![]() |
| Ricardo Dias |
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Heavenwood: Um Recomeço e a Parte Final da Saga "Tarot of the Bohemians"
terça-feira, 16 de junho de 2026
Cobertura de Show: Roland Grapow – 14/06/2026 – Manifesto Bar/SP
ROLAND GRAPOW CELEBRA "THE TIME OF THE OATH", MAS ESBARRA EM EXECUÇÃO IRREGULAR NO MANIFESTO BAR
Celebrar os 30 anos de The Time of the Oath em São Paulo parecia uma missão praticamente à prova de erros. Lançado em 1996, o sétimo álbum de estúdio do Helloween é considerado um dos trabalhos mais importantes da fase de Andi Deris e marcou uma retomada criativa da banda alemã, trazendo uma sonoridade mais pesada e madura, além de clássicos que ajudaram a consolidar o power metal nos anos 1990. O disco, inspirado nas profecias de Nostradamus, também foi dedicado à memória do baterista Ingo Schwichtenberg, falecido no ano anterior.
Foi justamente esse legado que o guitarrista Roland Grapow trouxe ao Manifesto Bar, em São Paulo, no último dia 14 de junho. Integrante do Helloween entre 1989 e 2001 e peça fundamental na construção da identidade musical daquela fase da banda, Grapow retornou ao Brasil acompanhado do mesmo time de músicos que o acompanhou em outras passagens recentes pelo país: João Luiz (King Bird/Golpe de Estado) nos vocais, Affonso Jr. (Confessori/Revenge) na guitarra, Fabio Carito (Metalium/Warrel Dane) no baixo e Marcus Dotta (Metalium/Warrel Dane) na bateria.
A abertura ficou por conta da Here I Am, grupo conhecido por homenagear a obra de Andre Matos e que vive uma nova fase apostando em material próprio. A apresentação teve um caráter especial: a gravação do primeiro DVD ao vivo da banda. Com músicas do álbum de estreia, Synergy, lançado no ano passado, o grupo mostrou segurança e encerrou sua participação em clima de celebração, convidando Felipe Andreoli (baixo, Angra) e Edu Ardanuy (guitarra, ex-Dr. Sin, All Metal Stars) para executar os clássicos "Nothing to Say" e "Carry On", do Angra.
Pontualmente às 21h, Roland Grapow surgiu sozinho no palco, antes mesmo de a música ambiente terminar — aparentemente, "Balls to the Wall", dos compatriotas do Accept. O guitarrista ajustou sua própria guitarra, conferiu rapidamente a afinação, saudou o público com um descontraído "E aí, São Paulo?" e deu início à principal atração da noite com "We Burn", faixa de abertura de The Time of the Oath.
No entanto, apesar do talento inegável dos músicos envolvidos, algo parecia fora do lugar desde os primeiros minutos. O principal problema estava na condução vocal. João Luiz, reconhecidamente um dos grandes nomes do rock nacional e dono de performances irretocáveis em trabalhos com King Bird, Golpe de Estado e tributos a Ronnie James Dio, demonstrava pouca familiaridade com o repertório do Helloween. Preso constantemente a um recurso visual para acompanhar as letras, o vocalista errava entradas, hesitava em passagens importantes e transmitia a sensação de ainda estar se adaptando ao material.
O desconforto tornou-se evidente em músicas como "Steel Tormentor", "Wake Up the Mountain" e, principalmente, "Power". Nesta última, já era perceptível um certo descontentamento por parte do público. Enquanto Marcus Dotta impressionava ao reproduzir com precisão as linhas originalmente gravadas por Uli Kusch, João Luiz era constantemente amparado pelos colegas para manter a execução coesa.
Entre uma música e outra, Grapow mostrou o carisma habitual ao comentar, de maneira bem-humorada, que executariam as canções de The Time of the Oath das quais ele ainda se lembrava. Apesar da proposta divulgada sugerir uma execução quase integral do álbum, o disco não foi apresentado na íntegra, embora tenha dominado boa parte do repertório.
"Forever and One (Neverland)" trouxe um dos momentos mais emocionantes da noite, seguida por "Before the War" e pela raríssima "A Million to One" — faixa pouco lembrada pelos próprios fãs e que jamais integrou o repertório oficial do Helloween em suas turnês. A homenagem ao álbum foi encerrada com a faixa-título, "The Time of the Oath", quando Grapow convocou o público para assumir os refrões. Nessas canções, a banda pareceu mais confortável, mas a sensação de estar assistindo a um grande karaokê de luxo ainda persistia.
Curiosamente, o clima mudou quando o grupo passou a executar músicas já presentes nas turnês anteriores de Grapow pelo Brasil. "Mr. Torture", "The Departed (Sun Is Going Down)" e "The Dark Ride", todas ligadas ao álbum The Dark Ride (2000), soaram mais naturais, como se finalmente músicos e vocalista encontrassem terreno conhecido.
Na reta final, veio "The Chance", composição assinada por Grapow para o controverso Pink Bubbles Go Ape (1991), recebida com entusiasmo pelos fãs mais antigos. O encerramento reservou o ponto alto definitivo da apresentação: Leandro Caçoilo (Seventh Seal, Viper) assumiu os vocais em "Eagle Fly Free" e "I Want Out". Ainda que as músicas pertençam à fase anterior à entrada de Grapow no Helloween, são praticamente obrigatórias em qualquer celebração ligada ao universo da banda. O Manifesto Bar explodiu em coro, e os refrões foram cantados em uma só voz.
Foi, acima de tudo, uma noite movida pela nostalgia. O repertório acertou em cheio ao revisitar um dos discos mais importantes do power metal mundial, mas a execução irregular impediu que a celebração alcançasse todo o potencial que carregava.
A escolha de João Luiz para a ocasião pareceu equivocada. Seu talento é inquestionável, mas sua voz e seu histórico musical talvez dialoguem mais naturalmente com o repertório do Masterplan, outra importante banda de Grapow, curiosamente ausente do setlist. Com uma preparação mais cuidadosa, maior entrosamento e um intérprete mais alinhado à proposta estética do material executado, esta poderia ter sido uma noite memorável.
Ainda assim, ouvir canções de The Time of the Oath ecoando ao vivo três décadas após seu lançamento foi um privilégio. Mesmo com seus tropeços, a apresentação serviu como lembrança do impacto duradouro de um álbum que permanece como um dos pilares do power metal e da contribuição fundamental de Roland Grapow para essa história.
A celebração seguem em tour pelo Brasil durante o mês de junho:
17/06 – Curitiba (Blood Rock Bar) – BR
19/06 – Fortaleza (Valentina Bar) – BR
20/06 – Santo André (Santo Rock Bar) – BR
21/06 – Belo Horizonte (Caverna) – BR
Texto: Anderson Bellini
Fotos: André Tavares
Edição/Revisão: Gabriel Arruda
Realização: TC7 Produções
Press: LP Metal World
Roland Grapow – setlist:
We Burn
Steel Tormentor
Wake Up the Mountain
Power
Forever and One (Neverland)
Before the War
A Million to One
The Time of the Oath
Mr. Torture
The Departed (Sun Is Going Down)
The Dark Ride
The Chance
Eagle Fly Free (with Leandro Caçoilo)
I Want Out (with Leandro Caçoilo)
Venom: "Nós somos todos roqueiros e amamos o que fazemos"
Entrevista por: Renato Sanson
Lendas do metal mundial passando pelo nosso site!
Recentemente tivemos a honra de conversar com Dante, baterista da icônica banda de Black/Thrash Metal Venom, um dos nomes mais influentes e importantes da história da música pesada.
Em um bate-papo descontraído e repleto de histórias, falamos sobre a trajetória da banda, o momento atual e diversos assuntos que certamente irão interessar aos fãs do Metal extremo.
Se você é apaixonado por música pesada e quer conferir uma conversa exclusiva com uma verdadeira lenda do underground mundial, não perca esta entrevista.
Leia agora mesmo \\m//
Como é tocar as músicas clássicas que ajudaram a moldar o heavy metal e manter o legado do Venom vivo?
É fantástico! Já faz 17 anos que estou na banda. Esta é a formação que está junta há mais tempo. Então, subir ao palco desde aquele primeiro show que fiz no México, em 2009, até o nosso próximo show, que será daqui a algumas semanas, na Suécia, é algo incrível.
É sensacional tocar essas músicas que, como você disse, ajudaram a moldar o metal, e realmente moldaram. É uma honra, e é muito gratificante. Além disso, nós as misturamos com as novas músicas, e o repertório acaba ficando realmente épico.
Como você compara o Venom de hoje com o legado da banda no passado?
O legado do Venom e a forma como o Venom é. É uma banda de Black Metal, o que basicamente significa que é rock and roll! E rock and roll é um sentimento que você experimenta ao tocar. Nós somos todos roqueiros e amamos o que fazemos. Coloque a gente junto em um palco, é algo praticamente imparável.
Então, essa paixão, desde os primeiros dias do Venom, desde o início da banda até agora, não mudou. São pessoas que querem subir ao palco e dar tudo de si, fazer o público enlouquecer, escrever músicas legais, gravar discos e lançar grandes álbuns. No fim das contas, é disso que tudo se trata.
Venom lançou um novo álbum este ano, o excelente "Into Oblivion". Como tem sido a recepção até agora?
Tem sido fenomenal. E, sim, obviamente foi algo que levou muito tempo para acontecer, especialmente por causa de alguns contratempos que enfrentamos pelo caminho. Mas absolutamente tudo o que vi, li, ouvi das pessoas e acompanhei na internet, ou em qualquer outro lugar, foi nada menos do que um retorno incrível. Então, estamos muito, muito, muito satisfeitos com a recepção.
O que o símbolo do Venom significa para você?
É pura energia, música feita com o coração. Estamos falando de uma banda que existe há muito, muito tempo, e há uma razão para isso: nós amamos o que fazemos, e as pessoas amam o que fazemos. Então, é isso que o Venom significa.
Qual é o seu álbum favorito do Venom com você na banda? E existe algum álbum mais antigo que você não recomendaria?
Sobre a primeira parte da pergunta: meu álbum favorito do Venom em que participei... Não estou dizendo isso apenas porque é o disco mais recente, mas acredito que "Into Oblivion" (2026) captura essencialmente os nossos 17 anos juntos com esta formação. Esses 17 anos representam a formação mais duradoura da história do Venom desde o início da banda. Acho que, quando você escuta o álbum, percebe uma variedade muito grande de elementos. As músicas são bem diferentes entre si.
Obviamente, você tem aquelas faixas mais típicas do Venom logo no começo, que fazem você pensar "uau!", mas depois o álbum segue por caminhos distintos. Há diferentes atmosferas, um toque mais progressivo em alguns momentos, um pouco de blues em outros, além de passagens que resgatam a sonoridade clássica do Venom. E ainda tem aquela música épica no final, "Unholy Mother". Também há canções que incluem vocais em estilo latino. Além disso, foi a primeira vez que eu e Rage, o guitarrista, cantamos em um álbum da banda.
Fizemos backing vocals em cerca de cinco músicas, algo que nunca havia acontecido antes. Então, sim, acho que este disco é muito especial. E acredito que a produção e o som em geral ficaram incríveis. Ele ainda mantém aquela essência clássica do Venom, mas a produção é mais limpa e definida, sem perder a agressividade e tudo aquilo que caracteriza a banda. Para mim, este álbum é fantástico. Eu adoro o que fizemos. Não estou falando isso apenas por obrigação.
Claro que o primeiro álbum em que participei sempre terá um lugar especial, porque foi meu primeiro trabalho com a banda. Depois veio "From the Very Depths" (2015), que me impressionou muito pela força das músicas. E "Storm the Gates" (2018) também tem material excelente. Mas, sinceramente, acredito que "Into Oblivion" (2026) é um álbum extraordinário. É o meu favorito.
E a outra pergunta?
...E a outra parte da pergunta… Eu não sei bem. Cada álbum tem a sua própria identidade em qualquer banda. Você pensa em qualquer banda, e cada álbum tem suas próprias características. Ele traz músicos diferentes de épocas diferentes, de momentos diferentes.
Então, se você olhar o catálogo do Venom, vai ver coisas da formação original, depois mudanças de guitarristas, pessoas entrando e saindo ao longo do tempo. Mas todo mundo acaba trazendo a sua própria contribuição, algo único. E eu realmente não sei, essa é uma pergunta que me pegou de surpresa (risos).
Qual é o seu favorito: Welcome to Hell ou Black Metal?
Black Metal!
"Welcome to Hell": fantástico, "Black Metal": lendário! (risos)
Não me entenda mal: "Welcome to Hell" é um clássico absoluto. É o álbum de estreia e, na época, o Black Metal era algo bem diferente. Eles conseguiram reservar um horário e fazer a gravação quando o "Welcome to Hell" basicamente foi feito durante a noite. O Cronos estava trabalhando em um estúdio e, basicamente, o dono do estúdio disse: 'podem ir, vocês podem gravar um pouco'.
Então eles foram fazer uma espécie de demo durante a noite, e o que o mundo inteiro conhece como "Welcome to Hell" veio daquela noite, daquela demo que eles fizeram. E eu acho que a vibe disso foi algo que o mundo nunca tinha ouvido antes.
O som que eles criaram, e também a arte e a imagem da banda, tudo isso caminhou junto. E é isso que tornou o Venom tão único e especial. Mas sim, é ótimo. Ainda assim, eu prefiro Black Metal.
Para encerrar, uma pergunta polêmica: eu gosto tanto da era Cronos quanto da era do Demolition Man. E você?
Para mim, obviamente, a era Cronos.
Eu prefiro o Cronos, mas também gosto do Demolition Man. Ambos têm bons álbuns.
Sim, eu acho que só ouvi uma faixa... Toda banda tem pessoas que entram, saem e vão embora. Mas a questão é: quando você pensa em Venom, em quem você pensa?
Venom é igual a Cronos (risos).
Isso não é desrespeito a ninguém, mas simplesmente é assim. Quando a gente está montando as músicas, algumas das músicas que escrevemos podem ser um pouco diferentes, então o Cronos vai para o microfone, canta e aí pronto, é Venom. Ele tem aquela voz inconfundível. É como uma assinatura, é como o carimbo do Venom. É isso.
Obrigado! Venom é fantástico! É uma honra para mim essa entrevista.
Valeu, cara! Foi bom falar com você, Renato!
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Facilis Descensus Averno: Quando o underground fala com muitas vozes
Por: Renato Sanson
Em um cenário onde o underground frequentemente luta para conquistar espaço e visibilidade, Facilis Descensus Averno (2024) surge como uma iniciativa tão simples quanto brilhante. Reunindo diversos projetos brasileiros de one man band, o lançamento apresenta uma proposta que vai além de uma mera coletânea: cada participante contribui com uma faixa inédita, exclusiva para este trabalho, transformando o material em uma verdadeira celebração da criatividade e da individualidade artística.
O resultado é uma viagem por diferentes interpretações do Black Metal, demonstrando como o gênero continua sendo um terreno fértil para expressão, experimentação e sensibilidade. Mais do que uma sucessão de músicas extremas, Facilis Descensus Averno revela o lado mais poético, introspectivo e artístico da cena nacional.
Entre os destaques, o Lalssu conduz o ouvinte por paisagens sonoras de forte inspiração helênica, evocando uma atmosfera quase mitológica através de melodias carregadas de identidade e profundidade. Já o Black Celebration apresenta uma abordagem mais agressiva e caótica, mergulhando em passagens obscuras que remetem ao caráter mais visceral e perturbador do estilo. Em outra direção, Odisseia dos Loucos amplia os horizontes da obra com sua pegada épica, construindo narrativas sonoras grandiosas e envolventes que transportam o ouvinte para além da simples audição. Perpétuos Perversos e sua narrativa de guerra nos transportando para outra dimensão. Isso só para citar algumas das precisosidades que o álbum apresenta.
O grande mérito de Facilis Descensus Averno está justamente em sua diversidade. Cada faixa possui personalidade própria, refletindo a visão particular de seu criador, mas sem comprometer a coesão do conjunto. Ao contrário: as diferenças enriquecem a experiência e evidenciam a riqueza criativa existente na cena underground brasileira.
Mais do que um lançamento, este trabalho funciona como uma vitrine para artistas que muitas vezes permanecem à margem da grande exposição, apesar da qualidade inquestionável de suas composições. É uma oportunidade rara de descobrir novos nomes, novas abordagens e novas formas de compreender a vertente mais odiada do mundo.
Facilis Descensus Averno prova que o underground continua vivo, pulsante e repleto de ideias inovadoras. Um lançamento indispensável para aqueles que enxergam o Black Metal não apenas como um gênero musical, mas como uma forma de arte capaz de transitar entre o caos, a melancolia, a grandiosidade e a poesia.
Uma obra que valoriza a criatividade acima de tudo. Uma descida ao inferno que vale cada passo.
sábado, 13 de junho de 2026
Volunthariado Ana Lambert: Um acorde de carinho, cuidado e acolhimento.
![]() |
| Imagens de eventos do Voluntariado |
![]() |
| Imagens de eventos do Voluntariado |
Gotthard (Freddy Scherer): "A paixão pelos palcos continua a mesma"
Por Anderson Bellini
Às vésperas do lançamento do EP More Stereo Crush, o guitarrista Freddy Scherer conversou com a Road to Metal sobre os bastidores desta nova fase do Gotthard. Em uma entrevista franca, o músico relembrou o emocionante e desafiador primeiro show da banda após a perda de Steve Lee — realizado em Buenos Aires, na Argentina, marcando também a estreia de Nick Maeder nos palcos com o grupo —, falou sobre a forte ligação do Gotthard com o Brasil, refletiu sobre as mudanças na indústria musical em tempos de streaming e inteligência artificial e revelou os planos para o futuro. Entre memórias, curiosidades e reflexões sinceras, Freddy mostra que, após mais de três décadas de estrada, a paixão do Gotthard pela música e pelos palcos continua tão intensa quanto sempre foi.
Parabéns pelo álbum Got Us Left, pelo Stereo Crush (2025) e, claro, pelo EP More Stereo Crush (2026), que acabei de ouvir. Você pode nos contar sobre a origem das músicas deste EP? E nós sabemos que essas faixas não entraram no Stereo Crush. Por que elas ficaram de fora? Elas foram intencionalmente guardadas para este futuro lançamento?
FS: Bom, antes de tudo, quando escrevemos as músicas originalmente para o Stereo Crush, acho que chegamos a algo em torno de 18 faixas, ou até mais. E então acabamos cortando algumas. Mas, como sempre, tivemos aquelas discussões do tipo 'essas músicas ainda são boas, então não queremos simplesmente descartá-las.' Por outro lado, se você lança um álbum com umas 18 músicas, nós acreditamos que cada faixa individual acaba perdendo um pouco de atenção, porque, quando você tem 18 músicas na sua frente, é mais difícil formar uma opinião sobre tudo do que quando você tem, por exemplo, 12 músicas. Assim, cada faixa acaba se destacando mais. Então essa foi a principal razão pela qual dissemos 'ok, vamos ficar com 12 músicas e depois lançar um EP mais tarde.' Essa foi basicamente a ideia por trás de tudo. E, claro, você também quer que o álbum tenha mais ou menos uma identidade, uma atmosfera, um certo tema. E se houver duas ou três músicas que sejam um pouco parecidas — não necessariamente na composição, mas talvez no estilo — ou até baladas demais, você não quer ter cinco baladas em um álbum. Foi assim que fizemos a seleção de músicas para o Stereo Crush e depois para o More Stereo Crush. Essa é um pouco da história por trás disso.
| Reign Phoenix Music (Imp.) |
E nós sabemos que o Gotthard tem uma conexão muito forte com o Krokus, porque Mandy Meyer é guitarrista e ex-integrante do Gotthard, e o baterista Flavio também toca com vocês no Gotthard. Como surgiu o convite para Mark e Chris participarem em Liverpool? E como vocês decidiram qual versão cada um iria cantar em Liverpool?
FS: Antes de tudo, Chris Von Rohr, baixista do Krokus, foi por muitos e muitos anos produtor do Gotthard, lá no começo, nos primeiros dez anos ou até mais. Depois chegou um momento em que havia visões diferentes sobre as coisas, então acabou acontecendo uma separação. Agora, depois de tantos anos, pensamos que seria ótimo colaborar novamente em uma ou duas músicas. No fim das contas, acabou sendo apenas uma, Liverpool. E também tivemos alguns shows… já faz alguns anos que, de vez em quando, fazemos apresentações juntos na Suíça. E sempre fazemos um encore juntos tipo 'Gotthard e Krokus tocam juntos duas, três ou quatro músicas', o que for. Então pensamos 'por que não?, já que Chris Von Rohr já é coautor dessa música?' Aí tivemos a ideia de chamar Mark Storace para cantar algumas partes em uma nova versão. Depois, ao vivo, tivemos dois shows em dezembro, em Zurique e Berna, na Suíça, juntos. Então tocamos Liverpool com Marc e Nic no palco como uma versão especial. Acho que essa é a história por trás disso. Mas quando gravamos a primeira versão para o Stereo Crush — vamos chamar assim — essa ideia ainda não existia. Por isso fizemos uma segunda versão, que é muito parecida com a primeira, claro, mais como uma espécie de bônus, e a colocamos no álbum More Stereo Crush.
![]() |
| Luc Braissant |
FS: Nós ainda não tocamos essa música ao vivo, isso ainda vai entrar em discussão para o novo setlist. E a ideia básica foi, na verdade, do Leo. Foi uma ideia principalmente dele. Ele criou esses sons de guitarra bem atmosféricos, com delay. É uma atmosfera muito, muito bonita. Esse foi o começo da música, e todo mundo gostou. Então nós terminamos a faixa e ela acabou entrando no álbum. E eu acho que ela tem uma identidade muito especial, algo completamente diferente do restante das músicas dos dois álbuns, na verdade. Então foi assim que ela surgiu, foi assim que ele a criou. E sobre como vamos executá-la ao vivo, não há bateria nem baixo na música, então provavelmente você está certo sobre essa ideia. Mas vamos ver.
Como foi trabalhar novamente com Charlie Bauerfeind? Ele vem produzindo os álbuns de vocês desde Bang! (2014), certo?
FS: Desde Bang! (2014)
É interessante porque ele é muito conhecido por trabalhar com bandas de heavy metal como Helloween e Blind Guardian. O que ele traz para o som do Gotthard? Talvez um pouco dessa energia do heavy metal?
FS: Nós fizemos o Bang! (2014), depois fizemos o Silver (2017) e, no #13 (2020), trabalhamos com o produtor americano Paul Lani, mas depois voltamos a trabalhar com o Charlie. Antes de gravar um álbum, você sempre senta junto para discutir o que quer fazer: o que funcionou bem da última vez, o que não foi tão bom, para onde você quer ir… e também se o produtor tem tempo disponível ou se está ocupado demais. Nós sempre tivemos uma colaboração muito boa com o Charlie, e a grande qualidade dele é que ele sempre pensa: 'ok, este é um álbum novo, então o que vamos fazer agora?'. Ele não usa sempre o mesmo conjunto de ideias em todos os discos. É sempre algo como: 'esse álbum tem essa característica, então o que podemos fazer de diferente agora?'. E isso é algo legal. A banda está junta há 32, 33 ou até 34 anos, então é bom ter desafios e trabalhar com um produtor disposto a garantir que as coisas não soem sempre iguais. E, em segundo lugar, eu não diria que ele traz heavy metal para o nosso som, mas ele é muito focado em energia e em fazer a banda soar viva. Nós já não temos 20, nem 30 e nem 40 anos, mas ainda queremos soar como uma banda que realmente quer tocar e que se diverte fazendo isso. E é isso que ele tenta transmitir, o que eu considero muito importante, porque já existem vários álbuns do Gotthard no mercado, então você precisa tomar cuidado para não soar como se estivesse fazendo discos apenas por fazer. Para nós, cada álbum tem sua própria identidade, ele se sustenta sozinho. Não é simplesmente 'ah, esse é o álbum número 14? Ok, já fizemos tantos…'. Não, não é assim. Cada álbum ainda nos tira o sono. Se não estamos felizes com algo ou se alguma coisa não está clara, aquilo realmente nos afeta. Nós levamos isso muito a sério. Sempre temos muitas discussões, porque, claro, são músicos diferentes, todos na nossa idade, mais o produtor, e cada um tem sua visão. Então discutimos tudo até o fim, até encontrarmos a solução. E, pessoalmente, humanamente falando, nós nos damos muito bem com o Charlie. E isso é algo muito importante.
![]() |
| Divulgação |
Voltando um pouco no tempo, o primeiro show do Nic com o Gotthard foi em 2012, em Buenos Aires, na Argentina. Eu estava lá e consigo me lembrar da atmosfera entre vocês naquela noite. Foi o primeiro show sem o Steve, claro, e eu lembro de ver todos vocês reunidos antes de subir ao palco. Você pode compartilhar o que se lembra daquela noite em Buenos Aires? Foi a primeira vez que vocês tocaram aqui na América do Sul sem o Steve, e eu imagino que tenha sido um momento muito emocionante e inesquecível para todos vocês. Você pode nos contar o que se lembra daquela noite?
FS: Estávamos muito nervosos. Quer dizer, todo mundo estava nervoso: o Nic estava nervoso, a banda estava nervosa, e aquilo era um enorme desafio para nós. Não foi fácil, não era como se pudéssemos simplesmente subir ao palco e nos divertir. Não, definitivamente não. Era mais algo como: 'uau, o que está acontecendo? Como isso vai ser?'. Foram os primeiros shows com o Nick, e se você tivesse gravado aquele show e comparasse com uma gravação de hoje, seria uma banda completamente diferente. O Nic é praticamente outra pessoa hoje em dia — ainda tem a mesma cor de cabelo —, mas todo o resto mudou. Então, sim, eu diria que não foi exatamente divertido, mas foi muito importante. E nos primeiros shows, depois de cada apresentação, nós nos reuníamos e conversávamos: 'ok, como foi? Está bom o suficiente?”, porque ainda era o primeiro show, e ficávamos pensando: 'será que vai funcionar?' E a verdade é que você não tem certeza. Isso levou um tempo. Foi como se jogar na água gelada, sabe? No fim das contas, foi isso que fizemos: fechamos os olhos, pulamos e pensamos: 'vamos ver onde isso vai dar.' E para nós — e acho que para qualquer banda — tocar na América do Sul provavelmente é a experiência mais divertida possível, por causa dos fãs, da comida e das pessoas extremamente entusiasmadas. Sim, foi divertido, nós adoramos, mas também estávamos suando muito, não apenas por causa do calor.
Você comentou que hoje a banda é completamente diferente daquela época. Naquele tempo havia muitas comparações entre as vozes do Nic e do Steve. Isso ainda acontece nesta nova fase do Gotthard?
FS: Eu não acho mais isso. É lógico que alguns fãs ainda escutem um álbum com o Steve e pensem 'uau, esse era o Steve', e depois ouve um álbum com o Nic e façam comparações. Isso nunca vai desaparecer completamente, é algo com que você precisa aprender a conviver. Mas eu diria que essa fase já passou, também porque o Nick evoluiu muito nos últimos 10, 12, 13 anos. Hoje ele se sustenta por si só. Ele tem personalidade no palco e sabe falar com o público, algo que no começo não acontecia. Mas nós pensamos: 'ok, dane-se, vamos fazer isso funcionar', mesmo que levasse alguns anos. E realmente levou alguns anos. Hoje em dia ele chegou ao ponto em que as pessoas não vêm mais apenas comparando. Na verdade, quem não via a banda há muito tempo geralmente se surpreende e diz algo como 'uau, agora está muito legal. Naquela época não era bem a nossa praia, mas agora está muito bom'. Então hoje as pessoas realmente entraram nessa nova fase da banda. Atualmente o Gotthard é uma banda diferente.
![]() |
| Divulgação |
Agora falando sobre o Brasil, vocês já vieram aqui três vezes com o Gotthard. Acho que foram duas vezes com o Nick e uma vez com o Steve. E a última vez foi em 2014, já faz bastante tempo. O que você se lembra do nosso país, desses shows especificamente no Brasil, e por que a banda não voltou desde então? Existem planos de o Gotthard vir ao Brasil para tocar ainda este ano?
FS: Eu lembro. Acho que em 2014 foi aquela turnê com o Edguy e com o Hammerfall, certo?
Sim, sim, com Edguy e Hammerfall, isso mesmo.
FS: Foi um ótimo momento com as bandas, ótimo momento em todos os lugares. Acho, que eu me lembre corretamente, fizemos três shows no Brasil além de São Paulo, certo?
Acho que Curitiba e Porto Alegre talvez, não?
FS: Eu lembro das casas de show, lembro de como elas eram, e estava tudo lotado, completamente lotado. Foi incrível e muito, muito quente. Nós nos divertimos muito. Normalmente no Brasil — ou muitas vezes depois dos shows, quando tudo termina —, os produtores convidam você para comer alguma coisa, tipo ir a uma churrascaria à 1 da manhã, como uma espécie de segunda refeição depois do show. O público é incrível, realmente muito legal. São Paulo é enorme, quero dizer, é uma cidade gigantesca. Claro que você vê só um pouquinho: chega, vai para o hotel, mas o mais marcante acabam sendo as pessoas. Conhecer as pessoas é ótimo. Algumas aparecem depois do show, outras até vão ao hotel, e você pode conversar com elas no bar do hotel. Isso é sempre muito divertido. E sobre por que não estamos indo? Nossa equipe sabe que queremos voltar. Muitas vezes, no Brasil, para bandas como a nossa, é preciso montar pacotes com duas ou três bandas. Hoje em dia existem muitas bandas mais voltadas ao metal pesado, o que acaba sendo mais fácil de organizar. Nós ficamos no meio disso tudo, então encontrar o pacote certo não é tão simples. Mas a banda quer tocar no Brasil, isso a nossa equipe sabe. E não podemos fazer muito além de repetir para eles, de novo e de novo: 'cuidem disso, queremos ir para o Brasil', quero dizer, para a América do Sul em geral. Ainda esperamos que isso aconteça em breve, porque já faz muito tempo desde a última vez. Mas nunca se sabe, de repente surge uma proposta de show e tudo acontece muito rápido. Em poucos meses, você já está aí. Mas, no momento, infelizmente não posso dar nenhuma data e nem nada concreto. Estamos esperando notícias da América do Sul, notícias do Brasil.
Outra pergunta difícil. O Gotthard nunca lançou um DVD ou Blu-ray ao vivo dessa nova era da banda com o Nick. Isso alguma vez foi considerado? Fazer um DVD como vocês fizeram com o Steve em Made in Switzerland, algo assim, um grande DVD gravado em uma grande arena com o Nic?
FS: Sim, não por enquanto. Quer dizer, hoje em dia, claro, temos bastante material porque normalmente, quando você toca atualmente, há aqueles telões enormes na direita, esquerda e atrás da banda, então tudo acaba sendo gravado e projetado nas telas. Então existe muito material disponível, porque em praticamente todo show você tem gravações. Acho que hoje é uma época diferente, porque atualmente todo show tem telas e registros por todos os lados, então esses DVDs ao vivo já não são algo tão especial quanto antes. Com o Steve, por exemplo, foi em Zurique, no Hallenstadion, que é tipo a casa de shows mais importante da Suíça. E também foi a primeira vez que a banda tocou lá, então isso foi um motivo para pensarmos: 'ok, agora que chegamos aqui, vamos gravar isso'. Depois acabamos tocando lá mais algumas vezes. É difícil dizer… eu realmente não posso afirmar se vai existir algo diferente no futuro, talvez um show com orquestra sinfônica clássica, alguma colaboração, não sei. Mas um DVD ao vivo tradicional, no momento, não está nos planos. Embora, claro, nunca se sabe. Vamos ver.
Talvez no Brasil (risos).
FS: Muito boa ideia.
Agora falando sobre você, Freddy, o que você tem escutado ultimamente? Tem alguma banda ou artista específico?
FS: Uau, difícil dizer. Existem tantas bandas por aí. Acho que a última banda “nova” que realmente me marcou — embora hoje já nem seja tão nova assim — foi quando o Foo Fighters apareceu. Tinha algo ali que realmente me chamou atenção, porque para mim sempre soou mais como uma verdadeira banda de rock. Quero dizer, é muito rock mesmo, você consegue ouvir influências do Queen e de várias bandas clássicas no som deles, especialmente com o Dave Grohl. Mas hoje existem bandas demais por aí. E o problema atualmente é que às vezes eu fico na cama olhando coisas — nem uso tanto redes sociais hoje em dia — mas de vez em quando dou uma olhada e aparecem bandas novas. Aí eu salvo alguma coisa e no dia seguinte vou conferir melhor: primeiro, para ver se elas realmente existem ou se é só algo feito por IA, porque hoje em dia muita coisa soa parecida e eu fico pensando: 'Hmm, isso é real ou é só alguém em casa brincando de juntar coisas artificialmente?'. Mas sim, eu ainda gosto muito das bandas antigas, das bandas clássicas. Hoje mesmo ouvi uma música do Eddie Vedder no rádio. No começo eu não era tão fã de Pearl Jam, mas hoje, olhando para trás, eu adoro. E é uma banda que eu nunca vi ao vivo. Eu sempre tentei assistir a muitas bandas, já vi tantos shows na minha vida. E quando você toca em festivais como o Sweden Rock e outros desse tipo, literalmente todo mundo toca lá, então você acaba conhecendo muita coisa. Ano passado fui assistir ao Joe Bonamassa também. E, sim, existem muitas bandas, não consigo citar uma banda nova específica pela qual eu esteja completamente obcecado. Mas existem algumas, especialmente nos Estados Unidos, bandas jovens e muito interessantes, ainda com bastante aspereza e personalidade no som, o que é muito legal. Vamos ver onde elas vão chegar. Muito interessante, realmente.
O Gotthard ainda lança CDs físicos, mas ao mesmo tempo vocês estão se adaptando ao futuro ao lançar singles avulsos, como fizeram com “Mayday”, que saiu apenas digitalmente em 2023 e só agora está sendo lançado em formato físico. Como você vê o futuro da indústria musical? Você acha que o formato físico eventualmente vai desaparecer?
FS: Acho que isso é bem fácil de responder. Se os jovens não compram CDs e nem têm um aparelho de CD em casa, poucos descobriram o verdadeiro álbum em vinil, mas isso é algo muito pequeno hoje em dia. Existe ainda, claro, mas não é mais o mercado que já foi. Então, se os jovens nem conhecem o CD e sequer têm um aparelho para tocar, a resposta acaba sendo muito simples: eles vão crescer assim, e esse é o futuro. Daqui a 20 ou 30 anos teremos pessoas que nunca seguraram um CD nas mãos. Isso é ruim? Sim, eu acho que é, porque eu gostava disso. Eu cresci frequentando lojas de discos, especialmente as lojas físicas. E isso é uma pena, porque você conhecia o dono da loja, você chegava lá e dizia: 'Hey, você tem alguma novidade?'. Aí ele sumia e voltava com uma pilha de álbuns. E nós passávamos duas horas ouvindo aqueles discos. É triste que isso não aconteça mais. Hoje o mundo é completamente diferente. É melhor? É pior? Eu não sei. Para os jovens, eles não sabem como era antes, então não sentem falta, porque nunca viveram aquilo. Mas uma coisa que continua acontecendo são os shows ao vivo. Isso nunca mudou, não há dúvida nenhuma sobre isso. Não importa como as músicas novas são lançadas. Porém, para bandas mais antigas como nós — ou ainda mais antigas, como Aerosmith e outras — chega uma hora em que você cansa de gravar um álbum que praticamente não existe fisicamente no mercado e desaparece muito rápido. Você realmente começa a se perguntar duas ou três vezes: 'Vale a pena fazer um álbum novo?'. Por outro lado, quando você sai em turnê, é ótimo tocar músicas novas, tanto para você como músico quanto para os fãs. Então, lançar músicas novas de vez em quando? Sim, legal. Agora um álbum inteiro, eu já não sei. E também existe o fato de que a indústria musical ganha muito menos dinheiro com isso hoje em dia, então paga menos também. Acaba sendo mais barato lançar uma música de vez em quando. Então você meio que vira um prisioneiro da situação, mas é assim que as coisas são. Vamos ver para onde a história vai. Nós gostamos de escrever músicas. Obviamente escrevemos material suficiente no último disco para fazer outro, mas vamos ver para onde a indústria musical caminha. O que é claro é que os shows ao vivo estão mais fortes do que nunca. Acho que isso se tornou mais importante. E aí fica a questão: será que tudo vai virar apenas digital? Não sei. E ainda tem a IA… isso é algo preocupante para o consumidor comum de música: o que é real e o que não é? O que existe por trás disso? Porque hoje em dia qualquer pessoa que consiga juntar uma frase consegue fazer uma música. E isso é um pouco assustador, tenho que admitir. Bem assustador.
A última pergunta é: o que vem a seguir? Quais são os planos do Gotthard para o futuro próximo e o que os fãs podem esperar dessa nova era da banda?
.jpeg)





.jpeg)

.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)


.jpg)











