- Olá Bruno. Obrigado pela sua gentileza em nos atender.
Parabéns pelo lançamento do álbum “Anxiety”, pois o material ficou de
primeira...
R: Muito Obrigado! nós que agradecemos o reconhecimento,
foi um trabalho árduo, e que chegou no resultado que queríamos.
- Como você pode descrever o trabalho na composição deste
tipo de sonoridade?
R: Bom, nesse estilo em especifico que foi Deathcore,
buscamos uma sonoridade mais bruta, direta e pesada com pouquíssimas passagens
melódicas, ao contrario do 1º álbum, guitarras bem presentes, bastante
breakdowns e vocais guturais, foi um estilo que nunca trabalhamos antes, então
o nosso produtor teve uma parte importante na nossa incorporação nesse estilo.
- Eu escutei o álbum diversas vezes e, só após várias
tentativas, consegui captar parte das suas ideias. Os fãs têm sentido este tipo
de dificuldade também? R: olha, sinceramente não, pra quem já está acostumado com o estilo, sabe
que muitas vezes pela distorção e os guturais não dá pra entender a letra,
porem ao lê-la creio q ideia do álbum fica bem clara, que tratamos de doenças
mentais, como ansiedade e depressão e qual a sensação que elas causam e o quão
importante é trata-las
- Existem planos para o relançamento de “Anxiety” através da
MS Metal Records na Europa, que é atual gravadora de vocês?
- Adorei o fato de trabalharem com o inglês, mas isso não
pode vir a atrapalhar vocês no mercado nacional?
R: Sim e não, nosso objetivo realmente não é o mercado
nacional, pois esse estilo é muito pouco valorizado aqui no brasil e nós
sabemos disso, por isso o inglês e por isso o trabalho com a MS Metal Records
lá fora.
- Como estão rolando os shows em suporte ao disco? A
aceitação está sendo positiva?
R: Olha, mais do que o esperado as pessoas tem elogiado
bastante, e sempre mencionando nossas musicas nas redes sociais, e o shows
estão bem enérgicos, do jeito que queríamos, os fãs comprando bastante merch,
está fluindo bem.
- Quem assinou a capa do CD? Qual a intenção dela e como ela
se conecta com o título?
R. Quem fez a capa foi o Carlos Fides, pra nós o melhor
nesse contexto, ficamos muito satisfeitos com o resultado. Sobre como a capa se
conecta com o titulo, nela nós vemos uma pessoa sentada, abraçando as pernas e
com muitos espinhos nela, isso é a forma ilustrada de como uma pessoa ansiosa
se sente, os pensamentos descontrolados, vontade de fazer tudo mas sem
conseguir se mexer como se tivesse vários espinhos a prendendo daquele jeito e
não sabendo como sair disso.
- “Anxiety” foi todo produzido pela banda, confere? Foi
satisfatório seguirem por este caminho?
R. confesso que o caminho foi mais difícil que o
esperado, pois mesmo sendo metal, nunca trabalhamos com deathcore, então era
tudo novo pra todos, mas vendo por um outro lado isso nos forçou a evoluir
técnica e psicologicamente então creio que no final das contas o saldo foi
positivo.
- Imagino que já estejam trabalhando em um novo full lenght.
Se sim, como está se dando o processo e como ele está soando?
R. a sim estamos sim, mas ele vai soar um pouco
diferente, buscamos uma sonoridade mais moderna como Motionless in White e BMTH
estão fazendo hoje, mas está ficando incrível.
- Novamente parabéns pelo trabalho e vida longa ao ADULFE...
Agora é contigo para as suas considerações finais...
R. R. Nós
que agradecemos o espaço, foi muito bom conversar com vocês, sigam a @_Adulfe
no Instagram, e nas outras redes sociais, nossa musica está em todas as
plataformas digitais, Spotfy, Deezer, Itunes, Youtube...
Por: Caco Garcia Fotos: Divulgação/Arquivo da banda e Vinny Vanoni
Formada em Porto Alegre RS, e com quase três décadas de história a Epitaph passa por um momento especial, lançando no final de junho seu segundo full-lenght, "Digital Screams", o qual vem sendo muito bem recebido por critica e público.
O álbum traz uma banda muito mais coesa, adicionando mais peso e novos elementos ao seu Heavy/Trash Metal.
Conversamos com um dos seus fundadores, o baterista César "Five", que nos contou mais detalhes do álbum e planos e expectativas para levar o nome da Epitaph cada vez mais longe.
RtM:"Digital Screams" chegou 17 anos depois de "Gettin' Down to Business". O que fez esse processo levar tanto tempo? Claro, há sempre as dificuldades enfrentadas por uma banda independente.
César Five: O "Digital Screams" teve seu processo de lançamento atrasado devido aos problemas que todas as bandas têm, como troca de integrantes, falta de recursos financeiros, de como o mercado do heavy metal estava e como as pessoas consomem música, além da pandemia e a enchentes aqui no RS, mas nunca pensamos em não lançar o álbum físico.
RtM: Realmente, mesmo com os custos e também com crescimento do streaming, sempre há público que prefere e gosta de ter o material físico.
César Five: Eu já estaria fora da música se não existisse meios de lançar o CD físico, pois é a realização material da tua obra, da tua música. As pessoas diziam que não existiriam mais livros e filmes, mas eles estão aí assim como LPs ,CDs e outras mídias físicas, pois sempre haverá quem prefira esse material. Esse atraso acabou por ajudar na qualidade final do trabalho, pois acertamos todos os detalhes que acabaram por tornar esse álbum como queríamos.
RtM: O álbum impressiona pela qualidade sonora, produção, arte gráfica e edição física. Em tempos de streaming, é louvável aa bandas independentes investirem em um CD físico, sabendo dos altos custos envolvidos, e o retorno geralmente mais lento.
César Five: Embora as despesas de fazer um álbum físico sejam grandes, decidimos fazer 200 cópias(comprem, pois vai virar raridade) que felizmente estão sendo vendidas rapidamente. Era fundamental para nós lançarmos o álbum físico, mesmo pressionados pelo tempo entre o primeiro álbum e esse, queríamos que essas músicas chegassem às pessoas como uma obra completa, e não aos pedaços, como singles espalhados pelas plataformas.
RtM: Que ótimo, recentemente vimos artigos falando sobre o aumento das vendas de CDs, então isso é satisfatório para quem seguiu acreditando no material físico.
César Five: Sim, isso é ótimo. E a espera e o esforço valeram a pena. Ter o material físico te coloca em outro patamar, até para negociar shows, e o fã pode ir no show e levar na hora a lembrança. Nesse momento você encontra as pessoas que gostam da tua música.
RtM: E complementando o que comentamos antes, muitas bandas independentes acabam lançando apenas singles por questões financeiras, mas a Epitaph apostou em um álbum completo, concebido como uma obra única, mesmo diante de tantos desafios.
César Five: Não haveria sentido para nós lançarmos singles nas plataformas digitais, que embora fundamentais hoje em dia, não te trazem nada além de contatos e curtidas, e que não demonstram se o material é forte e se chegou ao público.
E depois de ver o trabalho pronto, acharia uma grande injustiça não tornar um material físico o esforço de todos que compuseram, gravaram, produziram, escreveram as letras, conceberam e fizeram a capa, todo o trabalho gráfico, enfim a alma de tudo virar um simples arquivo, sem vida que pode ser deletado com apenas um toque após ser escutado.
RtM: Sim, a materialização da obra. Como colecionador e defensor da mídia física, eu aplaudo a iniciativa de todos que seguem lançando CDs e LPs.
César Five: Gostaria que fosse lançado em LP mas os altos custos impossibilitaram, mas esse CD tem encarte, letras, fotos, capa que faz a experiência da audição muito mais interessante.
RtM: Ao ouvir o álbum, fica evidente uma evolução em direção a um Heavy Metal mais pesado, com influências de Thrash, e ainda elementos de Hard, Southern e Classic Rock. Gostaria que você comentasse a respeito desses novos elementos e detalhes que você comentou antes, e evolução sonora da Epitaph.
César Five: As músicas desse álbum são as influências de todos os músicos que estiveram na banda nesses longos anos. Todos de alguma forma colaboraram e são devidamente creditados no encarte e são parte importante da história da banda. A entrada do André “Canhoto”Carvalho e o Fábio Figueiredo, como guitarrista e baixista respectivamente, foram as peças que faltavam para seguirmos em frente.
RtM: Eles chegaram somando e contribuindo para essa nova fase
César Five: Exato. O Canhoto e o Fábio não entraram apenas para gravar o que estava pronto, mas sim colocar as suas personalidades e estilos nas músicas e alteraram o que foi preciso. Assim funciona uma banda que quer chegar a algum lugar. Tínhamos um material forte, que lapidamos dentro do estilo que a banda é...puro Heavy Metal.
RtM: A faixa-título aborda temas extremamente atuais, como polarização nas redes sociais e Inteligência Artificial, com a tecnologia aproximando as pessoas, mas também gera conflitos e desumanizando as relações. Gostaria que vocês comentassem a respeito dessa faixa, onde novamente vocês contaram com a colaboração de Gustavo Demarchi (Apocalypse).
César Five: O Gustavo Demarchi é um amigo de longa data, que hoje mora em Portugal, pedimos a ele na época para escrever a letra do que virou a "Digital Screams", pois ele sempre foi ótimo letrista, tanto na The Wise, Apocalypse e outros projetos dele. A música foi feita pelo Marlon Steindorff e eu, e ele gostou muito, e já escreveu as partes dele e as do Joe.
No dia da gravação foi muito divertido, pois ambos estavam preparados e deram um show de profissionalismo. Acho essa música sensacional, e o Canhoto colaborou com mais riffs depois. Acho que ela uma música de alto nível, temos muito orgulho dela.
RtM: “Loser’s Life” abre o álbum, e também se destaca, sendo uma excelente apresentação para quem vai ouvir a banda pela primeira vez, tendo uma pegada pesadíssima. Comentem também um pouco mais sobre essa faixa.
César Five: Na hora que estávamos construindo o tracklist do CD, colocamos a Loser´s Life como faixa de abertura pois ali resume o que é o Digital Screams: muitos riffs, paradinhas de bateria, thrash, e um refrão maravilhoso, tem várias levadas de bateria e solos sensacionais, e o Joe canta a letra com muita força.
RtM: E temos a “The Girl Who Loved the Dead”, que foi o primeiro single e vídeo do álbum, com uma temática bem interessante, e mostrando já alguns desses novos elementos do som da banda, provavelmente sendo esse um dos motivos que foi escolhida para a primeira amostra do trabalho. O que vocês podem nos falar mais a respeito dessa faixa e suas inspirações?
César Five: A "The Girl" é uma letra do Dênis, a música tem partes minhas, do antigo guitarrista Marcelo Fernandez, o baixista André Soares e do Marlon. Ela tem partes diversas, e chama atenção pelo tema acústico no meio, que deu um ar de Mercyful Fate e King Diamond. Todos sabíamos que seria essa a música single e do vídeo, é forte, cheia de passagens diferenciadas e foi filmada pelo Renato da Chama Video em 4 horas apenas. Ficou com cara daqueles filmes da Hammer de terror dos anos 60.
Cena do vídeo "The Girl Who Loved the Dead"
RtM: As letras de Denis Winston Brum voltam a trazer críticas sociais, políticas e religiosas bastante contundentes. Como funciona essa parceria entre compositor e letrista? As músicas nascem primeiro ou a temática das letras acaba influenciando os arranjos?
César Five: O Dênis Winston, além de escritor com vários livros editados, roteirista, é uma verdadeiro máquina de produzir cultura, é amigo pessoal meu desde 1991, padrinho do meu filho e fã de heavy metal, ficção científica e filmes de terror antigos. A Epitaph já estava compondo material e mostramos a música e ele logo compôs a letra da clássica Remote Control que foi feita lá em 2000 e se mantém atual até hoje.
A parceria naturalmente cresceu onde mandávamos a música na sua estrutura básica e ele desenvolvia com ideias suas ou sugestão de letras nossas. Às vezes mudávamos os arranjos para melhor adaptar as letras aos vocais do Joe.
RtM: E é notório o cuidado que vocês tiveram com as letras.
César Five: A Epitaph sempre se preocupou com as letras. No primeiro álbum ele escreveu oito letras, eu a "Wrong Choice" e o Gustavo Demarchi a "Metal Wings". A música "Red White and Blue" é tão atual que só mudou o Bush e sua guerra do Afeganistão pelo Trump e o Irã, é atemporal pois o mundo infelizmente vive de guerras.
E para o "Digital Screams" mantivemos a equipe de compositores, com o Dênis com 5 letras, eu com a "Road of Fire" (adaptada pelo Dênis), Gustavo Demarchi com a faixa título e o Joe com a "Blue Cave". Os temas são ótimos e mantém a qualidade e fortalecem a parte musical.
RtM"Blue Cave" encerra o álbum com uma narrativa bastante humana, inspirada em uma realidade conhecida dos gaúchos. Como surgiu essa história e por que vocês escolheram fechar o disco justamente com essa música?
César Five: A Blue Cave, ou Gruta Azul, é o nome de uma famosa boate aqui de Porto Alegre, e o Joe F. Louder, fazia os trabalhos da parte gráfica da casa e das moças que trabalhavam lá, inclusive da hoje famosa Andressa Urach. A inspiração veio daí e ele transformou numa ótima letra, que seria interessante se chegasse a Andressa.
A parte instrumental que finalizou a música foi do Canhoto, pois achamos que deveria ter algo que fechasse o CD de forma diferente e ele trouxe aquele momento acústico que deu uma classe incrível ao álbum.
RtM: A produção de Lucas Santorum conseguiu preservar um som orgânico e pesado, algo que muitos fãs sentem falta em produções excessivamente digitais. Qual era a proposta sonora que vocês tinham em mente antes de entrar em estúdio?
César Five: O Lucas foi aquele que chegou no momento certo. Já tínhamos as músicas prontas, as baterias já todas gravadas , a pré produção pronta, mas não encontrávamos o som que queríamos. Felizmente ele entendeu o que buscávamos: um som estilo as produções do Andy Sneap, pesado, moderno e contemporâneo, mas sem ser “modernoso”, afinal somos uma banda de heavy Metal Tradicional.
Gravamos no seu estúdio o LST, guitarras, baixo e parte dos vocais, e não só trabalhou como técnico de som, mas como produtor, opinando, cobrando esforços para aquele take a mais. Como presente, ele gravou o solo de guitarra inicial da música "National Guard" e não vemos a hora de gravar com ele novamente.
RtM: O personagem da capa do primeiro álbum retorna em "Digital Screams", e o encarte traz diversas referências à cultura pop, Rock e Metal. Existe uma intenção de criar uma identidade visual contínua para a Epitaph, conectando passado e presente da banda?
César Five: O personagem da capa, é o mesmo que está no Getting Down To Business, ele é enigmático, e ainda vamos descobrir o que ele guarda na sua maleta. Mantivemos a ideia de ser ele o cara digitalizado no novo álbum, assim como um personagem relacionado a banda.
O encarte tem referências ao primeiro álbum como a gárgula e o relógio, e o trabalho gráfico da Juliana Louis foi incrível, pois eu ia pedindo referências que me marcaram e ela ia adaptando na foto do encarte...ali tem coisas de séries de TV, bandas, personagens históricos, frases clássicas enfim é um bom passatempo escutar o CD e ir procurando tais referências.
A foto do encarte traz várias referências marcantes para César e a banda.
RtM: Finalizando, depois de um disco tão forte e de uma resposta que vem sendo bastante positiva da imprensa e do público, quais são os próximos passos da Epitaph? A ideia é intensificar os shows e diminuir o intervalo até o próximo álbum?
César Five: O momento é de divulgar o CD seja por shows ou através de contatos que impulsionem que ele chegue a mais pessoas. Estamos muito satisfeitos com a repercussão do álbum, pois sabíamos que o material é forte, pois mostra nosso crescimento como músicos e compositores.
Montar uma agenda de shows não é simples, pois todos temos empregos regulares e famílias e conciliar datas e logística é complicado, mas temos objetivos que é de tocar novamente em outros estados, abrir shows internacionais se possível.
Algumas músicas ficaram de fora desse álbum serão gravadas com o Lucas e serão lançadas como singles de tempos em tempos com vídeo clipe. Mas se depender de mim ainda haverá outro full lenght da Epitaph.
RtM: Muito obrigado, César, sucesso à vocês nesses próximos passos, e mais uma vez parabéns pelo trabalho! Pessoal, ouçam!
César Five: agradeço ao Road To Metal pelo espaço muito importante para a banda. Obrigado a todos que tem comprado o álbum físico, ido aos shows e que de alguma forma estão ajudando a Epitaph a crescer.
Epitaph é:
Joe F. Louder nos vocais, Marlon Steindorff e André Carvalho "Canhoto" nas guitarras, Fabio Figueiredo no baixo e César "Five" Louis na bateria
O supergrupo Left To Die, liderado pelos ex-integrantes do Death Rick Rozz e Terry Butler, retornou à capital paulista para revisitar os primeiros anos de um dos nomes mais importantes da história do death metal. Em primeira mão no Brasil, a banda apresentou o álbum "Initium Mortis", de 2026, trabalho que reúne regravações em tributo à fase embrionária do Death e do Mantas. Ao lado de Cemitério e Flagelador, responsáveis pelas apresentações de abertura, o grupo protagonizou uma noite dedicada à música pesada, conectando diferentes gerações do metal extremo diante de um excelente público que lotou a Burning House no último dia 9.
Responsável por abrir a noite, o Cemitério entrou no palco sem precisar de muito tempo para estabelecer sua atmosfera de horror e metal extremo. Com Hugo Golon nos vocais e baixo, Douglas Gatuso na guitarra e Guilherme Fructuoso na bateria, o trio paulistano apresentou seu death/thrash metal de inspiração cinematográfica em uma sequência que começou com "Massacre no Texas" e passou por "Tara Diabólica", "Oãxiac Odèz", "O Dia de Satã" e "A Sentinela dos Malditos", mantendo a agressividade e o peso característicos da banda. A temática de filmes de terror continuou em "Sexta-feira 13", "Holocausto Canibal", "Natal Sangrento", "A Volta dos Mortos Vivos" e "A Vingança de Cropsy", enquanto "Quadrilha de Sádicos" mostrou novamente a facilidade com que o grupo transforma seus refrões em momentos de participação dos fãs. O público acompanhou e cantou as músicas, deixando claro que aquelas composições já são conhecidas do underground paulista. A escolha de "Damien", versão para o clássico do Taurus, acrescentou uma conexão especial com a história do metal brasileiro, antes de "Pague para Entrar, Reze para Sair" fechar o set. O resultado foi que o Cemitério ocupou seu espaço com personalidade própria, unindo death metal old school, referências ao cinema de horror e letras em português em uma apresentação que encontrou um público pronta para cantar cada verso.
Em seguida, O Flageladör mostrou por que se tornou uma das referências do speed/thrash metal brasileiro, apostando em uma apresentação direta, veloz e sem qualquer pudor. Com Armando Exekutor nos vocais e guitarra, Alan Magno no baixo, Junior Bzrra na guitarra e Vinícius Talamonte na bateria, a banda atravessou seu repertório como uma máquina de riffs, passando por "Ultimatum/Flageladör", "Perseguir e Exterminar", "Cruzada ao Lado de Satã" e "Expresso para o Inferno", sem dar espaço para a pista respirar. O público não apenas acompanhou a apresentação, mas cantou praticamente todas as músicas, transformando "A Noite do Ceifador", "Carnificina", "Unidos pelo Metal" e "Forjado em Aço e Fogo" em momentos de intensa participação. A sequência final, com "Assalto da Motosserra", "Obcecado por Sangue", "Queimando nas Chamas do Heavy Metal", "Máxima Voltagem", "Nas Minhas Veias Corre Fogo" e "Ao Vivo no Inferno", consolidou o caráter de celebração underground da apresentação, com a banda mantendo a velocidade e o peso até o último riff.
Era chegada a hora dos anfitriões. Formado por músicos diretamente ligados aos primeiros anos do Death, o Left To Die reúne Rick Rozz e Terry Butler, integrantes da formação clássica responsável pelos registros Scream Bloody Gore (1987) e Leprosy (1988), fundamentais no início da carreira de Chuck Schuldiner. Além de Matt Harvey, nos vocais e guitarra, e Vinicius Talamonte, do Flagelador, que assumiu a bateria nesta apresentação, a formação contou com a substituição de Gus Rios, que sofreu um descolamento de retina durante a turnê. Mesmo diante da mudança de última hora, o que se viu no palco foi uma performance intensa, pesada e fiel à sonoridade que ajudou a estabelecer os alicerces do death metal.
A atmosfera já começou pesada antes mesmo da primeira música, quando a sonoridade sombria de "E5150", do Black Sabbath, serviu como introdução para o que viria a seguir. A abertura com "Infernal Death" proporcionou uma verdadeira explosão, fazendo as primeiras rodas se abrirem imediatamente na pista. "Mutilation" manteve a pressão, enquanto "Leprosy" trouxe um dos primeiros momentos de interação com o público. "É muito bom estar de volta", declarou Matt Harvey, antes de perguntar se os fãs conheciam quem estava na bateria. A resposta veio em forma de gritos para Vinicius Talamonte. Em seguida, Harvey pediu aplausos para Rick Rozz, apresentado como "o cara que escreveu a bíblia do Death Metal". O guitarrista foi recebido calorosamente pelos fãs.
"Primitive Ways" manteve a pancadaria e ganhou uma dedicatória especial, já que aquele era o último show da banda no Brasil. Matt aproveitou o momento para dedicar a música às bandas brasileiras Cemitério e Flagelador. Na sequência, o Left To Die deixou de lado momentaneamente o repertório do Death para revisitar "Legion of Doom", do Mantas, projeto que antecedeu a formação do Death e que faz parte do álbum Initium Mortis, de 2026. A viagem pelas raízes da banda continuou com "Scream Bloody Gore", introduzida por uma provocação de Matt Harvey: "Vocês se lembram do nome do primeiro disco do Death?". A pergunta foi rapidamente respondida pela explosão dos fãs diante de um dos maiores clássicos daquela primeira fase.
A partir de "Death by Metal", outra composição do período do Mantas, a pista da Burning House pareceu entrar em estado de completo caos. As rodas ficaram ainda mais intensas, transformando o espaço em um verdadeiro pandemônio. "Corpse Grinder" chegou com sua violência sonora, e "Left to Die" foi acompanhada em alto e bom som pelo público, que cantou o refrão com a banda. Antes de "Zombie Ritual", Matt Harvey voltou a provocar os fãs: "São Paulo, vocês detonam! Ouvi vocês cantando a última, então essa quero ouvir mais alto ainda". O pedido foi atendido prontamente, com o público reproduzindo as melodias iniciais da guitarra e agitando intensamente ao som de mais um clássico absoluto.
No encore, "Pull the Plug" elevou novamente a temperatura da Burning House. "O espírito do Chuck Schuldiner ainda está vivo em São Paulo?", perguntou Matt, provocando uma resposta imediata dos fãs, que passaram a gritar o nome de Chuck em homenagem ao fundador do Death. Para encerrar a apresentação, "Evil Dead" completou uma noite dedicada às raízes mais primitivas e agressivas da banda. Mais do que simplesmente reproduzir músicas de um período histórico, o Left To Die proporcionou ao público a oportunidade de ouvir ao vivo uma sonoridade que ajudou a moldar o death metal em seus primeiros anos. Com Rick Rozz e Terry Butler representando diretamente aquela história, Matt Harvey conduzindo a apresentação e Vinicius Talamonte assumindo a bateria em uma situação inesperada, o grupo entregou uma celebração visceral da fase inicial do Death, deixando a Burning House tomada pela energia de um público que conhece e reverencia cada detalhe dessa história.
Existem mudanças de formação que alteram uma banda. E existem aquelas que colocam em xeque a própria identidade construída ao longo de décadas. Para o Schandmaul, Sternensegler nasce exatamente nesse território delicado. Lançado em 11 de setembro de 2026 pela Napalm Records, o décimo segundo álbum de estúdio do grupo alemão marca a estreia de Till Herence como vocalista principal, enquanto Thomas Lindner, voz que durante mais de duas décadas esteve no centro da personalidade da banda, permanece no Schandmaul assumindo piano, teclados, violão e acordeão.
A primeira impressão, porém, não é de ruptura. É de movimento. Quando Nimm alles mit entra, a sensação é de que o Schandmaul deliberadamente escolheu não transformar esse novo capítulo em um manifesto melancólico. O álbum começa imediatamente, com guitarras, elementos folk e uma energia que aponta para frente. E isso é importante: Sternensegler não tenta esconder que existe uma nova voz, mas também não parece interessado em pedir desculpas por ela.
Till Herence tem uma voz mais clara e menos áspera que a de Lindner. Isso muda a temperatura das músicas. Em alguns momentos, o resultado se aproxima mais do folk rock melódico e até de uma linguagem pop-rock; em outros, especialmente quando as guitarras ganham espaço, essa suavidade se transforma em uma vantagem. O instrumental continua reconhecível: violino, flautas, gaita de foles, viela de roda, alaúdes e as diferentes guitarras dividem espaço com uma cozinha rítmica que mantém o disco em movimento.
O grande mérito de Sternensegler está justamente nessa negociação. O Schandmaul não soa como uma banda tentando recriar artificialmente o passado. Mas também não está reinventando sua linguagem do zero. E é nessa zona intermediária que o álbum encontra sua personalidade.
1. Nimm alles mit
Nimm alles mit já começa com aquela combinação característica de rock e instrumentos tradicionais, mas a voz de Herence muda imediatamente a percepção do conjunto. Ele canta com uma clareza que deixa as melodias mais abertas, enquanto a instrumentação cria a sensação de estrada, movimento e recomeço.
É uma escolha muito inteligente para abrir o álbum porque a música não fica presa ao peso da mudança. Existe uma espécie de urgência positiva nela, como se a banda dissesse que, depois de tudo, ainda existe muito para viver.
Thomas Lindner contou que a música foi escolhida para a abertura justamente porque, quando todas as faixas estavam reunidas, ela se apresentou como uma escolha natural: começa imediatamente, tem energia rock'n'roll e carrega uma mensagem positiva. Musicalmente, é um excelente cartão de visitas para a nova formação.
2. Sternensegler
A faixa-título diminui um pouco a velocidade, mas aumenta a sensação de amplitude. O Schandmaul trabalha aqui com uma construção mais atmosférica, e os instrumentos folk aparecem como parte essencial da arquitetura da música.
O que mais chama atenção é a maneira como a voz de Herence se encaixa nesse espaço. Existe leveza, mas não fragilidade. O refrão tem aquela característica de música que parece feita para ser cantada por um público inteiro, enquanto as guitarras e os elementos tradicionais dão profundidade à composição.
A faixa também funciona como uma espécie de declaração estética do álbum: olhar para o futuro sem abandonar as próprias raízes. É uma música bastante acessível, mas não descartável, principalmente porque a instrumentação impede que ela caia em uma estrutura pop genérica.
3. Beide Füße in der Luft
Aqui o álbum começa a mostrar um lado mais irreverente. Beide Füße in der Luft tem uma energia mais saltitante e uma presença rítmica que deixa a música consideravelmente mais física. É uma das faixas em que o novo vocalista parece mais confortável em assumir a própria personalidade, sem precisar carregar o fantasma da voz anterior.
A guitarra ganha importância, os elementos medievais ficam mais evidentes e o arranjo cria uma espécie de movimento circular que combina perfeitamente com o título. Há também um toque mais próximo do rock tradicional, o que faz a faixa funcionar como uma pequena quebra dentro da sequência inicial.
4. Flagge
Se existe uma faixa que dá ao álbum uma espinha dorsal mais firme, é Flagge. A banda assume uma postura política direta contra o extremismo de direita e o discurso de ódio, mas sem abandonar a característica melódica que sempre esteve no centro do Schandmaul. A música tem uma pegada mais roqueira, com guitarras mais presentes e uma estrutura que privilegia impacto e refrão.
E é justamente aqui que a nova voz funciona particularmente bem. Herence canta com precisão e deixa as palavras muito expostas. Não existe necessidade de exagerar na interpretação porque o arranjo já entrega a força necessária. O resultado é um dos momentos mais marcantes de Sternensegler, justamente por unir mensagem, melodia e peso sem transformar a música em um panfleto.
5. Nosferatu
Nosferatu muda novamente o cenário e coloca o Schandmaul em uma atmosfera mais cinematográfica. A música tem uma construção mais teatral, com os instrumentos folk criando imagens quase imediatamente. É fácil visualizar uma narrativa acontecendo enquanto a faixa avança, e esse é um dos grandes diferenciais do grupo: mesmo quando a produção é moderna e limpa, existe uma preocupação evidente em construir ambientes.
Os elementos tradicionais aparecem com bastante personalidade, enquanto as guitarras seguram a estrutura rock. A faixa é longa o suficiente para desenvolver sua ideia sem parecer apressada, e os arranjos fazem diferença especialmente nos momentos em que a música ganha dimensão.
6. Wo Sprache aufhört
Aqui o disco entra em uma região mais delicada. Wo Sprache aufhört é construída sobre uma melodia extremamente acessível e uma interpretação mais emocional de Herence. O refrão tem forte potencial de permanência e, justamente por isso, é uma das faixas mais fáceis de imaginar funcionando ao vivo.
Mas também é um dos momentos em que Sternensegler chega mais perto do limite entre folk rock e pop-rock. A composição funciona porque o Schandmaul sabe preencher essa estrutura com instrumentos tradicionais. Sem eles, provavelmente seria uma música muito mais convencional. Com eles, ganha identidade suficiente para permanecer dentro do universo da banda.
7. In der Hand
Depois da delicadeza anterior, In der Hand recoloca o corpo do álbum em movimento. A percussão ganha destaque e existe uma sensação de balanço muito mais pronunciada. As melodias folk aparecem de maneira particularmente viva, e a faixa demonstra como o Schandmaul consegue fazer instrumentos tradicionais dialogarem com uma estrutura de rock sem que um lado pareça estar apenas acompanhando o outro.
É uma música extremamente eficiente na construção de clima. Também é aqui que se percebe como a produção de Sternensegler privilegia clareza. Cada instrumento encontra seu espaço, mas a sonoridade não fica excessivamente separada. O resultado é um álbum grande, limpo e contemporâneo, sem eliminar as características acústicas que fazem o grupo ser reconhecido.
8. An beiden Enden
An beiden Enden retorna à atmosfera mais contemplativa do disco. A música tem uma construção que privilegia a melodia e a interpretação vocal, e Herence novamente se beneficia da característica mais clara de sua voz. Ele não tenta reproduzir o peso de Lindner; trabalha com outra dinâmica, deixando as notas respirarem mais.
É uma escolha interessante dentro da sequência porque funciona como uma ponte entre a parte mais energética do álbum e a reta final, que começa a ficar progressivamente mais emocional.
9. Lass nicht los
Aqui o Schandmaul volta a acertar em cheio no refrão. Lass nicht los combina uma interpretação vocal mais expansiva com violino e uma construção melódica extremamente eficiente. É uma daquelas faixas em que a banda consegue ser sentimental sem abandonar completamente o caráter festivo.
A voz de Herence funciona especialmente bem nesse contexto porque existe espaço para ele trabalhar intensidade. Em vez de tentar competir com a instrumentação, ele deixa a melodia conduzir a música.
10. Trag Dich
Trag Dich é a balada declaradamente sentimental do disco. E aqui é preciso reconhecer que o Schandmaul não tenta esconder o romantismo. A música é direta, emocional e deliberadamente delicada. Herence interpreta tudo com bastante controle, evitando transformar a faixa em um exercício vocal exagerado.
11. Zwei Raben feat. Laura Fella
E então chega a música que transforma o encerramento em acontecimento. Zwei Raben já começa em uma atmosfera muito mais frágil, sustentada por elementos folk e pela participação de Laura Fella, do Faun. A entrada da cantora cria imediatamente um contraste interessante com Herence, e a música ganha uma dimensão quase narrativa.
O mais importante, entretanto, é a progressão. A faixa não entrega seu impacto imediatamente. Ela cresce. Primeiro existe intimidade, depois os instrumentos começam a ocupar mais espaço e, quando as guitarras entram com força, o encerramento assume proporções épicas.
A escolha também carrega história: Zwei Raben já havia aparecido no projeto WETO, no álbum Schattenspieler, de 2011, e agora é incorporada ao universo do Schandmaul com uma nova roupagem e a participação de Fella.
É um daqueles casos em que a última faixa não parece simplesmente colocada no fim da tracklist. Ela foi pensada para encerrar o percurso. E funciona.
Depois de mais de duas décadas construindo uma identidade própria dentro do power metal europeu, o Firewind decide olhar para suas próprias raízes culturais em Gods, Myths & Titans. Inspirado pela mitologia grega, o álbum transforma deuses, heróis, batalhas e tragédias em matéria-prima para um trabalho conceitual que amplia a dimensão épica da banda sem abandonar os elementos que a tornaram reconhecível.
A ambição fica evidente desde “Prologue Sacrifice”, introdução instrumental orquestrada que abre caminho para “Firegod”. A transição deixa claro que, embora o Firewind tenha investido em uma atmosfera mais cinematográfica, sua essência continua intacta: riffs velozes, refrãos melódicos, coros e, acima de tudo, a guitarra de Gus G., que permanece como um dos principais motores da banda.
“Firegod” e “I Will Sail On” estabelecem rapidamente essa linguagem. São faixas que dialogam diretamente com o power metal que os fãs esperam do Firewind, mas encontram espaço para backing vocals e arranjos que ampliam sua dimensão. A voz de Henning Basse, de volta à banda, também merece atenção. Mais áspera e encorpada do que o padrão vocal associado ao power metal mais tradicional, sua interpretação acrescenta personalidade às composições e funciona particularmente bem quando o material exige maior dramaticidade.
É nesse contexto que “The Legend Of Achilles”, primeiro single, ganha importância. A faixa funciona como a síntese mais imediata da proposta do álbum: peso, velocidade, melodias marcantes e uma atmosfera cinematográfica que transforma a narrativa de Aquiles em um épico de arena. O refrão possui aquela característica essencial ao gênero — fácil assimilação e vocação para ser devolvido pelo público em uníssono — enquanto Gus G. alterna precisão técnica e musicalidade sem transformar o virtuosismo em mero exercício de exibicionismo.
Mais importante, o single estabelece a principal questão que acompanha o restante do disco: até que ponto os elementos orquestrais e cinematográficos conseguem expandir a linguagem do Firewind sem simplesmente ornamentar uma fórmula já conhecida? A resposta, felizmente, é mais complexa do que um simples sim ou não.
“Cries Of A Mortal” é um dos melhores exemplos dessa tentativa de equilíbrio. Mais cadenciada e construída sobre diferentes camadas, a faixa deixa o power metal respirar em vez de depender exclusivamente da velocidade. As mudanças de clima e os backing vocals bem trabalhados acrescentam profundidade à composição, enquanto a banda funciona como um conjunto — algo particularmente importante em um álbum no qual Gus G. naturalmente poderia dominar todos os espaços.
Quando o Firewind acelera novamente, como em “Queen Of The Underworld”, a fórmula tradicional volta a ocupar o centro do palco. A faixa é direta, veloz e repleta de oportunidades para Gus G. demonstrar sua técnica, mas também revela um dos poucos momentos em que o álbum parece simplesmente revisitar territórios já conhecidos. Não chega a comprometer o conjunto, mas sua presença evidencia que a ambição conceitual nem sempre resulta em uma renovação equivalente da linguagem musical.
A influência do power metal europeu é onipresente, mas o Firewind não se limita a um único modelo. “Under Aegean Skies” remete claramente à tradição de bandas como Stratovarius, tanto pelo timbre das guitarras quanto pela construção melódica, enquanto os teclados assumem papel importante na arquitetura da faixa. Já “A King Dethroned” adiciona uma tonalidade mais próxima do hard rock e do heavy metal tradicional, com ecos de Scorpions em seu andamento mais cadenciado e nos refrãos acessíveis.
Essas referências, entretanto, aparecem mais como ingredientes do que como cópias. E é justamente essa variedade que impede Gods, Myths & Titans de se transformar em um exercício excessivamente previsível dentro do power metal. Os solos de Gus G. também ajudam nesse processo: em determinados momentos aproximam-se do erudito, em outros mergulham diretamente no metal, mas quase sempre permanecem subordinados à composição.
“Unbreakable” acrescenta outra peça importante ao álbum: a power ballad. Depois de tanta velocidade e grandiosidade, a faixa começa de maneira mais delicada, apoiada por arranjos orquestrais que criam uma atmosfera quase cinematográfica. Henning Basse apresenta aqui uma faceta mais limpa e contida, enquanto a guitarra de Gus G. traz à tona uma influência evidente de Yngwie J. Malmsteen. O crescimento gradual da composição desemboca em um refrão acompanhado por um belo coral, funcionando como contraponto necessário à avalanche sonora que domina boa parte do disco.
E então chega “Titans Fall”, encerrando a parte musical do álbum antes do epílogo. É provavelmente o momento em que a proposta de Gods, Myths & Titans encontra sua forma mais completa. Cinematográfica desde os primeiros segundos, a faixa reúne coros, melodias grandiosas, peso e um refrão construído para ser cantado coletivamente. Gus G. entrega outro solo de destaque, desta vez acompanhado por um coral que reforça a sensação de clímax. O epílogo instrumental prolonga essa atmosfera e conduz o álbum a um encerramento coerente com sua proposta conceitual.
No final, Gods, Myths & Titans funciona justamente porque o Firewind não tenta abandonar aquilo que sabe fazer para provar que está fazendo algo diferente. A mitologia grega fornece o cenário e a narrativa; as orquestrações e os elementos cinematográficos ampliam a escala; mas a essência continua sendo o power metal melódico, as grandes melodias, os refrãos e a guitarra de Gus G.
O álbum também ganha força com a presença de Henning Basse, cuja voz acrescenta uma camada mais agressiva e dramática às composições. E embora algumas faixas permaneçam próximas demais da fórmula tradicional do gênero, o conjunto encontra variedade suficiente em seus arranjos, mudanças de andamento e referências para evitar que a audição se torne monótona.
Há, portanto, uma coerência interessante entre tema e música. Afinal, poucos grupos poderiam contar uma história sobre deuses, mitos e titãs com tanta propriedade quanto uma banda originária da própria Grécia. O Firewind transforma esse patrimônio cultural em combustível para um álbum que privilegia a grandiosidade sem abrir mão da musicalidade.
Gods, Myths & Titans não representa uma ruptura radical na trajetória do Firewind — e talvez nem precise. É, antes, uma expansão consciente de sua identidade, na qual a banda encontra novas dimensões para uma linguagem que domina há anos. Para os fãs do grupo e do power metal melódico, é uma viagem que entrega peso, técnica, melodias e, acima de tudo, uma boa dose de épica sem perder o prazer de simplesmente ouvir uma grande banda de metal tocando no limite de suas possibilidades.
***ENGLISH VERSION***
After more than two decades of forging their own identity within European power metal, Firewind turn to their cultural roots on Gods, Myths & Titans. Inspired by Greek mythology, the album transforms gods, heroes, battles and tragedies into the raw material for a conceptual work that expands the band's epic dimension without abandoning the elements that have made them instantly recognizable.
The ambition is evident from the opening moments of “Prologue Sacrifice”, an orchestral instrumental that sets the stage for “Firegod”. The transition makes one thing clear: although Firewind have invested heavily in a more cinematic atmosphere, their essence remains intact — fast riffs, melodic choruses, layered backing vocals and, above all, the guitar work of Gus G., which remains one of the band's defining forces.
“Firegod” and “I Will Sail On” quickly establish this musical language. Both tracks embrace the power metal formula Firewind fans expect, while leaving room for carefully arranged backing vocals and additional layers that broaden their scope. Henning Basse, returning to the band, also deserves particular attention. His voice is rougher and more muscular than the style traditionally associated with classic power metal, giving the songs an added sense of character and working particularly well when the material calls for greater dramatic weight.
It is within this context that “The Legend Of Achilles”, the album's first single, becomes particularly significant. The track serves as the clearest statement of intent on Gods, Myths & Titans: weight, speed, memorable melodies and a cinematic atmosphere that turns the story of Achilles into an arena-sized epic. Its chorus has precisely the quality the genre demands — immediate, accessible and seemingly designed to be sung back by a crowd — while Gus G.
balances technical precision with musicality, never allowing virtuosity to become an exercise in showing off.
More importantly, the single establishes the central question that follows the album throughout: to what extent can orchestral and cinematic elements expand Firewind's musical vocabulary without merely decorating a formula they already know inside out? Fortunately, the answer is more complex than a simple yes or no.
“Cries Of A Mortal” provides one of the clearest examples of this balancing act. More measured and built around multiple layers, the track allows the power metal to breathe rather than relying exclusively on speed. Its shifts in mood and carefully arranged backing vocals add depth, while the band works effectively as a unit — something particularly important on an album where Gus G. could easily dominate every available space.
When Firewind accelerate again, as on “Queen Of The Underworld”, the band's traditional formula moves back to the forefront. The track is direct, fast and filled with opportunities for Gus G. to showcase his technique, but it also represents one of the few moments when the album seems content to revisit familiar territory. It does not undermine the record, but its presence makes it clear that the conceptual ambition does not always translate into an equally significant musical departure.
The influence of European power metal is omnipresent, but Firewind are not confined to a single template. “Under Aegean Skies” clearly echoes the tradition of bands such as Stratovarius, both in its guitar tones and melodic construction, while the keyboards play an important role in shaping the track. “A King Dethroned”, meanwhile, introduces a more traditional heavy metal and hard rock flavor, with echoes of Scorpions in its more measured pace and accessible chorus.
These references, however, function more as ingredients than as blueprints. And that distinction is important. The album's variety helps prevent Gods, Myths & Titans from becoming an overly predictable exercise in power metal orthodoxy. Gus G.'s solos contribute to that sense of movement as well: at times they lean toward the classical, at others they plunge headfirst into metal, but they remain largely at the service of the compositions.
“Unbreakable” adds another essential piece to the album: the power ballad. After so much speed and grandeur, the track begins on a gentler note, supported by orchestral arrangements that create an almost cinematic atmosphere. Henning Basse reveals a cleaner and more restrained side here, while Gus G.'s guitar work brings an unmistakable Yngwie J. Malmsteen influence to the surface. The gradual build leads to a chorus enhanced by a beautiful choir, providing a necessary counterpoint to the sonic assault that dominates much of the record.
Then comes “Titans Fall”, closing the musical body of the album before the epilogue. It is arguably the point at which the concept of Gods, Myths & Titans reaches its fullest expression. Cinematic from the opening seconds, the track brings together choirs, grand melodies, weight and a chorus built for communal singing. Gus G. delivers another standout solo, this time framed by a magnificent choir that reinforces the sense of climax. The orchestral epilogue extends that atmosphere and brings the album to a conclusion consistent with its conceptual framework.
Ultimately, Gods, Myths & Titans works because Firewind do not attempt to abandon what they do best simply to prove that they are doing something different. Greek mythology provides the setting and narrative; the orchestration and cinematic elements increase the scale; but the essence remains melodic power metal, driven by strong melodies, memorable choruses and the unmistakable guitar work of Gus G.
The album is further strengthened by the return of Henning Basse, whose voice adds a more aggressive and dramatic layer to the compositions. And although some tracks remain close to the genre's established formula, the combination of different arrangements, tempo changes and musical references provides enough variety to keep the record from becoming predictable.
There is an appealing coherence between theme and music here. After all, few bands could tell a story about gods, myths and titans with quite the same sense of cultural connection as a group originating from Greece itself. Firewind turn that heritage into fuel for an album that embraces grandeur without sacrificing musicality.
Gods, Myths & Titans does not represent a radical break with Firewind's past — nor does it need to. Instead, it is a deliberate expansion of an identity the band have spent years refining, finding new dimensions within a language they already know exceptionally well. For Firewind fans and devotees of melodic power metal, it is a journey that delivers weight, technique, melody and, above all, the sheer pleasure of hearing a great metal band pushing its sound toward the epic without losing sight of what made it compelling in the first place.