quinta-feira, 12 de março de 2026

Ignescent: Peso, Melodia e Atmosfera Eletrônica (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

A banda norte-americana Ignescent retorna com Eternal, álbum produzido por Jeremy Valentine (New Years Day) em parceria com Brandon Wolfe. O trabalho apresenta uma coleção consistente de faixas que transitam pelo metal moderno com fortes elementos eletrônicos e influências do Nu Metal dos anos 2000. Entre os destaques estão “Joker”, “Fearless” — composta em parceria com Sameer Bhattacharya, do Flyleaf — e “Chariot Of Fire”, que conta com a participação especial de Clint Lowery, guitarrista do Sevendust.

Logo na abertura, “Joker” apresenta a identidade sonora do disco. A faixa aposta em vocais carregados de efeitos e em uma melodia marcante, sustentada por um refrão forte e diversas alternâncias dinâmicas entre as partes instrumentais e vocais. Backing vocals masculinos acrescentam textura à composição, enquanto a produção garante clareza e equilíbrio entre os instrumentos.

Em “Scream”, o grupo se aproxima ainda mais das raízes do Nu Metal. A música começa com guitarras de timbre mais sujo e vocais quase falados, criando uma atmosfera que remete diretamente à estética do gênero. O refrão, por sua vez, traz uma abordagem melódica que lembra a escola do Linkin Park, com destaque para os fraseados de piano que reforçam o clima emocional da faixa.

A intensidade retorna em “Fight For Me”, que alterna momentos de peso com passagens mais minimalistas. Após uma introdução pesada, a música desacelera para um trecho praticamente vocal antes de explodir em um refrão envolvente. Mais uma vez, os vocais de Jennifer Benson assumem papel central, demonstrando versatilidade e presença. A bateria com estética eletrônica também chama atenção, reforçando a influência da sonoridade pesada do início dos anos 2000.

“Fearless” surpreende ao iniciar com uma base eletrônica de caráter quase pop, que rapidamente se transforma em uma faixa pesada e cadenciada. Os vocais limpos de Jennifer dialogam com backing vocals masculinos bem posicionados, criando contraste interessante ao longo da música. Apesar da densidade sonora, a estrutura da faixa se aproxima de uma balada moderna, com direito a um interlúdio marcado por guitarras extremamente distorcidas.

As influências do Nu Metal aparecem de forma ainda mais explícita em “Shame Shadow”. A faixa reúne diversos elementos característicos do estilo, como scratches eletrônicos, referências ao hip hop e guitarras densas que contrastam com os vocais limpos da cantora. O refrão repetitivo na segunda metade da música reforça a atmosfera típica do gênero.

Em “Our Love Dies”, o Ignescent explora um lado mais melódico sem abandonar sua estética moderna. As guitarras pesadas sustentam uma base sólida para os vocais melódicos, que permanecem em destaque durante toda a composição. Os efeitos aplicados à voz continuam presentes, consolidando uma das principais assinaturas sonoras da banda.

O lado mais acessível do álbum surge em “Light Up The Night”, uma balada que revela uma faceta mais suave do grupo. Ainda assim, elementos característicos do Ignescent — como as batidas eletrônicas e os efeitos vocais — permanecem presentes. A construção da música remete às tradicionais power ballads, criando a expectativa constante de uma explosão sonora que nunca chega de forma completa.

“Alone In The Dark” segue uma estrutura semelhante, iniciando de forma introspectiva antes de evoluir para um refrão mais pesado. A faixa se destaca pelas melodias cativantes distribuídas ao longo de toda a composição, consolidando-se como uma sólida power ballad dentro do repertório do disco.

A participação especial aparece em “Chariot Of Fire”, que conta com Clint Lowery, do Sevendust. A presença do músico adiciona uma nova dimensão à faixa, especialmente pelo dueto vocal que se desenvolve ao longo da música. O resultado é uma composição moderna, intensa e bem construída, que certamente agradará aos fãs do metal contemporâneo.

Encerrando o álbum, a faixa-título “Eternal” mantém a coerência estética do trabalho. A música combina elementos eletrônicos com uma base pesada, destacando os vocais de Jennifer e o baixo de Mikey Green. O refrão marcante garante um fechamento sólido para o disco, consolidando a faixa como um dos momentos mais fortes do álbum.

De forma geral, Eternal apresenta um Ignescent coeso e alinhado com a sonoridade do metal moderno, equilibrando peso, elementos eletrônicos e forte presença melódica. Embora a intensidade diminua ligeiramente na reta final devido à sequência de faixas mais cadenciadas, o álbum se mantém consistente e certamente agradará aos fãs de bandas que mesclam metal contemporâneo com influências do Nu Metal.

***ENGLISH VERSION***

American band Ignescent returns with Eternal, a new album produced by Jeremy Valentine (New Years Day) alongside Brandon Wolfe. The record delivers a cohesive collection of modern metal tracks infused with strong electronic elements and clear influences from the early-2000s Nu Metal scene. Among the highlights are “Joker”, “Fearless” — co-written with Sameer Bhattacharya of Flyleaf — and “Chariot Of Fire,” featuring a special guest appearance by Clint Lowery of Sevendust.

The album opens with “Joker” a track that immediately establishes the band’s sonic identity. The song blends heavily processed vocals with a strong melodic backbone and a compelling chorus. Dynamic shifts between instrumental and vocal passages add depth to the arrangement, while male backing vocals provide additional texture. The production ensures clarity and balance among the instruments, reinforcing the band’s tight overall performance.

On “Scream” the group leans further into Nu Metal territory. The track begins with gritty guitar tones and almost spoken vocals, creating a raw atmosphere reminiscent of the genre’s classic aesthetic. The chorus introduces a more melodic approach that evokes the influence of Linkin Park, while piano accents subtly enhance the emotional tone of the song.

“Fight For Me” brings the intensity back with a structure that alternates between heavy and stripped-down moments. After a powerful opening section, the track briefly transitions into a nearly vocal-only passage before exploding into a memorable chorus. Once again, Jennifer Benson vocals take center stage, showcasing both power and versatility. The electronic-styled drum production further emphasizes the early-2000s heavy music influence.

“Fearless” surprises from the outset with a fully electronic introduction built on a pop-inspired beat before quickly shifting into a heavier groove. Jennifer’s clean vocals blend seamlessly with well-placed male backing vocals, creating a compelling contrast throughout the track. Despite its heavy elements, the song carries the pacing and emotional feel of a modern power ballad, especially with the inclusion of a gritty guitar-driven interlude.

Nu Metal influences become even more explicit on “Shame Shadow”. The track incorporates many of the genre’s defining traits, including electronic scratches, subtle hip-hop influences, and thick guitar riffs that contrast with Jennifer’s clean vocal delivery. The extended repetition of the chorus in the second half of the song reinforces the classic Nu Metal atmosphere.

With “Our Love Dies” Ignescent explores a more melodic side without abandoning its modern metal identity. Heavy guitars provide a solid foundation for expressive vocal melodies that remain prominent throughout the song rather than appearing only in the chorus. The continued use of vocal effects further highlights one of the band’s defining sonic signatures.

The band’s softer side emerges in “Light Up The Night” a ballad that showcases a more atmospheric approach. Even so, signature elements such as electronic beats and layered vocal effects remain present. The structure evokes the classic power ballad format, constantly building anticipation for a heavier climax that never fully arrives.

“Alone In The Dark” follows a similar dynamic, beginning with a restrained atmosphere before building toward a heavier chorus. The track stands out for its strong melodic hooks, which appear not only in the chorus but throughout the entire composition, making it one of the album’s most engaging power ballads.

The album’s featured collaboration appears in “Chariot Of Fire” which includes Clint Lowery of Sevendust. His presence adds an extra layer of intensity, particularly through the vocal interplay with Jennifer that runs through much of the song. The result is a powerful and modern composition that will certainly appeal to fans of contemporary metal.

Closing the album, the title track “Eternal” maintains the sonic cohesion established throughout the record. The song blends electronic textures with a heavy instrumental base, highlighting Jennifer’s vocals and Mikey Green bass performance. Its strong chorus provides a fitting conclusion and positions the track among the album’s standout moments.

Overall, Eternal presents a focused and cohesive Ignescent, balancing heavy guitars, electronic textures, and strong melodic elements. While the album’s intensity slightly softens in its later stages due to a sequence of slower tracks, it remains a consistent and engaging listen that will resonate with fans of modern metal infused with Nu Metal influences.

Timothy Benson

quarta-feira, 11 de março de 2026

Venus 5: O Avanço do Metal Feminino Europeu (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

A banda multinacional feminina Venus 5 retorna em 2026 com March of the Venus 5, seu segundo trabalho de estúdio e um claro passo adiante em relação ao debut autointitulado lançado em 2022. Formado por cinco vocalistas de diferentes países europeus — Karmen Klinc (Eslovênia), Jelena Milovanovic (Sérvia), Tezzi Persson (Suécia, também conhecida por seu trabalho com o Hell in the Club), Herma (Itália, do Sick N’ Beautiful) e Erina Seitllari (Albânia) — o projeto aprofunda sua identidade sonora ao apostar em uma abordagem mais pesada e próxima do metal tradicional, sem abandonar os elementos modernos e melódicos que definem sua proposta.

A produção volta a ficar nas mãos de Aldo Lonobile (Secret Sphere), enquanto a composição conta novamente com a participação de Jake E. (ex-Amaranthe, Cyhra). O resultado é um álbum que equilibra riffs contundentes, arranjos vocais elaborados e elementos eletrônicos e sinfônicos, dentro de uma estética que dialoga diretamente com o metal europeu contemporâneo.

A faixa-título “March of the Venus 5” abre o álbum de forma imponente, apresentando um poderoso coral de vozes femininas sustentado por guitarras pesadas e uma base rítmica sólida. O trabalho de guitarra de Gabriele Robotti se destaca ao criar a estrutura ideal para que as vocalistas alternem protagonismo ao longo da música.

Na sequência, “Like a Witch” aposta em uma combinação eficiente de metal melódico com elementos eletrônicos. As trocas de vozes funcionam com precisão, evidenciando as características individuais de cada cantora, enquanto o refrão em uníssono reforça a identidade coletiva do grupo.

“Far Away” surge com uma introdução épica e se desenvolve como uma power ballad de forte apelo melódico. A faixa se destaca pelos arranjos vocais elaborados e pela melodia marcante do refrão, além do inspirado trabalho de baixo de Andrea Buratto e de um solo de guitarra bastante expressivo.

Com “Set Me Free”, o álbum retoma o peso com maior intensidade. A escolha de timbres de teclado ajuda a construir a atmosfera da música, enquanto o refrão explosivo reforça sua vocação para momentos mais energéticos. Mais uma vez, o destaque fica para o desempenho vocal coletivo.

“Stereotypes” mergulha em uma sonoridade moderna claramente influenciada por nomes como Amaranthe e Follow the Cypher. Com forte presença de elementos eletrônicos, a faixa se destaca pelo equilíbrio entre peso e complexidade, apresentando um refrão poderoso que flerta com o power metal.

“Surrender” mantém essa linha contemporânea, abrindo com teclados épicos que remetem a bandas como Stratovarius. A música evolui para um refrão pesado e marcante, com destaque para os arranjos de teclado de Antonio Agate, que enriquecem a dinâmica da composição.

Em “Satellite”, o grupo apresenta mais um exemplo da consistência sonora do álbum. A faixa traz elementos eletrônicos que lembram a abordagem de bandas como Beast in Black, mas sem perder a identidade própria do Venus 5. O resultado é uma música cadenciada, reforçada por bons solos de guitarra e um refrão eficiente.

A pesada “Invincible” aposta em arranjos vocais diferenciados, especialmente nos versos, antes da entrada de um refrão poderoso interpretado coletivamente. A produção moderna e as batidas eletrônicas contribuem para ampliar o alcance sonoro da faixa sem comprometer a identidade do grupo.

“Winter On My Skin” é a power ballad mais tradicional do disco. A combinação entre versos cadenciados e um refrão forte cria um momento emocional dentro do álbum, reforçado por arranjos vocais bem construídos e por um belo solo de guitarra acústica.

Em “Take It From The Start”, o grupo volta a explorar a atmosfera épica das baladas do metal melódico. A faixa começa de forma delicada, quase como uma balada, antes de evoluir para um refrão grandioso que evidencia o potencial das cinco vocalistas cantando juntas.

Encerrando o álbum, “The Other Shore” aposta em uma abordagem mais sinfônica. A introdução orquestral dá espaço a um interessante revezamento vocal que culmina em um coro marcante, fechando o disco de forma elegante e imponente.

Com March of the Venus 5, o projeto consolida sua proposta ao equilibrar peso, melodias marcantes e arranjos vocais sofisticados. Ao se afastar parcialmente da abordagem mais pop do primeiro trabalho e investir em um metal mais robusto, o Venus 5 entrega um álbum coeso, moderno e extremamente cativante para fãs do metal melódico contemporâneo.

***ENGLISH VERSION***

The album opens in commanding fashion with the title track “March of the Venus 5.” A powerful chorus of female voices emerges over heavy guitars and a solid rhythmic foundation, immediately establishing the band’s dynamic vocal interplay. Guitarist Gabriele Robotti delivers a strong performance, crafting the perfect framework for the five singers to showcase their individual strengths.

“Like a Witch” follows with an effective mix of melodic metal and electronic elements. The vocal exchanges are precise and well-balanced, highlighting the unique tone of each singer while the unison chorus reinforces the collective identity of the group.

With its epic introduction, “Far Away” unfolds as a classic power ballad driven by an emotional vocal melody. The track stands out for its layered vocal arrangements, an expressive guitar solo, and the tasteful bass work of Andrea Buratto.

The energy rises again with “Set Me Free” where heavier guitar tones and well-chosen keyboard textures help create a vibrant atmosphere. The explosive chorus gives the track a strong live appeal, while the vocal performance remains the central focus.

“Stereotypes” dives deeper into a modern sound clearly inspired by bands such as Amaranthe and Follow the Cypher. Blending electronic elements with metal instrumentation, the track balances heaviness and complexity, culminating in a powerful chorus that flirts with power metal aesthetics.

Opening with epic keyboards reminiscent of Stratovarius, “Surrender” continues the contemporary approach while delivering a heavier and more dynamic chorus. The keyboard arrangements by Antonio Agate add an additional layer of depth to the composition.

“Satellite” further demonstrates the album’s sonic consistency. Electronic beats reminiscent of Beast in Black appear throughout the track, yet without overshadowing the band’s identity. The result is a well-paced melodic metal song enhanced by strong guitar solos and a memorable chorus.

The heavy “Invincible” introduces a slightly different vocal structure in its verses before exploding into a powerful collective chorus. Modern production and subtle electronic elements enrich the track without compromising the band’s core sound.

“Winter On My Skin” stands as the album’s most traditional power ballad. The contrast between restrained verses and a soaring chorus creates an emotional highlight, complemented by refined vocal arrangements and a tasteful acoustic guitar solo.

Another epic moment arrives with “Take It From The Start”. Beginning almost like a classic ballad, the song gradually builds toward a grand and emotional chorus that highlights the full potential of the five singers performing together.

Closing the album, “The Other Shore” embraces a more symphonic approach. Its orchestral introduction leads into alternating vocal lines before culminating in a powerful chorus, bringing the record to an elegant and memorable conclusion.

With March of the Venus 5, the project successfully refines its formula by balancing heaviness, melodic hooks and intricate vocal arrangements. By moving slightly away from the more pop-oriented approach of the debut and leaning toward a more robust metal sound, Venus 5 delivers a cohesive, modern and highly engaging album for fans of contemporary melodic metal.

Arianna Ceccarelli


segunda-feira, 9 de março de 2026

Cobertura de Show: Living Colour – 27/02/2026 – Tokio Marine Hall/SP

O Tokio Marine Hall abriu suas portas para receber o lendário Living Colour em sua celebração de quatro décadas de carreira, com a turnê “The Best of 40 Years” trazendo o melhor da banda. O que se viu foi um espetáculo de energia, técnica e paixão, que contagiou uma casa lotada e um público visivelmente animado. Desde o início da apresentação, ficou claro que a banda não estava ali apenas para cumprir tabela, mas para entregar uma performance visceral, digna de sua história e de seu legado musical. A expectativa era alta, e o quarteto não decepcionou, transformando a noite em uma celebração do rock em sua forma mais pura e inovadora.

O quarteto americano, atualmente formado por Corey Glover (vocais), Vernon Reid (guitarra), Doug Wimbish (baixo) e Will Calhoun (bateria), é uma força da natureza. A banda, que sempre desafiou rótulos, mistura com maestria elementos de hard rock, funk, jazz, metal e soul, criando uma sonoridade única e inconfundível. No palco do Tokio Marine Hall, essa fusão foi apresentada com uma intensidade que apenas anos de estrada e uma química impecável podem proporcionar. Glover, com sua voz potente e expressiva, comandava a plateia, enquanto Reid esbanjava solos cheios de personalidade. Wimbish e Calhoun formavam uma “cozinha” cheia de groove, base perfeita para a experimentação sonora do grupo.

O show começou com a pancada de “Leave It Alone”, que imediatamente incendiou a plateia, seguida pela pegada irresistível de “Middle Man”. A banda mostrou, desde o início, sua versatilidade ao emendar um cover surpreendente de “Memories Can't Wait”, do Talking Heads, injetando sua própria identidade na faixa. A sequência continuou com a crítica social de “Ignorance Is Bliss” e a energia contagiante de “Go Away”, mantendo o público em constante movimento. O groove funkeado de “Funny Vibe” antecedeu um “Parabéns a Você” dedicado a alguém do público; Corey chegou a descer do palco para cantar bem próximo ao aniversariante. Na sequência, a intensidade de “Bi” preparou o terreno para outro momento inesperado: o cover de “Hallelujah”, de Leonard Cohen, que ganhou uma interpretação belíssima e emocionante de Corey.

A apresentação continuou ganhando intensidade e explorando diferentes sonoridades. “Open Letter (to a Landlord)” começou introspectiva e logo ganhou novos contornos como somente o Living Colour sabe fazer antes do palco ser dominado pela maestria individual dos músicos. O solo de bateria de Will Calhoun foi um show à parte, uma demonstração de técnica e criatividade que culminou com um trecho de “Baianá”, do Barbatuques, em homenagem à cultura brasileira. Dali em diante, o show ganhou novo fôlego com a poderosa “This Is the Life” e o hino “Pride”, que fez o público cantar em uníssono.

O ápice da noite se aproximava com a sequência avassaladora de clássicos. Então, o baixista Doug Wimbish foi ao microfone para anunciar que fariam algo especial, e a banda entregou uma fusão explosiva de “White Lines (Don't Don't Do It) / Apache / The Message”, transformando o palco em uma pista de dança com o melhor do hip hop. O cover de “You Don't Love Me (No, No, No)”, de Dawn Penn, adicionou um toque reggae, mostrando a pluraridade de influências do grupo. “Glamour Boys” e “Love Rears Its Ugly Head” foram cantadas a plenos pulmões pelos fãs, demonstrando devoção as canções mais emblemáticas do Living Colour. A versão rápida e pesada de “Type” manteve a energia em alta, evidenciando que a banda é mestre em criar dinâmicas surpreendentes. O cover de “Police and Thieves”, de Junior Murvin, trouxe um momento de relativa calmaria.

O grand finale foi, como esperado, marcante. “Time's Up” e o hino “Cult of Personality” levaram o Tokio Marine Hall à loucura, com Corey Glover interagindo intensamente e Vernon Reid disparando riffs que são marca registrada da banda. A energia era intensa, e a sensação de se presenciar um momento histórico era evidente. Sem sair do palco, o bis ocorreu com a melódica e esperançosa “Solace of You”, fechando a noite de maneira apoteótica, com participação calorosa do público, que cantou o refrão por minutos. Com duas horas de apresentação, a banda deixou o palco visivelmente emocionada. O show foi mais do que uma sequência de músicas bem executadas: foi uma aula de presença de palco, diversidade sonora e entrega. Quarenta anos depois, o Living Colour soa atual, afiado e necessário. Quem esteve presente saiu com a sensação de ter assistido não apenas a um grande concerto, mas a uma banda que ainda tem muita lenha para queimar.


Texto: Marcelo Gomes 


Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Top Link Music 


Living Colour – setlist:

Leave It Alone

Middle Man

Memories Can't Wait (Talking Heads cover)

Ignorance is Bliss

Go Away

Funny Vibe

Bi

Hallelujah (Leonard Cohen cover)

Open Letter (to a Landlord)

Drum Solo / Baianá (Barbatuques cover) 

This Is the Life

Pride

White Lines (Don't Don't Do It) / Apache / The Message

You Don't Love Me (No, No, No) (Dawn Penn cover)

Glamour Boys

Love Rears Its Ugly Head

Type

Police and Thieves (Junior Murvin cover)

Time's Up

Cult of Personality

Solace of You 

Entrevista - Brutal Reality: A Essência do Death Metal em su Forma mais Brutal

 

- Olá Julio. Obrigado pela sua gentileza em nos atender. Parabéns pelo lançamento do álbum “The Cycle of Fall”, pois o material ficou de primeira... Como você pode descrever o trabalho na composição deste tipo de sonoridade?

É interessante falar sobre isso porque foi um processo natural com início em 1994, quando começamos a nos aprofundar no estilo de música, tendo bandas como Slayer, Cannibal Corpse, Morbig Angel, Deicide, Dorsal Atlantica, Sepultura e Ratos de Porão como a nossa playlist de todos os dias quando tinhamos apenas 15 anos. Ao seguir dos anos foi um amadurecimento natural na forma de composição, assim conseguindo chegar em uma sonoridade que nos representa na essência do que gostamos.

- Eu escutei o álbum diversas vezes e, só após várias tentativas, consegui captar parte das suas ideias. Os fãs têm sentido este tipo de dificuldade também?

Foi positivo a abordagem das pessoas para falar da temática das músicas, inclusive sobre a conexão da arte da capa com as letras. Eles entenderam sobre o caos expresso na capa com a mensagem das músicas Mind Controller, The real Enemy e Power by Blood, que falam majoritariamente da manipulação pela desinformação e apelo religioso para alcançar o poder. Esses são os agentes moderadores da sociedade bloqueando a estrutura racional da sociedade. 

- Existem planos para o lançamento de “The Cycle of Fall” através da MS Metal Records, atual gravadora de vocês, no formato físico?

Estamos em negociações com a MS Metal Records.

- Adorei o fato de trabalharem com o inglês, mas isso não pode vir a atrapalhar vocês no mercado nacional?

O público do metal extremo sempre foi receptivo as bandas cantando em inglês, então o foco é mais sonoro seguido pela mensagem.

- Como estão rolando os shows em suporte ao disco? A aceitação está sendo positiva?

A conexão da banda com os head bangers foi de imediato, ficamos felizes porque eles entenderam o nosso som. A melhor resposta são as rodas de circle beat.

- Quem assinou a capa do CD? Qual a intenção dela e como ela se conecta com o título?

A capa é do Aurélio Lara (Designlara Artwork), ele é de Cuiaba/MT. A sua arte foi de encontro com o título do Álbum, pois nessa imagem temos uma visão do caos com duas estatuas que simbolizam a justiça sendo destruídas.

- Onde “The Cycle of Fall” foi produzido? Foi satisfatório o resultado obtido com ele?

A produção foi realizada pelo Rogerio Weko do Dual Noise Studio. Ele já gravou diversas bandas do cenário do metal, experiência de anos do meio. É um cara que conseguiu reproduzir tudo o que pedimos para o som e ficamos muito felizes com o resultado. Foi e continuará sendo uma parceria, porque o segundo álbum também será com ele.

- Imagino que já estejam trabalhando em novo material, estou certo? Se sim, como está se dando o processo e como ele está soando?

Estamos trabalhando no segundo álbum, já temos cinco composições que estão na linha do que queremos, pesado e visceral.

- Novamente parabéns pelo trabalho e vida longa ao BRUTAL REALITY... Agora é contigo para as suas considerações finais... 

Agradecemos a oportunidade para divulgação da banda, falando um pouco mais em detalhes sobre o Brutal Reality. Um grande abraço!

sábado, 7 de março de 2026

Hömeless: O mais novo Titã do Crossover brasileiro acaba de chegar com o seu primeiro álbum

 

Por Denis A. Lacerda

Nota: 09.0/10.0

A estreia da HÖMELESS com o álbum Obscuro Lado da Alma” chega naquele clima cru e sem firula que muita gente da cena underground prefere de verdade. A banda paulista está na ativa desde 2010 e aposta num Crossover raivoso, cheio de atitude punk e pegada direta. A presença do experiente baterista Spaghetti, conhecido por sua passagem pelo Ratos de Porão, junto do guitarrista e vocalista Vinícius Vak, já entrega logo de cara que a bolachinha vem com pedigree dentro para se destacar dentro da cena.

A produção do disco é suja na medida certa, sem aquele polimento exagerado que às vezes tira a alma do som. Aqui a ideia é outra: manter o clima cru e visceral que o estilo pede, com várias referências ao Thrash Metal, indo mais para o lado do Slayer. Nesse cenário, Spaghetti manda ver atrás da bateria, despejando velocidade e técnica sem perder o peso com muita intensidade. É aquele tipo de batera que segura a bronca do começo ao fim, deixando tudo com a pancadaria necessária para o disco funcionar.

Do outro lado, Vinícius Vak segura bem as pontas nos vocais e mostra versatilidade dentro da proposta da banda. O cara entrega interpretações intensas, combinando perfeitamente com as letras cantadas em português, que mergulham em temas pesados como violência, decadência social, cotidiano urbano e os lados mais sombrios da natureza humana. Entre as faixas, “Falsos Deuses, Falsos Profetas” chama muita atenção — talvez a mais perturbadora do álbum — enquanto “Frio da Morte” traz um clima denso que dá aquele nó na cabeça e faz refletir.

Outro momento que merece menção é “Formas de Acabar com a Vida”, que ainda conta com a participação de Alex Kafer, baixista e vocalista do The Troops of Doom. No fim das contas, “Obscuro Lado da Alma” chega como um debut honesto, direto e cheio de atitude. Não inventa moda, mas entrega exatamente o que promete: Crossover pesado, letras incômodas e aquela energia de garagem que faz o underground ser tão amado e idolatrado como ele é.

Axel Rudi Pell: Entre Riffs, Virtuosismo, Melodias e Tradição (Also In English)

SPV Steamhammer (Imp.)

Por Flavio Borges

O guitarrista alemão Axel Rudi Pell retorna ao cenário com Ghost Town, seu 23º álbum de estúdio, reafirmando sua posição como um dos principais nomes do heavy metal melódico europeu. Com lançamento previsto para março de 2026, o trabalho mantém intacta a identidade sonora construída ao longo de décadas, combinando riffs marcantes, solos virtuosos e forte apelo melódico.

Para esta nova empreitada, Pell reúne um line-up de peso: o vocalista Johnny Gioeli (Hardline), parceiro de longa data; o baixista Volker Krawczak; o tecladista Ferdy Doernberg; e o lendário baterista Bobby Rondinelli (Rainbow, Black Sabbath, Blue Öyster Cult). A produção, assinada por Pell ao lado de Tommy Geiger (Blind Guardian, Helloween), garante clareza, potência e equilíbrio entre peso e sofisticação.

“The Regicide (Intro)” abre o álbum com uma introdução atmosférica marcada por guitarras limpas e timbres cuidadosamente trabalhados. Em pouco menos de dois minutos, estabelece o clima épico que conduz naturalmente à faixa seguinte.

“Guillotine Walk” evidencia a forte influência de Ritchie Blackmore na construção dos riffs e no fraseado da guitarra. A performance de Gioeli é intensa e segura, enquanto as dobras de guitarra que antecedem o solo reforçam o caráter clássico da composição.

Em “Breaking Seals”, a participação especial de Udo Dirkschneider adiciona peso e autenticidade ao metal tradicional apresentado. A faixa remete diretamente à escola germânica do gênero, com claras referências ao Accept, enquanto Gioeli demonstra versatilidade ao dividir os vocais com Udo em um duelo potente e equilibrado.

A faixa-título, “Ghost Town”, sintetiza a essência artística de Axel Rudy Pell: refrão impactante, base sólida e um solo melódico que conduz a música a seu clímax. Os teclados de Doernberg ampliam a atmosfera épica, sustentando a dramaticidade da composição.

Com “Holy Water”, o álbum mergulha em uma abordagem mais densa e solene. A introdução grandiosa evolui para uma seção em que baixo e teclado assumem protagonismo, enquanto os timbres de guitarra adotam uma sonoridade mais seca e pesada. O trabalho de Krawczak se destaca ao marcar as variações de andamento com precisão.

“The Enemy Within” surpreende ao iniciar como uma power ballad e evoluir para passagens mais cadenciadas, próximas do doom metal. A faixa revela de forma clara as influências clássicas que moldaram a carreira de Pell, transitando por atmosferas que remetem a Black Sabbath e Judas Priest, com Gioeli adaptando sua interpretação a cada nuance.

A energia retorna com força total em “Hurricane”, uma das composições mais velozes do disco. Rondinelli demonstra vigor impressionante, sustentando a intensidade da faixa do início ao fim. O solo de Pell alia velocidade e lirismo, enquanto o baixo se mantém audível e pulsante graças à produção refinada.

“Sanity” resgata o espírito do metal tradicional, com linhas inspiradas na estética sabbathiana e refrão marcadamente melódico. A interação entre baixo, teclado e bateria cria uma base sólida para que guitarra e voz se destaquem com naturalidade.

A power ballad “Towards The Shore” oferece um momento de respiro emocional. O piano de Doernberg conduz a atmosfera introspectiva, enquanto as guitarras alternam entre peso e delicadeza. Os duetos vocais no refrão ampliam o impacto dramático da composição.

Em “Steps Of Stone”, a influência do Rainbow se faz presente na ambientação épica e melódica. A seção rítmica sustenta a grandiosidade da faixa, abrindo espaço para mais um solo expressivo de Pell.

Encerrando o álbum, “Higher Call” apresenta a composição mais longa e estruturalmente complexa do trabalho. A faixa sintetiza a coesão do grupo e evidencia o acerto na escolha do line-up, funcionando como um desfecho robusto e sofisticado.

Com Ghost Town, Axel Rudi Pell reafirma sua fidelidade às raízes do heavy metal clássico, ao mesmo tempo em que mantém elevada qualidade técnica e produção moderna. O álbum dialoga diretamente com sua base consolidada de fãs, mas também possui atributos suficientes para conquistar novos ouvintes.

Mais do que um simples lançamento, Ghost Town se apresenta como uma celebração da trajetória de um artista que permanece relevante e inspirado após mais de duas décadas de carreira solo.


***ENGLISH VERSION***

German guitar virtuoso Axel Rudy Pell returns with Ghost Town, his 23rd studio album, reaffirming his status as one of the leading figures in European melodic heavy metal. Scheduled for release in March 2026, the album preserves the unmistakable sonic identity Pell has cultivated over decades — combining commanding riffs, soaring solos, and a strong melodic sensibility.

For this new chapter, Pell once again assembles a formidable line-up: longtime collaborator Johnny Gioeli (Hardline) on vocals, bassist Volker Krawczak, keyboardist Ferdy Doernberg, and legendary drummer Bobby Rondinelli (Rainbow, Black Sabbath, Blue Öyster Cult). The album’s production, handled by Pell alongside Tommy Geiger (Blind Guardian, Helloween), delivers clarity, power, and a refined balance between weight and sophistication.

“The Regicide (Intro)” opens the record with an atmospheric instrumental built around crystalline clean guitar tones and carefully sculpted textures. In under two minutes, it establishes an epic mood that seamlessly leads into the next track.

“Guillotine Walk” makes Pell’s affinity with Ritchie Blackmore unmistakable, particularly in the riff construction and expressive phrasing. Gioeli delivers a commanding vocal performance, while the twin-guitar harmonies preceding the solo reinforce the song’s classic heavy metal character.

On “Breaking Seals” the special appearance of Udo Dirkschneider adds both authority and grit. The track channels the spirit of traditional German heavy metal, with clear nods to Accept. Gioeli showcases impressive versatility as he shares vocal duties with Dirkschneider in a powerful and well-balanced exchange.

The title track, “Ghost Town” encapsulates Pell’s artistic essence: a soaring, anthemic chorus, a cohesive rhythmic foundation, and a melodic solo that drives the composition toward its climactic peak. Doernberg’s keyboards enrich the epic atmosphere, lending additional depth and drama.

With “Holy Water” the album shifts into darker, more solemn territory. An imposing introduction unfolds into an extended passage highlighting the interplay between bass and keyboards. Here, the guitar tones become drier and heavier, while Krawczak’s bass work stands out by accentuating the track’s dynamic transitions.

“The Enemy Within” begins deceptively as a power ballad before evolving into slower, doom-tinged passages. The song clearly reflects the classic influences that have shaped Pell’s career, moving through atmospheres reminiscent of Black Sabbath and Judas Priest, with Gioeli adapting his vocal delivery to each stylistic shift.

Energy surges back with “Hurricane” one of the album’s fastest and most aggressive tracks. Rondinelli delivers a performance marked by remarkable stamina and intensity, driving the song forward at full throttle. Pell’s solo blends speed with melodic precision, while the bass remains vibrant and audible thanks to the polished production.

“Sanity” revisits traditional metal roots with a Sabbath-inspired backbone and a distinctly melodic chorus. The tight interaction between bass, keyboards, and drums provides a solid platform for the guitar and vocals to shine.

The power ballad “Towards The Shore” offers an emotional respite. Doernberg’s piano work sets an introspective tone, while the guitars alternate between heaviness and delicacy. Layered vocal harmonies in the chorus enhance the track’s dramatic impact.

On “Steps Of Stone” echoes of Rainbow surface through its epic and melodic atmosphere. The rhythm section anchors the track’s grandeur, paving the way for another expressive and tastefully constructed solo from Pell.

Closing the album, “Higher Call” stands as the longest and most structurally ambitious composition on the record. It highlights the band’s cohesion and underscores the careful selection of each musician, serving as a powerful and sophisticated finale.

With Ghost Town, Axel Rudi Pell reaffirms his unwavering commitment to classic heavy metal while maintaining a contemporary production standard and consistently high musicianship. The album speaks directly to his loyal fanbase yet possesses the strength and accessibility to attract new listeners.

More than just another release, Ghost Town stands as a celebration of an artist who remains inspired, relevant, and creatively vital after more than two decades of solo career excellence.

Kai Hoffman