quarta-feira, 1 de julho de 2026

De fã a ídolo: a trajetória de Chris Young no Crashdïet

Baixista detalha seu caminho até fazer parte da banda, o retorno às raízes sleaze em Art of Chaos, a estreia no Sweden Rock, as expectativas para os shows no Brasil em janeiro e muito mais

Por Thais Navarro (@_thais_navarro)

Há quase vinte anos, Chris Young já era fã de Crashdïet, gravando covers de guitarra no quarto e administrando uma comunidade de fãs da banda no Orkut. Hoje, ele é o baixista oficial do grupo sueco.

Nesta entrevista, Chris conta esse caminho em detalhes, desde o primeiro contato com a banda até a estreia no Sweden Rock Festival. A conversa também passa pelo momento atual do Crashdïet: o retorno às raízes sleaze no álbum Art of Chaos, a aproximação com os fãs nas redes sociais e a expectativa para os shows da banda no Brasil, entre outros temas.

Chris também fala sobre o Midnight Danger, seu projeto solo de synthwave, e os planos para os próximos anos.

Confira a conversa completa abaixo!

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PARTE 1 — A trajetória até entrar na banda

Conte um pouco da sua história como fã do Crashdïet até chegar e fazer parte da banda.

CHRIS: É uma história que começa há muito tempo já. São praticamente duas décadas desde que eu conheci a banda, que foi quando aconteceu a tragédia com o Dave Lepard. Eu vi uma matéria falando sobre a banda e sobre esse acontecimento. Nunca tinha escutado falar do Crashdïet antes. E a partir dessa matéria eu resolvi procurar, queria ver como era o som daqueles caras.

Eu já tinha YouTube na época. Procurei pelo nome da banda só, e na época acho que o primeiro clipe que apareceu foi Riot in Everyone. Na hora que eu vi aquele clipe, achei fantástico, porque pensei que não existiam bandas novas fazendo algo desse estilo glam que remete aos anos 80.

Me apaixonei na hora e comecei a procurar outras coisas e outros clipes. Foi aí que conheci o álbum Rest in Sleaze e fiquei encantado. E claro, foi uma tragédia o Dave Lepard ter falecido tão jovem, e naquele momento a banda nem tinha planos de continuar. Então pensei: agora que surgiu uma banda nova que faz um som que eu acho massa, com visual que eu acho massa, já acabou, infelizmente.

Mas eles decidiram continuar, e virou uma febre. Lembro que no Brasil mesmo foi uma grande febre quando o Crashdïet voltou depois e lançou o The Unattractive Revolution em 2007, e aí teve o show em 2008. Era uma cena que estava muito legal, a galera realmente curtia bastante a banda. Eu fazia parte dessa cena. Fui no show em São Paulo em 2008, e naquela época eu escutava praticamente só Crashdïet. Crashdïet era o que estava no meu MP3 player na época.

E aí, depois, aconteceu de novo: o Olli Herman saiu da banda e vieram com o Generation Wild. Nessa época, entre esses dois álbuns, eu comecei a gravar alguns vídeos tocando covers de Crashdïet na guitarra. Um dos motivos para eu fazer isso foi que eu não conseguia imaginar começar uma banda nesse estilo no Brasil, em Porto Alegre. Não conhecia pessoas que estariam dispostas a fazer algo desse gênero, principalmente por causa do visual. Eu já tinha uma banda de metal melódico, já sabia como era difícil ter uma banda. Sabia dessa dificuldade, e não conseguia imaginar encontrar pessoas dispostas a trabalhar nesse gênero.

Mas eu queria tocar isso, queria tocar alguma coisa nesse estilo. Então comecei a gravar alguns covers no quarto mesmo e postei no YouTube. Na época o YouTube não era monetizado, ninguém queria ser influencer, ninguém queria viralizar, não se falava dessa forma, não tinha esse objetivo. Coloquei os vídeos porque eu gostava mesmo, queria registrar. Era para mim, ou para de repente mostrar para alguns amigos. A gente também tinha uma comunidade no Orkut sobre o Crashdïet, que foi muito importante para o crescimento da banda no Brasil, e compartilhava esses vídeos com a galera lá que curtia a banda. Comecei gravando um, mas depois fui gravando mais alguns, durante um bom tempo — praticamente todas as músicas até o Savage Playground.

Na turnê do Generation Wild, quando a banda foi pro Brasil, ainda tinha uma hype muito grande, o show foi lotado, acho que foi sold-out, assim como o de 2008. Nessa época rolou uma campanha da galera da comunidade do Orkut mandando e-mails para a banda, pedindo para que eu tocasse uma música com eles. Isso durou, acho, o mês anterior ao show ou dois meses antes, mas eles nunca responderam ninguém, nunca me mandaram e-mail, nunca falaram nada.

Daí eu fui pro show normalmente — já iria de qualquer forma —, saí de Porto Alegre, fui para São Paulo, fui no show do Rio de Janeiro também. No final da história, eu cheguei no dia do show e pensei: "vou pra frente do hotel, parece que eles estão nesse hotel aqui." Não me lembro como fiquei sabendo, mas era pertinho do Inferno Club, em São Paulo. Fiquei esperando ali na frente porque queria tirar uma foto, dar um oi.

Aí o tour manager da época chegou e me perguntou: "Você que é o Chris Young?" Eu disse que sim, e ele falou: "Então vem comigo aqui." Na hora eu gelei: "Caramba, o que é isso?" Entrei, já estava o Eric Young ali, ele me cumprimentou, já sabia quem eu era. E ele falou que eu ia tocar uma música com eles — eles tinham curtido a ideia, ouvido os meus covers. Eu não acreditava que aquilo ia acontecer.

Foi muito legal, muito massa. Tinha um casal de amigos com a gente lá e eles também ficaram sem acreditar. Depois saí dali e fui pro Inferno Club, a gente se encontrou no backstage e combinamos tudo - eles foram muito legais comigo. E aí rolou! Eu toquei Tikket com eles no show, foi muito massa mesmo. Eu nem imaginava que aquilo tinha acontecido de verdade.

A partir dali a gente acabou mantendo a amizade, e eu ajudei bastante em questão de merchandise para o Brasil. Então acabei mantendo bastante contato com eles por causa disso.

Depois eu vim para a Suécia em 2012, de férias, inclusive assisti o Crashdïet com o Mötley Crüe e o Hardcore Superstar. A gente se encontrou de novo, e quando a banda foi pro Brasil outras vezes a gente sempre se encontrava — eu ajudava em algumas coisas dos shows. Sempre foi muito bacana.

Depois eu me mudei para a Suécia em 2015 — aí o Simon Cruz já tinha saído da banda — e a gente permaneceu amigo por esse tempo todo. Quando eu me mudei pra cá, eles também estavam com esse problema, o Simon não estava mais na banda, precisavam de um vocalista, e a cena toda estava meio em baixa por aqui. Eu queria encontrar alguma banda aqui também, e foi muito difícil — não foi só o Crashdïet que teve a baixa e ficou sem o Simon, várias bandas pararam de tocar nessa época.

Comecei minha banda solo, meu projeto solo, o Midnight Danger, que é dentro do synthwave. E a coisa foi funcionando muito bem, o que eu nem imaginava. Foi um projeto que comecei totalmente por hobby, por gostar de sintetizadores e trilha sonora dos anos 80. Pensei: "vou fazer isso por hobby enquanto não encontro uma banda." E no final se tornou meu projeto principal.

Até que eu tive contato com o pessoal da Lipz, que estava lançando o Scaryman em 2018 e precisava de um baixista. Entrei em contato com eles e vi que estavam voltando para um estilo mais sleaze/glam. Entrei na banda, a gente fez bastante coisa junto. Foi minha primeira experiência como baixista. Eu entrei quando o álbum já estava pronto; fizemos shows na Suécia e fora, e gravamos juntos o álbum Changing the Melody. No final, por questão de prioridades, acabei saindo da Lipz, numa época em que o Midnight Danger estava prestes a sair em turnês.

Até que, no ano passado, eu recebi uma ligação do Martin Sweet. O que aconteceu foi que a banda tinha um show na Alemanha num sábado — ele me ligou numa quarta-feira — e o Peter London teve um problema de saúde. Ele estava sem condição de fazer aquele show, e a banda ficou pensando: "e agora, o que a gente faz? A gente cancela?" Mas com tantosaltos e baixos na própria carreira do Crashdïet, era muito chato ter que cancelar mais um show — claro, mais uma tragédia, o Peter London no hospital, sem poder fazer o show, mas pra eles foi péssimo ter que lidar com mais um cancelamento, que já tinha acontecido por diversos motivos durante os anos.

Ele me perguntou se eu teria condições de substituir o Peter nesse show de sábado, na Alemanha. Além da amizade, eu sempre fui muito fã da banda, então topei. Eles já tinham me chamado outras vezes. No ano anterior, o próprio Peter me ligou pedindo para substituí-lo. Só que, no dia seguinte daquela ligação, eu estava saindo em turnê com o Midnight Danger e não pude. Outra vez anterior eu topei fazer, mas eles optaram por cancelar os shows por questões de logística.

Então, eu já tinha sido chamado antes. Dessa vez, quando o Martin me chamou, eu falei: "Tô dentro, pode contar comigo." Perguntei: "O show é sábado, é? Quantas músicas?" — "12 músicas." Tudo bem, ele mandou o setlist. Eu já conhecia boa parte das músicas, sabia tocar por causa dos covers de guitarra, mas era na guitarra, não no baixo. Só que ele falou:"a gente vai ter um ensaio para esse show, e é hoje à noite."

Eram 11 da manhã. Peguei o baixo, peguei as músicas, comecei a ensaiar como me lembrava delas na guitarra, mas já transcrevendo para o baixo. Pensei: "já sei a base das músicas, agora vamos ver como elas funcionam ao vivo, como é realmente no baixo." Em questão de cinco horas passei as 12 músicas e vi mais ou menos como funcionava. Pensei: "vamos conseguir ensaiar hoje à noite, e tenho mais três dias até o show para alinhar isso."

Fui pro ensaio, e eles estavam numa bad vibe, o que eu entendo perfeitamente. Mas eu estava pilhado, querendo fazer a coisa acontecer. Eu voltei pra casa empolgado, alinhei o que precisava nos dias seguintes. Fomos pra Alemanha, fizemos o show no festival, e foi um show animal, muito massa, muito legal. Notei que a vibe deles já tinha mudado um pouco — eles estavam chateados com a situação, mas, no momento que fizemos esse anúncio oficial (de que eu substituiria o Peter), o ânimo mudou; fomos fazer o show todo mundo empolgado, e a gente se deu muito bem.

A gente já tinha essa amizade há muitos anos, mas com o John Elliot foi a primeira vez que tive de fato esse tipo de experiência — o ensaio e o show foram a primeira vez que encontrei ele pessoalmente. O Michael Sweet eu já tinha encontrado algumas outras vezes; ele até fez uma participação em um vídeo do Midnight Danger, mas a gente nunca tinha saído pra tomar uma cerveja ou algo assim. No final a gente se deu muito bem, foi muito bacana a viagem toda. Fizemos um show animal, e voltei pra casa realizado.

Aconteceu que, dali a cinco dias, tinha o show de aniversário do Crashdïet, de 20 anos do Rest in Sleaze. E eu já ia tocar nesse show como abertura, com o Midnight Danger. Eles me falaram, nessa viagem e logo que voltamos, nos primeiros dias: "o Peter não está bem mesmo, talvez ele tenha que passar mais um tempo no hospital. Talvez a gente precise da sua ajuda nesse show, porque senão é isso ou cancelar o evento." E para eles teria sido uma tragédia muito grande cancelar esse show — seria mais um cancelamento dentre tantos que já aconteceram por diversos motivos, mas de um show extremamente importante. O show estava sold-out, e tinham pessoas vindo de todos os lugares — do Japão, do Brasil, dos Estados Unidos, de vários lugares da Europa. Cinco dias antes, cancelar o show significaria lidar com reembolsos de muita gente vindo de longe. No final, em conversas que tivemos depois, fora desse contexto, eles me disseram: "isso poderia ter sido o fim da banda se a gente tivesse cancelado esse show". Então eles me convidaram para fazer esse show e eu topei.

Foi um dos shows mais importantes da carreira da banda: um show esgotado em Estocolmo, depois de anos de altos e baixos, fazer um show esgotado em casa, com pessoas vindo de todo lugar, celebrando 20 anos do álbum da banda — aquele álbum que eu escutei lá atrás, com o qual comecei essa história, e que é extremamente importante não só pra banda, mas para toda a cena. É o álbum que redefiniu o que é o sleaze a partir dos anos 2000.

Foi um dos shows mais importantes da carreira da banda. Fizemos esses shows juntos e tudo foi muito massa. Eles se divertiram, eu me diverti, a gente se deu muito bem e todo mundo ficou muito feliz. As famílias deles também estavam lá vendo os shows, ficaram muito felizes, apoiaram.

Toda essa experiência foi muito legal. Eu fico nervoso antes de shows às vezes, e imaginaria que esse seria um show em que ficaria extremamente nervoso, mas estava super confortável no momento em que subi no palco. Eu tinha um pouco de receio do que as pessoas iam achar, porque, enfim, eu era um cara de fora da banda — talvez quisessem ver a formação clássica. Mas no momento em que subi no palco, com a galera gritando e festejando, pensei: "estou confortável, sei exatamente o que tenho que fazer", e o show simplesmente fluiu. Foi muito massa.

Depois desses shows, fui em turnê com o Midnight Danger. Quando voltei, continuei conversando com o Martin sobre shows, sobre material do Rest in Sleaze que ainda não tinha sido divulgado. E ele disse: "a gente precisa conversar." Um dia eu estava mais perto de Estocolmo e acabei indo na casa dele. Eles me colocaram a situação da banda naquele momento, com o Peter lidando com questões pessoais. E me perguntaram se eu tinha interesse em entrar na banda. Recebi esse convite já que todos tinham concordado, inclusive o Peter, de que ele precisava se afastar da banda por um tempo, e perguntaram se eu tinha interesse de substituí-lo. Eu abracei a oportunidade.

E desde então tenho feito o meu melhor com a banda, e faço isso com muito orgulho, muito amor também, porque eu adoro demais tudo isso. É uma longa história, mas eu não consigo resumir mais do que isso.

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PARTE 2 — Rebranding, redes sociais, Art of Chaos, Sweden Rock e os shows no Brasil

Você comentou que postava vídeos antigamente, e desde que você entrou na banda, temos notado um rebranding nas redes sociais, uma aproximação maior com os fãs, uma frequência de postagens maior. Como tem sido isso?

CHRIS: Acho que a primeira coisa que a gente conversou a respeito disso foi sobre a cara que a gente queria dar pro álbum, pra essa fase da banda, pro Art of Chaos. A gente conversou isso inclusive junto com o pessoal da gravadora. E naquele momento a gente alinhou — já dava pra imaginar que seria esse o caminho — mas falamos explicitamente: a ideia da banda agora é um retorno às raízes.

E você consegue sacar isso no álbum. Lembro de quando escutei as músicas pela primeira vez, as demos, e eu senti na hora: "isso é Crashdïet raiz". Muita coisa se perdeu no meio do caminho — teve muita coisa boa também, óbvio, mas com o tempo a formação muda, entra-se numa rotina de gravadora, de lançamentos, de turnês, e algumas coisas se perdem. A gente precisava resgatar isso.

Pra mim foi absurdamente natural concluir isso, porque foi ali que eu conheci a banda, foi ali que me apaixonei por ela. É o que eu mais gosto do Crashdïet, essa identidade sleaze/glam. A gente conversou sobre isso: tudo que a gente fizer daqui pra frente vai ter essa identidade de novo, e as pessoas precisam ver isso — precisam escutar isso nas músicas e precisam ver isso.

Hoje em dia, tem que estar presente em mídia social, não tem jeito. Eu entendo que é trabalhoso, que demora — mas a gente precisava mostrar isso pros fãs. Isso me lembrou muito também a época da comunidade do Orkut — era uma comunidade de fãs, e a banda bombou no Brasil por causa dela. Eu era o "dono" da comunidade (não fui eu que a criei, mas depois eu a assumi). Lembro como foi legal construir essa comunidade de fãs no Brasil.

Então uniu tudo isso. É difícil falar que esses conteúdos remetem ao início da banda, porque no início não existiam reels no Instagram, mas a gente consegue mostrar essa ideia — que a banda está unida, que tem essa identidade.

E, como eu já tinha feito esse trabalho com a comunidade do Orkut, eles também viram que, durante a turnê do H.E.A.T, eu postava bastante. Acharam legal e confiaram em mim pra fazer isso. Mas a gente também faz bastante coisa junto. A gravadora também incentivou.

E se a vibe na banda estivesse ruim, se as coisas não estivessem legais, se todo mundo estivesse fazendo tudo por obrigação, também não ficaria bom, não teria essa comunicação com os fãs. Mas estão todos muito bem entrosados, confortáveis com o trabalho de todo mundo, empolgados, e a gente quer comunicar isso pros fãs — e a rede social é o melhor jeito de fazer isso hoje em dia.

Como você tem sentido a recepção do álbum novo?

CHRIS: Incrível. Lembro quando a gente começou a conversar com a gravadora sobre lançar o álbum em vinil e em CD e havia aquela incerteza: será que vai o álbum vai vender bem? Será que as pessoas vão gostar? Será que vão aceitar mais uma mudança de formação na banda? Porque, antes de começar a liberar esse material, teve que vir também o comunicado oficial de que o Peter estava se afastando. Naquele momento eu já imaginava que poderia haver alguma reação negativa dos fãs, mas não lembro de ver um único comentário negativo sobre isso.

Naquele momento, já na primeira foto que divulgamos, acho que as pessoas conseguiram captar: "eles estão voltando com tudo mesmo, voltando pras origens." Aquilo já deu mais confiança sobre como seria a recepção das músicas. Depois saiu "Satizfaction", e acho que foi a prova de que precisávamos: "realmente essa banda está de volta." Depois vieram os outros singles, claro, mas naquele momento, com o vídeo de "Satizfaction" e a música, deu pra ver que uma galera que já tinha meio que abandonado a banda voltou e começou a participar de novo, comentar, compartilhar, escutar. A gente viu isso no número de ouvintes e nas vendas de álbum — mesmo sem ter sido lançado ainda, ele já estava esgotado.

No primeiro single a gente já conseguiu provar que a banda ainda tinha muita qualidade, que estava voltando, resgatando uma energia que tinha meio que se perdido, e deu pra ver que as pessoas gostaram. Depois que o álbum saiu, isso só se confirmou. Dá pra ver isso nos shows — fizemos o show do Sweden Rock Festival e, depois, compartilhando material de lá, a resposta que a gente tem em cada música nova, cada vez que compartilhamos algo, está sendo muito bacana mesmo. As pessoas estão na expectativa dos shows. Acho que essa é uma resposta positiva dos fãs para essa formação e para esse álbum.

E como foi para você tocar no Sweden Rock Festival?

CHRIS: Foi absurdamente emocionante. Eu nunca tinha ido ao Sweden Rock. Vim pra Suécia em 2012 e eu preferi não ir — fui ver o Mötley Crüe com Crashdïet e Hardcore Superstar na Finlândia. Tinha que escolher, não dava pra fazer as duas coisas na época. Depois voltei pro Brasil, e em 2015 me mudei pra Suécia. Em 2015, foi muito aperto pra mudar pra cá, e não deu certo ir também. No ano seguinte também não. Em 2017, pensei: "a gente podia ter ido esse ano", mas tinha que ter planejado antes, porque não tinha mais ingresso, não tinha mais hotel — "quem sabe no ano que vem."

E foi indo assim, até que chegou um momento em que falei: "quer saber, eu vou pro Sweden Rock no dia em que eu tocar no Sweden Rock." E eu não sabia nem com qual banda seria — podia imaginar até com o próprio Midnight Danger, porque a gente tem feito shows com bandas de metal e tocado em festivais de metal.

Foi isso que eu tinha determinado. Mas olha: algum tempo atrás, mesmo há um ano, eu não sonharia que dessa vez eu realmente iria realizar isso — tocar pela primeira vez no Sweden Rock, e com o Crashdïet. Foi realmente muito emocionante, e a gente pegou um horário bom, num dia legal — foi o último dia do festival, headliner de um dos palcos, e tinha muita gente lá, estava lotado. Podia ter acontecido de as pessoas não se interessarem em ver a banda, se o álbum não tivesse sido legal, se a energia não tivesse sido boa. Mas o pessoal foi lá e ficou o show inteiro.

Foi sensacional. Eu nunca tinha tocado para um público tão grande, nunca tinha visto aquela cena na minha frente. É especial, é uma lembrança para sempre. Muita emoção — me emocionei bastante depois do show.

Onde você busca suas referências musicais no geral, tanto pro Crashdïet quanto pra todos os seus projetos? Tem outras formas de arte que te inspiram, que contribuem com seus processos criativos?

CHRIS: Acho que principalmente filmes — minha resposta tem mais a ver com o Midnight Danger mesmo, uma resposta mais direta. Você identifica isso mais diretamente no Midnight Danger, porque ele é baseado em trilhas sonoras de jogos e de filmes. Mas eu não faço isso de forma planejada, do tipo "vou buscar referências aqui ou ali." Simplesmente acontece. Eu vejo coisas, escuto coisas que me deixam motivado, que me colocam num estado de espírito que resulta numa música, às vezes numa melodia.

Por exemplo, filmes já têm suas trilhas sonoras, mas não é bem isso — é a ambientação do filme. Não é eu olhar um filme e pensar "essa música aqui me inspira a fazer uma música."

É mais: o que esse filme me remete, como eu me sinto com relação a ele. Muitas vezes, eles criam uma atmosfera que me deixa inspirado. Por exemplo, o inverno aqui é muito frio e escuro. No meio da tarde já está escurecendo, tem aquelas luzes mais amareladas, e isso cria uma vibe. É meio difícil de explicar, mas tenho inspirações que vêm das coisas mais variadas.

Normalmente começo por uma melodia; depois que tenho a primeira melodia, o resto é construído a partir dela, e aí desconecta um pouco da inspiração original. Mas, em geral, são coisas variadas, de forma totalmente espontânea — às vezes uma lembrança de infância: viajando de carro com a família, com sono, deitado no banco de trás, tudo escuro, meu pai escutando música com um cigarro aceso. Isso cria uma ambientação, e eu penso em alguma coisa. É meio que por esse lado.

Eu queria falar um pouco agora sobre os shows no Brasil no ano que vem — é a primeira vez que você vai tocar aqui realmente como parte da banda. Como tem sido isso pra você? Quais são suas expectativas pros shows aqui e na Argentina?

CHRIS: Vai ser uma honra fazer esses shows com o Crashdïet no Brasil. É um lugar muito especial pra banda, e é de onde eu vim. Foi no Brasil que a gente construiu essa comunidade, foi no Brasil que tudo isso começou para mim. Então é importante pra banda — pra eles tem um significado —, mas o significado pra mim é muito maior. Foi no Brasil que eu conheci a banda, foi no Brasil que eu cresci, que eu comecei a tocar guitarra e conheci boa parte das pessoas dessa cena.

Estou muito empolgado, muito honrado. Acho que, de todos os shows que a gente tem pela frente agora, esses do Brasil e da Argentina são os que eu estou com a maior expectativa de fazer. Não estou muito satisfeito em fazer esses shows em janeiro por causa do verão — é muito, muito calor. E calor com cabelo armado, maquiagem, corrente, tudo mais, e botas, é um pouco difícil. Essa parte é a que está me pegando um pouco, mas fora isso estou muito entusiasmado mesmo. Nunca fui pra Argentina, e ouvi dizer que o público lá também é muito massa.

Para fechar, uma pergunta mais aberta: quais são os seus planos pro futuro?

CHRIS: São duas dinâmicas diferentes pro Midnight Danger e pro Crashdïet. O Crashdïet já está com o novo álbum lançado, a gente já tem essas turnês, já está tocando em festivais. Imagino que, daqui pra frente, vai ser mais desse processo — a gente quer pegar shows maiores, festivais. Acho que o Sweden Rock provou que a gente pode tocar em qualquer festival de rock/metal do mundo e ter um bom resultado de público, ter uma apreciação das pessoas que estão lá.

A curto prazo, a gente vai ensaiar mais, vai colocar mais músicas no repertório, pra poder trabalhar melhor com ele. O objetivo é fazer essas turnês bem-sucedidas, marcar mais shows e tocar em festivais. Em algum momento a gente vai pensar num novo álbum — já falamos sobre isso. Mas acho que, com o Crashdïet, hoje é isso: vamos promover o Art of Chaos, fazer o máximo que a gente conseguir com esse álbum. Acho isso importante.

Com o Midnight Danger, por enquanto, tenho escolhido não marcar shows pra cumprir esses compromissos com o Crashdïet, mas isso já aconteceria normalmente, porque preciso produzir um novo álbum — assinei contrato com uma gravadora. E é uma gravadora de metal — o Midnight Danger estava assinado com uma gravadora de synthwave, retrowave, especializada nessa cena. Porém, nesses últimos dois anos, tenho feito shows com bandas de metal, festivais de metal, e foi meio que o caminho natural esse público e pessoas do music business desse ramo do metal olharem pro Midnight Danger, chamarem atenção, e recebi uma proposta que achei bem interessante.

Meu objetivo agora, também sem pressa porque precisa ser um material de qualidade, é produzir esse novo álbum com o Midnight Danger, finalizá-lo. Não tenho pressa pra fazer isso acontecer, porque o que importa pra mim é a qualidade. Preciso que o álbum, assim como os anteriores, comunique aquilo que eu sinto com relação ao synthwave, ao retrowave, e todo esse processo de composição musical que a gente estava falando antes — preciso estar alinhado com isso também.

Depois que esse álbum estiver lançado, pretendo sim fazer turnês com ele. Acho que lançar esse álbum com um selo de metal vai abrir portas para mais shows e festivais de metal. E, nesse meio do caminho, tenho feito shows com Crashdïet, conhecido pessoas dessa cena, e as pessoas dessa cena têm me conhecido um pouco melhor.

As coisas vão se alinhar. Não pretendo deixar nada para trás, só pretendo organizar tudo pra dar o passo certo com cada projeto. Então é isso: estou muito feliz, muito contente com tudo que está acontecendo nos dois projetos e com tudo que a gente tem planejado pra eles.

The Pretty Reckless: O Ciclo da Redenção (Also In English)

Fearless Records (Imp.)

O Fim e o Recomeço Coexistem em Dear God

Por Michelle F. Santana 

Cinco anos após Death by Rock and Roll, o The Pretty Reckless retorna com Dear God, seu quinto álbum de estúdio. Formada em 2009, em Nova York, a banda é composta por Taylor Momsen (vocal), Ben Phillips (guitarra), Mark Damon (baixo) e Jamie Perkins (bateria). Ao longo da carreira, o quarteto consolidou uma identidade que mistura hard rock, rock alternativo, blues rock e elementos de grunge, equilibrando riffs marcantes, refrãos melódicos e letras que exploram conflitos existenciais, espiritualidade e a natureza humana.

Produzido por Jonathan Wyman em parceria com Taylor Momsen e Ben Phillips, Dear God aprofunda essa proposta ao apresentar um conceito centrado em temas como mortalidade, culpa, fé, redenção e transformação. O principal eixo narrativo está na trilogia Life Evermore, cujas partes aparecem propositalmente fora da ordem cronológica — II, III e I. A escolha rompe a linearidade da narrativa e convida o ouvinte a reconstruir sua própria interpretação, sugerindo que o fim, o recomeço e a evolução coexistem dentro do mesmo ciclo.

Do ponto de vista instrumental, o álbum mantém a sonoridade que o The Pretty Reckless vem aperfeiçoando nos últimos trabalhos. Ben Phillips entrega riffs sólidos e melodias bem construídas, alternando peso e atmosfera sem recorrer ao excesso de virtuosismo. A cozinha formada por Mark Damon e Jamie Perkins sustenta as composições com firmeza, oferecendo uma base consistente que permite às guitarras e aos vocais ocuparem o protagonismo. A produção é limpa, encorpada e moderna, preservando a energia do grupo sem comprometer a dinâmica das músicas.

Taylor Momsen continua sendo o grande destaque. Sua interpretação transita naturalmente entre momentos de vulnerabilidade e explosão, imprimindo intensidade às composições sem depender apenas da potência vocal. Sua evolução como intérprete fica evidente na maneira como conduz cada faixa, adaptando a voz às diferentes atmosferas propostas pelo disco.

Entre os destaques está "For I Am Death", uma das faixas mais pesadas do álbum. Com riffs marcantes, clima sombrio e uma interpretação intensa de Momsen, a música representa um dos momentos de maior impacto e sintetiza a faceta mais obscura do trabalho.

Na sequência, "When I Wake Up", escolhida como um dos singles e acompanhada por um videoclipe, apresenta uma energia completamente diferente. Com forte influência de punk rock, a faixa aposta em guitarras rápidas, andamento acelerado e um refrão extremamente acessível. Seu espírito despretensioso e contagiante faz dela uma das músicas mais divertidas do álbum, oferecendo um contraste bem-vindo em meio às composições de atmosfera mais densa.

"Love Me" surge como um dos momentos mais delicados de Dear God. Funcionando quase como uma power ballad, a faixa desacelera o ritmo sem abandonar o peso característico da banda, privilegiando a construção emocional e permitindo que Taylor Momsen entregue uma de suas interpretações mais sensíveis do disco.

Já "Dear God", faixa-título, resume boa parte da proposta conceitual do álbum. Com uma construção mais atmosférica e contemplativa, a música explora questionamentos sobre fé, culpa e redenção, encerrando o trabalho de forma coerente com a narrativa apresentada ao longo da audição.

Comparado a álbuns como Going to Hell e Death by Rock and Roll, Dear God não busca reinventar a identidade do The Pretty Reckless. Pelo contrário, reforça a fórmula que consolidou a banda como um dos principais nomes do rock contemporâneo, refinando elementos já conhecidos e investindo mais na atmosfera e na construção conceitual do que em mudanças significativas de direção.

Dear God é um álbum consistente, sustentado por uma produção competente, interpretações marcantes e um conceito narrativo que desperta curiosidade do início ao fim. A decisão de apresentar a trilogia Life Evermore fora da ordem cronológica demonstra ambição artística e acrescenta uma camada extra à experiência do ouvinte.

Ainda assim, quando a atenção se volta exclusivamente para a música, o disco dificilmente transmite a sensação de estar diante de um novo capítulo na trajetória da banda. Em vez de romper com a própria fórmula, o The Pretty Reckless prefere aperfeiçoá-la, entregando um trabalho seguro, coeso e tecnicamente impecável.

Essa escolha certamente agradará aos fãs, mas também levanta uma questão inevitável: até que ponto permanecer fiel à própria identidade deixa de ser uma demonstração de consistência e passa a limitar a capacidade de surpreender? Dear God não responde a essa pergunta. Em vez disso, reafirma que o The Pretty Reckless domina sua própria linguagem - ainda que, desta vez, tenha preferido caminhar por terrenos já familiares.

***ENGLISH VERSION***

The End and the Beginning Coexist on Dear God

Five years after Death by Rock and Roll, The Pretty Reckless returns with Dear God, its fifth studio album. Formed in 2009 in New York, the band consists of Taylor Momsen (vocals), Ben Phillips (guitar), Mark Damon (bass), and Jamie Perkins (drums). Throughout its career, the quartet has forged a distinctive identity that blends hard rock, alternative rock, blues rock, and grunge influences, balancing memorable riffs, melodic choruses, and lyrics that explore existential conflict, spirituality, and human nature.

Produced by Jonathan Wyman alongside Taylor Momsen and Ben Phillips, Dear God expands on that foundation with a concept centered on mortality, guilt, faith, redemption, and transformation. The album's central narrative revolves around the Life Evermore trilogy, whose three chapters are deliberately presented out of chronological order—Part II, Part III, and finally Part I. This choice disrupts the story's linear progression and invites listeners to construct their own interpretation, suggesting that endings, new beginnings, and personal growth coexist within the same cycle.

Instrumentally, the album continues the sound that The Pretty Reckless has refined over its last few releases. Ben Phillips delivers solid riffs and carefully crafted melodies, balancing heaviness with atmosphere without relying on excessive virtuosity. The rhythm section, anchored by Mark Damon and Jamie Perkins, provides a steady, confident foundation that allows the guitars and vocals to remain at the forefront. The production is clean, full-bodied, and modern, preserving the band's raw energy while maintaining the songs' dynamic range.

Taylor Momsen remains the album's undeniable centerpiece. Her performance moves effortlessly between vulnerability and explosive intensity, bringing emotional weight to the material without depending solely on vocal power. Her growth as a vocalist is evident in the way she shapes each song, adapting her delivery to match the diverse moods explored throughout the record.

Among the highlights is "For I Am Death," one of the album's heaviest tracks. Driven by crushing riffs, a dark atmosphere, and one of Momsen's most commanding performances, it stands as one of the record's defining moments and perfectly captures its darker side.

Next comes "When I Wake Up," released as one of the album's singles and accompanied by a music video. It offers a completely different kind of energy, drawing heavily from punk rock with its fast-paced guitars, driving rhythm, and irresistibly catchy chorus. Its carefree, infectious spirit makes it one of the album's most entertaining songs, providing a welcome contrast to the record's more introspective and brooding moments.

"Love Me" emerges as one of Dear God's most delicate compositions. Functioning almost as a power ballad, it slows the pace without abandoning the band's signature weight, favoring emotional development and allowing Taylor Momsen to deliver one of her most heartfelt vocal performances on the album.

The title track, "Dear God," encapsulates much of the album's conceptual vision. Built around a more atmospheric and contemplative arrangement, it wrestles with questions of faith, guilt, and redemption, bringing the record to a close in a way that feels both coherent and emotionally satisfying.

Compared to albums such as Going to Hell and Death by Rock and Roll, Dear God makes no attempt to reinvent The Pretty Reckless' identity. Instead, it reinforces the formula that established the band as one of modern rock's leading acts, refining familiar elements while placing greater emphasis on atmosphere and conceptual storytelling rather than pursuing a dramatic stylistic shift.

Dear God is a cohesive album, supported by strong production, compelling performances, and a narrative concept that sustains the listener's curiosity from beginning to end. Presenting the Life Evermore trilogy out of chronological order is an ambitious artistic decision that adds another layer to the listening experience.

Even so, when the focus shifts solely to the music itself, the album rarely feels like a truly new chapter in the band's evolution. Rather than breaking away from its established formula, The Pretty Reckless chooses to refine it, delivering a record that is confident, cohesive, and technically accomplished.

That decision will undoubtedly satisfy longtime fans, but it also raises an inevitable question: at what point does remaining faithful to one's identity stop being a sign of consistency and start limiting the ability to surprise? Dear God never attempts to answer that question. Instead, it reaffirms that The Pretty Reckless has mastered its own musical language—even if, this time, it chooses to walk along familiar ground.

Divulgação 





segunda-feira, 29 de junho de 2026

Cobertura de Show: Slayer Tribute Project (feat. Marcello Pompeu) – 05/06/2026 – Clay Highway Bar/CWB

 Marcello Pompeu reúne bandas de Curitiba em tributo eletrizante ao Slayer

Noite de sexta-feira no Clay Highway bar, reduto dos headbangers mais fiéis de Curitiba, teve a honra de sediar o Slayer Tribute Project. A iniciativa do tributo é de ninguém menos do que Marcello Pompeu, da banda Korzus, que dispensa apresentações, com seu Thrash Metal raiz e porta-voz das hordas brasileiras do metal pesado. A intenção de Marcello, em suas próprias palavras, é reunir músicos e bandas locais de cada cidade brasileira onde o show Slayer Tribute Project acontecerá. Como deixou claro o músico, é preciso valorizar a música brasileira e os artistas que, em sua maioria, cresceram ouvindo Slayer e também Korzus. Então, por que não homenagear este petardo mundial chamado Slayer, abrindo espaço para os novos talentos locais?

E foi a partir desta ideia que os shows estão ocorrendo. Da melhor forma possível, a sinergia entre os vários músicos é fenomenal, afinal, quem não destilava um "Reign in Blood" nos ensaios de garagem quando adolescente? Aqui em Curitiba, esta prática era muito comum, palavra de quem já vivenciou esta onda há algumas primaveras. Inclusive, minha favorita era "Seasons in the Abyss", que amigos de adolescência tocavam em todos os ensaios, e infelizmente, esta nunca consegui tocar direito.

Para iniciar a noite, contamos com a presença da banda King Nothing - Metallica Tribute de Curitiba, uma das melhores em executar os clássicos do Metallica, com uma pegada original entre uma passagem e outra. Simplesmente fenomenal: você fecha os olhos e escuta James Hetfield e companhia. Foi um ótimo aquecimento para a noite, inclusive o lugar teve uma aglomeração quase instantânea quando a banda começou a tocar.

Bom, falemos também de Korzus, nossos representantes do Thrash Metal brasileiro, o orgulho do headbanger. Portanto, nada mais justo do que serem executadas algumas canções da banda durante o show, como "Discipline of Hate", e que loucura foi aquilo! Ficou impossível permanecer na frente do palco, tamanha alegria em forma de mosh dos fãs. Destaque também para Pompeu, que dominou o público com uma simpatia e simplicidade raras nos dias de hoje, revelou até a idade, disse estar no auge de seus 60 anos, parabéns ao mestre pela boa forma! O vocalista exaltou todos os músicos curitibanos, pois, mesmo sem tantos ensaios, arrasaram o palco do Clay.

Diretamente da capital mais fria do país, participaram da noite Geert na guitarra e Pettrus na bateria, ambos feras do Atrocitus, que recentemente abriram para o In Flames na Ópera de Arame. Também somam ao time os excelentes Victor no baixo e Pedro também nas guitarras, músicos da banda Royal Rage, que vem se destacando na cena nacional e internacional. A sinergia com todos eles foi mágica; logicamente, houve alguns pequenos erros, mas nada que atrapalhasse o espetáculo. Foi mágico e insano ao mesmo tempo.

Por fim, foi uma oportunidade rara ver tantos músicos de diferentes idades e formações arrasando juntos em prol da boa música pesada e em homenagem ao Slayer e, por que não, ao Korzus, que influenciou muitos deles a seguir a carreira musical. Esperamos mais atitudes e projetos nestes moldes, e com certeza, o público vai comparecer em hordas. Meus agradecimentos à produção do evento e às bandas de Curitiba que nos proporcionaram cobrir este evento único.


Texto: Paula Butter - @paulabutter.rocks / Fotos: Vladimir Silverio - @vladi.metal

Cobertura de Show: Man With a Mission – 27/05/2026 – Carioca Club/SP

Há bandas que demoram anos para finalmente cruzar oceanos e encontrar um público que, curiosamente, já as aguardava de braços abertos há muito tempo. Foi exatamente essa sensação que pairou no ar durante a aguardada estreia do Man With a Mission em território brasileiro. Em sua primeira visita ao país, os japoneses se apresentaram no Carioca Club, em São Paulo, promovendo uma celebração intensa de rock, anime e energia, marcada por uma interação constante com o público. Última parada da turnê latino-americana, o show teve gosto de conquista tanto para a banda quanto para os fãs, que responderam com um calor humano digno de uma ocasião histórica.

Formado em 2010, o Man With a Mission construiu uma identidade bastante singular dentro do rock japonês contemporâneo. Misturando hard rock, nu metal, pop punk, eletrônica, rap rock e J-rock, o grupo rapidamente ganhou notoriedade por unir refrãos explosivos, produção moderna e forte presença na cultura pop japonesa, especialmente por meio de trilhas para animes como Demon Slayer, Log Horizon, Vinland Saga e The Seven Deadly Sins. Mas existe também o elemento visual que os tornou instantaneamente reconhecíveis: cinco músicos com corpos humanos e cabeças de lobo.

Segundo a própria mitologia criada pela banda, os integrantes seriam "lobos supremos geneticamente modificados", despertados de um longo sono pelo cientista maluco Dr. Jimi. Entre os personagens estão Tokyo Tanaka (vocalista principal), Jean-Ken Johnny (guitarra, vocais e rap), Kamikaze Boy (baixo), DJ Santa Monica (DJ/programações) e Spear Rib (bateria). Uma proposta que poderia facilmente cair em um truque vazio, mas que, ao longo dos anos, foi sustentada por um catálogo consistente e performances extremamente competentes.

A abertura com “Vertigo” já mostrou um Carioca Club completamente entregue. Sem qualquer tipo de resistência, o público paulista abraçou imediatamente o peso moderno da banda, cantando, pulando e respondendo aos comandos vindos do palco. “Dark Crow” aprofundou a atmosfera energética, enquanto “Get Off of My Way” trouxe riffs pesados, além de muito groove, conquistando uma resposta impressionante do público.

Um dos primeiros grandes momentos da noite veio com “Thunderstruck”, clássico do AC/DC. Antes de tocar a introdução icônica, o vocalista anunciou orgulhosamente: "Nós somos o Man With a Mission do Japão, e esta é nossa primeira vez no Brasil!". Em seguida, lembrou que São Paulo recebia o último show da turnê latino-americana e lançou a pergunta que incendiou os fãs: “Vocês estão prontos, São Paulo?”. A resposta veio em forma de gritos ensurdecedores, preparando o terreno para uma versão poderosa do clássico australiano.

“REACHING FOR THE SKY” e “database” mantiveram a adrenalina elevada, esta última recebida quase como um hino pelos fãs ligados ao universo dos animes. Já em “Dead End In Tokyo”, o clima ficou mais emocional quando Jean-Ken Johnny fez questão de agradecer a presença de todos e confessar que passou anos lendo comentários dos fãs brasileiros nas redes sociais. Finalmente, aquele encontro deixava de ser virtual para se tornar realidade.

“Seven Deadly Sins” foi outro momento de destaque, carregando toda a força melódica que ajudou a consolidar o grupo internacionalmente, enquanto “My Hero” trouxe um equilíbrio interessante entre peso, emoção e refrões marcantes. No meio do setlist, a banda abriu espaço para uma interessante DJ & Drum Session, evidenciando outro aspecto importante da identidade do Man With a Mission: sua capacidade de incorporar elementos eletrônicos sem perder o impacto do rock. O solo de bateria, acompanhado pela discotecagem poderosa de DJ Santa Monica, serviu como momento de respiro sem permitir que a temperatura da casa diminuísse.

Após a exibição do tradicional “Mission Movie”, um dos momentos mais interessantes da noite aconteceu durante “Dive”. Antes da música, o guitarrista relembrou a primeira vez que viu uma partida de futebol: a histórica final do Mundial Interclubes de 1993 entre São Paulo Futebol Clube e Milan, disputada no Japão. A lembrança arrancou aplausos imediatos do público, especialmente dos são-paulinos, antes de dar lugar a uma bela e sensível versão acústica da faixa.

Daí em diante, o show entrou em sua reta decisiva sem diminuir a intensidade. “Merry-Go-Round”, “Take Me Under”, “FLY AGAIN”, “Against the Kings and Gods” e “Kizuna no Kiseki” funcionaram como uma sequência devastadora, transformando o Carioca Club em um verdadeiro caldeirão.

Mas ainda faltava o gran finale. O público, insaciável, clamou por mais, e a banda retornou para o bis com “Emotions”. O encerramento foi apoteótico com “Raise Your Flag”, uma das músicas mais pedidas pelos fãs. Para coroar a noite, os integrantes ergueram a bandeira do Brasil, selando definitivamente a conexão com o público brasileiro.

Na noite de 27 de maio, São Paulo testemunhou um marco histórico: a primeira vez que o Man With a Mission pisou em solo brasileiro. E que estreia. Os lobos japoneses entregaram um show explosivo, visceral e cheio de emoção, provando que a energia não precisa de um idioma comum, mas de atitude, riffs potentes, músicas poderosas e um público que se entrega de corpo e alma, transformando banda e plateia em uma única alcateia. 


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Agência Powerline



Man With a Mission – setlist:

Vertigo

Dark Crow

Get Off of My Way

Thunderstruck (AC/DC cover) 

REACHING FOR THE SKY

database

Dead End In Tokyo 

Seven Deadly Sins

My Hero

DJ & Drum Session 

Mission Movie

Dive  Merry-Go-Round

Take Me Under

FLY AGAIN

Against the Kings and Gods

Kizuna no Kiseki

Emotions

Raise your flag 

domingo, 28 de junho de 2026

Soturno, Maduro e Baudelairiano: Moonspell Reconquista a Essência do Metal Gótico em Far From God


Por: Michelle Santana
Fotos: Divulgação 
Selo: Napalm Records

A banda portuguesa de Gothic/Dark Metal formada em 1992, consolidou sua carreira através de composições marcadas por temas como ocultismo, poesia, melancolia e erotismo, tornando-se uma das maiores referências do gênero. Agora, o grupo chega ao seu 14º álbum de estúdio, "Far From God".

Embora as comparações com Irreligious (1997) sejam inevitáveis, "Far From God" está longe de ser uma mera cópia daquele clássico. As semelhanças aparecem principalmente na melancolia que permeia a obra e em suas temáticas sombrias, mas a execução segue um caminho próprio, marcado por uma abordagem mais sóbria e madura. 

Ao mesmo tempo, o álbum resgata parte da sensibilidade romântica e decadente que remete à poesia de Charles Baudelaire, influência que se revela tanto nas letras quanto na construção emocional das canções.

Em vez de apostar em grandes arranjos ou momentos excessivamente dramáticos, o Moonspell constrói sua identidade através de uma instrumentação cuidadosamente equilibrada. 

As guitarras de Ricardo Amorim ocupam posição de destaque, explorando afinações mais baixas e linhas minimalistas que acrescentam peso sem comprometer a elegância característica da banda. Os solos surgem com forte influência do gothic rock clássico, funcionando como extensões naturais das melodias e contribuindo para a paisagem sonora contemplativa que atravessa o disco.

A influência oitentista é perceptível ao longo de toda a obra, especialmente na forma como as composições priorizam clima e emoção em vez de impacto imediato. Ainda existem os teclados de Pedro Paixão, que dá o elemento atmosférico, enriquecendo os arranjos, mas eles são utilizados com moderação, sempre a serviço das canções e nunca como protagonistas.

Fernando Ribeiro entrega uma de suas performances mais consistentes dos últimos anos. Seu vocal soa mais controlado e introspectivo do que em alguns momentos de Irreligious, privilegiando interpretação e nuance em vez de teatralidade. Essa abordagem combina perfeitamente com o caráter do álbum, reforçando a sensação de maturidade presente em cada faixa.

"Far From God" demonstra a capacidade do Moonspell de revisitar aspectos fundamentais de sua identidade sem se tornar refém deles. O resultado é um trabalho que conversa com uma das fases mais celebradas da banda, mas encontra vigor suficiente para caminhar com personalidade própria.

Entre os destaques do álbum, "Cross Your Heart" é provavelmente uma das faixas que mais abraça a proposta do rock gótico oitentista. Guitarras carregadas de texturas e efeitos modulados, aliadas a bateria de Hugo Ribeiro, que dão contorno à composição e reforçam sua identidade. 

A letra já estabelece seu tom melancólico logo nos versos iniciais — "Crosses and flowers by the side of the road" — conduzindo o ouvinte a uma paisagem fúnebre e contemplativa. Uma passagem falada acrescenta profundidade à música, enquanto seu ritmo envolvente e levemente dançante faz dela uma forte candidata a se tornar um dos pontos altos das apresentações ao vivo.

A faixa-título, "Far From God", surge de forma intimista, com vocais falados e quase sussurrados acompanhados por teclados que estabelecem uma ambiência sombria desde os primeiros instantes. Fernando Ribeiro adota uma interpretação sóbria e controlada, enquanto o baixo de Aires Pereira, é marcante e característico do gothic rock, assume papel de destaque na construção da música. 

Liricamente, a faixa introduz com maestria a forte influência de Charles Baudelaire que permeia a obra. A composição transborda o conceito do amor baudelairiano, onde o afeto caminha lado a lado com a decadência, a culpa existencial e um romantismo sombrio. O resultado é uma canção nostálgica, fortemente ancorada na poesia maldita e nos elementos tradicionais do gênero.

Já "The Great Wolf in the Sky" representa o ponto alto do álbum. A faixa se desenvolve sobre uma ambientação soturna e densa, na qual instrumentos e vocais trabalham em perfeita sintonia para sustentar a proposta emocional da composição. Os teclados desempenham papel fundamental na construção do clima da música, enquanto uma passagem com vocais mais rasgados adiciona intensidade sem recorrer à teatralidade que marcou alguns trabalhos anteriores da banda. O violino presente nos momentos finais amplia ainda mais a carga dramática da faixa, encerrando-a de forma memorável.

"For the Love of Mortals" é, possivelmente, a composição mais atmosférica do disco, mergulhando de cabeça no romantismo trágico que define o conceito lírico do trabalho. A interpretação vocal permanece contida e melancólica, mas aqui são as guitarras que roubam a cena. Os solos carregam grande parte do peso emocional da música, enquanto a bateria atua de forma precisa, preenchendo os espaços e tornando a experiência ainda mais envolvente.

A mais pesada das composições é "Our Freedom to Fall", faixa que também remete de forma mais evidente à era Irreligious. Alternando vocais limpos e passagens guturais, a música apresenta uma intensidade emocional muito bem expressa por Fernando Ribeiro. Sua performance confere personalidade à faixa e amplifica o impacto de seus momentos mais sombrios.

O encerramento do álbum fica a cargo da faixa "Reconquista", que inicia com vocais rasgados que transmitem a revolta e a carga emocional exigidas pela composição. A atmosfera é densa, intensa e carregada de tensão, enquanto uma passagem falada em português acrescenta identidade e autenticidade à música. 

Trata-se de um recurso recorrente na trajetória do Moonspell, reafirmando que a banda jamais abandonou suas raízes portuguesas. O próprio título parece sugerir uma dupla missão: a reconquista do território sagrado do metal gótico clássico e a reafirmação de sua própria soberania cultural e identidade lusitana.

Segundo os próprios integrantes, Far From God foi concebido com simplicidade musical, mas grande complexidade emocional. Fernando Ribeiro comentou sobre as dificuldades criativas enfrentadas durante o período da pandemia, e esse peso emocional parece ecoar em cada faixa do álbum. Ao mesmo tempo, o trabalho soa como um verdadeiro manifesto em defesa do metal gótico, reafirmando a relevância de um gênero que raramente ocupa posição de destaque no cenário contemporâneo.

O resultado é um álbum profundamente nostálgico, mas que evita a armadilha da mera repetição. Carregado de melancolia, romantismo, decadência e imagética vampírica, Far From God abandona boa parte das reflexões filosóficas e sociais presentes em Hermitage (2021) para mergulhar de cabeça na estética gótica que ajudou a consagrar o Moonspell. 

Sóbrio, soturno e emocionalmente denso, o disco encontra um equilíbrio admirável entre tradição e maturidade, oferecendo aos fãs do gênero uma obra que honra o passado sem deixar de possuir identidade própria.



********ENGLISH VERSION*********


Gloomy, Mature, and Baudelairean: Moonspell Reclaims the Essence of Gothic Metal on Far From God



By: Michelle Santana
Photos: Courtesy
Label: Napalm Records


Moonspell, the Portuguese  Gothic/Dark Metal band formed in 1992, established its career through compositions marked by themes such as occultism, poetry, melancholy, and eroticism, becoming one of the most influential acts in the genre. Now, the group arrives with its fourteenth studio album, "Far From God".

While comparisons to Irreligious (1997) are inevitable, Far From God is far from being a mere copy of that classic. The similarities lie mainly in the melancholy that permeates the record and its dark themes, but the execution follows its own path, marked by a more restrained and mature approach. 

At the same time, the album revives part of the romantic and decadent sensibility associated with the poetry of Charles Baudelaire, an influence that reveals itself both in the lyrics and in the emotional construction of the songs.

Rather than relying on grand arrangements or excessively dramatic moments, Moonspell builds its identity through carefully balanced instrumentation. Ricardo Amorim's guitars take center stage, exploring lower tunings and minimalist lines that add weight without compromising the band's characteristic elegance. The solos draw heavily from classic gothic rock, functioning as natural extensions of the melodies and contributing to the contemplative sonic landscape that runs throughout the album.

The influence of the 1980s is evident across the entire record, particularly in the way the compositions prioritize atmosphere and emotion over immediate impact. Pedro Paixão's keyboards continue to provide the album's atmospheric dimension, enriching the arrangements while being used with restraint, always serving the songs rather than dominating them.

Fernando Ribeiro delivers one of his most consistent performances in years. His vocals sound more controlled and introspective than in certain moments of Irreligious, favoring interpretation and nuance over theatricality. This approach perfectly complements the character of the album, reinforcing the sense of maturity present in every track.

"Far From God" demonstrates Moonspell's ability to revisit fundamental aspects of its identity without becoming trapped by them. The result is a work that engages with one of the band's most celebrated eras while possessing enough vitality to move forward with a distinct personality of its own.

Among the album's highlights, "Cross Your Heart" is probably one of the tracks that most fully embraces the spirit of 1980s gothic rock. Textured guitars layered with modulation effects, combined with Hugo Ribeiro's drumming, help shape the composition and reinforce its identity. 

The lyrics establish their melancholic tone immediately with the opening line, "Crosses and flowers by the side of the road," leading the listener into a funeral-like and contemplative landscape. A spoken-word passage adds depth to the song, while its engaging and subtly danceable rhythm makes it a strong contender to become one of the highlights of the band's live performances.

The title track, "Far From God," unfolds in an intimate manner, with spoken and nearly whispered vocals accompanied by keyboards that establish a dark atmosphere from the very beginning. Fernando Ribeiro adopts a restrained and controlled performance, while Aires Pereira's bass, prominent and deeply rooted in gothic rock tradition, plays a key role in shaping the song. 

Lyrically, the track masterfully introduces the strong influence of Charles Baudelaire that permeates the album. The composition overflows with the concept of Baudelairean love, where affection walks hand in hand with decadence, existential guilt, and dark romanticism. The result is a nostalgic song firmly anchored in cursed poetry and the traditional elements of the genre.

"The Great Wolf in the Sky" stands as the album's high point. The song develops through a gloomy and dense atmosphere in which instruments and vocals work in perfect harmony to sustain its emotional purpose. 

The keyboards play a fundamental role in shaping the song's mood, while a passage featuring harsher vocals adds intensity without resorting to the theatricality that characterized some of the band's earlier works. The violin that emerges toward the end amplifies the song's dramatic impact even further, bringing it to a memorable conclusion.

"For the Love of Mortals" is arguably the most atmospheric composition on the album, diving headfirst into the tragic romanticism that defines its lyrical concept. The vocal performance remains restrained and melancholic, but here it is the guitars that steal the spotlight. The solos carry much of the song's emotional weight, while the drumming acts with precision, filling the spaces and making the experience even more immersive.

The heaviest composition on the album is "Our Freedom to Fall," a track that also bears the strongest resemblance to the Irreligious era. Alternating between clean vocals and guttural passages, the song presents an emotional intensity masterfully expressed by Fernando Ribeiro. His performance gives the track its personality and amplifies the impact of its darkest moments.

The album closes with "Reconquista," which opens with harsh vocals that convey the anger and emotional charge demanded by the composition. The atmosphere is dense, intense, and filled with tension, while a spoken passage in Portuguese adds identity and authenticity to the track. 

It is a recurring element throughout Moonspell's career, reaffirming that the band has never abandoned its Portuguese roots. The title itself seems to suggest a dual mission: the reconquest of gothic metal's sacred territory and the reaffirmation of its own cultural sovereignty and Lusitanian identity.

According to the band members themselves, Far From God was conceived with musical simplicity but emotional complexity. Fernando Ribeiro has spoken about the creative difficulties the band faced during the pandemic years, and that emotional burden seems to echo throughout the album. At the same time, the record feels like a true manifesto in defense of gothic metal, reaffirming the relevance of a genre that rarely occupies a prominent place in today's musical landscape.

The result is a deeply nostalgic album that avoids the trap of mere repetition. Filled with melancholy, romanticism, decadence, and vampiric imagery, Far From God leaves behind much of the philosophical and social reflection found on Hermitage (2021) and dives headfirst into the gothic aesthetic that helped establish Moonspell's legacy.

Restrained, gloomy, and emotionally dense, the album achieves an admirable balance between tradition and maturity, offering fans of the genre a work that honors the past while maintaining a strong identity of its own.

Moonspell Site 
Napalm Records 
Primotion All Noir





sexta-feira, 26 de junho de 2026

Amberian Dawn: Sinfonia de Renascimento (Also In English)

Napalm Records (Imp.)

Temptation's Gates: O Triunfo Épico do Amberian Dawn sob uma Nova Liderança Vocal

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Depois de uma fase de transição entre estilos e mudanças na formação, a banda finlandesa de power metal sinfônico Amberian Dawn, formada em 2006, retorna com Temptation's Gates, seis anos após seu último álbum de estúdio. O novo trabalho resgata a veia power metal sinfônica que consolidou a identidade da banda, sem abrir mão dos elementos incorporados ao longo da última década, demonstrando que ainda há espaço para evoluir sem perder a própria essência. O álbum se desenvolve como uma obra de caráter épico, conduzindo o ouvinte por temas que transitam entre tentação, transformação, conflitos internos e elementos fantásticos. Mais do que servir de pano de fundo, esse conceito dá unidade ao disco e faz com que cada faixa ocupe um lugar específico dentro de uma narrativa maior.

Um dos maiores acertos desta nova fase é a performance de Nicole Willerton, que faz sua estreia em estúdio pela banda com grande personalidade. Sua interpretação impressiona pela segurança e pelo controle técnico, mas vai além da precisão. Há identidade em sua forma de cantar, alternando momentos delicados com passagens de grande intensidade sem perder a expressividade. Sua voz encontra o equilíbrio ideal entre a grandiosidade exigida pelo metal sinfônico e a emoção necessária para dar vida às composições, tornando sua estreia um dos pontos altos do álbum.

Instrumentalmente, o Amberian Dawn demonstra um cuidado evidente na construção das melodias. Os refrões são envolventes, as linhas vocais dialogam naturalmente com os teclados de Tuomas Seppälä e as guitarras de Emil "Emppu" Pohjalainen, enquanto os arranjos orquestrais ampliam a atmosfera sem transformar as músicas em um excesso de camadas. Tudo soa muito bem dosado, permitindo que peso, melodia e elementos sinfônicos coexistam de forma orgânica.

Entre os destaques, a faixa-título "Temptation's Gates" resume com precisão a proposta do álbum. Grandiosa e envolvente, ela combina refrões marcantes, orquestrações imponentes e uma interpretação vocal que traduz toda a dramaticidade da composição, funcionando como a principal representação do conceito do disco.

"Moon" explora uma atmosfera épica, equilibrando delicadeza e intensidade por meio de melodias elegantes que crescem naturalmente ao longo da música. Os teclados e as guitarras se fundem com naturalidade, criando uma sonoridade rica e envolvente. O desfecho ganha ainda mais força com a voz levemente rasgada de Nicole, um contraste que acrescenta personalidade e intensidade à composição.

Outro momento que merece atenção é "Unchained", uma das faixas mais pesadas do álbum. Além dos riffs mais incisivos, a música surpreende pela inclusão de vocais guturais, utilizados de forma estratégica para ampliar a tensão e o impacto da composição. O contraste entre os guturais e a voz limpa e cristalina de Nicole Willerton funciona de maneira impecável, adicionando uma nova dimensão à sonoridade do Amberian Dawn sem comprometer sua identidade melódica. A combinação entre peso, elementos sinfônicos e uma abordagem mais agressiva faz desta uma das faixas mais marcantes de Temptation's Gates. Merece destaque também o solo de guitarra, executado com precisão e bom gosto, que acrescenta brilho à composição e reforça seu caráter épico.

Já "Life Is Art" apresenta uma energia mais vibrante e acessível, apostando em um refrão forte e em uma construção melódica que permanece na memória desde as primeiras audições. Os teclados assumem papel de destaque ao lado da interpretação de Nicole, contribuindo para uma atmosfera ampla e emocionante que evidencia a habilidade da banda em criar músicas cativantes sem abrir mão da sofisticação dos arranjos.

Um dos momentos mais interessantes do álbum surge em "Undying Colors", que incorpora passagens eletrônicas com forte inspiração oitentista. Os sintetizadores remetem ao synth-pop e ao AOR da década de 1980, criando uma atmosfera nostálgica que dialoga diretamente com a influência do ABBA sobre Tuomas Seppälä. As harmonias vocais, a construção melódica e o brilho dos teclados remetem ao pop sueco clássico, mas são reinterpretados dentro da linguagem do metal sinfônico, resultando em uma das faixas mais criativas do disco.

Essa influência volta a aparecer em "Phantasmagoria", embora de maneira mais sutil. Em meio às orquestrações grandiosas e ao clima cinematográfico, a composição apresenta melodias vocais sofisticadas e refrões de forte apelo melódico que evocam a elegância característica do quarteto sueco. Ao mesmo tempo, a faixa reúne mudanças de dinâmica, riqueza de arranjos e uma execução impecável, sintetizando tudo o que faz Temptation's Gates funcionar tão bem e encerrando o álbum em alto nível.

O álbum trás um resultado que impressiona tanto pela imponência quanto pela riqueza de detalhes. Temptation's Gates entrega uma experiência consistente do início ao fim, sustentada por composições inspiradas, melodias marcantes e uma interpretação vocal impecável. Sem depender apenas do impacto da primeira audição, o disco revela novas facetas a cada retorno, reforçando que o Amberian Dawn inicia este novo capítulo com criatividade, maturidade e um forte senso de identidade. Mais do que um retorno às origens, Temptation's Gates mostra uma banda que compreende sua própria trajetória e a utiliza como base para seguir em frente, deixando a expectativa de que essa formação ainda tem muito a oferecer.


***ENGLISH VERSION***

Temptation's Gates: Amberian Dawn's Epic Triumph Under a New Vocal Leadership

After a period of stylistic transitions and lineup changes, Finnish symphonic power metal band Amberian Dawn, formed in 2006, returns with Temptation's Gates, six years after its last studio album. The new release revives the symphonic power metal spirit that established the band's identity while preserving the musical elements developed over the past decade, proving there is still room to evolve without sacrificing its essence. The album unfolds as an epic work, guiding the listener through themes of temptation, transformation, inner conflict, and fantasy. Rather than serving as a mere backdrop, this concept unifies the record, making each track feel like an essential chapter in a larger narrative.

One of the greatest strengths of this new era is Nicole Willerton's performance, making her studio debut with the band in remarkable fashion. Her delivery is not only technically flawless and confident but also deeply expressive. She effortlessly shifts between delicate passages and moments of soaring intensity without ever losing emotional depth. Her voice strikes the perfect balance between the grandeur expected from symphonic metal and the emotion required to bring these compositions to life, making her debut one of the album's undeniable highlights.

Instrumentally, Amberian Dawn displays exceptional attention to melodic craftsmanship. The choruses are captivating, the vocal lines intertwine naturally with Tuomas Seppälä's keyboards and Emil "Emppu" Pohjalainen's guitars, while the orchestral arrangements enrich the atmosphere without overwhelming the compositions. Everything feels carefully balanced, allowing heaviness, melody, and symphonic elements to coexist seamlessly.

Among the highlights, the title track, "Temptation's Gates," perfectly encapsulates the album's vision. Grandiose and immersive, it combines memorable choruses, majestic orchestrations, and a commanding vocal performance that captures the full dramatic scope of the composition, serving as the definitive representation of the album's concept.

"Moon" embraces an epic yet  atmosphere, balancing delicacy and intensity through elegant melodies that naturally build throughout the song. Keyboards and guitars merge effortlessly, creating a rich and immersive sonic landscape. The closing section gains additional impact through Nicole's slightly raspy vocal delivery, adding both character and emotional intensity to the composition.

Another standout is "Unchained," one of the heaviest tracks on the record. Beyond its sharper guitar riffs, the song surprises with the strategic use of harsh vocals, intensifying both its tension and emotional weight. The contrast between the growls and Nicole Willerton's crystal-clear voice works flawlessly, adding a new dimension to Amberian Dawn's sound without compromising its melodic identity. The combination of heaviness, symphonic arrangements, and a more aggressive approach makes it one of Temptation's Gates' most memorable moments. The tastefully executed guitar solo also deserves special mention, adding brilliance and reinforcing the track's epic character.

"Life Is Art" brings a more vibrant and accessible energy, built around a powerful chorus and melodic hooks that linger long after the first listen. The keyboards take center stage alongside Nicole's performance, creating a sweeping and emotionally engaging atmosphere that showcases the band's ability to craft memorable songs without sacrificing musical sophistication.

One of the album's most fascinating moments arrives with "Undying Colors," which incorporates electronic passages heavily inspired by the 1980s. Its shimmering synthesizers evoke synth-pop and AOR, creating a nostalgic atmosphere that directly reflects Tuomas Seppälä's well-known admiration for ABBA. The layered vocal harmonies, infectious melodic structure, and bright keyboard work recall the timeless elegance of Swedish pop, yet they are reimagined through the lens of symphonic metal, resulting in one of the album's most inventive compositions.

That ABBA influence resurfaces in "Phantasmagoria," albeit in a subtler way. Amid sweeping orchestral arrangements and a cinematic atmosphere, the song features sophisticated vocal melodies and irresistibly melodic choruses that echo the refined songwriting associated with the legendary Swedish quartet. At the same time, the track combines dynamic shifts, rich arrangements, and impeccable musicianship, bringing together everything that makes Temptation's Gates such a rewarding listening experience while closing the album on a powerful note.

The final result is an album that impresses through both its grandeur and its meticulous attention to detail. Temptation's Gates delivers a consistently engaging experience from beginning to end, driven by inspired songwriting, memorable melodies, and an outstanding vocal performance. Rather than relying solely on the impact of a first listen, the record reveals new layers with each revisit, confirming that Amberian Dawn enters this new chapter with creativity, maturity, and a renewed sense of identity. More than a return to its roots, Temptation's Gates demonstrates a band that fully understands its own musical journey and uses it as a foundation for the future, leaving listeners eager to discover what this lineup will accomplish next.

Divulgação