quinta-feira, 18 de junho de 2026

Bloodhunter: Melodeath em Estado Máximo (Also In English)

ROAR (Imp.)

Bloodhunter une peso e maturidade em Sons of the Abandoned

Por Michelle F. Santana 

O Bloodhunter, banda espanhola de death metal melódico formada em 2008, chega ao seu quarto álbum de estúdio, Sons of the Abandoned, sucessor de Knowledge Was the Price (2022). Embora mantenha a identidade sonora consolidada no trabalho anterior, o novo disco surge mais agressivo, energético e dinâmico, evidenciando um amadurecimento notável na composição e na execução da banda. As temáticas também evoluem, afastando-se parcialmente dos elementos mitológicos que marcaram trabalhos anteriores para explorar questões mais psicológicas, abordando vulnerabilidades humanas, conflitos internos e dilemas existenciais de maneira mais profunda e introspectiva.

Musicalmente, o álbum apresenta menos espaço para solos extensos quando comparado aos dois primeiros trabalhos do grupo, priorizando a construção de atmosferas, riffs marcantes e uma dinâmica mais fluida entre agressividade e melodia.

A abertura com "The Devil's Own" deixa claro, desde os primeiros segundos, qual é a proposta do álbum. A faixa é explosiva, intensa e demonstra imediatamente a maturidade alcançada pela banda. Os riffs de Dani Arcos são agressivos, trabalhados e memoráveis, enquanto Diva Satánica entrega uma das performances vocais mais técnicas e brutais de sua carreira. A bateria de Adrián Perales é rápida e pesada, impulsionando a música com precisão e reforçando a agressividade das guitarras, evidenciando a forte influência do death metal melódico sueco presente em toda a composição.

Em "Threshold of Hell", o Bloodhunter conta com a participação especial de Fernando Ribeiro, vocalista do Moonspell. A música aborda temas como depressão e luta interna — conflitos inerentes à condição humana —, trazendo riffs mais cadenciados e melódicos. A voz grave, sombria e soturna de Fernando cria um contraste fascinante com os guturais rasgados de Diva Satánica. A faixa finaliza com uma sirene como recurso sonoro, ampliando a sensação de angústia e desespero transmitida pela composição, resultando em uma das músicas mais interessantes e atmosféricas do álbum.

A faixa-título, "Sons of the Abandoned", sintetiza grande parte da proposta do disco. Mantendo a forte influência da escola sueca de death metal melódico, a música acrescenta uma energia contagiante e um senso de grandiosidade. O refrão é explosivo e triunfante, sustentado por linhas melódicas marcantes que fazem da faixa uma forte candidata a se tornar um dos pontos altos das apresentações ao vivo da banda. O solo é envolvente e reforça o caráter épico da composição, remetendo aos grandes encerramentos de show.

Já "The Path That Never Ends" conta com a participação de Laura Guldemond e se destaca como uma das composições mais dinâmicas do disco. Embora comece de forma agressiva, a música transita com naturalidade entre o death metal melódico e elementos progressivos. A interpretação de Diva Satánica é impecável, mas é a combinação entre seus vocais extremos e a voz limpa, poderosa e melódica de Laura que eleva a faixa a outro nível, criando momentos verdadeiramente hipnóticos.

O encerramento fica por conta de "Human Insecticide", cover da clássica música do Annihilator. Aqui, a influência do thrash metal é evidente, mas o Bloodhunter consegue incorporar sua identidade melodeath sem descaracterizar a essência da composição original. O resultado é uma releitura pesada, intensa e extremamente eficiente, impulsionada por vocais mais agressivos e carregados de revolta, exatamente como a música exige.

Ao revisitar a trajetória da banda, torna-se evidente o crescimento gradual do Bloodhunter em todos os aspectos musicais. Sons of the Abandoned marca um novo patamar nessa evolução, reunindo peso, técnica, precisão e composições cada vez mais maduras. É um álbum envolvente do início ao fim, que revela novas nuances a cada audição e confirma o Bloodhunter como uma banda cada vez mais segura de sua identidade artística e de seu potencial criativo.


***ENGLISH VERSION***

Bloodhunter Reaches a New Level of Maturity with Sons of the Abandoned

Bloodhunter, the Spanish melodic death metal band formed in 2008, returns with its fourth studio album, Sons of the Abandoned, the successor to Knowledge Was the Price (2022). While retaining the sonic identity established on its predecessor, the new record emerges as a more aggressive, energetic, and dynamic effort, showcasing a remarkable evolution in both songwriting and performance. The lyrical themes have also matured, moving partially away from the mythological elements that characterized previous releases to explore more psychological territory, addressing human vulnerabilities, inner conflicts, and existential dilemmas in a deeper and more introspective manner.

Musically, the album places less emphasis on extended guitar solos compared to the band's first two records, favoring atmosphere-building, memorable riffs, and a more fluid balance between aggression and melody.

Opening track "The Devil's Own" makes the album's intentions clear from the very first seconds. Explosive and intense, the song immediately demonstrates the band's growth and maturity. Dani Arcos delivers aggressive, carefully crafted, and memorable riffs, while Diva Satánica turns in one of the most technical and brutal vocal performances of her career. Adrián Perales' drumming is fast and powerful, driving the song forward with precision and reinforcing the aggression of the guitars, while highlighting the strong influence of Swedish melodic death metal throughout the composition.

On "Threshold of Hell", Bloodhunter is joined by special guest Fernando Ribeiro, vocalist of Moonspell. The song tackles themes such as depression and internal struggle—conflicts inherent to the human condition—through more restrained and melodic riffing. Fernando's deep, dark, and somber voice creates a fascinating contrast with Diva Satánica's harsh growls. The track concludes with a siren effect that amplifies the sense of anguish and despair conveyed by the composition, resulting in one of the album's most compelling and atmospheric moments.

The title track, "Sons of the Abandoned", encapsulates much of the album's overall vision. Maintaining a strong influence from the Swedish melodic death metal school, the song adds an infectious energy and a sense of grandeur. Its explosive and triumphant chorus is supported by memorable melodic lines that make it a strong contender to become a live favorite. The guitar solo is captivating and reinforces the song's epic character, evoking the feeling of a grand concert finale.

Meanwhile, "The Path That Never Ends" features guest vocals from Laura Guldemond and stands out as one of the album's most dynamic compositions. Although it begins with pure aggression, the track naturally shifts between melodic death metal and progressive elements. Diva Satánica's performance is flawless, but it is the combination of her extreme vocals with Laura's powerful and melodic clean singing that elevates the song to another level, creating truly hypnotic moments.

The album closes with "Human Insecticide", a cover of the classic Annihilator track. Thrash metal influences are unmistakable here, yet Bloodhunter successfully injects its melodic death metal identity without compromising the essence of the original composition. The result is a heavy, intense, and highly effective reinterpretation, driven by more aggressive vocals that perfectly capture the anger and rebellion the song demands.

Looking back at the band's trajectory, Bloodhunter's gradual growth becomes evident in every aspect of its musicianship. Sons of the Abandoned marks a new milestone in that evolution, bringing together heaviness, technique, precision, and increasingly mature songwriting. It is an engaging album from beginning to end, one that reveals new layers with each listen and confirms Bloodhunter as a band growing ever more confident in its artistic identity and creative potential.

Beatriz Mariano

Lex Legion: Entrevista Reis e Lendas (Also In English)

MNRK Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Quando se fala em super projetos, existe sempre o risco de que a fama dos nomes seja maior do que o resultado do álbum. Felizmente, esse não é o caso de Lex Legion. Formado por músicos diretamente ligados à fase clássica de King Diamond — os guitarristas Andy La Rocque e Pete Blakk, o baixista Hal Patino e o baterista Mikkey Dee — ao lado do vocalista Nils K. Rue (Pagan’s Mind), o grupo entrega um álbum que resgata a essência do heavy metal dos anos 1980 sem parecer uma simples peça de nostalgia. 

A principal virtude do disco está na química entre músicos que claramente compartilham a mesma visão artística. As guitarras de La Rocque e Blakk alternam riffs magnificos e harmonizações inspiradas, enquanto Mikkey Dee exibe a mesma pegada poderosa que o tornou um dos bateristas mais respeitados do gênero sendo por muito tempo responsável pelas baquetas do Motorhead e dos Scorpions onde está atualmente. Nils Rue (Pagan’s Minds) surpreende: mesmo com timbres de voz parecidos, em especial ao explorar registros agudos, e também interpretações super dramáticas, que inevitavelmente remetem ao lendário vocalista dinamarquês, e as faixas pedem isso, Nils foge de imita-lo.

A abertura deixa claro o que a banda quer fazer, e o que se espera dela. Sleep Eternally vem com riffs tradicionais, refrão forte e vocais agudos, que imediatamente remetem ao metal clássico. É uma faixa construída para apresentar a identidade do grupo de forma direta e eficiente. Mesmo com uma estrutura familiar sua energia é inegável. Ótimo início.

Gypsy Tears é mais melódica e acessível, reforça a influência de bandas clássicas da década de 80 como Iron Maiden (mais no instrumental) e Queensrÿche (na parte vocal). O destaque fica para o trabalho de guitarras gêmeas e para o refrão memorável. Apesar de seguir uma fórmula semelhante à da abertura, amplia o alcance melódico do álbum. 

Um dos momentos mais sombrios do disco é When The Stars Align. O riff principal possui peso e atmosfera suficientes para criar uma identidade própria, enquanto os arranjos demonstram que o grupo sabe ir além da simples homenagem aos anos 1980. Sem dúvida um dos melhores momentos do trabalho. 

Esta é a faixa mais explosiva do álbum. (I Am) The Resurrected tem um andamento acelerado e espírito épico, remete ao período clássico do power metal europeu, seria como um lado negro do Helloween da era Keeper of the Seven Keys. É impossível não imaginar essa música funcionando perfeitamente ao vivo. 

Lost Inside é uma das composições mais fortes do repertório. O clima remete ao Iron Maiden clássico, mas com uma abordagem mais moderna na produção. O refrão é marcante e os solos de Andy La Rocque brilham especialmente aqui. Mais um dos grandes destaque do álbum. 

Dreams Of Darkness é provavelmente a faixa mais pesada do disco. O trabalho rítmico de Mikkey Dee assume papel central, enquanto as guitarras exploram uma atmosfera mais obscura. Funciona como um contraponto necessário à forte carga melódica predominante. 

Um hino de médio andamento que demonstra a versatilidade da banda Saviours agrega de forma discreta elementos progressivos, enriquecendo uma composição que cresce a cada audição. Aqui peso e melodia são dosados de maneira exata. 

Em Life Eternal a intensidade aumenta novamente antes do encerramento do álbum, com riffs poderosos e uma performance vocal inspirada. Uma paulada devastadora. É uma faixa que sintetiza praticamente todos os elementos apresentados ao longo do disco. 

O cinematográfico fechamento instrumental Far Away surpreende pela sensibilidade. e forte carga emocional, permite que os músicos brilhem sem a necessidade de vocais. É um final elegante para um álbum essencialmente construído sobre energia e grandiosidade. 

Lex Legion não reinventa o heavy metal. Na verdade, a banda jamais pretendeu fazê-lo. O álbum é uma celebração sincera da escola clássica que transformou Andy La Rocque, Pete Blakk, Hal Patino e Mikkey Dee em nomes cultuados pelos fãs de King Diamond. O que diferencia este trabalho de tantos exercícios nostálgicos é a qualidade da composição e a convicção com que ele é executado. 

Se algumas músicas seguem caminhos conhecidos, o conjunto compensa com riffs inesquecíveis, performances impecáveis e um raro senso de autenticidade. Lex Legion surge como uma das estreias mais relevantes de 2026 e um dos lançamentos obrigatórios do ano, pena que tenha apenas 35 minutos!


***ENGLISH VERSION***

When it comes to supergroups, there is always the risk that the reputation of the musicians involved will outweigh the quality of the final product. Fortunately, that is not the case with Lex Legion. Featuring musicians closely associated with King Diamond’s classic era—guitarists Andy La Rocque and Pete Blakk, bassist Hal Patino, and drummer Mikkey Dee—alongside Pagan’s Mind vocalist Nils K. Rue, the band delivers an album that captures the spirit of 1980s heavy metal without feeling like a mere nostalgic exercise.

The album’s greatest strength lies in the chemistry between musicians who clearly share the same artistic vision. La Rocque and Blakk trade magnificent riffs and inspired harmonized guitar lines, while Mikkey Dee showcases the same thunderous style that made him one of heavy metal’s most respected drummers, having spent years behind the kit for Motörhead and, more recently, Scorpions. Nils K. Rue is equally impressive. While his vocal tone—particularly in the higher registers—and his highly dramatic delivery inevitably recall the legendary Danish frontman, he wisely avoids imitation. The songs certainly call for that kind of theatrical performance, yet Rue manages to make the role entirely his own.

The opening track immediately establishes both the band’s intentions and what listeners can expect from the album. “Sleep Eternally” arrives with traditional riffs, a powerful chorus, and soaring vocals that instantly evoke classic heavy metal. It is a song designed to introduce the band's identity in a direct and effective manner. Even with its familiar structure, its energy is undeniable. A strong start.

“Gypsy Tears” is more melodic and accessible, reinforcing the influence of classic 1980s bands such as Iron Maiden—particularly in the instrumental work—and Queensrÿche in the vocal approach. The twin-guitar interplay and memorable chorus are the song’s highlights. While it follows a formula similar to the opener, it expands the album’s melodic scope.

One of the darkest moments on the record is “When The Stars Align.” The main riff carries enough weight and atmosphere to establish its own identity, while the arrangements demonstrate that the band is capable of going beyond a simple tribute to the 1980s. Without question, one of the album’s finest moments.

This is the most explosive track on the album. “(I Am) The Resurrected” combines a fast-paced attack with an epic spirit that recalls the golden age of European power metal. It feels like the darker side of Helloween during the Keeper of the Seven Keys era. It is impossible not to imagine this song becoming a live favorite.

“Lost Inside” ranks among the strongest compositions in the band’s repertoire. The atmosphere recalls classic Iron Maiden, but with a more contemporary production approach. The chorus is instantly memorable, and Andy La Rocque’s guitar solos shine particularly brightly here. Another major highlight of the album.

“Dreams Of Darkness” is probably the heaviest song on the record. Mikkey Dee’s rhythmic performance takes center stage, while the guitars explore a darker and more ominous atmosphere. It serves as a necessary counterbalance to the album’s predominantly melodic character.

A mid-tempo anthem that showcases the band’s versatility, “Saviours” subtly incorporates progressive elements, enriching a composition that reveals new details with every listen. Here, heaviness and melody are balanced with remarkable precision.

On “Life Eternal,” the intensity rises once again before the album reaches its conclusion. Driven by powerful riffs and an inspired vocal performance, the track hits like a sledgehammer. It effectively brings together nearly every element presented throughout the record.

The cinematic instrumental closer “Far Away” surprises with its sensitivity and emotional depth. It allows the musicians to shine without the need for vocals, providing an elegant conclusion to an album fundamentally built on power, energy, and grandeur.

Lex Legion does not reinvent heavy metal. In truth, the band never intended to do so. Instead, the album serves as a heartfelt celebration of the classic metal tradition that helped turn Andy La Rocque, Pete Blakk, Hal Patino, and Mikkey Dee into revered names among King Diamond fans. What separates this release from countless nostalgic exercises is the quality of the songwriting and the conviction with which it is performed.

While some songs occasionally follow familiar paths, the overall package more than compensates with unforgettable riffs, flawless performances, and a rare sense of authenticity. Lex Legion stands as one of the most significant debut albums of 2026 and one of the year’s essential heavy metal releases. The only real complaint? At just 35 minutes, it ends far too soon.

Divulgação 





quarta-feira, 17 de junho de 2026

Heavenwood: Um Recomeço e a Parte Final da Saga "Tarot of the Bohemians"

 


Por: Carlos "Caco" Garcia 
Fotos: Divulgação 
English Version Below

Antes de iniciarmos a falar deste novo álbum do Heavenwood, é bom fazer um breve histórico, para quem ainda não conhece a pioneira banda de Dark/Gothic Metal Portuguesa. O grupo , oriundo de Vila Nova de Gaia, iniciou atividades lá no início dos anos 90, ainda sob o nome Disgorged, lançando duas demos, trabalhos que chamaram a atenção da Massacre Records.

No selo alemão faz sua estreia em 1996, com o álbum “Diva”, e já rebatizados como Heavenwood (que foi tirado do título de uma música da primeira demo, “Judith Heavenwood”), pois o antigo nome já não parecia adequado à evolução sonora da banda, que estava mais sombrio e melódico. 

Com “Diva” (96), o Heavenwood rompeu fronteiras, e foi a primeira banda de Metal Portuguesa a ter material também distribuído no Japão. 

Com “Swallow” (98), Heavenwood expandiu ainda mais a sua sonoridade melódica e sombria, e também o seu nome no cenário mundial, se tornando a primeira banda lusitana de Metal a tocar no Wacken. Vale ressaltar que contaram como convidados no álbum, Kai Hansen e Liv Kristine.


Apesar de um, digamos, recuo nas atividades, principalmente turnês, o Heavenwood seguiu lançando álbuns os quais sempre buscavam novos desafios,  e tendo o desejo de fazer música e arte principalmente. 

Então vieram “Redemption” (2008) e o orquestral “Abyss Masterpiece” (2011), inspirado na obra da poetisa portuguesa Marquesa de Alorna, e em 2016 apresentou sua, provavelmente, obra mais ousada, a primeira parte de duas de “Tarot of the Bohemians”. 

Com a inspiração lírica nas palavras de Gérard Anaclet Vincent Encausse (13 de julho de 1865 – 25 de outubro de 1916), cujos pseudônimos esotéricos eram Papus e Tau Vincent, foi um médico, hipnotizador e popularizador do ocultismo francês, fundador da Ordem Martinista moderna, o Heavenwood entregou um trabalho instigante, coberto de camadas inspiradas tanto musicais, como liricamente falando, transportando o ouvinte por uma atmosfera densa, pesada, melódica e reflexiva.

Em 2022 o mentor e mente criativa do Heavenwood, Ricardo Dias, sofreu um acidente quase fatal, e essas lutas pessoais, aliadas a mudanças de formação, chegaram a colocar em dúvida a continuidade da banda, e por conseguinte, da conclusão da obra.

Mas felizmente, dez anos após sua primeira parte, “Tarot of the Bohemians Part II” , sexto álbum da banda, finalmente teve seu lançamento oficial no dia 12/06/2026, via Mighty Music.

São 10 músicas, as quais completam a obra que aborda os 22 arcanos maiores do tarô, e marcam também uma nova fase, com uma visão mais individual de Ricardo Dias, que a partir de 2024 iniciou a produção do álbum. 

Ricardo foi responsável por gravar todos os instrumentos, além dos seus vocais, com exceção da bateria, gravada por Eduardo Sinatra. A bela e misteriosa arte da capa foi concebida pela artista gráfica Naya Kotko.

Neste universo abordado, onde cada ouvinte certamente também terá sua própria interpretação e será tocado pela música e atmosfera de formas diferentes.

Tarot of the Bohemians Part II” inicia com “Death”, a carta que significa transformação, encerramento de ciclos e recomeço, se mostra perfeita para essa nova fase, com certeza tendo significado especial para Ricardo. Uma canção de andamento lento, guitarras carregadas de peso e vocais guturais, nos conduz a uma imersão recheada de melodias sombrias, por vezes desesperadoras e caóticas, atmosfera essa que permeia as primeiras 4 faixas do álbum.

Temperance”, a carta do equilíbrio e harmonia, traz uma atmosfera Gothic/Doom envolvente, com seu andamento sereno e belas melodias sombrias nas guitarras. Já “The Devil”, representante dos desejos materiais, inicia tempestuosa e com andamento mais veloz, com a bateria rápida, quebrada e orgânica. Mescla riff melodiosos e agressivos, que se completam com as camadas vocais, aqui com apoio de vozes femininas.

The Lightning Struck Tower”, a representação das mudanças repentinas e quebra de ilusões, também traz um ritmo mais frenético, iniciando com double-bass na bateria e o baixo pulsante, para em seguida serem acompanhadas por riffs urgentes e destacando a bateria intrincada. A faixa traz mudanças de atmosfera, com solos melodiosos, até finalizar com muito peso e agressividade.


Esperança, inspiração e fé no futuro, é o que representa a estrela no Tarô, e “Stars” envolve desde o início com suas melodias cativantes, andamento dinâmico e refrão marcante. Se destacam também os vocais femininos, em uma faixa de sonoridade predominantemente limpa e melodiosa, e com atmosfera mais leve.

“The Moon”, que nas cartas do tarô representa a intuição aguçada e o inconsciente, traz uma atmosfera semelhante à sua antecessora, porém ainda mais melodiosa, repleta de melodias cativantes e refrão memorável. A atmosfera Gothic Rock e o dueto de vocal feminino e masculino se destacam.

Vitalidade, sucesso e clareza, alguns dos elementos que a carta sol representa, e “The Sun” traz um manifesto em forma de uma balada Gothic/Metal, de vocais quase sussurrados de Ricardo, tendo no refrãos o contraponto de vocais femininos. De ritmo lento e envolvente, a canção é entrecortada por momentos límpidos e melodias cativantes da guitarra.

“The Judgement”, representação do despertar e auto perdão, surge em uma faixa que novamente o peso predomina, e nos faz transitar por caminhos sinuosos, embora alterne com alguns momentos mais melodiosos. Os vocais guturais se contrapõem com um coro de vozes de crianças no refrão. 

Um salto no desconhecido, um dos significados do “tolo” do tarô, e chegamos a ela,  “The Fool”, que inicia com violão acústico e a voz sussurrada e grave de Ricardo. A música traz elementos de Classic Rock ao Gothic/Metal melodioso que a permeia. 

As melodias ao violão vão entrecortando os riffs de guitarra, o refrão é marcante e provavelmente o mais melodioso do álbum, tendo novamente duetos de vozes masculinas e femininas. Destaque também para o uso de slide e solos que valorizam a simplicidade e melodias tocantes.

Fechando a obra, temos a bela e dinâmica “The World”, a carta que significa realização e conclusão de ciclos. Inicia intensa, como recomeços, e traz peso, melodia e uma atmosfera revitalizadora. 

Com seu andamento mais acelerado, destaca novamente o excelente trabalho da bateria. As melodias no refrão se insinuam ao mesmo tempo suavemente melancólicas e cativantes, onde mais uma vez a voz grave e introspectiva de Ricardo faz contraponto com vocais femininos. 

Um belo “grand finale”, onde o refrão ficará ecoando na sua mente: "...I'll be There, Sooner or Later".


Fazer música enquanto questão artística, essa frase ecoou na minha mente, e a uso novamente para encerrar esta matéria, pois condiz muito bem com a história do Heavenwood e de Ricardo Dias, que, felizmente, entrega mais um grande álbum, uma viagem Dark/Gothic Metal carregada de emoções e musicalmente intensa e variada, trazendo aquela aura anos 90 dos melhores momentos do estilo, porém renovada.

Com certeza um trabalho muito significativo para Ricardo, face a todos os acontecimentos que antecederam a criação e finalização da saga iniciada uma década atrás. 

E agora, o que reserva o futuro para os Heavenwood? Talvez as cartas tenham a resposta.





***********ENGLISH VERSION************

Heavenwood: A New Beginning and the Final Part of the "Tarot of the Bohemians" Saga


Before we begin discussing this new Heavenwood album, it's good to give a brief history for those unfamiliar with the band. The Portuguese group began its activities in the early 90s, still under the name Disgorged, releasing two demos, works that caught the attention of Massacre Records.


They made their debut on the German label in 1996 with the album "Diva," already renamed Heavenwood (taken from the title of a song from their first demo, "Judith Heavenwood"), as the old name no longer seemed adequate to the band's sonic evolution, which was becoming darker and more melodic.

With "Diva" (96), Heavenwood broke boundaries and became the first Portuguese Metal band to have material distributed in Japan as well.

With "Swallow" (98), Heavenwood further expanded its melodic and dark sound, and also its name on the world stage, becoming the first Portuguese Metal band to play at Wacken. It's worth nothing that Kai Hansen and Liv Kristine were featured as guests on the album.

Despite a, let's say, slowdown in activities, mainly touring, Heavenwood continued releasing albums that always sought new challenges and had the desire to make music and art above all. Then came "Redemption" (2008) and the orchestral "Abyss Masterpiece" (2011), inspired by the work of the Portuguese poet Marquesa de Alorna, and in 2016 they presented what is probably their most daring work, the first of two parts of "Tarot of the Bohemians".

Inspired lyrically by the words of Gérard Anaclet Vincent Encausse (July 13, 1865 – October 25, 1916), whose esoteric pseudonyms were Papus and Tau Vincent, a French physician, hypnotist, and popularizer of occultism, and founder of the modern Martinist Order, Heavenwood delivered a thought-provoking work, covered in inspired layers both musically and lyrically, transporting the listener through a dense, heavy, melodic, and reflective atmosphere.

In 2022, Heavenwood's mentor and creative mind, Ricardo Dias, suffered a near-fatal accident, and these personal struggles, coupled with lineup changes, cast doubt on the band's continuity and, consequently, the completion of the work.

But thankfully, ten years after its first part, "Tarot of the Bohemians Part II" finally had its official release on June 12, 2026, via Mighty Music.

These are 10 songs, which complete the work that addresses the 22 major arcana of the tarot, and also mark a new phase, with a more individual vision from Ricardo Dias, who began producing the album in 2024.

Ricardo Dias

Ricardo was responsible for recording all the instruments, in addition to his vocals, except for the drums, recorded by Eduardo Sinatra. The beautiful and mysterious cover art was conceived by graphic artist Naya Kotko.

In this explored universe, each listener will certainly have their own interpretation and will be touched by the music and atmosphere in different ways.

Tarot of the Bohemians Part II” begins with “Death,” the card that signifies transformation, the closing of cycles and a new beginning, proving perfect for this new phase, certainly having special meaning for Ricardo. A slow-paced song, with heavy guitars and guttural vocals, leads us to an immersion filled with dark, sometimes desperate and chaotic melodies, an atmosphere that permeates the first 4 tracks of the album.

"Temperance," the card of balance and harmony, brings an immersive Gothic/Doom atmosphere, with its serene tempo and beautiful, dark guitar melodies. "The Devil," representing material desires, begins tempestuously and with a faster tempo, featuring fast, broken, and organic drumming. It blends melodic and aggressive riffs, complemented by vocal layers, here with the support of female voices.

"The Lightning Struck Tower," representing sudden changes and the shattering of illusions, also has a more frenetic rhythm, starting with double-bass drumming and a pulsating bass line, followed by urgent riffs and highlighting the intricate drumming. The track features changes in atmosphere, with melodic solos, before ending with great weight and aggression.

Hope, inspiration, and faith in the future are what the star in the Tarot represents, and "Stars" captivates from the start with its catchy melodies, dynamic tempo, and memorable chorus. The female vocals also stand out, in a track with a predominantly clean and melodious sound, and a lighter atmosphere.

“The Moon”, which in tarot cards represents keen intuition and the unconscious, has a similar atmosphere to its predecessor, but even more melodious, full of captivating melodies and a memorable chorus. The Gothic Rock atmosphere and the duet of female and male vocals stand out.

Vitality, success and clarity, some of the elements that the Sun card represents, and “The Sun” brings a manifesto in the form of a Gothic/Metal ballad, with Ricardo's almost whispered vocals, having the female vocals as a counterpoint in the choruses. [The text abruptly ends here, so the rhythm is incomplete.]

Slow and captivating, the song is interspersed with clear moments and engaging guitar melodies.

“The Judgement,” representing awakening and self-forgiveness, emerges in a track where heaviness again predominates, taking us on a winding journey, although alternating with some more melodic moments. The guttural vocals contrast with a chorus of children's voices in the refrain.

A leap into the unknown, one of the meanings of the “fool” in the tarot, and “The Fool” begins with acoustic guitar and Ricardo's whispered, hoarse voice. The music brings elements of Classic Rock to the melodic Gothic/Metal that permeates it. The acoustic guitar melodies interweave the guitar riffs, the chorus is striking and probably the most melodic on the album, again featuring duets of male and female voices. Also noteworthy is the use of slide guitar and solos that emphasize simplicity and touching melodies.

Closing the album, we have the beautiful and dynamic “The World,” the card that signifies fulfillment and the completion of cycles. It begins intensely, like a new beginning, and brings weight, melody, and a revitalizing atmosphere.

With its faster tempo, it once again highlights the excellent work of the drums. The melodies in the chorus are simultaneously subtly melancholic and captivating, where once again Ricardo's deep and introspective voice contrasts with female vocals. A beautiful “grand finale.”

Making music as an artistic endeavor—this phrase echoed in my mind, and I use it again to conclude this article, as it fits very well with the story of Heavenwood and Ricardo Dias, who, thankfully, delivers another great album of Dark/Gothic Metal, bringing back that 90s aura from the best moments of the style, but renewed 
,full of emotions and musically intense,  and certainly very significant for him, considering all the events that preceded the creation and completion of the final part of the saga that began a decade ago.

And now, what does the future hold for Heavenwood? Perhaps the cards have the answer.





terça-feira, 16 de junho de 2026

Cobertura de Show: Roland Grapow – 14/06/2026 – Manifesto Bar/SP

ROLAND GRAPOW CELEBRA "THE TIME OF THE OATH", MAS ESBARRA EM EXECUÇÃO IRREGULAR NO MANIFESTO BAR

Celebrar os 30 anos de The Time of the Oath em São Paulo parecia uma missão praticamente à prova de erros. Lançado em 1996, o sétimo álbum de estúdio do Helloween é considerado um dos trabalhos mais importantes da fase de Andi Deris e marcou uma retomada criativa da banda alemã, trazendo uma sonoridade mais pesada e madura, além de clássicos que ajudaram a consolidar o power metal nos anos 1990. O disco, inspirado nas profecias de Nostradamus, também foi dedicado à memória do baterista Ingo Schwichtenberg, falecido no ano anterior.

Foi justamente esse legado que o guitarrista Roland Grapow trouxe ao Manifesto Bar, em São Paulo, no último dia 14 de junho. Integrante do Helloween entre 1989 e 2001 e peça fundamental na construção da identidade musical daquela fase da banda, Grapow retornou ao Brasil acompanhado do mesmo time de músicos que o acompanhou em outras passagens recentes pelo país: João Luiz (King Bird/Golpe de Estado) nos vocais, Affonso Jr. (Confessori/Revenge) na guitarra, Fabio Carito (Metalium/Warrel Dane) no baixo e Marcus Dotta (Metalium/Warrel Dane) na bateria.

A abertura ficou por conta da Here I Am, grupo conhecido por homenagear a obra de Andre Matos e que vive uma nova fase apostando em material próprio. A apresentação teve um caráter especial: a gravação do primeiro DVD ao vivo da banda. Com músicas do álbum de estreia, Synergy, lançado no ano passado, o grupo mostrou segurança e encerrou sua participação em clima de celebração, convidando Felipe Andreoli (baixo, Angra) e Edu Ardanuy (guitarra, ex-Dr. Sin, All Metal Stars) para executar os clássicos "Nothing to Say" e "Carry On", do Angra.

Pontualmente às 21h, Roland Grapow surgiu sozinho no palco, antes mesmo de a música ambiente terminar — aparentemente, "Balls to the Wall", dos compatriotas do Accept. O guitarrista ajustou sua própria guitarra, conferiu rapidamente a afinação, saudou o público com um descontraído "E aí, São Paulo?" e deu início à principal atração da noite com "We Burn", faixa de abertura de The Time of the Oath.

No entanto, apesar do talento inegável dos músicos envolvidos, algo parecia fora do lugar desde os primeiros minutos. O principal problema estava na condução vocal. João Luiz, reconhecidamente um dos grandes nomes do rock nacional e dono de performances irretocáveis em trabalhos com King Bird, Golpe de Estado e tributos a Ronnie James Dio, demonstrava pouca familiaridade com o repertório do Helloween. Preso constantemente a um recurso visual para acompanhar as letras, o vocalista errava entradas, hesitava em passagens importantes e transmitia a sensação de ainda estar se adaptando ao material.

O desconforto tornou-se evidente em músicas como "Steel Tormentor", "Wake Up the Mountain" e, principalmente, "Power". Nesta última, já era perceptível um certo descontentamento por parte do público. Enquanto Marcus Dotta impressionava ao reproduzir com precisão as linhas originalmente gravadas por Uli Kusch, João Luiz era constantemente amparado pelos colegas para manter a execução coesa.

Entre uma música e outra, Grapow mostrou o carisma habitual ao comentar, de maneira bem-humorada, que executariam as canções de The Time of the Oath das quais ele ainda se lembrava. Apesar da proposta divulgada sugerir uma execução quase integral do álbum, o disco não foi apresentado na íntegra, embora tenha dominado boa parte do repertório.

"Forever and One (Neverland)" trouxe um dos momentos mais emocionantes da noite, seguida por "Before the War" e pela raríssima "A Million to One" — faixa pouco lembrada pelos próprios fãs e que jamais integrou o repertório oficial do Helloween em suas turnês. A homenagem ao álbum foi encerrada com a faixa-título, "The Time of the Oath", quando Grapow convocou o público para assumir os refrões. Nessas canções, a banda pareceu mais confortável, mas a sensação de estar assistindo a um grande karaokê de luxo ainda persistia.

Curiosamente, o clima mudou quando o grupo passou a executar músicas já presentes nas turnês anteriores de Grapow pelo Brasil. "Mr. Torture", "The Departed (Sun Is Going Down)" e "The Dark Ride", todas ligadas ao álbum The Dark Ride (2000), soaram mais naturais, como se finalmente músicos e vocalista encontrassem terreno conhecido.

Na reta final, veio "The Chance", composição assinada por Grapow para o controverso Pink Bubbles Go Ape (1991), recebida com entusiasmo pelos fãs mais antigos. O encerramento reservou o ponto alto definitivo da apresentação: Leandro Caçoilo (Seventh Seal, Viper) assumiu os vocais em "Eagle Fly Free" e "I Want Out". Ainda que as músicas pertençam à fase anterior à entrada de Grapow no Helloween, são praticamente obrigatórias em qualquer celebração ligada ao universo da banda. O Manifesto Bar explodiu em coro, e os refrões foram cantados em uma só voz.

Foi, acima de tudo, uma noite movida pela nostalgia. O repertório acertou em cheio ao revisitar um dos discos mais importantes do power metal mundial, mas a execução irregular impediu que a celebração alcançasse todo o potencial que carregava.

A escolha de João Luiz para a ocasião pareceu equivocada. Seu talento é inquestionável, mas sua voz e seu histórico musical talvez dialoguem mais naturalmente com o repertório do Masterplan, outra importante banda de Grapow, curiosamente ausente do setlist. Com uma preparação mais cuidadosa, maior entrosamento e um intérprete mais alinhado à proposta estética do material executado, esta poderia ter sido uma noite memorável.

Ainda assim, ouvir canções de The Time of the Oath ecoando ao vivo três décadas após seu lançamento foi um privilégio. Mesmo com seus tropeços, a apresentação serviu como lembrança do impacto duradouro de um álbum que permanece como um dos pilares do power metal e da contribuição fundamental de Roland Grapow para essa história.


A celebração seguem em tour pelo Brasil durante o mês de junho:

17/06 – Curitiba (Blood Rock Bar) – BR

19/06 – Fortaleza (Valentina Bar) – BR

20/06 – Santo André (Santo Rock Bar) – BR

21/06 – Belo Horizonte (Caverna) – BR


Texto: Anderson Bellini 

Fotos: André Tavares

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: TC7 Produções

Press: LP Metal World


Roland Grapow – setlist:

We Burn

Steel Tormentor

Wake Up the Mountain

Power

Forever and One (Neverland)

Before the War

A Million to One

The Time of the Oath

Mr. Torture

The Departed (Sun Is Going Down)

The Dark Ride

The Chance

Eagle Fly Free (with Leandro Caçoilo)

I Want Out (with Leandro Caçoilo)

Venom: "Nós somos todos roqueiros e amamos o que fazemos"

Entrevista por: Renato Sanson

Lendas do metal mundial passando pelo nosso site!

Recentemente tivemos a honra de conversar com Dante, baterista da icônica banda de Black/Thrash Metal Venom, um dos nomes mais influentes e importantes da história da música pesada.

Em um bate-papo descontraído e repleto de histórias, falamos sobre a trajetória da banda, o momento atual e diversos assuntos que certamente irão interessar aos fãs do Metal extremo.

Se você é apaixonado por música pesada e quer conferir uma conversa exclusiva com uma verdadeira lenda do underground mundial, não perca esta entrevista.

Leia agora mesmo \\m//

Como é tocar as músicas clássicas que ajudaram a moldar o heavy metal e manter o legado do Venom vivo?

É fantástico! Já faz 17 anos que estou na banda. Esta é a formação que está junta há mais tempo. Então, subir ao palco desde aquele primeiro show que fiz no México, em 2009, até o nosso próximo show, que será daqui a algumas semanas, na Suécia, é algo incrível. 

É sensacional tocar essas músicas que, como você disse, ajudaram a moldar o metal, e realmente moldaram. É uma honra, e é muito gratificante. Além disso, nós as misturamos com as novas músicas, e o repertório acaba ficando realmente épico.

Como você compara o Venom de hoje com o legado da banda no passado?

O legado do Venom e a forma como o Venom é. É uma banda de Black Metal, o que basicamente significa que é rock and roll! E rock and roll é um sentimento que você experimenta ao tocar. Nós somos todos roqueiros e amamos o que fazemos. Coloque a gente junto em um palco, é algo praticamente imparável. 

Então, essa paixão, desde os primeiros dias do Venom, desde o início da banda até agora, não mudou. São pessoas que querem subir ao palco e dar tudo de si, fazer o público enlouquecer, escrever músicas legais, gravar discos e lançar grandes álbuns. No fim das contas, é disso que tudo se trata.

Venom lançou um novo álbum este ano, o excelente "Into Oblivion". Como tem sido a recepção até agora?

Tem sido fenomenal. E, sim, obviamente foi algo que levou muito tempo para acontecer, especialmente por causa de alguns contratempos que enfrentamos pelo caminho. Mas absolutamente tudo o que vi, li, ouvi das pessoas e acompanhei na internet, ou em qualquer outro lugar, foi nada menos do que um retorno incrível. Então, estamos muito, muito, muito satisfeitos com a recepção.

O que o símbolo do Venom significa para você?

É pura energia, música feita com o coração. Estamos falando de uma banda que existe há muito, muito tempo, e há uma razão para isso: nós amamos o que fazemos, e as pessoas amam o que fazemos. Então, é isso que o Venom significa.

Qual é o seu álbum favorito do Venom com você na banda? E existe algum álbum mais antigo que você não recomendaria?

Sobre a primeira parte da pergunta: meu álbum favorito do Venom em que participei... Não estou dizendo isso apenas porque é o disco mais recente, mas acredito que "Into Oblivion" (2026) captura essencialmente os nossos 17 anos juntos com esta formação. Esses 17 anos representam a formação mais duradoura da história do Venom desde o início da banda. Acho que, quando você escuta o álbum, percebe uma variedade muito grande de elementos. As músicas são bem diferentes entre si.

Obviamente, você tem aquelas faixas mais típicas do Venom logo no começo, que fazem você pensar "uau!", mas depois o álbum segue por caminhos distintos. Há diferentes atmosferas, um toque mais progressivo em alguns momentos, um pouco de blues em outros, além de passagens que resgatam a sonoridade clássica do Venom. E ainda tem aquela música épica no final, "Unholy Mother". Também há canções que incluem vocais em estilo latino. Além disso, foi a primeira vez que eu e Rage, o guitarrista, cantamos em um álbum da banda.

Fizemos backing vocals em cerca de cinco músicas, algo que nunca havia acontecido antes. Então, sim, acho que este disco é muito especial. E acredito que a produção e o som em geral ficaram incríveis. Ele ainda mantém aquela essência clássica do Venom, mas a produção é mais limpa e definida, sem perder a agressividade e tudo aquilo que caracteriza a banda. Para mim, este álbum é fantástico. Eu adoro o que fizemos. Não estou falando isso apenas por obrigação. 

Claro que o primeiro álbum em que participei sempre terá um lugar especial, porque foi meu primeiro trabalho com a banda. Depois veio "From the Very Depths" (2015), que me impressionou muito pela força das músicas. E "Storm the Gates" (2018) também tem material excelente. Mas, sinceramente, acredito que "Into Oblivion" (2026) é um álbum extraordinário. É o meu favorito.

E a outra pergunta? 

...E a outra parte da pergunta… Eu não sei bem. Cada álbum tem a sua própria identidade em qualquer banda. Você pensa em qualquer banda, e cada álbum tem suas próprias características. Ele traz músicos diferentes de épocas diferentes, de momentos diferentes. 

Então, se você olhar o catálogo do Venom, vai ver coisas da formação original, depois mudanças de guitarristas, pessoas entrando e saindo ao longo do tempo. Mas todo mundo acaba trazendo a sua própria contribuição, algo único. E eu realmente não sei, essa é uma pergunta que me pegou de surpresa (risos).

Qual é o seu favorito: Welcome to Hell ou Black Metal?

Black Metal!

"Welcome to Hell": fantástico, "Black Metal": lendário! (risos)

Não me entenda mal: "Welcome to Hell" é um clássico absoluto. É o álbum de estreia e, na época, o Black Metal era algo bem diferente. Eles conseguiram reservar um horário e fazer a gravação quando o "Welcome to Hell" basicamente foi feito durante a noite. O Cronos estava trabalhando em um estúdio e, basicamente, o dono do estúdio disse: 'podem ir, vocês podem gravar um pouco'. 

Então eles foram fazer uma espécie de demo durante a noite, e o que o mundo inteiro conhece como "Welcome to Hell" veio daquela noite, daquela demo que eles fizeram. E eu acho que a vibe disso foi algo que o mundo nunca tinha ouvido antes. 

O som que eles criaram, e também a arte e a imagem da banda, tudo isso caminhou junto. E é isso que tornou o Venom tão único e especial. Mas sim, é ótimo. Ainda assim, eu prefiro Black Metal. 

Para encerrar, uma pergunta polêmica: eu gosto tanto da era Cronos quanto da era do Demolition Man. E você?

Para mim, obviamente, a era Cronos.

Eu prefiro o Cronos, mas também gosto do Demolition Man. Ambos têm bons álbuns.

Sim, eu acho que só ouvi uma faixa... Toda banda tem pessoas que entram, saem e vão embora. Mas a questão é: quando você pensa em Venom, em quem você pensa?

Venom é igual a Cronos (risos).

Isso não é desrespeito a ninguém, mas simplesmente é assim. Quando a gente está montando as músicas, algumas das músicas que escrevemos podem ser um pouco diferentes, então o Cronos vai para o microfone, canta e aí pronto, é Venom. Ele tem aquela voz inconfundível. É como uma assinatura, é como o carimbo do Venom. É isso.

Obrigado! Venom é fantástico! É uma honra para mim essa entrevista.

Valeu, cara! Foi bom falar com você, Renato!

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Facilis Descensus Averno: Quando o underground fala com muitas vozes

Por: Renato Sanson

Em um cenário onde o underground frequentemente luta para conquistar espaço e visibilidade, Facilis Descensus Averno (2024) surge como uma iniciativa tão simples quanto brilhante. Reunindo diversos projetos brasileiros de one man band, o lançamento apresenta uma proposta que vai além de uma mera coletânea: cada participante contribui com uma faixa inédita, exclusiva para este trabalho, transformando o material em uma verdadeira celebração da criatividade e da individualidade artística.

O resultado é uma viagem por diferentes interpretações do Black Metal, demonstrando como o gênero continua sendo um terreno fértil para expressão, experimentação e sensibilidade. Mais do que uma sucessão de músicas extremas, Facilis Descensus Averno revela o lado mais poético, introspectivo e artístico da cena nacional.

Entre os destaques, o Lalssu conduz o ouvinte por paisagens sonoras de forte inspiração helênica, evocando uma atmosfera quase mitológica através de melodias carregadas de identidade e profundidade. Já o Black Celebration apresenta uma abordagem mais agressiva e caótica, mergulhando em passagens obscuras que remetem ao caráter mais visceral e perturbador do estilo. Em outra direção, Odisseia dos Loucos amplia os horizontes da obra com sua pegada épica, construindo narrativas sonoras grandiosas e envolventes que transportam o ouvinte para além da simples audição. Perpétuos Perversos e sua narrativa de guerra nos transportando para outra dimensão. Isso só para citar algumas das precisosidades que o álbum apresenta. 

O grande mérito de Facilis Descensus Averno está justamente em sua diversidade. Cada faixa possui personalidade própria, refletindo a visão particular de seu criador, mas sem comprometer a coesão do conjunto. Ao contrário: as diferenças enriquecem a experiência e evidenciam a riqueza criativa existente na cena underground brasileira.

Mais do que um lançamento, este trabalho funciona como uma vitrine para artistas que muitas vezes permanecem à margem da grande exposição, apesar da qualidade inquestionável de suas composições. É uma oportunidade rara de descobrir novos nomes, novas abordagens e novas formas de compreender a vertente mais odiada do mundo. 

Facilis Descensus Averno prova que o underground continua vivo, pulsante e repleto de ideias inovadoras. Um lançamento indispensável para aqueles que enxergam o Black Metal não apenas como um gênero musical, mas como uma forma de arte capaz de transitar entre o caos, a melancolia, a grandiosidade e a poesia.

Uma obra que valoriza a criatividade acima de tudo. Uma descida ao inferno que vale cada passo.