Completando seus 26 anos de existência, mas com músicos com uma bagagem ainda maior, a banda Epitaph, de Porto Alegre (RS), lançou recentemente seu segundo full-lenght, "Digital Screams", 17 anos após seu debut. Um tempo bem razoável, mas sabemos das dificuldades e riscos que uma banda independente corre para lançar material, e ainda um álbum completo e em formato físico.
Bom, a espera valeu a pena, e com o álbum físico em mãos, pude sentir mais precisamente a evolução de "Digital Screams" com relação ao seu antecessor, "Gettin Down to Business" (2010), e é o que se espera, e o que creio que todo artista busca: evoluir com relação a si mesmo.
Sim, o Heavy Metal tradicional da Epitaph ganhou ainda mais contornos Thrash, enriquecendo o som com mais pegada, e ainda trazendo elementos do Hard, Southern e Classic Rock com essa roupagem contemporânea e muito coesa.
A bela arte gráfica já chama a atenção, e quando o CD começa a rodar, também já se percebe a qualidade da produção sonora, e em seguida das composições, onde podemos ver que a banda foi maturando um trabalho de alta qualidade, dispondo de toda a experiência e entrosamento adquiridos nesses anos todos.
Sobre a arte, feita por Rômulo Dias e com projeto gráfico de Juliana Louis e fotos de Diogo Nunes, traz na capa o personagem que aparece no primeiro álbum, e na foto da banda no encarte, podem ser encontradas diversas referências à cultura pop, Rock, Metal e outras, coisas que fizeram e fazem parte da vida dos músicos.
Na parte lírica, a Epitaph contou novamente com letras do escritor Denis Winston Brum, que aborda de forma crítica e ácida vários temas atuais. Ainda há a participação especial de Gustavo Demarchi, da banda brasileira de Rock Progressivo Apocalypse, na faixa-título, onde, além de colaborar com a letra, novamente divide vocais com Joe F. Louder, a exemplo de “Death Belt”, do álbum de estreia.
A produção, por Lucas Santorum, está excelente, realçando essa evolução da banda, que soa contemporânea e ainda mais pesada, mas sem perder as raízes.
"Digital Screams" traz oito faixas, apresentando alto nível. Dinâmico e empolgante, é daqueles albums em que ouvimos sem pular nenhuma faixa, e quando chega ao fim, já dá vontade de ouvir de novo!
Acho que para expressar bem o que senti no momento em que coloquei o álbum no player, foi como um nocaute! "Loser's Life" entra com uma introdução pesada, para em seguida os riffs e a pegada da cozinha te acertarem em cheio! J. Louder ataca com vocais agressivos e altos, e já nesta abertura podemos perceber claramente a pegada mais pesada e Thrash, trazendo à mente aqueles grandes nomes da Bay Area.
Riffs cortantes, andamento dinâmico, refrão marcante e solos que alternam velocidade e técnica, com precisos wha-whas. Bateção de cabeça garantida. Grande abertura.
E sem tempo de recuperar o fôlego, o riff marcante de "The Girl Who Loved the Dead" já prende de imediato. A primeira faixa apresentada de "Digital Screams", com o lançamento do vídeo dia 09/05, traz riffs em profusão, guitarras nervosas e com variações de andamento, ora com trechos mais rápidos, ora com outros mais cadenciados e carregadas de peso.
E seguindo o tema da letra e vídeo, há uma passagem que traz aquele clima de mistério e tensão.
Na sequência, a auto intitulada “Epitaph”, que inicia com uma citação a Allan Poe, tem andamento mais arrastado e carregada de groove. Riffs marcantes e a cozinha trazendo peso e precisão, com Fábio Figueiredo mostrando peso e refino nos graves, e César “Five” pesando a mão e também mostrando sua versatilidade. Baterias “reais”, daquelas da escola de mestres como Paice.
Abro parênteses para ressaltar as variações e arranjos elaborados nas linhas vocais, guitarras e cozinha, algo que é recorrente nas oito faixas, mostrando todo o cuidado e trabalho que a banda dedicou, alcançando um alto nível.
“Road of Fire”, uma das minhas favoritas , segue mantendo o nível lá em cima, dando uma pisada no acelerador, trazendo slide guitars, riffs e refrão marcantes, algo também recorrente no álbum. O groove se une ao peso, com alternância desses trechos que trazem a malícia do Hard e Southern Rock contemporâneo, com passagens mais agressivas, e Joe Louder mais uma vez traz linhas versáteis, com agudos estilo Halford.
E as guitarras…ah as guitarras! Trabalho impecável, com a dupla Marlon e André Canhoto destilando peso, técnica, melodia e criatividade nas bases, arranjos, solos e riffs. Ambos, assim como os demais músicos, trabalham em prol das composições, dosando precisamente e tendo o protagonismo quando a música pede.
E esse parágrafo acima usei para introduzir a faixa título, e outra das minhas favoritas. Um excelente cartão de visitas para apresentar a alguém o álbum, e corroborar o que falei acima. “Digital Screams”, uma das duas faixas mais longas do álbum, é uma paulada na orelha do início ao fim.
Traz a participação e letra de Gustavo Demarchi, que divide os vocais com Joe, e a inspiração lírica foi a polarização política acirrada nas redes sociais, além do avanço da tecnologia de Inteligência Artificial (IA), com suas polêmicas, prós e contras, defensores e opositores.
Carregada de urgência, a música nos transmite um clima de tensão, com seu andamento cadenciado, climático e pesadíssimo. O dueto entre Demarchi e Louder soa como um discurso de alerta, com interpretações cheias de teatralidade e aflição.
A dupla de guitarras nos trazem riffs solos que enfatizam essa tensão, seja quando atuam individualmente, ou nos momentos que dividem as melodias e soam gêmeas.
Depois dessa tensão e peso, novamente a banda dá uma pisada no acelerador em “National Guard”, uma faixa dinâmica, de riffs rápidos e cortantes, destacando o groove no refrão, os wha-whas novamente dando as caras com destaque, e as melodias Heavy Tradicional que surgem após os solos.
Realmente, a banda reuniu com coesão os elementos de Heavy Metal Tradicional, Thrash e as influências individuais neste álbum.
“National Guard” é um bom exemplo, pois por mais que soe Heavy Metal naquela linha Judas (que, convenhamos, é sinônimo de Metal), há esses outros elementos, e claro, ao final criam a marca pessoal da Epitaph.
A letra, a exemplo da faixa título, também aborda as questões do uso das redes sociais e ferramentas virtuais para fins escusos, como perpetuar fake news e discursos de ódio. "O Captain, my Captain, you teach me to hate..."
E na faixa seguinte, nada de tirar o pé do acelerador. “Something Better than God” tem pegadas de Heavy Metal tradicional, mas seguindo essa marca pessoal que a banda imprimiu, mesclando com coesão as suas inspirações.
Destaque para os vocais agressivos e lá em cima de Joe, numa linha Halford/Bobby Blitz. E claro, preste atenção nas letras ácidas do álbum. Em "Something...", temos uma crítica ao uso da religião em benefício próprio, idolatria e venda, literal, de ilusões.
Fechando, temos “Blue Cave”. E na primeira audição do álbum pensei: “Já é a última!?!?”
Isso mostra a dinâmica e a qualidade do disco, que jamais cansa o ouvinte, daqueles álbuns de se ouvir sem pular uma faixa.
“Blue Cave”, mais uma das minhas favoritas, segue o ritmo mais acelerado, com o baixo fazendo a intro, para em seguida os riffs entrarem pesadíssimos e com César sentando a mão sem dó no seu kit.
Aqui acho que temos um dos refrãos mais marcantes do álbum. E para quem não é de Porto Alegre e região, “Blue Cave” é uma famosa boate da capital. A história da letra é tipo, digamos, estilo "Don't Stop Believing", mas com uma realidade mais dura, onde a garota da cidade pequena acaba seguindo caminhos não tão sonhados inicialmente.
Para situar o ouvinte, posso dizer que ela soa como um Judas Priest com pegada mais thrash. E claro, destaque para as variações vocais de Joe, e os excelentes solos, novamente tendo o uso de wha-whas, mesclando melodia e tensão, e ainda o violão “Southern” com que a faixa vai se despedindo.
Ufff! Agora é recuperar o fôlego e colocar para rodar de novo! Discaço de Metal!
Concluindo, ressalto novamente a evolução da banda, materializada e registrada em "Digital Screams", um ótimo álbum de Metal, pesado e contemporâneo, sem perder as raízes.
Fotos: Divulgação, Vinny Vanoni













