segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Europe: Quatro Décadas Sem Olhar Para Trás (Also In English)

Silver Lining (Imp.)

Por Flavio Borges 

Quatro décadas depois de The Final Countdown, o Europe poderia simplesmente viver de seu passado. E ninguém poderia culpá-lo por isso. Em vez disso, a banda escolhe olhar para o presente, colocando peso, ambição e uma inquietação quase inesperada em um álbum que talvez seja uma das demonstrações mais claras de sua vitalidade nos últimos anos.

É preciso coragem para desafiar o próprio legado. Poucas bandas carregam um hino tão monumental quanto “The Final Countdown” — e menos ainda conseguem sobreviver por quatro décadas sem se tornarem prisioneiras dele. O Europe poderia facilmente passar o resto da carreira celebrando suas glórias. Em vez disso, prefere continuar avançando.

É desse confronto entre passado e presente que nasce Come This Madness. Joey Tempest e companhia olham para um mundo cada vez mais turbulento e respondem com peso, tensão e, acima de tudo, personalidade. Produzido por Tom Dalgety e gravado em Estocolmo, o álbum conta com participações de Tobias Forge (Ghost) e Mikael Åkerfeldt (Opeth), além da experiência de Mike Fraser na mixagem. Mais do que reunir nomes importantes, entretanto, essa equipe ajuda a construir uma sonoridade que permite ao Europe soar atual sem apagar aquilo que o transformou em uma das bandas fundamentais do hard rock europeu.

E a intenção fica clara logo nos primeiros segundos. “One on One” não é apenas a abertura de Come This Madness; é uma declaração de princípios. O riff pesado, o baixo pulsante e a bateria de Ian Haugland empurram a música para frente, colocando a banda em uma posição mais agressiva do que aquela normalmente associada à sua imagem mais conhecida. Os teclados de Mic Michaeli continuam presentes, assim como a melodia característica e a voz inconfundível de Joey Tempest, mas tudo aparece revestido por uma produção mais encorpada e contemporânea. É como se o Europe dissesse, antes mesmo de o álbum começar de fato: não estamos aqui para repetir “The Final Countdown”.

Se “One on One” funciona como um cartão de visitas, “The Cult of Ignorance” elimina qualquer dúvida sobre as intenções do grupo. Mais pesada e carregada de tensão, a faixa amplia a atmosfera estabelecida pela abertura e mostra uma banda confortável em explorar seu lado mais contundente. John Norum assume as guitarras com a autoridade de quem não precisa provar absolutamente nada, enquanto Michaeli acrescenta camadas e profundidade sem suavizar o impacto. Tempest, por sua vez, entrega a letra com uma combinação de indignação e controle que reforça a sensação de urgência.

É aqui que Come This Madness começa a revelar algo além de sua força musical. “The Cult of Ignorance” transforma a inquietação sonora em comentário sobre o presente, abordando ignorância, intolerância e as tensões de uma sociedade cada vez mais polarizada. Não é uma banda veterana tentando parecer jovem ou agressiva; é uma banda usando a experiência acumulada para falar sobre um mundo que mudou radicalmente desde os anos 1980. A sequência das duas primeiras faixas é reveladora: primeiro o Europe reafirma que ainda sabe soar poderoso; em seguida, demonstra que ainda tem algo a dizer.

Mas Come This Madness não vive apenas de peso e tensão. O Europe continua sendo, antes de tudo, uma banda de canções — e é justamente quando as guitarras cedem espaço para melodias mais elaboradas que sua experiência se torna ainda mais evidente. A banda conhece o valor de um bom refrão, sabe construir tensão antes de liberá-la e entende que uma grande composição não precisa necessariamente de velocidade para causar impacto.

Esse equilíbrio entre contundência e melodia é uma das grandes virtudes do álbum. O Europe não precisa escolher entre ser pesado ou acessível. Transita entre esses dois universos com naturalidade, preservando sua identidade enquanto amplia suas possibilidades. Joey Tempest continua sendo um dos grandes intérpretes do hard rock europeu, mas sua performance aqui parece menos preocupada em demonstrar alcance e mais interessada em transmitir emoção e significado. Há maturidade em sua voz — não apenas técnica, mas também interpretativa.

Grande parte da personalidade do álbum está na interação entre John Norum e Mic Michaeli. Norum continua sendo um guitarrista que entende que um grande solo precisa estar a serviço da música, e não o contrário. Seus riffs dão ao disco boa parte de sua musculatura, enquanto os solos aparecem nos momentos certos, acrescentando tensão e emoção sem cair no exibicionismo. Michaeli, por outro lado, é quase um personagem invisível por trás da arquitetura do álbum. Seus teclados não estão ali simplesmente para reproduzir o Europe dos anos 1980; criam ambientes, acrescentam peso e ampliam a dimensão épica de determinadas passagens.

É justamente essa combinação que impede Come This Madness de se transformar em um simples exercício de hard rock tradicional. Há ecos evidentes das referências que sempre fizeram parte do DNA da banda — do hard rock britânico dos anos 1970 ao metal melódico europeu —, mas o Europe absorve essas influências sem parecer preso a nenhuma delas. O resultado é familiar, mas não acomodado; clássico, mas definitivamente não retrô.

Essa maturidade também aparece quando o grupo reduz a velocidade. Come This Madness não precisa permanecer permanentemente no modo “ataque”. Há espaço para atmosferas mais introspectivas e arranjos delicados, permitindo que o contraste entre força e vulnerabilidade se torne parte da dinâmica do álbum. É nesse terreno que o Europe demonstra que sua evolução ao longo das últimas décadas não foi apenas uma mudança de sonoridade, mas também de perspectiva.

A faixa-título leva essa proposta ainda mais longe. “Come This Madness” é uma das composições mais ambiciosas do disco, construída sobre mudanças de dinâmica e diferentes atmosferas. A música cresce, recua e volta a ganhar força, funcionando quase como uma síntese das intenções do álbum. Se existe um ponto menos convincente, está justamente em um de seus momentos de maior contenção: o trecho mais lento interrompe um pouco o fluxo antes que a composição retome sua intensidade. É uma escolha ousada, embora talvez pudesse ser ligeiramente mais enxuta.

Ainda assim, a ambição compensa. O Europe não está interessado em entregar apenas mais uma coleção de faixas eficientes. Existe uma tentativa clara de construir um álbum com identidade própria, no qual produção, arranjos, letras e performances caminham na mesma direção.

“Scandinavian Eyes” reforça essa impressão ao incorporar uma dimensão mais atmosférica e contemplativa. 

A presença de Tobias Forge e Mikael Åkerfeldt nos vocais de apoio acrescenta uma camada simbólica particularmente interessante: dois artistas de gerações diferentes do rock sueco contribuindo para o trabalho de uma banda que ajudou a colocar o país definitivamente no mapa do hard rock internacional. O mérito, porém, está em como essas participações são incorporadas ao universo do Europe sem transformar os convidados em simples chamariz.

No conjunto, Come This Madness soa como o trabalho de uma banda que já não precisa provar que pertence à história. E talvez seja justamente por isso que consiga tocar com tanta liberdade. O Europe não tenta recuperar a juventude perdida, tampouco reproduzir uma fórmula que funcionou há 40 anos. Sua maior conquista aqui é outra: usar a experiência como ferramenta criativa, e não como justificativa para repetir o passado.

Isso não significa que o álbum seja uma ruptura radical. Quem acompanha a trajetória do Europe sabe que elementos do classic rock, do hard rock setentista e de suas próprias raízes continuam presentes. Algumas escolhas poderiam ser mais ousadas e nem todas as composições alcançam o mesmo nível de inspiração. Mas exigir uma reinvenção completa seria perder justamente aquilo que torna o disco interessante.

Come This Madness funciona porque entende a diferença entre identidade e repetição.

Quarenta anos depois de “The Final Countdown”, a pergunta mais importante já não é se o Europe consegue escrever outra música como aquela. Não consegue — e não precisa. O que importa é saber se ainda existe criatividade por trás do nome, se esses músicos ainda têm algo a dizer e se a banda ainda consegue entrar em estúdio com vontade de desafiar a própria zona de conforto.

A resposta está nas guitarras de Norum, nos teclados de Michaeli, na voz de Tempest, na bateria de Haugland, no baixo de Levén e, principalmente, na maneira como esses músicos transformam experiência em energia.

Come This Madness não é uma tentativa de voltar ao passado. É o Europe aceitando seu legado, colocando-o de lado por alguns instantes e perguntando o que ainda pode fazer com tudo o que aprendeu ao longo dessas quatro décadas.

E talvez essa seja a maneira mais apropriada de celebrar 40 anos de The Final Countdown: não olhando para trás, mas mostrando que a contagem regressiva ainda não terminou.

Andy Ford

***ENGLISH VERSION***

Four decades after The Final Countdown, Europe could simply live off its past. And no one could really blame them for doing so. Instead, the band chooses to look forward, bringing weight, ambition and an almost unexpected sense of restlessness to an album that may well be one of the clearest demonstrations of their vitality in recent years.

It takes courage to challenge your own legacy. Few bands carry a song as monumental as “The Final Countdown” — and even fewer manage to survive four decades without becoming prisoners of it. Europe could easily spend the rest of their career celebrating their glory days. Instead, they choose to keep moving forward.

It is from this confrontation between past and present that Come This Madness emerges. Joey Tempest and company look at an increasingly turbulent world and respond with weight, tension and, above all, personality. Produced by Tom Dalgety and recorded in Stockholm, the album features guest appearances from Tobias Forge (Ghost) and Mikael Åkerfeldt (Opeth), with Mike Fraser handling the mix. More than simply bringing together a collection of big names, however, this team helps create a sound that allows Europe to feel contemporary without erasing what made them one of the defining bands of European hard rock.

And the intention becomes clear within the first few seconds. “One on One” is not merely the opening track of Come This Madness; it is a statement of intent. The heavy riff, pulsing bass and Ian Haugland’s driving drums push the song forward, placing the band in a more aggressive territory than the image most commonly associated with them. Mic Michaeli’s keyboards are still there, as are the characteristic melodies and Joey Tempest’s unmistakable voice, but everything is wrapped in a fuller, more contemporary production. It is as if Europe is saying, before the album has even properly begun: we are not here to repeat “The Final Countdown”.

If “One on One” works as a calling card, “The Cult of Ignorance” leaves no doubt about the band’s intentions. Heavier and charged with tension, the track expands on the atmosphere established by the opener and shows a band entirely comfortable exploring its more forceful side. John Norum handles the guitars with the authority of a player who has nothing left to prove, while Michaeli adds layers and depth without taking away any of the impact. Tempest, meanwhile, delivers the lyrics with a combination of indignation and restraint that reinforces the sense of urgency.

This is where Come This Madness begins to reveal something beyond its musical strength. “The Cult of Ignorance” turns its musical unease into a comment on the present, addressing ignorance, intolerance and the tensions of an increasingly polarised society. This is not a veteran band trying to sound young or aggressive; it is a band using the experience it has accumulated to speak about a world that has changed dramatically since the 1980s. The sequence of the first two tracks is revealing: first, Europe reminds us that they still know how to sound powerful; then they show that they still have something to say.

But Come This Madness does not live on weight and tension alone. Europe remains, above all, a band built around songs — and it is precisely when the guitars make room for more elaborate melodies that their experience becomes even more apparent. They understand the value of a good chorus, know how to build tension before releasing it, and recognise that a great song does not necessarily need speed to make an impact.

That balance between punch and melody is one of the album’s greatest strengths. Europe does not have to choose between being heavy and accessible. They move naturally between the two worlds, preserving their identity while expanding their possibilities. Joey Tempest remains one of the great voices in European hard rock, but his performance here seems less concerned with demonstrating his range and more interested in conveying emotion and meaning. There is maturity in his voice — not merely technical maturity, but interpretive maturity as well.

Much of the album’s personality comes from the interplay between John Norum and Mic Michaeli. Norum remains a guitarist who understands that a great solo has to serve the song, not the other way around. His riffs provide much of the album’s muscle, while his solos arrive at the right moments, adding tension and emotion without slipping into unnecessary showmanship. Michaeli, meanwhile, is almost an invisible character behind the album’s architecture. His keyboards are not simply there to recreate Europe’s 1980s sound; they create atmosphere, add weight and broaden the epic dimension of certain passages.

It is precisely this combination that prevents Come This Madness from becoming just another exercise in traditional hard rock. There are clear echoes of the influences that have always been part of the band’s DNA — from 1970s British hard rock to European melodic metal — but Europe absorbs those influences without sounding trapped by any of them. The result is familiar, but never complacent; classic, but definitely not retro.

That maturity also becomes apparent when the band slows things down. Come This Madness does not need to remain permanently in attack mode. There is room for more introspective atmospheres and delicate arrangements, allowing the contrast between strength and vulnerability to become part of the album’s dynamics. It is in these moments that Europe demonstrates that its evolution over the past few decades has not simply been about changing its sound, but also about changing its perspective.

The title track takes that idea even further.  “Come This Madness” is one of the album’s most ambitious compositions, built around shifts in dynamics and contrasting atmospheres. The song grows, pulls back and then gathers strength again, almost functioning as a summary of the album’s intentions. If there is a less convincing moment, it comes precisely during one of its most restrained passages: the slower section slightly interrupts the flow before the song regains its intensity. It is an ambitious choice, although perhaps one that could have been trimmed a little.

Still, the ambition pays off. Europe is not interested in delivering just another collection of efficient songs. There is a clear attempt to build an album with an identity of its own, one in which production, arrangements, lyrics and performances all move in the same direction.

“Scandinavian Eyes” reinforces that impression by introducing a more atmospheric and contemplative dimension. 

The presence of Tobias Forge and Mikael Åkerfeldt on backing vocals adds an especially interesting symbolic layer: two artists from different generations of Swedish rock contributing to the work of a band that helped put Sweden firmly on the international hard rock map. The real achievement, however, lies in the way those appearances are incorporated into Europe’s universe without turning the guests into mere promotional attractions.

Taken as a whole, Come This Madness sounds like the work of a band that no longer needs to prove that it belongs in history. And perhaps that is precisely why they are able to play with such freedom. Europe is not trying to reclaim lost youth, nor are they attempting to reproduce a formula that worked 40 years ago. Their greatest achievement here is something else: using experience as a creative tool rather than as an excuse to repeat the past.

That does not mean the album represents a radical departure. Anyone familiar with Europe’s career knows that elements of classic rock, 1970s hard rock and the band’s own roots remain firmly in place. Some choices could have been bolder, and not every composition reaches the same level of inspiration. But demanding a complete reinvention would miss precisely what makes the record interesting.

Come This Madness works because it understands the difference between identity and repetition.

Forty years after “The Final Countdown”, the most important question is no longer whether Europe can write another song like it. They cannot — and they do not need to. What matters is whether there is still creativity behind the name, whether these musicians still have something to say, and whether the band can still walk into a studio with the desire to challenge its own comfort zone.

The answer is in Norum’s guitars, Michaeli’s keyboards, Tempest’s voice, Haugland’s drums, Levén’s bass and, above all, in the way these musicians turn experience into energy.

Come This Madness is not an attempt to return to the past. It is Europe accepting its legacy, setting it aside for a moment and asking what it can still do with everything it has learned over the past four decades.

And perhaps that is the most appropriate way to celebrate 40 years of The Final Countdown: not by looking back, but by showing that the countdown is not over yet.

Andy Ford 


sábado, 19 de setembro de 2026

Dread Witch: Death/Doom Imerso na Literatura de Horror e Cinema Cult

 

Por: Fernanda Luísa    Fotos: Divulgação 

Formado na Dinamarca em 2023 por ex-integrantes de Scamp, Horned Almighty, Stone Cadaver e The World State, o Dread Witch lançará em pleno dia das bruxas o seu segundo álbum, intitulado “Cult“, evocando uma aura totalmente absorta na escuridão, com sua temática inspirada no cinema cult e literatura de horror.

Esse é facilmente um álbum em que você é arrebatado para uma outra dimensão,  com uma sonoridade que enlaça o Death/Doom com pitadas generosas de stoner e outras influências musicais que a banda possui, nos trazendo uma precisão cirúrgica na sequência de cada composição. 

As três guitarras com afinação grave, que se juntam ao baixo distorcido, bateria estrondosa, vocais ritualísticos e texturas ambientais, criam a parede sonora densa e de atmosfera sinistra.

Já na faixa de introdução “Born Again”, temos uma abertura funesta e bem marcada por uma atmosfera que nos remete à timbres psicodélicos, tipicamente viajantes, e podemos sentir a presença de nomes de peso como  influências , como Sleep e Triptykon, e até mesmo um pouco de Pink Floyd. 

Na sequência, a faixa título “Cult“, que chega evocando a crueza nada polida dos riffs, que mais parecem ser vindos de uma motosserra. 

A bateria e baixo te ancoram no coração da banda, como se fosse uma  compressão contra o peito tal o peso avassalador.

"Altar"  se destaca com seu andamento arrastado e de aura totalmente sinistra e maléfica, e traz a participação especial de Sofia Schmidt, do Ethereal Kingdoms, que assume o papel da própria Dread Witch,  em uma performance tétrica, intensa e perturbadora.

“The Summoning” é quase um transe espiritual com partes em coro e variações vocais impressionantes, ora quase sussurrantes e ora num gutural soberbo.

Podemos notar que não há uma faixa somente que tem destaque, mas sim um novo material tão impactante que é tranquilamente a prova de que quando os músicos estão na mesma sintonia, tudo se transforma em um monumento sonoro de produção musical, instrumental e lírica gigante. 

O álbum foi produzido, mixado e masterizado pelo lendário produtor dinamarquês Tue Madsen, cujos extensos créditos incluem Meshuggah, Baest, Moonspell, The Haunted e Belphegor, entre muitos outros.

Tudo milimetricamente não artificial, orgânico e com uma aura de filme de terror dos anos 80.

Aproveite a imersão na obra, pois ela merece uma audição como um todo.

Lançamento:  DHU Records / Bottomless Pit / Gateway Music


Tracklist:

Born Again
Cult
Cyclops
Altar
Marrow
Vesexuff
Omen of Oblivion
The Summoning

Dread Witch é:

Mikael Rise - Lead Vocals & Guitar
Dennis Larsen - Drums
Andreas Cadaver - Guitar
Leifur Nielsen - Bass & Vocals
Jesper Kragh - Lead Guitar

Instagram 



******English Version*****


Dread Witch: Death/Doom Immersed in Horror Literature and Cult Cinema

Review by: Fernanda Luísa 

Formed in Denmark in 2023 by former members of Scamp, Horned Almighty, Stone Cadaver, and The World State, Dread Witch will release their second album, titled "Cult," on Halloween. Evoking an aura completely absorbed in darkness, its themes are inspired by cult cinema and horror literature.

This is easily an album that transports you to another dimension, with a sound that blends Death/Doom with generous hints of stoner and other musical influences the band possesses, bringing surgical precision to the sequence of each composition.

The three low-tuned guitars, joined by distorted bass, thunderous drums, ritualistic vocals, and ambient textures, create a dense wall of sound and a sinister atmosphere.

In the opening track, “Born Again,” we have a somber and well-defined atmosphere reminiscent of psychedelic sounds and foreign journeys, and we can feel the presence of heavyweight influences such as Sleep and Triptykon, and even a touch of Pink Floyd.

Following this, the title track “Cult” evokes the unpolished cross of riffs that sound more like they're coming from a chainsaw.

The drums and bass anchor you to the heart of the band, as if pressed against your chest with such overwhelming weight.

"Altar" stands out with its dragging tempo and totally sinister and malevolent aura, and features a special guest appearance by Sofia Schmidt from Ethereal Kingdoms, who takes on the role of the Dread Witch herself, in a grim, intense, and disturbing performance.

"The Summoning" is almost a spiritual trance with choral parts and impressive vocal variations, sometimes almost whispering and sometimes in a sober guttural style.

We can see that there isn't just one standout track, but rather a new material so impactful that it's easily proof that when musicians are in sync, everything transforms into a giant sonic monument of musical, instrumental, and lyrical production.

The album was produced, mixed, and mastered by the legendary Danish producer Tue Madsen, whose extensive credits include Meshuggah, Baest, Moonspell, The Haunted, and Belphegor, among many others.

Everything is meticulously natural, organic, and has an aura of an 80s horror film.

Enjoy the work, as it deserves a full listen.

Release: DHU Records / Bottomless Pit / Gateway Music

Tracklist:
Born Again
Cult
Cyclops
Altar
Marrow
Vesexuff
Omen of Oblivion
The Summoning

Dread Witch is:
Mikael Rise - Vocals and Guitar
Dennis Larsen - Drums
Andreas Cadaver - Guitar
Leifur Nielsen - Bass and Vocals
Jesper Kragh - Lead Guitar





sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Hansen: Quando Uma Lenda Decide Tocar Sem Mapa

Valhall Music (Nac.) / earMUSIC (Imp.) 

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Depois de mais de quatro décadas ajudando a definir os caminhos do heavy metal europeu, Kai Hansen poderia simplesmente repetir a fórmula que o transformou em um dos nomes mais importantes do gênero. Afinal, existe pouca coisa mais tentadora para um músico com uma história como a dele do que voltar ao território seguro de Helloween e Gamma Ray. Born With A Hammer, porém, parte justamente da direção contrária.

Lançado oficialmente em 18 de setembro de 2026 pela earMUSIC, o álbum é o primeiro trabalho solo de Hansen em dez anos, depois de XXX – Three Decades in Metal, lançado em 2016 sob o nome Hansen & Friends. Desta vez, o projeto aparece simplesmente como Hansen, acompanhado por Eike Freese, Alexander Dietz, Dan Wilding e Tim Hansen, filho de Kai. São dez faixas e pouco mais de 45 minutos em que o guitarrista parece ter se permitido uma coisa que sua carreira raramente exige dele: não precisar responder às expectativas de ninguém.

E isso fica evidente já nos primeiros minutos. Feeding The Beast começa com uma introdução limpa e relativamente contida antes de o peso entrar de maneira progressiva. Quando a bateria acelera e as guitarras assumem o controle, a primeira associação inevitável é com o Hansen que conhecemos. Há velocidade, melodias de guitarra, vocal imediatamente reconhecível e aquela combinação entre agressividade e senso melódico que ajudou a moldar o power metal europeu.

Só que, depois de estabelecer esse território conhecido, o disco começa a desmontá-lo. A grande qualidade de Born With A Hammer está justamente nessa sensação de que Hansen sabe perfeitamente onde o ouvinte espera que determinada música vá chegar e, em seguida, decide virar o volante.

1. Feeding The Beast

A abertura funciona quase como uma isca. Os primeiros acordes criam uma atmosfera mais introspectiva, e por alguns instantes parece que o álbum vai seguir uma direção mais tradicional. Então entram as guitarras e a bateria, e a música ganha velocidade até desembocar em um heavy metal bastante familiar.

O riff principal é direto, mas não simplório. Há uma boa dinâmica entre as partes mais abertas e os momentos em que a guitarra aperta o andamento, enquanto Hansen mantém aquela voz que nunca dependeu de perfeição técnica para ser imediatamente identificável.

É provavelmente a faixa que mais conversa com o legado de Gamma Ray e Helloween, e isso é importante porque oferece ao ouvinte uma porta de entrada segura antes de o álbum começar a mostrar suas outras faces. Resenhas publicadas antes e no dia do lançamento também destacaram justamente essa proximidade inicial com o power metal clássico.


2. Welcome To Life

Se a primeira faixa apresenta o Hansen que você esperava ouvir, Welcome To Life é a primeira grande rasteira do álbum. A música chega mais solta, com uma energia quase punk e uma abordagem menos polida. A guitarra parece propositalmente mais crua, e a estrutura transmite uma sensação de espontaneidade que contrasta bastante com a precisão de Feeding The Beast.

E então acontece a mudança mais inesperada: a faixa mergulha em um trecho de inspiração reggae. Sim, reggae.

E o mais curioso é que a transição não soa como uma piada colocada ali apenas para causar estranhamento. O próprio Hansen explicou que a ideia veio de seu gosto pelo gênero e da influência do ambiente em que estava trabalhando, inclusive associando essa sonoridade às experiências vividas durante sua passagem pela Costa Rica.


3. Don’t Care

A terceira faixa aumenta ainda mais essa sensação de liberdade. Don’t Care tem uma energia brincalhona e deliberadamente descompromissada. A guitarra continua sendo protagonista, mas aparecem texturas eletrônicas e uma batida que foge consideravelmente do que se esperaria de um disco associado a um dos arquitetos do power metal.

É também uma música em que a personalidade de Hansen pesa mais do que a necessidade de impressionar. Existe algo quase juvenil na composição, no melhor sentido possível. O músico parece estar se divertindo com as próprias possibilidades, e isso acaba sendo mais interessante do que qualquer tentativa de produzir uma faixa “importante”.

O contraste entre os instrumentos eletrônicos e o refrão guiado por guitarra é um dos detalhes que fazem a música permanecer na cabeça. Ao mesmo tempo, é aqui que o álbum começa a revelar seu primeiro problema: nem toda ideia experimental possui a mesma força das melhores composições.


4. Wait And See

E então Hansen fecha a porta da brincadeira e coloca o álbum novamente sob tensão. Wait And See é mais pesada, mais escura e consideravelmente mais compacta. O riff trabalha em uma região mais grave, com uma sonoridade que se aproxima do metal moderno sem abandonar a capacidade melódica do guitarrista.

A diferença é perceptível principalmente no tratamento rítmico. Em vez de simplesmente acelerar, a música pesa. Os grooves são mais secos, a bateria tem uma presença mais física e a guitarra ganha uma textura quase industrial. O single já havia sido apresentado antes do álbum como uma mudança de direção em relação à liberdade rock'n'roll de Welcome To Life, assumindo uma atmosfera mais pesada e intensa.


5. Born With A Hammer

E chegamos ao coração do álbum. Com pouco mais de oito minutos, a faixa-título é a composição em que Hansen finalmente abandona qualquer preocupação com concisão e simplesmente deixa a música crescer.

O começo já estabelece uma atmosfera mais teatral, com piano, harmonias vocais e uma construção que imediatamente remete à tradição do rock épico. Conforme a música avança, aparecem mudanças de dinâmica, passagens mais pesadas, melodias de guitarra e arranjos vocais cada vez maiores.

A referência a Queen é impossível de ignorar, especialmente na maneira como Hansen trabalha os diferentes blocos da composição. Mas o interessante é que ele não tenta esconder a influência. Ela faz parte da própria proposta da música.

O guitarrista contou que a composição nasceu ao piano, a partir de alguns acordes e de uma melodia que já estava em sua cabeça. Segundo ele, desde o início ficou claro que a música não seria um formato convencional e que a direção mais grandiosa fazia sentido.

Há uma quantidade enorme de ideias acontecendo aqui, mas Hansen consegue impedir que a música vire apenas uma colagem de referências porque existe uma linha melódica conduzindo tudo. É uma faixa que exige mais atenção do que as anteriores e, justamente por isso, cresce a cada audição.


6. I.D.G.A.F.

Depois de oito minutos de grandiosidade, Hansen faz a coisa mais Hansen possível: volta com uma música que praticamente manda toda a pompa para o inferno.

I.D.G.A.F. é curta, agressiva e extremamente direta. O riff tem uma pegada quase punk, mas a produção adiciona elementos eletrônicos que deixam tudo mais estranho. A batida sintética cria um contraste interessante com a guitarra, e o refrão é construído para ser gritado.


7. End Of The Road

Aqui aparece novamente o Kai Hansen que os fãs antigos provavelmente estavam esperando. End Of The Road é mais melódica, pesada e tradicional. As guitarras retomam uma construção mais próxima do heavy/power metal, e o refrão tem aquela dimensão de hino que Hansen domina há décadas.

Mas existe uma diferença importante na letra. A música fala sobre o fim de um relacionamento, e não sobre o próprio Hansen chegando ao fim da estrada. O encerramento de uma relação aparece como algo doloroso, mas também como uma experiência que não apaga o carinho e a história compartilhada.

Essa dualidade aparece na própria composição: existe melancolia, mas não uma atmosfera derrotista. É provavelmente a música que melhor equilibra passado e presente. Tem DNA de power metal, mas não soa como uma tentativa de voltar no tempo.


8. Triple Trouble

Com pouco mais de três minutos, Triple Trouble é o tiro curto do álbum. A música entra acelerada e não parece particularmente interessada em desenvolver uma grande narrativa. Ela quer velocidade, riff e energia.

Existe uma agressividade punk na maneira como a composição avança, e a presença de Tim Hansen na guitarra acrescenta uma energia diferente ao conjunto. O contraste entre pai e filho também dá à faixa uma espécie de sensação geracional, ainda que o álbum nunca transforme isso em seu conceito central.


9. Invaders

Invaders trabalha com uma fórmula muito mais simples. A música aposta em um riff insistente, bateria firme e um refrão grande, daqueles que parecem nascer pensando no palco. Não há a mesma quantidade de desvios estilísticos de Welcome To Life ou I.D.G.A.F., e isso faz com que ela funcione quase como uma pausa dentro da extravagância do disco.

A guitarra encontra um groove bastante eficiente, e Hansen não precisa exagerar na interpretação para fazer a faixa funcionar. É uma composição que depende muito mais do riff e da repetição estratégica do que de grandes mudanças estruturais.


10. Wonderland

Wonderland chega pesada, com guitarras encorpadas, bateria forte e uma atmosfera que mistura o peso do heavy metal tradicional com algumas das características mais modernas apresentadas ao longo do disco.

O vocal de Hansen aparece mais grave e áspero, e isso combina com a sensação de fechamento da música. É como se, depois de percorrer todos aqueles estilos, o álbum finalmente voltasse ao elemento que nunca desapareceu em nenhum momento: a guitarra.

O riff é provavelmente o elemento mais memorável da faixa, e a bateria de Dan Wilding dá um peso considerável ao encerramento. É uma escolha interessante para terminar porque Hansen poderia ter optado por uma balada ou por outro épico. Em vez disso, ele termina com força.


Divulgação

Confira a tracklist completa do Born With A Hammer:

1. Feeding The Beast 

2. Welcome To Life 

3. Don’t Care 

4. Wait And See 

5. Born With A Hammer 

6. I.D.G.A.F.

7. End Of The Road 

8. Triple Trouble 

9. Invaders 

10. Wonderland

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Metalite: Metal, Tecnologia e Uma Dose de Futuro (Also In English)

Perception (Imp.)

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Se tem uma coisa que o Metalite sabe fazer muito bem é misturar o metal melódico com elementos modernos sem deixar o peso de lado. Formada na Suécia em 2015, a banda vem construindo sua identidade dentro do power metal moderno, acrescentando sintetizadores, elementos eletrônicos e atmosferas cinematográficas. Não é por acaso que o grupo é considerado um dos pioneiros do moderno sci-fi inspired power metal.

Em Discovery, essa proposta aparece ainda mais forte. O conceito futurista e de ficção científica é bastante ousado e está presente não apenas nas letras, mas também na própria sonoridade. Comparando com os trabalhos anteriores, sinto que a banda foi ainda mais fundo nessa ideia de unir o metal melódico aos elementos eletrônicos.

E isso já fica muito claro na primeira faixa, “Our Time Has Come”. A música é explosiva e grandiosa do começo ao fim e resume muito bem o que vamos encontrar pela frente. “In Case of Emergency” segue praticamente a mesma linha, mantendo aquela energia que parece feita para funcionar muito bem ao vivo.

Nos vocais, Erica Ohlsson realmente rouba a cena. A técnica vocal é impecável e ela consegue acompanhar toda a grandiosidade das músicas sem perder clareza ou potência. Para mim, ela é a grande estrela de Discovery.

Também gostei bastante do trabalho instrumental. A bateria de Erik Junttila mantém o álbum sempre em movimento, enquanto Edwin Premberg, nas guitarras, entrega solos bem construídos e momentos que acrescentam ainda mais peso às músicas.

Falando em produção, aqui não tem muito o que reclamar. A mixagem e a masterização ficaram por conta de Jacob Hansen, produtor conhecido por trabalhos com bandas como Amaranthe e Evergrey, e o resultado é realmente impecável. Tudo soa muito limpo, moderno e grandioso, mas sem tirar o protagonismo das guitarras e dos vocais.

Em “Into the Maze”, por exemplo, temos uma faixa mais pesada, com um ótimo solo de guitarra. Já “Echoes of You” começa com piano e traz uma atmosfera um pouco diferente, menos acelerada. É uma das faixas que mais me chamou atenção justamente por conseguir quebrar um pouco a velocidade do álbum sem perder sua identidade.

“Starchild” é provavelmente uma das músicas mais eletrônicas do disco. É dançante, moderna e tem uma energia quase impossível de ignorar, mas continua mantendo o peso do metal. É justamente esse tipo de combinação que faz o Metalite funcionar tão bem.

Outra que gostei bastante foi “Wings of Fire”. A faixa mantém a pegada moderna, mas acrescenta elementos de hard rock, criando um dos momentos mais equilibrados do álbum. A música consegue te transportar para um grande festival. O solo de guitarra também dá um brilho especial à faixa, que, para mim, é uma das melhores do disco.

“Metal Elite” também merece destaque e mantém a energia que encontramos ao longo de Discovery. Já “Triforce”, escolhida para fechar o álbum, funciona muito bem como encerramento porque permanece fiel à proposta tanto musicalmente quanto no conceito futurista.

No geral, Discovery é um disco muito energético. São 12 faixas com bastante eletrônica, refrões explosivos e grandiosos e uma produção extremamente moderna. Confesso que senti falta de um pouco mais de espaço para desacelerar em alguns momentos, talvez uma balada, mas também entendo que essa velocidade constante faz parte da proposta.

Para mim, o Metalite conseguiu entregar exatamente o que se propôs a fazer. Discovery é ousado, ambicioso e muito bem produzido, sendo um prato cheio para quem gosta de power metal melódico e não se incomoda em ver o gênero flertando bastante com a música eletrônica e a estética futurista.

É um disco que parece ter sido feito para ser ouvido alto — e, principalmente, para ser levado para o palco. Eu consigo imaginar facilmente esses refrões enormes sendo cantados por uma plateia inteira.

***ENGLISH VERSION***

If there’s one thing Metalite knows how to do really well, it’s mixing melodic metal with modern elements without losing its heaviness. Formed in Sweden in 2015, the band has been building its own identity within modern power metal, adding synthesizers, electronic elements and cinematic atmospheres. It’s no coincidence that the band is considered one of the pioneers of modern sci-fi-inspired power metal.

On Discovery, this approach becomes even stronger. The futuristic and science-fiction concept is quite bold and can be felt not only in the lyrics, but also throughout the music itself. Compared to their previous releases, I feel the band has gone even further with the idea of bringing melodic metal and electronic elements together.

This becomes clear right from the opening track,  “Our Time Has Come”. The song is explosive and grand from beginning to end, and it sums up very well what we’re about to experience. “In Case of Emergency” follows pretty much the same path, keeping that energy that feels like it was made to work really well on stage.

When it comes to the vocals, Erica Ohlsson really steals the show. Her vocal technique is impeccable, and she manages to keep up with all the grandeur of the songs without losing clarity or power. For me, she is the real star of Discovery.

I also really enjoyed the instrumental work. Erik Junttila’s drumming keeps the album constantly moving, while Edwin Premberg delivers well-crafted guitar solos and moments that add even more weight to the songs.

And when it comes to the production, there isn’t much to complain about. The mixing and mastering were handled by Jacob Hansen, a producer known for his work with bands such as Amaranthe and Evergrey, and the result is truly flawless. Everything sounds clean, modern and grand, without taking the spotlight away from the guitars and vocals.

In “Into the Maze”, for example, we get a heavier track with a great guitar solo. “Echoes of You”, on the other hand, opens with piano and brings a slightly different atmosphere, slowing things down a bit. It’s one of the tracks that caught my attention the most precisely because it manages to break up the album’s constant pace without losing its identity.

“Starchild” is probably one of the most electronic songs on the album. It’s danceable, modern and has an energy that’s almost impossible to ignore, while still keeping the weight of metal. This is exactly the kind of combination that makes Metalite work so well.

Another track I really enjoyed is “Wings of Fire”. It keeps the modern approach but brings in some hard rock elements, creating one of the most balanced moments on the album. The song can easily transport you to a huge festival. The guitar solo also gives the track an extra spark and, for me, makes it one of the best songs on the album.

“Metal Elite” also deserves a mention, keeping up the energy we find throughout Discovery. “Triforce,” chosen to close the album, works really well as a finale because it stays true to the album’s proposal both musically and conceptually, especially with its futuristic theme.

Overall, Discovery is a very energetic album. Across its 12 tracks, we get plenty of electronics, explosive and grand choruses, and an extremely modern production. I have to admit that I sometimes missed having a little more room to slow things down, maybe with a ballad, but I also understand that this constant energy is part of the album’s identity.

For me, Metalite delivers exactly what they set out to do. Discovery is bold, ambitious and very well produced, making it a great choice for anyone who enjoys melodic power metal and doesn’t mind seeing the genre flirt heavily with electronic music and futuristic aesthetics.

This is an album that feels like it was made to be played loud — and, most importantly, to be taken to the stage. I can easily imagine those huge choruses being sung by an entire crowd.

Divulgação 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Mad Max: 45 anos de histórias, mas ainda olhando para frente

ROAR (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Quarenta e cinco anos de carreira costumam colocar uma banda diante de uma escolha: olhar para trás ou tentar provar que ainda existe futuro pela frente. Stories Of Destiny, novo álbum do Mad Max, tenta fazer as duas coisas, e seu maior mérito está justamente em não tratar essas possibilidades como opostas.

Lançado em 4 de setembro de 2026 pela ROAR!, Stories Of Destiny chega como uma celebração dos 45 anos da banda alemã, fundada em Münster por Jürgen Breforth em 1981. Mas o aniversário é apenas o ponto de partida. O álbum reúne material novo, composições que ficaram guardadas por décadas, uma releitura de um clássico da própria banda e até a primeira música do Mad Max com letras em espanhol.

A formação também carrega essa ideia de passado e presente convivendo no mesmo espaço. Alan Clark assume os vocais principais, enquanto Andreas Baesler, primeiro vocalista do Mad Max, retorna ao microfone pela primeira vez em 45 anos. Jürgen Breforth continua sendo o eixo criativo e guitarrístico, acompanhado por Dethy Borchardt, Fabian Watermann e Axel Kruse.

E existe uma diferença importante entre fazer um álbum comemorativo e fazer um álbum sobre a própria história. Stories Of Destiny escolhe a segunda opção.

O resultado é um disco de hard rock melódico que não tenta esconder suas referências oitentistas, mas também não parece interessado em transformar o Mad Max em peça de museu. As guitarras continuam ocupando o centro do palco, os refrões são grandes e a produção de Rolf Munkes mantém tudo limpo e musculoso.

1. “Silver”

“Silver” é uma abertura extremamente segura. A guitarra aparece imediatamente como protagonista e, em poucos segundos, fica claro que o Mad Max não pretende começar seu 45º aniversário com uma balada ou uma introdução excessivamente conceitual. O riff tem peso, mas existe uma leveza melódica por trás dele que impede a música de soar agressiva demais.

É justamente essa combinação que define o disco. O verso é mais contido, enquanto o refrão abre a música e deixa Alan Clark mostrar por que sua entrada na formação é uma das novidades mais importantes desta fase. Sua voz tem uma aspereza interessante. Existe uma referência inevitável ao hard rock melódico clássico, mas Clark não soa como alguém tentando reproduzir vocalistas de outra geração. Ele traz uma personalidade própria, especialmente quando as guitarras ganham peso.

2. “Weapons Of Love”

“Silver” termina deixando uma impressão bastante imediata, e “Weapons Of Love” escolhe não aumentar a velocidade. É uma decisão interessante. A segunda faixa trabalha mais a melodia e o balanço do hard rock do que o peso. O riff é relativamente econômico e o refrão aposta em uma construção bastante clássica de arena rock.

3. “Keep You Alive”

É aqui que Stories Of Destiny finalmente mostra os dentes. “Keep You Alive” começa de maneira mais contida, quase enganando o ouvinte sobre o que está por vir. Quando as guitarras entram com força, a música muda completamente de dimensão.

O riff é mais pesado e o baixo de Fabian Watermann ganha uma presença que não estava tão evidente nas duas primeiras faixas. E o refrão é exatamente o tipo de coisa que o Mad Max sabe fazer bem: grande, direto e feito para crescer quando cantado por uma plateia.

4. “Far Behind”

“Far Behind” muda novamente o clima. Se “Keep You Alive” funciona pelo impacto, aqui o Mad Max trabalha com espaço.

As guitarras são mais abertas e o andamento permite que Alan Clark conduza a música sem precisar disputar atenção com a banda. É uma composição mais emocional, mas não chega a ser uma power ballad convencional. Existe uma melancolia no arranjo, especialmente na forma como as guitarras sustentam as linhas vocais.

5. “Piece Of Candy” — 2026 Version

“Piece Of Candy” é o coração histórico do álbum. O riff que deu origem à música foi o primeiro riff de guitarra escrito por Jürgen Breforth para o Mad Max, em 1981. Quarenta e cinco anos depois, ele volta a ser gravado com a formação atual.

Mas o detalhe que realmente transforma a faixa em algo especial está nos vocais. Alan Clark divide a música com Andreas Baesler, o primeiro vocalista do Mad Max. É impossível ouvir essa escolha apenas como uma participação especial. A música passa a funcionar como uma conversa entre duas épocas da banda.

Instrumentalmente, a nova gravação mantém a essência do hard rock clássico, mas recebe uma produção muito mais definida. As guitarras têm mais corpo, a bateria soa mais robusta e o refrão ganha uma amplitude que provavelmente não existia na gravação original.

6. “‘Til The End Of Time”

Depois da carga histórica de “Piece Of Candy”, o álbum poderia facilmente perder força. Não perde. “‘Til The End Of Time” é a segunda composição recuperada das sessões de 1991, e talvez seja uma das melhores surpresas do disco justamente porque soa como uma peça que encontrou o momento certo para finalmente existir.

A música tem um balanço mais encorpado e uma pegada que remete diretamente ao hard rock europeu do final dos anos 1980 e início dos 1990. As guitarras têm mais presença e o ritmo é mais envolvente. É também uma daquelas faixas em que se percebe como a produção moderna pode beneficiar uma composição antiga sem necessariamente descaracterizá-la.

7. “Bullet”

“Bullet” é onde o disco ganha outra injeção de energia.

O riff tem mais ataque e a guitarra volta a ocupar o primeiro plano. A bateria empurra a composição para frente e o refrão mantém a preocupação melódica que atravessa o álbum. Mas existe algo particularmente interessante aqui: a música tem uma pegada de hard rock americano que lembra, em alguns momentos, aquela tradição de bandas que conseguem equilibrar peso e refrões extremamente acessíveis.

8. “Mad Gone Blind”

“Mad Gone Blind” é uma das melhores músicas do álbum. E é também uma das que melhor mostram o potencial da formação atual.

A estrutura é mais dinâmica, as guitarras têm mais peso e Alan Clark parece especialmente confortável quando a banda aumenta a intensidade. O refrão é grande sem ser excessivamente açucarado, e há uma boa alternância entre momentos de maior agressividade e espaços para a melodia respirar.

9. “She Was Mine”

Depois de “Mad Gone Blind”, o álbum desacelera novamente. “She Was Mine” entra em um território mais sentimental, mas sem abandonar completamente as guitarras.

É uma faixa que depende bastante da interpretação de Clark. Sua voz fica mais limpa e menos agressiva, permitindo que a melodia carregue a música. Não é necessariamente uma composição revolucionária, e provavelmente não precisa ser. Ela representa aquela tradição do hard rock em que a banda deixa a velocidade de lado para construir uma história emocional.

10. “Wings Of Freedom”

“Wings Of Freedom” é a grande balada de Stories Of Destiny. Mas existe uma diferença importante entre uma balada simplesmente colocada no meio de um álbum e uma composição que realmente entende seu papel dentro da sequência.

Aqui, ela chega na hora certa. A música começa de maneira mais delicada e cresce gradualmente, permitindo que as guitarras entrem sem destruir o caráter emocional da composição.

O refrão é amplo e claramente pensado para ser cantado ao vivo. E existe uma espécie de mensagem de encerramento antecipado na letra: liberdade, movimento e a capacidade de seguir adiante.

11. “Dulces Falsos”

E então vem “Dulces Falsos”. A decisão de terminar o álbum em espanhol poderia parecer, à primeira vista, apenas uma curiosidade. Não é.

“Dulces Falsos” é uma nova versão de “Piece Of Candy” e representa o primeiro lançamento do Mad Max com letras em espanhol. A música foi pensada como uma homenagem à base de fãs latino-americana, especialmente importante para a história recente da banda na região. E a escolha de fechar o álbum com ela é bastante inteligente.

Depois de passar 45 anos olhando para sua própria história, o Mad Max termina olhando para fora.


Steffi Kruse

Confira a tracklist completa de Stories Of Destiny:

1. Silver

2. Weapons Of Love 

3. Keep You Alive 

4. Far Behind 

5. Piece Of Candy (2026 Version) 

6. 'Til The End Of Time 

7. Bullet 

8. Mad Gone Blind 

9. She Was Mine 

10. Wings Of Freedom

11. Dulces Falsos

Audrey Horne: Quando o Hard Rock olha para o mundo em chamas

Napalm Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Há bandas que passam anos aperfeiçoando uma fórmula até transformá-la em assinatura. O desafio, depois disso, é conseguir permanecer reconhecível sem se tornar previsível. O Audrey Horne parece ter encontrado uma solução particularmente eficiente para esse problema: manter o DNA intacto enquanto muda constantemente a maneira de apresentá-lo.

Quatro anos depois de Devil’s Bell, a banda norueguesa retorna com Achilles, seu oitavo álbum de estúdio, lançado em 4 de setembro de 2026 pela Napalm Records. São onze faixas e pouco mais de 44 minutos em que Toschie, Ice Dale, Thomas Tofthagen, Espen Lien e Kjetil Greve percorrem hard rock, heavy metal, classic rock, melodias setentistas, AOR e algumas incursões mais progressivas sem permitir que o disco pareça uma coleção de referências.

A banda conhece Thin Lizzy, Led Zeppelin, AC/DC, Dio e Iron Maiden, mas não parece interessada em montar um museu dessas influências. As guitarras gêmeas de Ice Dale e Tofthagen são parte fundamental dessa identidade, enquanto Toschie continua sendo um dos grandes responsáveis por fazer o material soar imediatamente Audrey Horne. A produção, conduzida por Arve “Ice Dale” Isdal, também procura preservar uma qualidade mais orgânica e próxima da sensação de banda tocando junta.

Mas Achilles tem algo a mais. Por trás dos riffs e dos refrões feitos para serem cantados com uma cerveja levantada no meio da plateia, existe um disco atravessado por temas como guerra, polarização, fascismo, medo e fragilidade. O próprio título nasceu quase por acidente, mas acabou fazendo sentido quando a banda percebeu que a figura de Aquiles poderia ser relacionada às vulnerabilidades do mundo contemporâneo, especialmente em uma sociedade cada vez mais dependente de tecnologia e infraestrutura digital.

1. “Achilles”

A primeira impressão de Achilles é imediata: a banda não quer uma introdução longa para preparar o terreno. A faixa-título entra praticamente como uma declaração.

Guitarras pesadas, baixo bastante presente e uma bateria que rapidamente estabelece o tamanho da composição. Toschie aparece com aquela voz rouca e teatral que parece sempre estar a meio caminho entre cantar uma música e contar uma história.

Depois do impacto inicial, a música começa a abrir espaço para passagens mais atmosféricas e progressivas. As guitarras deixam de funcionar apenas como uma parede de peso e passam a construir camadas, enquanto a melodia ganha uma dimensão quase épica.

2. “In the Eye of the Hurricane”

Se a abertura é grandiosa, “In the Eye of the Hurricane” é onde o Audrey Horne começa a mostrar sua habilidade em transformar classic rock em algo extremamente moderno.

As guitarras gêmeas de Ice Dale e Thomas Tofthagen são imediatamente reconhecíveis. Existe aquela influência de Thin Lizzy e Wishbone Ash nas harmonias, mas também uma espécie de brilho AOR que remete ao hard rock do final dos anos 1970 e começo dos 1980.

Toschie canta com bastante espaço, deixando que o refrão seja realmente o centro da composição. E esse é um daqueles refrões que parecem ganhar tamanho cada vez que retornam. A faixa tem uma qualidade muito “de palco”.

3. “Vampires”

“Vampires” é onde o álbum começa a ficar perigosamente viciante. O riff é simples o suficiente para entrar imediatamente na cabeça, mas não tão simples a ponto de parecer descartável. Existe groove, existe espaço e existe aquele tipo de melodia que parece pedir uma plateia inteira cantando junto.

4. “God Damn Beautiful”

Aqui acontece uma das melhores surpresas do álbum: Espen Lien assume os vocais.

E o mais interessante é que a música não soa como uma interrupção na identidade do Audrey Horne. Pelo contrário: parece uma peça que estava faltando. “God Damn Beautiful” tem uma influência de Thin Lizzy particularmente evidente, tanto no trabalho das guitarras quanto na forma como a melodia se desenvolve. Mas o elemento que realmente a diferencia é a voz de Lien. Ela é menos teatral do que a de Toschie e possui um caráter mais direto, quase casual. Isso combina perfeitamente com a música.

5. “Pretty Little Lies”

Depois de quatro faixas essencialmente construídas para levantar o público, “Pretty Little Lies” muda completamente o clima. E é uma mudança necessária.

A música é uma balada, mas não exatamente aquela balada de power metal construída para esperar o grande solo final. Toschie canta de maneira mais contida, deixando que a fragilidade da interpretação ocupe o primeiro plano. A guitarra limpa cria espaço e a música cresce aos poucos até alcançar um final mais dramático. É provavelmente uma das melhores performances vocais do álbum.

6. “Prodrome”

“Prodrome” é minúscula. Um minuto e três segundos. E, justamente por isso, seria muito fácil perguntar por que ela está aqui.

A resposta está na posição. Depois de “Pretty Little Lies”, a faixa funciona como uma pequena passagem instrumental que prepara o terreno para “Insanity”. Em vez de avaliá-la isoladamente, ela funciona como uma dobradiça dentro do álbum.

7. “Insanity”

E então o Audrey Horne pisa no acelerador. “Insanity” é provavelmente a faixa em que o peso do Achilles aparece com maior clareza.

O riff tem aquela sensação de cavalgada típica do heavy metal britânico, as guitarras trabalham harmonias mais agressivas e Kjetil Greve conduz tudo com uma bateria que parece empurrar a música para frente a cada compasso.

A comparação com Iron Maiden não é gratuita. A música foi concebida como uma espécie de prequela de “Hallowed Be Thy Name”, e essa influência aparece não apenas na velocidade, mas na própria construção narrativa.

8. “Hell Is Eternity”

“Hell Is Eternity” começa com uma das linhas de baixo mais interessantes do disco. E isso não é um detalhe pequeno.

O baixo de Espen Lien recebe bastante espaço na mixagem e cria um groove que segura a música enquanto as guitarras entram aos poucos. Depois, o Audrey Horne começa a acelerar. Existe novamente aquela sensação de Iron Maiden, mas a música tem uma pegada mais hard rock e menos puramente heavy metal.

9. “Six Feet in the Ground”

“Six Feet in the Ground” volta a diminuir a velocidade, mas não perde peso. Existe uma melancolia evidente na composição, especialmente nas linhas vocais.

O trabalho de guitarra limpa cria um contraste interessante com os momentos mais pesados, e o baixo novamente aparece com bastante personalidade. É uma música que parece mais introspectiva.

10. “Running Through the Night”

Se havia alguma dúvida de que o Iron Maiden estava entre as referências mais fortes desse álbum, “Running Through the Night” resolve.

A música começa com uma energia que lembra imediatamente o heavy metal britânico dos anos 1980, inclusive na maneira como as guitarras constroem aquela sensação de corrida permanente. As guitarras têm aquele caráter melódico que é próprio da banda, enquanto Toschie transforma a velocidade em uma espécie de narrativa.

11. “New Star Falling”

Fechar um álbum de hard rock com uma power ballad é uma decisão que poderia facilmente soar previsível. “New Star Falling” consegue escapar disso.

A música começa melódica, quase contemplativa, e vai crescendo gradualmente até chegar a um final que utiliza novamente o trabalho de guitarras duplas de maneira muito eficiente. Toschie está especialmente confortável aqui. Sua voz tem espaço para crescer junto com o arranjo, e a música não tenta acelerar o processo.


Jens Kristian Rimau

Confira a tracklist completa de Achilles:

1. Achilles

2. In the Eye of the Hurricane

3. Vampires

4. God Damn Beautiful

5. Pretty Little Lies

6. Prodrome

7. Insanity

8. Hell Is Eternity

9. Six Feet in the Ground 

10. Running Through the Night

11. New Star Falling