Edu Falaschi transforma o Tokio Marine Hall em uma celebração de 35 anos de história, amizade e música
Finalmente chegou o tão esperado 15 de agosto, dia de Mi’raj & The Legacy Tour. Cheguei ao Tokio Marine Hall e, antes mesmo de o show começar, a atmosfera já dava pistas do tamanho da noite que estava por vir. Na fila, pais acompanhados dos filhos, jovens, casais e grupos de amigos confraternizavam enquanto aguardavam a abertura da casa. Lá dentro, a mesma sensação continuava. Entre encontros com amigos da vida e da imprensa, rostos familiares e alguns ídolos que eu jamais imaginaria encontrar naquele espaço, fui percebendo que aquela seria uma noite marcada por encontros. E o espetáculo sequer havia começado.
Fui para a frente do palco a tempo de acompanhar o show de Tito Falaschi. Multi-instrumentista, cantor, produtor e irmão de Edu, Tito carrega em sua trajetória parte importante das raízes que conduziram aquela noite. Foi baixista e vocalista do Symbols, dividindo os vocais com Edu nos primeiros anos da banda, além de ter participado de projetos como Almah e Soulspell Metal Opera e construído, ao longo dos anos, um trabalho próprio. Sua apresentação funcionou como uma espécie de ponto de partida para a retrospectiva que viria a seguir. Havia peso, técnica e uma familiaridade evidente com aquele público, enquanto sua presença já colocava em perspectiva o quanto a história dos irmãos Falaschi está ligada a diferentes capítulos do metal brasileiro.
Quando Edu entrou no palco, o espetáculo assumiu outra dimensão. A cenografia já anunciava que aquela seria uma apresentação pensada para além da execução das músicas: ao fundo, elementos diretamente relacionados ao universo de MI’RAJ, acompanhados por duas imponentes figuras de soldados, criavam uma atmosfera de batalha e jornada. O cenário ajudava a transportar o público para dentro da narrativa do álbum, capítulo final da trilogia iniciada em Vera Cruz (2021) e continuada em Eldorado (2023), concebida por Edu em parceria com o artista e escritor Fábio Caldeira. A trajetória de Jorge chega ao Oriente Médio em MI’RAJ e, nesse encerramento, a jornada externa começa a dar espaço para um processo de descoberta interior.
Essa ideia também está presente na identidade visual do disco. A capa criada por Carlos Fides coloca a Vidente no centro da composição, guardiã do Portal dos Doze Véus e responsável por conduzir Jorge durante sua travessia pelo deserto. O azul profundo, o dourado, a presença de Órion e o contraste entre luz e sombra traduzem visualmente o conflito entre as forças da Ordem de Cristo e da Cruz de Nero, ao mesmo tempo em que representam a batalha interna que conduz a narrativa até seu desfecho. No palco, essa estética ganhava uma dimensão física e ajudava a transformar o espetáculo em uma extensão da própria obra.
Edu apareceu acompanhado por uma banda extremamente coesa, formada por Victor Franco e Diogo Mafra nas guitarras, Raphael Dafras no baixo, Jean Gardinalli na bateria e Fábio Laguna nos teclados. A formação mostrou segurança para atravessar as diferentes linguagens presentes no repertório, passando pelo power metal e pelo progressivo, pelas atmosferas cinematográficas e pelos elementos étnicos que fazem parte da identidade de MI’RAJ. Entre os guitarristas, Victor Franco merece destaque especial. Se sua técnica já chama atenção em estúdio, ao vivo ela ganha ainda mais força justamente pela maneira como é utilizada. Victor não precisa transformar cada passagem em uma demonstração de velocidade para se destacar. Existe preocupação com construção melódica, escolha de timbres e musicalidade, características que fazem sentido quando lembramos que o próprio Edu já o definiu como um músico de extremo bom gosto e um verdadeiro gênio.
“Watchers of the Light” abriu a apresentação colocando imediatamente o público dentro da atmosfera de MI’RAJ. A entrada de “Ego Painted Grey”, do Angra, logo depois, mudou a perspectiva e deixou claro que o espetáculo seria construído em camadas, alternando o presente da carreira solo com diferentes períodos da trajetória de Edu. “Eyes in Flames”, do Symbols, foi um dos primeiros momentos realmente especiais. Ao lado de Tito Falaschi e Demian Tiguez, Edu revisitou uma parte muito anterior de sua história, reunindo no mesmo palco três músicos ligados a um capítulo iniciado ainda nos anos 1990. A força daquele encontro estava justamente na passagem do tempo: décadas depois, aquela formação voltava a se encontrar diante de milhares de pessoas.
O repertório seguiu por “Echoes of Vows”, “Running Alone”, do Angra, “Eyes of Time”, do Mitrium, e “Lease of Life”, costurando diferentes fases da carreira. A proposta da turnê era atravessar 35 anos de trajetória, e o setlist cumpriu essa missão com uma quantidade impressionante de referências. Em “The Ancestry”, Thiago Bianchi apareceu para acrescentar mais um capítulo a essa retrospectiva. Além de parceiro de longa data de Edu, Bianchi esteve diretamente envolvido na produção de MI’RAJ, realizado no Fusão Estúdio, repetindo a parceria iniciada em Vera Cruz.
“Unchained” trouxe Wagner Barbosa ao palco com o saxofone e também rendeu uma das brincadeiras mais inesperadas da noite. Antes de a música começar, um pequeno trecho de “Careless Whisper” foi suficiente para arrancar gritos e risadas do público. A referência funcionou como uma espécie de provocação antes de a banda mergulhar novamente na música, e quando o sax entrou de fato em “Unchained”, a atmosfera mudou completamente. O instrumento acrescentou uma camada diferente à composição e reforçou justamente uma das características mais interessantes de MI’RAJ, a disposição de Edu em incorporar elementos progressivos e soluções harmônicas menos convencionais ao power metal que sustenta boa parte de sua carreira solo.
“A Monster in Her Eyes” e “Arising Thunder”, do Angra, mantiveram a apresentação em alta velocidade até a chegada de Fábio Caldeira para “Land Ahoy” e “Eldorado”. A participação de Caldeira talvez seja uma das mais importantes para compreender a própria existência da trilogia. Vocalista, pianista, compositor e integrante do Maestrick, ele desenvolveu ao lado de Edu o universo literário que sustenta a saga de Jorge e chegou a escrever o livro de Vera Cruz. Sua entrada no palco carregava, portanto, uma dimensão quase metalinguística: o artista que ajudou a construir aquela narrativa estava agora interpretando parte dela diante do público.
Depois de “The Voice Commanding You”, Fernando Anitelli trouxe uma mudança completa de textura para o espetáculo. “Sintaxe à Vontade” e “Da Luta”, de O Teatro Mágico, ganharam uma interpretação solo do cantor, que ocupou o palco com uma linguagem baseada muito mais na palavra, na poesia e na teatralidade. A participação poderia parecer improvável em uma noite construída em torno do heavy metal, mas funcionou justamente porque existe uma aproximação conceitual entre os dois artistas. Edu e Anitelli construíram universos próprios em torno de suas obras e compreendem a música como narrativa e experiência.
Edu então assumiu sozinho o palco para “Eternamente Azul”, versão brasileira de “Blue Forever”, do universo de Os Cavaleiros do Zodíaco. Foi um dos momentos mais afetivos da apresentação justamente pela simplicidade. Sem a banda completa ou uma grande estrutura cenográfica, a música colocou a voz de Edu em primeiro plano e acionou imediatamente a memória de uma geração que cresceu ouvindo seu trabalho também através da televisão. Sua relação com Saint Seiya é uma parte importante de sua trajetória e inclui ainda a versão brasileira de “Pegasus Fantasy”, que apareceria novamente mais adiante no setlist.
“Intuição” trouxe um dos momentos mais simbólicos da noite. Fernando Anitelli, Rafael Bittencourt e Tiago Mineiro se juntaram a Edu para executar a primeira música inédita do cantor em português em 24 anos. A escolha dos convidados já tornava a apresentação especial, mas o momento ganhou outra dimensão quando Edu e Rafael se abraçaram no palco. Não havia necessidade de transformar aquele gesto em discurso. Depois de tantos anos e de tantas mudanças na trajetória de ambos, ver os dois compartilhando novamente aquele espaço dizia bastante sobre o momento vivido pelo espetáculo e sobre a maneira como Edu decidiu olhar para sua própria história.
Na sequência, “Birds of Prey”, do Almah, recebeu Felipe Andreoli, outro músico diretamente ligado à trajetória de Edu. Felipe integrou o Angra durante o período em que Edu ocupava os vocais da banda, e sua presença funcionou como mais uma ponte entre diferentes momentos da carreira. Tecnicamente, Andreoli continua impressionante. Seu baixo se encaixou com precisão na banda, preenchendo os espaços e conversando com a bateria e as guitarras sem perder personalidade.
“Bleeding Heart” trouxe um dos momentos mais espontâneos da apresentação. Edu surpreendeu ao inserir no refrão um trecho da versão feita pelo Calcinha Preta para a música, e a resposta do público foi imediata. Quando os primeiros versos foram entoados, o Tokio Marine Hall inteiro cantou a plenos pulmões, transformando a música em um daqueles momentos coletivos que dificilmente podem ser reproduzidos fora de um show. A cena também dizia muito sobre a longevidade da composição e sobre a maneira como ela ultrapassou o próprio contexto em que foi originalmente lançada.
Veronica Bordacchini foi a convidada seguinte. Em “Spread Your Fire”, a soprano italiana, conhecida mundialmente por seu trabalho no Fleshgod Apocalypse, acrescentou uma dimensão operística à apresentação. Sua voz possui projeção suficiente para ocupar o espaço sem desaparecer diante da banda, característica essencial para uma música que exige justamente esse contraste entre força instrumental e interpretação lírica. Em “Ode to Art (de’ Sepolcri)”, Veronica permaneceu sozinha no palco e teve espaço para demonstrar toda essa potência vocal. Quando voltou ao lado de Edu para “Mi’raj”, o encontro entre os dois timbres produziu um dos momentos mais grandiosos da noite.
Pouco depois, Dino Jelusick entrou em cena. O croata construiu uma carreira que passa por Animal Drive, Trans-Siberian Orchestra, Whom Gods Destroy e Whitesnake, além de ter começado profissionalmente ainda criança e vencido a primeira edição do Junior Eurovision Song Contest. Em 2021, foi convidado por David Coverdale para integrar o Whitesnake. Em “Heroes of Sand”, sua participação ao lado de Edu mostrou imediatamente por que sua voz se encaixava tão bem naquele repertório. Dino possui potência, alcance e uma identidade vocal muito própria, mas também demonstra facilidade para transitar entre diferentes estilos. Em “Stand Up and Shout”, do Dio, essa característica ficou especialmente evidente, enquanto “Here I Go Again”, do Whitesnake, acrescentou uma camada simbólica à participação, considerando sua própria passagem pela banda.
“Pegasus Fantasy” trouxe novamente o universo de Os Cavaleiros do Zodíaco para o centro da apresentação, mas dessa vez de maneira completamente coletiva. O público assumiu a música com uma familiaridade impressionante, transformando a execução em um dos grandes momentos de participação da noite. Depois de tantas músicas ligadas à trajetória do próprio Edu, era interessante perceber como aquela canção também havia se tornado parte da memória de quem estava do outro lado do palco.
Ainda faltava, porém, um dos reencontros mais importantes da noite. “Rebirth” começou e, pouco depois, Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli voltaram ao palco. Edu, Rafael e Felipe reunidos novamente para tocar Angra. A imagem carregava um peso histórico evidente. Os três músicos pertencem a um período fundamental da trajetória da banda e do próprio metal brasileiro, e vê-los novamente juntos era uma oportunidade rara de observar, no mesmo espaço, diferentes capítulos de uma história que ajudou a formar gerações de músicos e fãs.
Quando “Nova Era” veio na sequência, essa dimensão ficou ainda mais clara. A música pertence a um repertório que ultrapassou as fronteiras do Brasil e se tornou referência para uma geração inteira de músicos de metal. Ao longo das quase três horas de show, ficou evidente que ele não estava tentando reconstruir o passado exatamente como ele foi. A própria estrutura da apresentação mostrava outra intenção. Antigos companheiros dividiam espaço com músicos de gerações mais recentes; músicas do Angra apareciam ao lado de composições de MI’RAJ; referências ao Symbols conviviam com O Teatro Mágico, Fleshgod Apocalypse, Dio, Whitesnake e Cavaleiros do Zodíaco. O passado aparecia o tempo todo, mas sempre reorganizado a partir do artista que Edu é hoje.
Essa disposição também aparecia na própria postura do cantor. Edu passou o show inteiro em movimento, correndo pelo palco, interagindo com a plateia, brincando com os músicos e mantendo uma energia impressionante mesmo diante de um repertório extenso e fisicamente exigente. Não havia a sensação de alguém cumprindo uma obrigação comemorativa, pelo contrário, havia prazer evidente em revisitar aquelas músicas e dividir o palco com pessoas que fizeram parte de diferentes momentos de sua vida profissional.
Ao deixar o Tokio Marine Hall, a impressão que ficou foi a de ter acompanhado uma celebração de carreira construída a partir de encontros reais. Havia nostalgia, evidentemente, mas também havia espaço para o presente e para aquilo que ainda está sendo construído. Edu revisitou músicas fundamentais de sua trajetória, reencontrou músicos que fizeram parte dela, apresentou ao público uma formação atual extremamente competente e mostrou que seu legado não está restrito a um período específico.
Talvez seja justamente aí que esteja a força de The Legacy Tour. O espetáculo olha para trás sem transformar o passado em uma prisão. As histórias continuam sendo revisitadas, mas agora convivem com novas parcerias, novas músicas e novas possibilidades. No palco do Tokio Marine Hall, 35 anos de carreira foram apresentados como uma obra ainda em movimento. E, depois de quase três horas, a sensação era de que aquela história ainda está longe de terminar.
E que sorte a nossa por isso!
Texto: Stephanie Ferreira
Fotos: Roberto Sant'Anna
Realização: Agência Artística
Press: TRM Press
Edu Falaschi – setlist:
Watchers of the Light
Ego Painted Grey
Eyes in Flames
Echoes of Vows
Running Alone
Eyes of Time
Lease of Life
The Ancestry
Unchained
A Monster in Her Eyes
Leaving the Light
Arising Thunder
Land Ahoy / Eldorado
The Voice Commanding You
Sintaxe à vontade / Da luta
Intuição
Birds of Prey
Bleeding Heart
Spread Your Fire
Ode to Art (de' Sepolcri)
Mi'raj
Heroes of Sand
Stand Up and Shout (Dio cover)
Here I Go Again (Whitesnake cover)
Pegasus Fantasy
Rebirth
Nova Era





















