Começar o texto falando o que achou do show é algo anormal, pois, logo que saí do show do Iron Maiden na última terça-feira, 27/10, uma amiga minha perguntou o que eu achei do show. Há dois motivos especiais para tal pergunta: o primeiro é que foi a primeira vez que ela viu a banda ao vivo, e o segundo é que foi justamente no dia do seu aniversário. Que presentão, não é mesmo? Não tem uma resposta específica, pois, com certeza, ela sentiu a mesma sensação que eu senti na primeira vez que os vi, em 2008. E quem me conhece já há bastante tempo sabe que sou suspeito para falar de Iron Maiden, então a minha resposta é mais do que óbvia.
Batizada Run For Your Lives, a turnê celebra os 50 anos de história da Donzela, o que já é padrão nas últimas décadas de atividade, pois turnês de clássicos são comuns quando a banda volta de uma turnê promovendo algum álbum inédito. E, falando em clássicos e por celebrar cinco décadas de estrada, conforme falado há pouco, a banda focou na sua fase de ouro, de 1980 a 1992, ou seja, somente músicas do álbum homônimo até o Fear Of The Dark (1992). A única exceção foi não terem incluído coisas do No Prayer For The Dying (1990), disco que, além de marcar a estreia do guitarrista Janick Gers, é disperso pela banda. Até pode ser um disco abaixo da média, mas dá para fazer proveito dele e merecia a inclusão de alguma música.
O Brasil foi contemplado com três datas, que começaram em pleno domingo de eleição (25/10), no Nubank Parque, em São Paulo, com um sold out, seguido de um quase sold out na terça-feira (27/10, data em que estive presente), e concluindo em Curitiba, na quarta-feira (28/10). O mais legal de estar em um show do Iron Maiden é ver a quantidade de gerações reunidas para prestigiá-los, principalmente crianças e adolescentes acompanhados de seus pais, tios e avós, o que comprova que a experiência vai muito além da música: é também uma reunião entre familiares e amigos.
O que é legal também de lembrar foram as ações feitas semanas antes dos shows, incluindo uma loja oficial com produtos oficiais, corrida de rua, bar em homenagem a banda e bandas tributos tocando nos principais pontos de São Paulo, que, como a maioria sabe, é a terceira cidade que mais ouve Iron Maiden no planeta, segundo dados do Spotify, uma das principais plataformas de música.
Mais uma vez, igual às três vezes anteriores, o Iron Maiden contou com uma banda de abertura. Dessa vez, quem assumiu a responsabilidade foram os americanos do Alter Bridge, que seguem uma proposta mais moderna e diferente da dos donos da festa. Dessa vez, a banda conseguiu atrair o bom público com suas composições, que carregam bastante peso. No domingo, segundo relatos e comentários nas redes sociais, o público não deu muita importância à apresentação da banda, com a maioria preferindo acompanhar a apuração das urnas para saber quem seria eleito presidente.
Confesso que não sou seguidor assíduo da banda, mas reconheço a força que os músicos possuem, principalmente por parte de Myles Kennedy. Conhecido por integrar a banda do Slash, o talento do vocalista vai muito além dentro do Alter Bridge, que, além de assumir os microfones, também assume a tarefa de tocar guitarra com extrema maestria, assim como seu parceiro Mark Tremonti, que merecia mais reconhecimento do que tem e que reteve toda a atenção também para si por meio de seus impactantes riffs e solos.
Infelizmente, não foi possível mostrar muita coisa em uma hora de show, mas souberam escolher os melhores momentos da carreira. O último álbum, o homônimo lançado em janeiro, por exemplo, é um disco que me chamou muita atenção. Não à toa, escolheram “Silent Divide” para abrir o show com seus riffs poderosíssimos, assim como “Addicted to Pain”, do também aclamado Fortress (2013), que mantém o mesmo nível da primeira.
A surpresa ficou para “Ghost Of Days Gone By”, que não havia sido tocada no show anterior e que chama a atenção pelo equilíbrio entre peso, melodia e refrão dramático. “Isolation”, que encerrou o show de forma agressiva, também foi outra surpresa, mas o grande destaque ficou para “Blackbird”. Longa e emotiva, foi a que teve maior recepção por parte do público, o que era de se esperar, pois é um dos principais clássicos da trajetória da banda.
Antes de assisti-los, tive o pensamento de que houvesse dispersão por parte do público, não pelo estilo ser diferente, mas pelo que houve no primeiro show, explicado anteriormente. A banda, em nenhum momento, se sentiu com medo ou intimidada. Fez bonito o que tinha que fazer, com competência e autoridade, sendo aplaudida a cada término de música e ganhando o respeito até mesmo de quem não é muito chegado à banda. Enfim, um show excelente, cheio de peso, energia e uma dose de emoção.
Quem já viu o Iron Maiden ao vivo sabe que existe todo um ritual para estar preparado e bem aquecido. Isso acontece quando “Doctor Doctor”, do UFO, uma das bandas favoritas do baixista e chefe Steve Harris, toca. E, como é uma celebração aos 50 anos de história, o telão, uma das novidades dessa turnê e que substitui os tradicionais backdrops, mostrou os principais pontos de Londres que a banda frequentava, como o Cart & Horses, Ruskin Arms, Acacia Avenue e o Finsbury Park durante “The Ides Of March”.
O início do set priorizou a fase inicial da banda, com músicas que não eram executadas ao vivo há bastante tempo. Sendo assim, a era Paul Di'Anno marcou presença nos minutos iniciais, com as agitadas “Murders in the Rue Morgue”, “Wrathchild” e “Killers”, faixa que dá nome ao segundo disco e que trouxe a primeira aparição do Eddie. Foi superlegal ver a animação do público diante dessas músicas, que não têm status de clássicas, mas que mostram que a fase de Di'Anno tem sim sua importância. Porém, como eu e a maioria notamos, houve uma redução no andamento, principalmente por parte do baterista Simon Dawnson, sobre a qual vamos falar mais ao final.
Continuando, a noite ainda renderia muitas surpresas. Afinal, são cinquenta anos de história e uma noite que prometia muita diversão, conforme disse o vocalista Bruce Dickinson antes de anunciar “Phantom of the Opera”, que há muito tempo ficou de fora dos setlists da banda e que resultou em uma das melhores, se não a melhor, performance da noite, principalmente por conta do trio de guitarristas Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers, que sempre soam orgânicos e sem embolação.
A primeira onda de hits começou justamente pelo primeiro hit da história da banda, ou seja, "The Number of the Beast", que resultou nos primeiros efeitos pirotécnicos da noite, pois cada vez que Bruce cantava 666, labaredas de fogo se elevava pela pilastras do palco. Pena que, dessa vez, o ilustre baphomet não marcou presença.
Diminuindo um pouco a adrenalina, “Infinite Dreams” deixou todos com o sentimento de sonho realizado, fazendo um trocadilho com o título, pois raramente essa música – atmosférica, melódica e com um pouco de peso – é incluída nos shows. Antes de anunciá-la, Bruce repetiu o mesmo discurso (bem poético, por sinal) da noite de dois dias atrás dizendo que 'todos nós devemos ter sonhos'.
De forma mística e também ritualística, “Powerslave” engatou uma trinca matadora e, ao mesmo tempo, cenográfica, do álbum de mesmo nome, que ainda trouxe outro hit, como “2 Minutes to Midnight”, e a épica “Rime of the Ancient Mariner”, que, sem sombra de dúvidas, é a melhor música da história da banda. Inspirada em um poema de Samuel Taylor Coleridge, seus treze minutos fazem você se sentir como se estivesse em uma peça de teatro, trazendo vários momentos diferentes. Novamente, ela foi antecedida por uma brincadeira, com Bruce reclamando que substituíram cachaça por água. Mesmo demitindo a pessoa que comentou isso no primeiro show, o erro foi repetido no segundo, deixando o vocalista aborrecido.
"Run to The Hills", mas uma vez em ritmo de carroça, preparou terreno para outro momento épico com "Seventh Son Of a Seventh Son" antes de partir pra uma sequência de clássicos com "The Trooper" - com Eddie entrando novamente em cena -, "Halloweed Be Thy Name" e a crua "Iron Maiden", indicando os momentos finais do show. O que me surpreendeu na segunda citada foi Bruce sendo tele transportado pra dentro do telão como num passe de mágica. E também foi outra que teve uma cenografia especial, com Bruce aparecendo preso numa gaiola antes de ser enforcado, contextualizando perfeitamente o conceito lírico.
Com uma introdução impactante e com uma linha de guitarra e baixo extremamente ligeiras, Aces High, que antes ocupava um posto mais elevado no set, abriu o bis de forma energética, como se estivessem começando o show. E falando em posição, Fear Of The Dark, que querendo ou não nunca vai ser deixada de ser tocada ao vivo, ficou mais para o final, pois normalmente ela ficava junto com Iron Maiden antes de partir para o bis. O final, propriamente dito, ficou para a emblemática Wasted Years, repetindo o mesmo feito da turnê da passada e a última, para quem se lembra, que o agora aposentado Nicko McBrain tocou ao vivo.
Recapitulando o que havia dito no começo do texto, falar sobre o que achei do show é difícil, pois várias coisas positivas, é claro, passam pela cabeça após assistir ao Iron Maiden ao vivo. Cada show é uma experiência diferente, mas a sensação é a mesma. Mesmo que os membros estejam beirando a casa dos 70, todos aparentam ser jovens senhores, principalmente o baixista Steve Harris e o guitarrista Janick Gers, que possuem uma energia descomunal. Bruce Dickinson, então, nem se fala! Mesmo que a voz não esteja igual à de outrora, ainda continua cantando muito bem para a idade que tem hoje, aos 68 anos.
O único membro que divide opiniões é Simon Dawson. Desde que assumiu o posto deixado por Nicko McBrain, em 2024, ele vem convencendo a maioria dos fãs com sua performance, que é mais dura e, melhor dizendo, lenta, algo que deu para perceber durante o começo do show. Mas, se essa foi a escolha do patrão Steve, que também toca com ele em seu projeto British Lion, o que temos a dizer, não é mesmo? Mas, se fosse por mim, pela maioria e até pelo próprio Nicko, que chegou a sugerir o brasileiro Aquiles Priester para o posto, a escolha com certeza seria outra.
Ver o Iron Maiden chegando ao seu cinquentenário ainda em forma é motivo de imensa gratidão para os fãs, mas também surge aquela sensação: será que o fim está próximo ou não? Por enquanto, acho que essa ideia ainda vai ficar em stand by por um tempo, porque a banda estendeu a turnê para abril de 2027, ano que, a princípio, seria sabático para o grupo. Sabemos que a banda vai voltar ao Brasil mais uma vez, sabe-se lá quando, pois Bruce deu essa certeza ao final do show, usando a clássica frase de James Bond: "Nós voltaremos!". Quanto a isso, não restam dúvidas, porque o mundo é mais feliz com o Iron Maiden ainda em atividade.













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