música se transforma em uma composição extremamente melódica e fácil de memorizar, com os backing vocals desempenhando papel fundamental. Como acontece em boa parte de Philadelphia, a música não existe isoladamente: ela acrescenta uma nova cor ao álbum e ajuda a ampliar sua variedade sem romper a unidade do conjunto.

A acústica I Wish You Would aprofunda ainda mais essa diversidade. A bela interpretação vocal de Mark Evans é acompanhada por backing vocals e arranjos de cordas que criam uma atmosfera inédita dentro do disco. Instrumentos acústicos de corda e percussão substituem a habitual parede de guitarras, permitindo que a composição respire de maneira diferente. O resultado acrescenta não apenas variedade, mas também uma camada adicional de textura e complexidade ao álbum.

Fechando o disco, No Way Out reúne boa parte dos elementos apresentados ao longo de Philadelphia. É uma combinação equilibrada entre o clássico e o moderno: timbres e escolhas de composição mais contemporâneos convivem com uma identidade que permanece inconfundivelmente ligada ao hard rock tradicional. Vocais e guitarras continuam no centro das atenções, enquanto o baixo ganha novamente destaque na base e os backing vocals ajudam a construir outro refrão de fácil assimilação.

No fim, Philadelphia entrega exatamente o tipo de álbum que se espera de uma banda com a história do HEAVENS EDGE, mas evita ficar preso ao passado. O equilíbrio entre estruturas clássicas e escolhas mais contemporâneas é provavelmente sua maior virtude. Cada composição acrescenta alguma coisa ao conjunto, seja através de novas texturas, diferentes abordagens vocais ou pequenas mudanças de dinâmica, fazendo com que o álbum soe mais variado e elaborado do que uma simples celebração de suas raízes.

É um trabalho que deve agradar especialmente aos fãs da banda, mas que também mostra um HEAVENS EDGE confortável o suficiente com sua própria identidade para experimentar sem perder o rumo. E há uma pequena ironia na maneira como tudo termina: depois de toda essa viagem por diferentes facetas do hard rock, Philadelphia retorna aos sons de chuva que abriram The Tempest. Um detalhe simples, mas que fecha o álbum como um círculo — e confirma que, quatro décadas depois, o HEAVENS EDGE ainda sabe onde começa e termina sua tempestade.


***ENGLISH VERSION***

Formed in Philadelphia in the early 1980s, HEAVENS EDGE return with Philadelphia, their new album and a celebration of four decades together. Following the acclaimed Get It Right, the band combines the DNA of classic American hard rock with a more contemporary approach, exploring a broader musical palette without sacrificing big choruses, memorable melodies and attitude. Philadelphia sounds like the statement of a band that has rediscovered its creative momentum and still has plenty to say.

Following the instrumental introduction of The Tempest, which literally evokes a storm before giving way to a beautiful Reggie Wu guitar solo, the opening chords of LFG arrive. The Van Halen influence is noticeable in the guitar work, while the abrupt entrance, with no conventional transition from the intro, may catch some listeners off guard. It is, however, a choice that quickly makes sense: this is classic hard rock at its most effective, driven by an immediate chorus that seems tailor-made to gain even more power in a live setting. Wu tears through the track with precision, leaving plenty of room for a razor-sharp rhythm section before closing with another excellent solo.

You're Mine Tonight keeps the album firmly rooted in hard rock but takes a more direct approach. The numerous harmonies and backing vocals broaden its melodic dimension, while Mark Evans delivers a confident performance that fits the composition perfectly. The instrumental work is precise, particularly in the rhythmic shifts, and gains new layers as the song progresses. It is an early indication that Philadelphia is not simply interested in recreating the past: there is a clear effort to add texture and dynamism to traditional structures.

The first single, What's He Got, may be the most immediate expression of this philosophy. With a steady, unmistakably genre-friendly groove, the song places Evans' voice at the heart of the melody, while the backing vocals create the tension needed to lead the listener into the chorus. Catchy without sounding overly calculated, it is easy to understand why it was chosen as the album's calling card. Even the guitar solo follows this essentially melodic approach, reinforcing the feeling that HEAVENS EDGE know exactly where they want to go.

With clear references to Bon Jovi's New Jersey era, Definite Maybe emerges as another strong candidate for fan favorite. The guitar variations, Evans' melodic vocal line and carefully placed harmonies lead into yet another chorus designed to be sung along to. The song's pace works perfectly with the vocal arrangements, reinforcing that combination of accessibility and weight that defined much of '80s hard rock. It is precisely the kind of song HEAVENS EDGE fans expect — and will probably be more than happy to get.

A delicate piano-and-vocal introduction opens Wrong Or Right before the song moves into the classic territory of the power ballad. Bass, drums and clean guitars establish the foundation, while the lead guitar and piano weave their way through the arrangement. Once again, however, the vocals and backing harmonies take center stage. The solo, with its carefully constructed layered parts, adds personality to a familiar formula. There is no attempt here to reinvent the power ballad, but all the essential ingredients are present — and they work.

Why Can't This Be Love introduces one of the album's most interesting facets. The beat is traditional, but the drum tones and vocal effects give the production a contemporary edge. The largely clean guitars contribute to the same feeling. The real achievement lies in the band's ability to update familiar elements without compromising its identity. The melodic chorus and backing vocals reinforce HEAVENS EDGE's pop sensibility, while the added textures prevent the song from sounding like a mere repetition of an old formula.

Returning to a more classic approach, Young Hearts begins with bass and drums front and center, picking up the pace after the preceding tracks. It remains unmistakably hard rock, but subtle effects on the lead vocal add a modern touch to the production. The composition is direct and free of unnecessary embellishment, while the bass takes on a particularly interesting role during the verses, providing a solid foundation for the other instruments. It is another example of how HEAVENS EDGE can preserve their traditional language while introducing small doses of something new.

Taking a more Aerosmith-influenced direction — one of the band's obvious touchstones — I'll Be Just Fine (Without You) is built around an engaging groove. In the chorus, the song becomes highly melodic and instantly memorable, with the backing vocals playing a key role. As is the case with much of Philadelphia, the track does not exist in isolation: it adds another color to the album and broadens its stylistic range without disrupting the overall cohesion.

The acoustic I Wish You Would deepens that diversity even further. Mark Evans delivers a beautiful vocal performance surrounded by backing vocals and string arrangements that create an atmosphere unlike anything else on the record. Acoustic stringed instruments and percussion replace the band's usual wall of guitars, allowing the composition to breathe in a different way. The result adds not only variety, but another layer of texture and complexity to the album.

Closing the record, No Way Out brings together many of the elements explored throughout Philadelphia. It is a balanced combination of classic and modern: more contemporary tones and songwriting choices coexist with an identity that remains unmistakably rooted in traditional hard rock. Vocals and guitars remain at the center, while the bass once again takes a prominent role in the foundation and the backing vocals help build another highly accessible chorus.

Ultimately, Philadelphia delivers exactly the kind of album one would expect from a band with HEAVENS EDGE's history, while refusing to remain trapped in the past. The balance between classic structures and more contemporary choices is arguably its greatest strength. Each composition adds something to the whole, whether through new textures, different vocal approaches or subtle shifts in dynamics, making the album feel more varied and sophisticated than a simple celebration of the band's roots.

It is a record that should particularly appeal to longtime fans, but it also shows a HEAVENS EDGE comfortable enough with their own identity to experiment without losing their way. And there is a small touch of irony in the way it all ends: after this journey through the different facets of hard rock, Philadelphia returns to the sound of rain that opened The Tempest. A simple detail, but one that brings the album full circle — and confirms that, four decades on, HEAVENS EDGE still know exactly where their storm begins and ends.

Alex Cihanowic

Entrevista - Sanctuary: “Eu nunca tinha realmente conversado com o Warrel”

Por: Renato Sanson

 

Algumas bandas atravessam gerações, estilos e mudanças de formação sem perder a essência que as tornou especiais. O Sanctuary é um desses nomes. Com uma história marcada por grandes momentos do Heavy Metal, a banda agora inicia uma nova fase com a chegada de Joseph Michael, seu novo vocalista.

Para conhecer melhor essa nova voz e entender o que podemos esperar desse novo capítulo, conversamos com Joseph sobre sua trajetória, sua entrada no Sanctuary, as expectativas para o futuro, o desafio de assumir os vocais de uma banda com um legado tão importante e, claro, sobre música, influências e os próximos passos do grupo.

Em uma conversa franca e especial, Joseph abre o jogo sobre como foi receber o convite, como tem sido fazer parte dessa história e o que significa vestir a camisa de uma das grandes instituições do Metal.

Confira a entrevista e conheça o homem por trás da nova voz do Sanctuary!

Você assumiu os vocais do Sanctuary depois da era Warrel Dane. Sentiu alguma pressão? Ou encarou isso como uma forma de homenagear o legado dele?

Joseph: Sim. É louco como tudo aconteceu. Eu e o meu guitarrista da outra banda, o Witherfall, estávamos acordados, escrevendo para o nosso segundo disco, quando vimos duas pessoas da banda solo do Warrel, que estavam no Brasil, publicarem que ele havia falecido. Estávamos acordados até muito tarde, acho que eram umas cinco da manhã, e estávamos um pouco bêbados. Não conseguíamos acreditar. 

O Jake tinha tocado em uma banda chamada Iced Earth, e o Sanctuary iria abrir para o Iced Earth. Então, quando recebemos a notícia, ficamos todos meio decepcionados, porque íamos àquele show, íamos conhecer o pessoal, ficar no ônibus com eles e tudo mais. 

Eu nunca tinha realmente conversado com o Warrel. Só tinha me encontrado com ele uma vez e estava muito ansioso para conhecer aqueles caras, ficar com eles no ônibus e coisas assim. Quando o Warrel faleceu, pensamos que o Sanctuary tinha acabado. Eles tinham outra banda que iria entrar naquela turnê, mas o baterista dessa banda acabou se machucando. 

Então, o John Schaffer mandou uma mensagem para o Lenny, dizendo: 'cara, eu sei que você vai perder muito dinheiro se não fizer essa turnê, e nós realmente precisamos que vocês deem um jeito nisso. Talvez encontrem um vocalista'. Eles procuraram, procuraram e procuraram, mas não encontraram ninguém. Finalmente, ele perguntou ao Jake se eu faria isso. E, sim, foi uma grande honra, porque o Warrel era um dos meus cantores favoritos quando eu estava crescendo.

 A pressão, na verdade, não era tanto 'será que consigo alcançar essa extensão vocal?' ou 'será que consigo cantar essas músicas?'. O problema era que eu tinha que aprender todo aquele material em cerca de um mês e meio. Foi muito em cima da hora, muito perto de quando a turnê iria acontecer. Eu sabia que alguns fãs ficariam ali, um pouco céticos, mas acho que acabou sendo muito mais uma celebração do que qualquer outra coisa. Naquela primeira turnê, todas as noites eram como: 'OK, essa é pelo Warrel. Vamos fazer essa turnê, e todo mundo vai participar, celebrar e lembrar do Warrel'.

Fantástico, acabou sendo uma mudança repentina, mas você conseguiu manter o legado vivo. Falando sobre o novo single do Sanctuary, como tem sido a recepção?

Joseph: Tem sido ótima desde o começo. Foi por isso que decidimos continuar. Estávamos no meio do processo de composição de um disco quando a Covid chegou, e o Sanctuary não é uma daquelas bandas em que você pode simplesmente fazer tudo pela internet ou algo assim. Aqueles caras são da velha escola e precisam estar tocando na mesma sala. É assim que eles trabalham e desenvolvem as partes das músicas. 

Quando a Covid chegou, não havia voos, não havia dinheiro, porque não havia turnês. Então, isso realmente atrapalhou tudo. Agora que estamos começando a voltar para a estrada e fazer shows, temos dinheiro para terminar o disco. E acabamos de assinar com uma excelente gravadora, então isso não é mais um problema. Vamos voltar ao estúdio daqui a alguns meses para terminar o álbum.

 

Uma curiosidade: você é parente do Ronnie James Dio?

Joseph: Sou, sim. Sim, ele é meu primo.

Incrível! (risos)

Joseph: (risos) É, eu nunca cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Só conversei um pouco com ele pelo telefone. Mas, recentemente, fui ao evento Bowling for Ronnie e fiquei um tempo com a Wendy Dio. Então, ainda mantenho um pouco de contato com aquele círculo de pessoas.

Sobre o retorno do Sanctuary, a banda voltou com o mesmo espírito de antes ou com uma nova visão para o futuro?

Joseph: Sim, eu diria que está um pouco mais moderno. É um pouco mais moderno do que Refuge Denied (1987), Into the Mirror Black (1989) ou qualquer outro disco daquela época. O Lenny está em uma fase em que quer que o som seja um pouco mais sombrio e pesado, meio na linha de The Year the Sun Died (2014). Eles já estavam caminhando nessa direção. 

Mas, com o meu alcance vocal, acabamos trazendo um pouco mais daquela sonoridade old school de volta. É meio que isso: quando você quer levar uma banda como essa para o futuro, precisa fazer as duas coisas. É preciso manter aquelas características, atingir aquelas notas, chegar aos agudos e ter aquela dose de loucura, mas, ao mesmo tempo, a produção é muito mais a de uma banda moderna atualmente.

 

Quando você começou sua jornada como vocalista? Foi muito jovem? Aproveitando o gancho, e suas influencias vocais, quem são?

Joseph: Ah, quando eu era adolescente. Originalmente, eu era guitarrista e não conseguia encontrar um vocalista de que eu gostasse. Então, acabei aprendendo a cantar. Foi assim que aconteceu (risos).

Eu, definitivamente, tenho um pouco de influência do Warrel, do Dio... No heavy metal, gosto muito do Geoff Tate, do King Diamond, do Sebastian Bach e até do Zak Stevens, do Savatage. Tenho uma variedade grande de influências. 

Também ouço algumas coisas de teatro musical, como o Colm Wilkinson, que é um cantor irlandês. Artistas como a Tori Amos também me influenciaram. Até o Bon Jovi. Há muitas coisas que o Bon Jovi fazia que, se você ouvir com atenção, vai pensar: “Ah, eu reconheço isso. Eu reconheço isso”.

Bom, para encerrar já que o nosso tempo é curto vou te colocar na fogueira (risos): quais são os seus cinco álbuns de Heavy Metal favoritos?

Joseph: (risos) Essa é fácil! Conspiracy, do King Diamond (1989); Awake, do Dream Theater (1994) — esse é o melhor do Dream Theater, na minha opinião. Eu diria Operation: Mindcrime, do Queensrÿche (1988); The Number of the Beast, do Iron Maiden (1982). As pessoas vão me odiar por isso, mas eu tenho que escolher... É uma disputa entre Rust in Peace (Megadeth) e The Black Album (Metallica). Para mim, é um desses dois. É difícil escolher apenas cinco, porque existem muitas bandas das quais eu poderia colocar três discos no meu Top 5. 

Poderia colocar, por exemplo, três álbuns do King Diamond ou três do Savatage. Eu nem coloquei um deles na lista, mas Edge of Thorns (1993) também é um disco excelente. Mas, se tiver que escolher cinco, eu coloco The Black Album (1991) acima de Rust in Peace (1990), apesar de eu adorar a maneira como o Marty Friedman toca. É mais pela sonoridade, pela produção e pelas músicas.

Ok, eu prefiro Black Album (risos).

Joseph: (risos) Algumas pessoas não gostam desse disco. Do Warrel, eu adoro o Refuge Denied (1987), mas também tem o This Godless Endeavor (2005), do Nevermore. Esse também é um excelente disco de metal. São discos sensacionais!

Eu amo Rust in Peace (1990), mas Black Album (1991) é um modo diferente de enxergar o Heavy Metal.

Joseph: É realmente incrível.


Sanctuary Site Oficial 

sábado, 22 de agosto de 2026

Cobertura de Show: Swallow The Sun – 11/08/2026 – Hangar 110/SP

Na noite de 11 de agosto, o Hangar 110, em São Paulo, recebeu a terceira passagem do Swallow the Sun pelo Brasil, um dos nomes mais respeitados do doom/death metal finlandês, em uma apresentação marcada pela atmosfera sombria, introspectiva e profundamente melancólica. Um bom público compareceu para prestigiar a banda durante a passagem da turnê Shining Over Latin America e encontrou um espetáculo que privilegiou a música e a ambientação em detrimento da interação direta. Formado em Jyväskylä, em 2000, o grupo construiu, ao longo de mais de duas décadas, uma identidade baseada na combinação entre peso, melodia e atmosferas densas, características que se mostraram especialmente fortes ao vivo.

Com Mikko Kotamäki (vocal), Juha Raivio (guitarra), Juho Räihä (guitarra), Matti Honkonen (baixo) e Juuso Raatikainen (bateria) no palco, a apresentação teve início com "Innocence Was Long Forgotten", faixa do álbum Shining, de 2024, estabelecendo imediatamente o clima que dominaria toda a noite. Sem grandes discursos ou tentativas de transformar o show em um palanque, o Swallow the Sun deixou que suas próprias composições conduzissem a experiência. "Descending Winters" e "New Moon" deram sequência ao setlist, alternando passagens pesadas com momentos de maior delicadeza, enquanto "Under the Moon & Sun" reforçou o caráter contemplativo da apresentação. A sensação era de que o público não estava simplesmente assistindo a um show, mas sendo conduzido para dentro do universo sombrio criado pela banda. O repertório também funcionou como uma retrospectiva de diferentes fases da carreira, que começou com The Morning Never Came, em 2003, e chegou ao mais recente Shining.

A sequência formada por "Don't Fall Asleep (Horror, Part 2)", "Out of This Gloomy Light" e "November Dust" aprofundou ainda mais essa proposta. Em vez de buscar explosões constantes de energia, o Swallow the Sun trabalhou com contrastes, silêncios e longas construções instrumentais, permitindo que cada mudança de andamento tivesse seu impacto. "Out of This Gloomy Light", inclusive, remete aos primeiros anos da banda, já que a composição surgiu na demo homônima lançada antes do álbum de estreia e posteriormente foi lançada no álbum The Morning Never Came (2003). Já "Hope" trouxe uma das passagens mais emblemáticas da noite, recuperando o espírito do terceiro álbum do grupo, lançado em 2007 e conhecido justamente por transformar a ideia de esperança em matéria-prima para uma música carregada de desesperança.

Se havia pouca comunicação verbal entre banda e público, isso não significou falta de conexão. Pelo contrário: músicas como "MelancHoly" e "Falling World" encontraram um público imerso, que respondeu muito mais por meio do silêncio concentrado, dos aplausos e da entrega às canções do que por meio de uma participação ruidosa. A própria "Falling World", presente originalmente em New Moon, mostrou como o grupo consegue transformar melodia e peso em uma experiência quase cinematográfica. A apresentação ainda avançou para "These Woods Breathe Evil", encerrando o set principal de maneira densa, sombria e sem concessões, representando uma das fases mais importantes da trajetória da banda.

O bis trouxe "Deadly Nightshade" e "Swallow (Horror, Part 1)", duas escolhas particularmente adequadas para concluir uma noite tão carregada de sombras. A última faixa, originalmente presente em The Morning Never Came, ainda estabeleceu uma ligação direta entre o presente e os primeiros passos do grupo. O repertório apresentado em São Paulo, portanto, percorreu diferentes momentos da carreira sem abandonar aquilo que sempre esteve no centro da proposta do Swallow the Sun: a capacidade de transformar dor, solidão e melancolia em música.

Na apresentação, o quinteto mostrou que nem todo grande show precisa ser construído sobre discursos, brincadeiras ou interação constante. O Swallow the Sun fez justamente o contrário: criou uma espécie de bolha de isolamento dentro do Hangar 110, na qual peso, melancolia e introspecção falaram mais alto. Para quem estava disposto a mergulhar nessa atmosfera, foi uma experiência intensa e imersiva, fiel à essência de uma banda que transformou a tristeza em uma de suas mais poderosas formas de expressão. 


Texto: Marcelo Gomes



Realização: Overloard Brasil



Swallon The Sun – setlist:

Innocence Was Long Forgotten

Descending Winters

New Moon

Under the Moon & Sun

Don't Fall Asleep (Horror, Part 2)

Out of This Gloomy Light

November Dust

Hope

MelancHoly

Falling World

These Woods Breathe Evil

Deadly Nightshade

Swallow (Horror, Part 1)