terça-feira, 20 de outubro de 2026

John Coffey: A Força de Gritar Junto Quando o Mundo Pesa

Long Branch Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Existem bandas que transformam a agressividade em identidade. Outras conseguem fazer dela uma linguagem para falar sobre aquilo que nem sempre sabemos como expressar. O John Coffey pertence às duas categorias. Em Not Alone, seu sexto álbum de estúdio, o quinteto neerlandês transforma guitarras abrasivas, vocais intensos e ritmos acelerados em um trabalho que fala de resistência, empatia e conexão humana. São dez faixas distribuídas em pouco mais de 30 minutos, sem espaço para grandes desvios, mas com algumas mudanças de dinâmica que impedem o disco de se tornar apenas uma sequência de pancadas.

Lançado pela Long Branch Records, o álbum chega depois do retorno da banda às atividades, iniciado com FOUR, de 2023, após um hiato de aproximadamente sete anos. Em vez de tentar recuperar o passado nota por nota, o John Coffey retoma os elementos que ajudaram a construir sua identidade e os coloca a serviço de um repertório que alterna urgência punk, peso hardcore, melodias de rock alternativo e passagens de sensibilidade grunge. Essa combinação também aparece nas primeiras avaliações internacionais, que destacam tanto a energia instrumental quanto a capacidade do grupo de abrir espaço para refrões mais acessíveis.

Nick Helderman

1. Hang the Choir

A abertura é um dos momentos mais eficientes do disco. Os riffs têm um ataque quase imediato, enquanto as mudanças de voz ampliam a impressão de que a música está sendo construída por várias pessoas, e não apenas conduzida por um vocalista. Essa dimensão coletiva combina com o tema da faixa, que aborda a defesa de quem sofre preconceito ou é tratado como alguém que não pertence ao ambiente ao redor.

A composição não precisa de uma introdução longa para estabelecer sua identidade. O John Coffey aposta em uma estrutura compacta, com energia suficiente para imaginar a música funcionando como um dos pontos de explosão de um show. A melodia ajuda a fixar o refrão, mas as guitarras preservam a aspereza necessária para que a mensagem não soe domesticada.

2. Not Alone

A faixa-título representa uma das decisões mais importantes do álbum: desacelerar depois de uma abertura tão explosiva. Em vez de continuar na mesma direção, o John Coffey reduz a pressão instrumental e deixa a melodia ocupar o primeiro plano. A voz de David Achter de Molen ganha uma característica mais aberta e emocional, com uma abordagem que aproxima a música do grunge e do rock alternativo.

O contraste funciona porque a delicadeza não parece artificial. A faixa foi escrita em memória de Niels van den Ham, amigo da banda que morreu por suicídio, e transforma essa perda em um chamado à escuta, à compreensão e à importância de procurar conexão quando a vida se torna difícil. A própria banda apresentou a música como uma lembrança de que aquilo que sentimos não precisa ser enfrentado em isolamento.

Esse contexto muda a maneira como o refrão é recebido. A mensagem aparece como o centro emocional de um disco que entende a música pesada como espaço de acolhimento. Em um álbum relativamente curto, a faixa-título também funciona como ponto de equilíbrio: ela dá profundidade ao que veio antes e prepara o ouvinte para as mudanças de dinâmica que ainda estão por vir.

3. Push Push Push

Se “Not Alone” abre uma janela para o lado mais vulnerável da banda, “Push Push Push” volta a fechar os punhos. A música recupera o caráter físico do álbum com riffs angulares, mudanças de acentuação e uma sensação de urgência que mantém o ouvinte em alerta.

O trabalho das guitarras merece atenção. Em vez de depender exclusivamente de acordes pesados e velocidade, a faixa utiliza pequenas quebras e movimentos menos previsíveis para criar tensão. Essa abordagem aproxima o John Coffey de uma tradição de hardcore que valoriza tanto a força do impacto quanto a personalidade do riff.

A composição pode parecer caótica em uma primeira aproximação, mas existe organização por trás dessa impressão. Os elementos se encaixam para produzir uma descarga de energia controlada, e a curta duração evita que a ideia perca força. É uma das faixas que melhor representam o lado mais agressivo do álbum.

4. It's You

“It's You” muda novamente a temperatura do disco. As guitarras continuam pesadas, mas as melodias assumem uma importância muito maior, aproximando a faixa do rock alternativo e de uma tradição de refrões amplos, feitos para serem cantados em conjunto.

A voz de Achter de Molen funciona especialmente bem nesse contexto. Sua interpretação mantém a aspereza característica do grupo, mas deixa espaço para uma entrega mais melódica. O resultado é uma música que não precisa abandonar o peso para alcançar um público mais amplo.

5. Do Not Teach

A calmaria relativa não dura muito. “Do Not Teach” recupera uma postura mais confrontadora e aposta em uma sonoridade que mistura o peso do hardcore com elementos menos convencionais. A presença de uma sirene e de um coro infantil acrescenta estranheza à composição, criando uma atmosfera que contrasta com a agressividade das guitarras.

A ideia é interessante porque amplia a paleta sonora do disco sem afastar a banda de suas raízes. Ao mesmo tempo, é um dos momentos em que a execução parece menos coesa. A introdução tem impacto, mas a transição para o restante da faixa não desenvolve todo o potencial daquela escolha inicial. A música continua pesada, embora a estrutura não seja tão convincente quanto a das melhores composições do álbum.

6. Call of the Bear

“Call of the Bear” é uma das composições mais frenéticas do álbum. A bateria acelera, os riffs se acumulam e a faixa parece constantemente prestes a ultrapassar os próprios limites. O resultado é um dos momentos mais próximos do hardcore caótico e do mathcore, com mudanças de ritmo que tornam a experiência menos linear.

O contraste entre passagens aceleradas e trechos mais melódicos impede que a música se resuma à velocidade. Existe uma preocupação em construir um refrão reconhecível, embora a composição por vezes exagere na insistência de sua mensagem de superação. A intenção é clara, mas algumas escolhas acabam tornando o resultado um pouco mais óbvio do que o restante do álbum.

Ainda assim, instrumentalmente, a faixa é um destaque. O John Coffey demonstra como pode transitar entre o caos e a melodia sem perder completamente o controle. É o tipo de composição que deve ganhar outra dimensão quando executada diante de um público disposto a transformar cada mudança rítmica em movimento.

7. I Don't Care, I Won't Give Up On You

Depois da intensidade de “Call of the Bear”, a sétima faixa apresenta uma mudança de textura. A influência do grunge aparece com mais clareza, tanto no peso das guitarras quanto na atmosfera emocional da composição. A música mantém uma base robusta, mas a interpretação vocal ganha um tom mais vulnerável, criando um contraste interessante com o título, que sugere insistência e compromisso.

É uma das faixas em que a dimensão afetiva do álbum aparece sem depender de uma balada tradicional. O John Coffey não abandona o volume nem transforma a composição em um intervalo contemplativo. Em vez disso, utiliza a melodia para revelar outro lado da mesma intensidade presente nas músicas mais rápidas.

8. Time Is Up Now

Com “Time Is Up Now”, o John Coffey volta a acelerar. A faixa é direta, inquieta e construída para manter o movimento constante, com uma combinação de riffs insistentes e ganchos melódicos que tornam a música mais memorável do que uma simples explosão de energia.

A sensação é de urgência: a bateria não deixa o arranjo se acomodar, enquanto as guitarras conduzem a composição para a frente. O refrão, por sua vez, cria um contraponto interessante à velocidade, oferecendo um ponto de apoio que o ouvinte consegue reconhecer mesmo em meio à intensidade instrumental.

9. Hope In – Fear Out

O título já aponta para uma ideia de transformação, e a música traduz essa perspectiva em uma composição movida por riffs pesados, ritmo firme e uma energia afirmativa. “Hope In – Fear Out” não tenta soar contemplativa; sua esperança é apresentada como algo que exige ação, movimento e disposição para enfrentar aquilo que paralisa.

A faixa funciona como uma síntese temática de Not Alone. Depois de músicas que exploram vulnerabilidade, confronto e apoio mútuo, o John Coffey retorna ao peso para construir uma mensagem de resistência. A sonoridade continua agressiva, mas a composição não é tão sombria quanto algumas das faixas anteriores.

10. All Bark, No Bite

O encerramento escolhe uma solução diferente da abertura. Em vez de terminar com a maior velocidade possível, “All Bark, No Bite” trabalha com contrastes entre passagens mais contidas e momentos de maior intensidade. As guitarras alternam tensão e abertura, enquanto os riffs apresentam pequenas mudanças que dão personalidade à composição.

A dinâmica entre peso e suavidade funciona como uma espécie de resumo do disco. O John Coffey demonstra que, às vezes, a força está justamente no espaço deixado entre uma explosão e outra.


Nick Helderman

Confira a tracklist completa:

1. Hang the Choir

2. Not Alone

3. Push Push Push

4. It's You

5. Do Not Teach

6. Call of the Bear

7. I Don't Care, I Won't Give Up on You

8. Time Is Up Now

9. Hope In – Fear Out

10. All Bark, No Bite

Cobertura de Show: Glam Slam Party – 17/10/2026 – Jai Club/SP

 

Glam Slam Party celebra o hard rock, a força feminina e o encontro de gerações na Jai Club

Com Cassidy Paris como uma das grandes surpresas da noite, Lorraine Lewis ovacionada pelo público e Stevie Rachelle resgatando o espírito do glam metal, a festa reuniu diferentes momentos do rock em São Paulo

A Jai Club, na Vila Mariana, em São Paulo, foi palco de uma noite dedicada ao hard rock e ao glam metal no sábado, 17 de outubro. A Glam Slam Party, que celebrou seus cinco anos de existência, reuniu Cassidy Paris, Lorraine Lewis - com participação de Tony West - e Stevie Rachelle, em uma programação que conectou novas vozes do rock a artistas que ajudaram a construir a identidade do gênero.

Entre riffs marcantes, refrões cantados em coro e a energia característica do estilo, a noite também serviu como lembrete de que o rock segue vivo, renovando seus representantes sem abrir mão de suas raízes. E, se o repertório nostálgico tinha força suficiente para mobilizar a plateia, a presença de uma artista da nova geração mostrou que há muito mais por vir.

Cassidy Paris: uma grata surpresa

Cassidy Paris foi uma das grandes surpresas da noite. Para quem ainda não havia assistido a um show da australiana, a apresentação na Jai Club foi uma oportunidade de descobrir uma artista que combina qualidade musical, personalidade e presença de palco. Mais do que reproduzir a estética do hard rock clássico, Cassidy demonstra segurança para ocupar esse espaço e imprimir sua própria identidade.

O repertório percorreu diferentes momentos de sua trajetória, com músicas como Walking on Fire, Danger e Midnight Desire, do álbum New Sensation (2023), além de faixas do trabalho mais recente, Bittersweet (2025), como Wannabe, Stronger, Getting Better e Nothing Left to Lose. A sequência evidenciou a conexão entre as influências clássicas do gênero e uma abordagem contemporânea, com melodias marcantes e refrões feitos para ganhar força ao vivo.

O que mais chama a atenção, porém, é a naturalidade com que Cassidy sustenta sua performance. Há potência vocal, atitude e domínio de palco, elementos fundamentais para um estilo musical que sempre exigiu mais do que técnica: exige personalidade. Sua apresentação foi uma grata descoberta e reforçou a percepção de que o rock tem ganhado cada vez mais representantes incríveis, capazes de manter sua essência e, ao mesmo tempo, apontar para o futuro.

A força feminina esteve no centro desse momento. Cassidy não precisou recorrer à nostalgia para conquistar seu espaço, fez isso por meio do próprio repertório, da entrega e da presença. Ao longo do show, foi conquistando o público da Jai Club e mostrando que existe uma nova geração preparada para assumir o protagonismo no rock. Foi uma apresentação que deixou a vontade de acompanhar os próximos passos da artista e de vê-la novamente no palco.

Lorraine Lewis: uma plateia inteira na mesma sintonia

Se Cassidy representou a descoberta, Lorraine Lewis entregou um daqueles momentos em que a conexão entre artista e público se torna evidente. Vocalista do Femme Fatale, grupo que ganhou projeção no final dos anos 1980, Lorraine carrega uma história ligada a uma das fases mais emblemáticas do hard rock. Canções como Falling in and Out of Love e Waiting for the Big One fazem parte desse legado.

Na Jai Club, a recepção foi à altura dessa trajetória: Lorraine foi ovacionada, e a multidão entoou todas as músicas do repertório. A resposta coletiva deu à apresentação um caráter especial, transformando cada faixa em um reencontro entre a cantora e um público que conhecia as canções e estava pronto para cantá-las do início ao fim.

A setlist passeou por diferentes nuances do repertório, começando com Baby's Gun e Back in Your Arms, passando por Falling in and Out of Love, Bad Love e Home Is Where the Heart Is, e chegando a momentos de maior intensidade com Letters from the Psychward, Crazy Train e I Just Wanna Hate. O encerramento com Jackson completou uma apresentação marcada pela participação da plateia.

A participação de Tony West acrescentou outro elemento ao show, reforçando o espírito de colaboração que marcou a noite. Mas o grande destaque foi Lorraine: uma artista que não apenas revisita um repertório importante para o hard rock, como mantém uma relação viva com as músicas e com quem as acompanha.

Stevie Rachelle e a celebração do glam metal

A presença de Stevie Rachelle completou o encontro de gerações proposto pela Glam Slam Party. Conhecido como vocalista do Tuff, banda norte-americana formada no início dos anos 1990, o cantor representa uma vertente do glam metal que ajudou a consolidar a estética e a sonoridade associadas à cena de Los Angeles. O grupo lançou What Comes Around Goes Around em 1991, disco que integra a trajetória do artista.

A participação de Stevie deu à programação um vínculo direto com a história do gênero, em uma noite que não se limitou a reproduzir o passado, mas reuniu artistas de diferentes momentos do rock no mesmo palco. Sua presença, ao lado de Lorraine Lewis e Cassidy Paris, reforçou a identidade da festa: celebrar o glam e o hard rock como expressões musicais que continuam encontrando público e espaço para novas histórias.

A Glam Slam Party funcionou como um ponto de encontro entre diferentes gerações de fãs e artistas. A memória afetiva das canções, a energia do palco e a descoberta de novos nomes coexistiram em uma noite que valorizou tanto a herança do gênero quanto sua continuidade.

Texto: Stephanie Ferreira

Fotos: Edu Lawless


Realização: Glam Slam Party


Cassidy Paris – setlist:

Walking on Fire

Wannabe

Stronger

I Still Think About You (Danger Danger cover)

Midnight Desire

Fundamentally

Danger

Like I Never Loved You

Getting Better

Nothing Left to Lose

Watch the Fire (W.E.T cover)


Lorraine Lewis – setlist:

Baby's Gun 

Back in Your Arms

Falling in & Out of Love

Bad Love

Home is Where the Heart

Don't Call Me Your Angel

Living Like There's No Tomorrow 

Waiting For The Big One

Letters from the Psychward

Crazy Train (feat. Tony West, Ozzy Osbourne cover)

I Just Wanna Have (feat. Tony West, Ramones cover)

Jackson


Stevie Rachelle – setlist:

Ruck A Pit Bridge

Spit Like This

In Dogs We Trust

Good Guys Wear Black

I Hate Kissing You Goodbye 

So Many Seasons

All New Generation

American Hairband

Nothing But A Good Time (Poison cover)

Streetlight: AOR Além das Fronteiras (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Com Shadows In Motion, o Streetlight reafirma sua afinidade com o AOR e o rock melódico de inspiração clássica, mas não se limita a revisitar fórmulas consagradas. Em seu terceiro álbum de estúdio, a banda sueca parte da grandiosidade do rock de arena oitentista para, gradualmente, incorporar elementos de pop e rock progressivo, ampliando sua paleta sonora sem comprometer a coesão do repertório. O resultado é um trabalho que combina melodias envolventes, refrões feitos para serem cantados em coro e arranjos que revelam uma banda disposta a explorar novas possibilidades.

Rebel Blood abre o disco com todos os ingredientes necessários para se transformar em um dos momentos mais marcantes de uma apresentação ao vivo. Primeiro single do álbum, a faixa estabelece imediatamente a atmosfera AOR que permeia boa parte do repertório, com vocais, instrumentação e arranjos cuidadosamente construídos para evocar a grandiosidade dos shows em grandes arenas. É fácil imaginar a música funcionando como abertura de um espetáculo, preparando o público para o que vem pela frente.

Runaway Skies mantém o embalo e prolonga essa sensação de celebração. Com uma estrutura que favorece a interação com a plateia, a faixa parece concebida para ter seu refrão entoado em uníssono por uma arena lotada. O Streetlight demonstra, mais uma vez, compreender a essência do AOR: criar canções acessíveis e imediatamente cativantes, sem abrir mão dos arranjos elaborados que dão personalidade ao gênero.

Up From the Ashes reduz o ritmo e mergulha ainda mais fundo na sonoridade clássica do estilo. Os timbres vintage dos teclados são um dos destaques, remetendo diretamente à era de ouro do AOR, nos anos 1980. É uma composição que valoriza a atmosfera e a construção melódica, reforçando a conexão da banda com os grandes nomes que ajudaram a definir essa linguagem musical.

A desaceleração se torna ainda mais evidente em Say It Like You Mean It, balada que começa sustentada apenas pelo piano. Com a entrada dos demais instrumentos, o arranjo ganha corpo, mas o piano continua conduzindo a composição, acompanhado por um belo trabalho de guitarra. O refrão assume proporções épicas, valorizado por harmonias vocais que ampliam sua carga emocional. Mais do que oferecer uma pausa entre momentos de maior energia, a faixa acrescenta novas texturas ao repertório e evita que a fórmula adotada até aqui se torne repetitiva.

Night After Night recupera o clima festivo e poderia facilmente integrar a trilha sonora de um grande filme dos anos 1980. O trabalho vocal merece atenção especial: a interação entre a voz principal e os backing vocals não apenas reforça os refrões, mas também acrescenta camadas e profundidade ao arranjo. Como se isso não bastasse, a faixa reserva uma surpresa no segundo solo, executado por um saxofone que amplia a paleta instrumental do álbum. É um detalhe que demonstra cuidado com os arranjos e encerra a primeira metade do disco em grande estilo.

A partir de Shadowland, o Streetlight começa a se afastar, ainda que parcialmente, do território mais previsível do AOR. Com uma atmosfera mais misteriosa e uma abordagem predominantemente orientada pelas guitarras, a faixa se distingue das composições anteriores, nas quais os teclados ocupavam posição mais central. Inicialmente mais crua, a música desenvolve passagens que flertam com o rock progressivo, introduzindo novas nuances sem comprometer a unidade do álbum. É uma mudança bem-vinda, que amplia o repertório de soluções musicais do grupo.

As influências de outras vertentes se tornam ainda mais evidentes em We Were Just Kids. A presença marcante do piano e a abordagem inicialmente mais próxima do pop remetem ao Supertramp, referência que gradualmente cede espaço a uma construção mais alinhada ao AOR clássico. A combinação funciona justamente por não se limitar à reprodução de uma fórmula: o Streetlight absorve essas referências e as incorpora à própria identidade. A alternância entre os solos de teclado e guitarra também contribui para o dinamismo da faixa.

É na segunda metade do álbum que fica mais claro que as ambições do grupo vão além do AOR tradicional. As incursões pelo pop e pelo rock progressivo aparecem com maior frequência, criando contrastes que enriquecem a audição e revelam uma banda confortável ao transitar entre diferentes linguagens.

Waiting to Be Found dá continuidade a essa exploração. Sua introdução evoca baladas clássicas do Whitesnake, referência que funciona como ponto de partida para uma composição que logo assume contornos mais característicos do AOR, com andamento cadenciado e refrão marcante. Novamente, os backing vocals se destacam pela qualidade dos arranjos e pela precisão com que são empregados, reforçando os momentos mais expressivos da música sem sobrecarregar a estrutura.

Shattered on the Rock traz o rock de volta ao primeiro plano. O que começa como um hard rock clássico logo se transforma em uma composição de AOR com a mesma vocação para os palcos que marcou as primeiras faixas do álbum. Depois das incursões por outros territórios sonoros, a música recupera aquela energia expansiva que convida o ouvinte a imaginar sua execução ao vivo. O solo de teclado é um dos grandes destaques, acompanhado por mais uma demonstração da qualidade do trabalho vocal. É uma faixa que tem todos os atributos para conquistar espaço nos futuros repertórios da banda.

O encerramento fica por conta de Something in Between, a composição mais longa do álbum, com mais de sete minutos. Desde os primeiros momentos, fica evidente que estamos diante da faixa mais ambiciosa do repertório. Teclados e guitarras se desenvolvem sobre uma base instrumental mais complexa, na qual baixo e bateria assumem protagonismo e contribuem para uma construção que se distancia das estruturas mais diretas do AOR convencional.

Aqui, o Streetlight reúne praticamente todas as suas facetas: AOR, pop, hard rock e passagens progressivas convivem em uma composição que encontra sua força justamente na maneira como esses elementos são articulados. A interação entre a voz principal e os backing vocals merece destaque, funcionando em diferentes momentos como uma espécie de diálogo que acrescenta dimensão e sofisticação ao arranjo. É um recurso que evidencia não apenas a qualidade das interpretações, mas também o cuidado composicional do grupo.

As referências progressivas de Something in Between estão muito mais próximas do rock progressivo clássico de bandas como Yes do que do metal progressivo associado a nomes como Dream Theater. Essa distinção é importante para compreender a proposta da faixa: não se trata de acrescentar complexidade técnica por si só, mas de explorar estruturas, texturas e desenvolvimentos instrumentais que ampliam os horizontes musicais do Streetlight. A composição encerra o álbum de maneira convincente, retomando e expandindo elementos apresentados ao longo do repertório.

Shadows In Motion é um excelente lançamento para abrir o ano de 2027. O Streetlight demonstra maturidade ao preservar a essência do AOR clássico enquanto incorpora referências de outras vertentes sem perder o foco melódico que sustenta sua identidade. Se as primeiras faixas apostam na grandiosidade dos refrões e na atmosfera do rock de arena, a segunda metade revela uma banda mais disposta a experimentar, culminando em uma composição que sintetiza suas diferentes influências.

A ideia de um AOR progressivo pode soar, à primeira vista, como um paradoxo, mas o Streetlight demonstra que há espaço para essa combinação quando ela é conduzida com bom senso melódico e atenção aos arranjos. Shadows In Motion não abandona as raízes do gênero: amplia suas possibilidades e mostra que ainda há caminhos interessantes a explorar dentro de uma linguagem musical consolidada há décadas.

***ENGLISH VERSION***

With Shadows In Motion, Streetlight reaffirm their affinity for classic AOR and melodic rock, but they are not content simply to revisit familiar formulas. On their third studio album, the Swedish band draws on the grandeur of ’80s arena rock before gradually incorporating elements of pop and progressive rock, expanding their sonic palette without sacrificing cohesion. The result is a record that combines infectious melodies, chorus lines made for mass singalongs and arrangements that reveal a band willing to explore new possibilities.

Rebel Blood opens the album with all the ingredients needed to become a standout moment in the band’s live set. The record’s lead single immediately establishes the AOR atmosphere that permeates much of the material, with vocals, instrumentation and arrangements carefully constructed to evoke the grandeur of arena performances. It is easy to imagine the song serving as the opening number of a show, priming the audience for what lies ahead.

Runaway Skies keeps the momentum going, extending that sense of celebration. Built around a structure that encourages audience participation, the track sounds tailor-made for a packed arena singing along to its chorus in unison. Once again, Streetlight demonstrate an understanding of AOR’s essence: crafting accessible, instantly captivating songs without sacrificing the elaborate arrangements that give the genre its character.

Up From the Ashes eases off the accelerator and delves further into the genre’s classic sound. The vintage keyboard tones are a particular highlight, bringing to mind the golden age of AOR in the 1980s. It is a song that places melody and atmosphere front and centre, reinforcing the band’s connection to the great acts that helped define the style.

The mood slows further with Say It Like You Mean It, a ballad that begins with piano alone. As the other instruments enter, the arrangement gradually fills out, but the piano remains the driving force, complemented by some fine guitar work. The chorus takes on an epic quality, enhanced by vocal harmonies that heighten its emotional impact. More than simply providing a breather between the album’s more energetic moments, the song adds fresh textures to the record and prevents its formula from becoming repetitive.

Night After Night brings back the celebratory atmosphere and could easily have featured on the soundtrack of a major ’80s blockbuster. The vocal arrangements deserve particular attention: the interplay between the lead vocal and backing vocals does more than reinforce the chorus, adding layers and depth to the overall sound. As if that were not enough, the track delivers a surprise with its second solo, performed on saxophone, which broadens the album’s instrumental palette. It is a thoughtful touch that demonstrates the band’s attention to detail and brings the first half of the record to a triumphant close.

With Shadowland, Streetlight begin to move, at least partially, away from the more predictable territory of AOR. Its darker, more mysterious atmosphere and guitar-driven approach set it apart from the preceding tracks, where keyboards occupied a more central role. Initially rawer in feel, the song develops passages that flirt with progressive rock, introducing new shades without compromising the album’s overall unity. It is a welcome change of pace that broadens the band’s musical vocabulary.

The influence of other styles becomes even more apparent on We Were Just Kids. The prominent piano and initially pop-oriented approach bring Supertramp to mind, before gradually giving way to a structure more firmly rooted in classic AOR. The combination works precisely because Streetlight do not merely reproduce a familiar formula; they absorb these influences and make them their own. The interplay between the keyboard and guitar solos also adds to the song’s dynamism.

It is during the album’s second half that the band’s ambitions beyond traditional AOR become increasingly apparent. Pop and progressive rock influences emerge more frequently, creating contrasts that enrich the listening experience and reveal a group equally comfortable moving between different musical languages.

Waiting to Be Found continues this exploration. Its introduction evokes classic Whitesnake ballads, providing a starting point for a composition that soon settles into more familiar AOR territory, complete with a measured pace and a memorable chorus. Once again, the backing vocals stand out for the quality of their arrangements and the precision with which they are deployed, reinforcing the song’s most expressive moments without overwhelming its structure.

Shattered on the Rock brings rock back to the forefront. What begins as classic hard rock soon evolves into an AOR number with the same stage-ready appeal that characterised the album’s opening tracks. Following the detours into other musical territories, the song recaptures that expansive energy that makes it easy to imagine how well it would translate to the live setting. The keyboard solo is one of its major highlights, accompanied by yet another impressive vocal performance. This is a track with all the attributes needed to earn a place in the band’s future setlists.

The album closes with Something in Between, its longest composition at over seven minutes. From the outset, it is clear that this is the record’s most ambitious piece. Keyboards and guitars unfold over a more complex instrumental foundation, with bass and drums taking centre stage and helping shape an arrangement that moves beyond the more straightforward structures of conventional AOR.

Here, Streetlight bring together virtually every facet of their sound: AOR, pop, hard rock and progressive passages coexist in a composition whose strength lies in the way these elements are woven together. The interaction between the lead vocal and backing vocals deserves particular praise, at times functioning as a kind of dialogue that adds dimension and sophistication to the arrangement. It is a device that highlights not only the quality of the performances but also the band’s compositional craft.

The progressive leanings of Something in Between owe far more to classic progressive rock acts such as Yes than to the progressive metal associated with bands like Dream Theater. That distinction is important in understanding the song’s approach: rather than adding complexity for its own sake, Streetlight explore structures, textures and instrumental developments that broaden their musical horizons. It brings the album to a convincing close, revisiting and expanding on elements introduced throughout the record.

Shadows In Motion is an excellent release to kick off 2027. Streetlight demonstrate their maturity by preserving the essence of classic AOR while incorporating influences from other styles without losing sight of the melodic focus that underpins their identity. If the opening tracks lean into soaring choruses and the atmosphere of arena rock, the second half reveals a band increasingly willing to experiment, culminating in a composition that brings its various influences together.

The idea of progressive AOR may initially sound like a contradiction in terms, but Streetlight demonstrate that the combination can work when guided by a strong melodic sensibility and meticulous attention to arrangement. Shadows In Motion does not abandon the genre’s roots; instead, it expands its possibilities, showing that there are still interesting paths to explore within a musical language that has been established for decades.

David Wrelan

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Cobertura de Show: The Gathering – 15/10/2026 – Audio/SP

The Gathering e os 30 anos de Mandylion: Emoção e Nostalgia

Sabe quando você vai a um show e, depois, fica tentando encontrar palavras para explicar o que acabou de viver, mas simplesmente não consegue? Pois é, estou tentando escrever sobre o show do The Gathering celebrando os 30 anos de Mandylion e confesso que está difícil. Não por falta do que dizer, mas porque parece que nenhuma palavra consegue chegar perto do que foi aquela noite.

Primeiramente, preciso dizer que, para uma pessoa como eu, que quase nunca chora, sentir vontade de chorar durante praticamente o show inteiro foi uma experiência e tanto! Mas também, convenhamos: estamos falando de Mandylion, um dos meus discos preferidos da vida, tocado na íntegra pela formação daquela época. Como é que a pessoa fica normal diante de uma coisa dessas?

A primeira vez que ouvi esse álbum eu tinha 15 anos. Quinze! E foi um daqueles discos que abrem a sua cabeça, sabe? Que fazem você descobrir coisas novas, enxergar a música de outra maneira e perceber que existe um mundo inteiro para além daquilo que você já conhece. Naquela época, eu jamais imaginaria que um dia teria a oportunidade de ver essas músicas ao vivo, com a formação original. E olha só, hoje, aos 33 anos, eu estava lá.

É muito louco pensar nisso. A gente cresce, a vida acontece, tanta coisa muda, mas algumas músicas continuam morando naquele cantinho especial dentro da gente. E, de repente, você está ali, diante delas, tentando processar tudo ao mesmo tempo.

E eu nem comecei a falar do show ainda! Mas, antes, vamos falar de Mandylion?

Para quem não conhece a história, o The Gathering é uma banda holandesa formada em 1989, que começou sua trajetória explorando sonoridades mais próximas do death/doom metal. Mas foi em 1995, com o lançamento de Mandylion, que o grupo deu um passo decisivo para construir a identidade pela qual se tornaria conhecido.

O disco marcou a chegada de Anneke van Giersbergen aos vocais e trouxe uma mudança importante na sonoridade da banda, misturando peso, atmosferas sombrias, passagens progressivas e melodias que fugiam bastante do que se costumava ouvir no metal naquela época.

A formação de Mandylion reunia Anneke nos vocais, René Rutten e Jelmer Wiersma nas guitarras, Frank Boeijen nos teclados, Hugo Prinsen Geerligs no baixo e Hans Rutten na bateria.

E o resultado foi um daqueles trabalhos que envelhecem muito bem. Na época, o álbum chamou a atenção justamente por essa combinação de peso e delicadeza, com uma sonoridade atmosférica e uma vocalista que tinha uma maneira muito particular de interpretar as músicas. Com o tempo, Mandylion se consolidou como um dos grandes discos do metal gótico dos anos 90 e uma referência para muita gente que veio depois.

E não é difícil entender o motivo. Basta ouvir “Eléanor”, “Strange Machines”, “Leaves” ou a maravilhosa “Sand and Mercury” para perceber que existe algo muito especial ali.

Não é só um disco importante para a história do The Gathering. É um disco que marcou a vida de muita gente. E, pelo que vi naquela noite, não estou falando apenas de mim.

Anneke van Giersbergen é um acontecimento à parte

Gente, o que dizer dessa mulher?

Anneke tem uma voz linda, etérea, daquelas que parecem te puxar para dentro da música. Mas não é só a voz. É a maneira como ela canta, como se movimenta, como se conecta com as pessoas e como consegue transmitir tanta coisa sem precisar fazer esforço para chamar a atenção.

Ela tem um carisma absurdo! É uma cantora premiada, com uma trajetória incrível, mas que mantém uma leveza e uma simpatia que tornam tudo ainda mais especial. E sabe o que acho mais legal? A gente costuma ouvir falar muito bem dela nos bastidores, principalmente sobre a maneira como trata os fãs e como gosta de interagir com o público. Quando você vê isso acontecendo ao vivo, percebe que não é só conversa. Ela realmente parece gostar daquela troca.

Durante o show, Anneke agradeceu diversas vezes pelo carinho, pela recepção e pelo que chamou de lindo coral brasileiro. Dava para perceber que ela estava genuinamente impressionada com o que estava ouvindo.

Aliás, a reação dela quando começou “Eléanor” foi uma das coisas mais bonitas da noite. Assim que ela começou a cantar, o público veio junto com uma força absurda. Anneke ficou claramente surpresa e, em vários momentos, colocou a mão perto do ouvido para ouvir melhor aquela multidão cantando. Imaginem a cena!

E não foi só nessa música. O público cantou durante o show inteiro, e Anneke fez questão de agradecer diversas vezes. Comentou sobre o jet lag, as poucas horas de sono e agradeceu por ter tanta gente ajudando a cantar.

Meus amigos, se vocês precisam de ajuda para cantar, pode deixar que o brasileiro resolve!

Mas, brincadeiras à parte, foi realmente emocionante ver a reação dela. A cantora disse o quanto achava aquele carinho lindo e o quanto ela e os músicos se sentiam abençoados por receber tanto amor.

E acho que essa troca foi uma das coisas mais bonitas do show. Não era só uma banda tocando para um público. Era uma multidão devolvendo, em forma de canto, todo o amor que aquelas músicas receberam durante esses 30 anos.

Uma catarse coletiva. E não estou exagerando!

Eu juro que teve momentos em que olhei ao redor e pensei: gente, o que está acontecendo aqui? Era gente chorando, gente cantando com os olhos fechados, gente com as mãos na cabeça, naquele clássico gesto de quem está tentando entender o que acabou de presenciar. E, no meio disso tudo, sempre aparecia alguém soltando um “PQP, QUE SHOW É ESSE?!”.

E eu entendia perfeitamente, porque estava pensando exatamente a mesma coisa.

Foi uma emoção coletiva muito difícil de explicar. Parecia que todo mundo ali estava vivendo alguma coisa pessoal, mas, ao mesmo tempo, estávamos todos sentindo a mesma coisa juntos.

Sem exagero, parecia um ritual. Um culto sagrado ao som de Mandylion. E olha que nem sou de ficar romantizando tudo, mas aquela noite mereceu!

Foi uma experiência sensorial e emocional profunda. Tinha a música, a voz da Anneke, os instrumentos, milhares de pessoas cantando e aquela sensação de que você estava vivendo um momento que não se repetiria daquela mesma maneira.

E acho que é isso que torna um show inesquecível. Não é só ouvir as músicas de que você gosta. É sentir que está compartilhando algo muito maior do que você, mesmo sem conhecer a pessoa que está chorando do seu lado.

O público brasileiro foi um espetáculo à parte. E a produção também merece reconhecimento, porque tudo funcionou muito bem. Os músicos estavam entrosados, a execução foi impecável e as músicas mantiveram aquela atmosfera tão característica da banda.

Mas, sinceramente? Meu olhar voltava o tempo todo para Anneke. Ela estava brilhando, conduzindo tudo com aquela voz maravilhosa e um carisma que parece não ter fim.

E ainda teve muito mais além de Mandylion

A celebração não ficou restrita ao álbum, e o repertório trouxe outras músicas importantes da fase de Anneke no The Gathering.

Tivemos “On Most Surfaces”, do Nighttime Birds (1997), e “Travel”, do experimental How to Measure a Planet? (1999), mostrando um pouco dessa evolução musical da banda ao longo dos anos.

Também tocaram “Liberty Bell” e “Third Chance”, esta última especialmente interessante por não ser tocada desde 2007, conforme o histórico de apresentações da banda.

É muito legal quando uma banda entende que celebrar um disco clássico não significa necessariamente ficar presa a ele. Essas outras músicas ajudaram a ampliar a experiência e lembrar que a fase de Anneke foi muito além de Mandylion.

E aí veio “Saturnine” para fechar a noite.

Olha, que escolha acertada! Uma das músicas mais emblemáticas dessa fase, com aquele clima que parece abraçar a gente e apertar o coração ao mesmo tempo. Foi um encerramento lindo, daqueles que deixam você emocionalmente destruída, mas feliz por ter vivido aquilo.

Eu não consigo imaginar uma maneira melhor de terminar aquela noite.

E agora, como é que eu explico isso?

Sabe o que mais me pega quando penso nesse show? É lembrar daquela menina de 15 anos que ouviu Mandylion pela primeira vez e não fazia ideia de tudo o que ainda viveria. Naquela época, eu não imaginava que, tantos anos depois, estaria diante daquela banda, ouvindo aquelas músicas ao vivo, cantando junto e quase chorando do começo ao fim.

E não é só nostalgia. Acho que é também perceber o quanto a música acompanha a gente, mesmo quando a vida muda completamente. A gente cresce, passa por tanta coisa, conhece outras bandas, descobre novos discos, muda de opinião sobre um monte de coisas, mas alguns álbuns continuam ali, intactos em sua importância.

E, de repente, você tem a chance de viver algo que, durante anos, parecia impossível. Foi exatamente isso que senti naquela noite: uma mistura de alegria, nostalgia e gratidão por finalmente ver ao vivo um disco que marcou tanto a minha vida.

Saí do show tentando processar tudo o que tinha vivido, mas algumas experiências não precisam ser explicadas em detalhes. Basta sentir e agradecer por ter estado ali. Mandylion fez parte de quem eu era aos 15 anos e agora também faz parte da memória de uma das noites mais emocionantes que já vivi.

Aquela menina que descobriu o disco jamais imaginaria que, tantos anos depois, estaria ali, cantando e quase chorando ao ouvir aquelas músicas ao vivo. E tenho certeza de que ela ficaria feliz em saber que, mesmo depois de tanto tempo, esse amor continua vivo.


Texto: Michelle F. Santana

Fotos: Jaqueline Souza (Headbangers News) 


Realização: Honorsounds 

Press: Hoffman & O'Brian


The Gathering – setlist

Eléanor

Fear the Sea

In Motion #1

On Most Surfaces (Inuït)

Broken Glass

Waking Hour

Probably Built in the Fifties

Liberty Bell

Analog Park

In Motion #2

Leaves

Sand and Mercury

Strange Machines

Bis

Travel

Third Chance

Saturnine

sábado, 17 de outubro de 2026

Entrevista - Phantom Star: A Ascensão do Heavy Metal Cósmico

 


Por: Caco Garcia
Fotos: Divulgação e Arquivo da banda

Formada em 2024 em Curitiba (PR), a Phantom Star surgiu já com uma proposta bem definida, e trazendo músicos experientes e que já mantinham contato e amizade, e tudo isso proporcionou em uma personalidade e coesão naturais, refletida no elogiado álbum de estreia, lançado em 20/06/2026.

Conversamos com o vocalista Matheus Luciano, que nos contou mais sobre a ótima repercussão do trabalho da Phantom Star, detalhes sobre o álbum e perspectivas e expectativas daqui em diante. Confira!



RtM: O Phantom Star nasceu em 2024, mas reúne músicos com uma longa trajetória no Metal. De que forma essa experiência coletiva permitiu que a banda já surgisse com uma identidade tão sólida logo no álbum de estreia?
Matheus Luciano: A Phantom Star já nasceu com um norte muito bem definido. Desde as primeiras reuniões, tínhamos absoluta clareza do som que quer tínhamos fazer e dos objetivos que almejávamos alcançar como músicos de Heavy Metal. Não houve tempo perdido procurando uma direção; a proposta era consciente desde o primeiro ensaio.

Somado a isso, o fator humano fez toda a diferença: somos grandes amigos há muitos anos. Essa fraternidade e o respeito mútuo criam uma sintonia natural que vai muito além da técnica. Quando você junta uma visão artística alinhada com anos de amizade e cumplicidade, o entrosamento no estúdio e nos palcos acontece de forma quase instintiva. 

Essa química entre os integrantes foi o combustível para que a banda já surgisse com a solidez e a maturidade de um grupo de longa data.


RtM: O debut apresenta um Heavy Metal que vocês mesmos definem por elementos épicos, cósmicos e cinematográficos. Como surgiu esse conceito e qual foi o ponto de partida para construir essa identidade?
ML: Esse conceito nasceu de forma extremamente natural a partir da fusão das nossas paixões não apenas na música, mas também no campo da literatura, do cinema e das artes de forma ampla. Sempre fomos fascinados por bandas que não se limitam ao som, mas que trazem uma dimensão teatral e conceitual — seja na estética, na postura de palco ou na própria construção dramática das composições.

Para nós, o Heavy Metal sempre foi uma arte imersiva. Unir o peso dos riffs a uma narrativa épica e a uma identidade visual marcante, foi uma evolução orgânica desse gosto compartilhado. Queríamos que o ouvinte sentisse essa teatralidade desde o primeiro segundo: na atmosfera dos teclados, nas trocas de andamento, nas letras e até na arte do disco. É essa riqueza de referências artísticas que dá ao Phantom Star essa aura dramática, cósmica e cinematográfica.


RtM: É possível perceber influências de bandas como Virgin Steele, King Diamond, Savatage, Queensrÿche e Crimson Glory, mas o resultado soa bastante autoral. Como vocês foram lapidando e equilibrando a homenagem às referências e a busca por uma sonoridade própria?
ML: Ficamos profundamente honrados com a citação de alguns dos nossos maiores ídolos e influências diretas. Acredito que o grande segredo para equilibrar a homenagem com a originalidade está na forma como cada integrante filtra suas referências para se expressar de maneira autêntica.
Sabemos exatamente o território onde pisamos — o universo do Heavy Metal clássico e tradicional —, então nunca precisamos nos prender a regras rígidas ou nos preocupar em seguir fórmulas prontas para "provar" que somos metal. 

A prioridade sempre foi usar essa bagagem para construir arranjos sinceros e com a nossa própria assinatura, sem a intenção de soar como uma cópia datada ou como bandas que apenas repetem o passado.
Tratamos essas influências como um alicerce, e não como uma limitação. 


RtM: As letras transitam por temas como Inquisição, mitologia, fantasia e outras narrativas. O que mais inspira o processo de composição: livros, filmes, história, RPG, literatura fantástica?
ML: Consumimos muito dessas mídias no nosso dia a dia. Livros, jogos, RPG, histórias em quadrinhos, literatura fantástica e cinema sempre fizeram parte da nossa rotina e acabam fluindo de forma natural para dentro do processo de composição. São fontes muito ricas para criarmos histórias, metáforas e cenários que casam bem com o peso da música.

Ao mesmo tempo, não vivemos isolados numa bolha de fantasia. Questões do cotidiano, vivências pessoais e visões sobre o mundo ao nosso redor — inclusive aspectos sociais e políticos — também entram na equação. Afinal, como músicos independentes no Brasil, é inevitável ser impactado pela realidade em que vivemos.

Usar temas como a Inquisição ou narrativas fantásticas costuma ser a nossa forma de falar sobre coisas bem atuais, como o fanatismo e a busca por liberdade. No fim das contas, a inspiração vem de tudo o que a gente lê, joga, assiste e vive.


RtM:A interpretação vocal chama bastante atenção pelo caráter teatral, enquanto os teclados reforçam toda a atmosfera cinematográfica das músicas. Desde o início vocês já tinham essa preocupação em fazer cada canção soar como uma pequena trilha sonora?
ML: Com certeza. A minha interpretação do busca trazer um peso dramático único, porque tento não apenas cantar,  mas realmente interpretar e dar vida a cada narrativa, o que imprime uma personalidade muito forte às composições.

A entrada dos teclados, inclusive, aconteceu um tempo depois na formação da banda, justamente para reforçar essa intenção. Sentíamos que precisávamos de um elemento que amplificasse essa atmosfera de "contador de histórias" que tanto gostamos no Heavy Metal. O teclado veio para preencher esse espaço, criando as camadas, a tensão e aquele clima cinematográfico que faz com que cada música funcione como uma forma de trazer o ouvinte para dentro da letra.



RtM: A arte visual do Phantom Star também impressiona, desde a pintura da capa até a identidade nos materiais promocionais. O quanto o conceito visual é importante para complementar a experiência musical da banda?
ML: Para nós, a arte visual é simplesmente indispensável. Quando pensamos em grandes referências do Heavy Metal, do Rock Clássico e do Rock Progressivo — com o Iron Maiden sendo talvez o exemplo mais óbvio e brilhante disso —, percebemos que o conceito visual sempre foi um dos pilares fundamentais para construir a identidade de uma banda.

Sempre enxergamos a capa, as ilustrações e todo o material promocional como uma extensão direta da nossa música, e não apenas como uma "embalagem". Uma arte marcante prepara o ouvinte para a atmosfera do disco antes mesmo do primeiro riff.


RtM: A faixa-título "Phantom Star" parece sintetizar tudo aquilo que a banda representa musicalmente. Vocês também a enxergam como a música que melhor traduz a essência do grupo?
ML: Sim, com certeza. Pelo fato de carregar o próprio nome da banda, ela foi concebida para ser uma verdadeira declaração de intenções e síntese do nosso trabalho do ponto de vista mais épico.

A faixa-título traduz muito bem a temática conceitual e, principalmente, a identidade visual que buscávamos trazer para este primeiro disco. Musicalmente, ela entrega o equilíbrio perfeito do nosso som: consegue passear pelas nuances mais progressivas, atmosféricas e trabalhadas, sem jamais abrir mão do peso e da energia do Heavy Metal tradicional.



RtM: “I’Am the Storm” e “Witch Hunt” vejo que têm sido duas que se destacam na preferência do público. 
ML: "I'm the Storm" e "Witch Hunt" realmente se tornaram pilares fundamentais pra gente e acreditamos que a escolha dela como single foi bem acertada! 


RtM: Bom, gostaria que vocês comentassem um pouco mais sobre essas duas faixas, as inspirações e como foram sendo lapidadas até a versão final. 
ML: "I'm the Storm" Além de um riff bem marcante e muita melodia, ela carrega uma mensagem de soberania e resgate do orgulho dos nossos povos originários. É uma crítica forte à destruição e ao desrespeito à nossa nação. 

A ideia da letra já existia bem antes de certos acontecimentos políticos inacreditáveis que vimos recentemente no país; não foi planejado lançá-la neste momento específico, mas o contexto atual e o cenário eleitoral acabaram tornando a mensagem ainda mais viva e urgente.

Um fato marcante foi que o Lucas Shred entrou nos teclados logo após o lançamento dessa faixa, o que permitiu retrabalhar as dinâmicas e camadas dela ao vivo com o teclado bem atmosférico que ficou incrível.


RtM: Realmente, parece que ela foi pensada para esse momento atual. Muito interessante essa perspectiva. E a "Witch Hunt"?

ML: A "Witch Hunt" explora um lado mais sombrio, usando a temática histórica da caça às bruxas como uma metáfora clara para o fanatismo, a perseguição e a intolerância. Buscamos trazer essa discussão diretamente para a atualidade, traçando um paralelo urgente com a triste realidade do feminicídio e da violência contra a mulher — casos em que mulheres seguem sendo perseguidas, julgadas e silenciadas, muitas vezes pela simples forma de se vestir ou de se posicionar.

Musicalmente, ela tem um andamento mais cadenciado, solos longos de guitarra e interpretações vocais muito dramáticas e teatrais, bebendo direto da fonte de mestres como King Diamond e Mercyful Fate. A lapidação no estúdio foi extremamente rápida, fluindo com contribuições e ideias de todos os integrantes. Ela funciona tão bem e transmite uma energia tão forte que se tornou, naturalmente, a faixa de abertura dos nossos shows.


RtM: Complementando esse tópico, essas faixas que acabam ganhando um destaque maior com o público, vocês utilizam como parâmetro para, talvez, direcionamentos futuros? E é algo interessante que muitas vezes as bandas apostam que essa ou aquela música seria melhor recebida, e muitas vezes isso não acontece, e surgem alguns destaques inesperados. 
ML: Com certeza. A resposta do público é sempre um termômetro valioso, mas acreditamos que o direcionamento para composições futuras deve vir de forma natural.

O caso de "Phantom Star" é o exemplo perfeito disso: por ser uma faixa longa, técnica e cheia de trocas de andamento, não imaginávamos que ela ganharia um apelo ao vivo tão imediato e se tornaria um dos grandes destaques do disco entre os fãs. Esse tipo de surpresa é incrível porque mostra que o ouvinte de Heavy Metal valoriza a complexidade e a profundidade quando elas são entregues com verdade.

Enxergamos este álbum de estreia como uma sólida raiz que acabamos de plantar. Ele estabeleceu as fundações do som da Phantom Star. Para o próximo trabalho, a ideia não é simplesmente "copiar a fórmula" das faixas mais ouvidas, mas sim pegar toda essa recepção positiva e maturidade acumulada para aprofundar e expandir essas ideias com ainda mais peso, refinamento e identidade.




RtM: Lançar um debut tão consistente naturalmente, e que vem tendo ótima recepção, cria expectativa para o futuro. Existe alguma direção que vocês gostariam de explorar nos próximos trabalhos ou ainda há muito desse universo criado no primeiro álbum a ser desenvolvido?
ML: A resposta do público ao nosso álbum de estreia nos dá uma energia incrível para dar os próximos passos. Sentimos que acendemos uma chama importante, mas ainda há um universo inteiro dessa essência inicial a ser explorado e expandido.


Um dos nossos grandes objetivos e sonhos desde o início é criar um álbum 100% conceitual — e isso pode estar muito mais próximo de acontecer do que vocês imaginam. Temos como referências máximas obras-primas do gênero como Abigail (King Diamond), Operation: Mindcrime (Queensrÿche) e Seventh Son of a Seventh Son (Iron Maiden).

Queremos que essa evolução venha de forma orgânica, mas o foco é claro: o próximo capítulo do Phantom Star será desenhado para entregar uma história verdadeiramente cativante, sombria e aterrorizante, onde a música e a narrativa se fundem de forma transcedental.


RtM: O álbum também despertou interesse de selos do exterior, com lançamentos em vinil e K7. Falem-nos mais a respeito desses lançamentos e se há possibilidades e contatos do continente Europeu ou outros mercados.
ML: Ficamos extremamente felizes com essa repercussão. O Brasil vive hoje um momento fantástico para o Heavy Metal tradicional, fruto do trabalho consistente de bandas que admiramos muito, como Trovão, Creatures, Hellway Train, Electric Poison, Facing Fear, Blades of Steel e outras. Toda essa cena forte faz com que o mercado europeu e internacional olhe para o metal feito aqui com muito respeito e atenção.

A distribuição da Classic Metal é excelente fora do país e tem sido fundamental para fazer nossa música chegar a novos territórios. Conseguimos fechar uma parceria com o selo norte-americano Frequency Junction para uma edição extremamente limitada em vinil, e também com o selo boliviano Maniac Forces para uma versão belíssima em fita cassete.


RtM: Isso é muito bom! Um retorno muito expressivo dessa estreia.
ML: Sim, e além do retorno direto que estamos tendo da Europa pelo nosso Bandcamp, precisamos destacar o papel do canal NWOTHM Full Albums. Eles são gigantes na tarefa de colocar o Heavy Metal clássico em uma vitrine mundial, e temos muito a agradecer ao Anderson e à equipe dele por esse suporte. No fim das contas, é um movimento muito rico e pulsante, e vemos um potencial enorme para o crescimento dessa cena tanto no exterior quanto no Brasil. 


RtM: Fiquei sabendo de uma fonte aí que vocês irão participar de um curta metragem de horror, com músicas na trilha e também atuando. Muito legal! O que vocês podem nos contar já sobre esse projeto? 
ML: Sim, é verdade! Fomos convidados por um coletivo de cinema da PUC e acho que, no momento em que nos chamaram, eles nem imaginavam o quanto o nosso som e todo o nosso conceito visual tinham a ver com a história do filme. Deu um casamento perfeito!

Alguns integrantes atuaram diretamente no curta, e foi uma experiência absurdamente divertida — e exaustiva também, porque gravar cinema exige uma dedicação gigante —, mas valeu cada segundo. Além de atuar, também seremos responsáveis pela trilha sonora do filme, com composições nossas embalando as cenas além da trilha mesmo feita especialmente pro filme que está sendo composta.

É um projeto que une o Heavy Metal e o cinema de horror. As gravações foram incríveis e em breve vamos soltar mais novidades e detalhes sobre o lançamento!


RtM: Bom, muito obrigado pela entrevista, e finalizando, para quem ainda não conhece o Phantom Star, qual é a principal mensagem que você gostaria que o público levasse após ouvir o álbum completo pela primeira vez?
ML: Gostaria que o público sentisse que o Heavy Metal continua vibrante, sincero e cheio de energia para contar histórias marcantes. Mais do que apenas ouvir uma sequência de faixas, nossa intenção é que a audição completa seja uma jornada imersiva — que transporte a pessoa para dentro do nosso universo, faça pensar sobre temas do nosso mundo real e desperte aquela chama do Metal que nos apaixona desde sempre.


Phantom Star é:
• Matheus Luciano – Vocais 
• Lucas Licheski – Guitarra
• Maurício “The Fox” – Guitarra
• Ricke Nunes – Baixo 
• Maurício “Muh” Vastrinche – Bateria
• Lucas Shred – Teclados e backing vocals