sexta-feira, 26 de junho de 2026

Amberian Dawn: Sinfonia de Renascimento (Also In English)

Napalm Records (Imp.)

Temptation's Gates: O Triunfo Épico do Amberian Dawn sob uma Nova Liderança Vocal

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Depois de uma fase de transição entre estilos e mudanças na formação, a banda finlandesa de power metal sinfônico Amberian Dawn, formada em 2006, retorna com Temptation's Gates, seis anos após seu último álbum de estúdio. O novo trabalho resgata a veia power metal sinfônica que consolidou a identidade da banda, sem abrir mão dos elementos incorporados ao longo da última década, demonstrando que ainda há espaço para evoluir sem perder a própria essência. O álbum se desenvolve como uma obra de caráter épico, conduzindo o ouvinte por temas que transitam entre tentação, transformação, conflitos internos e elementos fantásticos. Mais do que servir de pano de fundo, esse conceito dá unidade ao disco e faz com que cada faixa ocupe um lugar específico dentro de uma narrativa maior.

Um dos maiores acertos desta nova fase é a performance de Nicole Willerton, que faz sua estreia em estúdio pela banda com grande personalidade. Sua interpretação impressiona pela segurança e pelo controle técnico, mas vai além da precisão. Há identidade em sua forma de cantar, alternando momentos delicados com passagens de grande intensidade sem perder a expressividade. Sua voz encontra o equilíbrio ideal entre a grandiosidade exigida pelo metal sinfônico e a emoção necessária para dar vida às composições, tornando sua estreia um dos pontos altos do álbum.

Instrumentalmente, o Amberian Dawn demonstra um cuidado evidente na construção das melodias. Os refrões são envolventes, as linhas vocais dialogam naturalmente com os teclados de Tuomas Seppälä e as guitarras de Emil "Emppu" Pohjalainen, enquanto os arranjos orquestrais ampliam a atmosfera sem transformar as músicas em um excesso de camadas. Tudo soa muito bem dosado, permitindo que peso, melodia e elementos sinfônicos coexistam de forma orgânica.

Entre os destaques, a faixa-título "Temptation's Gates" resume com precisão a proposta do álbum. Grandiosa e envolvente, ela combina refrões marcantes, orquestrações imponentes e uma interpretação vocal que traduz toda a dramaticidade da composição, funcionando como a principal representação do conceito do disco.

"Moon" explora uma atmosfera épica, equilibrando delicadeza e intensidade por meio de melodias elegantes que crescem naturalmente ao longo da música. Os teclados e as guitarras se fundem com naturalidade, criando uma sonoridade rica e envolvente. O desfecho ganha ainda mais força com a voz levemente rasgada de Nicole, um contraste que acrescenta personalidade e intensidade à composição.

Outro momento que merece atenção é "Unchained", uma das faixas mais pesadas do álbum. Além dos riffs mais incisivos, a música surpreende pela inclusão de vocais guturais, utilizados de forma estratégica para ampliar a tensão e o impacto da composição. O contraste entre os guturais e a voz limpa e cristalina de Nicole Willerton funciona de maneira impecável, adicionando uma nova dimensão à sonoridade do Amberian Dawn sem comprometer sua identidade melódica. A combinação entre peso, elementos sinfônicos e uma abordagem mais agressiva faz desta uma das faixas mais marcantes de Temptation's Gates. Merece destaque também o solo de guitarra, executado com precisão e bom gosto, que acrescenta brilho à composição e reforça seu caráter épico.

Já "Life Is Art" apresenta uma energia mais vibrante e acessível, apostando em um refrão forte e em uma construção melódica que permanece na memória desde as primeiras audições. Os teclados assumem papel de destaque ao lado da interpretação de Nicole, contribuindo para uma atmosfera ampla e emocionante que evidencia a habilidade da banda em criar músicas cativantes sem abrir mão da sofisticação dos arranjos.

Um dos momentos mais interessantes do álbum surge em "Undying Colors", que incorpora passagens eletrônicas com forte inspiração oitentista. Os sintetizadores remetem ao synth-pop e ao AOR da década de 1980, criando uma atmosfera nostálgica que dialoga diretamente com a influência do ABBA sobre Tuomas Seppälä. As harmonias vocais, a construção melódica e o brilho dos teclados remetem ao pop sueco clássico, mas são reinterpretados dentro da linguagem do metal sinfônico, resultando em uma das faixas mais criativas do disco.

Essa influência volta a aparecer em "Phantasmagoria", embora de maneira mais sutil. Em meio às orquestrações grandiosas e ao clima cinematográfico, a composição apresenta melodias vocais sofisticadas e refrões de forte apelo melódico que evocam a elegância característica do quarteto sueco. Ao mesmo tempo, a faixa reúne mudanças de dinâmica, riqueza de arranjos e uma execução impecável, sintetizando tudo o que faz Temptation's Gates funcionar tão bem e encerrando o álbum em alto nível.

O álbum trás um resultado que impressiona tanto pela imponência quanto pela riqueza de detalhes. Temptation's Gates entrega uma experiência consistente do início ao fim, sustentada por composições inspiradas, melodias marcantes e uma interpretação vocal impecável. Sem depender apenas do impacto da primeira audição, o disco revela novas facetas a cada retorno, reforçando que o Amberian Dawn inicia este novo capítulo com criatividade, maturidade e um forte senso de identidade. Mais do que um retorno às origens, Temptation's Gates mostra uma banda que compreende sua própria trajetória e a utiliza como base para seguir em frente, deixando a expectativa de que essa formação ainda tem muito a oferecer.


***ENGLISH VERSION***

Temptation's Gates: Amberian Dawn's Epic Triumph Under a New Vocal Leadership

After a period of stylistic transitions and lineup changes, Finnish symphonic power metal band Amberian Dawn, formed in 2006, returns with Temptation's Gates, six years after its last studio album. The new release revives the symphonic power metal spirit that established the band's identity while preserving the musical elements developed over the past decade, proving there is still room to evolve without sacrificing its essence. The album unfolds as an epic work, guiding the listener through themes of temptation, transformation, inner conflict, and fantasy. Rather than serving as a mere backdrop, this concept unifies the record, making each track feel like an essential chapter in a larger narrative.

One of the greatest strengths of this new era is Nicole Willerton's performance, making her studio debut with the band in remarkable fashion. Her delivery is not only technically flawless and confident but also deeply expressive. She effortlessly shifts between delicate passages and moments of soaring intensity without ever losing emotional depth. Her voice strikes the perfect balance between the grandeur expected from symphonic metal and the emotion required to bring these compositions to life, making her debut one of the album's undeniable highlights.

Instrumentally, Amberian Dawn displays exceptional attention to melodic craftsmanship. The choruses are captivating, the vocal lines intertwine naturally with Tuomas Seppälä's keyboards and Emil "Emppu" Pohjalainen's guitars, while the orchestral arrangements enrich the atmosphere without overwhelming the compositions. Everything feels carefully balanced, allowing heaviness, melody, and symphonic elements to coexist seamlessly.

Among the highlights, the title track, "Temptation's Gates," perfectly encapsulates the album's vision. Grandiose and immersive, it combines memorable choruses, majestic orchestrations, and a commanding vocal performance that captures the full dramatic scope of the composition, serving as the definitive representation of the album's concept.

"Moon" embraces an epic yet  atmosphere, balancing delicacy and intensity through elegant melodies that naturally build throughout the song. Keyboards and guitars merge effortlessly, creating a rich and immersive sonic landscape. The closing section gains additional impact through Nicole's slightly raspy vocal delivery, adding both character and emotional intensity to the composition.

Another standout is "Unchained," one of the heaviest tracks on the record. Beyond its sharper guitar riffs, the song surprises with the strategic use of harsh vocals, intensifying both its tension and emotional weight. The contrast between the growls and Nicole Willerton's crystal-clear voice works flawlessly, adding a new dimension to Amberian Dawn's sound without compromising its melodic identity. The combination of heaviness, symphonic arrangements, and a more aggressive approach makes it one of Temptation's Gates' most memorable moments. The tastefully executed guitar solo also deserves special mention, adding brilliance and reinforcing the track's epic character.

"Life Is Art" brings a more vibrant and accessible energy, built around a powerful chorus and melodic hooks that linger long after the first listen. The keyboards take center stage alongside Nicole's performance, creating a sweeping and emotionally engaging atmosphere that showcases the band's ability to craft memorable songs without sacrificing musical sophistication.

One of the album's most fascinating moments arrives with "Undying Colors," which incorporates electronic passages heavily inspired by the 1980s. Its shimmering synthesizers evoke synth-pop and AOR, creating a nostalgic atmosphere that directly reflects Tuomas Seppälä's well-known admiration for ABBA. The layered vocal harmonies, infectious melodic structure, and bright keyboard work recall the timeless elegance of Swedish pop, yet they are reimagined through the lens of symphonic metal, resulting in one of the album's most inventive compositions.

That ABBA influence resurfaces in "Phantasmagoria," albeit in a subtler way. Amid sweeping orchestral arrangements and a cinematic atmosphere, the song features sophisticated vocal melodies and irresistibly melodic choruses that echo the refined songwriting associated with the legendary Swedish quartet. At the same time, the track combines dynamic shifts, rich arrangements, and impeccable musicianship, bringing together everything that makes Temptation's Gates such a rewarding listening experience while closing the album on a powerful note.

The final result is an album that impresses through both its grandeur and its meticulous attention to detail. Temptation's Gates delivers a consistently engaging experience from beginning to end, driven by inspired songwriting, memorable melodies, and an outstanding vocal performance. Rather than relying solely on the impact of a first listen, the record reveals new layers with each revisit, confirming that Amberian Dawn enters this new chapter with creativity, maturity, and a renewed sense of identity. More than a return to its roots, Temptation's Gates demonstrates a band that fully understands its own musical journey and uses it as a foundation for the future, leaving listeners eager to discover what this lineup will accomplish next.

Divulgação


Stormhammer: A Fúria do Martelo (Also In English)

ROAR (Imp.)

Por Flavio Borges

Após o sólido retorno proporcionado por Welcome to the End, os alemães do StormHammer voltam a demonstrar que ainda possuem muito a dizer dentro do competitivo cenário do power metal europeu. Em Wrath of the Hammer, a banda preserva os elementos que definiram sua trajetória ao longo de mais de duas décadas — riffs robustos, melodias grandiosas e refrões marcantes —, mas acrescenta novas camadas de agressividade e complexidade que tornam o álbum uma das obras mais interessantes de sua discografia recente.

Desde os primeiros momentos, fica evidente que o grupo buscou expandir sua identidade sonora. A introdução “Beware” funciona como uma porta de entrada para um universo musical que transita com naturalidade entre o power metal tradicional, passagens de thrash metal e ocasionais elementos progressivos. A faixa-título estabelece imediatamente essa proposta, alternando velocidade extrema, guitarras cortantes e um refrão épico que remete às raízes mais clássicas do gênero.

Ao longo do álbum, o grande mérito do StormHammer está justamente na forma como equilibra peso e melodia. Faixas como “Ashes of the Throne” e “Light in the Dark” demonstram uma compreensão madura das dinâmicas do power metal contemporâneo, combinando estruturas tradicionais com arranjos mais elaborados e mudanças de andamento que evitam qualquer sensação de repetição. A presença constante de teclados sinfônicos adiciona profundidade às composições sem jamais comprometer a contundência das guitarras.

Outro aspecto que merece destaque é a performance vocal. Os vocais transitam entre linhas melódicas típicas do power metal europeu e abordagens mais agressivas que reforçam a influência thrash presente em diversos momentos do disco. Essa dualidade amplia a variedade emocional das composições e impede que o álbum se acomode em fórmulas excessivamente previsíveis.

“Wheels of Eternity” surge como um dos pontos altos do trabalho, reunindo todos os elementos que definem a proposta da banda: velocidade, senso melódico apurado, arranjos sinfônicos bem posicionados e uma construção épica que cresce progressivamente até culminar em um refrão memorável. Já “Guardians of the Night” assume o papel da tradicional power ballad, trazendo passagens acústicas, atmosfera medieval e uma carga emocional que oferece um respiro bem-vindo em meio à intensidade predominante do álbum.

Na segunda metade do disco, o StormHammer reforça ainda mais sua identidade híbrida. “Veil of Fire”, “Scars of the Abyss” e “Shattered Dominion” exploram com competência a fusão entre a agressividade do thrash e a grandiosidade do power metal, sem soar como uma simples colagem de influências. Há uma preocupação evidente em construir uma linguagem própria, sustentada por um trabalho instrumental coeso e por arranjos cuidadosamente desenvolvidos.

A seção rítmica merece menção especial. O entrosamento entre baixo e bateria fornece uma base sólida para as constantes mudanças de andamento, enquanto as guitarras alternam momentos de precisão cirúrgica com passagens altamente melódicas. Os solos, embora tecnicamente impressionantes, raramente soam gratuitos, servindo sempre ao desenvolvimento das composições.

O encerramento com “The Dune” sintetiza de maneira eficaz tudo o que foi apresentado anteriormente. A faixa reúne diferentes facetas do álbum — do peso agressivo às passagens mais épicas e sinfônicas — e conclui a audição de forma convincente, reafirmando a personalidade musical da banda.

Se o power metal moderno frequentemente sofre com excesso de previsibilidade e apego a fórmulas desgastadas, Wrath of the Hammer surge como um contraponto bem-vindo. Sem reinventar o gênero, o StormHammer encontra maneiras inteligentes de revitalizar sua proposta através da incorporação de influências externas e de uma composição mais ambiciosa. O resultado é um álbum consistente, pesado, melódico e tecnicamente refinado, capaz de agradar tanto aos seguidores de longa data quanto aos ouvintes que procuram algo além dos clichês habituais do estilo.


***ENGLISH VERSION***

Following the solid comeback delivered by Welcome to the End, Germany’s StormHammer once again prove they still have plenty to offer within the highly competitive European power metal scene. On Wrath of the Hammer, the band retains the core elements that have defined its career for more than two decades—powerful riffs, soaring melodies, and memorable choruses—while adding new layers of aggression and complexity that make this one of the most compelling releases in their recent catalog.

From the very first moments, it becomes clear that StormHammer have sought to expand their sonic identity. The introductory piece, “Beware,” serves as a gateway into a musical landscape that effortlessly blends traditional power metal with thrash-infused passages and occasional progressive flourishes. The title track immediately establishes this approach, combining blistering speed, razor-sharp guitar work, and an epic chorus that pays homage to the genre’s classic roots.

Throughout the album, StormHammer’s greatest strength lies in their ability to balance heaviness and melody. Tracks such as “Ashes of the Throne” and “Light in the Dark” showcase a mature understanding of contemporary power metal, merging traditional song structures with more sophisticated arrangements and dynamic tempo shifts that prevent the material from becoming formulaic. The constant presence of symphonic keyboards adds depth and atmosphere without ever diminishing the impact of the guitars.

Another highlight is the vocal performance. The vocals move seamlessly between soaring melodic lines characteristic of European power metal and more aggressive deliveries that reinforce the thrash influences present throughout the record. This duality broadens the emotional range of the compositions and helps the album avoid many of the genre’s more predictable pitfalls.

“Wheels of Eternity” stands out as one of the album’s defining moments, bringing together all the elements that characterize StormHammer’s vision: speed, strong melodic sensibilities, well-placed symphonic arrangements, and an epic structure that steadily builds toward a memorable chorus. Meanwhile, “Guardians of the Night” fills the role of the classic power ballad, incorporating acoustic passages, a medieval atmosphere, and an emotional depth that provides a welcome contrast to the album’s prevailing intensity.

During the second half of the record, StormHammer further solidify their hybrid identity. “Veil of Fire,” “Scars of the Abyss,” and “Shattered Dominion” skillfully explore the intersection between thrash aggression and power metal grandeur without ever sounding like a mere collection of influences. There is a clear effort to establish a distinctive musical voice, supported by cohesive musicianship and carefully crafted arrangements.

The rhythm section deserves special recognition. The interplay between bass and drums provides a solid foundation for the album’s frequent tempo changes, while the guitars alternate between moments of surgical precision and highly melodic passages. The solos, though technically impressive, rarely feel self-indulgent, always serving the songs rather than overshadowing them.

Closing track “The Dune” effectively summarizes everything that has come before. Blending the album’s various facets—from aggressive heaviness to epic and symphonic passages—it provides a fitting conclusion and reinforces the band’s musical identity.

At a time when modern power metal often struggles with predictability and an overreliance on established formulas, Wrath of the Hammer emerges as a refreshing alternative. Without attempting to reinvent the genre, StormHammer find intelligent ways to revitalize their sound through the incorporation of external influences and more ambitious songwriting. The result is a consistent, heavy, melodic, and technically accomplished album that should satisfy longtime fans while also appealing to listeners seeking something beyond the genre’s usual clichés.

Markus Konetzka

Osukaru: Onde o AOR Encontra o Metal (Also In English)

Pride And Joy Music (Imp.)

Por Flavio Borges

Cinco anos após o excelente Starbound (2021), álbum que ampliou significativamente sua projeção internacional e consolidou sua posição entre os principais nomes da nova geração do hard rock melódico escandinavo, os suecos do Osukaru retornam com Tall Tales, um trabalho que não apenas dá continuidade à trajetória ascendente da banda, mas também expande seus horizontes sonoros de forma perceptível.

Desde sua formação em Gotemburgo, em 2010, sob a liderança do guitarrista e principal compositor Oz Hawe Petersson, o grupo construiu uma discografia marcada por evolução constante. O que começou como um projeto fortemente ancorado no AOR clássico gradualmente incorporou elementos mais pesados do hard rock e até do heavy metal tradicional. Em Tall Tales, essa transformação atinge seu estágio mais maduro até o momento.

A abertura com “Exceeder” já deixa claro que a proposta desta vez é mais agressiva. As guitarras assumem o protagonismo com riffs robustos e andamento acelerado, enquanto os vocais exploram uma abordagem mais rasgada e energética. Ainda que os refrães mantenham o DNA melódico característico da banda, a influência do hard rock oitentista é muito mais evidente do que qualquer referência direta ao AOR. O solo, repleto de fraseados melódicos e passagens técnicas, estabelece o padrão de excelência instrumental que se repetirá ao longo do álbum.

“Wendigo” introduz uma interessante influência bluesy, especialmente em sua introdução marcada por gaita e guitarras de forte sabor americano. Contudo, a faixa rapidamente evolui para um hard rock musculoso e contemporâneo, equilibrando peso e melodia com naturalidade. O refrão é um dos pontos altos do disco, demonstrando a habilidade da banda em construir hooks memoráveis sem sacrificar a intensidade.

Em “Blood On The Rocks”, o Osukaru abraça conscientemente diversos clichês do gênero. Felizmente, o faz com competência suficiente para transformá-los em virtudes. Os riffs são sólidos, as mudanças de dinâmica funcionam perfeitamente e o refrão possui aquela qualidade contagiante que sempre diferenciou o grupo de muitos concorrentes da cena melódica europeia.

A primeira grande pausa emocional surge com “The Outer Side Within”. Embora não seja uma balada tradicional, a faixa se aproxima bastante desse território ao privilegiar atmosfera, emoção e riqueza vocal. Os arranjos de backing vocals são particularmente impressionantes, enquanto as guitarras adotam timbres mais elegantes e refinados. É uma composição que evidencia o amadurecimento da banda como compositora.

A partir de “Ronin”, o álbum mergulha de vez em territórios mais pesados. A canção combina elementos de hard rock, heavy metal tradicional e AOR em uma síntese extremamente eficiente. Os riffs remetem ao metal clássico, enquanto o refrão preserva a identidade melódica que define o Osukaru. É provavelmente a faixa que melhor representa a proposta geral de Tall Tales: unir diferentes facetas da carreira da banda em um único pacote coeso.

“Who Do You Love” mantém essa pegada hard n’ heavy, exibindo uma energia que remete aos melhores momentos do hard rock norte-americano dos anos 1980. Há ecos de bandas como Mötley Crüe, mas sem soar derivativa. A produção moderna e alguns arranjos surpreendentemente sofisticados adicionam complexidade à composição, ampliando seu alcance além das convenções tradicionais do gênero.

“Split” segue explorando esse equilíbrio entre peso e melodia. As guitarras assumem contornos mais contemporâneos, enquanto os vocais trabalham linhas melódicas bastante eficazes. Em diversos momentos, a faixa flerta com o heavy metal moderno, mas nunca perde de vista sua essência hard rock. Essa capacidade de transitar entre estilos sem comprometer a identidade talvez seja uma das maiores qualidades do álbum.

Quando “Only Moments Left” surge, o AOR retorna ao centro das atenções. Os teclados ganham destaque e a construção melódica remete diretamente às grandes bandas do gênero. Há uma influência perceptível de Whitesnake em alguns arranjos, embora a personalidade do Osukaru permaneça intacta. É uma das faixas mais acessíveis do disco e certamente agradará aos fãs da fase mais melódica da banda.

A sombria “When It's Over” adiciona uma camada inesperada de profundidade ao álbum. Sua introdução minimalista, baseada em guitarra e voz, cria uma atmosfera quase melancólica que contrasta fortemente com boa parte do repertório anterior. O excelente trabalho vocal e a construção gradual da tensão fazem dela uma das composições mais interessantes do disco, demonstrando que o grupo está disposto a explorar novas nuances emocionais.

O encerramento com “C'est Dans Ta Tête” (“Está na Sua Cabeça”) representa o momento mais pesado de Tall Tales. Musicalmente, a faixa se aproxima do heavy metal melódico, enquanto o refrão resgata a acessibilidade característica do hard rock melódico escandinavo. A atmosfera sombria do desfecho, sugerindo uma narrativa de colapso psicológico e possível autodestruição, cria um contraste intrigante com o caráter geralmente positivo e energético do restante do álbum.

Mais do que simplesmente repetir a fórmula que tornou Starbound um sucesso, Tall Tales demonstra uma banda confiante o suficiente para expandir sua identidade sem perder suas raízes. O Osukaru continua entregando refrães grandiosos, melodias irresistíveis e excelente trabalho instrumental, mas agora incorpora uma dose significativamente maior de peso, agressividade e maturidade composicional.

Se o álbum anterior consolidou a reputação da banda dentro da cena melódica europeia, Tall Tales surge como um passo adiante em sua evolução artística. É um trabalho que satisfaz os fãs tradicionais do AOR, mas que também dialoga com ouvintes de hard rock e heavy metal mais pesado. Em uma cena frequentemente presa a fórmulas previsíveis, o Osukaru demonstra que ainda é possível evoluir sem abandonar a essência.

Um álbum sólido, ambicioso e consistente, que reforça a posição do Osukaru entre os nomes mais relevantes do hard rock melódico contemporâneo.


***ENGLISH VERSION***

Five years after the outstanding Starbound (2021)—the album that significantly expanded their international profile and cemented their status among the leading names of the new generation of Scandinavian melodic hard rock—Sweden’s Osukaru return with Tall Tales, a record that not only continues the band's upward trajectory but also noticeably broadens its sonic horizons.

Since their formation in Gothenburg in 2010 under the leadership of guitarist and principal songwriter Oz Hawe Petersson, the band has built a discography defined by constant evolution. What began as a project deeply rooted in classic AOR gradually incorporated heavier elements of hard rock and even traditional heavy metal. On Tall Tales, that transformation reaches its most mature stage to date.

Opening track “Exceeder” immediately makes it clear that this time around the band is aiming for a more aggressive approach. Guitars take center stage through muscular riffs and an energetic pace, while the vocals adopt a grittier and more forceful delivery. Although the chorus still carries the melodic DNA that defines Osukaru, the influence of classic ’80s hard rock is far more prominent than any direct AOR reference. The solo, packed with melodic phrasing and technical flourishes, sets the standard of instrumental excellence that runs throughout the album.

“Wendigo” introduces an intriguing blues-infused flavor, particularly through its harmonica-driven introduction and guitar work steeped in American rock traditions. However, the song quickly evolves into a contemporary hard rock powerhouse, balancing weight and melody with remarkable ease. Its chorus stands among the album’s highlights, showcasing the band's ability to craft memorable hooks without sacrificing intensity.

On “Blood On The Rocks,” Osukaru consciously embraces several genre clichés. Fortunately, they do so with enough skill and conviction to turn them into strengths. The riffs are solid, the dynamic shifts feel natural, and the chorus possesses the infectious quality that has always separated the band from many of their European melodic-rock contemporaries.

The album’s first major emotional breather arrives with “The Outer Side Within.” While not a traditional ballad, it ventures close to that territory by prioritizing atmosphere, emotion, and vocal richness. The backing vocal arrangements are particularly impressive, while the guitars adopt more refined and elegant tones. It is a composition that highlights the band's growing maturity as songwriters.

From “Ronin” onward, Tall Tales dives headfirst into heavier waters. The track seamlessly combines hard rock, traditional heavy metal, and AOR into an exceptionally effective synthesis. The riffs draw heavily from classic metal, while the chorus preserves the melodic identity that defines Osukaru. It is arguably the song that best encapsulates the album’s overall mission: bringing together the various facets of the band’s career into one cohesive statement.

“Who Do You Love” maintains the hard n’ heavy momentum, delivering an energy reminiscent of the finest moments of American hard rock in the 1980s. There are echoes of Mötley Crüe throughout, yet the song never feels derivative. Modern production values and surprisingly sophisticated arrangements add layers of complexity that push the track beyond standard genre conventions.

“Split” continues to explore the balance between heaviness and melody. The guitars adopt a more contemporary edge, while the vocal melodies remain instantly engaging. At various points, the song flirts with modern heavy metal, yet never loses sight of its hard rock core. This ability to move between styles without compromising identity is perhaps one of the album’s greatest strengths.

When “Only Moments Left” arrives, AOR returns to the forefront. Keyboards assume a more prominent role, and the melodic construction recalls many of the genre’s classic giants. There is a noticeable Whitesnake influence in certain arrangements, though Osukaru’s own personality remains intact. It is one of the album’s most accessible tracks and will undoubtedly appeal to fans of the band’s more melodic side.

The dark and atmospheric “When It’s Over” adds an unexpected layer of depth to the record. Its minimalist introduction, built around guitar and voice, creates an almost melancholic mood that contrasts sharply with much of the preceding material. The outstanding vocal performance and gradual tension-building make it one of the album’s most compelling compositions, proving the band is willing to explore new emotional territories.

Closing track “C’est Dans Ta Tête” (“It’s In Your Head”) represents the heaviest moment on Tall Tales. Musically, it leans toward melodic heavy metal, while its chorus restores the accessibility characteristic of Scandinavian melodic hard rock. The song’s dark conclusion, hinting at psychological collapse and possible self-destruction, provides an intriguing contrast to the generally uplifting and energetic spirit that permeates the rest of the album.

Rather than simply repeating the formula that made Starbound such a success, Tall Tales reveals a band confident enough to expand its identity without abandoning its roots. Osukaru continue to deliver soaring choruses, irresistible melodies, and exceptional musicianship, but now with a significantly greater emphasis on weight, aggression, and compositional maturity.

If its predecessor established the band's reputation within the European melodic-rock scene, Tall Tales feels like a decisive step forward in its artistic evolution. It is an album capable of satisfying traditional AOR enthusiasts while also appealing to fans of heavier hard rock and classic metal. In a genre often constrained by predictable formulas, Osukaru prove that growth and authenticity can still go hand in hand.

A solid, ambitious, and consistently engaging release that further reinforces Osukaru’s standing among the most relevant names in contemporary melodic hard rock.

Divulgação

Code Red: Joia Oculta (Also In English)

Pride And Joy Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Lançado originalmente em 2017, Incendiary representou a única investida do projeto sueco Code Red, capitaneado pelo vocalista e compositor Ulrick Lönnqvist (Sahara) e pelo guitarrista Morgan Jensen (Swedish Erotica). Embora tenha passado relativamente despercebido pelo grande público em seu lançamento, o álbum conquistou gradualmente status cult entre os apreciadores de AOR e melodic rock, tornando-se uma peça cada vez mais valorizada por colecionadores e fãs do gênero.

Agora, quase uma década depois, o disco retorna ao mercado através da Pride & Joy Music Classixx em uma edição remasterizada por Jimmy Gunnarsson, acompanhada de faixas bônus inéditas. Mais do que uma simples reedição, trata-se do resgate de uma obra que merece ser redescoberta por uma nova geração de ouvintes e revisitada por aqueles que acompanharam a excelente safra escandinava de AOR surgida na década passada.

Produzido originalmente por Daniel Flores, nome conhecido por trabalhos com Find Me, Hydra e diversos projetos ligados à cena melódica europeia, Incendiary sintetiza com precisão aquilo que tornou a Suécia uma potência do gênero: melodias refinadas, refrães memoráveis, arranjos vocais elaborados e uma produção moderna capaz de soar grandiosa sem sacrificar a identidade orgânica das composições.

O que diferencia o Code Red de inúmeros projetos semelhantes é justamente sua capacidade de equilibrar o refinamento melódico do AOR clássico com uma dose considerável de peso herdada do hard rock. Enquanto muitos lançamentos contemporâneos do gênero apostam excessivamente em polimento e suavidade, Incendiary preserva uma energia mais robusta, aproximando-se ocasionalmente de nomes como Survivor, Giant e até momentos mais acessíveis do Europe e do Whitesnake dos anos 1980.

A abertura com “I Won’t Be Your Hero” estabelece imediatamente essa proposta. As guitarras surgem mais agressivas do que o esperado para um álbum de AOR tradicional, mas logo cedem espaço a um refrão extremamente cativante, sustentado por harmonias vocais impecáveis. É uma introdução que resume perfeitamente a identidade do projeto.

Na sequência, “Heat Of The Night” reforça o lado mais clássico da banda, combinando uma construção melódica sofisticada com um refrão cinematográfico que evidencia a excelente performance vocal de Lönnqvist. Já “Lift Me Up” amplia o leque sonoro ao incorporar discretos elementos pop e texturas que adicionam profundidade sem comprometer a essência melódica do trabalho.

“My Hollywood Ending” mergulha de cabeça na estética dourada do AOR oitentista. Seus timbres, andamento e estrutura remetem diretamente aos anos de ouro do gênero, mas a produção evita qualquer sensação de mero exercício nostálgico. O mesmo pode ser dito de “Saving Grace”, uma das composições mais completas do álbum, cujo refrão poderoso e solo inspirado demonstram o elevado nível dos músicos envolvidos.

Se existe uma característica constante ao longo de Incendiary, é a capacidade de transformar fórmulas conhecidas em canções genuinamente envolventes. “Eternal Pretender” e “Forever And A Day” exemplificam isso com perfeição, apresentando refrães de assimilação imediata sem recorrer a clichês excessivos. Há um senso de equilíbrio admirável entre acessibilidade comercial e credibilidade artística.

Momentos mais introspectivos também encontram espaço. “Like I Remember You” e “Returning The Flame” exploram nuances emocionais mais profundas, apostando em arranjos elegantes e interpretações vocais carregadas de sentimento. Em especial, “Returning The Flame” destaca-se como uma das faixas mais maduras do repertório, beneficiada por um dos solos mais inspirados de todo o álbum.

“Are You Leaving Now”, que encerra a versão original, funciona quase como uma declaração definitiva da proposta artística do Code Red. Todos os elementos que definem o projeto estão presentes: melodias marcantes, refrões grandiosos, guitarras expressivas e uma produção exemplar.

As faixas adicionais justificam plenamente sua inclusão nesta nova edição. “Into The Fire” apresenta uma abordagem ligeiramente mais pesada e contemporânea, refletindo a evolução natural da sonoridade associada a Lönnqvist, enquanto “Some Of Us” preserva intacto o DNA melódico que tornou o álbum tão especial. A inclusão da demo de “Saving Grace” completa o pacote ao oferecer uma interessante perspectiva sobre o processo criativo da banda.

O maior mérito de Incendiary talvez seja sua impressionante consistência. Em uma época em que muitos projetos de AOR dependem excessivamente de produção luxuosa para mascarar composições medianas, o Code Red entrega exatamente o contrário: um conjunto de canções fortes que continua soando relevante mesmo anos após seu lançamento original.

Não é exagero afirmar que Incendiary figura entre os trabalhos mais subestimados do AOR escandinavo moderno. O fato de ter sido o único álbum lançado pelo Code Red apenas reforça o caráter especial desta obra. Poucos projetos conseguem deixar uma marca tão duradoura com apenas um registro de estúdio. Quase dez anos depois, este relançamento confirma aquilo que muitos fãs já sabiam: Incendiary permanece como uma das joias escondidas do melodic rock europeu da última década.

***ENGLISH VERSION***

Originally released in 2017, Incendiary marked the sole venture of Swedish project Code Red, spearheaded by vocalist and songwriter Ulrick Lönnqvist (Sahara) alongside guitarist Morgan Jensen (Swedish Erotica). Although it largely flew under the radar upon release, the album gradually achieved cult status among AOR and melodic rock enthusiasts, becoming an increasingly sought-after gem for collectors and fans of the genre.

Now, nearly a decade later, the album returns through Pride & Joy Music Classixx in a remastered edition by Jimmy Gunnarsson, accompanied by previously unreleased bonus tracks. More than a simple reissue, this release serves as the rediscovery of a record that deserves to be embraced by a new generation of listeners while being revisited by those who followed the remarkable Scandinavian AOR boom of the last decade.

Originally produced by Daniel Flores—best known for his work with Find Me, Hydra, and numerous melodic rock projects—Incendiary perfectly encapsulates the qualities that established Sweden as a powerhouse of the genre: refined melodies, memorable choruses, sophisticated vocal arrangements, and a modern production capable of sounding grandiose without sacrificing the organic character of the songs.

What truly sets Code Red apart from many of its contemporaries is its ability to balance the elegance of classic AOR with a substantial dose of hard rock muscle. While many modern melodic rock releases lean heavily on polished production and smooth textures, Incendiary retains a tougher edge, occasionally recalling the spirit of Survivor, Giant, and even the more accessible moments of Europe and Whitesnake during their 1980s heyday.

Opening track “I Won’t Be Your Hero” immediately establishes this formula. The guitars arrive with far more aggression than one might expect from a traditional AOR album, before giving way to an irresistibly catchy chorus supported by immaculate vocal harmonies. It is an introduction that perfectly defines the project’s identity.

“Heat Of The Night” follows by reinforcing the band’s more classic side, combining sophisticated melodic craftsmanship with a cinematic chorus that highlights Lönnqvist’s impressive vocal performance. Meanwhile, “Lift Me Up” broadens the album’s sonic palette through subtle pop influences and atmospheric textures that add depth without compromising its melodic foundation.

“My Hollywood Ending” dives headfirst into the golden age of 1980s AOR. Its tones, pacing, and overall structure evoke the genre’s most celebrated era, yet the production prevents it from feeling like a mere nostalgic exercise. The same can be said for “Saving Grace,” one of the album’s strongest compositions, whose soaring chorus and inspired guitar work showcase the exceptional level of musicianship involved.

If there is one defining characteristic throughout Incendiary, it is the band’s ability to transform familiar formulas into genuinely compelling songs. “Eternal Pretender” and “Forever And A Day” are prime examples, delivering instantly memorable choruses without relying on excessive clichés. There is a remarkable balance between commercial accessibility and artistic credibility running throughout the album.

The more introspective moments are equally effective. “Like I Remember You” and “Returning The Flame” explore deeper emotional territory through elegant arrangements and heartfelt vocal performances. In particular, “Returning The Flame” stands out as one of the album’s most mature compositions, elevated by arguably its finest guitar solo.

Closing the original album, “Are You Leaving Now” functions almost as a mission statement for Code Red. Every defining element of the project is present: memorable melodies, anthemic choruses, expressive guitar work, and exemplary production values.

The bonus material fully justifies its inclusion in this reissue. “Into The Fire” presents a slightly heavier and more contemporary approach, reflecting a natural evolution of the sound associated with Lönnqvist, while “Some Of Us” preserves the melodic DNA that made the original album so appealing. The inclusion of the demo version of “Saving Grace” provides an intriguing glimpse into the band’s creative process and rounds out the package nicely.

Perhaps Incendiary’s greatest strength is its remarkable consistency. In an era where many AOR projects rely on lavish production to compensate for mediocre songwriting, Code Red delivers the opposite: a collection of genuinely strong songs that remain engaging and relevant years after their original release.

It is no exaggeration to say that Incendiary ranks among the most overlooked gems of modern Scandinavian AOR. The fact that it remains Code Red’s only studio album only enhances its mystique. Few projects manage to leave such a lasting impression with a single release. Nearly ten years later, this reissue confirms what devoted fans have known all along: Incendiary remains one of the hidden treasures of European melodic rock from the past decade.

Anders Fästader

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Diatribes: degradação brutal e consistente

Por: Renato Sanson

O Metal extremo brasileiro continua demonstrando sua vitalidade através de bandas que não têm medo de explorar diferentes vertentes dentro da agressividade sonora. É exatamente esse o caso do Diatribes, que estreia com "Degenerate", um trabalho que aposta na fusão entre Death Metal e Thrash Metal para construir sua identidade. O resultado é um disco intenso, pesado e repleto de personalidade, ainda que nem sempre encontre o equilíbrio ideal entre suas influências.

Desde os primeiros momentos, fica evidente que o Diatribes possui músicos competentes e uma proposta bastante ambiciosa. Quando a banda direciona sua força para o Thrash Metal, os riffs assumem protagonismo com uma energia contagiante, evocando a velha escola do gênero sem parecer presa ao passado. Já nos momentos em que o Death Metal toma conta das composições, o peso se intensifica através de vocais brutais, andamentos mais densos e uma atmosfera sufocante que evidencia o lado mais extremo do grupo.

O ponto mais curioso de Degenerate está justamente na combinação dessas duas facetas. Individualmente, ambas funcionam muito bem. O problema surge quando a banda tenta unir constantemente os dois universos dentro das mesmas músicas. Em alguns momentos, as transições parecem abruptas e certas composições acabam transmitindo uma sensação de indecisão estilística. Não se trata de falta de qualidade ou de identidade, mas sim de uma fusão que ainda parece estar em processo de amadurecimento.

Por outro lado, seria injusto reduzir o álbum a essa observação. O saldo geral é extremamente positivo. O Diatribes demonstra criatividade, agressividade e, principalmente, vontade de construir algo próprio dentro de um cenário cada vez mais saturado de fórmulas repetidas. Há honestidade nas composições e uma evidente paixão pelo Metal extremo que transparece em cada faixa.

A produção também merece destaque. O som apresenta o peso necessário para valorizar as passagens mais brutais sem sacrificar a clareza dos instrumentos, permitindo que cada elemento encontre seu espaço na mixagem. 

Outro aspecto que chama atenção é a apresentação física. Lançado em um belo formato digipack através da True Metal Records em parceria com outros selos do underground nacional, Degenerate recebe um tratamento visual à altura de seu conteúdo. A arte de capa é impactante e traduz perfeitamente a sensação de decadência, violência e caos proposta pelo título do álbum, tornando o material ainda mais atrativo para colecionadores.

Como estreia, Degenerate cumpre sua missão com méritos. Mesmo apresentando alguns momentos em que a fusão entre Death e Thrash Metal poderia soar mais natural, o disco demonstra potencial de sobra e coloca o Diatribes como um nome promissor dentro do Metal extremo brasileiro. 





quarta-feira, 24 de junho de 2026

Kaziklu Bey – Odes To Tepes é tempestade, blasfemaria e caos

Por: Renato Sanson

Tempestade blasfema e inquieta. Poucos exemplos representam tão bem esse espírito quanto Odes To Tepes, tributo dedicado à lendária banda paulista de Black Metal Kaziklu Bey e ao seu eterno vocalista Ademir Carpathian Tepes, que nos deixou em janeiro de 2013. Durante mais de uma década à frente da banda, Carpathian Tepes ajudou a construir uma identidade marcada pelo culto ao vampirismo, guerra, blasfêmia e ao puro Black Metal obscuro e impiedoso. 

Reunindo diversas bandas da cena paulista, Odes To Tepes apresenta nove releituras de clássicos da Kaziklu Bey, transformando o álbum em uma verdadeira celebração do legado deixado pelo grupo. Faixas como “Guerra e Luxúria”, “Legião dos Empaladores”, “War Black Metal”, “Alcateia”, “Ao Ataque Noturno” e “Imaginary Voices” ressurgem sob novas interpretações, mantendo viva a chama negra acesa pela banda ao longo de sua trajetória. 

O grande mérito deste tributo está justamente em preservar a essência do material original. Cada banda imprime sua personalidade às composições, resultando em pequenas diferenças de produção e abordagem sonora. Ainda assim, essa variação não compromete a audição. Pelo contrário: reforça o caráter underground da homenagem e demonstra como a obra da Kaziklu Bey permanece relevante para diferentes gerações da cena extrema nacional.

A produção, embora heterogênea entre as faixas, consegue entregar peso, agressividade e atmosfera suficientes para representar com dignidade o ataque sonoro que caracterizava a banda. Não se trata de um trabalho excessivamente polido ou moderno; felizmente, a sujeira controlada e a crueza presentes em diversos momentos ajudam a manter intacto o espírito blasfemo e guerreiro.

Mais do que um simples álbum de covers, Odes To Tepes funciona como um documento de preservação histórica do Black Metal brasileiro. É uma homenagem sincera a um nome que ajudou a fortalecer o Metal extremo nacional e que ainda hoje desperta respeito entre os cultuadores do gênero.

Para os fãs da banda, o lançamento também aumenta a expectativa por um futuro material especial contendo as versões originais dessas composições gravadas pela própria Kaziklu Bey. Se isso realmente acontecer, será uma oportunidade valiosa para que novas gerações conheçam diretamente a força e a autenticidade de uma das mais obscuras entidades do Black Metal paulista.

Odes To Tepes é, acima de tudo, um tributo feito por quem vive o underground para aqueles que ajudaram a construí-lo. Um registro de respeito, memória e devoção ao legado imortal de Ademir Carpathian Tepes e da Kaziklu Bey.