domingo, 10 de maio de 2026

Draconian: O culto à melancolia

Napalm Records (Imp.)

Por Michelle F. Santana

O Draconian é uma banda de Gothic Doom Metal formada na Suécia em 1994, que definitivamente sabe transformar poesia em sonoridade densa e melancólica.

Não foi diferente em In Somnolent Ruin, oitavo trabalho da banda, lançado quase seis anos após o aclamado Under a Godless Veil (2020). O álbum chega em um momento importante da trajetória do Draconian: o primeiro registro após o retorno de Lisa Johansson, que deixou a banda em 2011 por motivos pessoais e retornou em 2022, substituindo Heike Langhans.

A comparação com Under a Godless Veil é inevitável. O álbum anterior consolidou ainda mais a estética melancólica e contemplativa que se tornou marca registrada do Draconian. Entretanto, In Somnolent Ruin aprofunda essa identidade com uma abordagem mais introspectiva, filosófica e emocionalmente austera. Embora o disco não busque reinventar a fórmula da banda, encontra força justamente na maturidade com que aprofunda sua própria essência.

As letras de Anders Jacobsson caminham para um olhar quase platônico no sentido filosófico e contemplativo. O álbum aborda emoções como entorpecimento, alienação, o “desenraizamento” do mundo moderno, a dor e a angústia da desilusão, sentimentos tão inerentes ao ser humano, apresentados aqui de maneira extremamente poética.

O disco contém nove faixas. A abertura, “I Welcome Thy Arrow”, inicia de forma minimalista e soturna, conduzida pela voz etérea de Lisa Johansson, antes de explodir no peso característico do gothic doom metal e no gutural esmagador de Anders Jacobsson. A letra contempla a relação entre caça e caçador, impotência e sofrimento, tratando a dor quase como instrumento de despertar. A faixa estabelece com precisão a identidade emocional e sonora que o álbum pretende desenvolver.

“Anima”, que conta com a participação de Daniel Änghede (ex-Crippled Black Phoenix), é uma das músicas mais melancólicas do álbum. A faixa começa com a voz limpa de Daniel, que logo se funde à de Lisa, criando uma atmosfera íntima, obscura e quase cinematográfica. Os três vocais constroem uma experiência emocional profunda, enquanto a música aborda aceitação, fragmentação psicológica e integração da própria escuridão.

Já “Cold Heavens” surge como uma das faixas mais dinâmicas e pesadas do trabalho. Anders apresenta um vocal ainda mais visceral, enquanto Lisa explode no refrão com a carga emocional necessária para sustentar a proposta da música. A faixa fala sobre vida, morte e o desespero de existir em um mundo frio, paralisante e sem perspectiva.

Destaque também para “Misanthrope River”, faixa que ganhou videoclipe e se inicia com a frase: “Estou muito sozinho neste mundo, mas não sozinho o suficiente para consagrar a hora”, de Rainer M. Rilke, poeta conhecido por sua intensidade lírica e reflexões existenciais. Assim como a obra de Rilke, a música mergulha em sentimentos de isolamento e desconexão diante do mundo moderno. O próprio título sugere rejeição ao comportamento humano, enquanto versos como “De onde nada é o que parece / Eu nunca pedi por isso” reforçam o desencanto diante da superficialidade e do vazio existencial contemporâneo.

Para encerrar o álbum, “Lethe” surge como uma conclusão quase ritualística. Inspirada no “Rio do Esquecimento” da mitologia grega , passagem para o submundo, a faixa apresenta referências gnósticas e espirituais profundas. “Um arconte espera pelo rio”, figura associada ao aprisionamento da alma no mundo material, aguardando a ruína inevitável. O eu lírico então se entrega a essa presença assombrada sem resistência. Musicalmente, a composição encerra o álbum de forma grandiosa, com andamento arrastado, teclados épicos e uma construção sonora contemplativa que conduz o ouvinte delicadamente ao fim dessa jornada melancólica, reforçando a identidade gnóstica da banda.

A sonoridade de In Somnolent Ruin é impecável e certamente agradará aos amantes do doom gothic metal tradicional. As guitarras de Under a Godless Veil eram mais densas e cadenciadas, focadas em uma atmosfera sufocante e obscura. Em In Somnolent Ruin, a banda adota uma abordagem mais paciente e contemplativa, sem abandonar o peso característico do doom metal. Johan Ericson e Niklas Nord também conseguem presentear o ouvinte com solos mais destacados e emocionais, tornando a experiência sonora ainda mais impactante.

É inegável a química vocal entre Lisa Johansson e Anders Jacobsson. Lisa traz um vocal limpo, lúcido e espectral, que dialoga perfeitamente com a proposta do álbum, contrastando de maneira coesa com o gutural profundo e sombrio de Anders.

O Draconian continua demonstrando enorme habilidade em construir monumentos sonoros a partir da melancolia, equilibrando peso extremo com temas sensíveis e emocionalmente complexos. Definitivamente, não é uma banda que abre espaço para superficialidades.

In Somnolent Ruin é um álbum introspectivo e maduro, de produção quase cinematográfica, etérea e hipnótica, capaz de transportar o ouvinte para paisagens gélidas e dias melancólicos de forma profundamente poética. Para quem se permitir vivê-lo, trata-se de um mergulho em águas profundas do próprio eu, pois In Somnolent Ruin não busca escapar da escuridão, ele aprende a habitá-la.

Therés Stephansdotter Björk


Cobertura de Show: FM – 05/03/2026 – Burning House/SP

FM faz apresentação impecável e cativante em São Paulo, na celebração de 40 anos de “Indiscreet"

Há bandas que chegam a 40 anos ou mais de existência, com ou sem pausas, com um vigor ou qualidade sonora tão bons quanto nos primórdios. O FM, grupo londrino de Hard Rock com grande relevância na cena AOR (Adult-Oriented Rock, ou Álbum orientado a adultos), mostrou que, no caso deles, isso é aplicável, ainda mais em um contexto de especial como o do último dia 05 de março, na Burning House, Zona Oeste de São Paulo, onde o quinteto fez um show da turnê de celebração de 40 anos do álbum de estreia, “Indiscreet”. O evento foi organizado pela própria casa de shows.

Esta foi a segunda passagem da banda em solo brasileiro e somente na capital paulista, sendo a primeira em 2024, na turnê de 40 anos da fundação do grupo. A apresentação não contou com aberturas e gerou uma boa lotação no local em uma plena quinta-feira. Os presentes, além de ouvirem “Indiscreet” em uma ordem diferente da versão de estúdio, ainda presenciou uma sequência com clássicos do segundo álbum do FM, “Tough It Out” (1989), e mais três de outros álbuns da banda.

Tanto os fãs quanto a banda tiveram momentos animados e total dedicação às interações propostas pelo frontman Steve Overland, batendo palmas, criando corais líricos e aclamando cada solo instrumental, linha de destaque, introdução marcante ou nota vocal executada no show. Você confere mais detalhes a seguir.


Celebrando os 40 anos de “Indiscreet” 

Ter chegado perto do início do show me ajudou a ter a percepção da lotação do local, que foi praticamente total salvo alguns espaços de circulação. Para os fãs da banda e/ou do Hard Rock, não importava que era uma quinta-feira à noite, pois era uma noite de celebração.

O show, que não contou com aberturas, começou de fato às 21h32, em meio ao que parecia a introdução da Fox Films e somente a entrada de Pete Jupp (bateria). Subiram ao palco, logo depois, os demais membros de instrumentos, em semblante alegre até mesmo antes da escadaria, enquanto a segunda introdução, a música da Pantera Cor-de-rosa, tocava: Jem Davis (teclados e sintetizadores), Merv Goldsworthy (baixo e backing vocal) e Jim Kirkpatrick (guitarra).

O quarteto no palco iniciou os primeiros acordes de “Digging Up the Dirt" e, na sequência, Steve Overland (vocal e guitarra rítmica) fez sua entrada para fechar a formação e iniciar de vez a apresentação. A faixa em questão, que faz parte do disco "Heroes and Villains”(2015), mostrou que, apesar de a noite ser uma celebração para o álbum “Indiscreet", não haveria prioridade inicial ou a obediência com a sequência original do disco de 1986. E isso ficou evidente ao longo do show, apesar de não ser algo que incomodou aos que presenciaram o show na Burning House.

A faixa de abertura do setlist, que teve 19 faixas no total (a maior parte do álbum de estreia), foi um aquecimento para uma banda animada durante e depois da música, com a saudação animada encabeçada por Overland; e para um público que demonstrou euforia desde o começo. E essa sensação e a expressão de alegria cresceram ainda mais quando "That Girl”, faixa que abre o primeiro disco de estúdio do FM, foi tocada. A boa execução do quinteto levou a pulos de parte da galera e, de forma quase unânime e uníssona, aos cantos nos refrões da faixa.

“Other Side of Midnight” e ˜Love Lies Dying” vieram na sequência, fechando as três primeiras faixas do álbum na ordem ao contar com a segunda do setlist. Duas músicas que remetem bem ao estilo sonoro que definiu parte distinta das bandas de Hard Rock dos anos 80, com um pézinho no Pop, solos repletos de Feeling (e que ótimas execuções da parte de Jim Kimpatrick), bons trechos de teclado e bons refrões, A combinação foi perfeita para manter o misto nostálgico e agradável do público presente.

A viagem por “Indiscreet” seguiu, porém pulando uma faixa da ordem do álbum - que veio a ser tocada depois -. Assim, “American Girls” retomou a um Hard Rock clássico e bem orientado ao chamado AOR, ao mesmo tempo que a faixa lembrou algo parecido com “Jump", do Van Halen. Mas nada de achar isso ruim, e sim acreditar em uma inspiração excelente, ainda mais com o ânimo evidente de Jem Davis nos teclados. 

"Frozen Heart", oitava faixa do debut do FM e sexta do setlist em São Paulo, surgiu como uma balada triste. Foi amplamente comemorada e cantada pelos fãs presentes ao longo da música, além de contar com uma boa leva de solos de Jim e, ao final, um falsete de Steve Overland que levou o público aos gritos e aplausos. Já "Hot Wired” veio como uma faixa mais Pop Rock, porém sem tirar a base Hard do álbum e com um demonstrativo claro de sinergia entre os integrantes somada com as interações entre eles e com a plateia.

Steve Overland, em mais um discurso, reforçou a importância e a comemoração em cima de “Indiscreet”, elogiando a fanbase como um todo: “O álbum faz 40 anos e nós os amamos há 40 anos também", declarou o frontman do FM.

O show seguiu com mais uma dobradinha do debut sem a ordem da tracklist original: “Face to Face” e “I Belong to the Night” foram amplamente comemoradas e cantadas, reforçando os patamares de clássicos que têm junto a outras faixas do disco. A primeira citada teve o par de solos de Jim e Overland como destaque, enquanto a segunda trouxe o ápice das interações desse show, quando o vocalista do FM pediu para que o público cantasse trechos da faixa e alguns momentos de refrão. A resposta do público levou Steve a falar “Fantastic” por várias vezes, assim como ele também foi aclamado com os falsetes impressionantes no final da música, muito próximos do que executava há 40 anos.

O fim da passagem por “Indiscreet” se deu com mais duas músicas. “Heart of the Matter”, que fecha o álbum na versão de estúdio, teve seus trejeitos de anos 80 a partir dos teclados, o ritmo embasado em características Hard Rock e Pop e um refrão que repete o nome da faixa, algo que o público também fez durante a música. Já “Dangerous”, que fechou este "quase primeiro ato” do show, foi parcialmente prejudicada por uma interferência no som que prejudicou o vocal e, por um trecho, as guitarras, deixando o solo da faixa mais  baixo. Nada que fosse problema para uma rápida correção e uma boa finalização de um álbum que marcou e tanto, logo no começo, a carreira do FM.

Do primeiro para o segundo álbum (e outros sucessos)

A considerada segunda parte do show trouxe, em boa parte, faixas do segundo LP do FM, "Though It Out", lançado em outubro de 1989, além de uma faixa representante para os discos ˜Aphrodisiac” (1992), “Atomic Generation” (2018) e "Synchronized” (2020).

E esse bloco começou justamente com a mais nova das faixas, que leva o nome do álbum de 2020. O ritmo, muito bem cadenciado pelos pedais de Pete Jupp, logo foi incrementado pelas linhas e movimentações animadas de Jim e sua guitarra e de um baixo ainda mais potente da parte de Merv, respondidos com as palmas ritmadas da plateia já na reta final da faixa.

Já "Let Love Be the Leader” foi amplamente aclamada a partir das primeiras notas dos teclados de Jem, que anunciaram um Hard+Pop clássico e empolgante para um público que acompanhou fortemente o vocal de Steve Overland do início ao fim, principalmente os coros em “uoooo”. Steve, inclusive, mesmo em um tom um pouco diferente da versão de estúdio, mandou muito bem na execução vocal da música em questão. 

Já “Someday (You'll Come Running)”, outro clássico do FM, teve coro do público ainda maior ao longo da faixa. “Does It Feel Like Love” veio praticamente na sequência, contando com uma ótima linha de baixo geral e um trecho de destaque para Merv, além de outro falsete absurdo de Steve Overland para fechar a faixa.

O solinho inicial de Overland e Kirkpatrick deu o início épico para a aclamada "Bad Luck", que não deixou de ser cantada pelos fãs presentes, algo que se manteve muito bem executado na pista para a faixa seguinte, “Tough It Out”, iniciada sob ritmo dos teclados e sintetizadores e cuja sonoridade geral veio logo após o primeiro “ooouoooo” tanto de Overland, quanto da galera da pista. Talvez tenha sido o momento de melhor exploração dos tons variados de voz do frontman do FM, que junto ao restante da banda, finalizou a faixa de forma épica antes da pequena pausa.

Passados alguns minutos e os coros clássicos de “olê, olê” que são comuns na maioria dos shows em São Paulo, os membros do FM voltaram para mais duas músicas. “Closer to Heaven”, do álbum “Aphrodisiac”, veio como uma balada muito cadenciada no Blues Rock e que, da mesma forma que nas músicas com elementos Pop, não deixou de lado o Hard Rock característico. Steve não somente deu show vocal, como também no solo de guitarra que executou.

O gran finale da noite se deu com ˜Killed by Love˜, do “Atomic Generation”, numa representação mais fidedigna ao Hard Rock com “refrão chiclete” e que direcionou a um repertório mais recente e que, analisando o setlist, pode ser que, mesmo sem a intenção clara da banda, é um direcionamento para mostrar que o FM tem mais lançamentos além dos que foram clássicos no final dos anos 1980.

E o fim do show, após tamanha entrega dos músicos, sinergia entre os mesmos, bom repertório e execução geral impecável, me gerou uma dúvida: como o FM, depois de um boom nos anos 80 e lançamentos constantes desde o álbum de retorno (“Metropolis”, 2010), demorou tanto para vir ao Brasil - a primeira vez em 2024, na comemoração de 40 anos de banda -? Seja qual for o motivo, não muda a percepção de que, se viessem nos 11 anos iniciais e nos 18 desde o retorno da banda, teriam uma base de fãs ainda maior e que trariam mais da valorização que a banda merece, tamanha a competência sonora no palco. O que vale, por agora, é torcer tanto para que venham o mais breve possível, quanto para que mais pessoas aqui no Brasil possam conhecer o FM.

Texto: Tiago Pereira

Fotos: Amanda Vasconcelos

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: DNA Rock Events

Press: Ase Press


FM – setlist:

Digging Up the Dirt

That Girl

Other Side of Midnight

Love Lies Dying

American Girls

Frozen Heart

Hot Wired

Face to Face

I Belong to the Night

Heart of the Matter

Dangerous

Synchronized

Let Love Be the Leader

Someday (You'll Come Running)

Does It Feel Like the Love

Bad Luck

Tough It Out

Closer to Heaven

Killed by Love

Cobertura de Show: Enforcer – 07/02/2026 – Burning House/SP

Enforcer faz retorno avassalador e impacta ambiente oitentista em São Paulo 

Quinta passagem da banda contou com a turnê “Unshackle”, trazendo novidades e clássicos que exemplificam o que era o Heavy Metal nos anos de ouro

Entre blocos de marchinhas de rock e bares em ritmo de pré-Carnaval, o bairro da Água Branca teve uma noite que melhor representou um show de Heavy Metal dos anos 80, mesmo que nenhuma das bandas tenham surgido naquela (já longínqua) década.

Isso porque a Burning House, casa de shows nesse bairro da Zona Oeste de São Paulo, recebeu os suecos do Enforcer como banda principal, antecedidos pelos brasileiros do Creatures, no último dia 07 de março. Enquanto a banda paranaense celebrou o lançamento de seu mais recente álbum de estúdio e iniciou a sequência de shows em preparação para sua primeira turnê europeia, os europeus, em sua  quinta passagem em solo nacional, deram sequência em sua turnê sul-americana, a “Unshackle Latin America 2026”, que também contou com uma apresentação em Curitiba.

Tanto a banda de abertura quanto a principal fizeram shows que levaram o público a uma viagem imersa a um clima de anos 1980 na Burning House. O Creatures, em ritmo de preparo para uma turnê internacional, contou com fãs e o apoio do público de modo a fazer uma apresentação de altíssima qualidade. Já o Enforcer, praticamente imparável (fora algumas pausas nos solos de guitarra e bateria), trouxe um setlist bem engrenado com 18 faixas e dois momentos de solo.

Nem mesmo o calor impediu que a lotação fosse concreta na Burning House que, perdão o trocadilho, “pegou fogo” com faixas consistentes e envolventess durante a noite


A experiência oitentista do Creatures

O quarteto paranaense, composto por Marc Brito (vocal), Mateus Cantaleäno (guitarra), CJ Dubiella (bateria) e Ricke Nunes (baixo) pegaram uma Burning House lotada antes mesmo do início do show e com uma base de fãs e admiradores da banda brasileira presentes em todos os cantos do local. 

A lentidão dos transportes, por conta das chuvas do dia, fez com que eu perdesse as três primeiras músicas da noite, “Devil In Disguise”, “Night of the Ritual” e a maior parte de “Beware the Creatures”, podendo ouvir o finalzinho depois da entrada. O ponto de análise, então, se dá a partir do primeiro discurso da noite, feito por Marc Brito, exaltando o Caveira Velha Produções, os primeiros shows da banda no Caveira Velha Rock Bar, em Jandira; e sobre a presença do Creatures no festival alemão de Heavy Metal Keep It True, sendo a primeira banda brasileira em um lineup do evento, considerado um dos mais tradicionais do gênero. Marc também exaltou o Trovão, banda também brasileira que estará na edição Legions do mesmo festival, em agosto deste ano. Logo, o show da Burning House e as apresentações seguintes no Brasil fazem parte da preparação do Creatures para o Keep It True. 

As demonstrações de uma noite épica vieram com "Children of the Moon” e um público cativo e cantando muito nos refrões em uma faixa característica de um som oitentista. "Danger” foi bem conduzida, contando com um solo muito impactante e distorcido da parte de Mateus, além de uma finalização de bateria e público que levantou ainda mais os ânimos do local. 

As energias de banda e plateia seguiram em "Nothing Lasts Forever", onde Mateus Cantaleano teve um bom momento de solo de guitarra antes do início de "Lightning in My Eyes", introduzindo uma faixa que, depois, dentro da faixa, foi antro de interações entre Marc (agachado) e os fãs da grade e parte frontal da pista. Mateus teve outro grande solo no meio da faixa, misturando feeling e técnica.

"Dressed to Die” fechou a experiência oitentista dos brasileiros do Creatures. A “última dança”, como citou Marc Brito, elevou o ritmo com um misto de Heavy e Speed Metal arrasadores do início ao fim, acompanhado dos cantos do público e de um ótimo último solo de guitarra, além de agudos do vocalista ao final que encerraram o show da melhor forma, firmando um aquecimento de respeito para o show principal e exemplificando o motivo de a banda estar em uma ótima fase de reconhecimento nacional e internacional.


Uma noite arrasadora e imparável com Enforcer

Se durante o show do Creatures a Burning House já estava lotada, no intervalo antes do show do Enforcer, a chegada de mais pessoas tornou o cenário ainda mais cheio. Isso significou um misto de ansiedade para o início com confraternização entre o público, em rodas de conversa, de bebidas ou se conhecendo.

Certo foi que a casa ficou ainda mais quente - sem trocadilhos intencionais - quando "Diamonds and Rust", do Judas Priest, tocou como introdução para o início da apresentação inicial. Às 21h03, Jonas Wikstrand (bateria) subiu ao palco do local para iniciar "Destroyer”, primeira das 20 faixas da noite, e animar ainda mais um público que fez barulho na entrada triunfal e enérgica do trio de frente:  Garf Condit (baixo), Jonathan Nordwall (guitarra) e Olof Wikstrand (vocal e guitarra) correram e frearam a corrida para se posicionarem perfeitamente e, além da sonoridade potente, realizarem diversas movimentações ensaiadas.

Pedradas como “Undying Evil”e “Unshackle Me” vieram na sequência, para a alegria do público, com elementos do Heavy Metal dos anos 1980 e com muitos bons solos dos guitarristas. Após breve discurso do vocal, veio as também aclamadas “From Beyond” e “Live For the Night", sendo uma a plenos pulmões da galera e a outra com direito a mosh pit no meio da pista, no embalo de um ritmo mais acelerado e potente da banda.

Os ânimos também tiveram espaço para um momento emocional em meio à velocidade e precisão musicais do Enforcer. Isso porque a banda tocou um cover de "Die Young", do Black Sabbath, gerando ainda mais cantos. A velocidade rítmica seguiu com "Roll the Dice”.

O início lento de "Zenith of the Black Sun” foi um momento breve de descanso físico do público e que logo se converteu a uma sonoridade de Heavy Metal de arena, com riff marcante e heys uníssonos dos fãs, além de ótimo solo de guitarra. Depois, veio a rápida "Coming Alive” para retomar o ritmo frenético no palco e na pista, contando com a técnica dos guitarristas da banda.

Jonas teve seu momento de solo, arregaçando na bateria e emendando com "Diamonds", faixa com ritmo de Heavy Metal clássico. Foi nesse momento que a organização local teve que abrir as portas dos fundos, por conta do calor forte devido a lotação e a noite quente. "Scream of the Savage” veio em seguida para complementar.

Os coros do público voltaram com tudo com "Nostalgia”, em intro de violão, coros e balanços de mãos a pedido da banda, além de outro ótimo solo de finalização. Depois vieram faixas como "Mesmerized by Fire” e a comemorada “Running in Menace", reforçando a característica clássica de Heavy Metal dos suecos. A performance é digna de uma boa banda, de coreografias a pulinhos no palco dos membros.

Jonathan Nordwall também teve seu momento de solo, executando sem desperdiçar uma nota e com total feeling. “One With Fire” foi a faixa que veio em seguida, “botando mais fogo” Burning House com sua velocidade rítmica absurda. Vale citar que, nesse momento, o vocal de Olof continuava impecável e sem falhas.

“Take Me Out of This Nightmare” foi outra faixa muito comemorada e cantada na noite, sendo um dos maiores picos de interação entre banda e público. Houve uma pequena pausa antes do retorno, para executar as faixas finais.

"Katana” e “Midnight Vice", clássicos do Enforcer, vieram para encerrar a noite. No caso da primeira, houve comemoração dos fãs logo na introdução, quando Olaf a citou como “Este som japonês" e, na faixa, executaram com total energia. Já a segunda e última contou com uma condição pedida pelo vocalista: que fizessem moshes, stage dives e headbangings sem parar, algo que foi muito bem respondido pela galera.

Todo o clima pré e pós-evento deixou dois pontos muito evidentes. O primeiro é o de que a cena Heavy Metal brasileira está mais viva do que nunca e preservando muito bem o estilo sonoro e visual. O segundo é que, mesmo em meio a todas as contrariedades, o rock segue vivo no Brasil, seja nas releituras, seja nas suas vertentes em geral.

Texto: Tiago Pereira

Fotos: Roberto Sant'Anna

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Caveira Velha Produções / Xaninho Discos / Solid Music Entertaiment


Creatures – setlist:

Devil in Disguise

Night of the Ritual

Beware the Creatures

Children of the Moon

Danger

Nothing Lasts Forever

Lightning in My Eyes

Dressed to Die


Enforcer – setlist:

Destroyer

Undying Evil

Unshackle Me

From Beyond

Live for the Night

Die Young (cover de Black Sabbath)

Roll the Dice

Zenith of the Black Sun

Coming Alive

Diamonds

Scream of the Savage

Nostalgia

Mesmerized by Fire

Running in Menace

One With Fire

Take Me Out of This Nightmare

Katana

Midnight Vice

Cobertura de Show - Fire Machine e Creamy Jam - 22/04 - Divina Comédia - Porto Alegre RS

 


Por Vinny Vanony.

No dia 22 de abril de 2026, a banda Fire Machine se apresentou no Divina Comédia em Porto Alegre, acompanhada da banda Creamy Jam.

Composta pelos integrantes Rafael Souza (guitarra e vocal principal), Marcelo Torres (bateria) e Marcelo Valadas (baixo e vocal de apoio) a banda existe já fazem oito anos, porém só decidiram se apresentar ao vivo recentemente, inclusive sendo o show no Divina Comédia seu primeiro show, já que a proposta inicial era uma reunião de amigos para se desestressarem dos problemas da semana e segundo Valadas, ser uma “geléia musical cremosa” temperada com parceria, bons momentos e amizade. 


A banda toca covers de bandas que fizeram sucesso desde meados dos anos 60 até a atualidade, com uma sonoridade que abrange de Cream, Deep Purple, Ramones, New Order, Pearl Jam, Talking Heads até Amy Winehouse. 


Infelizmente pelo show ter acontecido em uma quarta feira, o local estava com pouco público, em torno de 20 pessoas no show da Creamy Jam.







Enter the Machine


A banda Fire Machine se apresentou logo após tocando um som autoral que possuí influências do hard rock 70/oitentista em inglês e português, além de duas músicas inéditas que até o momento não estão em nenhuma plataforma, sendo elas "She’s a Good Lover" e "Inside Of My Heart", somente para os fãs que estavam no local, com peso, técnica e muita energia!




A banda existe desde 2012, sendo inicialmente apenas Peterson Gusmão na guitarra, baixo e vocais e Jonathan Cirino na bateria, onde contando com outros integrantes para shows ao vivo, focaram em covers até 2016/2017, quando entraram em hiato. 


Em 2023 Gusmão e Cirino decidem retornar as atividades para gravar as músicas já compostas, dando origem ao EP Fire Machine. 


Logo após, Gusmão se junta ao baterista Zé “Z.Ace” Henrique para formar o projeto Red Light Prayers, com o qual lançou o EP intitulado Red Light Prayers, novamente os projetos entram em hiato até o ano passado, onde com nova formação retorna com o nome Fire Machine e coloca os dois álbuns já lançados sob sua tutela autoral. 


O show no Divina Comédia é o primeiro show desta nova fase da banda, contando com Peterson Gusmão na guitarra e vocais principais, Rafael Sousa na guitarra base e vocais de apoio, Rodrigo Cardoso no baixo e vocais de apoio e Fernando Ferreira na bateria, na qual tocaram as sete músicas já gravadas e as duas novas adições, que para sincero não deixaram nada a desejar mas sim muito a esperar para as próximas apresentações! 




No dia 09 de maio, a Fire machine se apresenta novamente, desta vez abrindo para a Epitaph no Estúdio Legat, evento de lançamento do novo vídeo da vetera banda de Heavy Metal, uma prévia do novo álbum a ser lançado no segundo semestre, "Digital Screams", e também teremos a cobertura pelo Road.





sábado, 9 de maio de 2026

The Cruel Intentions: O Sleaze Rock Ainda Vive — e Continua Perigoso (Also In English)

Indie Recordings (Imp.)

Por Flavio Borges

Existe algo perigosamente honesto no som do The Cruel Intentions. Enquanto boa parte da nova geração do sleaze rock se perde entre homenagens plastificadas aos anos 80 e produções excessivamente polidas, o quarteto sueco-norueguês parece compreender que o verdadeiro espírito do gênero nunca esteve apenas na estética decadente, mas principalmente na sensação de urgência, excesso e caos controlado. Em All Hail Hypocrisy, a banda entrega justamente isso: um disco que soa como gasolina derramada sobre amplificadores valvulados, equilibrando sujeira, melodias gigantescas e uma energia quase punk sem abrir mão da sofisticação de composição.

O detalhe mais impressionante talvez seja a forma como o álbum evita cair na armadilha da nostalgia barata. Sim, existem ecos evidentes de Mötley Crüe, Hanoi Rocks, Backyard Babies e até do punk melódico escandinavo, mas o The Cruel Intentions utiliza essas referências como linguagem, não como muleta. Muito disso passa pela produção cirúrgica de Erik Mårtensson, que consegue manter a agressividade natural da banda intacta enquanto adiciona peso, definição e refrãos gigantescos ao material.

A abertura não perde tempo tentando impressionar artificialmente. Beating in My Chest funciona porque entende exatamente o que um bom opener de sleaze rock precisa entregar: riffs diretos, groove imediato e um refrão construído para explodir ao vivo. A dinâmica entre baixo e bateria merece destaque especial, sustentando a música com uma pulsação quase punk enquanto as guitarras mantêm o clima perigosamente alcoólico que permeia todo o disco. O solo evita exibicionismos desnecessários e trabalha em função da música — algo raro em um estilo tradicionalmente dominado pelo excesso.

Living Out of Line mais cadenciada, a faixa mostra um lado composicionalmente mais maduro da banda. Os versos trabalham tensão de maneira eficiente antes de desembocar em um refrão extremamente acessível, sem soar genérico. O interessante aqui é como o The Cruel Intentions consegue inserir elementos clássicos do hard rock oitentista dentro de uma estrutura que carrega muito mais urgência punk do que glamour sunset strip. O solo, especialmente melódico, adiciona profundidade emocional a uma música que poderia facilmente ter se limitado ao básico.

All Hail Hypocrisy, a faixa-título representa o coração conceitual e sonoro do álbum. Existe um senso quase hínico na construção do refrão, enquanto os backings vocais transformam tudo em algo absurdamente contagiante. O trabalho de baixo é particularmente forte aqui, adicionando peso e movimento constante à composição. A influência de Erik Mårtensson aparece de forma evidente na arquitetura da faixa: cada detalhe parece calculado para maximizar impacto sem comprometer espontaneidade. A aceleração final é puro êxtase sleazy.

Triple Threat, aqui o álbum abraça sem reservas sua faceta mais agressiva. A música trafega entre hard rock clássico e punk escandinavo com naturalidade impressionante, impulsionada por um baixo absurdamente presente e guitarras que nunca param de empurrar a faixa para frente. Os backings funcionam quase como um elemento percussivo adicional, enquanto a ponte pesada antes do solo adiciona contraste suficiente para impedir que a música se torne apenas mais um exercício de velocidade. O uso de wah-wah no solo reforça o lado mais vintage da composição sem soar caricatural.

Todo grande disco de sleaze precisa de uma boa balada — mas Wasteland evita completamente os clichês açucarados do gênero. A instrumentação predominantemente acústica cria uma atmosfera intimista que expõe uma vulnerabilidade raramente vista no restante do álbum. Os vocais roucos funcionam perfeitamente dentro da proposta, enquanto as melodias demonstram um cuidado composicional muito acima da média para bandas do estilo. É uma pausa estratégica que amplia ainda mais o impacto das faixas mais explosivas.

Em When Eden Burns o álbum retorna ao território elétrico apostando em um hard rock musculoso e moderno. Existe uma influência clara do hard europeu dos anos 80 e 90, mas reinterpretada sob uma ótica mais contemporânea e menos caricatural. A condução do baixo durante os versos merece atenção especial, adicionando groove e peso simultaneamente. O refrão é gigantesco, enquanto o solo carrega doses generosas de shred sem jamais perder musicalidade.

Pseudo Genius provavelmente a faixa mais visceral do disco. O The Cruel Intentions mergulha de cabeça em uma abordagem quase street punk, lembrando em vários momentos nomes como Toy Dolls e The Hellacopters. Ainda assim, a banda preserva seu DNA melódico intacto. O resultado é explosivo: rápido, sujo, extremamente cantável e surpreendentemente técnico para algo tão agressivo.

À primeira audição, pode parecer uma das composições mais tradicionais do álbum, mas justamente aí reside sua força. Bad Addiction funciona como uma reafirmação estética do sleaze rock clássico, apostando em grooves familiares, refrões diretos e uma estrutura extremamente objetiva. O diferencial aparece novamente nos detalhes: harmonias vocais muito bem construídas e um solo que adiciona identidade suficiente para evitar qualquer sensação de repetição.

Porridge Head é uma das músicas mais interessantes do disco em termos de textura. Os vocais mais limpos criam um contraste inteligente com o restante do álbum, enquanto a bateria adiciona complexidade rítmica inesperada. O refrão carrega ecos quase sessentistas, mas reinterpretados através da sujeira punk característica da banda. É exatamente esse tipo de escolha que impede All Hail Hypocrisy de soar monotemático.

Em Whatcha Gonna Do a influência setentista aparece de forma mais explícita, especialmente nas linhas de guitarra e no trabalho de sintetizadores discretamente inseridos na mixagem. A música cresce progressivamente sem jamais abandonar o foco melódico, culminando em um dos melhores refrões do álbum. O solo é elegante, melódico e perfeitamente posicionado dentro da narrativa da faixa.

Cashed Out, o encerramento, soa como a síntese definitiva do álbum. Tudo está aqui: os coros gigantescos, a energia punk, os riffs carregados de swagger e a sensação constante de que a banda está prestes a perder o controle — ainda que nunca realmente perca. Existe algo quase autobiográfico na maneira como a faixa encerra o disco, como se o The Cruel Intentions estivesse reafirmando sua própria identidade artística diante de uma cena cada vez mais domesticada.

All Hail Hypocrisy não reinventa o sleaze rock — e felizmente nem tenta. O mérito do The Cruel Intentions está justamente em compreender que o gênero sobrevive menos pela inovação estrutural e mais pela autenticidade da entrega. O quarteto encontra o equilíbrio raro entre caos e precisão, sujeira e refinamento, nostalgia e relevância contemporânea.

Em um cenário onde muitos discos de hard rock moderno soam excessivamente calculados, All Hail Hypocrisy acerta porque transpira perigo, espontaneidade e paixão genuína pelo rock ’n’ roll. E, no fim das contas, talvez seja exatamente isso que esteja faltando para a maioria das bandas atuais.

***ENGLISH VERSION***

There’s something dangerously honest about The Cruel Intentions’ sound. While much of the new generation of sleaze rock gets lost somewhere between plasticized tributes to the ’80s and overly polished productions, the Swedish-Norwegian quartet seems to understand that the true spirit of the genre was never just about decadent aesthetics, but rather about urgency, excess, and controlled chaos. On All Hail Hypocrisy, the band delivers exactly that: a record that sounds like gasoline spilled over tube amplifiers, balancing dirt, gigantic melodies, and near-punk energy without sacrificing compositional sophistication.

Perhaps the album’s most impressive achievement is the way it avoids falling into the trap of cheap nostalgia. Yes, there are obvious echoes of Mötley Crüe, Hanoi Rocks, Backyard Babies, and even Scandinavian melodic punk, but The Cruel Intentions use those references as a language rather than a crutch. Much of that comes down to the surgical production work of Erik Mårtensson, who manages to preserve the band’s natural aggression while adding weight, clarity, and massive choruses to the material.

The opener wastes no time trying to impress artificially. Beating in My Chest works because it understands exactly what a proper sleaze rock opener needs to deliver: direct riffs, immediate groove, and a chorus built to explode live. The chemistry between bass and drums deserves special mention, holding the song together with an almost punk-like pulse while the guitars maintain the dangerously intoxicated atmosphere that permeates the entire record. The solo avoids unnecessary showmanship and serves the song itself — something surprisingly rare in a genre traditionally dominated by excess.

More restrained in tempo, Living Out of Line reveals a more compositionally mature side of the band. The verses build tension efficiently before crashing into an extremely accessible chorus without ever sounding generic. What stands out here is how The Cruel Intentions inject classic ’80s hard rock elements into a structure driven far more by punk urgency than Sunset Strip glamour. The particularly melodic solo adds emotional depth to a song that could easily have settled for simplicity.

The title track, All Hail Hypocrisy, represents the conceptual and sonic core of the album. There’s an almost anthemic quality to the way the chorus is constructed, while the backing vocals turn everything into something absurdly infectious. The bass work is especially strong here, adding both weight and constant movement to the composition. Erik Mårtensson’s influence becomes obvious in the song’s architecture: every detail feels carefully designed to maximize impact without sacrificing spontaneity. The final acceleration is pure sleaze-fueled euphoria.

With Triple Threat, the album fully embraces its most aggressive side. The track moves naturally between classic hard rock and Scandinavian punk, driven by an outrageously prominent bass performance and guitars that never stop pushing the song forward. The backing vocals almost function as an additional percussive layer, while the heavy bridge before the solo adds enough contrast to prevent the song from becoming just another exercise in speed. The wah-wah-driven solo reinforces the track’s vintage spirit without ever sounding cartoonish.

Every great sleaze record needs a proper ballad — but Wasteland completely avoids the genre’s sugary clichés. Its predominantly acoustic instrumentation creates an intimate atmosphere that exposes a vulnerability rarely heard elsewhere on the album. The raspy vocals fit the mood perfectly, while the melodies reveal a compositional care far above the average for bands operating within this style. It’s a strategic breather that ultimately makes the heavier moments hit even harder.

With When Eden Burns, the album returns to electric territory through muscular, modern hard rock. There’s a clear influence from European hard rock of the ’80s and ’90s, but reinterpreted through a more contemporary and less caricatured lens. The bass work during the verses deserves particular praise, simultaneously adding groove and heaviness. The chorus is enormous, while the solo delivers generous amounts of shred without ever sacrificing musicality.

Pseudo Genius is probably the most visceral track on the record. The Cruel Intentions dive headfirst into an almost street-punk approach, recalling bands such as Toy Dolls and The Hellacopters at various moments. Still, the band preserves its melodic DNA intact. The result is explosive: fast, dirty, highly singable, and surprisingly technical for something so aggressive.

At first listen, Bad Addiction may seem like one of the album’s most traditional compositions, but that is precisely where its strength lies. The track works as an aesthetic reaffirmation of classic sleaze rock, relying on familiar grooves, direct choruses, and an extremely objective structure. Once again, the difference lies in the details: carefully crafted vocal harmonies and a solo that adds enough personality to avoid any sense of repetition.

Porridge Head stands as one of the album’s most interesting songs in terms of texture. The cleaner vocal approach creates an intelligent contrast with the rest of the record, while the drumming introduces unexpected rhythmic complexity. The chorus carries almost ‘60s-like echoes, reinterpreted through the band’s signature punk-infused dirtiness. It’s exactly this kind of songwriting choice that prevents All Hail Hypocrisy from becoming sonically one-dimensional.

On Whatcha Gonna Do, the ’70s influence becomes more explicit, particularly in the guitar lines and the subtle synthesizer work embedded in the mix. The track grows progressively without ever abandoning its melodic focus, culminating in one of the strongest choruses on the album. The solo is elegant, melodic, and perfectly placed within the song’s narrative arc.

Closing track Cashed Out feels like the definitive synthesis of the album. Everything is here: massive gang vocals, punk energy, swagger-drenched riffs, and the constant sensation that the band is on the verge of completely losing control — even though they never actually do. There’s something almost autobiographical in the way the song closes the record, as if The Cruel Intentions were reaffirming their artistic identity against an increasingly domesticated rock scene.

All Hail Hypocrisy does not reinvent sleaze rock — and thankfully, it never tries to. The Cruel Intentions’ greatest strength lies precisely in understanding that the genre survives less through structural innovation and more through authenticity of delivery. The quartet finds a rare balance between chaos and precision, filth and refinement, nostalgia and contemporary relevance.

In a landscape where so many modern hard rock records sound excessively calculated, All Hail Hypocrisy succeeds because it radiates danger, spontaneity, and genuine passion for rock ’n’ roll. And ultimately, that may be exactly what most bands are missing today.

Jørn Veberg


Cyhra: O metal melódico abraçando o futuro (Also In English)

Reigning Phoenix Music (Imp.)

Por Flavio Borges

À medida que se aproximam de uma década de existência, os suecos do Cyhra parecem cada vez mais confortáveis em ocupar um território próprio dentro do metal moderno europeu. Nascida da união de músicos oriundos de gigantes como Amaranthe, In Flames e Kamelot, a banda sempre caminhou na delicada linha entre acessibilidade melódica e agressividade contemporânea. Em Requiem For A Pipe Dream, porém, essa identidade finalmente parece atingir seu ponto mais sólido e maduro.

Longe de simplesmente repetir a fórmula apresentada em Letters to Myself, No Halos in Hell e The Vertigo Trigger, o grupo amplia sua paleta sonora sem perder coesão. O resultado é um disco que alterna entre o metal melódico escandinavo clássico, o metal moderno carregado de elementos eletrônicos e até incursões em territórios próximos do alternative metal e do nu metal — tudo embalado por uma produção grandiosa, limpa e extremamente contemporânea.

A abertura com “Bleed With Pride” deixa claro, desde os primeiros segundos, que o álbum não pretende soar nostálgico. A base eletrônica conduz a música enquanto guitarras densas e refrões monumentais constroem uma atmosfera cinematográfica. O peso está ali, mas sempre acompanhado por melodias cuidadosamente calculadas. O solo aparece quase soterrado pela parede sonora da mixagem — escolha estética que privilegia o impacto coletivo da faixa em vez do virtuosismo individual.

Escolhida como single de divulgação, “Superman” sintetiza perfeitamente a proposta do álbum. A construção minimalista dos versos, sustentada por elementos eletrônicos e pulsação quase dançante, desemboca em um refrão enorme e imediatamente memorável. Há momentos em que a faixa flerta descaradamente com a dance music moderna, mas sem jamais abandonar a agressividade característica do grupo.

Sombria e atmosférica, “Miss Me When I’m Gone” mergulha ainda mais fundo na faceta contemporânea da banda. Os elementos eletrônicos dominam boa parte da composição, enquanto o baixo ganha protagonismo raro dentro do gênero, funcionando como eixo central entre peso e ambiência. A ausência quase total de exibicionismo instrumental revela uma banda muito mais preocupada em construir atmosfera do que em impressionar tecnicamente.

Aqui o disco muda drasticamente de direção e abraça o DNA do metal melódico escandinavo. “Ghostbound” é rápida, épica e carregada de energia, a faixa poderia facilmente dialogar com a escola clássica de Gotemburgo, ainda que os vocais mantenham uma abordagem claramente moderna. O trabalho de bateria, especialmente nos momentos de bumbo duplo, injeta intensidade quase power metal à composição. Uma das faixas mais explosivas do álbum.

A inevitável power ballad  “In The Center Of A Miracle” surge com elegância e sem excessos. Piano, voz e uma condução mais orgânica permitem que a banda explore emoção sem cair no sentimentalismo barato. O grande mérito da música está justamente na contenção: em vez de recorrer a explosões exageradas ou solos intermináveis, o Cyhra aposta em dinâmica, nuances e construção melódica. O resultado é uma das faixas mais maduras do disco.

O álbum retorna ao território moderno com agressividade renovada em “Skin From Bones”. Há influências claras de nu metal, industrial e até hip hop espalhadas pela estrutura da faixa, enquanto os teclados assumem papel central na condução rítmica. Ainda assim, o grupo jamais sacrifica o senso melódico — algo que diferencia o Cyhra de tantas bandas contemporâneas que confundem peso com excesso de ruído.

Se fosse necessário escolher uma faixa para definir o álbum, provavelmente seria  “Ghost I’m Meant To Be”. O equilíbrio entre peso moderno, ambiência eletrônica, melodias grandiosas e instrumental técnico aparece aqui de forma quase perfeita. As transições entre os versos e o refrão são particularmente eficientes, enquanto os efeitos orgânicos — incluindo batidas cardíacas — ajudam a ampliar a sensação cinematográfica da composição. O encerramento épico reforça ainda mais essa impressão.

Sem abandonar a fluidez do álbum, em  “Mark Of My Sins” a banda mergulha novamente em uma estética fortemente contemporânea. Os vocais abusam de texturas e efeitos sem comprometer a força melódica, enquanto as guitarras alternam entre riffs secos e intervenções mais atmosféricas. Talvez seja uma das faixas que mais divide opiniões entre ouvintes tradicionais e fãs do metal moderno atual.

“Venom In Me” é uma das músicas mais equilibradas do disco. As harmonias de guitarra remetem diretamente ao metal melódico clássico, mas convivem naturalmente com timbres modernos e produção atualizada. O trabalho de baixo e bateria merece atenção especial pela riqueza de detalhes e dinâmica. Existe um cuidado evidente na construção dos arranjos, evitando que a faixa se transforme apenas em mais um exercício de fórmula escandinava.

Fortemente influenciada pela fase mais moderna do In Flames, “Box With Spirits” praticamente abandona qualquer traço mais tradicional em favor de uma abordagem totalmente contemporânea. Os vocais carregados de efeitos e as guitarras densas criam uma atmosfera pesada e urbana. Curiosamente, é justamente aqui que surge um dos solos mais inspirados do álbum — breve, mas extremamente eficiente.

“Hold Your Fire” com participação de Samy Elbanna, do Lost Society, o encerramento mergulha sem medo no território do melodic death metal finlandês. As referências a Children of Bodom são inevitáveis e aparecem tanto nas linhas de guitarra quanto na agressividade dos vocais e da cozinha rítmica. É uma faixa intensa, veloz e extremamente melódica — encerramento forte para um álbum que entende perfeitamente sua proposta.

Requiem For A Pipe Dream talvez não seja um disco pensado para puristas do metal tradicional, mas dificilmente esse foi o objetivo do Cyhra. O que a banda entrega aqui é um trabalho moderno, ambicioso e cuidadosamente produzido, capaz de dialogar tanto com a nova geração do metal europeu quanto com fãs da clássica escola melódica escandinava. Mais importante: soa como uma banda plenamente consciente de sua identidade — algo que muitos grupos veteranos ainda passam a carreira inteira tentando encontrar.

***ENGLISH VERSION***

As they approach their tenth anniversary, Sweden’s Cyhra seem increasingly comfortable occupying a territory of their own within modern European metal. Born from the union of musicians connected to giants such as Amaranthe, In Flames and Kamelot, the band has always walked the delicate line between melodic accessibility and contemporary aggression. On Requiem For A Pipe Dream, however, that identity finally reaches its most confident and mature form.

Far from simply recycling the formula presented on Letters to Myself, No Halos in Hell and The Vertigo Trigger, the group expands its sonic palette without sacrificing cohesion. The result is an album that moves effortlessly between classic Scandinavian melodic metal, modern electronic-infused heaviness, and even excursions into alternative metal and nu metal territory — all wrapped in a massive, polished and unapologetically contemporary production.

Opening track “Bleed With Pride” makes it immediately clear that nostalgia is not on the agenda here. Electronic textures drive the song forward while dense guitars and towering choruses build a cinematic atmosphere. The heaviness is undeniable, but always balanced by meticulously crafted melodies. Even the solo feels almost buried beneath the wall of sound — an aesthetic choice that favors the collective impact of the track over individual virtuosity.

Chosen as the album’s lead single, “Superman” perfectly encapsulates the record’s overall vision. The minimalist verse structure, supported by electronic elements and an almost dancefloor-ready pulse, explodes into a huge and instantly memorable chorus. At times, the song openly flirts with modern dance music, yet never abandons the band’s inherent aggression.

Dark and atmospheric, “Miss Me When I’m Gone” dives even deeper into the band’s contemporary side. Electronic elements dominate much of the composition, while the bass takes on an unusually prominent role, serving as the central axis between weight and atmosphere. The near-total absence of instrumental showmanship reveals a band far more interested in mood and texture than technical exhibitionism.

Here the album takes a sharp turn and fully embraces the DNA of Scandinavian melodic metal. Fast, epic and packed with energy, “Ghostbound” could easily sit alongside the classic Gothenburg school, even as the vocals maintain a distinctly modern approach. The drumming — especially during the relentless double-kick sections — injects a near power metal intensity into the composition. One of the album’s most explosive moments.

The inevitable power ballad, “In The Center Of A Miracle”, arrives with elegance and restraint. Piano, vocals and a more organic arrangement allow the band to explore emotion without slipping into cheap sentimentality. The song’s greatest strength lies precisely in its subtlety: instead of relying on exaggerated crescendos or endless solos, Cyhra invest in dynamics, nuance and melodic construction. The result is one of the album’s most mature compositions.

The record returns to modern territory with renewed aggression on “Skin From Bones”. Clear influences from nu metal, industrial and even hip hop are woven throughout the song’s structure, while keyboards take center stage in the rhythmic framework. Even so, the group never sacrifices melody — something that separates Cyhra from many contemporary acts that mistake heaviness for sheer noise.

If one track had to define the album, it would probably be “Ghost I’m Meant To Be”. The balance between modern heaviness, electronic ambience, massive melodies and technical musicianship is executed here almost flawlessly. The transitions between verses and chorus are particularly effective, while organic sound effects — including heartbeat pulses — amplify the song’s cinematic scope. The epic finale only reinforces that impression.

Without disrupting the album’s flow, “Mark Of My Sins” once again dives headfirst into a strongly contemporary aesthetic. The vocals lean heavily on textures and effects without losing melodic strength, while the guitars alternate between sharp-edged riffs and atmospheric passages. It may well be one of the tracks most likely to divide traditional metal listeners and fans of today’s modern metal scene.

“Venom In Me” stands as one of the album’s most balanced songs. The guitar harmonies draw directly from classic melodic metal traditions, yet coexist naturally with modern tones and updated production. The bass and drum work deserve particular praise for their richness in detail and dynamic interplay. There is an obvious level of care in the arrangement, preventing the track from becoming just another Scandinavian formula exercise.

Strongly influenced by the more modern era of In Flames, “Box With Spirits” almost entirely abandons traditional elements in favor of a fully contemporary approach. The heavily processed vocals and dense guitar layers create a dark, urban atmosphere. Ironically, it is here that one of the album’s most inspired guitar solos unexpectedly appears — brief, but highly effective.

Closing track “Hold Your Fire”, featuring Samy Elbanna of Lost Society, dives fearlessly into Finnish melodic death metal territory. The references to Children of Bodom are unmistakable, surfacing both in the guitar work and in the aggressive vocal and rhythm section performance. It is intense, fast and highly melodic — a powerful conclusion to an album that understands exactly what it wants to be.

Requiem For A Pipe Dream may not be an album designed for traditional metal purists, but that was likely never Cyhra’s intention. What the band delivers here is a modern, ambitious and carefully crafted record capable of connecting equally with the new wave of European metal listeners and fans of the classic Scandinavian melodic school. More importantly, it sounds like a band fully aware of its own identity — something many veteran acts spend entire careers trying to achieve.

Linda Florin