Por Renato Sanson
Fotos Vinny Vanoni
Existe uma diferença enorme entre organizar um show e proporcionar uma experiência completa para quem participa dele. E foi justamente essa diferença que ficou evidente na noite de 16 de setembro de 2026, quando o Helloween desembarcou em Porto Alegre para apresentar sua 40 Years Anniversary Tour, na KTO Arena, antiga Pepsi On Stage.
Se de um lado os alemães mostraram por que continuam sendo uma das maiores referências do power metal mundial, do outro, a estrutura oferecida para imprensa e pessoas com deficiência deixou bastante a desejar.
E, neste caso, falo não apenas como jornalista, mas também como cadeirante e profissional que já realizou coberturas de shows no Brasil e fora do país.
Começando pelo credenciamento
A experiência já começou de maneira pouco organizada.
As informações referentes ao credenciamento da imprensa eram escassas e, em uma noite particularmente fria em Porto Alegre, foi necessário descobrir praticamente no local que a retirada das credenciais aconteceria dentro do estacionamento ao lado da casa de shows, com acesso pelos fundos do palco.
Até aí, tudo bem. Situações de logística podem acontecer em grandes eventos.
O problema começou quando, já dentro da Arena KTO, ficou evidente que não havia um espaço adequado e previamente estruturado para pessoas com deficiência acompanharem o espetáculo.
A situação foi especialmente complicada porque, como cadeirante credenciado para realizar a cobertura, surge uma pergunta bastante simples: onde eu assistiria ao show para depois poder fazer o meu trabalho?
Foi necessário procurar a assessoria responsável pelo evento para explicar a situação. E aqui é importante fazer justiça: a equipe de assessoria procurou resolver o problema e fez o possível diante da situação encontrada.
A solução, entretanto, estava longe de ser ideal.
Um espaço improvisado e com visão comprometida
Fui colocado após a grade, em uma área lateral próxima ao palco.
A orientação dada era que, caso aparecessem outros cadeirantes, eles também seriam colocados naquele espaço, enquanto as demais pessoas com deficiência seriam direcionadas para uma suposta área dentro da casa.
O problema é que essa área destinada às pessoas com deficiência simplesmente não estava disponível de maneira adequada.
E, caso mais cadeirantes chegassem, a situação poderia ficar ainda pior.
O espaço em que fui colocado já apresentava visibilidade bastante prejudicada, com um pilar justamente à frente e um segurança posicionado no local por questões de segurança. Durante boa parte da apresentação, portanto, minha visão do palco ficou comprometida pelo próprio profissional de segurança.
Para quem está ali apenas como espectador, já seria frustrante.
Para quem está ali trabalhando, fotografando, observando a apresentação e posteriormente escrevendo uma resenha, torna-se ainda mais problemático.
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| MINHA VISÃO DO SHOW POR BOA PARTE... |
É difícil realizar uma cobertura adequada quando você precisa disputar visualmente o palco com um pilar e com um segurança.
E existe uma questão ainda maior: acessibilidade não pode depender de improviso no momento em que o cadeirante chega ao evento.
A própria divulgação do evento informava que havia acesso para a área PCD. Na prática, entretanto, a experiência que tive naquela noite não correspondeu ao que havia sido anunciado.
E os fotógrafos?
A situação da imprensa também merece ser mencionada.
Os fotógrafos credenciados precisaram permanecer do lado de fora, ao relento, esperando pela liberação da produção para serem conduzidos até o pit.
Em uma noite de frio intenso, não é exatamente o tipo de tratamento que se espera de uma produção responsável por um show internacional de grande porte.
Não se trata de exigir privilégios.
Trata-se de oferecer condições mínimas para que profissionais credenciados possam desempenhar seu trabalho.
E infelizmente essa parece ser uma situação que vem se repetindo em eventos no Rio Grande do Sul.
Já tive a oportunidade de realizar coberturas fora do estado e também fora do Brasil. A comparação inevitavelmente acaba acontecendo. E é difícil não perceber a diferença na maneira como profissionais de imprensa são tratados em determinadas produções.
Cada vez mais, realizar uma cobertura profissional de shows no RS parece uma tarefa que exige mais disposição para enfrentar a logística do que para propriamente cobrir o espetáculo.
O antigo Pepsi On Stage
A situação chama ainda mais atenção porque estamos falando de um espaço que possui uma longa história na música ao vivo de Porto Alegre.
Inaugurado em 2006, o local funcionou por quase duas décadas como Pepsi On Stage e recebeu grandes nomes nacionais e internacionais. Em 2025, passou a se chamar KTO Arena após a aquisição dos naming rights pela KTO, permanecendo sob administração da Opinião Produtora.
A expectativa, portanto, naturalmente seria encontrar uma estrutura preparada para receber grandes eventos e diferentes públicos.
A própria divulgação da nova KTO Arena anunciava transformações internas e uma nova experiência para os visitantes.
Por isso, encontrar uma estrutura tão pouco preparada para uma situação básica de acessibilidade acabou sendo ainda mais decepcionante.
A impressão deixada naquela noite foi a de um espaço que, apesar do tamanho e da história, ainda precisa evoluir bastante quando o assunto é pensar no público em sua totalidade.
Mas então vamos falar do Helloween
Porque, felizmente, quando as luzes se apagaram e o Helloween entrou no palco, a história mudou completamente.
A banda alemã está celebrando 40 anos de carreira, e a apresentação em Porto Alegre fez jus à dimensão dessa trajetória.
Com um palco de grande porte, produção competente, muita movimentação e uma passarela avançando em direção ao público, o Helloween transformou a KTO Arena em uma verdadeira celebração do power metal.
O repertório foi um dos grandes destaques.
A apresentação começou com a introdução de “Let Me Entertain You”, de Robbie Williams, antes de a banda entrar de vez com “March of Time” e “The King for a 1000 Years”.
Na sequência vieram clássicos como “Future World”, “We Burn”, “Twilight of the Gods”, “Ride the Sky”, “Hey Lord!” e “I Want Out”.
O set também contemplou a fase mais recente da banda, com “This Is Tokyo”, “Into the Sun”, “Universe (Gravity for Hearts)” e “A Little Is a Little Too Much”, mostrando que a comemoração não ficou presa apenas à nostalgia. O repertório da noite percorreu diferentes momentos da discografia do grupo.
E, obviamente, não poderiam faltar alguns dos momentos mais aguardados pelos fãs.
“A Tale That Wasn't Right”, “Heavy Metal (Is the Law)” e principalmente “Halloween” deram ao público alguns dos grandes momentos da noite.
No bis, a banda voltou para entregar uma sequência praticamente obrigatória para qualquer fã de Helloween: “Eagle Fly Free”, “Power”, “Dr. Stein” e, encerrando a apresentação, o trecho final de “Keeper of the Seven Keys”.
O show teve início por volta das 21h e terminou aproximadamente às 23h10, totalizando cerca de duas horas de apresentação.
Uma banda impecável em uma experiência que poderia ter sido muito melhor
E talvez essa seja a parte mais difícil de escrever desta resenha.
O Helloween fez aquilo que se esperava, e mais.
Uma banda com quatro décadas de história, músicos experientes, repertório gigantesco e uma produção à altura entregou um show que, musicalmente, tinha tudo para ser inesquecível.
Mas a experiência de quem estava ali para trabalhar foi prejudicada antes mesmo de a primeira nota ser tocada.
No meu caso, como cadeirante, a dificuldade de encontrar um local adequado para acompanhar o espetáculo acabou interferindo diretamente na experiência. É impossível ignorar que boa parte da apresentação foi assistida com obstáculos físicos comprometendo a visão do palco.
E isso não é uma crítica ao Helloween.
É justamente o contrário.
Uma banda desse tamanho merece uma estrutura à altura também fora do palco.
Acessibilidade não deveria ser uma solução improvisada depois que alguém reclama. Da mesma forma, profissionais de imprensa credenciados não deveriam precisar permanecer no frio esperando por uma orientação básica de acesso ao local de trabalho.
O metal continua gigante. A estrutura precisa acompanhar.
O público de Porto Alegre mostrou mais uma vez que existe espaço para grandes turnês internacionais na cidade. A passagem do Helloween pela capital gaúcha integrou a celebração de quatro décadas da banda e trouxe um repertório que passeou por diferentes eras do grupo, com clássicos capazes de fazer qualquer fã cantar do começo ao fim.
Mas fica também uma reflexão para produtores, casas de shows e assessorias:
não basta trazer grandes bandas. É preciso oferecer uma experiência digna para todos que fazem parte dela.
Pessoas com deficiência precisam ter autonomia e visibilidade real para assistir aos shows.
Fotógrafos precisam ter condições mínimas para trabalhar.
Jornalistas precisam conseguir realizar suas coberturas sem enfrentar obstáculos que poderiam ser resolvidos com planejamento.
No fim das contas, o Helloween fez sua parte.
A banda entregou uma noite de heavy metal de altíssimo nível.
Quem sabe, para os próximos grandes shows, a estrutura ao redor do palco consiga finalmente acompanhar o nível do que acontece em cima dele.
















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