Matheus Luciano: A Phantom Star já nasceu com um norte muito bem definido. Desde as primeiras reuniões, tínhamos absoluta clareza do som que quer tínhamos fazer e dos objetivos que almejávamos alcançar como músicos de Heavy Metal. Não houve tempo perdido procurando uma direção; a proposta era consciente desde o primeiro ensaio.
Somado a isso, o fator humano fez toda a diferença: somos grandes amigos há muitos anos. Essa fraternidade e o respeito mútuo criam uma sintonia natural que vai muito além da técnica. Quando você junta uma visão artística alinhada com anos de amizade e cumplicidade, o entrosamento no estúdio e nos palcos acontece de forma quase instintiva.
RtM: O debut apresenta um Heavy Metal que vocês mesmos definem por elementos épicos, cósmicos e cinematográficos. Como surgiu esse conceito e qual foi o ponto de partida para construir essa identidade?
ML: Esse conceito nasceu de forma extremamente natural a partir da fusão das nossas paixões não apenas na música, mas também no campo da literatura, do cinema e das artes de forma ampla. Sempre fomos fascinados por bandas que não se limitam ao som, mas que trazem uma dimensão teatral e conceitual — seja na estética, na postura de palco ou na própria construção dramática das composições.
Para nós, o Heavy Metal sempre foi uma arte imersiva. Unir o peso dos riffs a uma narrativa épica e a uma identidade visual marcante, foi uma evolução orgânica desse gosto compartilhado. Queríamos que o ouvinte sentisse essa teatralidade desde o primeiro segundo: na atmosfera dos teclados, nas trocas de andamento, nas letras e até na arte do disco. É essa riqueza de referências artísticas que dá ao Phantom Star essa aura dramática, cósmica e cinematográfica.
RtM: É possível perceber influências de bandas como Virgin Steele, King Diamond, Savatage, Queensrÿche e Crimson Glory, mas o resultado soa bastante autoral. Como vocês foram lapidando e equilibrando a homenagem às referências e a busca por uma sonoridade própria?
ML: Ficamos profundamente honrados com a citação de alguns dos nossos maiores ídolos e influências diretas. Acredito que o grande segredo para equilibrar a homenagem com a originalidade está na forma como cada integrante filtra suas referências para se expressar de maneira autêntica.
Sabemos exatamente o território onde pisamos — o universo do Heavy Metal clássico e tradicional —, então nunca precisamos nos prender a regras rígidas ou nos preocupar em seguir fórmulas prontas para "provar" que somos metal.
Tratamos essas influências como um alicerce, e não como uma limitação.
RtM: As letras transitam por temas como Inquisição, mitologia, fantasia e outras narrativas. O que mais inspira o processo de composição: livros, filmes, história, RPG, literatura fantástica?
ML: Consumimos muito dessas mídias no nosso dia a dia. Livros, jogos, RPG, histórias em quadrinhos, literatura fantástica e cinema sempre fizeram parte da nossa rotina e acabam fluindo de forma natural para dentro do processo de composição. São fontes muito ricas para criarmos histórias, metáforas e cenários que casam bem com o peso da música.
Ao mesmo tempo, não vivemos isolados numa bolha de fantasia. Questões do cotidiano, vivências pessoais e visões sobre o mundo ao nosso redor — inclusive aspectos sociais e políticos — também entram na equação. Afinal, como músicos independentes no Brasil, é inevitável ser impactado pela realidade em que vivemos.
Usar temas como a Inquisição ou narrativas fantásticas costuma ser a nossa forma de falar sobre coisas bem atuais, como o fanatismo e a busca por liberdade. No fim das contas, a inspiração vem de tudo o que a gente lê, joga, assiste e vive.
RtM:A interpretação vocal chama bastante atenção pelo caráter teatral, enquanto os teclados reforçam toda a atmosfera cinematográfica das músicas. Desde o início vocês já tinham essa preocupação em fazer cada canção soar como uma pequena trilha sonora?
ML: Com certeza. A minha interpretação do busca trazer um peso dramático único, porque tento não apenas cantar, mas realmente interpretar e dar vida a cada narrativa, o que imprime uma personalidade muito forte às composições.
A entrada dos teclados, inclusive, aconteceu um tempo depois na formação da banda, justamente para reforçar essa intenção. Sentíamos que precisávamos de um elemento que amplificasse essa atmosfera de "contador de histórias" que tanto gostamos no Heavy Metal. O teclado veio para preencher esse espaço, criando as camadas, a tensão e aquele clima cinematográfico que faz com que cada música funcione como uma forma de trazer o ouvinte para dentro da letra.
RtM: A arte visual do Phantom Star também impressiona, desde a pintura da capa até a identidade nos materiais promocionais. O quanto o conceito visual é importante para complementar a experiência musical da banda?
ML: Para nós, a arte visual é simplesmente indispensável. Quando pensamos em grandes referências do Heavy Metal, do Rock Clássico e do Rock Progressivo — com o Iron Maiden sendo talvez o exemplo mais óbvio e brilhante disso —, percebemos que o conceito visual sempre foi um dos pilares fundamentais para construir a identidade de uma banda.
Sempre enxergamos a capa, as ilustrações e todo o material promocional como uma extensão direta da nossa música, e não apenas como uma "embalagem". Uma arte marcante prepara o ouvinte para a atmosfera do disco antes mesmo do primeiro riff.
RtM: A faixa-título "Phantom Star" parece sintetizar tudo aquilo que a banda representa musicalmente. Vocês também a enxergam como a música que melhor traduz a essência do grupo?
ML: Sim, com certeza. Pelo fato de carregar o próprio nome da banda, ela foi concebida para ser uma verdadeira declaração de intenções e síntese do nosso trabalho do ponto de vista mais épico.
A faixa-título traduz muito bem a temática conceitual e, principalmente, a identidade visual que buscávamos trazer para este primeiro disco. Musicalmente, ela entrega o equilíbrio perfeito do nosso som: consegue passear pelas nuances mais progressivas, atmosféricas e trabalhadas, sem jamais abrir mão do peso e da energia do Heavy Metal tradicional.
RtM: “I’Am the Storm” e “Witch Hunt” vejo que têm sido duas que se destacam na preferência do público.
ML: "I'm the Storm" e "Witch Hunt" realmente se tornaram pilares fundamentais pra gente e acreditamos que a escolha dela como single foi bem acertada!
Um fato marcante foi que o Lucas Shred entrou nos teclados logo após o lançamento dessa faixa, o que permitiu retrabalhar as dinâmicas e camadas dela ao vivo com o teclado bem atmosférico que ficou incrível.
Musicalmente, ela tem um andamento mais cadenciado, solos longos de guitarra e interpretações vocais muito dramáticas e teatrais, bebendo direto da fonte de mestres como King Diamond e Mercyful Fate. A lapidação no estúdio foi extremamente rápida, fluindo com contribuições e ideias de todos os integrantes. Ela funciona tão bem e transmite uma energia tão forte que se tornou, naturalmente, a faixa de abertura dos nossos shows.
RtM: Complementando esse tópico, essas faixas que acabam ganhando um destaque maior com o público, vocês utilizam como parâmetro para, talvez, direcionamentos futuros? E é algo interessante que muitas vezes as bandas apostam que essa ou aquela música seria melhor recebida, e muitas vezes isso não acontece, e surgem alguns destaques inesperados.
O caso de "Phantom Star" é o exemplo perfeito disso: por ser uma faixa longa, técnica e cheia de trocas de andamento, não imaginávamos que ela ganharia um apelo ao vivo tão imediato e se tornaria um dos grandes destaques do disco entre os fãs. Esse tipo de surpresa é incrível porque mostra que o ouvinte de Heavy Metal valoriza a complexidade e a profundidade quando elas são entregues com verdade.
Enxergamos este álbum de estreia como uma sólida raiz que acabamos de plantar. Ele estabeleceu as fundações do som da Phantom Star. Para o próximo trabalho, a ideia não é simplesmente "copiar a fórmula" das faixas mais ouvidas, mas sim pegar toda essa recepção positiva e maturidade acumulada para aprofundar e expandir essas ideias com ainda mais peso, refinamento e identidade.
RtM: Lançar um debut tão consistente naturalmente, e que vem tendo ótima recepção, cria expectativa para o futuro. Existe alguma direção que vocês gostariam de explorar nos próximos trabalhos ou ainda há muito desse universo criado no primeiro álbum a ser desenvolvido?
ML: A resposta do público ao nosso álbum de estreia nos dá uma energia incrível para dar os próximos passos. Sentimos que acendemos uma chama importante, mas ainda há um universo inteiro dessa essência inicial a ser explorado e expandido.
Um dos nossos grandes objetivos e sonhos desde o início é criar um álbum 100% conceitual — e isso pode estar muito mais próximo de acontecer do que vocês imaginam. Temos como referências máximas obras-primas do gênero como Abigail (King Diamond), Operation: Mindcrime (Queensrÿche) e Seventh Son of a Seventh Son (Iron Maiden).
Queremos que essa evolução venha de forma orgânica, mas o foco é claro: o próximo capítulo do Phantom Star será desenhado para entregar uma história verdadeiramente cativante, sombria e aterrorizante, onde a música e a narrativa se fundem de forma transcedental.
RtM: O álbum também despertou interesse de selos do exterior, com lançamentos em vinil e K7. Falem-nos mais a respeito desses lançamentos e se há possibilidades e contatos do continente Europeu ou outros mercados.
ML: Ficamos extremamente felizes com essa repercussão. O Brasil vive hoje um momento fantástico para o Heavy Metal tradicional, fruto do trabalho consistente de bandas que admiramos muito, como Trovão, Creatures, Hellway Train, Electric Poison, Facing Fear, Blades of Steel e outras. Toda essa cena forte faz com que o mercado europeu e internacional olhe para o metal feito aqui com muito respeito e atenção.
A distribuição da Classic Metal é excelente fora do país e tem sido fundamental para fazer nossa música chegar a novos territórios. Conseguimos fechar uma parceria com o selo norte-americano Frequency Junction para uma edição extremamente limitada em vinil, e também com o selo boliviano Maniac Forces para uma versão belíssima em fita cassete.
RtM: Isso é muito bom! Um retorno muito expressivo dessa estreia.
RtM: Fiquei sabendo de uma fonte aí que vocês irão participar de um curta metragem de horror, com músicas na trilha e também atuando. Muito legal! O que vocês podem nos contar já sobre esse projeto?
ML: Sim, é verdade! Fomos convidados por um coletivo de cinema da PUC e acho que, no momento em que nos chamaram, eles nem imaginavam o quanto o nosso som e todo o nosso conceito visual tinham a ver com a história do filme. Deu um casamento perfeito!
Alguns integrantes atuaram diretamente no curta, e foi uma experiência absurdamente divertida — e exaustiva também, porque gravar cinema exige uma dedicação gigante —, mas valeu cada segundo. Além de atuar, também seremos responsáveis pela trilha sonora do filme, com composições nossas embalando as cenas além da trilha mesmo feita especialmente pro filme que está sendo composta.
É um projeto que une o Heavy Metal e o cinema de horror. As gravações foram incríveis e em breve vamos soltar mais novidades e detalhes sobre o lançamento!
ML: Gostaria que o público sentisse que o Heavy Metal continua vibrante, sincero e cheio de energia para contar histórias marcantes. Mais do que apenas ouvir uma sequência de faixas, nossa intenção é que a audição completa seja uma jornada imersiva — que transporte a pessoa para dentro do nosso universo, faça pensar sobre temas do nosso mundo real e desperte aquela chama do Metal que nos apaixona desde sempre.












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