quarta-feira, 11 de março de 2026

Venue 5: O Avanço do Metal Feminino Europeu

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

A banda multinacional feminina Venus 5 retorna em 2026 com March of the Venus 5, seu segundo trabalho de estúdio e um claro passo adiante em relação ao debut autointitulado lançado em 2022. Formado por cinco vocalistas de diferentes países europeus — Karmen Klinc (Eslovênia), Jelena Milovanovic (Sérvia), Tezzi Persson (Suécia, também conhecida por seu trabalho com o Hell in the Club), Herma (Itália, do Sick N’ Beautiful) e Erina Seitllari (Albânia) — o projeto aprofunda sua identidade sonora ao apostar em uma abordagem mais pesada e próxima do metal tradicional, sem abandonar os elementos modernos e melódicos que definem sua proposta.

A produção volta a ficar nas mãos de Aldo Lonobile (Secret Sphere), enquanto a composição conta novamente com a participação de Jake E. (ex-Amaranthe, Cyhra). O resultado é um álbum que equilibra riffs contundentes, arranjos vocais elaborados e elementos eletrônicos e sinfônicos, dentro de uma estética que dialoga diretamente com o metal europeu contemporâneo.

A faixa-título “March of the Venus 5” abre o álbum de forma imponente, apresentando um poderoso coral de vozes femininas sustentado por guitarras pesadas e uma base rítmica sólida. O trabalho de guitarra de Gabriele Robotti se destaca ao criar a estrutura ideal para que as vocalistas alternem protagonismo ao longo da música.

Na sequência, “Like a Witch” aposta em uma combinação eficiente de metal melódico com elementos eletrônicos. As trocas de vozes funcionam com precisão, evidenciando as características individuais de cada cantora, enquanto o refrão em uníssono reforça a identidade coletiva do grupo.

“Far Away” surge com uma introdução épica e se desenvolve como uma power ballad de forte apelo melódico. A faixa se destaca pelos arranjos vocais elaborados e pela melodia marcante do refrão, além do inspirado trabalho de baixo de Andrea Buratto e de um solo de guitarra bastante expressivo.

Com “Set Me Free”, o álbum retoma o peso com maior intensidade. A escolha de timbres de teclado ajuda a construir a atmosfera da música, enquanto o refrão explosivo reforça sua vocação para momentos mais energéticos. Mais uma vez, o destaque fica para o desempenho vocal coletivo.

“Stereotypes” mergulha em uma sonoridade moderna claramente influenciada por nomes como Amaranthe e Follow the Cypher. Com forte presença de elementos eletrônicos, a faixa se destaca pelo equilíbrio entre peso e complexidade, apresentando um refrão poderoso que flerta com o power metal.

“Surrender” mantém essa linha contemporânea, abrindo com teclados épicos que remetem a bandas como Stratovarius. A música evolui para um refrão pesado e marcante, com destaque para os arranjos de teclado de Antonio Agate, que enriquecem a dinâmica da composição.

Em “Satellite”, o grupo apresenta mais um exemplo da consistência sonora do álbum. A faixa traz elementos eletrônicos que lembram a abordagem de bandas como Beast in Black, mas sem perder a identidade própria do Venus 5. O resultado é uma música cadenciada, reforçada por bons solos de guitarra e um refrão eficiente.

A pesada “Invincible” aposta em arranjos vocais diferenciados, especialmente nos versos, antes da entrada de um refrão poderoso interpretado coletivamente. A produção moderna e as batidas eletrônicas contribuem para ampliar o alcance sonoro da faixa sem comprometer a identidade do grupo.

“Winter On My Skin” é a power ballad mais tradicional do disco. A combinação entre versos cadenciados e um refrão forte cria um momento emocional dentro do álbum, reforçado por arranjos vocais bem construídos e por um belo solo de guitarra acústica.

Em “Take It From The Start”, o grupo volta a explorar a atmosfera épica das baladas do metal melódico. A faixa começa de forma delicada, quase como uma balada, antes de evoluir para um refrão grandioso que evidencia o potencial das cinco vocalistas cantando juntas.

Encerrando o álbum, “The Other Shore” aposta em uma abordagem mais sinfônica. A introdução orquestral dá espaço a um interessante revezamento vocal que culmina em um coro marcante, fechando o disco de forma elegante e imponente.

Com March of the Venus 5, o projeto consolida sua proposta ao equilibrar peso, melodias marcantes e arranjos vocais sofisticados. Ao se afastar parcialmente da abordagem mais pop do primeiro trabalho e investir em um metal mais robusto, o Venus 5 entrega um álbum coeso, moderno e extremamente cativante para fãs do metal melódico contemporâneo.

***ENGLISH VERSION***

The album opens in commanding fashion with the title track “March of the Venus 5.” A powerful chorus of female voices emerges over heavy guitars and a solid rhythmic foundation, immediately establishing the band’s dynamic vocal interplay. Guitarist Gabriele Robotti delivers a strong performance, crafting the perfect framework for the five singers to showcase their individual strengths.

“Like a Witch” follows with an effective mix of melodic metal and electronic elements. The vocal exchanges are precise and well-balanced, highlighting the unique tone of each singer while the unison chorus reinforces the collective identity of the group.

With its epic introduction, “Far Away” unfolds as a classic power ballad driven by an emotional vocal melody. The track stands out for its layered vocal arrangements, an expressive guitar solo, and the tasteful bass work of Andrea Buratto.

The energy rises again with “Set Me Free” where heavier guitar tones and well-chosen keyboard textures help create a vibrant atmosphere. The explosive chorus gives the track a strong live appeal, while the vocal performance remains the central focus.

“Stereotypes” dives deeper into a modern sound clearly inspired by bands such as Amaranthe and Follow the Cypher. Blending electronic elements with metal instrumentation, the track balances heaviness and complexity, culminating in a powerful chorus that flirts with power metal aesthetics.

Opening with epic keyboards reminiscent of Stratovarius, “Surrender” continues the contemporary approach while delivering a heavier and more dynamic chorus. The keyboard arrangements by Antonio Agate add an additional layer of depth to the composition.

“Satellite” further demonstrates the album’s sonic consistency. Electronic beats reminiscent of Beast in Black appear throughout the track, yet without overshadowing the band’s identity. The result is a well-paced melodic metal song enhanced by strong guitar solos and a memorable chorus.

The heavy “Invincible” introduces a slightly different vocal structure in its verses before exploding into a powerful collective chorus. Modern production and subtle electronic elements enrich the track without compromising the band’s core sound.

“Winter On My Skin” stands as the album’s most traditional power ballad. The contrast between restrained verses and a soaring chorus creates an emotional highlight, complemented by refined vocal arrangements and a tasteful acoustic guitar solo.

Another epic moment arrives with “Take It From The Start”. Beginning almost like a classic ballad, the song gradually builds toward a grand and emotional chorus that highlights the full potential of the five singers performing together.

Closing the album, “The Other Shore” embraces a more symphonic approach. Its orchestral introduction leads into alternating vocal lines before culminating in a powerful chorus, bringing the record to an elegant and memorable conclusion.

With March of the Venus 5, the project successfully refines its formula by balancing heaviness, melodic hooks and intricate vocal arrangements. By moving slightly away from the more pop-oriented approach of the debut and leaning toward a more robust metal sound, Venus 5 delivers a cohesive, modern and highly engaging album for fans of contemporary melodic metal.

Arianna Ceccarelli


segunda-feira, 9 de março de 2026

Cobertura de Show: Living Colour – 27/02/2026 – Tokio Marine Hall/SP

O Tokio Marine Hall abriu suas portas para receber o lendário Living Colour em sua celebração de quatro décadas de carreira, com a turnê “The Best of 40 Years” trazendo o melhor da banda. O que se viu foi um espetáculo de energia, técnica e paixão, que contagiou uma casa lotada e um público visivelmente animado. Desde o início da apresentação, ficou claro que a banda não estava ali apenas para cumprir tabela, mas para entregar uma performance visceral, digna de sua história e de seu legado musical. A expectativa era alta, e o quarteto não decepcionou, transformando a noite em uma celebração do rock em sua forma mais pura e inovadora.

O quarteto americano, atualmente formado por Corey Glover (vocais), Vernon Reid (guitarra), Doug Wimbish (baixo) e Will Calhoun (bateria), é uma força da natureza. A banda, que sempre desafiou rótulos, mistura com maestria elementos de hard rock, funk, jazz, metal e soul, criando uma sonoridade única e inconfundível. No palco do Tokio Marine Hall, essa fusão foi apresentada com uma intensidade que apenas anos de estrada e uma química impecável podem proporcionar. Glover, com sua voz potente e expressiva, comandava a plateia, enquanto Reid esbanjava solos cheios de personalidade. Wimbish e Calhoun formavam uma “cozinha” cheia de groove, base perfeita para a experimentação sonora do grupo.

O show começou com a pancada de “Leave It Alone”, que imediatamente incendiou a plateia, seguida pela pegada irresistível de “Middle Man”. A banda mostrou, desde o início, sua versatilidade ao emendar um cover surpreendente de “Memories Can't Wait”, do Talking Heads, injetando sua própria identidade na faixa. A sequência continuou com a crítica social de “Ignorance Is Bliss” e a energia contagiante de “Go Away”, mantendo o público em constante movimento. O groove funkeado de “Funny Vibe” antecedeu um “Parabéns a Você” dedicado a alguém do público; Corey chegou a descer do palco para cantar bem próximo ao aniversariante. Na sequência, a intensidade de “Bi” preparou o terreno para outro momento inesperado: o cover de “Hallelujah”, de Leonard Cohen, que ganhou uma interpretação belíssima e emocionante de Corey.

A apresentação continuou ganhando intensidade e explorando diferentes sonoridades. “Open Letter (to a Landlord)” começou introspectiva e logo ganhou novos contornos como somente o Living Colour sabe fazer antes do palco ser dominado pela maestria individual dos músicos. O solo de bateria de Will Calhoun foi um show à parte, uma demonstração de técnica e criatividade que culminou com um trecho de “Baianá”, do Barbatuques, em homenagem à cultura brasileira. Dali em diante, o show ganhou novo fôlego com a poderosa “This Is the Life” e o hino “Pride”, que fez o público cantar em uníssono.

O ápice da noite se aproximava com a sequência avassaladora de clássicos. Então, o baixista Doug Wimbish foi ao microfone para anunciar que fariam algo especial, e a banda entregou uma fusão explosiva de “White Lines (Don't Don't Do It) / Apache / The Message”, transformando o palco em uma pista de dança com o melhor do hip hop. O cover de “You Don't Love Me (No, No, No)”, de Dawn Penn, adicionou um toque reggae, mostrando a pluraridade de influências do grupo. “Glamour Boys” e “Love Rears Its Ugly Head” foram cantadas a plenos pulmões pelos fãs, demonstrando devoção as canções mais emblemáticas do Living Colour. A versão rápida e pesada de “Type” manteve a energia em alta, evidenciando que a banda é mestre em criar dinâmicas surpreendentes. O cover de “Police and Thieves”, de Junior Murvin, trouxe um momento de relativa calmaria.

O grand finale foi, como esperado, marcante. “Time's Up” e o hino “Cult of Personality” levaram o Tokio Marine Hall à loucura, com Corey Glover interagindo intensamente e Vernon Reid disparando riffs que são marca registrada da banda. A energia era intensa, e a sensação de se presenciar um momento histórico era evidente. Sem sair do palco, o bis ocorreu com a melódica e esperançosa “Solace of You”, fechando a noite de maneira apoteótica, com participação calorosa do público, que cantou o refrão por minutos. Com duas horas de apresentação, a banda deixou o palco visivelmente emocionada. O show foi mais do que uma sequência de músicas bem executadas: foi uma aula de presença de palco, diversidade sonora e entrega. Quarenta anos depois, o Living Colour soa atual, afiado e necessário. Quem esteve presente saiu com a sensação de ter assistido não apenas a um grande concerto, mas a uma banda que ainda tem muita lenha para queimar.


Texto: Marcelo Gomes 


Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Top Link Music 


Living Colour – setlist:

Leave It Alone

Middle Man

Memories Can't Wait (Talking Heads cover)

Ignorance is Bliss

Go Away

Funny Vibe

Bi

Hallelujah (Leonard Cohen cover)

Open Letter (to a Landlord)

Drum Solo / Baianá (Barbatuques cover) 

This Is the Life

Pride

White Lines (Don't Don't Do It) / Apache / The Message

You Don't Love Me (No, No, No) (Dawn Penn cover)

Glamour Boys

Love Rears Its Ugly Head

Type

Police and Thieves (Junior Murvin cover)

Time's Up

Cult of Personality

Solace of You 

Entrevista - Brutal Reality: A Essência do Death Metal em su Forma mais Brutal

 

- Olá Julio. Obrigado pela sua gentileza em nos atender. Parabéns pelo lançamento do álbum “The Cycle of Fall”, pois o material ficou de primeira... Como você pode descrever o trabalho na composição deste tipo de sonoridade?

É interessante falar sobre isso porque foi um processo natural com início em 1994, quando começamos a nos aprofundar no estilo de música, tendo bandas como Slayer, Cannibal Corpse, Morbig Angel, Deicide, Dorsal Atlantica, Sepultura e Ratos de Porão como a nossa playlist de todos os dias quando tinhamos apenas 15 anos. Ao seguir dos anos foi um amadurecimento natural na forma de composição, assim conseguindo chegar em uma sonoridade que nos representa na essência do que gostamos.

- Eu escutei o álbum diversas vezes e, só após várias tentativas, consegui captar parte das suas ideias. Os fãs têm sentido este tipo de dificuldade também?

Foi positivo a abordagem das pessoas para falar da temática das músicas, inclusive sobre a conexão da arte da capa com as letras. Eles entenderam sobre o caos expresso na capa com a mensagem das músicas Mind Controller, The real Enemy e Power by Blood, que falam majoritariamente da manipulação pela desinformação e apelo religioso para alcançar o poder. Esses são os agentes moderadores da sociedade bloqueando a estrutura racional da sociedade. 

- Existem planos para o lançamento de “The Cycle of Fall” através da MS Metal Records, atual gravadora de vocês, no formato físico?

Estamos em negociações com a MS Metal Records.

- Adorei o fato de trabalharem com o inglês, mas isso não pode vir a atrapalhar vocês no mercado nacional?

O público do metal extremo sempre foi receptivo as bandas cantando em inglês, então o foco é mais sonoro seguido pela mensagem.

- Como estão rolando os shows em suporte ao disco? A aceitação está sendo positiva?

A conexão da banda com os head bangers foi de imediato, ficamos felizes porque eles entenderam o nosso som. A melhor resposta são as rodas de circle beat.

- Quem assinou a capa do CD? Qual a intenção dela e como ela se conecta com o título?

A capa é do Aurélio Lara (Designlara Artwork), ele é de Cuiaba/MT. A sua arte foi de encontro com o título do Álbum, pois nessa imagem temos uma visão do caos com duas estatuas que simbolizam a justiça sendo destruídas.

- Onde “The Cycle of Fall” foi produzido? Foi satisfatório o resultado obtido com ele?

A produção foi realizada pelo Rogerio Weko do Dual Noise Studio. Ele já gravou diversas bandas do cenário do metal, experiência de anos do meio. É um cara que conseguiu reproduzir tudo o que pedimos para o som e ficamos muito felizes com o resultado. Foi e continuará sendo uma parceria, porque o segundo álbum também será com ele.

- Imagino que já estejam trabalhando em novo material, estou certo? Se sim, como está se dando o processo e como ele está soando?

Estamos trabalhando no segundo álbum, já temos cinco composições que estão na linha do que queremos, pesado e visceral.

- Novamente parabéns pelo trabalho e vida longa ao BRUTAL REALITY... Agora é contigo para as suas considerações finais... 

Agradecemos a oportunidade para divulgação da banda, falando um pouco mais em detalhes sobre o Brutal Reality. Um grande abraço!

sábado, 7 de março de 2026

Hömeless: O mais novo Titã do Crossover brasileiro acaba de chegar com o seu primeiro álbum

 

Por Denis A. Lacerda

Nota: 09.0/10.0

A estreia da HÖMELESS com o álbum Obscuro Lado da Alma” chega naquele clima cru e sem firula que muita gente da cena underground prefere de verdade. A banda paulista está na ativa desde 2010 e aposta num Crossover raivoso, cheio de atitude punk e pegada direta. A presença do experiente baterista Spaghetti, conhecido por sua passagem pelo Ratos de Porão, junto do guitarrista e vocalista Vinícius Vak, já entrega logo de cara que a bolachinha vem com pedigree dentro para se destacar dentro da cena.

A produção do disco é suja na medida certa, sem aquele polimento exagerado que às vezes tira a alma do som. Aqui a ideia é outra: manter o clima cru e visceral que o estilo pede, com várias referências ao Thrash Metal, indo mais para o lado do Slayer. Nesse cenário, Spaghetti manda ver atrás da bateria, despejando velocidade e técnica sem perder o peso com muita intensidade. É aquele tipo de batera que segura a bronca do começo ao fim, deixando tudo com a pancadaria necessária para o disco funcionar.

Do outro lado, Vinícius Vak segura bem as pontas nos vocais e mostra versatilidade dentro da proposta da banda. O cara entrega interpretações intensas, combinando perfeitamente com as letras cantadas em português, que mergulham em temas pesados como violência, decadência social, cotidiano urbano e os lados mais sombrios da natureza humana. Entre as faixas, “Falsos Deuses, Falsos Profetas” chama muita atenção — talvez a mais perturbadora do álbum — enquanto “Frio da Morte” traz um clima denso que dá aquele nó na cabeça e faz refletir.

Outro momento que merece menção é “Formas de Acabar com a Vida”, que ainda conta com a participação de Alex Kafer, baixista e vocalista do The Troops of Doom. No fim das contas, “Obscuro Lado da Alma” chega como um debut honesto, direto e cheio de atitude. Não inventa moda, mas entrega exatamente o que promete: Crossover pesado, letras incômodas e aquela energia de garagem que faz o underground ser tão amado e idolatrado como ele é.

Axel Rudi Pell: Entre Riffs, Virtuosismo, Melodias e Tradição (Also In English)

SPV Steamhammer (Imp.)

Por Flavio Borges

O guitarrista alemão Axel Rudi Pell retorna ao cenário com Ghost Town, seu 23º álbum de estúdio, reafirmando sua posição como um dos principais nomes do heavy metal melódico europeu. Com lançamento previsto para março de 2026, o trabalho mantém intacta a identidade sonora construída ao longo de décadas, combinando riffs marcantes, solos virtuosos e forte apelo melódico.

Para esta nova empreitada, Pell reúne um line-up de peso: o vocalista Johnny Gioeli (Hardline), parceiro de longa data; o baixista Volker Krawczak; o tecladista Ferdy Doernberg; e o lendário baterista Bobby Rondinelli (Rainbow, Black Sabbath, Blue Öyster Cult). A produção, assinada por Pell ao lado de Tommy Geiger (Blind Guardian, Helloween), garante clareza, potência e equilíbrio entre peso e sofisticação.

“The Regicide (Intro)” abre o álbum com uma introdução atmosférica marcada por guitarras limpas e timbres cuidadosamente trabalhados. Em pouco menos de dois minutos, estabelece o clima épico que conduz naturalmente à faixa seguinte.

“Guillotine Walk” evidencia a forte influência de Ritchie Blackmore na construção dos riffs e no fraseado da guitarra. A performance de Gioeli é intensa e segura, enquanto as dobras de guitarra que antecedem o solo reforçam o caráter clássico da composição.

Em “Breaking Seals”, a participação especial de Udo Dirkschneider adiciona peso e autenticidade ao metal tradicional apresentado. A faixa remete diretamente à escola germânica do gênero, com claras referências ao Accept, enquanto Gioeli demonstra versatilidade ao dividir os vocais com Udo em um duelo potente e equilibrado.

A faixa-título, “Ghost Town”, sintetiza a essência artística de Axel Rudy Pell: refrão impactante, base sólida e um solo melódico que conduz a música a seu clímax. Os teclados de Doernberg ampliam a atmosfera épica, sustentando a dramaticidade da composição.

Com “Holy Water”, o álbum mergulha em uma abordagem mais densa e solene. A introdução grandiosa evolui para uma seção em que baixo e teclado assumem protagonismo, enquanto os timbres de guitarra adotam uma sonoridade mais seca e pesada. O trabalho de Krawczak se destaca ao marcar as variações de andamento com precisão.

“The Enemy Within” surpreende ao iniciar como uma power ballad e evoluir para passagens mais cadenciadas, próximas do doom metal. A faixa revela de forma clara as influências clássicas que moldaram a carreira de Pell, transitando por atmosferas que remetem a Black Sabbath e Judas Priest, com Gioeli adaptando sua interpretação a cada nuance.

A energia retorna com força total em “Hurricane”, uma das composições mais velozes do disco. Rondinelli demonstra vigor impressionante, sustentando a intensidade da faixa do início ao fim. O solo de Pell alia velocidade e lirismo, enquanto o baixo se mantém audível e pulsante graças à produção refinada.

“Sanity” resgata o espírito do metal tradicional, com linhas inspiradas na estética sabbathiana e refrão marcadamente melódico. A interação entre baixo, teclado e bateria cria uma base sólida para que guitarra e voz se destaquem com naturalidade.

A power ballad “Towards The Shore” oferece um momento de respiro emocional. O piano de Doernberg conduz a atmosfera introspectiva, enquanto as guitarras alternam entre peso e delicadeza. Os duetos vocais no refrão ampliam o impacto dramático da composição.

Em “Steps Of Stone”, a influência do Rainbow se faz presente na ambientação épica e melódica. A seção rítmica sustenta a grandiosidade da faixa, abrindo espaço para mais um solo expressivo de Pell.

Encerrando o álbum, “Higher Call” apresenta a composição mais longa e estruturalmente complexa do trabalho. A faixa sintetiza a coesão do grupo e evidencia o acerto na escolha do line-up, funcionando como um desfecho robusto e sofisticado.

Com Ghost Town, Axel Rudi Pell reafirma sua fidelidade às raízes do heavy metal clássico, ao mesmo tempo em que mantém elevada qualidade técnica e produção moderna. O álbum dialoga diretamente com sua base consolidada de fãs, mas também possui atributos suficientes para conquistar novos ouvintes.

Mais do que um simples lançamento, Ghost Town se apresenta como uma celebração da trajetória de um artista que permanece relevante e inspirado após mais de duas décadas de carreira solo.


***ENGLISH VERSION***

German guitar virtuoso Axel Rudy Pell returns with Ghost Town, his 23rd studio album, reaffirming his status as one of the leading figures in European melodic heavy metal. Scheduled for release in March 2026, the album preserves the unmistakable sonic identity Pell has cultivated over decades — combining commanding riffs, soaring solos, and a strong melodic sensibility.

For this new chapter, Pell once again assembles a formidable line-up: longtime collaborator Johnny Gioeli (Hardline) on vocals, bassist Volker Krawczak, keyboardist Ferdy Doernberg, and legendary drummer Bobby Rondinelli (Rainbow, Black Sabbath, Blue Öyster Cult). The album’s production, handled by Pell alongside Tommy Geiger (Blind Guardian, Helloween), delivers clarity, power, and a refined balance between weight and sophistication.

“The Regicide (Intro)” opens the record with an atmospheric instrumental built around crystalline clean guitar tones and carefully sculpted textures. In under two minutes, it establishes an epic mood that seamlessly leads into the next track.

“Guillotine Walk” makes Pell’s affinity with Ritchie Blackmore unmistakable, particularly in the riff construction and expressive phrasing. Gioeli delivers a commanding vocal performance, while the twin-guitar harmonies preceding the solo reinforce the song’s classic heavy metal character.

On “Breaking Seals” the special appearance of Udo Dirkschneider adds both authority and grit. The track channels the spirit of traditional German heavy metal, with clear nods to Accept. Gioeli showcases impressive versatility as he shares vocal duties with Dirkschneider in a powerful and well-balanced exchange.

The title track, “Ghost Town” encapsulates Pell’s artistic essence: a soaring, anthemic chorus, a cohesive rhythmic foundation, and a melodic solo that drives the composition toward its climactic peak. Doernberg’s keyboards enrich the epic atmosphere, lending additional depth and drama.

With “Holy Water” the album shifts into darker, more solemn territory. An imposing introduction unfolds into an extended passage highlighting the interplay between bass and keyboards. Here, the guitar tones become drier and heavier, while Krawczak’s bass work stands out by accentuating the track’s dynamic transitions.

“The Enemy Within” begins deceptively as a power ballad before evolving into slower, doom-tinged passages. The song clearly reflects the classic influences that have shaped Pell’s career, moving through atmospheres reminiscent of Black Sabbath and Judas Priest, with Gioeli adapting his vocal delivery to each stylistic shift.

Energy surges back with “Hurricane” one of the album’s fastest and most aggressive tracks. Rondinelli delivers a performance marked by remarkable stamina and intensity, driving the song forward at full throttle. Pell’s solo blends speed with melodic precision, while the bass remains vibrant and audible thanks to the polished production.

“Sanity” revisits traditional metal roots with a Sabbath-inspired backbone and a distinctly melodic chorus. The tight interaction between bass, keyboards, and drums provides a solid platform for the guitar and vocals to shine.

The power ballad “Towards The Shore” offers an emotional respite. Doernberg’s piano work sets an introspective tone, while the guitars alternate between heaviness and delicacy. Layered vocal harmonies in the chorus enhance the track’s dramatic impact.

On “Steps Of Stone” echoes of Rainbow surface through its epic and melodic atmosphere. The rhythm section anchors the track’s grandeur, paving the way for another expressive and tastefully constructed solo from Pell.

Closing the album, “Higher Call” stands as the longest and most structurally ambitious composition on the record. It highlights the band’s cohesion and underscores the careful selection of each musician, serving as a powerful and sophisticated finale.

With Ghost Town, Axel Rudi Pell reaffirms his unwavering commitment to classic heavy metal while maintaining a contemporary production standard and consistently high musicianship. The album speaks directly to his loyal fanbase yet possesses the strength and accessibility to attract new listeners.

More than just another release, Ghost Town stands as a celebration of an artist who remains inspired, relevant, and creatively vital after more than two decades of solo career excellence.

Kai Hoffman


terça-feira, 3 de março de 2026

Chez Kane: Estética Oitentista com Identidade Própria

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Com Reckless, a cantora britânica Chez Kane reafirma sua posição como um dos principais nomes do hard rock contemporâneo com forte influência oitentista. O álbum é uma verdadeira celebração da estética sonora dos anos 80, combinando guitarras vibrantes, teclados marcantes e uma produção orgânica que valoriza cada elemento instrumental — tudo embalado por uma performance vocal segura e carismática.

A faixa-título, “Reckless”, abre o disco transportando o ouvinte diretamente para a era de ouro do hard rock. Os timbres de guitarra e teclado, aliados à sonoridade natural da bateria, estabelecem a identidade do trabalho logo nos primeiros segundos. O refrão explosivo reforça o apelo radiofônico da composição, enquanto o inesperado solo de sax adiciona personalidade e frescor à faixa.

Em “Personal Rock And Roll”, a energia é elevada. Direta e dinâmica, a música carrega forte potencial cinematográfico, remetendo às trilhas sonoras clássicas da década de 80. Com menos de três minutos, entrega um refrão memorável e um solo de guitarra eficiente, consolidando-se como um dos momentos mais vibrantes do álbum.

“Night of Passion” apresenta uma abordagem mais sofisticada, com forte influência do AOR. Os teclados assumem protagonismo, ampliando a paleta sonora e acrescentando uma camada mais madura ao repertório. Chez explora nuances vocais mais sutis, enquanto o sax e o solo de teclado reforçam o caráter melódico da composição.

O hard rock retorna com força em “Strip Me Down”, marcada por riffs imediatos e um refrão de fácil assimilação. A base sólida sustenta a interpretação versátil de Chez, enquanto o solo de guitarra figura entre os destaques técnicos do álbum.

“Tongue of Love” mantém a atmosfera oitentista com elegância. O baixo conduz a introdução, preparando o terreno para um refrão bem construído e melodicamente envolvente. A coesão instrumental evidencia o entrosamento da banda, resultando em uma das faixas mais cativantes do trabalho.

Mais acelerada e intensa, “Love Tornado” se destaca como a música mais pesada do disco. Com abordagem mais crua e menor presença de teclados, privilegia o peso das guitarras e a entrega vocal de Chez. A construção do refrão reforça sua vocação para performances ao vivo.

Em “Bad Girl”, após uma introdução que remete ao metal clássico, a faixa evolui para um hard rock consistente e pulsante. A bateria ganha protagonismo, com timbre preciso e impactante, contribuindo para a dinâmica do arranjo.

“Street Survivor” mantém o alto nível do repertório, apresentando backing vocals bem trabalhados e uma sólida interação entre baixo e bateria. A guitarra assume espaço para solos expressivos, enquanto Chez conduz a faixa com segurança e brilho.

“Too Dangerous” resgata a essência mais crua e energética do gênero. Simples, direta e eficiente, a música destaca a agressividade vocal de Chez, demonstrando amplitude e intensidade raras dentro do estilo.

Encerrando o álbum, “Bodyrock” aposta na estética clássica do hair metal. Com refrão direto, equilíbrio entre guitarras e teclados e uma base rítmica consistente, a faixa finaliza o disco mantendo a energia elevada e deixando a sensação de continuidade.

A produção de Danny Rexon (Crazy Lixx) é um dos pilares de Reckless, equilibrando modernidade e fidelidade à sonoridade clássica do gênero. Influenciada por nomes como Pat Benatar, Lee Aaron e Vixen, Chez Kane entrega seu trabalho mais sólido até o momento — um álbum coeso, vibrante e com forte apelo junto ao público do hard rock melódico.

Reckless não é apenas uma homenagem aos anos 80; é a reafirmação de que o estilo permanece vivo, relevante e capaz de dialogar com novas gerações.

***ENGLISH VERSION***

With Reckless, British vocalist Chez Kane further solidifies her status as one of the leading voices in contemporary hard rock with a strong ’80s-inspired edge. The album stands as a vibrant celebration of the decade’s sonic identity, blending soaring guitars, prominent keyboards and an organic production approach that allows each instrument to breathe — all anchored by Kane’s confident and charismatic vocal performance.

The title track, “Reckless” immediately transports listeners back to the golden age of hard rock. From its opening moments, the guitar and keyboard tones — combined with the natural punch of the drums — establish the album’s aesthetic direction. The explosive chorus delivers undeniable hook appeal, while an unexpected saxophone solo adds personality and a refreshing twist to the arrangement.

On “Personal Rock And Roll” the energy intensifies. Direct and dynamic, the track carries strong cinematic potential, evoking classic ’80s film soundtracks. Clocking in at under three minutes, it delivers a memorable chorus and a sharp, efficient guitar solo, making it one of the album’s most immediate highlights.

“Night of Passion” shifts gears with a more sophisticated AOR-driven approach. Keyboards take center stage, expanding the album’s sonic palette and adding a layer of maturity to the material. Kane explores subtler vocal nuances, while the presence of saxophone and a keyboard solo reinforces the song’s melodic depth.

Hard rock returns in full force with “Strip Me Down” built around punchy riffs and an instantly accessible chorus. A solid rhythmic foundation supports Kane’s versatile delivery, while the guitar solo stands out as one of the album’s technical high points.

“Tongue of Love” maintains the record’s ’80s atmosphere with elegance. The bass-driven introduction sets the tone before unfolding into a well-crafted, melodically engaging chorus. The band’s cohesion is particularly evident here, resulting in one of the album’s most captivating cuts.

Faster and heavier, “Love Tornado” emerges as the album’s most intense track. With a rawer edge and reduced keyboard presence, the song emphasizes driving guitars and Kane’s commanding vocal performance. Its anthemic chorus structure makes it a natural contender for live setlists.

Opening with a nod to classic metal, “Bad Girl” evolves into a solid, pulsating hard rock anthem. The drums take a prominent role, delivering precision and impact that enhance the track’s dynamic flow.

“Street Survivor” sustains the album’s high standard, featuring well-layered backing vocals and a tight interplay between bass and drums. Space is given for expressive guitar work, while Kane once again commands attention with a radiant vocal performance.

“Too Dangerous” captures the genre’s raw, high-energy essence. Stripped-down and straightforward, the track highlights Kane’s vocal intensity and range — qualities that set her apart within the melodic hard rock landscape.

Closing the album, “Bodyrock” leans confidently into classic hair metal aesthetics. With a direct, hook-driven chorus, balanced guitar and keyboard arrangements, and a steady rhythmic backbone, the track wraps up the record on an energetic note while leaving listeners wanting more.

Produced by Danny Rexon (Crazy Lixx), Reckless strikes an effective balance between modern clarity and faithful adherence to classic hard rock traditions. Drawing inspiration from artists such as Pat Benatar, Lee Aaron and Vixen, Chez Kane delivers what may well be her most cohesive and compelling work to date — a vibrant, hook-laden album poised to resonate strongly with fans of melodic hard rock.

Reckless is more than a nostalgic tribute to the 1980s; it is a confident statement that the genre remains alive, relevant and capable of connecting with new generations.

Danny Rexon