terça-feira, 3 de novembro de 2026

Archon Angel: Muito Além do Savatage (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Com Zak Stevens à frente, o Archon Angel aprofunda sua identidade musical em um álbum ambicioso, no qual o peso do heavy metal encontra a dramaticidade, as texturas orquestrais e a sofisticação composicional que marcaram a trajetória do Savatage.

Liderado pelo vocalista Zak Stevens (Savatage) e pelo guitarrista, compositor e produtor Aldo Lonobile, o Archon Angel retorna com Beyond The Grave, seu terceiro álbum de estúdio, previsto para dezembro de 2026 pela Frontiers Music Srl. Embora as raízes no legado do Savatage permaneçam evidentes, o projeto demonstra crescente personalidade própria, explorando arranjos elaborados, melodias marcantes e atmosferas cinematográficas. O resultado é um trabalho que equilibra peso, sofisticação e intensidade emocional, com a interpretação de Stevens ocupando, mais uma vez, o centro das atenções.

A faixa-título abre o disco e, em poucos segundos, deixa clara a conexão com o Savatage. O clima teatral, a presença imponente de Zak e, sobretudo, a construção dos backing vocals remetem à fase de The Wake of Magellan. Não há, porém, qualquer sensação de mera reprodução de uma fórmula conhecida. A composição é cuidadosamente arquitetada, com mudanças de dinâmica e camadas vocais que contribuem para a grandiosidade da música. Uma abertura de primeira linha, que estabelece as coordenadas estéticas do álbum sem limitar suas possibilidades.

Com uma abordagem mais direta e guitarras assumindo o protagonismo, Bloodline desloca o foco para o heavy metal propriamente dito. A interpretação teatral de Stevens permanece, assim como suas linhas vocais elaboradas, mas os backing vocals surgem de maneira mais crua, acrescentando textura sem sobrecarregar o arranjo. Menos rebuscada que a faixa de abertura, a música encontra justamente nessa objetividade sua principal virtude.

Without Eyes recupera o viés melódico e introduz uma atmosfera misteriosa por meio de uma bela introdução ao piano, acompanhada por teclados que estabelecem o clima da composição. A voz de Zak conduz a música com segurança até um refrão envolvente, enriquecido por múltiplas camadas vocais que nunca ofuscam a linha principal. Apesar de manter as bases do heavy metal tradicional, a faixa se diferencia das anteriores graças à combinação de melodias acessíveis e nuances atmosféricas. O piano, em particular, merece destaque pela maneira como orienta a construção musical.

Mais cadenciada, You aprofunda a teatralidade que permeia o álbum. As linhas vocais e os backing vocals estabelecem uma espécie de diálogo, criando contrapontos que ampliam a dramaticidade da composição. As guitarras de Aldo Lonobile dominam tanto a base quanto o excelente solo, enquanto os sintetizadores sustentam o clima de suspense introduzido na faixa anterior. No terço final, piano e voz assumem o primeiro plano em uma passagem de grande sensibilidade, demonstrando como a banda consegue explorar momentos de contenção sem perder intensidade.

Com bumbos duplos e uma abordagem que flerta com a grandiosidade dos musicais da Broadway, Chasing Demons apresenta outra faceta do grupo. Em determinados momentos, a interpretação quase falada de Stevens acentua o caráter teatral da composição, transportando o ouvinte para um universo dramático sem que a música abandone sua essência metálica. A complexidade das linhas vocais se combina a melodias bem construídas, enquanto os timbres das guitarras nos solos evocam, em certos momentos, a exuberância técnica do Cacophony. É mais uma faixa que acrescenta novas camadas à identidade sonora do disco.

Darkest Hour surge como uma das passagens mais diretamente ligadas ao heavy metal tradicional. Guitarras incisivas e um breve solo introduzem a voz de Zak, que conduz a composição até um refrão simples, eficiente e sem excessos. Os backing vocals aparecem de maneira pontual, reforçando a melodia sem disputar espaço com o vocalista. O destaque instrumental fica por conta do Hammond, cujo timbre acrescenta uma dimensão sonora distinta ao conjunto. A cozinha mantém tudo em impressionante coesão, enquanto uma passagem de piano sobre uma base pesada prepara o terreno para outro excelente solo de guitarra.

Até aqui, o álbum demonstra uma capacidade notável de apresentar novas ideias sem perder sua unidade.

É com Ethereal, entretanto, que o Archon Angel alcança um de seus momentos mais inspirados. Teclados imponentes, peso e velocidade estabelecem uma atmosfera épica desde o início, enquanto os backing vocals ampliam a grandiosidade dos versos. Pela primeira vez, os efeitos e as camadas vocais assumem papel central na construção do refrão, reforçando a dimensão cinematográfica da música. Stevens entrega uma interpretação poderosa, que permite imaginar o impacto dessa composição ao vivo. O piano volta a se destacar, pontuando os momentos certos, e o solo de guitarra surge na medida exata. Ao lado da faixa-título, é um dos grandes destaques do álbum.

Mantendo a atmosfera épica, Who Am I começa com guitarras e teclados em evidência, antes de desacelerar e adotar uma abordagem mais delicada, com a guitarra assumindo uma função melódica secundária. A voz de Zak conduz a composição, enquanto as orquestrações acrescentam mistério e dramaticidade até a música recuperar o peso e entregar o protagonismo às guitarras e aos vocais. O refrão, direto e sem firulas, ganha profundidade com as texturas vocais. Instrumentalmente, o destaque está na interação entre o piano e os demais elementos, que amplia consideravelmente a complexidade do arranjo. É outro ponto alto de um disco que encontra na combinação entre força e refinamento uma de suas principais qualidades.

Em Asylum, Stevens inicialmente adota uma interpretação mais suave, acompanhado por um delicado pizzicato de violinos, piano e elementos orquestrais. A entrada da banda transforma gradualmente a atmosfera, permitindo que o vocalista volte a exibir toda a potência de sua voz. A composição reúne diversos elementos já apresentados ao longo do álbum, mas evita a repetição ao explorar novas nuances, incluindo diferentes abordagens vocais e variações de dinâmica. A sensação é de uma obra que cresce progressivamente, revelando novas possibilidades a cada audição e preparando o terreno para os momentos finais.

Depois de tanta elaboração, My Crime chega com um impacto imediato. Uma guitarra pesada e veloz, acompanhada por uma cozinha igualmente contundente, estabelece um início agressivo antes de ceder espaço a uma passagem centrada em piano e voz. É nesse contraste que a música reencontra a dramaticidade característica do álbum, desembocando em seu refrão mais melódico. A alternância entre peso e delicadeza se repete ao longo da faixa, conferindo personalidade à composição e tornando suas diferentes seções particularmente eficazes.

Para encerrar, As One aposta em uma balada de orientação semiacústica, permitindo que Zak Stevens explore sua voz com maior liberdade. O uso criterioso dos backing vocals reforça os momentos de maior intensidade sem comprometer a delicadeza do arranjo. É um fechamento elegante, que privilegia a melodia e a interpretação vocal depois de um percurso marcado por mudanças de dinâmica, densidade instrumental e ambição composicional.

Beyond The Grave é, sem dúvida, o álbum mais ambicioso do Archon Angel até aqui, sobretudo pela maneira como suas composições integram diferentes elementos sem sacrificar a identidade do conjunto. Zak Stevens entrega aquilo que seus admiradores esperam: uma voz poderosa, teatral e expressiva, capaz de transitar entre passagens incisivas e momentos de maior sensibilidade. As referências ao Savatage, de Sirens a The Wake of Magellan, são inegáveis, especialmente na construção das melodias, nos arranjos vocais e na dramaticidade que atravessa o repertório.

Isso, entretanto, está longe de significar que o Archon Angel seja uma simples reprodução do Savatage. A influência funciona como ponto de partida para uma proposta que combina heavy metal, sofisticação progressiva, elementos orquestrais e uma abordagem teatral bastante particular. A participação de Stevens torna inevitável a comparação, mas o mérito de Aldo Lonobile e dos demais envolvidos está justamente em transformar essas referências em composições que procuram novos caminhos.

Com faixas como Beyond The Grave, Ethereal e Who Am I, o álbum confirma que grandiosidade e complexidade não precisam excluir a força das boas melodias. É um trabalho que recompensa a atenção aos detalhes e reforça a posição do Archon Angel como um projeto de personalidade própria, capaz de dialogar com um legado histórico sem viver exclusivamente à sua sombra.

***ENGLISH VERSION***

With Zak Stevens at the helm, Archon Angel deepens its musical identity on an ambitious album where heavy metal meets theatrical drama, orchestral textures, and the compositional sophistication that helped define Savatage’s legacy.

Led by vocalist Zak Stevens (Savatage) and guitarist, songwriter, and producer Aldo Lonobile, Archon Angel returns with Beyond The Grave, its third studio album, due out in December 2026 via Frontiers Music Srl. While the band’s roots in Savatage’s legacy remain unmistakable, the project continues to develop a personality of its own, exploring intricate arrangements, memorable melodies, and cinematic atmospheres. The result is an album that balances heaviness, sophistication, and emotional intensity, with Stevens’ voice once again taking center stage.

The title track opens the album and makes the connection to Savatage clear within seconds. Its theatrical atmosphere, Stevens’ commanding presence, and, above all, the layered backing vocals recall the era of The Wake of Magellan. Yet there is no sense of simply recycling a familiar formula. The composition is carefully constructed, with dynamic shifts and vocal layers contributing to its grandeur. It is a first-rate opener that establishes the album’s aesthetic direction without limiting its possibilities.

With a more direct approach and guitars firmly in the spotlight, Bloodline shifts the focus toward traditional heavy metal. Stevens’ theatrical delivery remains, as do his intricate vocal lines, but the backing vocals are rougher around the edges, adding texture without overcrowding the arrangement. Less elaborate than the opening track, the song finds its strength precisely in that straightforward approach.

Without Eyes returns to a more melodic direction, introducing a mysterious atmosphere through a beautiful piano-led opening, enhanced by keyboards that establish the mood. Zak’s voice guides the song with confidence into an engaging chorus, enriched by multiple vocal layers that never overshadow the lead. Although firmly rooted in traditional heavy metal, the track distinguishes itself through its combination of accessible melodies and atmospheric nuances. The piano, in particular, deserves special mention for the way it shapes the song’s development.

More measured in pace, You delves further into the theatricality that permeates the album. The vocal lines and backing vocals establish a kind of dialogue, creating counterpoints that heighten the drama. Aldo Lonobile’s guitars dominate both the foundation and an excellent solo, while the synthesizers sustain the sense of suspense introduced on the previous track. In the final third, piano and voice take center stage in a particularly sensitive passage, demonstrating how the band can explore moments of restraint without sacrificing intensity.

Driven by double-kick drums and an approach that flirts with the grandeur of Broadway musicals, Chasing Demons reveals another side of the band. At times, Stevens’ almost spoken delivery accentuates the theatrical character of the composition, transporting the listener into a dramatic universe without abandoning its metallic core. Intricate vocal lines combine with well-crafted melodies, while the guitar tones in the solos occasionally evoke the technical exuberance of Cacophony. It is another track that adds new layers to the album’s sonic identity.

Darkest Hour emerges as one of the album’s most straightforward heavy metal moments. Sharp guitars and a brief solo introduce Zak’s vocals, which lead into a simple, effective chorus free of unnecessary embellishment. The backing vocals appear sparingly, reinforcing the melody without competing with the singer. The Hammond organ provides the instrumental highlight, adding a distinctive sonic dimension to the arrangement. The rhythm section keeps everything impressively tight, while a piano passage set against a heavy instrumental backdrop prepares the ground for another excellent guitar solo. By this point, the album has demonstrated a remarkable ability to introduce fresh ideas without losing its overall coherence.

With Ethereal, however, Archon Angel reaches one of its most inspired moments. Imposing keyboards, heaviness, and speed establish an epic atmosphere from the outset, while the backing vocals heighten the grandeur of the verses. For the first time, vocal effects and layered harmonies take center stage in shaping the chorus, reinforcing the song’s cinematic scope. Stevens delivers a powerful performance that makes it easy to imagine the impact this composition could have onstage. The piano once again stands out, punctuating the arrangement at precisely the right moments, while the guitar solo arrives at just the right time. Alongside the title track, this is one of the album’s major highlights.

Maintaining the epic atmosphere, Who Am I begins with guitars and keyboards in full force before slowing down into a more delicate passage, with the guitar taking on a secondary melodic role. Zak’s voice guides the composition, while the orchestration adds mystery and drama until the song regains its weight and places the spotlight firmly on guitars and vocals. The chorus is direct and unadorned, gaining depth from the vocal textures. Instrumentally, the highlight lies in the interplay between the piano and the other elements, which considerably expands the arrangement’s complexity. It is another standout on an album whose greatest strengths lie in its balance of power and refinement.

On Asylum, Stevens initially adopts a softer delivery, accompanied by delicate pizzicato strings, piano, and orchestral elements. The band’s entrance gradually transforms the atmosphere, allowing the vocalist to display the full power of his voice once again. The composition brings together several elements introduced earlier in the album but avoids repetition by exploring new nuances, including different vocal approaches and dynamic variations. The result is a song that builds progressively, revealing new possibilities with each listen and setting the stage for the closing stretch.

After so much intricate musical construction, My Crime hits with immediate impact. Heavy, fast guitar work and an equally forceful rhythm section establish an aggressive opening before giving way to a passage centered on piano and voice. It is through this contrast that the song reconnects with the album’s trademark drama, leading into its most melodic chorus. The alternation between heaviness and delicacy returns throughout the track, giving the composition a distinct personality and making its contrasting sections particularly effective.

To close the album, As One opts for a semi-acoustic ballad, giving Zak Stevens plenty of room to showcase his voice. The judicious use of backing vocals reinforces the more intense moments without compromising the delicacy of the arrangement. It is an elegant conclusion that puts melody and vocal expression front and center after a journey marked by dynamic shifts, instrumental density, and compositional ambition.

Beyond The Grave is undoubtedly Archon Angel’s most ambitious album to date, particularly in the way its compositions integrate different elements without sacrificing the band’s identity. Zak Stevens delivers what his admirers have come to expect: a powerful, theatrical, and expressive voice capable of moving between incisive passages and moments of greater sensitivity. References to Savatage, from Sirens to The Wake of Magellan, are unmistakable, particularly in the melodic construction, vocal arrangements, and dramatic intensity that run throughout the record.

That, however, does not make Archon Angel a mere replica of Savatage. The influence serves as a starting point for an approach that combines heavy metal, progressive sophistication, orchestral elements, and a distinctive theatrical sensibility. Stevens’ presence makes comparisons inevitable, but the achievement of Aldo Lonobile and everyone involved lies in transforming those influences into compositions that seek new directions.

With tracks such as Beyond The Grave, Ethereal, and Who Am I, the album confirms that grandeur and complexity need not come at the expense of strong melodies. This is a record that rewards close attention to detail and reinforces Archon Angel’s status as a project with an identity of its own, capable of engaging with a historic legacy without living exclusively in its shadow.

Susan Clayton

sábado, 31 de outubro de 2026

Cobertura de Show: Roy Khan – 17/10/2026 – Carioca Club/SP

Roy Khan no Carioca Club: nostalgia, grandes clássicos e uma noite para guardar na memória

Sabe aquele show que você fica esperando há um tempão e, quando finalmente acontece, dá vontade de voltar no dia seguinte só para viver tudo de novo? Foi mais ou menos assim que saí do Carioca Club no dia 17 de outubro, depois de assistir ao show de Roy Khan, uma das vozes mais marcantes do metal melódico.

Quem conhece o trabalho do Roy sabe que não estamos falando de qualquer cantor. O cara fez história no Kamelot, participou de alguns dos discos mais importantes da banda e tem aquela voz que você reconhece em poucos segundos. E ouvir ao vivo músicas que fizeram parte da nossa vida tem um gostinho especial, né?

Roy esteve no Brasil em abril, quando se apresentou no Bangers Open Air, mas, infelizmente, eu estava cobrindo outro show, que agora não vou me lembrar (risos). Fiquei naquela situação de ver todo mundo comentando sobre o show e pensando: poxa, perdi essa! Mas eis que veio uma segunda oportunidade. Pensando nos fãs que também não conseguiram estar no show do Bangers Open Air, o cantor voltou a São Paulo para uma apresentação no Carioca Club.

E, olha, ainda bem que esse show aconteceu, porque eu não ia querer ficar só na vontade de ouvir esses clássicos ao vivo.


Roy Khan: uma voz que marcou a história do Kamelot

Antes de falar do show em si, vale lembrar um pouquinho da trajetória desse homem, porque história é o que não falta.

Roy Khan começou sua carreira com o Conception, banda norueguesa de metal progressivo, nos anos 1990. Em 1998, entrou para o Kamelot e, a partir daí, ajudou a construir uma das fases mais queridas da banda.

E não foram poucos os discos que marcaram essa trajetória. Karma (2001), Epica (2003), The Black Halo (2005) e Ghost Opera (2007) estão entre os trabalhos que consolidaram seu nome no metal. São álbuns que misturam power metal, elementos sinfônicos, melodias marcantes e aquela dramaticidade que combina perfeitamente com a interpretação de Roy.

Se eu tivesse que escolher um disco para representar essa fase, seria The Black Halo. Aliás, esse álbum é um dos meus favoritos do Kamelot! Lançado em 2005 e inspirado na história de Fausto, ele tem músicas que continuam funcionando tão bem hoje quanto na época em que foram lançadas.

“March of Mephisto”, “When the Lights Are Down” e “The Haunting” são alguns exemplos de como a banda conseguia criar músicas grandiosas sem perder o peso e a melodia. E a voz de Roy era uma parte fundamental disso tudo.

Ele deixou o Kamelot em 2011, mas continuou sua trajetória com o retorno ao Conception, que lançou My Dark Symphony (2018) e State of Deception (2020). Ao longo dos anos, também participou de outros projetos e colaborações, mantendo seu nome presente na cena.

Mas, convenhamos, para muita gente, Roy Khan será sempre aquela voz que deu vida a alguns dos maiores clássicos do Kamelot. E o show no Carioca Club foi uma bela oportunidade de matar a saudade dessa fase.


Maestrick: os brasileiros mostraram a que vieram!

A noite começou com a Maestrick, banda brasileira de metal progressivo que vem conquistando cada vez mais espaço na cena. E já vou adiantar: os caras fizeram bonito!

A banda foi escolhida para acompanhar Roy Khan na turnê The Black Halo and Beyond, pela América Latina. E, depois de assistir à apresentação, ficou bem fácil entender essa escolha.

A Maestrick não estava ali apenas para acompanhar um artista internacional. Os músicos mostraram personalidade, qualidade e um entrosamento daqueles que fazem a gente perceber quando existe muito trabalho por trás de uma apresentação.

Fabio Caldeira nos vocais, Caio Kehyayan na guitarra, Renato Montanha no baixo, Chris Oliveira na bateria e Charles Soulz nos teclados entregaram um show muito consistente. Todo mundo estava afiado, e a interação com o público aconteceu de maneira natural, sem aquela sensação de que a banda estava apenas cumprindo tabela antes da atração principal.

Fabio, em especial, me chamou a atenção pela maneira como conduz os vocais. Ele tem técnica, precisão e sabe colocar emoção na interpretação. Não é só aquela coisa de mostrar que consegue cantar notas difíceis: existe sentimento ali, e isso faz diferença demais no palco.

E essa parceria com Roy Khan não começou agora. No ano passado, a Maestrick lançou “Lunar Vortex”, faixa que conta com a participação do cantor norueguês. Então, os músicos já tinham essa conexão, e foi muito legal ver como ela funciona também ao vivo.

Outra coisa de que gosto na Maestrick é que, apesar de a banda trabalhar com uma sonoridade que conversa muito bem com o prog metal internacional e cantar bastante em inglês, ela não deixa suas raízes brasileiras de lado.

Um dos momentos mais legais do show foi “Penitência”, cantada em português e carregada daquela identidade cultural que faz parte da proposta da banda. E eu acho isso muito importante! É ótimo ver nossos músicos buscando espaço lá fora, mas sem precisar deixar de lado aquilo que os torna únicos.

Durante a apresentação, Fabio agradeceu ao público pela recepção e falou sobre a emoção de ter a oportunidade de acompanhar Roy Khan nessa turnê. Foi um momento muito bacana, porque dava para perceber o quanto aquilo significava para ele.

E o público correspondeu! A galera cantou, pulou e vibrou junto com a banda. Claro que todo mundo estava ansioso para ver Roy, mas a Maestrick conseguiu segurar muito bem essa expectativa e entregar uma apresentação que valeu por si só.

Sabe quando você vai para um show esperando curtir a atração principal e acaba saindo também com vontade de ouvir mais da banda de abertura? Foi essa a sensação. E, sinceramente, é muito bom ver uma banda brasileira mostrando serviço em um palco desses.


Roy Khan: pontualidade, clássicos e um público que sabia cada palavra

Roy subiu ao palco às 19h15, cravadas! E eu preciso fazer um comentário aqui: como é bom quando um show começa no horário anunciado! (risos).

Pode parecer bobagem, mas eu valorizo muito isso. É respeito com quem comprou ingresso, se organizou para chegar ao local e tem outros compromissos no dia seguinte. E nós, os 30+, agradecemos especialmente quando o show começa cedo e não precisamos voltar para casa de madrugada!

Mas vamos ao que interessa: Roy Khan estava ali, diante de nós, pronto para cantar aqueles clássicos que tanta gente esperava ouvir.

O show foi lindo. E digo isso não apenas pela qualidade vocal, que continua impressionante, mas também pela maneira como ele se relacionou com o público durante toda a apresentação.

Roy tem uma presença de palco muito particular. Não precisa ficar exagerando nos movimentos ou tentando chamar atenção o tempo inteiro. Ele simplesmente entra, começa a cantar e pronto: todo mundo está olhando para ele.

Sua voz estava impecável, com aquela precisão que a gente conhece dos discos, e foi muito legal perceber o quanto ele parecia confortável naquele repertório. As músicas fluíam, os músicos estavam muito bem entrosados e o público cantava praticamente tudo.

Em vários momentos, a plateia gritava o nome de Roy, e ele recebia esse carinho com um sorriso e muita gratidão. Teve também um comentário que achei especialmente simpático: ele disse que estar em São Paulo era como estar em casa.

E olha, considerando que essa foi a segunda vez que ele passou pela cidade neste ano, acho que os fãs têm motivos para acreditar! (risos)

O mais bonito era ver como as músicas estavam vivas na memória de todo mundo. Não importava se era um refrão mais conhecido ou uma passagem mais longa: a galera acompanhava, cantava e fazia aquele coral que só acontece quando existe uma conexão real entre o artista e o público.

E eu gosto muito de observar essas coisas durante um show. Às vezes, a gente fica tão concentrado em ouvir o cantor que esquece de olhar ao redor. Mas ver um monte de gente cantando a mesma música, cada um com sua história e suas lembranças, é uma das partes mais legais de ir a um show.

Naquela noite, ficou muito claro o quanto Roy Khan continua sendo querido por aqui.



Zoe Federoff e um dos momentos mais bonitos da noite

Além dos músicos da Maestrick, que acompanharam Roy com muita competência, tivemos a participação especial de Zoe Federoff, ex-vocalista do Cradle of Filth.

Fabio Caldeira também ficou responsável pelos backing vocals, enquanto Zoe participou das passagens vocais que ajudaram a dar ainda mais força a algumas músicas. E foi em “The Haunting” que ela brilhou especialmente.

Para quem não lembra, a versão original conta com Simone Simons, vocalista do Epica, dividindo os vocais com Roy. É uma música que pede bastante interpretação, porque não basta cantar bem: tem todo um clima dramático que faz parte da composição.

Zoe deu conta do recado muito bem! Sua voz combinou com a proposta da música, e a interpretação ficou intensa, criando um daqueles momentos em que você simplesmente para e pensa: caramba, que bonito!

O público gostou tanto que começou a gritar o nome dela, e foi muito legal ver a reação da cantora, visivelmente feliz com o carinho que estava recebendo.

E preciso dizer: Zoe estava lindíssima e afinadíssima! Mesmo participando como vocalista de apoio, ela não passou despercebida em nenhum momento.

Para quem acompanha sua trajetória, o reencontro com o público brasileiro também teve um significado especial, especialmente depois de sua saída conturbada do Cradle of Filth. Sua última passagem pelo Brasil havia sido marcada por esse contexto, inclusive após uma apresentação no Carioca Club.

Dessa vez, foi muito bom vê-la em outro momento, dividindo o palco com músicos talentosos e recebendo uma resposta tão calorosa da plateia.

No fim, o que ficou foi a música e uma participação que acrescentou muito ao show. Zoe mereceu cada grito e cada aplauso!

The Black Halo: um disco que continua sendo especial

Agora, se tem uma coisa que me deixou feliz nessa noite foi poder ouvir ao vivo tantas músicas de The Black Halo.

Eu já falei que esse é um dos meus discos favoritos do Kamelot, né? Então imaginem a minha alegria!

“When the Lights Are Down” foi daqueles momentos em que o público cantou junto sem economizar a voz. “Moonlight” trouxe mais uma vez aquela atmosfera envolvente, enquanto “Memento Mori” mostrou por que esse álbum é tão especial para quem gosta de músicas longas, dramáticas e cheias de nuances.

É um disco que tem personalidade. Cada faixa parece fazer parte de uma história maior, e Roy sabe muito bem como conduzir essas músicas, dando o peso certo a cada momento.

O interessante é que, mesmo depois de tantos anos, elas não soam como lembranças distantes. Pelo contrário: continuam despertando a mesma empolgação, e talvez até mais, porque agora a gente consegue olhar para trás e entender o tamanho da importância que tiveram na história do metal.

E então veio “March of Mephisto”, encerrando a apresentação em grande estilo.

Foi um final à altura de tudo o que aconteceu naquela noite. Uma música grandiosa, cheia de personalidade, que colocou o público para cantar mais uma vez e deixou aquela vontade de que o show pudesse continuar por mais algumas horas.

Se dependesse da galera, acho que ninguém reclamaria de um repertório ainda maior!

Um show que valeu a espera

Saí do Carioca Club muito feliz por finalmente ter conseguido ver Roy Khan ao vivo. Perder sua apresentação no Bangers Open Air tinha sido frustrante, mas essa segunda oportunidade acabou tornando a experiência ainda mais especial para mim.

Foi uma noite de grandes músicas, boas surpresas e, acima de tudo, muito carinho. Roy mostrou que continua com uma voz impressionante e que a conexão com seus fãs permanece firme. A Maestrick fez uma abertura excelente e provou que merece cada vez mais espaço, enquanto Zoe Federoff adicionou um brilho especial a um show que já tinha tudo para dar certo.

E acho que esse é um dos motivos pelos quais a gente continua indo a shows, mesmo depois de tantos anos. Não é só para ouvir ao vivo aquela música que já escutamos centenas de vezes. É pela experiência, pelo encontro com outras pessoas que gostam das mesmas coisas e pela sensação de que, durante algumas horas, o mundo lá fora pode esperar.

Naquela noite, eu estava ali, cantando músicas que continuam tendo um lugar especial na minha vida, cercada por gente que também sabia de cada palavra. E foi impossível não pensar em como algumas bandas e artistas acompanham a gente por tanto tempo que acabam fazendo parte da nossa própria história.

O show terminou, as luzes acenderam e chegou a hora de voltar para casa. Mas a cabeça continuou no Carioca Club, repassando os melhores momentos e cantarolando aqueles refrões que insistem em não sair da cabeça.

No fim das contas, acho que a música tem mesmo esse poder: ela guarda um pedacinho de quem fomos, acompanha quem somos e, de vez em quando, nos devolve tudo isso de uma vez só.

E, quando uma voz como a de Roy Khan volta a cantar aquelas músicas, a gente percebe que algumas coisas não precisam voltar a ser como eram para continuarem sendo especiais.

Basta a primeira nota, um refrão cantado por centenas de pessoas e aquela sensação boa de estar exatamente onde deveria estar.

E, dessa vez, eu estava lá. Ainda bem!

Texto: Michelle F. Santana

Fotos: Amanda Vasconcelos 


Realização: Agência Artística 

Press: TRM Press


Roy Khan – setlist:

When the Lights Are Down

Soul Society

Moonlight

Center of the Universe

Abandoned

The Haunting (Somewhere in Time)

Rule the World

Memento Mori

Nights of Arabia

Karma

Forever

Bis

Ghost Opera

Epilogue

March of Mephisto

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Roy Khan transforma noite esvaziada pelas eleições em celebração histórica no Opinião

Por: Renato Sanson

Fotos: Gmaglia

Mesmo diante de um público menor do que o espetáculo merecia, Roy Khan mostrou em Porto Alegre por que permanece como uma das figuras mais magnéticas do metal melódico.

No domingo, 25 de outubro, o Bar Opinião recebeu a última apresentação brasileira da turnê The Black Halo and Beyond, de Roy Khan. A passagem por Porto Alegre aconteceu em uma data complicada: o segundo turno das eleições. Em meio ao clima político tenso do país, à possibilidade de tumultos e ao receio compreensível de circular pela cidade, parte do público preferiu permanecer em casa.

O impacto dessa conjuntura foi perceptível na lotação. Não porque faltasse interesse pelo retorno de uma das vozes mais importantes do metal melódico e sinfônico, mas porque o contexto externo interferiu diretamente na dinâmica do evento. Foi uma pena ver um espetáculo desse porte diante de uma plateia menor do que ele merecia. Por outro lado, quem enfrentou a tensão daquele domingo encontrou no Opinião um ambiente seguro e uma noite musical de altíssimo nível.

A programação ainda contou com a abertura da banda gaúcha Drahktar, antes da chegada do convidado especial Maestrick e da apresentação principal de Roy Khan. O cronograma oficial reuniu os três nomes, com Khan previsto para subir ao palco às 21h.

Maestrick: obscuro, dramático e absolutamente único

Dizer que o Maestrick dispensa apresentações pode soar como força de expressão, mas basta assistir à banda ao vivo para compreender. O grupo apresentou seu prog metal obscuro, teatral e dramático, construído com arranjos complexos, mudanças de atmosfera e uma execução técnica assustadoramente precisa.

Mais do que demonstrar virtuosismo, o Maestrick sabe transformar música em narrativa. Cada passagem parece ocupar um lugar específico dentro de uma obra maior, alternando peso, delicadeza, tensão e explosões emocionais sem perder a identidade. Não há exibicionismo vazio: a técnica está sempre a serviço da composição e do espetáculo.

A qualidade sonora foi surreal, assim como a segurança dos músicos no palco. Foi uma apresentação ímpar, daquelas que reforçam a sensação de estarmos diante de uma banda brasileira pronta para ocupar espaços muito maiores. O Maestrick merece o mundo.

A participação do grupo, porém, não terminou em seu próprio repertório. Além de convidado especial, o Maestrick assumiu a missão de acompanhar Roy Khan durante a turnê, ao lado do guitarrista Caio Kehyayan. A sintonia entre os músicos deixou claro que não se tratava apenas de uma banda de apoio, mas de uma formação totalmente envolvida com o repertório e com a identidade dramática das canções.

O homem que ainda domina qualquer palco

Quando Roy Khan apareceu, ficou evidente que o tempo pode alterar uma voz, mas não apaga o carisma de um verdadeiro frontman. Aos 56 anos, o cantor norueguês esbanjou boa forma, simpatia e uma presença de palco monstruosa. Bastaram poucos minutos para que tivesse a plateia completamente nas mãos.

Khan não precisa correr de um lado para o outro ou recorrer a excessos. Seu domínio está no olhar, nos gestos, na postura elegante e na maneira como interpreta cada verso. Há algo de teatral em sua presença, mas nunca artificial. Ele compreende o peso emocional das músicas e sabe exatamente quando conduzir o público, quando recuar e quando deixar a banda ampliar a atmosfera.

É preciso reconhecer que sua voz já não é exatamente a mesma dos anos de ouro do Kamelot. O desgaste natural do tempo aparece em algumas passagens mais exigentes, especialmente quando o repertório pede notas longas e regiões mais agudas. Entretanto, reduzir a apresentação a essa comparação seria ignorar tudo o que Roy Khan ainda entrega.

O cantor adaptou linhas, administrou os momentos mais difíceis e compensou qualquer limitação com interpretação, experiência e presença cênica. Mais importante: sua identidade vocal permanece intacta. O timbre grave, a elegância quase operística e a capacidade de transformar melodias em pequenas cenas dramáticas continuam imediatamente reconhecíveis.

Uma viagem pela era clássica do Kamelot

A turnê The Black Halo and Beyond foi concebida como uma celebração da passagem de Khan pelo Kamelot, especialmente da fase que consolidou a banda como referência mundial. O repertório da etapa brasileira abriu com "When the Lights Are Down" e "Soul Society", duas canções capazes de transportar imediatamente o público para o universo sombrio e grandioso de The Black Halo.

Na sequência, "Moonlight" ampliou a atmosfera melancólica antes de "Center of the Universe" provocar uma das reações mais intensas da noite. O clássico de Epica continua sendo uma síntese perfeita do que tornou aquela formação do Kamelot tão especial: peso, melodia, dramaticidade e um refrão feito para ser cantado coletivamente.

Um dos momentos mais emocionantes veio com "Abandoned", interpretada com a participação de Zoë Marie Federoff. A cantora acompanhou a etapa sul-americana da turnê e funcionou como contraponto perfeito para Khan, acrescentando beleza e intensidade às passagens vocais. O encontro dos dois transformou a canção em um dos pontos altos da apresentação em Porto Alegre.

"The Haunting (Somewhere in Time)" manteve Zoë em posição de destaque e reforçou o caráter teatral do espetáculo. Já "Rule the World" recuperou a força de uma fase posterior da discografia do Kamelot, mostrando que a proposta não estava limitada a um único álbum, mas contemplava diferentes capítulos da trajetória de Khan.

A sequência ainda passou pela densidade épica de "Memento Mori" e pela atmosfera oriental de "Nights of Arabia", outra composição recebida como um verdadeiro clássico. O repertório adotado na reta final brasileira também incluiu canções como "Forever", inevitável ponto de comunhão entre palco e plateia, em um encerramento marcado pela nostalgia e pela celebração.

Muito além da nostalgia

Seria fácil apresentar The Black Halo and Beyond apenas como um exercício nostálgico, especialmente porque boa parte do público mantém uma ligação afetiva profunda com a fase de Roy Khan no Kamelot. O que aconteceu no Opinião, porém, foi maior do que uma tentativa de reproduzir o passado.

Khan não procurou imitar o cantor que era duas décadas atrás. Em vez disso, apresentou as músicas a partir do artista que é hoje: mais maduro, consciente de seus recursos e ainda dono de uma capacidade rara de comunicação. Ao seu redor, músicos excepcionais deram novo fôlego às composições, preservando sua essência sem transformá-las em peças de museu.

O público reduzido acabou criando uma proximidade inesperada. Cada resposta da plateia parecia chegar diretamente ao palco, e cada gesto de Khan era recebido com atenção absoluta. O que poderia ter diminuído a força do show acabou tornando a experiência mais íntima, sem retirar sua grandiosidade.

A noite de 25 de outubro ficará marcada pela contradição. Do lado de fora, uma cidade atravessada por tensão política, receio e incerteza. Dentro do Bar Opinião, música de altíssimo nível, uma banda brasileira monumental e um vocalista que, mesmo sem possuir exatamente a mesma voz de outros tempos, continua sendo um showman gigantesco.

Roy Khan teve a plateia na mão porque carisma não se mede apenas por alcance vocal. Mede-se pela capacidade de fazer uma sala inteira acompanhar cada movimento, reconhecer cada melodia e esquecer, ainda que por algumas horas, tudo o que acontece do lado de fora. E nisso, poucas figuras do metal são tão eficientes quanto ele.

 

 Realização: Arena Produtora 

 

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Temperance: Uma Jornada musical Pelas Cartas do Tarot (Also In English)

Napalm Records (Imp.)

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Existem bandas que a gente conhece e escuta ocasionalmente, e existem aquelas que aparecem no momento certo e, de repente, não saem mais da nossa playlist. O Temperance foi uma dessas descobertas para mim. Desde que conheci a banda, não parei mais de ouvir, principalmente os últimos singles lançados, que definitivamente se tornaram alguns dos meus favoritos do ano. Confesso que isso raramente acontece, então, muito antes de receber este material, eu já estava ansiosa para ouvir o álbum completo e compartilhar minhas impressões com vocês. E finalmente esse dia chegou!

Mas, antes que pareça tietagem, vamos ao que interessa.


Uma jornada pelas cartas do Tarot

Para quem ainda não conhece, o Temperance é uma banda italiana de metal melódico sinfônico que combina peso, trás elementos do power metal e melodias marcantes e diferentes abordagens vocais. Uma das características mais interessantes de sua identidade musical é justamente a maneira como explora as possibilidades de seus vocalistas, alternando entre linhas melódicas, harmonias e momentos de maior intensidade.

Em Arcani, a banda mergulha no universo do Tarot e constrói sua temática a partir de suas cartas e seus significados, sendo cartas independentes com significados diferentes e trazendo os arcanos maiores, o disco não pode ser considerado conceitual, mas ao se aprofundar no tema, descobri que os arcanos maiores pode ser a jornada do "Louco", que em muitos decks é a primeira carta e uma das figuras mais simbólicas desse sistema. A banda explora um universo místico das cartas de Tarot, transformando cada etapa dessa trajetória em uma experiência musical própria. Mais do que utilizar o Tarot como elemento estético, a proposta abre espaço para explorar diferentes emoções, conflitos e transformações ao longo do disco.

Essa escolha também cria uma expectativa interessante: se cada carta representa um momento dessa jornada, como a banda traduz essas diferentes energias em música? É justamente nessa construção que Arcani começa a mostrar sua personalidade.


Entre o peso, a melodia e o espetáculo

A formação reúne a norte-americana Kristin Starkey nos vocais, Michele Guaitoli nos vocais e piano, Marco Pastorino fundador da banda na guitarra e nos vocais, Luca Negro no baixo e nos vocais e Marco Sacchetto na bateria. É uma combinação que favorece a riqueza vocal e as possibilidades de arranjo, dois elementos fundamentais para a sonoridade do Temperance.

Em um disco temático como este, a produção tem um papel especialmente importante: é preciso equilibrar o peso das guitarras, a presença da bateria, os elementos sinfônicos e as diferentes vozes sem comprometer a clareza das melodias. A proposta pede grandiosidade, mas também personalidade, e é nessa relação entre espetáculo e composição que vale observar o resultado.

Em comparação com o trabalho anterior, Hermitage – Daruma's Eyes Pt. 2, Arcani também merece ser analisado pela maneira como desenvolve sua identidade e organiza suas músicas dentro de uma narrativa maior. A questão não é apenas entregar boas faixas individualmente, mas fazer com que elas contribuam para uma experiência que faça sentido como álbum.


As cartas ganham vida

The Fool

A faixa de abertura começa tão grandiosa quanto se poderia esperar de um disco de power metal sinfônico. E, curiosamente, isso funciona a favor da proposta. Em vez de entregar toda a agressividade logo nos primeiros momentos, a música parece evoluir gradualmente, de forma triunfante como se estivesse acompanhando os primeiros passos do próprio Louco em sua jornada.

É conforme a faixa avança que essa construção ganha força, até desembocar em um refrão grandioso, daqueles que grudam na cabeça e fazem você querer cantar junto. E aqui temos uma das características mais marcantes do Temperance: a capacidade de criar melodias acessíveis sem abrir mão da energia e da dramaticidade que fazem parte do gênero.

The Magician: Into Fire

Se The Fool representa o início de uma jornada, The Magician: Into Fire chega com uma energia que combina perfeitamente com a figura do Mago e sua associação ao fogo, à ação e à transformação.

A música tem uma força que se manifesta tanto na interpretação quanto na própria condução instrumental. É uma faixa que transmite movimento e intensidade, reforçando a impressão de que o conceito do álbum não está ali apenas para dar nome às músicas, mas também para orientar sua identidade.

Essa combinação de energia, melodias marcantes e refrões envolventes é algo que o Temperance parece dominar muito bem. E, conforme a jornada avança, fica interessante perceber como a banda explora diferentes possibilidades sem abandonar os elementos que tornam sua sonoridade reconhecível.

Death: Right Before We Die

Essa é uma das minhas faixas favoritas do álbum. E, quando uma música se destaca dessa maneira em um disco conceitual, ela acaba despertando uma curiosidade ainda maior sobre a forma como se conecta à narrativa.

A própria carta da Morte carrega um simbolismo que vai além do encerramento: ela também está associada à transformação, às rupturas e à possibilidade de um novo começo. O título Right Before We Die acrescenta uma camada dramática a essa ideia.

O que eu acho interessante é como as três vozes se fundem muito bem nessa faixa, com certeza é o dá brilho a faixa.

Tower: Lean into Fear

Aqui a voz de Kristin é um espetáculo à parte, começa agressivo e poderoso, uma música que trás uma mensagem forte sobre enfrentar os medos, sobre renascimento, que é exatamente o significado da carta A Torre, onde o caos é necessário para renascer. 

Sobre a instrumentação o começo trás a sensação de estar em um festival, lembra um pouco a pegada hard rock no comecinho e dá todo um charme pra música o que torna "Tower: Lean into Fear"uma das faixas mais interessantes do disco. 

The Devil: Sin, Sin, Sin

Se tem algo que funciona muito bem no Temperance são os refrões feitos para serem cantados em voz alta. E The Devil: Sin, Sin, Sin é um ótimo exemplo disso. A faixa traz aquela estrutura melódica fácil de aprender e cantar junto, algo que tem tudo para funcionar especialmente bem ao vivo, com o público formando um grande coral.

Mas o destaque não fica apenas na capacidade de grudar na cabeça. Aqui também temos a oportunidade de vislumbrar linhas vocais mais operísticas de Kristin Starkey e apreciar sua versatilidade. 

E, considerando a temática da carta do Diabo, essa intensidade dramática encontra um terreno bastante apropriado para se desenvolver.

Temperance: Forgiveness

Eu quero destacar essa faixa, justamente por carregar o nome da banda em seu título e aproveitar pra trazer algo curioso sobre isso é que o nome da banda não vem pelo significado da carta de tarot e acredito que a banda tenha brincado com isso, pois o nome da banda vem do significado literal e filosófico da palavra, que remete equilíbrio e mistura de elementos. 

Além de ser a faixa que carrega o nome da banda, ela diz muito sobre a identidade da banda e aqui temos mais um refrão com frases que se repetem, fazendo com que o ouvinte se conecte rapidamente com a faixa. Essa tem faixas melódicas é cinematográfico e tem peso, resume bem a banda Temperance. 

The Chariot: Alla Ricerca dell'Americ

A faixa funciona com um tom de balada, uma faixa que explora muitas nuances musicais, deixando um ar de teatralidade por conta das passagens cantadas em italiano, deixando tudo mais emocional e dramático o que pra mim trouxe toda beleza pra faixa e claro, um belo jeito de homenagear as raízes da banda.

The Hanged Man: Petrichor

Uma das faixas mais bonitas do disco, começa dramático com linhas de violão, mas em seguida trás peso trás linhas melódicas é triunfante, cinematográfico, o refrão as vozes se fundem de forma harmônica e mais uma vez a apreciamos a versalidase de Kristin, as partes em que ela canta lírico deu muito brilho e drama para a faixa, tudo de forma muito equilibrada. A faixa tem quase 7 min e não é uma faixa cansativa. 

The World

O disco termina com uma faixa que diferente da faixa anterior tem menos de 3 min e funciona como calmaria depois de algo tão grandioso que foi toda a trajetória da energia dos arcanos maiores e acredito que funcionou super bem. Aqui temos apenas violão a voz da Kristen e back vocals no refrão. 

Aqui é o verdadeiro significado de menos é mais. Realmente é uma linda canção.


Uma jornada que vale a pena revisitar

Arcani parte de uma proposta temática que oferece ao Temperance a oportunidade de explorar diferentes atmosferas dentro de sua identidade melódica e sinfônica. Entre refrões marcantes, energia instrumental e interpretações vocais que merecem destaque, o álbum apresenta elementos que explicam por que a banda conquistou minha atenção tão rapidamente.

Ainda que minha expectativa para este lançamento já fosse alta, a experiência de ouvir o disco completo é uma oportunidade de olhar além dos singles e perceber como as músicas se relacionam dentro de uma proposta maior.

E, se tem algo que posso dizer até aqui, é que o Temperance conseguiu despertar em mim aquela vontade de voltar ao álbum, revisitar as faixas e descobrir novos detalhes a cada audição. Para uma banda que entrou recentemente na minha playlist e rapidamente conquistou seu espaço, isso já significa bastante.


***ENGLISH VERSION***

There are bands we discover and listen to every now and then, and then there are those that show up at just the right time and suddenly never leave our playlists. Temperance was one of those discoveries for me. Ever since I found the band, I haven't been able to stop listening, especially to their latest singles, which have definitely become some of my favorite releases of the year. Honestly, that doesn't happen very often, so long before I received this album, I was already looking forward to hearing the full record and sharing my thoughts with you. And finally, that day has arrived!

But before this starts sounding like fan-girling, let's get down to business.


A Journey Through the Tarot Cards

For those who aren't familiar with them yet, Temperance is an Italian melodic and symphonic metal band that combines heaviness, power metal elements, memorable melodies, and different vocal approaches. One of the most interesting aspects of their musical identity is the way they explore the possibilities of their vocalists, moving between melodic lines, harmonies, and moments of greater intensity.

On Arcani, the band dives into the world of Tarot, building its thematic foundation around the cards and their meanings. Since each card has its own symbolism and the cards don't necessarily tell a linear story, the album doesn't have to be understood as a traditional concept record. However, as I explored the subject, I came across an interesting interpretation: the Major Arcana can represent the Fool's Journey. The Fool is one of the most symbolic figures in Tarot and appears as the first card in many decks.

From this perspective, each card can represent a stage in a journey of discovery, conflict, and transformation. Temperance explores this mystical universe and turns its different atmospheres into distinct musical experiences. Rather than using Tarot merely as an aesthetic element, the concept creates room to explore different emotions and possibilities throughout the album.

This choice also raises an interesting question: if each card represents a moment in this journey, how does the band translate these different energies into music? This is where Arcani begins to reveal its personality.


Between Heaviness, Melody, and Spectacle

The lineup features American vocalist Kristin Starkey, Michele Guaitoli on vocals and piano, band founder Marco Pastorino on guitar and vocals, Luca Negro on bass and vocals, and Marco Sacchetto on drums. It's a combination that allows for rich vocal arrangements and plenty of creative possibilities, two essential elements of Temperance's sound.

On an album with such a strong thematic concept, production plays a particularly important role. The challenge is to balance the weight of the guitars, the power of the drums, the symphonic elements, and the different voices without compromising the clarity of the melodies. The music calls for grandeur, but it also needs personality, and the relationship between spectacle and composition is where the results become particularly interesting.

Compared to their previous release, Hermitage – Daruma's Eyes Pt. 2, Arcani is also worth examining for the way it develops its identity and brings its songs together under a shared thematic vision. It's not just about delivering good individual tracks, but about making them contribute to an album that works as a complete experience.


Bringing the Cards to Life

The Fool

The opening track is as grand as you might expect from a symphonic power metal album. Interestingly, that works in its favor. Rather than unleashing all its aggression from the very beginning, the song gradually builds, taking on a triumphant feel, almost as if it's following the Fool's first steps on his journey.

As the track progresses, this build-up gains momentum until it reaches a grand chorus, the kind that gets stuck in your head and makes you want to sing along. Here, we find one of Temperance's most distinctive strengths: the ability to create accessible melodies without sacrificing the energy and drama that are such an important part of the genre.

It's an opening track that does its job well and invites the listener to embark on the journey.

The Magician: Into Fire

If The Fool represents the beginning of a journey, The Magician: Into Fire arrives with an energy that perfectly matches the Magician and its associations with fire, action, and transformation.

The song's strength comes through both the vocal performances and the instrumental arrangement. It conveys movement and intensity, reinforcing the impression that the album's concept isn't simply there to provide titles for the songs, but also helps shape their musical identity.

This combination of energy, memorable melodies, and engaging choruses is something Temperance seems to handle particularly well. As the journey unfolds, it's interesting to see how the band explores different possibilities without abandoning the elements that make its sound so recognizable.

Death: Right Before We Die

This is one of my favorite tracks on the album. And when a song stands out like this on a record with a strong thematic concept, it naturally makes you even more curious about how it connects to the rest of the work.

The Death card carries symbolism that goes far beyond endings. It's also associated with transformation, upheaval, and the possibility of a new beginning. The title Right Before We Die adds another dramatic layer to that idea.

What really makes this track shine for me, though, is the way the three voices blend together. The interplay between the vocalists and the harmonies gives the song even more strength, bringing out each singer's individual qualities without losing the overall cohesion. It's one of those moments when the band's vocal richness becomes more than just a defining characteristic of its sound: it becomes one of the composition's greatest highlights.

Tower: Lean into Fear

Kristin Starkey's voice is an absolute highlight here. The song begins aggressively and powerfully, establishing an intense atmosphere that fits its theme of facing our fears and finding strength amid chaos.

The Tower card is associated with upheaval, collapsing structures, and changes that may be painful but are sometimes necessary to make room for something new. This idea of rebuilding connects beautifully with the track's energy.

The instrumentation deserves attention as well. Right from the beginning, there's a passage that reminded me of the atmosphere of a live festival, with a touch of hard rock that adds a special charm to the composition. It's a detail that sets the song apart and shows how Temperance can explore other influences without losing its identity.

For all these reasons, Tower: Lean into Fear has become one of the album's most interesting tracks for me.

The Devil: Sin, Sin, Sin

If there's one thing Temperance does particularly well, it's writing choruses made to be sung out loud. The Devil: Sin, Sin, Sin is a great example. The track has a melodic structure that's easy to pick up, inviting listeners to sing along. It's the kind of song that could work especially well live, with the crowd turning into one big choir.

But its appeal goes beyond having a catchy chorus. This track also gives us the chance to appreciate Kristin Starkey's more operatic vocal lines and her versatility, which adds even more drama to the composition.

Considering the Devil card's themes of temptation, desire, and inner conflict, this dramatic intensity feels perfectly at home here. The result is a track that combines melodic appeal and theatricality without losing its heaviness.

Temperance: Forgiveness

I want to highlight this track precisely because it shares its title with the band. And while we're at it, here's an interesting detail: the name Temperance doesn't come directly from the meaning of the Tarot card of the same name, but rather from the literal and philosophical meaning of the word, which is associated with moderation, balance, and the blending of different elements.

It's interesting to think that this idea of balance also connects with the band's musical identity, which combines heaviness, melody, symphonic elements, and different vocal approaches.

Musically, the track delivers another memorable chorus, with repeated phrases that make it easy for the listener to connect with the song right away. The combination of engaging melodies, a cinematic atmosphere, and heaviness sums up many of the elements that make Temperance's sound so distinctive.

More than simply being a song named after the band, Temperance: Forgiveness feels like a strong representation of its musical identity.

The Chariot: Alla Ricerca dell'America

Taking an approach closer to a ballad, The Chariot: Alla Ricerca dell'America explores different musical nuances and brings a theatrical quality to the composition. The passages sung in Italian add an extra layer of emotion and drama which, for me, are among the track's greatest charms.

The choice of language also gives the performance something special, connecting the song to the band's Italian roots and creating an atmosphere that feels different from other moments on the album.

Rather than relying on the grandeur typically associated with power metal, this track focuses more on building an emotional experience. And that change in approach works beautifully, revealing another side of Temperance.

The Hanged Man: Petrichor

This is one of the most beautiful tracks on the album. It begins dramatically, with acoustic guitar lines creating an intimate atmosphere, but soon gains weight and develops into something melodic, triumphant, and cinematic.

The chorus is one of the highlights, especially because of the way the voices blend harmoniously. Once again, Kristin Starkey demonstrates her versatility, and her operatic passages add brightness and drama to the track without compromising its balance.

At almost seven minutes long, Petrichor could easily become tiring if it didn't know how to balance its different sections. However, the song manages to hold the listener's attention throughout, shifting between delicacy, heaviness, and grandeur in an engaging way.

It's a track that shows how Temperance can explore different atmospheres within a single composition without losing its cohesion.

The World

The album closes with a track that contrasts directly with the grandeur of Petrichor. At less than three minutes long, The World works as a moment of calm after the entire journey through the Major Arcana.

Here, the arrangement is stripped down to acoustic guitar, Kristin's vocals, and backing vocals in the chorus. This choice creates a delicate, intimate atmosphere, offering the listener a moment to breathe after all the shifts in intensity throughout the album.

I think this decision works really well as a closing statement. Instead of ending with yet another grand, epic track, Temperance opts for simplicity and brings the journey to a more contemplative close, leaving the listener with a sense of resolution.

A Journey Worth Revisiting

Arcani starts with a thematic concept that gives Temperance the opportunity to explore different atmospheres within its melodic and symphonic identity. Between memorable choruses, instrumental energy, and vocal performances worth highlighting, the album offers plenty of reasons to understand why the band caught my attention so quickly.

Although my expectations for this release were already high, listening to the full album allowed me to look beyond the singles and discover other layers of the work. The tracks have their own characteristics, explore different levels of intensity, and find ways to stand out without abandoning the identity that ties the album together.

And if there's one thing I can say at this point, it's that Temperance has made me want to return to the album, revisit the tracks, and discover new details with every listen. For a band that only recently found its way onto my playlist and quickly earned its place there, that already means a lot.

Alex Verona