segunda-feira, 4 de maio de 2026

Here I Am: Uma estreia que ecoa grandeza (Also In English)

Por Flavio Borges 

Com Synergy, a Here I Am entrega um debut ambicioso, que transita com segurança entre o metal moderno, o progressivo e o power metal melódico, sustentado por uma proposta estética ousada: a utilização de uma mixagem 3D que amplia a espacialidade sonora e transforma a audição — sobretudo em fones — em uma experiência imersiva. A participação de Jeff Scott Soto na abertura e no encerramento não é apenas um chamariz de peso, mas também um elemento que reforça a dimensão épica que permeia o álbum. 

Com os singles “Hear Me” e “Gone Too Soon” já funcionando como cartões de visita, o grupo se posiciona como um nome promissor dentro do metal nacional contemporâneo.

A introdução “Intro – Dreams” cumpre seu papel com eficiência, evocando a tradição do gênero através de uma narração solene que prepara o terreno para a jornada sonora. Na sequência, “Eternal” mergulha de vez no território progressivo, com mudanças constantes de andamento e uma arquitetura musical dinâmica. As influências de André Matos são perceptíveis na condução vocal, mas longe de soar derivativo — há identidade nas escolhas de timbre e nas linhas melódicas.

“Eyes of Tomorrow” apresenta uma construção mais orgânica, partindo de uma introdução delicada ao piano até atingir um refrão direto e eficaz. Apesar de um leve excesso de informação na transição inicial, a faixa se estabiliza e contribui para consolidar a coesão do álbum, destacando-se pelos backings bem trabalhados e pelo equilíbrio entre peso e melodia.

Já “Gone Too Far” revela uma faceta mais acessível da banda. Com estrutura próxima de uma power ballad, a música privilegia emoção e ambiência, com destaque para as linhas de baixo e o diálogo entre guitarra e teclado. Há aqui uma aproximação com o hard rock melódico, mostrando versatilidade sem comprometer a identidade.

“Hear Me” retoma o peso com uma abordagem moderna e cadenciada. A faixa aposta em contrastes rítmicos — inclusive dentro do próprio refrão — criando uma dinâmica interessante, ainda que potencialmente desafiadora para o ouvinte casual. O arranjo é sofisticado, e a mudança de atmosfera após o solo vocal reforça a ambição composicional do grupo.

“I Will Rise” é, talvez, o momento mais emblemático da vertente progressiva do álbum. Estruturalmente complexa, a música equilibra técnica e impacto, com variações de andamento bem executadas e um refrão que funciona como âncora emocional. O desfecho instrumental reforça a vocação da banda para composições mais elaboradas.

Em “Side by Side”, a banda desacelera para entregar uma power ballad de forte carga emocional. A combinação de violão, piano e camadas de guitarra constrói uma atmosfera densa e envolvente. O desempenho vocal de Eric Bruce é particularmente expressivo aqui, alcançando momentos de grande intensidade sem perder o controle técnico.

“Starry Skies (Deep Scars)” retoma a proposta híbrida do álbum com ainda mais clareza. Alternando entre passagens melódicas e trechos de alta complexidade, a faixa evidencia a capacidade da banda de transitar entre acessibilidade e sofisticação. Em certos momentos, há ecos do Helloween da fase Gambling with the Devil, especialmente na forma como melodia e peso coexistem de maneira equilibrada.

O encerramento com “Rise Ahead (More Than a Dream)” aposta novamente na teatralidade, com a presença de Jeff Scott Soto conduzindo um final que amarra conceitualmente o álbum. A citação do nome da banda como último elemento sonoro funciona como assinatura e reforça o senso de identidade do projeto.

No conjunto, Synergy é um trabalho que impressiona pela ambição e pelo cuidado nos detalhes. Ainda que em alguns momentos a complexidade possa soar excessiva, há aqui uma banda que claramente entende suas influências e busca expandi-las com personalidade. Um debut que não apenas apresenta, mas afirma — e que sugere um futuro extremamente promissor.

***ENGLISH VERSION***

With Synergy, Here I Am deliver an ambitious debut that confidently navigates between modern metal, progressive textures and melodic power metal, all anchored by a bold aesthetic choice: a 3D mix designed to enhance spatial depth and turn the listening experience — particularly on headphones — into something genuinely immersive. The involvement of Jeff Scott Soto on both the opening and closing tracks is more than just a high-profile feature; it reinforces the epic scope that runs throughout the album. 

With “Hear Me” and “Gone Too Soon” already serving as effective calling cards, the band positions itself as a compelling new force within the contemporary Brazilian metal scene.

The opening “Intro – Dreams” does exactly what it should, drawing from genre tradition with a solemn narration that sets the stage for what follows. “Eternal” then dives headfirst into progressive territory, driven by shifting tempos and a dynamic compositional framework. The influence of André Matos is evident in the vocal delivery, yet it never feels derivative — there’s a clear sense of identity in both timbral choices and melodic phrasing.

“Eyes of Tomorrow” unfolds more organically, moving from a delicate piano-led introduction into a direct and effective chorus. While the transition into the heavier section feels slightly overcrowded, the track quickly finds its footing, contributing to the album’s cohesion with well-crafted backing vocals and a balanced interplay between melody and weight.

“Gone Too Far” showcases a more accessible side of the band. Structured as a near power ballad, it leans into atmosphere and emotional resonance, with notable bass work and an engaging guitar–keyboard interplay. There’s a subtle nod to melodic hard rock here, highlighting the band’s versatility without diluting its core identity.

“Hear Me” brings the heaviness back with a modern, groove-driven approach. Its use of rhythmic contrasts — even within the chorus itself — creates an intriguing dynamic, though it may challenge less attentive listeners. The arrangement is sophisticated, and the post-solo shift in atmosphere underscores the band’s compositional ambition.

“I Will Rise” stands as one of the album’s defining progressive statements. Structurally intricate, it balances technicality with impact, featuring well-executed tempo changes and a chorus that anchors the track emotionally. Its instrumental closing passage further emphasizes the band’s aptitude for more elaborate songwriting.

With “Side by Side”, the band slows things down for a deeply emotive power ballad. Acoustic guitar, piano and layered electric textures build a rich and immersive soundscape. Eric Bruce delivers one of his strongest vocal performances here, reaching impressive heights without sacrificing control.

“Starry Skies (Deep Scars)” brings the album’s hybrid approach into sharper focus. Shifting between melodic passages and high-complexity sections, it highlights the band’s ability to balance accessibility with sophistication. At times, there are echoes of Helloween during their Gambling with the Devil era, particularly in the seamless coexistence of melody and heaviness.

The closing track, “Rise Ahead (More Than a Dream)”, leans once again into theatricality, with Jeff Scott Soto guiding a finale that neatly ties the album together. The final mention of the band’s name acts as a signature moment, reinforcing the project’s sense of identity.

Taken as a whole, Synergy is an impressive and meticulously crafted debut. While its complexity may occasionally verge on excess, this is clearly a band that understands its influences and strives to push beyond them with purpose. A debut that doesn’t just introduce — it asserts — and points toward a highly promising future.

Divulgação 


sábado, 2 de maio de 2026

Cobertura de Show: Smith/Kotzen – 24/04/2026 – Tork N' Roll/CWB

Smith/Kotzen estreia no Brasil e conquista Curitiba com classe e talento

Finalmente, uma sexta-feira com peso e majestade em Curitiba, foi no dia 24 de abril de 2026, com a primeira apresentação do projeto Smith/Kotzen no Brasil. Além de Curitiba, a banda também se apresentará em outras cidades, inclusive no festival Bangers Open Air em São Paulo. E para aqueles que não poderão comparecer ao festival, nada melhor do que um espetáculo com músicos experientes "em casa".

A noite prometia, afinal: falem o que falar, tratava-se de Adrian Smith (Iron Maiden) em Curitiba, o saudosismo dos fãs acaba ganhando o espaço. Entretanto, não tem como ignorar o imponente Richie Kotzen, que deu show de simpatia e talento, sem falar que é um músico que marcou gerações no Mr. Big e ainda nos emocionou no primeiro Bangers Open Air (ainda com o nome SummerBreeze Brasil) em 2023, com o Winery Dogs, ao lado de Mike Portnoy (Dream Theater).

Além disso, para completar o grupo, temos a baixista Julia Lage (Vixen) e Bruno Valverde (Angra) nas baquetas. Importante ressaltar a dinâmica da banda com Julia, que fazia a ponte perfeita entre as duas lendas, esbanjando carisma com troca de olhares e gestos com o público e o conterrâneo brasileiro Bruno.

Novamente, no Tork N' Roll foi noite de uma banda só, com horário de início às 21h, seguido quase à risca, com um mínimo atraso de 10 minutos. O local estava com bastante público, mas longe da lotação máxima, o que deixou o evento mais confortável, sem filas, ar-condicionado perfeito, sem empurrões, ninguém "passando dos limites na bebida", enfim, um público bem "britânico", ou melhor, "curitibano". A faixa etária era claramente composta de pessoas acima dos 35 anos, com predominância de camisetas do Iron Maiden desfilando na passarela do Tork, salvo alguns que adquiriram as camisetas Smith/Kotzen, que, permitam-me dizer, eram muito elegantes e de bom gosto.

Todos prontos? Vamos para o Smith/Kotzen, que sobe ao palco um pouco desajeitado, mas acredito que ninguém percebeu, nem faria alguma diferença mesmo. A noite começa com ansiedade da pista premium e com a execução tímida de "Life Unchained", seguida sem pausa por "Black Light" e "Wraith". Aos poucos os músicos foram ficando mais à vontade para conversar com o público, mas não tem como negar o jeito mais inglês de Adrian Smith, se comparado com o jeito descontraído de Kotzen, que brilhou muito nesta noite de sexta.

A interação entre os músicos era perfeita, tornando o espetáculo em um show de técnica. As guitarras de Adrian sempre foram perfeitas, mas é inegável que ganham um "plus" quando acompanhadas do vocal nostálgico de Richie, além do toque especial do baixo de Julia, sempre movimentando-se de um lado para outro. Por fim, com o grande Bruno Valverde, o nó fecha perfeitamente em um hard rock de excelente qualidade, riffs precisos, solos eloquentes e composições emocionadas. Este projeto já nasceu para o sucesso e passou no teste com louvor, pois o público curitibano enfim rendeu-se totalmente à dupla.

Ponto alto da noite para a execução de "Hate and Love", momento em que o público realmente "esquenta", euforia em "Scars" e "Running", tocada com muita emoção. Quase no final da apresentação, fomos presenteados com a belíssima "You Can't Save Me", com total devoção por parte de Kotzen. E para finalizar a noite, eis que surge a emblemática "Wasted Years", cantada bem ao estilo Adrian Smith, mas que deixou todos ali presentes em êxtase, palavra que define perfeitamente os Iron "maníacos" chorando a plenos pulmões, e sim, foi lindo!

E por fim, vou terminar com uma frase que ouvi muito durante toda a noite: "Ahh, mas é o Adrian Smith né!!!", referindo-se ao guitarrista, que dificilmente consegue desvincular sua figura de qualquer outro nome, por mais brilhante que seja o Smith/Kotzen.  




Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Opus Entretenimento 


Smith/Kotzen – setlist:

Life Unchained

Black Light

Wraith

Glory Road

Hate and Love

Blindsided

Taking My Chances

Outlaw

Darkside

Got a Hold on Me

White Noise

Scars

Running

You Can't Save Me

(Richie Kotzen solo)

Wasted Years

Cobertura de Show: In Flames – 23/04/2026 – Audio/SP

Após três anos sem pisar em solo brasileiro, o In Flames retorna como um dos headliners do Bangers Open Air. A fim de aproveitar a passagem, os suecos agendaram igualmente uma série de apresentações solo para divulgar seu último álbum, Foregone, de 2023, com duas datas em São Paulo e uma em Curitiba. 

Com uma carreira plenamente consolidada, o grupo é considerado um dos pilares que definiram os tropos do Gothenburg Sound, a icônica mescla de Death Metal com elementos melódicos. Diferentemente de outros conterrâneos, eles jamais tiveram medo de arriscar; ao longo dos anos, adotaram um caminho artístico mais alternativo, optando por uma produção límpida e moderna, somando vocais limpos a batidas eletrônicas, sem jamais negligenciar o peso e a melodia. Talvez seja por essa razão que o último trabalho funcione tão bem, buscando um retorno às raízes sem renegar toda a sua trajetória de experimentações.

A abertura ficou sob a responsabilidade do Throw To The Wolves, banda paulista que busca espaço para difundir também seu death metal melódico. Pontualmente no palco às 20h, os "lobinhos" (como se autodenominam) tinham a árdua tarefa de animar o público paulista em uma noite de quinta-feira. 

Com a casa ainda recepcionando os espectadores, o show ocorreu para uma pequena e mansa alcateia, termo utilizado por eles para designar os fãs. Apesar disso, entregaram uma performance muito profissional e consistente para os presentes. 

Cerca de meia hora depois, foi o momento de a atração principal subir ao palco. Devido à semana repleta de eventos em São Paulo, os entusiastas do metal precisaram realizar escolhas. Compareceu um público relativamente moderado, o qual, entretanto, agitou e se fez ouvir desde o início da apresentação com a clássica Pinball Map, fazendo os admiradores da fase inicial sorrirem de orelha a orelha. 

No decorrer da noite, foram apresentadas composições pesadas de várias épocas, focando sobretudo nas mais recentes. Tal foco não representou um problema, visto que, em Deliver Us, a plateia cantou como se fosse a última oportunidade de vê-los ao vivo; já em State of Slow Decay, faixa do disco mais atual, o coro e os mosh pits confirmaram seu status de clássica. O ápice foi a trinca composta por Cloud Connected, Trigger (ambas do Reroute to Remain, obra que dividiu opiniões por trazer elementos novos) e Only for the Weak, da fase mais tradicional. O bloco tirou o fôlego de todos, levando ao bate cabeça enquanto entoaram a silaba de cada canção.

Vale ressaltar que a performance foi impecável; os veteranos Anders Fridén (vocais) e Björn Gelotte (guitarra) esbanjam presença e carisma. Eles brincam e dialogam com os fãs durante todo o set. Além disso, elogiaram muito o Brasil e agradeceram pelo imenso carinho dos brasileiros. Com o espetáculo se aproximando do fim, a energia diminuiu levemente, apenas para explodir novamente na derradeira canção, Take This Life, encerrando com chave de ouro uma excelente passagem dos suecos.



Fotos: Pri Secco

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 





Throw Me to the Wolves – setlist: 

Chaos

Tartarus

Days of Retribution

Fragments

Awakening My Demons

Gates of Oblivion

Gaia


In Flames – setlist: 

Pinball Map

The Great Deceiver

Deliver Us

The Quiet Place

In the Dark

Voices

Cloud Connected

Trigger

Only for the Weak

Meet Your Maker

State of Slow Decay

Alias

The Mirror's Truth

I Am Above

Take This Life

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Lyra Echo: Novo Vídeo do Projeto de Alex Voorhees Tem Lançamento Oficial Neste Dia Internacional do Trabalho

 


O futuro não é dado, é tomado! O poder retornando ao povo! É o brado que ecoa neste dia 1° de maio, lançamento oficial do novo vídeo e single de Lyra Echo, a mais subversiva criação do mastermind Alex Voorhees (Imago Mortis).

Neste novo vídeo, a alienígena Lyra Echo e sua SSS, juntam-se a uma aliança rebelde mundial para o golpe final na minoria elitista, que havia tomado o poder.

Alex Voorhees 

Então sejam bem-vindos à 2041, e nesse futuro distópico, com trilha Cyber Punk/Industrial, e com semelhanças bem próximas de nossa realidade, Lyra Echo e Cia evocam uma rebelião que urge e se insinua necessária, para que o poder retorne às mãos do povo e do trabalhador, que tudo produz e a ele tudo deve pertencer.

“É hora do reboot! Vocês estão prontos para eliminar a elite?” Conclama Lyra, e  "No Masters, No Gods, Just Admins" não é apenas uma música; é uma insurreição visual e ideológica contra os monolitos corporativos do futuro.

"Bilionários constroem bunkers, trabalhadores constroem o futuro. Feliz 1º de Maio — o dia do System Override!"


O Capitalismo fracassou. O Tecno feudalismo que surgiu de suas cinzas — com sua servidão digital e seus "Lordes" bilionários — acaba de ser deletado. 

"Enquanto a elite se esconde como ratos em seus super-bunkers reforçados, achando que o concreto pode parar uma revolução, nós estamos retomando a superfície. Hoje, no Dia Internacional do Trabalhador, lançamos a arma sônica que quebra as correntes: meu novo single 'No Masters, No Gods, Just Admins.' " 🎸💻


"Os 'Aliados Interestelares' que o sistema tanto temia? Somos nós. Lyra Echo e o Trio SSS - chegamos para garantir que o reboot seja total. E não viemos sós: o lendário Carlos Lopes (Dorsal Atlântica) retorna para triturar a trilha sonora da insurreição, enquanto o guerreiro tático Carlos Garcia (CG), do Road to Metal, rompe os últimos firewalls."


A era dos "Dunos" acabou. O acesso Root foi concedido ao povo. 🛸✊

Saiba mais sobre Lyra Echo no canal oficial do YouTube  

Música e Ficção (mas nem tanto) se unem neste projeto, que une a tecnologia e a mente humana. 

Ouça no SoundCloud 
Siga no Instagram 




Sobre o projeto e o criador:

Lyra Echo é uma personagem criada por Alex Voorhees, mais conhecido por ser vocalista do Imago Mortis. Alex é também produtor e compositor.

Lyra é uma alienígena híbrida, a tecnologia de seu povo lhe permite viajar pelo espaço tempo. Assim como seu povo, é uma obstinada pela luta contra desigualdades e quaisquer atos nocivos contra o meio ambiente.

As imagens são geradas por IA a partir dos roteiros criados por Alex, e as músicas compostas por ele, inclusive linhas vocais, as quais são alteradas depois para dar vida aos vocais da personagem.


quinta-feira, 30 de abril de 2026

Lynch Mob: Despedida crua, alto e sem concessões (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Poucos nomes no hard rock carregam um legado tão distintivo quanto o de George Lynch — e The Final Ride chega como o capítulo derradeiro dessa história, capturando o Lynch Mob em sua despedida dos palcos com a intensidade e a crueza que sempre definiram sua identidade. Mais do que um simples registro ao vivo, o álbum funciona como uma celebração definitiva de uma carreira marcada por riffs icônicos, atitude e uma abordagem visceral ao gênero.

Construído com precisão quase curatorial, o setlist percorre diferentes fases da trajetória de Lynch, equilibrando o peso fundacional de Wicked Sensation (1990) com recortes de momentos distintos da banda, incluindo o álbum homônimo de 1992 e trabalhos mais recentes como Babylon (2023) e Dancing with the Devil (2025). O resultado é uma narrativa sonora que evita a nostalgia fácil, optando por uma retrospectiva dinâmica e coerente.

A inclusão de clássicos da era Dokken — “Lightning Strikes Again”, “It’s Not Love” e “Paris Is Burning” — não soa como mero fan service, mas como parte essencial da construção estética de Lynch. Essas faixas reforçam seu papel como um dos arquitetos do hard rock oitentista, ao mesmo tempo em que ganham nova vida em um contexto mais cru e imediato.

Gravado, mixado e masterizado por Chuck Alkazian no Pearl Sound Studios, The Final Ride aposta em uma sonoridade direta e sem excessos. Há uma escolha clara por preservar a espontaneidade do palco, evitando polimentos excessivos. O resultado é um álbum que respira — imperfeito no melhor sentido possível, com nuances que revelam a interação orgânica entre os músicos.

E, no centro de tudo, está George Lynch. Seu timbre permanece inconfundível, seu fraseado continua tão expressivo quanto sempre foi, e sua presença domina cada momento do registro. Ao seu lado, Gabriel Colon (vocais) entrega uma performance segura e energética, enquanto Jaron Gulino (baixo) e Jimmy D’Anda (bateria) formam uma base sólida, sustentando o peso e o groove com precisão e intensidade.

Para ouvintes acostumados a produções altamente polidas, a abordagem mais crua pode causar estranhamento inicial. Mas é justamente aí que reside o charme do álbum. Os improvisos, as pequenas variações nos backing vocals e a ausência de padronização rígida reforçam a sensação de algo vivo — uma performance que privilegia emoção em detrimento da perfeição técnica.

Faixa a faixa, o repertório sustenta esse espírito:

“Lightning Strikes Again” abre o set com energia renovada, mantendo seu riff cortante intacto, agora com uma pegada mais direta e menos domesticada. “River Of Love” surge como um dos momentos mais acessíveis, com groove robusto e forte apelo melódico, enquanto “No Good” aprofunda o lado mais pesado e sujo da banda.

A fase recente aparece bem representada em “Caught Up”, que equilibra modernidade e identidade clássica, enquanto “Hell Child” entrega hard rock em estado bruto, sem concessões. Já “Let The Music Be Your Master” evidencia uma maturidade composicional maior, trazendo nuances mais refinadas ao repertório.

O bloco dedicado ao Dokken mantém o nível elevado: “Time After Time” preserva sua carga emocional, “Paris Is Burning” explode com agressividade renovada, e “It’s Not Love” segue como um hino irresistível, com refrão que ainda ressoa com força.

Entre os destaques, “Rain” funciona como um respiro atmosférico bem colocado, enquanto a versão de “Street Fighting Man” adiciona peso e atitude à clássica dos Rolling Stones, reinterpretada sob a ótica do hard rock.

O encerramento com “Wicked Sensation” é tão simbólico quanto inevitável. Mais do que uma escolha óbvia, trata-se de um statement — uma reafirmação final de tudo o que definiu o Lynch Mob: riffs memoráveis, groove pulsante e uma entrega carregada de personalidade.

No fim das contas, The Final Ride não tenta reinventar o legado da banda — e nem precisa. Em vez disso, opta por algo mais honesto: capturar o Lynch Mob exatamente como ele sempre foi. Alto, cru e absolutamente autêntico.

***ENGLISH VERSION***

Few names in hard rock carry a legacy as distinctive as George Lynch’s — and The Final Ride arrives as the closing chapter of that story, capturing Lynch Mob’s farewell to the stage with all the grit and intensity that have always defined them. More than just a live album, this feels like a definitive statement: a raw, unfiltered celebration of a career built on iconic riffs, attitude and sheer musical personality.

Carefully curated without ever feeling calculated, the setlist moves fluidly across different eras of Lynch’s career. There’s a strong backbone drawn from Wicked Sensation (1990), still the cornerstone of the band’s identity, complemented by selections from the 1992 self-titled release and later material such as Babylon (2023) and Dancing with the Devil (2025). Rather than leaning on nostalgia, the album presents a well-balanced retrospective that feels alive and purposeful.

The inclusion of Dokken staples — “Lightning Strikes Again”, “It’s Not Love” and “Paris Is Burning” — goes far beyond crowd-pleasing obligation. These tracks are integral to Lynch’s musical DNA, and here they’re reintroduced with a tougher, more immediate edge that reinforces his status as one of the key architects of ’80s hard rock.

Recorded, mixed and mastered by Chuck Alkazian at Pearl Sound Studios, The Final Ride deliberately avoids excessive polish. Instead, it leans into a stripped-down, organic sound that prioritizes the feel of a real performance. The result is refreshingly unvarnished — a live album that breathes, with all the subtle imperfections that make it genuinely engaging.

At the center of it all is George Lynch himself. His tone remains unmistakable, his phrasing as expressive as ever, and his presence dominates every corner of the record. Frontman Gabriel Colon delivers a confident and energetic performance, while Jaron Gulino (bass) and Jimmy D’Anda (drums) provide a tight, powerful backbone that keeps everything grounded and driving forward.

Listeners accustomed to hyper-polished modern productions might initially find the rawness surprising. But that’s precisely the point. The looseness, the shifting backing vocals and the moments of improvisation all contribute to a sense of authenticity — this is a band playing in the moment, not chasing perfection but channeling energy and feel.

Track by track, that spirit holds strong.

“Lightning Strikes Again” kicks things off with renewed urgency, its razor-sharp riff intact but delivered with a rougher, more aggressive edge. “River Of Love” stands out as one of the more accessible moments, built on a thick groove and strong melodic pull, while “No Good” dives into heavier, dirtier territory, showcasing the band’s grittier side.

More recent material is represented by “Caught Up”, which balances modern touches with classic sensibility, while “Hell Child” delivers straight-up, no-frills hard rock. “Let The Music Be Your Master” hints at a more mature songwriting approach, adding subtle layers to the overall dynamic.

The Dokken segment remains a clear highlight: “Time After Time” retains its emotional weight, “Paris Is Burning” erupts with renewed aggression, and “It’s Not Love” still lands as an undeniable anthem, its chorus as effective as ever.

Elsewhere, “Rain” provides a well-placed atmospheric breather, while the band’s take on “Street Fighting Man” injects The Rolling Stones classic with a heavier, more defiant attitude without losing its essence.

Closing with “Wicked Sensation” feels both inevitable and entirely fitting. It’s more than just a finale — it’s a statement piece, bringing together everything that defines Lynch Mob: groove, power and unmistakable character.

In the end, The Final Ride doesn’t attempt to rewrite the band’s legacy — it simply captures it as it is. Loud, raw and unapologetically real.

Frank Lopez

terça-feira, 28 de abril de 2026

ShadowBorne: Forjado na Tempestade (Also In English)

Scarlet Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Inspirado por uma estética de fantasia sombria e narrativa épica, o Shadowborne apresenta em Heaven’s Falling um debut que dialoga diretamente com os pilares do power metal europeu, combinando peso, melodias marcantes e uma abordagem cinematográfica. O álbum constrói uma identidade que equilibra tradição e contemporaneidade, explorando temas como honra, ambição e destino sob uma ótica emocionalmente acessível.

A abertura com “Winter Is Coming (Heims Advenit)” cumpre o papel clássico de introdução atmosférica, apoiando-se em orquestrações sintéticas e corais que estabelecem o tom grandioso do trabalho. Na sequência, “High And Low” apresenta o núcleo sonoro da banda: power metal melódico tradicional, com forte apelo em refrões e arranjos que remetem diretamente às referências clássicas do gênero. É também o primeiro contato efetivo com os vocais de Eira Shadowborne, que rapidamente se consolidam como um dos principais trunfos do álbum.

“Wolf And The Queen” amplia o espectro sonoro ao incorporar elementos de hard rock oitentista, tanto na escolha de timbres quanto na construção das melodias. A faixa evidencia versatilidade sem comprometer a coesão do disco, enquanto “Custodians” retoma o eixo do metal melódico com influências perceptíveis de bandas como Judas Priest, especialmente na condução vocal e na estrutura mais direta do refrão.

A metade do álbum mantém consistência ao alternar entre abordagens mais modernas e momentos ancorados na tradição. “Hold The Door” exemplifica essa dinâmica ao trazer uma produção mais carregada de efeitos e texturas eletrônicas, sem abrir mão da base melódica. Já a faixa-título, “Heaven’s Falling (Dragons’ Hymn)”, funciona como um manifesto estético: refrões expansivos, condução por teclados e mudanças de andamento que reforçam o caráter épico — elementos centrais do power metal em sua forma mais clássica.

Na reta final, “Stranger To Myself” e “The Wall” reforçam o apelo melódico do álbum, com arranjos densos e refrões de forte impacto, evocando nomes consagrados do gênero. “Raven”, por sua vez, introduz uma atmosfera mais dramática e contemporânea, aproximando-se de uma abordagem mais teatral, com destaque para as camadas vocais e a construção dinâmica.

O encerramento com “End Of The World” aposta na fórmula da power ballad, equilibrando peso e sensibilidade, e evidenciando a versatilidade interpretativa de Eira, que transita com segurança por diferentes nuances vocais.

Heaven’s Falling se apresenta, assim, como um debut sólido e bem direcionado, que respeita as convenções do estilo ao mesmo tempo em que busca pequenas variações dentro de sua proposta. Mais do que um exercício de reverência, o álbum sugere potencial de desenvolvimento e consolida o Shadowborne como um nome promissor dentro do power metal contemporâneo.

***ENGLISH VERSION***

Drawing from a dark fantasy aesthetic and epic storytelling, Shadowborne’s debut album Heaven’s Falling firmly positions the band within the traditions of European power metal while embracing a cinematic and contemporary edge. The record balances weight, melody, and atmosphere with a clear sense of identity, exploring themes of honor, ambition, and destiny through an emotionally resonant lens.

The opening track, “Winter Is Coming (Heims Advenit)”, serves as a classic scene-setter, built on synthetic orchestration and choral arrangements that establish the album’s grandiose tone. It flows seamlessly into “High And Low”, where the band lays out its core sound: melodic, traditional power metal driven by strong hooks and a keen sense of structure. This is also the first full introduction to Eira Shadowborne’s vocals, which quickly emerge as one of the album’s defining strengths.

“Wolf And The Queen” broadens the sonic palette by incorporating elements of ‘80s hard rock, particularly in its tonal choices and melodic phrasing. It’s a refreshing detour that showcases the band’s versatility without disrupting the album’s cohesion. “Custodians” pulls things back toward melodic metal territory, with noticeable nods to acts like Judas Priest, especially in its vocal delivery and more straightforward chorus approach.

The album’s midsection maintains consistency while shifting between modern touches and genre tradition. “Hold The Door” leans into a more contemporary production style, layering electronic textures over a solid melodic backbone. In contrast, the title track “Heaven’s Falling (Dragons’ Hymn)” stands as a clear statement of intent: soaring choruses, keyboard-driven arrangements, and dynamic shifts that encapsulate the essence of classic power metal.

In the latter half, “Stranger To Myself” and “The Wall” reinforce the album’s melodic appeal with dense arrangements and impactful choruses, echoing the legacy of established genre acts. Meanwhile, “Raven” introduces a more dramatic and modern atmosphere, with a slightly theatrical approach highlighted by layered vocals and dynamic progression.

Closing track “End Of The World” follows the power ballad tradition, blending heaviness with emotional depth while allowing Eira to showcase impressive vocal versatility, moving confidently across different stylistic nuances.

Heaven’s Falling ultimately stands as a confident and well-crafted debut. While it remains rooted in the conventions of the genre, it introduces enough variation to suggest room for growth. More than a tribute to power metal’s legacy, it marks Shadowborne as a promising new contender within the contemporary scene.

Divulgação