terça-feira, 15 de setembro de 2026

Metalite: Metal, Tecnologia e Uma Dose de Futuro (Also In English)

Perception (Imp.)

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Se tem uma coisa que o Metalite sabe fazer muito bem é misturar o metal melódico com elementos modernos sem deixar o peso de lado. Formada na Suécia em 2015, a banda vem construindo sua identidade dentro do power metal moderno, acrescentando sintetizadores, elementos eletrônicos e atmosferas cinematográficas. Não é por acaso que o grupo é considerado um dos pioneiros do moderno sci-fi inspired power metal.

Em Discovery, essa proposta aparece ainda mais forte. O conceito futurista e de ficção científica é bastante ousado e está presente não apenas nas letras, mas também na própria sonoridade. Comparando com os trabalhos anteriores, sinto que a banda foi ainda mais fundo nessa ideia de unir o metal melódico aos elementos eletrônicos.

E isso já fica muito claro na primeira faixa, “Our Time Has Come”. A música é explosiva e grandiosa do começo ao fim e resume muito bem o que vamos encontrar pela frente. “In Case of Emergency” segue praticamente a mesma linha, mantendo aquela energia que parece feita para funcionar muito bem ao vivo.

Nos vocais, Erica Ohlsson realmente rouba a cena. A técnica vocal é impecável e ela consegue acompanhar toda a grandiosidade das músicas sem perder clareza ou potência. Para mim, ela é a grande estrela de Discovery.

Também gostei bastante do trabalho instrumental. A bateria de Erik Junttila mantém o álbum sempre em movimento, enquanto Edwin Premberg, nas guitarras, entrega solos bem construídos e momentos que acrescentam ainda mais peso às músicas.

Falando em produção, aqui não tem muito o que reclamar. A mixagem e a masterização ficaram por conta de Jacob Hansen, produtor conhecido por trabalhos com bandas como Amaranthe e Evergrey, e o resultado é realmente impecável. Tudo soa muito limpo, moderno e grandioso, mas sem tirar o protagonismo das guitarras e dos vocais.

Em “Into the Maze”, por exemplo, temos uma faixa mais pesada, com um ótimo solo de guitarra. Já “Echoes of You” começa com piano e traz uma atmosfera um pouco diferente, menos acelerada. É uma das faixas que mais me chamou atenção justamente por conseguir quebrar um pouco a velocidade do álbum sem perder sua identidade.

“Starchild” é provavelmente uma das músicas mais eletrônicas do disco. É dançante, moderna e tem uma energia quase impossível de ignorar, mas continua mantendo o peso do metal. É justamente esse tipo de combinação que faz o Metalite funcionar tão bem.

Outra que gostei bastante foi “Wings of Fire”. A faixa mantém a pegada moderna, mas acrescenta elementos de hard rock, criando um dos momentos mais equilibrados do álbum. A música consegue te transportar para um grande festival. O solo de guitarra também dá um brilho especial à faixa, que, para mim, é uma das melhores do disco.

“Metal Elite” também merece destaque e mantém a energia que encontramos ao longo de Discovery. Já “Triforce”, escolhida para fechar o álbum, funciona muito bem como encerramento porque permanece fiel à proposta tanto musicalmente quanto no conceito futurista.

No geral, Discovery é um disco muito energético. São 12 faixas com bastante eletrônica, refrões explosivos e grandiosos e uma produção extremamente moderna. Confesso que senti falta de um pouco mais de espaço para desacelerar em alguns momentos, talvez uma balada, mas também entendo que essa velocidade constante faz parte da proposta.

Para mim, o Metalite conseguiu entregar exatamente o que se propôs a fazer. Discovery é ousado, ambicioso e muito bem produzido, sendo um prato cheio para quem gosta de power metal melódico e não se incomoda em ver o gênero flertando bastante com a música eletrônica e a estética futurista.

É um disco que parece ter sido feito para ser ouvido alto — e, principalmente, para ser levado para o palco. Eu consigo imaginar facilmente esses refrões enormes sendo cantados por uma plateia inteira.

***ENGLISH VERSION***

If there’s one thing Metalite knows how to do really well, it’s mixing melodic metal with modern elements without losing its heaviness. Formed in Sweden in 2015, the band has been building its own identity within modern power metal, adding synthesizers, electronic elements and cinematic atmospheres. It’s no coincidence that the band is considered one of the pioneers of modern sci-fi-inspired power metal.

On Discovery, this approach becomes even stronger. The futuristic and science-fiction concept is quite bold and can be felt not only in the lyrics, but also throughout the music itself. Compared to their previous releases, I feel the band has gone even further with the idea of bringing melodic metal and electronic elements together.

This becomes clear right from the opening track,  “Our Time Has Come”. The song is explosive and grand from beginning to end, and it sums up very well what we’re about to experience. “In Case of Emergency” follows pretty much the same path, keeping that energy that feels like it was made to work really well on stage.

When it comes to the vocals, Erica Ohlsson really steals the show. Her vocal technique is impeccable, and she manages to keep up with all the grandeur of the songs without losing clarity or power. For me, she is the real star of Discovery.

I also really enjoyed the instrumental work. Erik Junttila’s drumming keeps the album constantly moving, while Edwin Premberg delivers well-crafted guitar solos and moments that add even more weight to the songs.

And when it comes to the production, there isn’t much to complain about. The mixing and mastering were handled by Jacob Hansen, a producer known for his work with bands such as Amaranthe and Evergrey, and the result is truly flawless. Everything sounds clean, modern and grand, without taking the spotlight away from the guitars and vocals.

In “Into the Maze”, for example, we get a heavier track with a great guitar solo. “Echoes of You”, on the other hand, opens with piano and brings a slightly different atmosphere, slowing things down a bit. It’s one of the tracks that caught my attention the most precisely because it manages to break up the album’s constant pace without losing its identity.

“Starchild” is probably one of the most electronic songs on the album. It’s danceable, modern and has an energy that’s almost impossible to ignore, while still keeping the weight of metal. This is exactly the kind of combination that makes Metalite work so well.

Another track I really enjoyed is “Wings of Fire”. It keeps the modern approach but brings in some hard rock elements, creating one of the most balanced moments on the album. The song can easily transport you to a huge festival. The guitar solo also gives the track an extra spark and, for me, makes it one of the best songs on the album.

“Metal Elite” also deserves a mention, keeping up the energy we find throughout Discovery. “Triforce,” chosen to close the album, works really well as a finale because it stays true to the album’s proposal both musically and conceptually, especially with its futuristic theme.

Overall, Discovery is a very energetic album. Across its 12 tracks, we get plenty of electronics, explosive and grand choruses, and an extremely modern production. I have to admit that I sometimes missed having a little more room to slow things down, maybe with a ballad, but I also understand that this constant energy is part of the album’s identity.

For me, Metalite delivers exactly what they set out to do. Discovery is bold, ambitious and very well produced, making it a great choice for anyone who enjoys melodic power metal and doesn’t mind seeing the genre flirt heavily with electronic music and futuristic aesthetics.

This is an album that feels like it was made to be played loud — and, most importantly, to be taken to the stage. I can easily imagine those huge choruses being sung by an entire crowd.

Divulgação 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Mad Max: 45 anos de histórias, mas ainda olhando para frente

ROAR (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Quarenta e cinco anos de carreira costumam colocar uma banda diante de uma escolha: olhar para trás ou tentar provar que ainda existe futuro pela frente. Stories Of Destiny, novo álbum do Mad Max, tenta fazer as duas coisas, e seu maior mérito está justamente em não tratar essas possibilidades como opostas.

Lançado em 4 de setembro de 2026 pela ROAR!, Stories Of Destiny chega como uma celebração dos 45 anos da banda alemã, fundada em Münster por Jürgen Breforth em 1981. Mas o aniversário é apenas o ponto de partida. O álbum reúne material novo, composições que ficaram guardadas por décadas, uma releitura de um clássico da própria banda e até a primeira música do Mad Max com letras em espanhol.

A formação também carrega essa ideia de passado e presente convivendo no mesmo espaço. Alan Clark assume os vocais principais, enquanto Andreas Baesler, primeiro vocalista do Mad Max, retorna ao microfone pela primeira vez em 45 anos. Jürgen Breforth continua sendo o eixo criativo e guitarrístico, acompanhado por Dethy Borchardt, Fabian Watermann e Axel Kruse.

E existe uma diferença importante entre fazer um álbum comemorativo e fazer um álbum sobre a própria história. Stories Of Destiny escolhe a segunda opção.

O resultado é um disco de hard rock melódico que não tenta esconder suas referências oitentistas, mas também não parece interessado em transformar o Mad Max em peça de museu. As guitarras continuam ocupando o centro do palco, os refrões são grandes e a produção de Rolf Munkes mantém tudo limpo e musculoso.

1. “Silver”

“Silver” é uma abertura extremamente segura. A guitarra aparece imediatamente como protagonista e, em poucos segundos, fica claro que o Mad Max não pretende começar seu 45º aniversário com uma balada ou uma introdução excessivamente conceitual. O riff tem peso, mas existe uma leveza melódica por trás dele que impede a música de soar agressiva demais.

É justamente essa combinação que define o disco. O verso é mais contido, enquanto o refrão abre a música e deixa Alan Clark mostrar por que sua entrada na formação é uma das novidades mais importantes desta fase. Sua voz tem uma aspereza interessante. Existe uma referência inevitável ao hard rock melódico clássico, mas Clark não soa como alguém tentando reproduzir vocalistas de outra geração. Ele traz uma personalidade própria, especialmente quando as guitarras ganham peso.

2. “Weapons Of Love”

“Silver” termina deixando uma impressão bastante imediata, e “Weapons Of Love” escolhe não aumentar a velocidade. É uma decisão interessante. A segunda faixa trabalha mais a melodia e o balanço do hard rock do que o peso. O riff é relativamente econômico e o refrão aposta em uma construção bastante clássica de arena rock.

3. “Keep You Alive”

É aqui que Stories Of Destiny finalmente mostra os dentes. “Keep You Alive” começa de maneira mais contida, quase enganando o ouvinte sobre o que está por vir. Quando as guitarras entram com força, a música muda completamente de dimensão.

O riff é mais pesado e o baixo de Fabian Watermann ganha uma presença que não estava tão evidente nas duas primeiras faixas. E o refrão é exatamente o tipo de coisa que o Mad Max sabe fazer bem: grande, direto e feito para crescer quando cantado por uma plateia.

4. “Far Behind”

“Far Behind” muda novamente o clima. Se “Keep You Alive” funciona pelo impacto, aqui o Mad Max trabalha com espaço.

As guitarras são mais abertas e o andamento permite que Alan Clark conduza a música sem precisar disputar atenção com a banda. É uma composição mais emocional, mas não chega a ser uma power ballad convencional. Existe uma melancolia no arranjo, especialmente na forma como as guitarras sustentam as linhas vocais.

5. “Piece Of Candy” — 2026 Version

“Piece Of Candy” é o coração histórico do álbum. O riff que deu origem à música foi o primeiro riff de guitarra escrito por Jürgen Breforth para o Mad Max, em 1981. Quarenta e cinco anos depois, ele volta a ser gravado com a formação atual.

Mas o detalhe que realmente transforma a faixa em algo especial está nos vocais. Alan Clark divide a música com Andreas Baesler, o primeiro vocalista do Mad Max. É impossível ouvir essa escolha apenas como uma participação especial. A música passa a funcionar como uma conversa entre duas épocas da banda.

Instrumentalmente, a nova gravação mantém a essência do hard rock clássico, mas recebe uma produção muito mais definida. As guitarras têm mais corpo, a bateria soa mais robusta e o refrão ganha uma amplitude que provavelmente não existia na gravação original.

6. “‘Til The End Of Time”

Depois da carga histórica de “Piece Of Candy”, o álbum poderia facilmente perder força. Não perde. “‘Til The End Of Time” é a segunda composição recuperada das sessões de 1991, e talvez seja uma das melhores surpresas do disco justamente porque soa como uma peça que encontrou o momento certo para finalmente existir.

A música tem um balanço mais encorpado e uma pegada que remete diretamente ao hard rock europeu do final dos anos 1980 e início dos 1990. As guitarras têm mais presença e o ritmo é mais envolvente. É também uma daquelas faixas em que se percebe como a produção moderna pode beneficiar uma composição antiga sem necessariamente descaracterizá-la.

7. “Bullet”

“Bullet” é onde o disco ganha outra injeção de energia.

O riff tem mais ataque e a guitarra volta a ocupar o primeiro plano. A bateria empurra a composição para frente e o refrão mantém a preocupação melódica que atravessa o álbum. Mas existe algo particularmente interessante aqui: a música tem uma pegada de hard rock americano que lembra, em alguns momentos, aquela tradição de bandas que conseguem equilibrar peso e refrões extremamente acessíveis.

8. “Mad Gone Blind”

“Mad Gone Blind” é uma das melhores músicas do álbum. E é também uma das que melhor mostram o potencial da formação atual.

A estrutura é mais dinâmica, as guitarras têm mais peso e Alan Clark parece especialmente confortável quando a banda aumenta a intensidade. O refrão é grande sem ser excessivamente açucarado, e há uma boa alternância entre momentos de maior agressividade e espaços para a melodia respirar.

9. “She Was Mine”

Depois de “Mad Gone Blind”, o álbum desacelera novamente. “She Was Mine” entra em um território mais sentimental, mas sem abandonar completamente as guitarras.

É uma faixa que depende bastante da interpretação de Clark. Sua voz fica mais limpa e menos agressiva, permitindo que a melodia carregue a música. Não é necessariamente uma composição revolucionária, e provavelmente não precisa ser. Ela representa aquela tradição do hard rock em que a banda deixa a velocidade de lado para construir uma história emocional.

10. “Wings Of Freedom”

“Wings Of Freedom” é a grande balada de Stories Of Destiny. Mas existe uma diferença importante entre uma balada simplesmente colocada no meio de um álbum e uma composição que realmente entende seu papel dentro da sequência.

Aqui, ela chega na hora certa. A música começa de maneira mais delicada e cresce gradualmente, permitindo que as guitarras entrem sem destruir o caráter emocional da composição.

O refrão é amplo e claramente pensado para ser cantado ao vivo. E existe uma espécie de mensagem de encerramento antecipado na letra: liberdade, movimento e a capacidade de seguir adiante.

11. “Dulces Falsos”

E então vem “Dulces Falsos”. A decisão de terminar o álbum em espanhol poderia parecer, à primeira vista, apenas uma curiosidade. Não é.

“Dulces Falsos” é uma nova versão de “Piece Of Candy” e representa o primeiro lançamento do Mad Max com letras em espanhol. A música foi pensada como uma homenagem à base de fãs latino-americana, especialmente importante para a história recente da banda na região. E a escolha de fechar o álbum com ela é bastante inteligente.

Depois de passar 45 anos olhando para sua própria história, o Mad Max termina olhando para fora.


Steffi Kruse

Confira a tracklist completa de Stories Of Destiny:

1. Silver

2. Weapons Of Love 

3. Keep You Alive 

4. Far Behind 

5. Piece Of Candy (2026 Version) 

6. 'Til The End Of Time 

7. Bullet 

8. Mad Gone Blind 

9. She Was Mine 

10. Wings Of Freedom

11. Dulces Falsos

Audrey Horne: Quando o Hard Rock olha para o mundo em chamas

Napalm Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Há bandas que passam anos aperfeiçoando uma fórmula até transformá-la em assinatura. O desafio, depois disso, é conseguir permanecer reconhecível sem se tornar previsível. O Audrey Horne parece ter encontrado uma solução particularmente eficiente para esse problema: manter o DNA intacto enquanto muda constantemente a maneira de apresentá-lo.

Quatro anos depois de Devil’s Bell, a banda norueguesa retorna com Achilles, seu oitavo álbum de estúdio, lançado em 4 de setembro de 2026 pela Napalm Records. São onze faixas e pouco mais de 44 minutos em que Toschie, Ice Dale, Thomas Tofthagen, Espen Lien e Kjetil Greve percorrem hard rock, heavy metal, classic rock, melodias setentistas, AOR e algumas incursões mais progressivas sem permitir que o disco pareça uma coleção de referências.

A banda conhece Thin Lizzy, Led Zeppelin, AC/DC, Dio e Iron Maiden, mas não parece interessada em montar um museu dessas influências. As guitarras gêmeas de Ice Dale e Tofthagen são parte fundamental dessa identidade, enquanto Toschie continua sendo um dos grandes responsáveis por fazer o material soar imediatamente Audrey Horne. A produção, conduzida por Arve “Ice Dale” Isdal, também procura preservar uma qualidade mais orgânica e próxima da sensação de banda tocando junta.

Mas Achilles tem algo a mais. Por trás dos riffs e dos refrões feitos para serem cantados com uma cerveja levantada no meio da plateia, existe um disco atravessado por temas como guerra, polarização, fascismo, medo e fragilidade. O próprio título nasceu quase por acidente, mas acabou fazendo sentido quando a banda percebeu que a figura de Aquiles poderia ser relacionada às vulnerabilidades do mundo contemporâneo, especialmente em uma sociedade cada vez mais dependente de tecnologia e infraestrutura digital.

1. “Achilles”

A primeira impressão de Achilles é imediata: a banda não quer uma introdução longa para preparar o terreno. A faixa-título entra praticamente como uma declaração.

Guitarras pesadas, baixo bastante presente e uma bateria que rapidamente estabelece o tamanho da composição. Toschie aparece com aquela voz rouca e teatral que parece sempre estar a meio caminho entre cantar uma música e contar uma história.

Depois do impacto inicial, a música começa a abrir espaço para passagens mais atmosféricas e progressivas. As guitarras deixam de funcionar apenas como uma parede de peso e passam a construir camadas, enquanto a melodia ganha uma dimensão quase épica.

2. “In the Eye of the Hurricane”

Se a abertura é grandiosa, “In the Eye of the Hurricane” é onde o Audrey Horne começa a mostrar sua habilidade em transformar classic rock em algo extremamente moderno.

As guitarras gêmeas de Ice Dale e Thomas Tofthagen são imediatamente reconhecíveis. Existe aquela influência de Thin Lizzy e Wishbone Ash nas harmonias, mas também uma espécie de brilho AOR que remete ao hard rock do final dos anos 1970 e começo dos 1980.

Toschie canta com bastante espaço, deixando que o refrão seja realmente o centro da composição. E esse é um daqueles refrões que parecem ganhar tamanho cada vez que retornam. A faixa tem uma qualidade muito “de palco”.

3. “Vampires”

“Vampires” é onde o álbum começa a ficar perigosamente viciante. O riff é simples o suficiente para entrar imediatamente na cabeça, mas não tão simples a ponto de parecer descartável. Existe groove, existe espaço e existe aquele tipo de melodia que parece pedir uma plateia inteira cantando junto.

4. “God Damn Beautiful”

Aqui acontece uma das melhores surpresas do álbum: Espen Lien assume os vocais.

E o mais interessante é que a música não soa como uma interrupção na identidade do Audrey Horne. Pelo contrário: parece uma peça que estava faltando. “God Damn Beautiful” tem uma influência de Thin Lizzy particularmente evidente, tanto no trabalho das guitarras quanto na forma como a melodia se desenvolve. Mas o elemento que realmente a diferencia é a voz de Lien. Ela é menos teatral do que a de Toschie e possui um caráter mais direto, quase casual. Isso combina perfeitamente com a música.

5. “Pretty Little Lies”

Depois de quatro faixas essencialmente construídas para levantar o público, “Pretty Little Lies” muda completamente o clima. E é uma mudança necessária.

A música é uma balada, mas não exatamente aquela balada de power metal construída para esperar o grande solo final. Toschie canta de maneira mais contida, deixando que a fragilidade da interpretação ocupe o primeiro plano. A guitarra limpa cria espaço e a música cresce aos poucos até alcançar um final mais dramático. É provavelmente uma das melhores performances vocais do álbum.

6. “Prodrome”

“Prodrome” é minúscula. Um minuto e três segundos. E, justamente por isso, seria muito fácil perguntar por que ela está aqui.

A resposta está na posição. Depois de “Pretty Little Lies”, a faixa funciona como uma pequena passagem instrumental que prepara o terreno para “Insanity”. Em vez de avaliá-la isoladamente, ela funciona como uma dobradiça dentro do álbum.

7. “Insanity”

E então o Audrey Horne pisa no acelerador. “Insanity” é provavelmente a faixa em que o peso do Achilles aparece com maior clareza.

O riff tem aquela sensação de cavalgada típica do heavy metal britânico, as guitarras trabalham harmonias mais agressivas e Kjetil Greve conduz tudo com uma bateria que parece empurrar a música para frente a cada compasso.

A comparação com Iron Maiden não é gratuita. A música foi concebida como uma espécie de prequela de “Hallowed Be Thy Name”, e essa influência aparece não apenas na velocidade, mas na própria construção narrativa.

8. “Hell Is Eternity”

“Hell Is Eternity” começa com uma das linhas de baixo mais interessantes do disco. E isso não é um detalhe pequeno.

O baixo de Espen Lien recebe bastante espaço na mixagem e cria um groove que segura a música enquanto as guitarras entram aos poucos. Depois, o Audrey Horne começa a acelerar. Existe novamente aquela sensação de Iron Maiden, mas a música tem uma pegada mais hard rock e menos puramente heavy metal.

9. “Six Feet in the Ground”

“Six Feet in the Ground” volta a diminuir a velocidade, mas não perde peso. Existe uma melancolia evidente na composição, especialmente nas linhas vocais.

O trabalho de guitarra limpa cria um contraste interessante com os momentos mais pesados, e o baixo novamente aparece com bastante personalidade. É uma música que parece mais introspectiva.

10. “Running Through the Night”

Se havia alguma dúvida de que o Iron Maiden estava entre as referências mais fortes desse álbum, “Running Through the Night” resolve.

A música começa com uma energia que lembra imediatamente o heavy metal britânico dos anos 1980, inclusive na maneira como as guitarras constroem aquela sensação de corrida permanente. As guitarras têm aquele caráter melódico que é próprio da banda, enquanto Toschie transforma a velocidade em uma espécie de narrativa.

11. “New Star Falling”

Fechar um álbum de hard rock com uma power ballad é uma decisão que poderia facilmente soar previsível. “New Star Falling” consegue escapar disso.

A música começa melódica, quase contemplativa, e vai crescendo gradualmente até chegar a um final que utiliza novamente o trabalho de guitarras duplas de maneira muito eficiente. Toschie está especialmente confortável aqui. Sua voz tem espaço para crescer junto com o arranjo, e a música não tenta acelerar o processo.


Jens Kristian Rimau

Confira a tracklist completa de Achilles:

1. Achilles

2. In the Eye of the Hurricane

3. Vampires

4. God Damn Beautiful

5. Pretty Little Lies

6. Prodrome

7. Insanity

8. Hell Is Eternity

9. Six Feet in the Ground 

10. Running Through the Night

11. New Star Falling

Night Laser: Explorando Fórmulas (Also In English)

Steamhammer (Imp.)

Por Flavio Borges 

Há bandas que passam anos procurando uma identidade. O Night Laser parece ter decidido que o melhor caminho seria simplesmente parar de procurar — e fazer tudo aquilo que tem vontade. Em Rats In The Cradle, o quarteto de Hamburgo transforma glam e sleaze metal em ponto de partida para uma viagem que passa por hard rock clássico, heavy metal, blues, power metal, thrash, funk e até momentos de forte apelo acústico. O resultado é um álbum surpreendentemente diversificado, mas que, apesar de toda essa variedade, nunca perde completamente sua assinatura.

A abertura com “S.T.F.U.” deixa claro que as raízes da banda continuam firmemente plantadas no sleaze. Coros, guitarra marcante e um refrão altamente melódico dão à faixa aquela combinação de atitude e acessibilidade que o gênero exige. Os backing vocals ampliam o impacto da voz de Benno Hankers, enquanto o solo é econômico e eficiente. O interessante interlúdio, reduzido a voz e guitarra, prepara o terreno para um último refrão que encerra a faixa em grande estilo.

“Make You Mine” muda radicalmente o clima. Baixo e voz conduzem os primeiros momentos, antes que guitarra, bateria e teclados entrem progressivamente em cena. Apesar de uma produção que pode sugerir uma abordagem mais moderna, a essência continua sendo o hard rock tradicional, especialmente no excelente refrão. Novamente, os backing vocals e as mudanças de dinâmica funcionam como elementos fundamentais para tornar a composição mais rica.

Se há uma faixa capaz de resumir a proposta do álbum, “Defenders” é uma forte candidata. O baixo assume o protagonismo desde os primeiros segundos, enquanto hard rock, sleaze e heavy metal tradicional se encontram em uma composição extremamente melódica. Os coros dão ao refrão uma dimensão quase épica, e a construção vocal faz com que a música flerte inclusive com o power metal. Riff e solo são particularmente bem resolvidos, demonstrando uma banda que, neste momento, parece tocar com bastante confiança.

A diversidade aumenta ainda mais em “Blueberry Gin”, que começa mergulhada no blues antes de acelerar e ganhar contornos quase punk. A participação de Sascha Paeth acrescenta peso às guitarras e ajuda a criar uma das faixas mais interessantes do disco. Mais do que um simples exercício de estilo, a música evidencia a compreensão do Night Laser sobre as próprias raízes do rock: o blues como matriz de praticamente tudo que viria depois.

E então chega “Heart Of The Desert Rose”, uma das grandes surpresas do álbum. A participação de Johnny Gioeli adiciona ainda mais força à composição, que começa de maneira cadenciada e evolui para uma poderosa balada. O encontro entre as vozes de Gioeli e Benno Hankers funciona especialmente bem, enquanto o refrão pesado e o solo, construído quase como uma extensão da própria melodia, dão à faixa uma dimensão épica. É uma homenagem à força das mulheres que enfrentam as dificuldades sem se deixar abater — e uma composição particularmente bem acabada.

A faixa-título, “Rats In The Cradle”, inaugura a segunda metade do disco de maneira bastante mais sombria. Riffs pesados, mudanças constantes de andamento e pequenas intervenções de guitarra e teclados criam uma atmosfera desconfortável, apropriada ao tema dos perturbadores experimentos conduzidos pelo criminoso de guerra japonês Dr. Ishii Shirō. Em determinados momentos, a banda flerta com uma atmosfera quase doom, algo pouco óbvio para uma formação associada ao glam/sleaze. É uma escolha arriscada, mas funciona justamente porque o Night Laser não tenta suavizar o clima para encaixá-lo em sua fórmula habitual.

“Into The West” oferece outro contraste. A balada começa praticamente despida, sustentada pela interpretação de Benno, teclados e guitarra limpa. O piano reforça a delicadeza da introdução até que guitarra distorcida, baixo e bateria explodem no refrão. Backing vocals e teclados ampliam o caráter cinematográfico, enquanto o solo surge no momento exato, entregando aquilo que qualquer apreciador de uma boa power ballad espera.

O groove retorna em “19CR490”, uma das faixas mais descontraídas e pesadas do álbum. A composição combina riffs contundentes com um refrão surpreendentemente melódico e incorpora referências que vão do hard rock tradicional ao rock'n'roll mais primitivo dos anos 1950. É mais uma demonstração da versatilidade do Night Laser — e de sua disposição em adicionar novas texturas à receita sem perder o sabor original.

Com “Get Out”, a participação de Lars Rettkowitz, guitarrista do Freedom Call, parece fazer todo sentido. A velocidade da faixa imediatamente aponta para o heavy metal clássico, com guitarras rápidas, backing vocals típicos do gênero e mudanças de andamento que impedem a música de cair na obviedade. É uma das composições que mais claramente aproxima o Night Laser do universo do metal tradicional.

“Goddess Of The Sky” desacelera novamente, mas não diminui a grandiosidade. Depois de uma introdução calma, todos os instrumentos entram criando uma atmosfera épica antes mesmo da voz aparecer. O baixo, com uma clara inspiração no estilo de bandas como Iron Maiden, conduz os versos até a entrada da guitarra e de uma inesperada flauta. Os coros, teclados e a base instrumental transformam a parte final em um verdadeiro hino, com forte influência do power metal.

O encerramento com “You And Me” é, novamente, uma surpresa. Praticamente acústica, apoiada principalmente em violão e voz, a faixa abandona o peso e termina o álbum de maneira intimista. As variações melódicas impedem que o encerramento seja apenas um epílogo e reforçam a disposição do Night Laser em experimentar até os últimos minutos.

É justamente essa quantidade de informação que pode dividir opiniões. Rats In The Cradle está longe de ser um álbum linear. Há quem possa considerar sua diversidade excessiva, quase caótica; por outro lado, existe um mérito considerável em uma banda conseguir transitar por tantos territórios sem transformar o disco em uma simples coleção de estilos desconectados. O Night Laser consegue fazer com que faixas acessíveis convivam com outras mais complexas, enquanto mantém elementos recorrentes — especialmente melodias, vocais, guitarras e uma forte preocupação com refrãos — que funcionam como fio condutor.

Mais do que provar que pode tocar diferentes estilos, o Night Laser parece ter entendido que não precisa escolher apenas um deles. Rats In The Cradle é um álbum de identidade justamente porque não se limita a uma fórmula. Pode ser glam, sleaze, hard rock, heavy metal, blues ou power metal — mas continua soando como Night Laser. E essa talvez seja a maior conquista de uma banda que, ao finalmente soltar o freio de mão, descobriu que a melhor maneira de avançar é acelerar em várias direções ao mesmo tempo.

Franz Schepers

***ENGLISH VERSION***

Some bands spend years searching for an identity. Night Laser seem to have decided that the best approach is simply to stop looking — and play whatever they damn well feel like playing. On Rats In The Cradle, the Hamburg quartet turns glam and sleaze metal into a starting point for a journey through classic hard rock, heavy metal, power metal, thrash, blues, funk and even moments of stripped-back acoustic music. The result is a surprisingly diverse album that, despite all its stylistic twists and turns, never completely loses the band's own identity.

Opening with “S.T.F.U.”, Night Laser make it clear that their roots remain firmly planted in sleaze. Choral backing vocals, a driving guitar and a highly melodic chorus deliver the combination of attitude and accessibility the genre demands. The backing vocals add extra punch to Benno Hankers' lead performance, while the solo is concise and effective. An intriguing interlude featuring nothing but voice and guitar sets up the final chorus, bringing the track to a suitably emphatic conclusion.

“Make You Mine” changes the mood completely. Bass and vocals carry the opening moments before guitar, drums and keyboards gradually enter the picture. Although the production initially suggests a more modern approach, the essence remains rooted in traditional hard rock, particularly in its excellent chorus. Once again, the backing vocals and dynamic shifts play a crucial role in giving the composition greater depth.

If there is one track capable of summarising the album's overall approach, “Defenders” is a strong contender. Bass takes the lead from the opening seconds, while hard rock, sleaze and traditional heavy metal converge in an extremely melodic composition. The gang vocals give the chorus an almost epic dimension, while the vocal arrangement even brings elements of power metal into the mix. Both the riff and solo are particularly well executed, revealing a band that sounds increasingly confident in its own skin.

The stylistic diversity becomes even more pronounced on “Blueberry Gin”, which begins steeped in blues before accelerating and taking on almost punk-rock contours. The contribution of Sascha Paeth adds extra weight to the guitars and helps make this one of the album's most interesting tracks. More than a simple stylistic exercise, the song demonstrates Night Laser's understanding of rock's roots: blues as the foundation from which virtually everything that followed evolved.

Then comes “Heart Of The Desert Rose”, one of the album's biggest surprises. The presence of Johnny Gioeli adds even more firepower to a song that begins in a measured fashion before developing into a powerful ballad. The combination of Gioeli's and Benno Hankers' voices works particularly well, while the heavy chorus and a solo that almost functions as an extension of the song's central melody give the track an epic quality. It is a tribute to women who face adversity without allowing it to break them — and a particularly accomplished composition.

The title track, “Rats In The Cradle”, opens the album's second half on a much darker note. Heavy riffs, frequent tempo changes and subtle guitar and keyboard touches create an unsettling atmosphere that perfectly suits its subject matter: the disturbing experiments conducted by Japanese war criminal Dr Ishii Shirō. At times, the band ventures into an almost doom-like territory, an unexpected move for a group associated with glam and sleaze. It is a bold choice, but one that works precisely because Night Laser refuse to soften the mood simply to fit their established formula.

“Into The West” provides another sharp contrast. The ballad begins almost completely stripped down, built around Benno's vocals, keyboards and clean guitar. Piano reinforces the delicacy of the opening before distorted guitar, bass and drums explode into the chorus. Backing vocals and keyboards broaden the cinematic atmosphere, while the guitar solo arrives at exactly the right moment, delivering everything a fan of a great power ballad could ask for.

The groove returns with “19CR490”, one of the album's heaviest and most laid-back moments. The song combines hard-hitting riffs with a surprisingly melodic chorus, incorporating influences that range from traditional hard rock to the primitive rock'n'roll of the 1950s. Once again, it demonstrates Night Laser's versatility — and their willingness to add new textures to the formula without losing its original flavour.

With “Get Out”, the contribution of Lars Rettkowitz, guitarist of Freedom Call, makes perfect sense. The track's speed immediately points towards classic heavy metal, with fast guitar work, traditional backing vocals and rhythmic changes that keep it from becoming predictable. It is one of the compositions that most clearly brings Night Laser into traditional metal territory.

“Goddess Of The Sky” slows things down again, but loses none of its grandeur. Following a calm introduction, the full band enters with an epic atmosphere before the vocals even appear. The bass, clearly influenced by bands such as Iron Maiden, drives the verses until guitar and an unexpected flute enter the arrangement. The backing vocals, keyboards and instrumental foundation transform the final section into a genuine anthem, with a strong power metal influence.

Closing the album with “You And Me” is another surprise. Almost entirely acoustic, built primarily around guitar and vocals, the track abandons the heaviness and brings the album to an intimate conclusion. Melodic variations prevent it from feeling like a mere epilogue and reinforce Night Laser's willingness to experiment right up to the final minutes.

It is precisely this sheer amount of information that may divide opinion. Rats In The Cradle is anything but a linear album. Some listeners may find its diversity excessive, almost chaotic; others will appreciate the fact that the band can move through so many different territories without turning the record into a disconnected collection of styles. Night Laser successfully place accessible songs alongside more complex material while maintaining recurring elements — particularly melody, vocals, guitars and a strong emphasis on memorable choruses — that provide a common thread.

Rather than proving that they can play different styles, Night Laser seem to have realised that they simply don't need to choose just one. Rats In The Cradle is an album with an identity precisely because it refuses to be confined by a formula. It can be glam, sleaze, hard rock, heavy metal, blues or power metal — but it still sounds unmistakably like Night Laser. And that may be the band's greatest achievement: having finally taken their foot off the handbrake, they have discovered that the best way forward is to accelerate in several directions at once.

Franz Schepers 




Girish And The Chronicles: Além das Barreiras (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Poucas bandas conseguem atravessar fronteiras sem deixar para trás aquilo que as tornou especiais em primeiro lugar. Os indianos Girish And The Chronicles são uma dessas exceções. Depois de transformar o status de promessa do underground em uma realidade internacional, impulsionados por turnês europeias e por uma surpreendente aparição no America’s Got Talent, o quarteto chega a Disintegrate, seu novo lançamento pela Frontiers Music Srl.

E o título não poderia ser mais apropriado. Se os trabalhos anteriores ajudaram a estabelecer a banda dentro da tradição do hard rock e do heavy metal, Disintegrate mostra um grupo disposto a desmontar parte dessa fórmula para reconstruí-la sob uma perspectiva muito mais contemporânea.

As raízes continuam presentes, mas agora dividem espaço com guitarras de timbres mais modernos, grooves acentuados, quebras de andamento, efeitos eletrônicos, vocais agressivos e uma atmosfera consideravelmente mais sombria. A diferença não está apenas na produção: está na maneira como as próprias composições são construídas. O Girish And The Chronicles parecem menos interessados em reproduzir o hard rock clássico e mais dispostos a descobrir até onde podem levá-lo no século XXI.

A faixa-título estabelece imediatamente essa nova direção. Embora sua estrutura ainda carregue elementos reconhecíveis do hard rock, guitarras, bateria e vocais apontam para uma sonoridade mais pesada e moderna. E é justamente nessa combinação que o álbum encontra boa parte de sua identidade. Girish Pradhan, naturalmente, não demora a assumir o protagonismo, com uma interpretação que continua sendo um dos grandes trunfos da banda.

Fading Away segue caminho semelhante, mas acrescenta ainda mais elementos contemporâneos. Os backing vocals, os efeitos e determinadas escolhas vocais afastam a música da tradição oitentista, enquanto o solo funciona quase como uma ponte entre dois mundos. É uma característica que se repetirá ao longo do álbum: mesmo quando a banda mergulha de cabeça na modernidade, sempre existe algum elemento clássico mantendo suas raízes à vista.

Esse equilíbrio fica especialmente interessante em A New Spark, talvez um dos momentos em que a antiga e a nova identidade do Girish And The Chronicles melhor convivem. O início apresenta guitarras e timbres bastante tradicionais, acompanhados por teclados que criam uma sólida cama para a base. A música ganha cadência na ponte antes de desembocar em um refrão mais moderno e agressivo. O baixo de Yogesh Pradhan merece destaque, sustentando tanto a base quanto a melodia e contribuindo decisivamente para a dinâmica da composição.

Take Me Home é provavelmente o momento em que a banda mais se aproxima de sua antiga personalidade. Triunfal e épica, a faixa poderia facilmente ter encontrado espaço em algum álbum de hard & heavy dos anos 1990 ou do início dos anos 2000. Mesmo incorporando algumas soluções modernas no refrão, sua essência permanece muito mais próxima do hard rock tradicional. O solo de Suraz Sun é outro ponto alto, enquanto a bateria de Nagen Nags, com uma sonoridade mais orgânica, reforça ainda mais essa atmosfera clássica.

Mas se há uma faixa que funciona como declaração de princípios para Disintegrate, é Generation Coward. O primeiro single deixa claro que a modernização da banda não é apenas estética. Groove, quebras de ritmo, timbres contemporâneos, vocais agressivos e até algumas referências ao nu metal colocam a música muito distante do hard/heavy convencional. Mais uma vez, o solo tradicional funciona como uma espécie de elo com o passado.

A partir daí, Against Yourself leva essa transformação ainda mais longe. Aqui, praticamente todos os elementos apontam para o presente: andamento, timbres, melodia, efeitos vocais e uma atmosfera melancólica. Até o baixo assume uma personalidade diferente, com características que remetem a nomes como Primus. É uma das faixas em que a banda demonstra maior disposição para experimentar novas texturas — e também uma das que mais deixam evidente o quanto Girish And The Chronicles se afastaram de sua zona de conforto.

You oferece um necessário contraponto. Essencialmente uma balada, começa de maneira quase despojada, com forte presença acústica e teclados eletrônicos, antes de ganhar peso na segunda metade. A transformação é significativa: guitarra suja, baixo e bateria passam a sustentar uma interpretação vocal mais agressiva. Mesmo quando a estrutura remete ao hard rock tradicional, a produção e os arranjos permanecem firmemente ancorados no presente.

E então chega Kaal, encerrando o álbum de maneira coerente com toda essa proposta de ruptura. Ritmos quebrados, bateria moderna e vocais carregados de efeitos conduzem a música por um território que pouco tem a ver com o hard rock clássico que marcou a trajetória inicial da banda. É também um momento em que o excesso de efeitos chega a esconder parcialmente uma das maiores armas do grupo: a potência vocal de Girish Pradhan.

É justamente aí que Disintegrate se torna mais interessante — e também mais discutível. A banda claramente queria experimentar. Em alguns momentos, essa decisão funciona de maneira brilhante; em outros, a quantidade de elementos modernos parece competir com aquilo que sempre fez do Girish And The Chronicles uma banda especial.

Ainda assim, o álbum está longe de soar repetitivo. Existe uma receita comum, mas ela é explorada sob diferentes perspectivas, alternando momentos mais tradicionais com passagens agressivas, sombrias, modernas e experimentais. O resultado é um disco que pode causar alguma estranheza aos fãs mais ortodoxos do hard rock, justamente porque não parece interessado em simplesmente repetir fórmulas consagradas.

No centro de tudo permanece Girish Pradhan. Sua voz continua poderosa, versátil e carregada de personalidade, evocando a linhagem dos grandes vocalistas do rock sem jamais soar como uma simples reprodução do passado. É sua presença que ajuda a manter uma conexão entre as diferentes faces apresentadas pelo álbum.

Disintegrate talvez seja, portanto, menos um disco de ruptura absoluta do que um retrato de uma banda em transformação. O Girish And The Chronicles não abandonaram suas raízes — apenas decidiram descobrir o que acontece quando elas são colocadas em contato com uma linguagem muito mais moderna, pesada e agressiva.

O resultado nem sempre é confortável, mas certamente é mais interessante do que permanecer parado. E, depois de Disintegrate, uma pergunta inevitavelmente fica no ar: esta é apenas uma experiência pontual ou o início de uma nova fase para o Girish And The Chronicles? Só os próximos álbuns terão a resposta.

***ENGLISH VERSION***

Few bands manage to cross borders without leaving behind the very qualities that made them special in the first place. India’s Girish And The Chronicles are one of those exceptions. Having transformed their status from underground promise into an international reality, propelled by extensive European touring and a surprising appearance on America’s Got Talent, the quartet arrives with Disintegrate, their new release through Frontiers Music Srl.

And the title could hardly be more appropriate. If the band’s previous records helped establish them within the traditions of hard rock and heavy metal, Disintegrate finds them willing to dismantle part of that formula and rebuild it from a far more contemporary perspective.

The roots are still there, but they now share space with more modern guitar tones, pronounced grooves, rhythmic shifts, electronic effects, aggressive vocals and a considerably darker atmosphere. The difference is not merely a matter of production; it lies in the way the songs themselves are constructed. Girish And The Chronicles seem less interested in reproducing classic hard rock and more willing to discover how far they can take it into the 21st century.

The title track immediately establishes this new direction. Although its structure still carries recognizable hard rock elements, the guitars, drums and vocals point towards a heavier, more modern sound. And it is precisely in this combination that the album finds much of its identity. Girish Pradhan, naturally, wastes no time in taking center stage, with a performance that remains one of the band’s greatest strengths.
Fading Away follows a similar path, but adds even more contemporary elements. The backing vocals, effects and certain vocal choices move the song away from the ’80s tradition, while the solo works almost like a bridge between two worlds. It is a characteristic that will recur throughout the album: even when the band dives headfirst into modernity, there is always some classic element keeping its roots within sight.

This balance becomes particularly interesting on A New Spark, perhaps one of the moments where the old and new identities of Girish And The Chronicles coexist most effectively. The opening features distinctly traditional guitars and tones, with keyboards providing a solid foundation for the rhythm section. The song gains momentum during the bridge before breaking into a more modern and aggressive chorus. Yogesh Pradhan’s bass deserves special mention, supporting both the foundation and the melody while contributing decisively to the dynamics of the composition.

Take Me Home is probably the moment when the band comes closest to its former personality. Triumphant and epic, the song could easily have found a place on a hard & heavy album from the 1990s or early 2000s. Even though it incorporates some modern touches in the chorus, its essence remains much closer to traditional hard rock. Suraz Sun’s solo is another highlight, while Nagen Nags’ drums, with their more organic sound, further reinforce the classic atmosphere.

But if there is one song that functions as a statement of intent for Disintegrate, it is Generation Coward. The first single makes it clear that the band’s modernization is not merely aesthetic. Groove, rhythmic shifts, contemporary tones, aggressive vocals and even hints of nu metal place the song far away from conventional hard/heavy territory. Once again, the traditional solo acts as a kind of link to the past.

From there, Against Yourself takes this transformation even further. Here, virtually every element points toward the present: the tempo, tones, melody, vocal effects and a distinctly melancholic atmosphere. Even the bass takes on a different personality, with characteristics reminiscent of bands such as Primus. It is one of the tracks where the band demonstrates its greatest willingness to experiment with new textures — and also one of the clearest indications of just how far Girish And The Chronicles have moved beyond their comfort zone.

You provides a necessary counterpoint. Essentially a ballad, it begins in an almost stripped-down fashion, with a strong acoustic presence and electronic keyboards, before gaining weight during its second half. The transformation is significant: distorted guitar, bass and drums begin supporting a more aggressive vocal performance. Even when the structure recalls traditional hard rock, the production and arrangements remain firmly rooted in the present.

And then comes Kaal, closing the album in a manner entirely consistent with its overall spirit of rupture. Broken rhythms, modern drumming and heavily processed vocals take the song into territory that has little connection with the classic hard rock that defined the band’s early career. It is also a moment when the abundance of effects partially obscures one of the group’s greatest weapons: Girish Pradhan’s vocal power.
That is precisely where Disintegrate becomes most interesting — and also most debatable. The band clearly wanted to experiment. At times, that decision works brilliantly; at others, the number of modern elements seems to compete with the very qualities that have always made Girish And The Chronicles special.

Even so, the album is far from repetitive. There is a common formula, but it is explored from different angles, alternating more traditional moments with aggressive, dark, modern and experimental passages. The result may cause some discomfort among more orthodox hard rock fans, precisely because it has little interest in simply repeating established formulas.

At the center of it all remains Girish Pradhan. His voice is still powerful, versatile and full of personality, evoking the lineage of rock’s great vocalists without ever sounding like a mere reproduction of the past. His presence helps maintain a connection between the different faces presented throughout the album.

Disintegrate is therefore perhaps less an album of absolute rupture than a portrait of a band in transition. Girish And The Chronicles have not abandoned their roots — they have simply decided to discover what happens when those roots are placed in contact with a much more modern, heavier and more aggressive musical language.

The result is not always comfortable, but it is certainly more interesting than standing still. And after Disintegrate, one question inevitably remains: is this merely a one-off experiment, or the beginning of a new chapter for Girish And The Chronicles? Only the next albums will provide the answer.

GATC and Ashish Limbu

sábado, 12 de setembro de 2026

Válvera – Unleashed Fury | Peso, fúria e uma nova fase



Fotos: Divulgação 
Edição/Revisão: Caco Garcia 
 
Eu gosto quando uma banda consegue mudar sem deixar de ser reconhecível. Quando você coloca um disco novo para tocar e pensa: “é diferente, mas eu ainda sei quem está tocando”. Foi exatamente essa sensação que tive ouvindo "Unleashed Fury", novo álbum do Válvera, lançado depois de seis anos sem um disco de inéditas.

Formado em 2010, em Votuporanga, no interior de São Paulo, o Válvera chega ao seu quarto álbum de estúdio mostrando que esse tempo trouxe não apenas experiência, mas também vontade de experimentar.

O Thrash Metal continua sendo a base, mas agora divide espaço com Heavy Metal, Groove e uma sonoridade mais moderna. Não parece que a banda abandonou o que fazia antes. É mais como se tivesse aberto algumas portas novas.

E acho que essa é uma boa maneira de ouvir Unleashed Fury: sem esperar que o Válvera repita os trabalhos anteriores, mas também sem procurar uma banda completamente diferente.


A fúria vai além do título

Apesar do nome, "Unleashed Fury" não é simplesmente um disco sobre raiva. As letras passam por temas como perda, culpa, arrependimento, saúde mental, identidade e reconstrução. A fúria aparece mais como uma energia que precisa ser transformada do que como simples ódio.


Isso também aparece na música. O álbum alterna momentos rápidos e agressivos com riffs mais cadenciados, grooves pesados e atmosferas mais sombrias. E uma coisa que gostei é que o Válvera não tenta manter tudo no máximo o tempo inteiro.

Nas guitarras, Glauber Barreto e Rodrigo Torres são responsáveis por boa parte dessa identidade. Os dois alternam riffs rápidos, bases pesadas e momentos mais melódicos, mantendo as guitarras agressivas sem fazer todas as músicas soarem iguais.

No baixo, Gabriel Prado dá bastante corpo ao instrumental, principalmente nas partes mais cadenciadas.

Nos vocais, Glauber Barreto mantém a agressividade, mas também explora momentos mais contidos e melódicos, evitando que o álbum fique vocalmente uniforme.

Na bateria, vale uma correção importante: quem gravou o álbum foi Leandro Peixoto, antes de sua saída da banda. Vitor Bonati é o baterista da formação atual e representa essa nova etapa do Válvera.


Algumas faixas que merecem atenção:

“Necropolis” foi uma das que mais me chamou atenção pelo clima. É pesada, mas não precisa acelerar o tempo inteiro. As guitarras criam uma tensão constante e a atmosfera mais sombria combina muito bem com a música.

A faixa-título, “Unleashed Fury”, resume bem o conceito do álbum. Existe aquela sensação de algo que ficou preso por muito tempo e finalmente encontrou uma saída. Glauber coloca bastante força nos vocais, enquanto as guitarras acompanham com riffs agressivos.

“What I Left Behind” começa com uma pegada mais Heavy Metal, mas logo o Thrash assume o controle. Essa mudança funciona muito bem e mostra uma das características mais interessantes do disco: a banda mistura estilos sem perder a própria identidade.

Já “Reckoning Has Begun” representa o Válvera mais agressivo. Os riffs são fortes, os vocais têm bastante intensidade e a música tem aquela energia que parece feita para funcionar ainda melhor ao vivo. No álbum, ela aparece em uma versão remixada.

“Venomous Seed” segue uma linha mais pesada e tensa. Talvez não seja a faixa mais imediata do disco, mas funciona bem dentro do conjunto justamente por trazer outro clima.

E “Faceless” é uma das mais diferentes. A música mistura peso, breakdowns e uma atmosfera quase psicodélica, mudando de direção algumas vezes. Vitor Bonati também escolheu a faixa quando perguntado sobre qual música indicaria para alguém conhecer o álbum.

Para fechar, “Old World, Burn!” mantém a energia até o último momento. O título combina com a ideia central do disco: deixar algumas coisas para trás para conseguir seguir em frente.


Uma nova fase.

Eu não terminei "Unleashed Fury" pensando que o Válvera reinventou o Metal — e acho que essa nem era a intenção.
O que encontrei foi uma banda tentando descobrir até onde consegue levar aquilo que já sabe fazer. O Thrash continua sendo a base, mas agora tem Heavy Metal, Groove, elementos mais modernos e momentos em que o clima pesa tanto quanto os riffs.

Nem todas as músicas me pegaram da mesma maneira. Algumas entraram mais rápido, enquanto outras funcionaram melhor depois de algumas audições. Mas isso também faz parte do disco: ele não parece preocupado apenas em entregar uma sequência de músicas pesadas.

Tecnicamente, é um trabalho muito bem executado. Glauber Barreto segura os vocais com personalidade; Glauber Barreto e Rodrigo Torres fazem das guitarras o coração do álbum; Gabriel Prado dá corpo ao baixo; e Leandro Peixoto entrega uma bateria que acompanha muito bem as mudanças das músicas. Enquanto isso, a chegada de Vitor Bonati abre uma nova página para a banda.

Para mim, "Unleashed Fury" é um disco sobre mudança, mas não aquela que apaga o passado. É sobre olhar para o que ficou, entender o que ainda faz sentido e ter coragem de experimentar outra coisa.

E talvez aí esteja a verdadeira fúria do Válvera: não apenas na guitarra pesada ou no vocal rasgado, mas na vontade de não ficar parado no mesmo lugar.

Depois de seis anos, a banda voltou sem fingir que o tempo não passou. Trouxe as marcas da caminhada, mexeu em algumas peças e abriu espaço para uma nova história.

E eu terminei o álbum com uma curiosidade: se Unleashed Fury é o primeiro passo dessa nova fase, quero descobrir até onde o Válvera vai levar essa fúria.




====English Version Below===

Válvera – Unleashed Fury | Weight, Fury, and a New Chapter




I like it when a band manages to change without losing what makes them recognizable. When you put on a new album and think, “This is different, but I still know who I’m listening to.” That was exactly how I felt listening to "Unleashed Fury", Válvera’s new album, released after six years without a new full-length record.

Formed in 2010 in Votuporanga, in the countryside of São Paulo, Válvera arrives at its fourth studio album showing that those years brought not only experience, but also a desire to experiment.

Thrash Metal is still the foundation, but it now shares space with Heavy Metal, Groove, and a more modern sound. It doesn’t feel like the band abandoned what they had done before. It feels more like they opened a few new doors.

And I think that’s a good way to approach Unleashed Fury: without expecting Válvera to simply repeat their previous work, but also without looking for a completely different band.


The Fury Goes Beyond the Title

Despite its name, Unleashed Fury isn’t simply an album about anger. The lyrics touch on themes such as loss, guilt, regret, mental health, identity, and rebuilding. Fury appears more as an energy that needs to be transformed than as simple hatred.

That idea also comes through in the music. The album moves between fast, aggressive moments and slower riffs, heavy grooves, and darker atmospheres. One thing I really liked is that Válvera doesn’t try to stay at full speed all the time.

On guitars, Glauber Barreto and Rodrigo Torres are responsible for a big part of that identity. They move between fast riffs, heavy guitar lines, and more melodic moments, keeping the guitars aggressive without making every song sound the same.

On bass, Gabriel Prado gives the instrumental plenty of body, especially during the slower, more groove-driven sections.

On vocals, Glauber Barreto keeps things aggressive, but also explores more restrained and melodic moments, which helps prevent the album from becoming vocally repetitive.

On drums, there’s an important correction worth mentioning: the album was recorded by Leandro Peixoto, before his departure from the band. Vitor Bonati is the drummer in the current lineup and represents this new chapter for Válvera.



A Few Tracks Worth Highlighting

“Necropolis” was one of the songs that stood out to me because of its atmosphere. It’s heavy, but it doesn’t need to speed up constantly to prove it. The guitars create a constant sense of tension, and the darker mood fits the song really well.

The title track, “Unleashed Fury,” sums up the album’s concept pretty well. There’s a feeling of something that had been bottled up for a long time and finally found a way out. Glauber brings plenty of intensity to the vocals, while the guitars follow that energy with aggressive riffs.

“What I Left Behind” starts with a more Heavy Metal-oriented feel, but Thrash soon takes over. That change works really well and highlights one of the album’s most interesting qualities: the band mixes different styles without losing its own identity.

“Reckoning Has Begun” represents Válvera at its most aggressive. The riffs hit hard, the vocals have plenty of intensity, and the song has the kind of energy that feels like it was made to work even better live. On the album, it appears in a remixed version.

“Venomous Seed” follows a heavier and more tense path. It may not be the most immediate track on the album, but it works well within the bigger picture precisely because it brings a different mood.

And “Faceless” is one of the album’s most unusual tracks. It mixes heaviness, breakdowns, and an almost psychedelic atmosphere, changing direction a few times along the way. Vitor Bonati also picked the song when asked which track he would recommend to someone discovering the album.

To close things out, “Old World, Burn!” keeps the energy going until the very end. Its title fits the album’s central idea: leaving some things behind in order to move forward.


A New Chapter

I didn’t finish Unleashed Fury thinking Válvera had reinvented Metal — and I don’t think that was the point.

What I found was a band trying to discover how far they can take what they already know how to do. Thrash is still the foundation, but now there’s Heavy Metal, Groove, modern elements, and moments where the atmosphere feels just as heavy as the riffs.

Not every song grabbed me in the same way. Some clicked immediately, while others worked better after a few listens. But that’s part of the album too: it doesn’t seem interested only in delivering one heavy song after another.

Technically, it’s a very well-executed record. Glauber Barreto delivers the vocals with plenty of personality; Glauber Barreto and Rodrigo Torres make the guitars the heart of the album; Gabriel Prado gives the bass plenty of weight; and Leandro Peixoto delivers a drum performance that works very well with the songs’ changes in pace. Meanwhile, Vitor Bonati’s arrival opens a new page for the band.

To me, Unleashed Fury is an album about change, but not the kind that erases the past. It’s about looking at what’s behind you, figuring out what still matters, and having the courage to try something different.

And maybe that’s where Válvera’s true fury lies: not only in the heavy guitars or harsh vocals, but in the desire to refuse to stay in the same place.
After six years, the band is back without pretending that time hasn’t passed. They brought the marks of their journey with them, shifted a few pieces around, and made room for a new story.

And I finished the album with one question in my mind: if Unleashed Fury is the first step into this new chapter, I want to see just how far Válvera can take that fury.