![]() |
| Imagens de eventos do Voluntariado |
![]() |
| Imagens de eventos do Voluntariado |
![]() |
| Imagens de eventos do Voluntariado |
![]() |
| Imagens de eventos do Voluntariado |
Por Anderson Bellini
Às vésperas do lançamento do EP More Stereo Crush, o guitarrista Freddy Scherer conversou com a Road to Metal sobre os bastidores desta nova fase do Gotthard. Em uma entrevista franca, o músico relembrou o emocionante e desafiador primeiro show da banda após a perda de Steve Lee — realizado em Buenos Aires, na Argentina, marcando também a estreia de Nick Maeder nos palcos com o grupo —, falou sobre a forte ligação do Gotthard com o Brasil, refletiu sobre as mudanças na indústria musical em tempos de streaming e inteligência artificial e revelou os planos para o futuro. Entre memórias, curiosidades e reflexões sinceras, Freddy mostra que, após mais de três décadas de estrada, a paixão do Gotthard pela música e pelos palcos continua tão intensa quanto sempre foi.
Parabéns pelo álbum Got Us Left, pelo Stereo Crush (2025) e, claro, pelo EP More Stereo Crush (2026), que acabei de ouvir. Você pode nos contar sobre a origem das músicas deste EP? E nós sabemos que essas faixas não entraram no Stereo Crush. Por que elas ficaram de fora? Elas foram intencionalmente guardadas para este futuro lançamento?
FS: Bom, antes de tudo, quando escrevemos as músicas originalmente para o Stereo Crush, acho que chegamos a algo em torno de 18 faixas, ou até mais. E então acabamos cortando algumas. Mas, como sempre, tivemos aquelas discussões do tipo 'essas músicas ainda são boas, então não queremos simplesmente descartá-las.' Por outro lado, se você lança um álbum com umas 18 músicas, nós acreditamos que cada faixa individual acaba perdendo um pouco de atenção, porque, quando você tem 18 músicas na sua frente, é mais difícil formar uma opinião sobre tudo do que quando você tem, por exemplo, 12 músicas. Assim, cada faixa acaba se destacando mais. Então essa foi a principal razão pela qual dissemos 'ok, vamos ficar com 12 músicas e depois lançar um EP mais tarde.' Essa foi basicamente a ideia por trás de tudo. E, claro, você também quer que o álbum tenha mais ou menos uma identidade, uma atmosfera, um certo tema. E se houver duas ou três músicas que sejam um pouco parecidas — não necessariamente na composição, mas talvez no estilo — ou até baladas demais, você não quer ter cinco baladas em um álbum. Foi assim que fizemos a seleção de músicas para o Stereo Crush e depois para o More Stereo Crush. Essa é um pouco da história por trás disso.
| Reign Phoenix Music (Imp.) |
E nós sabemos que o Gotthard tem uma conexão muito forte com o Krokus, porque Mandy Meyer é guitarrista e ex-integrante do Gotthard, e o baterista Flavio também toca com vocês no Gotthard. Como surgiu o convite para Mark e Chris participarem em Liverpool? E como vocês decidiram qual versão cada um iria cantar em Liverpool?
FS: Antes de tudo, Chris Von Rohr, baixista do Krokus, foi por muitos e muitos anos produtor do Gotthard, lá no começo, nos primeiros dez anos ou até mais. Depois chegou um momento em que havia visões diferentes sobre as coisas, então acabou acontecendo uma separação. Agora, depois de tantos anos, pensamos que seria ótimo colaborar novamente em uma ou duas músicas. No fim das contas, acabou sendo apenas uma, Liverpool. E também tivemos alguns shows… já faz alguns anos que, de vez em quando, fazemos apresentações juntos na Suíça. E sempre fazemos um encore juntos tipo 'Gotthard e Krokus tocam juntos duas, três ou quatro músicas', o que for. Então pensamos 'por que não?, já que Chris Von Rohr já é coautor dessa música?' Aí tivemos a ideia de chamar Mark Storace para cantar algumas partes em uma nova versão. Depois, ao vivo, tivemos dois shows em dezembro, em Zurique e Berna, na Suíça, juntos. Então tocamos Liverpool com Marc e Nic no palco como uma versão especial. Acho que essa é a história por trás disso. Mas quando gravamos a primeira versão para o Stereo Crush — vamos chamar assim — essa ideia ainda não existia. Por isso fizemos uma segunda versão, que é muito parecida com a primeira, claro, mais como uma espécie de bônus, e a colocamos no álbum More Stereo Crush.
![]() |
| Luc Braissant |
FS: Nós ainda não tocamos essa música ao vivo, isso ainda vai entrar em discussão para o novo setlist. E a ideia básica foi, na verdade, do Leo. Foi uma ideia principalmente dele. Ele criou esses sons de guitarra bem atmosféricos, com delay. É uma atmosfera muito, muito bonita. Esse foi o começo da música, e todo mundo gostou. Então nós terminamos a faixa e ela acabou entrando no álbum. E eu acho que ela tem uma identidade muito especial, algo completamente diferente do restante das músicas dos dois álbuns, na verdade. Então foi assim que ela surgiu, foi assim que ele a criou. E sobre como vamos executá-la ao vivo, não há bateria nem baixo na música, então provavelmente você está certo sobre essa ideia. Mas vamos ver.
Como foi trabalhar novamente com Charlie Bauerfeind? Ele vem produzindo os álbuns de vocês desde Bang! (2014), certo?
FS: Desde Bang! (2014)
É interessante porque ele é muito conhecido por trabalhar com bandas de heavy metal como Helloween e Blind Guardian. O que ele traz para o som do Gotthard? Talvez um pouco dessa energia do heavy metal?
FS: Nós fizemos o Bang! (2014), depois fizemos o Silver (2017) e, no #13 (2020), trabalhamos com o produtor americano Paul Lani, mas depois voltamos a trabalhar com o Charlie. Antes de gravar um álbum, você sempre senta junto para discutir o que quer fazer: o que funcionou bem da última vez, o que não foi tão bom, para onde você quer ir… e também se o produtor tem tempo disponível ou se está ocupado demais. Nós sempre tivemos uma colaboração muito boa com o Charlie, e a grande qualidade dele é que ele sempre pensa: 'ok, este é um álbum novo, então o que vamos fazer agora?'. Ele não usa sempre o mesmo conjunto de ideias em todos os discos. É sempre algo como: 'esse álbum tem essa característica, então o que podemos fazer de diferente agora?'. E isso é algo legal. A banda está junta há 32, 33 ou até 34 anos, então é bom ter desafios e trabalhar com um produtor disposto a garantir que as coisas não soem sempre iguais. E, em segundo lugar, eu não diria que ele traz heavy metal para o nosso som, mas ele é muito focado em energia e em fazer a banda soar viva. Nós já não temos 20, nem 30 e nem 40 anos, mas ainda queremos soar como uma banda que realmente quer tocar e que se diverte fazendo isso. E é isso que ele tenta transmitir, o que eu considero muito importante, porque já existem vários álbuns do Gotthard no mercado, então você precisa tomar cuidado para não soar como se estivesse fazendo discos apenas por fazer. Para nós, cada álbum tem sua própria identidade, ele se sustenta sozinho. Não é simplesmente 'ah, esse é o álbum número 14? Ok, já fizemos tantos…'. Não, não é assim. Cada álbum ainda nos tira o sono. Se não estamos felizes com algo ou se alguma coisa não está clara, aquilo realmente nos afeta. Nós levamos isso muito a sério. Sempre temos muitas discussões, porque, claro, são músicos diferentes, todos na nossa idade, mais o produtor, e cada um tem sua visão. Então discutimos tudo até o fim, até encontrarmos a solução. E, pessoalmente, humanamente falando, nós nos damos muito bem com o Charlie. E isso é algo muito importante.
![]() |
| Divulgação |
Voltando um pouco no tempo, o primeiro show do Nic com o Gotthard foi em 2012, em Buenos Aires, na Argentina. Eu estava lá e consigo me lembrar da atmosfera entre vocês naquela noite. Foi o primeiro show sem o Steve, claro, e eu lembro de ver todos vocês reunidos antes de subir ao palco. Você pode compartilhar o que se lembra daquela noite em Buenos Aires? Foi a primeira vez que vocês tocaram aqui na América do Sul sem o Steve, e eu imagino que tenha sido um momento muito emocionante e inesquecível para todos vocês. Você pode nos contar o que se lembra daquela noite?
FS: Estávamos muito nervosos. Quer dizer, todo mundo estava nervoso: o Nic estava nervoso, a banda estava nervosa, e aquilo era um enorme desafio para nós. Não foi fácil, não era como se pudéssemos simplesmente subir ao palco e nos divertir. Não, definitivamente não. Era mais algo como: 'uau, o que está acontecendo? Como isso vai ser?'. Foram os primeiros shows com o Nick, e se você tivesse gravado aquele show e comparasse com uma gravação de hoje, seria uma banda completamente diferente. O Nic é praticamente outra pessoa hoje em dia — ainda tem a mesma cor de cabelo —, mas todo o resto mudou. Então, sim, eu diria que não foi exatamente divertido, mas foi muito importante. E nos primeiros shows, depois de cada apresentação, nós nos reuníamos e conversávamos: 'ok, como foi? Está bom o suficiente?”, porque ainda era o primeiro show, e ficávamos pensando: 'será que vai funcionar?' E a verdade é que você não tem certeza. Isso levou um tempo. Foi como se jogar na água gelada, sabe? No fim das contas, foi isso que fizemos: fechamos os olhos, pulamos e pensamos: 'vamos ver onde isso vai dar.' E para nós — e acho que para qualquer banda — tocar na América do Sul provavelmente é a experiência mais divertida possível, por causa dos fãs, da comida e das pessoas extremamente entusiasmadas. Sim, foi divertido, nós adoramos, mas também estávamos suando muito, não apenas por causa do calor.
Você comentou que hoje a banda é completamente diferente daquela época. Naquele tempo havia muitas comparações entre as vozes do Nic e do Steve. Isso ainda acontece nesta nova fase do Gotthard?
FS: Eu não acho mais isso. É lógico que alguns fãs ainda escutem um álbum com o Steve e pensem 'uau, esse era o Steve', e depois ouve um álbum com o Nic e façam comparações. Isso nunca vai desaparecer completamente, é algo com que você precisa aprender a conviver. Mas eu diria que essa fase já passou, também porque o Nick evoluiu muito nos últimos 10, 12, 13 anos. Hoje ele se sustenta por si só. Ele tem personalidade no palco e sabe falar com o público, algo que no começo não acontecia. Mas nós pensamos: 'ok, dane-se, vamos fazer isso funcionar', mesmo que levasse alguns anos. E realmente levou alguns anos. Hoje em dia ele chegou ao ponto em que as pessoas não vêm mais apenas comparando. Na verdade, quem não via a banda há muito tempo geralmente se surpreende e diz algo como 'uau, agora está muito legal. Naquela época não era bem a nossa praia, mas agora está muito bom'. Então hoje as pessoas realmente entraram nessa nova fase da banda. Atualmente o Gotthard é uma banda diferente.
![]() |
| Divulgação |
Agora falando sobre o Brasil, vocês já vieram aqui três vezes com o Gotthard. Acho que foram duas vezes com o Nick e uma vez com o Steve. E a última vez foi em 2014, já faz bastante tempo. O que você se lembra do nosso país, desses shows especificamente no Brasil, e por que a banda não voltou desde então? Existem planos de o Gotthard vir ao Brasil para tocar ainda este ano?
FS: Eu lembro. Acho que em 2014 foi aquela turnê com o Edguy e com o Hammerfall, certo?
Sim, sim, com Edguy e Hammerfall, isso mesmo.
FS: Foi um ótimo momento com as bandas, ótimo momento em todos os lugares. Acho, que eu me lembre corretamente, fizemos três shows no Brasil além de São Paulo, certo?
Acho que Curitiba e Porto Alegre talvez, não?
FS: Eu lembro das casas de show, lembro de como elas eram, e estava tudo lotado, completamente lotado. Foi incrível e muito, muito quente. Nós nos divertimos muito. Normalmente no Brasil — ou muitas vezes depois dos shows, quando tudo termina —, os produtores convidam você para comer alguma coisa, tipo ir a uma churrascaria à 1 da manhã, como uma espécie de segunda refeição depois do show. O público é incrível, realmente muito legal. São Paulo é enorme, quero dizer, é uma cidade gigantesca. Claro que você vê só um pouquinho: chega, vai para o hotel, mas o mais marcante acabam sendo as pessoas. Conhecer as pessoas é ótimo. Algumas aparecem depois do show, outras até vão ao hotel, e você pode conversar com elas no bar do hotel. Isso é sempre muito divertido. E sobre por que não estamos indo? Nossa equipe sabe que queremos voltar. Muitas vezes, no Brasil, para bandas como a nossa, é preciso montar pacotes com duas ou três bandas. Hoje em dia existem muitas bandas mais voltadas ao metal pesado, o que acaba sendo mais fácil de organizar. Nós ficamos no meio disso tudo, então encontrar o pacote certo não é tão simples. Mas a banda quer tocar no Brasil, isso a nossa equipe sabe. E não podemos fazer muito além de repetir para eles, de novo e de novo: 'cuidem disso, queremos ir para o Brasil', quero dizer, para a América do Sul em geral. Ainda esperamos que isso aconteça em breve, porque já faz muito tempo desde a última vez. Mas nunca se sabe, de repente surge uma proposta de show e tudo acontece muito rápido. Em poucos meses, você já está aí. Mas, no momento, infelizmente não posso dar nenhuma data e nem nada concreto. Estamos esperando notícias da América do Sul, notícias do Brasil.
Outra pergunta difícil. O Gotthard nunca lançou um DVD ou Blu-ray ao vivo dessa nova era da banda com o Nick. Isso alguma vez foi considerado? Fazer um DVD como vocês fizeram com o Steve em Made in Switzerland, algo assim, um grande DVD gravado em uma grande arena com o Nic?
FS: Sim, não por enquanto. Quer dizer, hoje em dia, claro, temos bastante material porque normalmente, quando você toca atualmente, há aqueles telões enormes na direita, esquerda e atrás da banda, então tudo acaba sendo gravado e projetado nas telas. Então existe muito material disponível, porque em praticamente todo show você tem gravações. Acho que hoje é uma época diferente, porque atualmente todo show tem telas e registros por todos os lados, então esses DVDs ao vivo já não são algo tão especial quanto antes. Com o Steve, por exemplo, foi em Zurique, no Hallenstadion, que é tipo a casa de shows mais importante da Suíça. E também foi a primeira vez que a banda tocou lá, então isso foi um motivo para pensarmos: 'ok, agora que chegamos aqui, vamos gravar isso'. Depois acabamos tocando lá mais algumas vezes. É difícil dizer… eu realmente não posso afirmar se vai existir algo diferente no futuro, talvez um show com orquestra sinfônica clássica, alguma colaboração, não sei. Mas um DVD ao vivo tradicional, no momento, não está nos planos. Embora, claro, nunca se sabe. Vamos ver.
Talvez no Brasil (risos).
FS: Muito boa ideia.
Agora falando sobre você, Freddy, o que você tem escutado ultimamente? Tem alguma banda ou artista específico?
FS: Uau, difícil dizer. Existem tantas bandas por aí. Acho que a última banda “nova” que realmente me marcou — embora hoje já nem seja tão nova assim — foi quando o Foo Fighters apareceu. Tinha algo ali que realmente me chamou atenção, porque para mim sempre soou mais como uma verdadeira banda de rock. Quero dizer, é muito rock mesmo, você consegue ouvir influências do Queen e de várias bandas clássicas no som deles, especialmente com o Dave Grohl. Mas hoje existem bandas demais por aí. E o problema atualmente é que às vezes eu fico na cama olhando coisas — nem uso tanto redes sociais hoje em dia — mas de vez em quando dou uma olhada e aparecem bandas novas. Aí eu salvo alguma coisa e no dia seguinte vou conferir melhor: primeiro, para ver se elas realmente existem ou se é só algo feito por IA, porque hoje em dia muita coisa soa parecida e eu fico pensando: 'Hmm, isso é real ou é só alguém em casa brincando de juntar coisas artificialmente?'. Mas sim, eu ainda gosto muito das bandas antigas, das bandas clássicas. Hoje mesmo ouvi uma música do Eddie Vedder no rádio. No começo eu não era tão fã de Pearl Jam, mas hoje, olhando para trás, eu adoro. E é uma banda que eu nunca vi ao vivo. Eu sempre tentei assistir a muitas bandas, já vi tantos shows na minha vida. E quando você toca em festivais como o Sweden Rock e outros desse tipo, literalmente todo mundo toca lá, então você acaba conhecendo muita coisa. Ano passado fui assistir ao Joe Bonamassa também. E, sim, existem muitas bandas, não consigo citar uma banda nova específica pela qual eu esteja completamente obcecado. Mas existem algumas, especialmente nos Estados Unidos, bandas jovens e muito interessantes, ainda com bastante aspereza e personalidade no som, o que é muito legal. Vamos ver onde elas vão chegar. Muito interessante, realmente.
O Gotthard ainda lança CDs físicos, mas ao mesmo tempo vocês estão se adaptando ao futuro ao lançar singles avulsos, como fizeram com “Mayday”, que saiu apenas digitalmente em 2023 e só agora está sendo lançado em formato físico. Como você vê o futuro da indústria musical? Você acha que o formato físico eventualmente vai desaparecer?
FS: Acho que isso é bem fácil de responder. Se os jovens não compram CDs e nem têm um aparelho de CD em casa, poucos descobriram o verdadeiro álbum em vinil, mas isso é algo muito pequeno hoje em dia. Existe ainda, claro, mas não é mais o mercado que já foi. Então, se os jovens nem conhecem o CD e sequer têm um aparelho para tocar, a resposta acaba sendo muito simples: eles vão crescer assim, e esse é o futuro. Daqui a 20 ou 30 anos teremos pessoas que nunca seguraram um CD nas mãos. Isso é ruim? Sim, eu acho que é, porque eu gostava disso. Eu cresci frequentando lojas de discos, especialmente as lojas físicas. E isso é uma pena, porque você conhecia o dono da loja, você chegava lá e dizia: 'Hey, você tem alguma novidade?'. Aí ele sumia e voltava com uma pilha de álbuns. E nós passávamos duas horas ouvindo aqueles discos. É triste que isso não aconteça mais. Hoje o mundo é completamente diferente. É melhor? É pior? Eu não sei. Para os jovens, eles não sabem como era antes, então não sentem falta, porque nunca viveram aquilo. Mas uma coisa que continua acontecendo são os shows ao vivo. Isso nunca mudou, não há dúvida nenhuma sobre isso. Não importa como as músicas novas são lançadas. Porém, para bandas mais antigas como nós — ou ainda mais antigas, como Aerosmith e outras — chega uma hora em que você cansa de gravar um álbum que praticamente não existe fisicamente no mercado e desaparece muito rápido. Você realmente começa a se perguntar duas ou três vezes: 'Vale a pena fazer um álbum novo?'. Por outro lado, quando você sai em turnê, é ótimo tocar músicas novas, tanto para você como músico quanto para os fãs. Então, lançar músicas novas de vez em quando? Sim, legal. Agora um álbum inteiro, eu já não sei. E também existe o fato de que a indústria musical ganha muito menos dinheiro com isso hoje em dia, então paga menos também. Acaba sendo mais barato lançar uma música de vez em quando. Então você meio que vira um prisioneiro da situação, mas é assim que as coisas são. Vamos ver para onde a história vai. Nós gostamos de escrever músicas. Obviamente escrevemos material suficiente no último disco para fazer outro, mas vamos ver para onde a indústria musical caminha. O que é claro é que os shows ao vivo estão mais fortes do que nunca. Acho que isso se tornou mais importante. E aí fica a questão: será que tudo vai virar apenas digital? Não sei. E ainda tem a IA… isso é algo preocupante para o consumidor comum de música: o que é real e o que não é? O que existe por trás disso? Porque hoje em dia qualquer pessoa que consiga juntar uma frase consegue fazer uma música. E isso é um pouco assustador, tenho que admitir. Bem assustador.
A última pergunta é: o que vem a seguir? Quais são os planos do Gotthard para o futuro próximo e o que os fãs podem esperar dessa nova era da banda?
![]() |
| Coffinjoe Records (Nac.) |
Zoetia: O álbum que vai mudar o que você pensa sobre o metal brasileiro
Por Paula Butter
Confesso que, após pesquisar sobre a proposta da banda paulistana Strigah, me peguei ansiosa para iniciar a audição cuidadosa de Zoetia, pois a qualidade dos músicos e a proposta disruptiva das faixas é interessante demais para gerar comparações.
Vamos lá: antes de mais nada, vale elogiar todo o processo de lançamento da obra, com interações dos artistas com o público e explicações a respeito dos conceitos das músicas, a fim de não gerar especulações errôneas por parte dos haters de plantão.
O som da banda é de uma qualidade excepcional, com destaque para a coesão perfeita entre letras e instrumentos. As composições em português são cuidadosamente elaboradas, com mensagens e gritos direcionados à realidade extrema que a sociedade está vivenciando. Entretanto, existem momentos de calma e pacificação da alma, com melodias de pura musicalidade brasileira. A dicotomia de Zoetia deu muito certo e conseguiu fugir do “lugar comum” com muita facilidade.
A explicação que encontrei para esta perfeita viagem musical foi: "é como ser a Alice no País das Maravilhas". Em meio ao caos necessário, encontram-se a beleza, a força interior e o misticismo levado a sério. Atualmente, no cenário nacional, este álbum é uma preciosidade, diferente de tudo o que já estamos acostumados a ouvir. São aquelas obras que podemos apreciar mil vezes e sempre encontraremos nuances antes não percebidas, pérolas escondidas, acordes que falam sem palavras.
É necessário destacar também a arte do álbum, da artista Jennifer Erny. Em meio ao mundo ditado pelas inteligências artificiais, o talento humano ecoa ainda mais forte.
Por fim, é uma obra necessária para o cenário nacional atual e uma lição de casa para todos os amantes de boa música, pesada ou não. Acredito que os paulistanos do Strigah já estão mais do que prontos para voos maiores.
A banda é formada por Kaio Felipe nos vocais, Samanta Tica no baixo, Eleonardo de Paula na bateria e Matheus Figueredo na guitarra. O álbum foi lançado pela CoffinJoe Records.
![]() |
| João Miguel - @_jmiguelr_ |
Por: Renato Sanson
Diretamente de Pelotas/RS, a Foice chega com seu EP de estreia, "Chapter 1" (2025), apresentando um Death Metal que bebe na fonte da velha escola. O trabalho deixa claras as influências de gigantes como Death, Obituary, Entombed e Cannibal Corpse, mas consegue imprimir personalidade própria através de composições agressivas e bem estruturadas.
Musicalmente, o EP transita entre o peso bruto característico do Death Metal old school e passagens mais técnicas, demonstrando que os músicos possuem capacidade além do simples ataque sonoro. Os riffs são bem construídos, a bateria sustenta a violência necessária e os vocais cumprem com eficiência a proposta extrema da banda. A combinação entre brutalidade e técnica funciona de maneira natural, sem parecer forçada ou excessivamente exibicionista.
É verdade que a produção não alcança o nível de grandes lançamentos do gênero. Em alguns momentos, a gravação soa crua e limitada, especialmente quando comparada aos padrões atuais. Entretanto, essa característica acaba funcionando mais como um reflexo da realidade do underground do que como um defeito propriamente dito. A essência da Foice está na composição e na entrega, e isso permanece intacto durante toda a audição.
O maior mérito de "Chapter 1" talvez seja justamente transmitir autenticidade. A banda demonstra entender perfeitamente a linguagem do Death Metal tradicional, mas também deixa sinais claros de evolução e potencial para voos maiores.
Para um trabalho de estreia, o saldo é extremamente positivo e coloca a Foice como um nome promissor dentro da cena extrema gaúcha.
Por Flavio Borges
Após revisitar suas raízes no heavy metal melódico com Vera Cruz (2021) e expandir sua proposta conceitual em Eldorado (2023), Edu Falaschi encerra sua ambiciosa trilogia narrativa com "MI'RAJ", um trabalho que consolida não apenas uma saga iniciada há cinco anos, mas também uma das fases mais criativas de sua carreira solo.
Ambientado no Oriente Médio do século XVI, o álbum acompanha o capítulo final da jornada de Jorge, protagonista que atravessa continentes em busca de Janaína, sequestrada pela misteriosa Ordem da Cruz de Nero. Ao longo da narrativa, temas como fé, identidade, sacrifício, amor e transcendência são explorados através de uma mitologia própria que combina elementos históricos, espirituais e fantásticos. Mais do que uma simples conclusão de enredo, "MI'RAJ" funciona como uma reflexão sobre destino, autoconhecimento e redenção.
Musicalmente, Falaschi amplia ainda mais o escopo apresentado nos dois discos anteriores. O power metal segue sendo a espinha dorsal da obra, mas é constantemente enriquecido por elementos de rock progressivo, música sinfônica, heavy metal tradicional e influências orientais que ajudam a reforçar a identidade do álbum. A produção aposta em uma abordagem cinematográfica, repleta de camadas orquestrais e arranjos minuciosamente construídos, sem sacrificar o peso e a energia característicos do gênero.
A presença de convidados como Roy Khan, Veronica Bordacchini e Rafael Bittencourt acrescenta novas cores à experiência, enquanto a estreia do baterista Jean Gardinalli e a crescente importância criativa do guitarrista Victor Franco ajudam a renovar a dinâmica da banda de apoio.
A abertura de "MI'RAJ", "Watchers of the Light", cumpre perfeitamente sua função de transportar o ouvinte para o universo da obra. Introduzida por elementos musicais inspirados no Oriente Médio, a faixa rapidamente evolui para um power metal grandioso e cinematográfico. A combinação entre riffs velozes, orquestrações exuberantes e corais imponentes cria uma atmosfera de aventura que remete aos melhores momentos do gênero. O refrão possui força suficiente para permanecer na memória logo na primeira audição, enquanto as passagens progressivas demonstram a preocupação da banda em equilibrar técnica e narrativa. É uma introdução impactante que estabelece o tom épico do álbum.
Se a faixa anterior aposta no impacto imediato, "Here I Stand" mergulha em uma construção mais elaborada. Os arranjos progressivos ganham protagonismo, especialmente através da interação entre baixo e bateria, que conduzem mudanças de dinâmica constantes sem comprometer a fluidez da composição. Edu Falaschi entrega uma interpretação segura e expressiva, evitando excessos e priorizando a força melódica. O refrão funciona como ponto de equilíbrio entre complexidade e acessibilidade, mostrando que a sofisticação estrutural não precisa sacrificar o apelo emocional.
A faixa-título "MI'RAJ" é, em muitos aspectos, a síntese da proposta artística do álbum. As influências musicais do norte da África convivem naturalmente com elementos de power metal e rock progressivo, resultando em uma composição rica em detalhes e constantemente mutável. A participação de Veronica Bordacchini acrescenta profundidade e contraste às linhas vocais, ampliando o alcance dramático da música. O trabalho instrumental é igualmente impressionante, alternando momentos de virtuosismo técnico com passagens focadas na construção atmosférica. Não por acaso, trata-se de uma das peças centrais da obra.
Após a intensidade das primeiras faixas, "Echoes of Vows" surge como um dos momentos mais emocionais do álbum. A introdução conduzida pelo piano e pelas orquestrações cria uma atmosfera melancólica e contemplativa que serve de base para uma das interpretações mais sensíveis de Falaschi. Embora se aproxime da estrutura de uma power ballad tradicional, a composição evita clichês ao incorporar uma seção final acelerada que eleva a carga dramática sem soar artificial. Os corais, os arranjos sinfônicos e o excelente solo de guitarra contribuem para transformar a faixa em um dos pontos altos do disco.
Com "Unchained", o álbum mergulha mais profundamente em sua vertente progressiva. A composição desafia constantemente as expectativas do ouvinte através de mudanças rítmicas, arranjos sofisticados e uma construção menos previsível. O protagonismo compartilhado entre baixo, teclados e guitarra reforça a sensação de movimento contínuo, enquanto o refrão oferece um raro momento de estabilidade melódica em meio à complexidade instrumental.
A participação de Wagner Barbosa no saxofone é particularmente inspirada, acrescentando novas texturas sem comprometer a identidade metal da faixa. É uma composição que recompensa audições repetidas.
Provavelmente a maior surpresa de MI'RAJ, "Intuição", rompe momentaneamente com a linguagem predominante do álbum ao incorporar influências da música brasileira e apresentar letra integralmente em português. Longe de soar deslocada, a faixa funciona como um importante momento de introspecção dentro da narrativa.
A participação de Rafael Bittencourt reforça a conexão histórica entre os músicos e adiciona um toque especial ao arranjo. A riqueza melódica do refrão, aliada ao cuidado com os vocais e às contribuições de Thiago Mineiro ao piano, transforma a canção em um dos momentos mais autênticos e emocionantes do disco. É uma ousadia artística que encontra plena justificativa dentro do contexto da obra.
Depois da atmosfera contemplativa de Intuição, "Circle of Dust" devolve ao álbum sua energia mais agressiva. Trata-se de uma das composições mais diretas de "MI'RAJ", construída sobre uma base rítmica veloz e extremamente precisa. O trabalho de Jean Gardinalli merece destaque especial, sustentando a intensidade da faixa sem comprometer sua clareza. A participação de Roy Khan agrega valor emocional ao refrão e cria um interessante contraste entre os timbres vocais. Mesmo dentro de uma estrutura relativamente tradicional, a composição demonstra refinamento suficiente para evitar qualquer sensação de repetição.
Em contraste com a velocidade da faixa anterior, "On Your Own" aposta na emoção e na construção atmosférica. As orquestrações assumem papel central desde os primeiros instantes, criando um cenário ideal para uma interpretação carregada de sentimento. O refrão, impulsionado por um belo coral de inspiração gospel, figura entre os momentos mais memoráveis do álbum. Há uma elegância evidente em todos os aspectos da composição, desde os arranjos até a produção, reforçando a capacidade de Falaschi de construir baladas grandiosas sem recorrer ao sentimentalismo excessivo.
O encerramento da trilogia não poderia acontecer de outra forma. "Wrath Into the War" reúne praticamente todos os elementos que definem o álbum: velocidade, melodias marcantes, corais grandiosos e uma forte carga épica. Desde os primeiros acordes, a composição assume o papel de clímax narrativo e musical da obra.
O refrão é poderoso, os arranjos instrumentais mantêm a tensão elevada durante toda a execução e a sensação de urgência permanece intacta até os momentos finais. Como conclusão, a faixa entrega exatamente o que se espera de um desfecho dessa magnitude: intensidade, emoção e um sentimento de encerramento genuinamente satisfatório.
Ao longo de seus pouco mais de sessenta minutos, "MI'RAJ" demonstra uma rara combinação de ambição artística e capacidade de execução. Poucos músicos do metal brasileiro contemporâneo possuem a confiança necessária para construir uma trilogia conceitual dessa magnitude e, menos ainda, conseguem encerrá-la de maneira satisfatória.
Se "Vera Cruz" representava o início de uma nova fase e Eldorado expandiu seus horizontes narrativos, "MI'RAJ" surge como a obra que une todas as peças do quebra-cabeça. O álbum não apenas entrega alguns dos momentos mais inspirados da carreira solo de Edu Falaschi, como também reforça sua posição entre os principais compositores do heavy metal latino-americano, e mundial, porque não?
Embora a abundância de elementos sinfônicos e progressivos possa exigir mais dedicação do ouvinte em comparação aos trabalhos anteriores, é justamente essa riqueza de detalhes que transforma "MI'RAJ" em uma experiência recompensadora. Trata-se de um disco que valoriza audições repetidas, revelando novas camadas a cada retorno.
Mais do que o encerramento de uma trilogia, "MI'RAJ" representa a consolidação de uma visão artística. É um álbum grandioso, tecnicamente impecável e emocionalmente envolvente, destinado a ocupar lugar de destaque entre os lançamentos mais relevantes do power metal em 2026.
***ENGLISH VERSION***
After reconnecting with his melodic heavy metal roots on Vera Cruz (2021) and expanding his conceptual ambitions with Eldorado (2023), Edu Falaschi brings his epic narrative trilogy to a close with MI'RAJ, an album that not only concludes a saga five years in the making but also cements one of the most creative periods of his solo career.
Set in the Middle East during the 16th century, the album follows the final chapter in the journey of Jorge, a protagonist who crosses continents in search of Janaína, kidnapped by the mysterious Order of the Cross of Nero. Throughout the story, themes such as faith, identity, sacrifice, love, and transcendence are explored through a rich mythology that blends historical, spiritual, and fantastical elements. More than a simple conclusion to a storyline, MI'RAJ serves as a meditation on destiny, self-discovery, and redemption.
Musically, Falaschi further expands the scope established on the previous two albums. Power metal remains the backbone of the record, but it is consistently enriched by elements of progressive rock, symphonic music, traditional heavy metal, and Middle Eastern influences that reinforce the album’s unique identity. The production embraces a cinematic approach, filled with orchestral layers and meticulously crafted arrangements without sacrificing the power and energy that define the genre.
The presence of guest musicians such as Roy Khan, Veronica Bordacchini, and Rafael Bittencourt adds new colors to the experience, while the debut of drummer Jean Gardinalli and the growing creative influence of guitarist Victor Franco help revitalize the dynamic of Falaschi’s backing band.
Opening the album, "Watchers of the Light" perfectly fulfills its role of transporting the listener into the world of MI'RAJ. Introduced by Middle Eastern-inspired musical motifs, the song quickly evolves into a grandiose and cinematic power metal statement. The combination of blazing riffs, lush orchestration, and imposing choirs creates a sense of adventure reminiscent of the genre’s finest moments. The chorus is memorable from the very first listen, while the progressive passages demonstrate the band's commitment to balancing technical prowess with storytelling. It is a powerful opening statement that establishes the album’s epic tone.
If its predecessor relies on immediate impact, "Here I Stand" takes a more intricate approach. Progressive arrangements take center stage, particularly through the interaction between bass and drums, which drive constant shifts in dynamics without disrupting the composition’s flow. Falaschi delivers a confident and expressive performance, avoiding excess in favor of melodic strength. The chorus serves as the perfect meeting point between complexity and accessibility, proving that structural sophistication does not have to come at the expense of emotional resonance.
The title track, "MI'RAJ", is in many ways the definitive statement of the album’s artistic vision. North African influences coexist naturally with elements of power metal and progressive rock, resulting in a composition rich in detail and constantly evolving in scope. Veronica Bordacchini’s guest appearance adds depth and contrast to the vocal arrangements, broadening the song’s dramatic reach. The instrumental work is equally impressive, alternating moments of technical virtuosity with passages focused on atmosphere and mood. Unsurprisingly, it stands as one of the record’s central pillars.
Following the intensity of the opening stretch, "Echoes of Vows" emerges as one of the album’s most emotional moments. The piano-led introduction and sweeping orchestral arrangements establish a melancholic and contemplative atmosphere that supports one of Falaschi’s most heartfelt vocal performances. While the song approaches the structure of a traditional power ballad, it avoids cliché through a climactic accelerated section that elevates the drama without feeling forced. The choirs, symphonic arrangements, and outstanding guitar solo all contribute to making it one of the album’s highlights.
With "Unchained", the album dives deeper into its progressive side. The composition continuously challenges expectations through shifting rhythms, sophisticated arrangements, and a less predictable structure. The shared spotlight between bass, keyboards, and guitar reinforces a sense of perpetual motion, while the chorus provides a rare moment of melodic stability amid the instrumental complexity. Wagner Barbosa’s saxophone contribution is particularly inspired, adding fresh textures without compromising the song’s metal identity. It is a track that reveals new details with every listen.
Arguably the album’s biggest surprise, "Intuição" temporarily breaks away from the prevailing musical language by incorporating Brazilian influences and featuring lyrics sung entirely in Portuguese. Far from feeling out of place, the song functions as an important moment of introspection within the narrative. Rafael Bittencourt’s participation reinforces the long-standing connection between the musicians while adding an extra layer of significance to the arrangement. The richness of the chorus, combined with carefully crafted vocal harmonies and Thiago Mineiro’s elegant piano work, transforms the song into one of the album’s most authentic and emotionally rewarding moments. It is a bold artistic choice that finds full justification within the broader context of the record.
After the contemplative atmosphere of "Intuição", "Circle of Dust" restores the album’s more aggressive energy. One of the most straightforward compositions on MI'RAJ, it is built upon a fast and exceptionally precise rhythmic foundation. Jean Gardinalli deserves special recognition for sustaining the song’s intensity without sacrificing clarity. Roy Khan’s guest appearance adds emotional weight to the chorus while creating an intriguing contrast between the vocal timbres. Even within a relatively traditional structure, the song displays enough refinement to avoid any sense of repetition.
In contrast to the speed of its predecessor, "On Your Own" places its focus firmly on emotion and atmosphere. Orchestral arrangements take center stage from the outset, creating the ideal backdrop for one of Falaschi’s most heartfelt performances. Driven by a beautiful gospel-inspired choir, the chorus ranks among the album’s most memorable moments. There is a clear elegance in every aspect of the composition, from the arrangements to the production, further demonstrating Falaschi’s ability to craft grandiose ballads without descending into sentimentality.
The trilogy could hardly have ended in a more fitting fashion than with "Wrath Into the War". The closing track encapsulates nearly everything that defines the album: speed, memorable melodies, towering choirs, and a strong epic sensibility. From its opening moments, the song assumes the role of both narrative and musical climax. The chorus is powerful, the instrumental arrangements sustain tension throughout, and the sense of urgency remains intact until the final note. As a conclusion, it delivers exactly what one would expect from a finale of this scale: intensity, emotion, and a genuinely satisfying sense of closure.
Across its slightly more than sixty-minute running time, MI'RAJ showcases a rare combination of artistic ambition and execution. Few figures in contemporary Brazilian metal possess the confidence required to build a conceptual trilogy of this magnitude, and even fewer manage to bring it to such a convincing conclusion.
If Vera Cruz marked the beginning of a new chapter and Eldorado expanded its narrative horizons, MI'RAJ is the work that brings every piece of the puzzle together. Not only does it contain some of the finest moments of Edu Falaschi’s solo career, but it also reinforces his standing as one of the leading composers in Latin American heavy metal—and arguably on the global stage as well.
While the abundance of symphonic and progressive elements may demand greater attention from the listener compared to its predecessors, it is precisely this wealth of detail that makes MI'RAJ such a rewarding experience. This is an album that benefits enormously from repeated listens, revealing new layers and nuances with each return.
More than simply the conclusion of a trilogy, MI'RAJ represents the consolidation of an artistic vision. Grand in scope, technically impeccable, and emotionally engaging, it stands as one of the most significant power metal releases of 2026.
![]() |
| Divulgação |
![]() |
| Valhall Music (Nac.) / earMUSIC (Imp.) |
Por Michelle F. Santana
Desde que iniciou sua carreira solo após deixar o Nightwish, Tarja Turunen construiu uma discografia marcada pela constante busca por equilíbrio entre metal, música clássica e experimentação. Em Frisson Noir, seu mais novo álbum de estúdio, a cantora finlandesa parece finalmente reunir todas as facetas de sua identidade artística em uma obra coesa, madura e profundamente pessoal. O resultado é um trabalho que remete tanto à grandiosidade de My Winter Storm (2007) quanto ao peso de What Lies Beneath (2010), mas com uma personalidade própria que o coloca entre os pontos mais altos de sua trajetória solo.
Em Frisson Noir, a artista parece olhar para toda essa trajetória e transformá-la em arte. Descrito pela própria Tarja como um de seus trabalhos mais pessoais, o álbum mergulha em temas ligados à memória, identidade, emoções e experiências que moldaram sua visão de mundo. O próprio título sugere uma dualidade entre fascínio e escuridão, beleza e melancolia, elementos que acompanham Tarja desde os primeiros passos de sua carreira e que aqui encontram uma de suas expressões mais maduras.
O disco abre com uma breve introdução instrumental que funciona como um portal para a experiência proposta por Tarja. Sons meditativos, sinos que evocam atmosferas orientais e uma ambientação quase hipnótica conduzem o ouvinte para dentro do universo do álbum.
A faixa-título, "Frisson Noir", surge logo em seguida e estabelece o tom da obra. Iniciando de forma intimista através do piano, a composição cresce gradualmente até explodir em riffs marcantes e passagens orquestrais grandiosas. É uma música pesada, envolvente e carregada de tensão dramática, condensando em poucos minutos tudo aquilo que faz o metal sinfônico funcionar tão bem.
"The Eternal Return" aposta em contrastes inteligentes. A canção começa com intensidade, mas interrompe abruptamente sua agressividade para mergulhar em uma passagem operística delicada e intimista. A transição é executada com naturalidade e demonstra o domínio que Tarja possui sobre dinâmica e narrativa musical, antes de a faixa retornar ao peso para um desfecho impactante.
Um dos momentos mais aguardados do álbum é "Leap of Faith", que marca mais uma colaboração entre Tarja e Marko Hietala. É impossível não sentir certa nostalgia ao ouvir os dois dividindo os vocais novamente. O timbre rouco e característico de Marko complementa perfeitamente a voz lírica de Tarja, criando uma química que permanece intacta. Somado às orquestrações exuberantes e aos riffs pesados, o resultado é uma das faixas mais grandiosas do disco.
Em "At Sea", a artista explora de maneira brilhante sua ligação com a música clássica, contando com as participações especiais de Mervi Myllyoja no violino e Nikolas Pokki no piano. Eles conduzem uma atmosfera elegante que remete a uma apresentação erudita, enquanto o metal surge como elemento complementar e não como protagonista absoluto. O violino assume papel fundamental na construção emocional da faixa, culminando em um encerramento onde instrumentos e voz se fundem de forma magistral.
"The Trace Outlives" é uma das faixas mais pesadas do álbum e conta com a participação de Sayo Komada no shamisen, instrumento tradicional japonês que contribui para a construção de uma ambientação inspirada na cultura do país. A composição faz referência ao fenômeno conhecido como "Johatsu" termo que significa "evaporação" e é utilizado para descrever pessoas que desaparecem voluntariamente sem deixar rastros no Japão.
No entanto, a música utiliza esse conceito como uma metáfora para questões relacionadas à saúde mental e às marcas emocionais que permanecem mesmo após o desaparecimento físico, algo reforçado pelo videoclipe. O tema despertou o interesse de Tarja e serviu como ponto de partida para uma composição que incorpora elementos tradicionais orientais sem perder sua identidade metálica.
O resultado é uma faixa sombria e intrigante, cuja atmosfera e melodia chegam a remeter, em alguns momentos, a "Smooth Criminal", clássico de Michael Jackson. O videoclipe amplia ainda mais essa sensação imersiva.
"Tango", que tem a participação especial do Apocalyptica, revela outra faceta da cantora. Funcionando como uma homenagem à Argentina, país pelo qual Tarja nutre profundo carinho e onde viveu durante anos, a faixa mistura influências latinas e eruditas com grande naturalidade. É também uma das músicas que melhor evidenciam o caráter autobiográfico presente ao longo de todo o álbum.
Após tantos momentos grandiosos, "Anemoia" surge como uma pausa necessária. A balada deposita sua força na interpretação emocional da cantora e no delicado trabalho do violão, criando uma das composições mais belas e sensíveis do repertório. Aqui, o peso não está nos riffs, mas na emoção transmitida por cada nota.
Já "I Don't Care" traz uma colaboração inesperada e extremamente bem-sucedida com Dani Filth. Os elementos sombrios e quase industriais dialogam perfeitamente com a estética do vocalista, enquanto Tarja mantém o caráter épico da composição. O contraste entre as vozes cria momentos memoráveis, reforçados por um refrão intenso, uma atmosfera envolvente e um solo que acrescenta ainda mais profundidade emocional à música.
"Against the Odds" conta com a participação especial de Chad Smith, baterista do Red Hot Chili Peppers, que imprime à faixa o groove característico de seu estilo sem comprometer a essência sinfônica de Tarja. A música funciona perfeitamente como o capítulo final da narrativa proposta pelo álbum, amarrando seus temas centrais e reforçando a identidade sonora da artista. Seu desfecho não poderia ser mais épico: grandioso, emocionante e digno dos créditos finais de um filme, encerrando a jornada de forma memorável.
"Outro" retoma os elementos da introdução e fecha o ciclo iniciado na abertura. Se a intro funciona como um convite para entrar no universo criado por Tarja, o desfecho atua como um despertar gradual, conduzindo o ouvinte de volta à realidade após uma jornada musical imersiva.
Se fosse necessário definir Frisson Noir em apenas uma palavra, ela seria: imersivo. Cada elemento do álbum — dos arranjos orquestrais aos riffs, dos videoclipes às interpretações vocais — contribui para criar uma experiência que vai além da simples audição. Tarja entrega um trabalho que reúne o melhor de suas diferentes fases, ao mesmo tempo em que demonstra coragem para explorar novos caminhos.
Frisson Noir é mais do que um álbum de metal sinfônico: é uma declaração artística de uma artista que continua expandindo seus horizontes criativos após décadas de carreira. Um disco ambicioso, pessoal e executado com excelência, que certamente figura entre os momentos mais inspirados de sua discografia solo e merece ser apreciado do início ao fim. O resultado é uma obra cinematográfica, intensa e emocionalmente envolvente, que reafirma por que Tarja continua sendo uma das vozes mais importantes e influentes do metal sinfônico.
***ENGLISH VERSION***
Since launching her solo career after leaving Nightwish, Tarja Turunen has built a discography defined by a constant pursuit of balance between metal, classical music, and experimentation. On Frisson Noir, her latest studio album, the Finnish singer finally seems to bring together every facet of her artistic identity into a cohesive, mature, and deeply personal work. The result is an album that recalls both the grandeur of My Winter Storm (2007) and the heaviness of What Lies Beneath (2010), while possessing a distinct personality that places it among the finest achievements of her solo career.
On Frisson Noir, Tarja appears to reflect upon her entire journey and transform it into art. Described by the artist herself as one of her most personal works, the album dives into themes of memory, identity, emotions, and experiences that have shaped her worldview. Even the title suggests a duality between fascination and darkness, beauty and melancholy—elements that have accompanied Tarja since the earliest stages of her career and that find one of their most mature expressions here.
The album opens with a brief instrumental introduction that serves as a gateway into the experience Tarja has crafted. Meditative sounds, bells evoking Eastern atmospheres, and an almost hypnotic ambiance guide the listener into the album's universe.
The title track, "Frisson Noir," arrives shortly afterward and establishes the tone of the record. Beginning intimately with piano, the composition gradually builds before erupting into powerful riffs and grand orchestral passages. It is a heavy, captivating piece filled with dramatic tension, condensing into a few minutes everything that makes symphonic metal so effective.
"The Eternal Return" thrives on intelligent contrasts. The song begins with intensity but abruptly interrupts its aggression to plunge into a delicate and intimate operatic passage. The transition is executed naturally and demonstrates Tarja's mastery of dynamics and musical storytelling before the track returns to its heavier side for an impactful conclusion.
One of the album's most anticipated moments is "Leap of Faith," which marks another collaboration between Tarja and Marko Hietala. It's impossible not to feel a sense of nostalgia hearing the two share vocals once again. Marko's rough and distinctive voice perfectly complements Tarja's operatic style, creating a chemistry that remains as strong as ever. Combined with lush orchestration and crushing riffs, the result is one of the album's most majestic tracks.
On "At Sea," Tarja brilliantly explores her connection to classical music, joined by special guests Mervi Myllyoja on violin and Nikolas Pokki on piano. Together, they create an elegant atmosphere reminiscent of a classical performance, while metal serves as a complementary element rather than the primary focus. The violin plays a fundamental role in shaping the song's emotional landscape, culminating in a finale where voice and instruments merge beautifully.
"The Trace Outlives" is one of the heaviest songs on the album and features Sayo Komada on the shamisen, a traditional Japanese instrument that helps create an atmosphere inspired by Japanese culture. The composition references the phenomenon known as "Johatsu"—a term meaning "evaporation" that is used to describe people who voluntarily disappear without leaving a trace in Japan.
However, the song uses this concept as a metaphor for mental health struggles and the emotional scars that remain even after physical absence, an idea further reinforced by the music video.
The theme sparked Tarja's interest and served as the starting point for a composition that incorporates traditional Eastern elements without sacrificing its metallic identity. The result is a dark and intriguing track whose atmosphere and melody occasionally evoke "Smooth Criminal," Michael Jackson's classic hit. The music video further enhances the song's immersive quality.
"Tango," featuring a special appearance by Apocalyptica, reveals another side of the singer. Functioning as a tribute to Argentina—a country for which Tarja holds deep affection and where she lived for many years—the song blends Latin and classical influences with remarkable naturalness. It is also one of the tracks that best highlights the autobiographical character present throughout the album.
After so many grand moments, "Anemoia" arrives as a welcome pause. The ballad draws its strength from Tarja's emotional performance and delicate acoustic guitar work, creating one of the most beautiful and sensitive compositions on the record. Here, the weight lies not in the riffs but in the emotion conveyed through every note.
"I Don't Care" brings an unexpected and highly successful collaboration with Dani Filth. The dark, almost industrial elements blend perfectly with the vocalist's aesthetic, while Tarja preserves the song's epic character. The contrast between their voices creates memorable moments, reinforced by an intense chorus, an engaging atmosphere, and a solo that adds even more emotional depth to the track.
"Against the Odds" features a special appearance by Chad Smith, drummer of the Red Hot Chili Peppers, who injects the song with his signature groove without compromising Tarja's symphonic essence. The track works perfectly as the final chapter of the album's narrative, tying together its central themes while reinforcing the artist's sonic identity. Its conclusion could not be more epic: grand, emotional, and worthy of a film's closing credits, bringing the journey to a memorable end.
"Outro" revisits the elements introduced in the opening track and closes the cycle that began at the album's start. If the intro serves as an invitation into Tarja's universe, the finale acts as a gradual awakening, guiding the listener back to reality after an immersive musical journey.
If Frisson Noir had to be defined in a single word, it would be: immersive. Every element of the album—from the orchestral arrangements and riffs to the music videos and vocal performances—contributes to an experience that goes far beyond simple listening. Tarja delivers a work that gathers the finest aspects of her different creative phases while simultaneously demonstrating the courage to explore new directions.
Frisson Noir is more than a symphonic metal album; it is an artistic statement from a musician who continues to expand her creative horizons after decades of performing. An ambitious, personal, and masterfully executed record, it undoubtedly ranks among the most inspired moments of her solo discography and deserves to be experienced from beginning to end.
The result is a cinematic, intense, and emotionally engaging work that reaffirms why Tarja remains one of the most important and influential voices in symphonic metal.
![]() |
| Divulgação |