sábado, 3 de outubro de 2026

Voodoo Highway: De Volta às Raízes de Sempre (Also In English)

Pride And Joy Music (Imp.),

Por Flavio Borges 

Há bandas que revisitam o passado por nostalgia. Outras simplesmente parecem ter nascido na década errada. O Voodoo Highway pertence a uma terceira categoria: conhece profundamente a tradição do hard rock, não faz questão de escondê-la e, justamente por isso, consegue transformar referências clássicas em algo que soa genuinamente seu.

The Satan Inqviesta marca o retorno do grupo italiano aos álbuns de estúdio depois de quase uma década. E, se havia alguma dúvida sobre o caminho que a banda pretendia seguir, ela desaparece logo nos primeiros acordes. O Voodoo Highway não está interessado em modernizar artificialmente sua sonoridade, tampouco em transformar o passado em uma peça de museu. Seu território continua sendo aquele em que riffs pesados, groove, melodias fortes e uma boa dose de teatralidade convivem com a tradição do hard rock britânico.

Deep Purple, Rainbow, Uriah Heep, Led Zeppelin e Whitesnake são referências fáceis de identificar, mas o mérito está justamente em como elas são utilizadas. O Voodoo Highway conhece sua linhagem, mas não se limita a reproduzi-la. Há algo de muito natural na maneira como a banda combina hard rock setentista, blues rock, heavy metal tradicional e elementos mais melódicos. Não existe a necessidade de demonstrar o tempo todo de onde vieram suas influências — elas simplesmente fazem parte do DNA do grupo.

E se há um elemento capaz de traduzir essa personalidade, é o Hammond de Massimiliano Sabbadini.

Mais do que uma assinatura sonora, o instrumento funciona quase como um segundo protagonista. Sabbadini sabe quando ocupar o primeiro plano e quando recuar, criando diferentes texturas ao longo do álbum. Em alguns momentos, o Hammond assume o comando e estabelece um verdadeiro duelo com as guitarras de Filippo Romeo; em outros, permanece discretamente à margem, acrescentando atmosfera e profundidade. Essa versatilidade é talvez o maior trunfo instrumental de The Satan Inqviesta.

É uma diferença importante. Muitas bandas que trabalham com o hard rock clássico utilizam o Hammond como um recurso estilístico quase obrigatório. Aqui, ele é parte orgânica da composição. Está presente sem jamais se tornar repetitivo, e suas diferentes sonoridades são utilizadas de acordo com aquilo que cada música pede.

A abertura, October's Rust, apresenta imediatamente esse universo, combinando riffs robustos, Hammond em evidência e uma melodia que aproxima o hard rock setentista de uma sensibilidade mais melódica. Space Invaders leva essa fórmula ainda mais longe e talvez seja a faixa que melhor sintetiza a identidade do álbum: guitarra e órgão disputando espaço, groove consistente e aquela atmosfera que remete diretamente à escola britânica dos anos 1970.

Mas o disco não depende exclusivamente do peso. A Song Of May mostra um Voodoo Highway mais contemplativo e melódico, enquanto 60k Degrees mergulha com mais intensidade no blues rock. Já a faixa-título acrescenta uma dimensão mais teatral e sombria ao repertório, explorando o imaginário ocultista que acompanha o álbum sem sacrificar sua objetividade.

Outro aspecto que merece atenção é a voz de Federico Di Marco. Seu desempenho está longe de seguir uma única fórmula. O vocal é moldado de acordo com cada composição, tanto em timbre quanto em intensidade, evitando aquela abordagem excessivamente uniforme que muitas vezes aparece em discos de hard rock. Di Marco não tenta dominar as músicas a qualquer custo; sua voz funciona como mais um instrumento dentro dos arranjos, encontrando o tom adequado para cada momento.

Essa ausência de exageros é uma das qualidades do álbum. The Satan Inqviesta não precisa de grandes demonstrações técnicas para chamar atenção. A banda parece muito mais interessada em fazer as músicas funcionarem — e elas funcionam justamente porque cada elemento ocupa seu espaço.

Isso não significa que o disco seja perfeito. A mesma fidelidade às raízes que constitui sua força também estabelece seus limites. Quem procura inovação ou uma ruptura significativa com os cânones do hard rock encontrará poucas surpresas. Alguns refrãos e estruturas caminham por terrenos bastante conhecidos, e faixas como Serpent's Choir, Your Love Is Such A Tease e The Lord Of Flies não atingem o mesmo impacto dos melhores momentos do álbum.

Mas há uma diferença importante entre previsibilidade e falta de personalidade. O Voodoo Highway pode até trabalhar com fórmulas conhecidas, mas sabe fazê-lo com convicção e, principalmente, com músicos que parecem genuinamente envolvidos com aquilo que estão tocando.

E essa sensação atravessa todo o disco.

Existe prazer em tocar em The Satan Inqviesta. Ele está nos riffs, na bateria, nas intervenções do Hammond, na maneira como as guitarras se encontram e, sobretudo, na forma como as músicas respiram. A banda não parece preocupada em provar que consegue tocar hard rock à moda antiga. Simplesmente parece gostar de fazê-lo.

Também ajuda o fato de o álbum ser direto. Com aproximadamente meia hora de duração, The Satan Inqviesta apresenta suas ideias sem excessos e encerra a viagem antes que a fórmula tenha tempo de se desgastar. É uma qualidade cada vez mais rara em lançamentos contemporâneos e que combina perfeitamente com a proposta do grupo.

No fim das contas, The Satan Inqviesta não pretende reinventar o hard rock — e talvez seja justamente por isso que funcione tão bem. O Voodoo Highway entende que suas referências não precisam ser escondidas para que sua música tenha personalidade. Pelo contrário: ao assumir sua herança, a banda consegue trabalhar dentro dela com segurança, espontaneidade e identidade.

Depois de quase uma década desde seu último álbum de estúdio, o retorno poderia ter vindo acompanhado de concessões ou de uma tentativa de acompanhar tendências. Não é o caso. O Voodoo Highway volta exatamente onde parece se sentir mais confortável: entre guitarras carregadas de riffs, vocais bem colocados, blues, groove e um Hammond que continua sendo uma de suas armas mais poderosas.

The Satan Inqviesta não olha para o passado com nostalgia. Olha para ele com conhecimento. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.

***ENGLISH VERSION***

Some bands revisit the past out of nostalgia. Others simply seem to have been born in the wrong decade. Voodoo Highway belongs to a third category: a band that understands the traditions of hard rock inside out, makes no attempt to hide them and, precisely because of that, manages to turn classic influences into something that feels genuinely its own.

The Satan Inqviesta marks the Italian band's return to the studio after almost a decade. And if there was ever any doubt about which direction Voodoo Highway intended to take, it disappears within the first few chords. This is not a band interested in artificially modernising its sound, nor in turning the past into a museum piece. Their territory remains one where heavy riffs, groove, strong melodies and a healthy dose of theatricality coexist with the traditions of British hard rock.

Deep Purple, Rainbow, Uriah Heep, Led Zeppelin and Whitesnake are easy reference points to identify, but the real achievement lies in how those influences are used. Voodoo Highway knows its lineage, but never settles for simply reproducing it. There is something remarkably natural about the way the band combines '70s hard rock, blues rock, traditional heavy metal and more melodic elements. There is no need to constantly prove where the influences came from — they are simply part of the band's DNA.

And if there is one element capable of translating that personality, it is Massimiliano Sabbadini's Hammond organ.

More than just a sonic trademark, the instrument almost becomes a second protagonist. Sabbadini knows when to step into the spotlight and when to pull back, creating a variety of textures throughout the album. At times, the Hammond takes command and engages in a genuine duel with Filippo Romeo's guitars; elsewhere, it remains subtly in the background, adding atmosphere and depth. That versatility may well be The Satan Inqviesta's greatest instrumental strength.

It is an important distinction. Many bands working within classic hard rock use the Hammond almost as an obligatory stylistic device. Here, it is an organic part of the songwriting. It is always present without ever becoming repetitive, and its different tones are deployed according to what each song demands.

The opening track, October's Rust, immediately establishes this territory, combining muscular riffs, prominent Hammond and a melody that brings '70s hard rock closer to a more melodic sensibility. Space Invaders takes the formula even further and may be the track that best encapsulates the album's identity: guitar and organ fighting for space, a solid groove and an atmosphere that points directly back to the British school of the 1970s.

But the album does not rely solely on weight. A Song Of May reveals a more contemplative and melodic side of Voodoo Highway, while 60k Degrees dives deeper into blues rock. The title track, meanwhile, adds a darker, more theatrical dimension to the record, exploring the occult imagery surrounding the album without sacrificing the band's direct approach.

Another aspect worth highlighting is Federico Di Marco's vocal performance. His delivery never follows a single formula. The vocals are shaped around each composition, both in tone and intensity, avoiding the overly uniform approach that can often appear on hard rock records. Di Marco never tries to overpower the songs; instead, his voice functions as another instrument within the arrangements, finding the right character for each moment.

That lack of excess is one of the album's strengths. The Satan Inqviesta does not need flashy displays of technical ability to make an impression. Voodoo Highway seems far more interested in making the songs work — and they do, precisely because every element is given room to breathe.

That does not mean the album is flawless. The same devotion to its roots that gives the record its strength also defines its limitations. Anyone looking for innovation or a significant break with the conventions of hard rock will find few surprises here. Some choruses and structures travel well-worn paths, while tracks such as Serpent's Choir, Your Love Is Such A Tease and The Lord Of Flies do not quite match the impact of the album's strongest moments.

But there is an important difference between predictability and a lack of personality. Voodoo Highway may be working with familiar formulas, but they do so with conviction and, above all, with musicians who sound genuinely invested in what they are playing.

And that feeling runs throughout the record.

There is a real sense of enjoyment in The Satan Inqviesta. You can hear it in the riffs, the drums, the Hammond passages, the way the guitars interact and, above all, in the way the songs are allowed to breathe. The band never sounds as though it is trying to prove that it can play old-school hard rock. It simply sounds like a band that loves doing it.

The album's directness also works in its favour. At roughly half an hour, The Satan Inqviesta presents its ideas without excess and gets out before the formula has a chance to wear thin. That is an increasingly rare quality in contemporary releases, and one that suits the band's approach perfectly.

Ultimately, The Satan Inqviesta does not attempt to reinvent hard rock — and perhaps that is precisely why it works so well. Voodoo Highway understands that its influences do not have to be concealed for its music to have personality. On the contrary, by embracing its heritage, the band is able to work within it with confidence, spontaneity and identity.

Almost a decade after their previous studio album, the comeback could have arrived with concessions or an attempt to follow current trends. It does not. Voodoo Highway returns to the place where it seems most comfortable: somewhere between riff-driven guitars, well-judged vocals, blues, groove and a Hammond organ that remains one of its most powerful weapons.

The Satan Inqviesta does not look to the past with nostalgia. It looks back with knowledge. And there is a world of difference between the two.

Divulgação 



Brymir: Além dos Limites da Melodia (Also In English)

Napalm Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Quatro anos depois de Voices in the Sky, o Brymir retorna com What We Leave Behind, seu quinto álbum de estúdio, ampliando as fronteiras de um som que sempre encontrou no melodic death metal seu ponto de partida, mas nunca seu limite. Mais sombrio, grandioso e cinematográfico, o novo trabalho mostra uma banda disposta a explorar novas possibilidades sem abrir mão dos elementos que construíram sua identidade.

Orquestrações, coros, teclados e elementos de folk e pagan metal convivem com passagens que flertam abertamente com o black e o power metal, enquanto riffs agressivos, blast beats e os vocais extremos de Viktor Gullichsen mantêm o disco firmemente ancorado no metal extremo. O resultado poderia facilmente cair no excesso, mas o Brymir demonstra um controle considerável sobre todos esses elementos.

A atmosfera é uma das grandes forças de What We Leave Behind. Desde a introdução de “Slaying Star”, o álbum assume uma dimensão quase cinematográfica, estabelecendo um clima que rapidamente dá lugar à velocidade e à fúria de “Sleipnir”. A faixa funciona como uma declaração de intenções: guitarras velozes, bateria extrema, orquestrações e vocais agressivos surgem em uma combinação que soa simultaneamente épica e ameaçadora.

“Tempestbound” desloca o foco para o lado mais melódico da banda. As guitarras e os coros conduzem uma composição de forte apelo épico, enquanto o refrão demonstra que, mesmo trabalhando dentro de uma sonoridade extrema, o Brymir não perdeu de vista a importância de uma melodia capaz de permanecer na memória depois que a música termina.

A faixa-título aprofunda essa característica. “What We Leave Behind” combina elementos modernos com referências às raízes finlandesas do grupo, alternando agressividade e melancolia em uma composição que parece sintetizar o próprio conceito do álbum. Há peso, mas também espaço para respirar; há grandiosidade, mas ela não encobre as melodias.

Se a primeira metade estabelece esse equilíbrio, “True Darkness” revela um lado consideravelmente mais sombrio. Blast beats, ritmos extremos e timbres mais ameaçadores aproximam o Brymir do território do black metal sinfônico, sem que a banda precise abandonar sua vocação melódica. É justamente nesse contraste entre brutalidade e grandiosidade que o álbum começa a revelar uma personalidade mais ampla do que aquela apresentada em seus trabalhos anteriores.

“Moment of Silence” surge como um breve intervalo antes de “Buried Legion”, uma das composições em que a dimensão cinematográfica do álbum se manifesta de maneira mais evidente. A combinação de vocais agressivos, orquestrações e uma atmosfera quase bélica transforma a faixa em uma espécie de marcha épica, enquanto “Thy Self the Highest Love” prepara o terreno para a parte final do disco.

Em “The Roaring King” e, principalmente, em “Broken Dawn”, a banda reduz parte da urgência apresentada anteriormente para investir em construções mais lentas, melancólicas e expansivas. Longe de representar uma perda de intensidade, essa mudança de dinâmica amplia o alcance do álbum. O peso deixa de estar necessariamente associado à velocidade e passa a depender também de atmosfera, tensão e emoção.

É nesse ponto que a experiência de Viktor Gullichsen como sound designer cinematográfico parece encontrar terreno particularmente fértil. Teclados, efeitos, coros e arranjos não funcionam simplesmente como decoração para as guitarras e a bateria; eles ajudam a construir ambientes, criar transições e dar ao álbum uma dimensão narrativa. What We Leave Behind muitas vezes soa como a trilha sonora de um filme que nunca existiu.

E então chega “How Much Is The Fish?”, a inesperada releitura do clássico do Scooter. Depois de uma sequência cuidadosamente construída, a escolha inevitavelmente provoca algum estranhamento, mas também revela um Brymir disposto a não levar a própria grandiosidade tão a sério. Transformada em melodic death metal, a faixa funciona como um epílogo irreverente e, ao mesmo tempo, estabelece uma ligação com a preocupação ambiental presente no conceito do trabalho.

Um dos grandes méritos do álbum, entretanto, está na produção. Em uma sonoridade que reúne guitarras pesadas, bateria extrema, vocais, teclados, orquestrações e coros, existe sempre o risco de transformar tudo em uma massa sonora indistinta. Isso não acontece aqui. Cada camada encontra seu espaço, permitindo que os detalhes sejam percebidos mesmo nos momentos de maior densidade. É uma produção que favorece tanto o impacto quanto a compreensão da música.

Mais do que simplesmente tornar o Brymir mais pesado, What We Leave Behind mostra uma banda interessada em ampliar sua paleta sem perder sua identidade. O melodic death metal permanece no centro, mas agora divide espaço de maneira orgânica com elementos sinfônicos, cinematográficos, folk, pagan, power e black metal.

E talvez seja justamente o equilíbrio que melhor defina o álbum. O Brymir alterna agressividade e calma, peso e melodia, velocidade e atmosfera em doses suficientemente bem calibradas para que o disco mantenha sua força ao longo de toda a audição. Mesmo quando reduz a intensidade, a banda não abandona a tensão; quando acelera, não sacrifica a melodia.

What We Leave Behind é, portanto, um trabalho que olha para diferentes momentos da trajetória do Brymir sem ficar preso a eles. É um álbum extremo, mas também acessível; grandioso, mas atento aos detalhes; sombrio, mas profundamente melódico. Acima de tudo, mostra uma banda que parece ter compreendido que evolução não significa abandonar aquilo que a tornou reconhecível — significa descobrir até onde essa identidade pode chegar.


***ENGLISH VERSION***

Four years after Voices in the Sky, Brymir return with What We Leave Behind, their fifth studio album and a record that pushes the boundaries of a sound that has always taken melodic death metal as its starting point, but never its limit. Darker, grander and more cinematic, the new album finds the band exploring new territory without abandoning the elements that have shaped their identity.

Orchestration, choirs, keyboards and elements of folk and pagan metal sit alongside passages that openly flirt with black and power metal, while aggressive riffs, blast beats and Viktor Gullichsen’s extreme vocals keep the record firmly rooted in the world of extreme metal. It is a combination that could easily become excessive, yet Brymir display considerable control over all these elements.

Atmosphere is one of What We Leave Behind’s greatest strengths. From the opening strains of “Slaying Star”, the album takes on an almost cinematic dimension, establishing a mood that quickly gives way to the speed and fury of “Sleipnir”. The track feels like a statement of intent: fast guitars, extreme drumming, orchestration and aggressive vocals come together in a sound that is simultaneously epic and threatening.

“Tempestbound” shifts the focus towards the band’s more melodic side. Guitars and choirs drive an inherently epic composition, while the chorus demonstrates that, even within such an extreme musical framework, Brymir have not lost sight of the importance of a melody that stays with you long after the song has ended.

The title track takes that idea further. “What We Leave Behind” combines modern elements with echoes of the band’s Finnish roots, moving between aggression and melancholy in a composition that seems to encapsulate the album’s central concept. There is weight, but there is also room to breathe; there is grandeur, but it never overwhelms the melodies.

If the first half establishes that balance, “True Darkness” reveals a considerably darker side of the band. Blast beats, extreme rhythms and more menacing textures bring Brymir closer to symphonic black metal territory, without forcing them to abandon their melodic instincts. It is precisely this contrast between brutality and grandeur that begins to reveal a broader personality than the one presented on their earlier work.

“Moment of Silence” provides a brief respite before “Buried Legion”, one of the tracks where the album’s cinematic dimension becomes particularly apparent. The combination of aggressive vocals, orchestration and an almost warlike atmosphere turns the song into a kind of epic march, while “Thy Self the Highest Love” sets the stage for the album’s closing stretch.

On “The Roaring King” and, particularly, “Broken Dawn”, the band ease back from some of the urgency heard earlier, instead embracing slower, more melancholic and expansive arrangements. Rather than representing a loss of intensity, this change in dynamics broadens the album’s emotional range. Here, heaviness is no longer necessarily tied to speed, but also to atmosphere, tension and emotion.

This is where Viktor Gullichsen’s experience as a cinematic sound designer seems particularly relevant. Keyboards, effects, choirs and arrangements are not merely decorative additions to the guitars and drums; they help create environments, shape transitions and give the album a narrative dimension. At times, What We Leave Behind sounds like the soundtrack to a film that never existed.

And then comes “How Much Is The Fish?”, the unexpected cover of Scooter’s Eurodance classic. After such a carefully constructed sequence, the choice inevitably comes as something of a surprise, but it also reveals a Brymir willing to step outside its own grandeur and not take itself too seriously. Recast as a melodic death metal track, it works as an irreverent epilogue while also connecting with the environmental concerns running through the album’s concept.

One of the album’s major strengths, however, lies in its production. With heavy guitars, extreme drumming, vocals, keyboards, orchestration and choirs all occupying the same sonic space, there is always a risk of turning everything into an indistinct wall of sound. That never happens here. Each layer has room to breathe, allowing details to remain audible even at the album’s most densely packed moments. It is a production that serves both impact and clarity.

More than simply making Brymir heavier, What We Leave Behind shows a band intent on expanding its sonic palette without losing its identity. Melodic death metal remains at the core, but it now shares the stage organically with symphonic, cinematic, folk, pagan, power and black metal elements.

And perhaps balance is the word that best defines the album. Brymir move between aggression and restraint, heaviness and melody, speed and atmosphere in carefully measured doses, allowing the record to maintain its strength throughout. Even when the intensity drops, the band never loses the tension; when they accelerate, they never sacrifice melody.

What We Leave Behind is ultimately a record that looks back at different points in Brymir’s journey without becoming trapped by them. It is extreme yet accessible, grand yet attentive to detail, dark yet deeply melodic. Above all, it shows a band that seems to understand that evolution does not mean abandoning what made them recognizable — it means discovering just how far that identity can go.


Lacrimas Profundere: Entre a Melancolia Gótica e a Violência Moderna

Steamhammer (Imp.)

Por Stephanie Ferreira

Há bandas que passam décadas tentando preservar uma identidade. O Lacrimas Profundere fez algo um pouco mais complicado: passou décadas descobrindo quantas formas diferentes essa identidade poderia assumir sem deixar de ser reconhecível.

Formado em 1993, o grupo alemão atravessou o death/doom dos primeiros trabalhos, mergulhou no gothic metal e no dark rock e, nos últimos anos, incorporou elementos cada vez mais modernos à sua sonoridade. Lay Me Down O Silent Fear, lançado em 25 de setembro pela Steamhammer, chega quatro anos depois de How To Shroud Yourself With Night e encontra a banda em um ponto particularmente interessante dessa trajetória. São dez faixas distribuídas em pouco mais de 40 minutos, mas a sensação é de que o Lacrimas Profundere está tentando colocar várias versões de si mesmo dentro do mesmo disco.

Mick Figura

1. Days Of Doom

A primeira faixa já dá uma pista importante sobre o caminho escolhido pela banda. Days Of Doom começa com um peso quase físico, sustentado por uma linha de baixo que evoca o doom e por guitarras que deixam o andamento mais encorpado. Quando Julian Larre entra com os vocais extremos, a música imediatamente ganha uma segunda camada de agressividade.

O detalhe que impede a faixa de virar simplesmente metal moderno é a maneira como a banda mantém a atmosfera gótica por baixo dessa brutalidade. Há melodia, há espaço para os vocais limpos e há aquele sentimento de decadência que sempre fez parte do DNA do Lacrimas Profundere.

2. Nevermore

Se Days Of Doom apresenta a faceta pesada, Nevermore lembra por que o Lacrimas Profundere ainda consegue funcionar tão bem quando simplesmente deixa o gothic rock respirar.

A guitarra assume um papel mais melódico, o andamento fica mais acessível e Larre abandona parte da agressividade para entregar um vocal limpo, grave e bastante expressivo. A atmosfera remete à tradição do gothic metal europeu, com aquela combinação de romantismo sombrio, melodia pegajosa e guitarras que parecem carregar uma espécie de nostalgia permanente.

3. Heart I Will Break You Before You Break Me

O título enorme combina perfeitamente com uma música que também se recusa a ser simples. Heart I Will Break You Before You Break Me começa trabalhando uma atmosfera mais contemplativa, mas logo abre espaço para guitarras mais pesadas, bateria mais intensa e mudanças vocais. É uma das composições que melhor representam a proposta híbrida do disco.

Há também um cuidado maior com as camadas de produção. Teclados e elementos orquestrais aparecem por trás da banda sem dominar a composição, aumentando a sensação cinematográfica. 

4. O Silent Fear

Aqui o álbum finalmente revela seu verdadeiro cartão de visitas. Com mais de cinco minutos, O Silent Fear é uma das composições mais desenvolvidas do disco e também uma das mais agressivas. O riff principal tem uma energia que aproxima o Lacrimas Profundere do death metal melódico, enquanto os vocais extremos de Larre aumentam a sensação de urgência.

5. Agony (In Dread And Dust)

Depois de quatro músicas relativamente densas, Agony (In Dread And Dust) desacelera. A faixa mergulha mais profundamente no doom, com uma construção arrastada e um vocal que transmite mais resignação do que raiva. Larre trabalha muito bem essa mudança de registro, deixando os vocais extremos menos explosivos e mais integrados à atmosfera.

Talvez seja também uma das faixas que mais se beneficiam de repetição. Na primeira passagem, ela pode parecer menos imediata. Depois, os detalhes de guitarra, as camadas atmosféricas e o peso do arranjo começam a fazer mais sentido.

6. Faceless

Se existe uma música que coloca o lado moderno do Lacrimas Profundere no centro da mesa, é Faceless. O riff é mais direto, a bateria ganha uma postura mais agressiva e os vocais extremos de Larre aparecem com muito mais intensidade. A música tem elementos que remetem claramente ao metalcore, mas a banda não abandona os refrães melódicos que sustentam sua identidade.

7. Arcane Promises

Arcane Promises recupera parte dessa agressividade, mas com uma abordagem mais épica. Os riffs são grandes, a produção cria bastante espaço para os teclados e o refrão tem uma dimensão quase de hino. A música também flerta novamente com o metalcore, incluindo uma quebra mais pesada, mas consegue equilibrar isso com uma estrutura mais melódica.

É uma das faixas em que a produção aparece com mais força. Tudo parece maior: guitarras, bateria, vocais e efeitos. Existe quase uma sensação cinematográfica no arranjo, como se o Lacrimas Profundere estivesse tentando transformar seu gothic metal em algo mais monumental.

8. A Sinful Desire

A Sinful Desire recupera o romantismo sombrio que praticamente define o nome Lacrimas Profundere. O riff de abertura é simples o suficiente para ficar na cabeça, mas a faixa rapidamente ganha corpo com a alternância entre vocais limpos e agressivos. O refrão é provavelmente um dos mais fáceis de cantar junto em todo o álbum.

E aqui aparece novamente uma característica interessante da voz de Larre: ele consegue transitar de um registro profundo e sombrio para uma interpretação mais aberta sem parecer que estamos ouvindo dois vocalistas diferentes.

Há, inclusive, momentos em que seu timbre mais limpo lembra determinadas escolas do metal alternativo contemporâneo. Essa aproximação pode ser vista como qualidade ou como excesso de referência, dependendo do ouvido de quem escuta.

9. Veil XV

E então o álbum encontra seu momento mais delicado. Veil XV é uma balada, mas o termo não dá conta de sua construção. A música começa de maneira contida e gradualmente amplia o arranjo até chegar a um refrão de proporções muito maiores.

A música trabalha justamente com contenção e expansão, deixando que a emoção venha do arranjo e da melodia em vez de depender de exageros vocais. As guitarras aparecem com mais peso conforme a música cresce, enquanto as camadas atmosféricas dão ao refrão uma dimensão quase cinematográfica.

10. At The End Of A Dream Lies The Hope You Once Killed

O título parece uma sentença. A música também. Depois da delicadeza de Veil XV, o Lacrimas Profundere encerra o álbum retomando a agressividade. A guitarra entra pesada, a bateria empurra a composição para frente e Larre volta aos vocais extremos com uma intensidade que faz a faixa parecer quase uma reação física à melancolia anterior.


Mick Figura

Confira a tracklist completa:

1. Days Of Doom 

2. Nevermore 

3. Heart I Will Break You Before You Break Me

4. O Silent Fear

5. Agony (In Dread And Dust)

6. Faceless

7. Arcane Promises

8. A Sinful Desire

9. Veil XV

10. At The End Of A Dream Lies The Hope You Once Killed

Skáld: Entre Destino, Escolha e Os Ecos de Um Mundo Antigo

Napalm Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Há discos que contam uma história. Há outros que tentam fazer o ouvinte entrar nela. Ørlǫg, quarto álbum de estúdio do SKÁLD, pertence definitivamente à segunda categoria.

Lançado em 25 de setembro pela Napalm Records, o trabalho encontra no próprio título o conceito que organiza sua existência: no pensamento nórdico, ørlǫg está relacionado às bases primordiais que estruturam o destino, aquilo que foi estabelecido antes de nós. Mas o SKÁLD não trata esse destino como uma sentença imutável. Ao longo das dez faixas, a banda francesa trabalha justamente com a tensão entre aquilo que herdamos e aquilo que fazemos com o que recebemos.

1. Draumakona

A primeira faixa já deixa claro que Ørlǫg não será uma coleção aleatória de músicas inspiradas na mitologia nórdica. Existe uma construção quase hipnótica aqui. A percussão mantém o pulso enquanto a voz feminina conduz a narrativa e os demais vocais entram progressivamente, criando uma espécie de diálogo entre indivíduo e coletivo.

A música fala sobre a dimensão feminina da profecia e da visão xamânica, colocando as Nornas no centro dessa narrativa. E a escolha de começar o álbum dessa maneira é extremamente coerente: antes de falar sobre destino, o SKÁLD apresenta quem o enxerga, interpreta e, de certa maneira, ajuda a tecê-lo.

2. Myrkviðr

Se Draumakona apresenta o lado mais etéreo do álbum, Myrkviðr coloca os pés no chão. A mudança de protagonismo vocal é perceptível logo de cara. As vozes masculinas assumem a frente e a faixa ganha uma densidade diferente, com uma pulsação mais firme e uma sensação de movimento mais pronunciada.

Mas o interessante está na história por trás da música. Christophe Voisin Boisvinet contou que Myrkviðr parte de uma antiga lenda ligada a uma floresta onde humanos, animais e elfos conviviam até que a exploração excessiva da natureza rompeu esse equilíbrio. A floresta é destruída pelo fogo e somente uma chuva de sangue consegue apagar as chamas.

3. Ratatoskr

Aqui o SKÁLD fica particularmente interessante. Ratatoskr poderia facilmente ter virado uma música folclórica simpática sobre o famoso esquilo que percorre Yggdrasil levando mensagens entre seus habitantes. Em vez disso, a banda transforma o personagem em uma representação bastante contemporânea da provocação, da fofoca e da disseminação de conflitos.

E a escolha sonora acompanha isso. A percussão seca, os sons repetitivos e o canto gutural criam uma sensação quase mecânica. A repetição do nome Ratatoskr começa a funcionar como um mantra, mas também como algo perturbador.

4. Dǫkksalir

Depois da tensão de Ratatoskr, Dǫkksalir parece abrir uma janela para outro lugar. A música é muito mais delicada. As melodias desaceleram e os vocais assumem uma qualidade quase hipnótica, próxima de uma canção de ninar.

Só que existe algo inquietante por baixo dessa beleza. A faixa trata das criaturas do mar e das sereias que atraem aqueles que se aproximam, e a escolha de fazer a composição soar tão doce cria exatamente o contraste necessário. A música seduz antes de ameaçar.

É uma das melhores decisões de arranjo do disco porque o SKÁLD não precisa tornar o perigo explicitamente agressivo. Pelo contrário: quanto mais bonita a superfície, mais desconfortável fica a ideia de aquilo estar escondendo alguma coisa.

5. Útgarðr

Se há uma música que transforma a experiência vocal do álbum em espetáculo, é Útgarðr. Aqui, as diferentes vozes deixam de funcionar apenas como acompanhamento e passam a ser personagens dentro da própria composição. Elas se alternam, se sobrepõem e, em determinados momentos, parecem disputar espaço.

O resultado é um arranjo que cresce progressivamente até chegar a um clímax bastante expressivo. É também um dos melhores exemplos daquilo que Christophe descreve como uma espécie de “caos controlado”: vozes com timbres diferentes são colocadas umas sobre as outras para criar contraste, em vez de simplesmente buscar uma harmonia perfeitamente uniforme.

6. Ek skal riða

Com mais de seis minutos, Ek skal riða é a faixa que mais exige paciência do ouvinte. E talvez seja justamente por isso que ela funciona melhor dentro do álbum do que isoladamente.

Depois do impacto de Útgarðr, a música parece recolher tudo para dentro. Os vocais ficam mais espaçados e os instrumentos passam a trabalhar de maneira mais atmosférica. A composição tem uma qualidade ritualística muito forte, como se estivéssemos diante de uma cerimônia que ainda não chegou ao seu ponto culminante.

7. Himinbjǫrg

E então o álbum volta a se movimentar. Himinbjǫrg tem uma pulsação muito mais física. Existe algo quase dançante na maneira como a percussão conduz a faixa, mas sem abandonar a atmosfera ritualística que domina todo o disco.

A temática também combina com essa sensação de passagem: Himinbjǫrg está ligado ao lugar de Heimdall, o guardião da ponte Bifröst, e a música parece construir justamente essa ideia de travessia.

O contraste entre a voz masculina mais profunda e os vocais femininos é particularmente eficiente. Não é apenas uma questão de timbre: as diferentes vozes parecem representar perspectivas diferentes dentro da mesma narrativa.

8. Heiemo og Nykkjen

Uma das decisões mais interessantes de Ørlǫg está justamente aqui. Heiemo og Nykkjen nasce diretamente de uma antiga balada medieval norueguesa. A protagonista, Heiemo, enfrenta o Nykkjen, uma criatura aquática associada ao perigo, e não espera passivamente por um salvador. Ela assume o próprio destino.

9. Veit barnit

Com pouco menos de dois minutos, Veit barnit é praticamente uma passagem. E justamente por isso seria um erro julgá-la pelos mesmos critérios das demais faixas.

A presença de uma voz infantil muda completamente a atmosfera. Depois de tantas vozes adultas, graves, guturais, femininas e corais, existe algo quase inocente nessa pequena interrupção. Mas a inocência não significa ausência de significado.

A faixa trabalha com a ideia do conhecimento das crianças e funciona como uma espécie de suspensão antes do encerramento. É como se o álbum, depois de atravessar tantos personagens, mundos e interpretações sobre destino, parasse por alguns instantes para ouvir uma voz que ainda não carrega todo esse peso.


10. Eldr ok íss

E Ørlǫg termina exatamente como deveria: no caos. Eldr ok íss, “fogo e gelo”, é o encerramento mais sombrio do álbum e recupera a dimensão primordial da mitologia nórdica. A faixa faz referência ao encontro entre o fogo de Muspelheim e o gelo de Niflheim, forças associadas à criação do mundo e ao surgimento de Ymir.

O álbum começa com uma visão e termina diante das forças primordiais que existiam antes dela. Entre uma coisa e outra, o SKÁLD percorre florestas, mundos, criaturas, pontes, histórias medievais e personagens que representam diferentes formas de lidar com aquilo que não podemos controlar.


Romy Lena

Confira a tracklist completa:

1. Draumakona 

2. Myrkviðr 

3. Ratatoskr

4. Dǫkksalir

5. Útgarðr

6. Ek skal riða

7. Himinbjǫrg 

8. Heiemo og Nykkjen 

9. Veit barnit 

10. Eldr ok íss

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Cobertura de Show: Paul Gilbert – 08/09/2026 – Fabrique Club/SP

Após a despedida do Mr. Big dos palcos, Paul Gilbert retornou ao Brasil para mostrar que o fim de sua ex-banda está longe de significar uma diminuição em sua atividade musical. Na terça-feira, 8 de setembro, o guitarrista norte-americano subiu ao palco do Fabrique Club, em São Paulo, para uma apresentação baseada principalmente em sua carreira solo e no recém-lançado álbum "WROC". Diferentemente de outras passagens pelo país, desta vez o público foi modesto, mas isso não impediu que aqueles que estavam presentes recebessem uma verdadeira aula de guitarra. Com Doug Rappoport na segunda guitarra, Timmer Blakely no baixo e Jeff Martin na bateria, o mesmo Jeff que já cantou no Racer X e tocou com nomes como Michael Schenker, Gilbert encontrou uma banda extremamente entrosada para reproduzir um repertório que transita pelo hard rock, blues, pop e pelo seu conhecido virtuosismo.

Já no início, com "Crazy PG Medley", ficou evidente que a noite seria dedicada àquilo que Gilbert sabe fazer como poucos: transformar a guitarra em protagonista sem deixar que a técnica se torne um mero exibicionismo. Dentro desse medley de mais de 20 minutos, Paul passeou por sua carreira solo, mas o destaque ficou quando tocou "Scarified", do Racer X, e lembrou de dois clássicos do Mr. Big: "Green-Tinted Sixties Mind" e "To Be With You", na qual o guitarrista chegou a cantar um trecho. Nem precisa dizer que os foran foram à loucura. "Let Thy Carriage", "Spark of Celestial Fire", "Every Action Done in Company" e "Maintain a Sweet and Cheerful Countenance" deram sequência à apresentação, revelando diferentes facetas do guitarrista. O som do Fabrique Club colaborou bastante para o resultado. Instrumentos perfeitamente definidos e uma guitarra cristalina permitiram acompanhar cada detalhe da execução, desde as passagens mais delicadas até os momentos em que Gilbert simplesmente acelerava as mãos e fazia parecer fácil aquilo que, para qualquer outro músico, seria uma tarefa quase impossível.

Outro momento interessante foi quando o guitarrista deixou um pouco de lado o peso para explorar outras referências que ajudaram a formar sua identidade musical. "Mother, Father", do Journey, apareceu em uma interpretação que valorizou sua bela melodia com emoção. O jogo já estava ganho, mas Paul resolveu que também destrói com o violão. O que já parecia absurdo na guitarra se tornou surreal no instrumento acústico. Foi aquele momento em que o público ficou hipnotizado diante de tamanha destreza. Na sequência, "Thunderbird", do ZZ Top, e "Last Child", do Aerosmith, trouxeram aquele espírito clássico do rock norte-americano. A escolha das versões deixou claro que, por trás do shredder que ficou conhecido pela velocidade e precisão, existe um músico profundamente conectado às raízes do rock.

A nova fase da carreira também ganhou bastante espaço. "If You Soak Bread in the Sauce", "Orderly and Distinctly" e "Keep Your Feet Firm and Even" mostraram que Paul Gilbert não está interessado apenas em revisitar o passado. Havia muitos músicos presentes, alguns estavam até com seus instrumentos no local, que puderam apreciar Paul cantando e solando como se estivesse dando uma aula particular para cada guitarrista presente. A jam entre Paul e Doug culminou com a clássica "Baba O'Riley", do The Who, e a versão avassaladora de "Rock and Roll", do Led Zeppelin, fizeram o Fabrique Club tremer. Mesmo com o público reduzido, a resposta foi calorosa: gritos, aplausos e aquela reverência nos momentos de maior virtuosismo.

Para fechar, Gilbert executou "Show Not Yourself Glad (at the Misfortune of Another)" e "Go Not Thither", encerrando a noite com a mesma elegância e técnica com que começou. Não houve hits óbvios do Mr. Big ou Racer X em formato completo, e isso foi proposital: o show era sobre o Paul Gilbert de agora, o compositor e performer que continua reinventando o próprio jogo. Para quem esteve no Fabrique Club naquela terça-feira, a quantidade de pessoas dentro da casa pouco importou diante do que aconteceu no palco. Paul Gilbert entregou uma apresentação tecnicamente impecável, com excelente qualidade sonora, repertório diversificado e uma banda que correspondeu à altura. O guitarrista provou que, mesmo depois do encerramento das atividades do Mr. Big, sua história está longe de terminar. Entre solos virtuosos, momentos acústicos, covers certeiros e músicas nas quais também assume o microfone, Gilbert ofereceu muito mais do que um simples show: proporcionou uma verdadeira aula de guitarra, rock e musicalidade.

Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Amanda Vasconcelos


Realização: IDL Entertainment

Press: Tedesco Comunicação & Mídia


Paul Gilbert – setlist:

Crazy PG Medley

Let Thy Carriage

Spark of Celestial Fire / Every Action

Maintain a Sweet and Cheerful Countenance

Mother, Father (Journey cover)

Thunderbird (ZZ Top cover)

Last Child (Aerosmith cover)

If You Soak Bread in the Sauce

Orderly and Distinctly

Keep Your Feet Firm and Even

Baba O'Riley (The Who cover)

Rock and Roll (Led Zeppelin cover)

Show Not Yourself Glad (at the Misfortune of Another)

Go Not Thither

Cobertura de Show: Anette Olzon – 26/09/2026 – Teatro APCD/SP

Exatamente um ano depois do incrível show realizado na VIP Station, em São Paulo, a ex-vocalista do Nightwish, Anette Olzon, retornou à cidade para uma apresentação que, desde o primeiro momento, prometia ser diferente. Se em 2025 ela havia conquistado o público brasileiro com um show energético, pesado e marcado pela proximidade com os fãs, desta vez a proposta era ainda mais ambiciosa: revisitar grandes clássicos de sua passagem pelo Nightwish acompanhada por banda, coral e uma orquestra sinfônica.

O local escolhido foi o confortável Teatro APCD, na zona norte de São Paulo, e a escolha não poderia ter sido mais acertada. Afinal, aquela não seria uma noite para simplesmente reproduzir um show tradicional de metal. Seria uma experiência essencialmente sinfônica, e o ambiente de teatro, com o público acomodado em suas poltronas, criou o cenário perfeito para que os arranjos ganhassem espaço e fossem apreciados em todos os seus detalhes. Talvez a mesma apresentação não tivesse o mesmo impacto em uma casa de shows convencional.

Antes de Anette, quem teve a missão de aquecer a plateia foi a banda curitibana Magistry, que, curiosamente, também havia realizado a abertura do show da cantora em São Paulo no ano anterior. A diferença é que, desta vez, o grupo estava diante de uma plateia de teatro e fazendo parte de uma noite de proporções muito maiores.

Formado por Lya Seffrin nos vocais, Leonardo Arentz e João Borth nas guitarras, Thiago Parpinelli nos teclados, Leonardo Rivabem no baixo e Johan Wodzynski na bateria, o Magistry entregou uma apresentação bastante consistente e mostrou que a escolha para a abertura não havia sido por acaso.

O grande destaque ficou por conta da carismática Lya Seffrin. Em diversos momentos empunhando um grande leque, a vocalista acrescentou um interessante elemento teatral à apresentação, alternando delicadeza, emoção e potência vocal. O guitarrista Leonardo Arentz também demonstrou bastante simpatia e se comunicou diversas vezes com o público, criando uma conexão muito natural com a plateia.

O repertório passou por músicas dos trabalhos mais recentes da banda e ainda trouxe uma faixa inédita, apresentada pela primeira vez ao vivo. Mas o momento mais especial veio quando os músicos diminuíram a intensidade e prepararam uma pequena apresentação acústica. Thiago Parpinelli assumiu a harpa e criou um momento intimista que, de certa forma, já preparava o público para a atmosfera que dominaria o restante da noite. Uma abertura muito bem escolhida para o espetáculo que estava por vir.

Quando os músicos da Camerata Filarmônica de Indaiatuba começaram a ocupar seus lugares no palco, a expectativa aumentou. A plateia se acomodou em suas cadeiras e, pouco depois, surgiu a maestrina Natália Laranjeira. Depois de cumprimentar o público, ela deu início à introdução de “Taikatalvi”, faixa que abre Imaginaerum. Os primeiros acordes começaram a preencher o teatro e, gradualmente, os músicos da banda de Anette foram tomando seus lugares: Filipe Duarte nos vocais e baixo, Vithor Moraes nos teclados, Sanzio Rocha na guitarra e Kiko Lopes na bateria.

Havia ainda uma conexão especial com a banda de abertura. Lya Seffrin e João Borth participaram do coral, enquanto Thiago Parpinelli assumiu a harpa. Era uma formação que unia diferentes elementos daquela noite e que deixava claro que não estávamos diante de um simples show de rock acompanhado por alguns instrumentos clássicos. A proposta era outra.

Eis que se inicia “Storytime”. Quando Anette Olzon surgiu no palco, o primeiro impacto foi perceber o quanto ela parecia feliz. Com um enorme sorriso no rosto, a cantora cumprimentou o público e iniciou uma apresentação marcada por uma energia impressionante. Durante praticamente todo o espetáculo, Anette parecia uma criança em um parque de diversões. Pulava, brincava com os músicos, interagia com a plateia e demonstrava uma alegria genuína por estar novamente em São Paulo.

Parte dessa espontaneidade certamente vem do entrosamento que ela criou com os músicos brasileiros. A cantora fez questão de manter em sua banda os mesmos profissionais que a acompanharam nas apresentações pela América Latina no ano anterior. A relação entre eles é visível no palco, tamanha a liberdade com que Anette interage com cada um. A conexão foi tão forte que ela chegou a exigir que essa mesma formação estivesse presente também em suas apresentações europeias realizadas nos meses de julho e agosto.

O show seguiu com “7 Days to the Wolves” e “Ghost River”, nas duas com Filipe Duarte dividindo os vocais com Anette. E aqui tivemos um daqueles momentos em que a memória dos fãs inevitavelmente volta ao Nightwish. Em determinadas passagens, bastava fechar os olhos para ter a sensação de que Marko Hietala estava novamente ali. O timbre de Filipe e sua maneira de interpretar a música criaram uma combinação muito interessante com a voz de Anette.

Alguns espectadores talvez tenham sentido falta daquele peso mais evidente das guitarras e de uma sonoridade mais “gorda”, característica de um show tradicional de metal. Mas é importante entender que a proposta daquela noite era outra. Não se tratava de simplesmente reproduzir um show convencional do Nightwish. A intenção era justamente explorar a dimensão sinfônica das músicas.

E isso ficou cada vez mais evidente conforme o repertório avançava.

“Song of Myself”, “Amaranth”, “Rest Calm” e “Scaretale” ganharam novas dimensões com a presença da orquestra e do coral. Em especial, “Scaretale” mostrou como Imaginaerum pode se transformar quando todos aqueles elementos que fazem parte de sua concepção original são apresentados juntos no palco. A música ganhou uma atmosfera quase cinematográfica, reforçando ainda mais o caráter teatral daquele álbum.

Na sequência veio “Last of the Wilds”, instrumental, momento em que Anette fez questão de elogiar sua banda solo e pedir ao público que observasse o quanto aqueles músicos eram incríveis.

Outra novidade em relação ao show realizado em 2025 foi a inclusão de uma música da carreira solo da cantora. Anette escolheu “Like a Show Inside My Head”, do álbum Shine, de 2014. Foi uma maneira interessante de lembrar que, embora sua história com o Nightwish seja naturalmente uma parte gigantesca de sua trajetória, existe também uma Anette com uma identidade musical própria construída ao longo de sua carreira solo.

Mas o clima mudou completamente quando algumas cadeiras foram colocadas no palco. Anette anunciou que prepararia algo realmente especial e que apresentaria uma música que o Nightwish nunca havia tocado ao vivo, somente eles tinham tocado em 2025 em São Paulo e iriam repetir ali.

Começaram então os primeiros acordes de “Turn Loose the Mermaids”.

O teatro mergulhou em uma atmosfera intimista. A música ganhou uma interpretação delicada e emocionante, criando um dos momentos mais bonitos da noite. Em seguida veio “The Islander”, quando Anette gentilmente abriu espaço para Filipe Duarte assumir os vocais. Essa também foi uma música que não havia feito parte do repertório do show do ano anterior, tornando aquele momento ainda mais especial para quem acompanhava a trajetória da cantora no Brasil.

Mas ainda havia uma carta na manga. Depois de uma pequena pausa, Anette anunciou que viria algo realmente especial. E veio. A introdução de “The Poet and the Pendulum” começou a tomar conta do teatro. Naquele momento, finalmente ficou absolutamente claro por que aquela orquestra estava ali.

Ouvir “The Poet and the Pendulum” sendo executada ao vivo por uma orquestra de verdade, acompanhada pela banda e pelo coral, foi uma experiência arrebatadora. Durante seus quase 14 minutos, a música conduziu todos de volta ao final dos anos 2000, época do lançamento de Dark Passion Play, o álbum que marcou a estreia de Anette no Nightwish.

A interpretação foi crescendo gradualmente até atingir seu ápice, enquanto era possível observar diversos rostos na plateia emocionados, alguns literalmente com lágrimas nos olhos, cantando cada palavra como se não houvesse amanhã.

“Getaway, runaway, fly away

Lead me astray to dreamer's hideaway!”

Foi um daqueles momentos em que música e memória se encontram.

A composição também reforça a genialidade de Tuomas Holopainen, tecladista e principal mente criativa por trás do Nightwish. Toda aquela construção, que já era grandiosa na gravação original, ganhou uma dimensão completamente diferente quando executada diante do público por músicos de uma orquestra.

Ao final, a plateia se levantou para aplaudir. Muitos ainda estavam visivelmente emocionados. E então Anette soltou uma frase que provocou ainda mais aplausos: “Nunca fizemos isso com orquestra. Nós fizemos primeiro aqui!”

Uma brincadeira carinhosa com sua antiga banda e, ao mesmo tempo, uma maneira de celebrar aquele momento único em São Paulo.

O clima permaneceu emocional com “Meadows of Heaven”. Antes de começar a música, Anette contou uma pequena história pessoal. Disse que sempre foi cristã e que, quando Tuomas apresentou aquela composição a ela durante as gravações de Dark Passion Play, recebeu a música como uma espécie de bênção. Talvez por isso sua interpretação tenha sido tão intensa.

Anette realmente entregou sua alma naquela música. A orquestra e o coral reforçaram o caráter solene da composição e criaram outro daqueles momentos em que o teatro inteiro parecia respirar no mesmo ritmo. Depois de tanta emoção, Anette anunciou que chegava a hora da última música.

Mas antes fez questão de lembrar que o show realizado exatamente um ano antes, em São Paulo, havia sido muito importante para sua retomada profissional. Segundo a própria cantora, aquela apresentação e a energia que recebeu dos músicos brasileiros haviam dado uma nova força para sua carreira. Ela agradeceu ao público e então perguntou: “Vocês sabem qual é a próxima, né?” A resposta veio imediatamente. “Last Ride of the Day!”

A música começou e Anette pediu para que todos deixassem suas poltronas. O público atendeu imediatamente. Em poucos segundos, o teatro estava novamente tomado por pessoas cantando, dançando e celebrando.

Parecia o fim. Mas ainda havia uma surpresa. Anette contou que havia recebido muitos pedidos do fã-clube brasileiro para apresentar uma música de seu último álbum solo, Rapture, lançado em 2024. E decidiu atender ao pedido. A escolhida foi justamente a faixa-título, “Rapture”, que encerrou definitivamente a apresentação. Foi um fechamento perfeito para uma noite que conseguiu equilibrar passado e presente. O Nightwish esteve presente em boa parte do repertório, mas a carreira solo de Anette também ganhou seu espaço. E talvez seja justamente essa a melhor maneira de definir o show realizado no Teatro APCD.

Não foi simplesmente uma apresentação para fãs do Nightwish, foi uma celebração da música.Uma banda afiada, uma orquestra executando os arranjos com precisão, um coral acrescentando ainda mais profundidade às composições e, no centro de tudo, uma Anette Olzon feliz, emocionada, cheia de energia e com a voz em excelente forma.

A presença da Camerata Filarmônica de Indaiatuba, sob a regência da maestrina Natália Laranjeira, foi fundamental para que a proposta funcionasse. As músicas de Dark Passion Play e Imaginaerum ganharam novas dimensões e mostraram que existe uma riqueza enorme nesses arranjos quando eles são apresentados ao vivo com todos os elementos. E o Teatro APCD foi o cenário perfeito.

A proximidade do público, a disposição das cadeiras e a atmosfera do espaço fizeram com que a apresentação tivesse algo de concerto, algo de espetáculo teatral e, ao mesmo tempo, toda a energia de um show de rock.

Durante o espetáculo, os produtores locais foram chamados ao palco para receber os agradecimentos da própria Anette. E eles haviam preparado algo especial para a cantora. Entregaram a ela um RG brasileiro. Visivelmente emocionada, Anette afirmou que se sente brasileira e revelou que tem planos de, algum dia, morar no Brasil. Depois de uma noite como essa, fica difícil não fazer um convite. Venha Anette, more no Brasil, crie mais música por aqui e continue nos presenteando com noites memoráveis como essa.

Desde os tempos de Nightwish até sua carreira solo, Anette Olzon construiu uma relação muito especial com o público brasileiro. E, em 26 de setembro de 2026, ela escreveu mais um capítulo dessa história. Uma banda excelente, uma orquestra impecável, grandes músicas, memórias, lágrimas, sorrisos e uma cantora visivelmente feliz por estar novamente diante do público brasileiro. Se o show de 2025 marcou a retomada de Anette aos palcos brasileiros, o espetáculo de 2026 mostrou que aquela história estava apenas começando. A Night to Remember. Agora, definitivamente, com uma orquestra.



Fotos: Pri Secco


Realização: Estética Torta



Anette Olzon – setlist:

Taikatalvi

Storytime

7 Days to the Wolves

Ghost River

Song of Myself

Amaranth

Rest Calm

Last of the Wilds

Scaretale

Like a Show Inside My Head

Turn Loose the Mermaids

The Islander

Bis

The Poet and the Pendulum

Meadows of Heaven

Last Ride of the Day

Rapture