terça-feira, 1 de setembro de 2026

Flotsam and Jetsam – Quatro Décadas Depois, A Fome Continua

Napalm Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira – @instephanie

Existe uma espécie de injustiça histórica na trajetória do Flotsam and Jetsam. Uma banda que ajudou a moldar o thrash metal norte-americano, lançou um dos grandes discos do gênero em 1986 e ainda assim passou boa parte da carreira sendo apresentada ao público pelo nome de um ex-baixista que deixou o grupo para entrar no Metallica.

Quarenta anos depois, talvez seja finalmente possível deixar essa história para trás. Rats in the Temple, lançado em 28 de agosto de 2026 pela Napalm Records, é o 17º álbum de estúdio do Flotsam and Jetsam e encontra Eric “A.K.” Knutson, Michael Gilbert, Steve Conley, Bill Bodily e Ken Mary em uma fase particularmente interessante.

O disco chega apenas dois anos depois de I Am the Weapon, mas não soa como uma banda simplesmente cumprindo a obrigação de colocar mais um álbum na discografia. Pelo contrário: existe uma sensação de fome aqui.

E a primeira coisa que chama atenção é que o Flotsam and Jetsam não tenta esconder sua idade. Eric A.K. não possui mais aquele registro quase sobrenatural dos primeiros anos,  e seria estranho esperar que tivesse. Em compensação, sua voz ganhou uma aspereza que combina perfeitamente com o material. As guitarras de Michael Gilbert e Steve Conley estão mais musculosas, Ken Mary conduz as músicas com uma bateria extremamente precisa e Bill Bodily dá ao conjunto um peso que aparece principalmente quando a banda diminui o andamento.

O resultado é um álbum que olha para o thrash dos anos 1980, mas não quer morar nele. Há power metal, heavy metal tradicional, groove, momentos quase progressivos e, pela primeira vez de maneira realmente perceptível na história recente da banda, elementos sinfônicos e orquestrais.

Mais importante: quase tudo isso funciona.


1. “Harvesting the Hate”

A faixa começa criando expectativa antes de liberar a bateria e as guitarras. É uma introdução que poderia facilmente funcionar como abertura de show, e isso não é coincidência: Eric A.K. revelou que o grupo vem pensando justamente em elementos que possam funcionar também como introduções ao vivo.

Quando Ken Mary finalmente entra, a sensação é de que alguém abriu uma comporta. O riff tem aquela combinação de thrash e heavy metal tradicional que sempre esteve na identidade da banda, mas a produção deixa tudo mais encorpado. A bateria não está simplesmente acompanhando a guitarra; ela empurra a música o tempo inteiro.

E então entra Eric. A voz está mais grave e áspera do que no passado, mas continua capaz de alcançar notas altas com uma autoridade impressionante. O refrão é grande, quase de arena, e cria um contraste interessante com os versos mais agressivos.

2. “Damnation”

Se a primeira faixa apresenta o lado épico do álbum, “Damnation” volta imediatamente para o thrash. O riff de abertura é mais direto, e a música trabalha com uma estrutura que parece muito mais interessada em fazer a cabeça balançar do que em criar atmosfera.

A banda intercala os ataques com momentos em que o andamento ganha um caráter mais cadenciado, fazendo com que o refrão pareça ainda maior quando retorna. O resultado é um thrash mais adulto, mais consciente de como utilizar dinâmica.

3. “Absolution”

“Absolution” é provavelmente uma das primeiras faixas em que fica impossível ignorar o trabalho das guitarras. Gilbert e Conley entram em uma espécie de duelo permanente de riffs, com ataques extremamente precisos e aquela sonoridade cortante característica do thrash americano.

Os riffs são secos, sincopados e cheios de pequenas mudanças que impedem que a estrutura pareça repetitiva. Existe uma preocupação técnica evidente, mas o que impressiona é que a técnica não domina a composição.

4. “Blame the Knife”

“Blame the Knife” foi uma das músicas que mais me fez prestar atenção na primeira sequência do álbum. Não necessariamente porque seja a mais rápida (e não é mesmo!), mas porque é uma das que melhor trabalham a tensão.

Existe uma atmosfera mais sombria no riff, enquanto o andamento se mantém pesado e relativamente contido. O refrão é bastante memorável, mas não parece deslocado do restante da composição. A melodia entra como consequência natural do riff, não como uma tentativa de tornar o thrash mais comercial.

5. “Rats in the Temple”

A faixa-título é o centro gravitacional do álbum. “Rats in the Temple” começa de maneira surpreendentemente teatral, com uma introdução orquestral que cria uma atmosfera quase apocalíptica antes de Ken Mary entrar em cena.

A bateria é um espetáculo à parte. Há uma combinação de viradas rápidas, pedal duplo e mudanças de acentuação que faz a entrada parecer maior do que a própria música. Os riffs têm uma construção mais progressiva, com mudanças de ritmo e frases que fogem um pouco da estrutura tradicional do thrash. A música também trabalha harmonias de guitarra bastante elaboradas, enquanto Eric A.K. sustenta linhas vocais longas por cima de uma base que está em constante movimento.

6. “The Ghost Behind My Door”

Se “Rats in the Temple” é o grande exercício técnico, “The Ghost Behind My Door” é a demonstração de que técnica e melodia podem coexistir. A velocidade das guitarras é absurda. Gilbert e Conley trabalham com palhetadas rápidas e harmonias que criam uma parede sonora extremamente densa, mas o refrão muda completamente a percepção da música.

7. “First on the Spike”

Depois de duas faixas mais ambiciosas, “First on the Spike” funciona quase como um retorno ao chão. É um thrash mais direto, de andamento médio, com um refrão que aparece rapidamente e fica na cabeça.

A guitarra continua cheia de detalhes, mas a composição parece mais interessada em criar um hino de mosh pit. Ken Mary também ganha bastante espaço aqui. A bateria tem uma sensação física muito forte, especialmente quando a banda entra nos trechos mais pesados.

8. “The Edge of Nowhere”

A introdução de “The Edge of Nowhere” é uma das mais curiosas do álbum. Em vez de começar imediatamente com uma parede de guitarras, a música cria tensão utilizando escalas orientais e uma atmosfera quase mística.

Por alguns segundos, parece que o disco vai entrar em outro território, mas não entra. A banda explode em um riff veloz e angular, com palm muting e ataques extremamente precisos. O contraste é justamente o que faz a faixa funcionar.

9. “Last Rites”

“Last Rites” começa quase como se o álbum estivesse respirando depois da intensidade anterior, mas a pausa dura pouco. Os riffs entram pesados, a bateria cresce e o refrão abre espaço para uma das melodias mais fortes do disco.

O trabalho do baixo também fica mais perceptível aqui, principalmente porque a produção deixa espaço para as frequências graves sem embolar o conjunto. Apesar de ter guitarras extremamente carregadas, o álbum não parece uma massa sonora indistinta. Cada instrumento tem espaço suficiente para cumprir sua função.

10. “A Taste for War”

O título pode sugerir uma música de celebração bélica, só que é justamente o contrário.

“A Taste for War” é uma das composições mais interessantes conceitualmente porque utiliza uma estrutura quase militar para falar contra a própria guerra. A bateria de Ken Mary estabelece um ritmo que lembra marcha, enquanto baixo e guitarras criam uma base pesada e repetitiva.

11. “Her Blood Your Pain”

“Her Blood Your Pain” é uma das maiores mudanças de atmosfera do álbum.

As guitarras assumem uma abordagem mais melódica, com harmonias em tonalidades menores que aproximam a música do death metal melódico europeu, mas o Flotsam não abandona o thrash. A velocidade continua presente, só que agora as melodias ocupam uma parte maior do espaço.

O resultado é uma das faixas mais atmosféricas do álbum e uma boa demonstração de como duas guitarras podem construir uma espécie de narrativa melódica.

12. “Anthem for the Broken”

“Anthem for the Broken” é o momento em que o disco transforma toda aquela agressividade em catarse.

As guitarras criam uma base pesada, a bateria empurra a música para frente e Eric canta como se estivesse falando diretamente com quem passou boa parte da vida se sentindo deslocado. É uma das faixas mais acessíveis do álbum, porque tem uma melodia que funciona.

13. “Not Goin’ Down That Way”

“Not Goin’ Down That Way” começa pesada, quase arrastada, com uma sensação de stomp que imediatamente muda a dinâmica. É uma guitarra mais seca, mais cadenciada.

A bateria acompanha esse movimento e cria uma espécie de balanço que faz a faixa parecer construída para o palco. Só depois a música começa a acelerar e revelar outras camadas. O refrão volta a trazer melodia, mas a atmosfera permanece mais sombria do que nas músicas anteriores.

É um encerramento que reúne várias das características apresentadas ao longo do disco: thrash americano, heavy metal tradicional, melodias, peso, dinâmica e aqueles pequenos elementos atmosféricos que aparecem nas introduções.

Confira a tracklist completa de Rats in the Temple:

1. Harvesting the Hate

2. Damnation

3. Absolution

4. Blame the Knife

5. Rats in the Temple

6. The Ghost Behind My Door

7. First on the Spike

8. The Edge of Nowhere

9. Last Rites

10. A Taste for War

11. Her Blood Your Pain

12. Anthem for the Broken

13. Not Goin’ Down That Way

Shane Eckert

Accept Teutonic Titans 1976-2026: 50 Anos de Metal (Also In English)

Napalm Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Uma celebração de cinco décadas de história, 19 clássicos revisitados e nada menos que 50 convidados.

Chegar aos 50 anos de carreira já seria motivo suficiente para o ACCEPT olhar para trás e celebrar uma trajetória que ajudou a moldar os alicerces do heavy metal europeu. Mas Wolf Hoffmann decidiu transformar a ocasião em algo ainda maior: reunir uma verdadeira seleção de estrelas do metal mundial para revisitar 19 composições do catálogo clássico da banda. O resultado é Teutonic Titans 1976-2026, um projeto tão ambicioso quanto inevitavelmente controverso.

A primeira pergunta diante de um álbum como este é também a mais óbvia: era realmente necessário? Afinal, estamos falando de músicas que dispensam apresentação. “Fast as a Shark”, “Balls to the Wall”, “Restless and Wild”, “Metal Heart” e tantos outros clássicos já possuem versões definitivas gravadas por uma banda que, em sua fase áurea, ajudou a estabelecer os parâmetros do heavy metal alemão e influenciou toda uma geração que viria depois. Revisitá-los significa, portanto, entrar em território particularmente perigoso: aquele em que qualquer nova versão será inevitavelmente comparada ao original.

É justamente aí que Teutonic Titans 1976-2026 encontra seu maior desafio — e, paradoxalmente, sua razão de existir.

Wolf Hoffmann não quer reconstruir o passado. Em vez disso, transforma o catálogo do ACCEPT em um grande playground para alguns dos músicos mais respeitados do rock pesado. Rob Halford, Phil Anselmo, Kirk Hammett, Mikkey Dee, Tobias Forge, Billy Corgan, K. K. Downing, Hansi Kürsch, Sebastian Bach, Jeff Scott Soto, Billy Sheehan, Bobby Blitz e tantos outros não estão aqui simplesmente para reproduzir o que já foi feito. Cada convidado imprime sua personalidade às músicas, algumas vezes de maneira evidente, outras de forma mais sutil.

A escalação é impressionante — provavelmente uma das maiores concentrações de músicos de primeira linha já reunidas em um projeto dessa natureza. O mérito está em não transformar esse desfile de estrelas em uma competição para descobrir quem rouba a cena. Pelo contrário: a diversidade das participações faz com que cada interpretação adquira identidade própria. Há vozes mais agressivas e outras mais melódicas; guitarras que aproximam determinadas faixas do thrash ou do hard rock; bateristas que acrescentam peso, velocidade e diferentes nuances à conhecida arquitetura rítmica do ACCEPT.

O resultado é deliberadamente heterogêneo. E isso é importante.

Teutonic Titans não deve ser encarado simplesmente como mais um álbum de covers. O ACCEPT está, na verdade, revisitando o próprio legado através dos olhos de músicos que foram influenciados por ele ou que, de alguma maneira, representam a evolução do heavy metal nas últimas cinco décadas.

É quase como se Wolf Hoffmann tivesse aberto os arquivos da banda e convidado seus contemporâneos, admiradores e parceiros para entrar no estúdio e dizer: agora é a vez de vocês interpretarem essas músicas. A ideia transforma o disco em algo maior do que uma simples coleção de regravações: é uma espécie de álbum tributo ao ACCEPT feito pelo próprio universo metálico que ajudou a construir.

E é nesse ponto que o projeto funciona melhor — como uma celebração coletiva do heavy metal, e não como uma tentativa de criar novas versões definitivas dessas canções.

Porque, sejamos honestos: quando Rob Halford assume “Balls to the Wall”, a curiosidade é irresistível. Quando Phil Anselmo e Kirk Hammett se encontram em “Fast as a Shark”, a combinação parece ter sido desenhada para provocar qualquer fã de metal. Tobias Forge em “Save Us” acrescenta outra camada interessante, especialmente porque a música está entre suas favoritas do catálogo do ACCEPT. São encontros que despertam imediatamente a imaginação.

Mas, passada a surpresa inicial, permanece a pergunta inevitável: quantas vezes voltaremos a essas versões quando as gravações originais continuam praticamente intocáveis?

Essa é a principal fragilidade de Teutonic Titans 1976-2026. Não existe um problema real de performance. Pelo contrário: o nível técnico é excepcional e a produção oferece peso, clareza e uma sonoridade contemporânea às gravações. A questão é outra: a necessidade artística do projeto.

E aqui existe uma oportunidade perdida particularmente curiosa. Mark Tornillo está no ACCEPT há quase duas décadas, consolidando-se como a voz da segunda grande fase da banda. Ainda assim, ele não recebe neste projeto a oportunidade de reinterpretar de maneira abrangente o repertório clássico que ajudou a manter vivo nos palcos. Diante disso, é inevitável imaginar se um novo álbum de material inédito, sucedendo Humanoid, não teria sido uma maneira mais natural — e talvez mais ousada — de comemorar cinco décadas de ACCEPT.

Há ainda outra questão. O ACCEPT não está celebrando apenas 50 anos de existência, mas 50 anos de evolução. Entretanto, Teutonic Titans concentra sua narrativa principalmente no período entre I’m a Rebel (1980) e Eat the Heat (1989), justamente a fase em que estão os clássicos que definiram a imagem internacional da banda. É uma escolha compreensível, já que esse é o repertório que melhor representa o legado que se pretende celebrar, mas também limita a dimensão histórica sugerida pelo próprio título.

Ainda assim, seria injusto avaliar o álbum apenas pelo que ele poderia ter sido.

Como celebração, funciona. Como demonstração da força do catálogo do ACCEPT, funciona ainda melhor. Há prazer genuíno em ouvir tantos músicos importantes entrando no universo criado por Wolf Hoffmann, e algumas das novas interpretações conseguem surpreender justamente porque não tentam reproduzir mecanicamente as gravações originais. Cada formação acrescenta uma pequena mudança de perspectiva, e essa variedade mantém o álbum interessante mesmo quando conhecemos cada riff, cada virada e cada refrão de memória.

Mas Teutonic Titans 1976-2026 também acaba demonstrando uma verdade talvez ainda mais importante: os clássicos do ACCEPT não precisavam de ajuda para provar sua grandeza.

Quando colocadas lado a lado com as versões originais, as novas gravações raramente conseguem substituí-las. E talvez essa nunca tenha sido a intenção. O verdadeiro mérito do projeto está em outro lugar: mostrar que, cinco décadas depois, aquelas músicas continuam capazes de reunir diferentes gerações do metal em torno dos mesmos riffs e refrãos que ajudaram a transformar o ACCEPT em uma das bandas fundamentais do gênero.

No fim, Teutonic Titans 1976-2026 é menos um novo capítulo na história do ACCEPT do que uma fotografia coletiva da importância que essa história adquiriu. É um álbum de celebração, concebido com músicos extraordinários, produzido com competência e carregado de momentos capazes de provocar um sorriso imediato em qualquer fã de heavy metal. Seu valor, porém, está mais no evento do que na necessidade de sua existência.

E está tudo bem.

Aos 50 anos, o ACCEPT já não precisa provar absolutamente nada a ninguém. Pode simplesmente convidar os amigos para uma festa, aumentar o volume dos amplificadores e revisitar algumas das músicas que ajudaram a construir o heavy metal.

Se o resultado não substitui os originais, ao menos comprova algo talvez mais importante: eles continuam vivos, relevantes e poderosos o suficiente para fazer 50 dos maiores nomes do gênero quererem tocá-los novamente.

Para uma banda que ajudou a escrever a história do metal, talvez essa seja a celebração mais apropriada de todas.


Segue um breve quem é quem neste álbum:

1. Fast as a Shark

Restless and Wild (1982)

Phil Anselmo, Kirk Hammett, Billy Sheehan, Mikkey Dee

2. Balls to the Wall

Balls to the Wall (1983)

Rob Halford, Matthias Jabs, Rex Brown, Jason Bowld

3. Aiming High

Russian Roulette (1986)

Chuck Billy, Gary Holt, David Ellefson

4. Run If You Can

Russian Roulette (1986)

Todd La Torre, Ola Englund, Chuck Garric, Roy Mayorga

5. Hellhammer

Eat the Heat (1989)

Jason McMaster, Zeuss, Phil Shouse

6. Metal Heart

Metal Heart (1985)

Dino Jelusick, Joel Hoekstra, Ava Rebekah Rahman

7. Losers and Winners

Russian Roulette (1986)

Hansi Kürsch, Paul Gilbert, Tommy Aldridge

8. Save Us

I'm a Rebel (1980)

Tobias Forge, Frank Bello, Ray Luzier

9. Up to the Limit

Balls to the Wall (1983)

John Bush, Alex Skolnick, Rudy Sarzo, Shannon Larkin

10. Wrong Is Right

Metal Heart (1985)

Ralf Scheepers, John Norum, Ken Mary

11. Starlight

Accept (1979)

Joseph Michael, Phil Demmel, Michael Cartellone

12. Fight It Back

Breaker (1981)

Mark Lopes, Bumblefoot, Billy Sheehan, Shawn Drover

13. Love Child

Balls to the Wall (1983)

Billy Corgan, David Ellefson, Tommy Aldridge

14. Breaker

Breaker (1981)

Girish Pradhan, Glen Drover, Shawn Drover

15. Demon’s Night

Russian Roulette (1986)

Bobby Blitz, Andy Sneap, David Ellefson, Ray Luzier

16. T.V. War

Russian Roulette (1986)

Joe Lynn Turner, Fredrik Åkesson, Rudy Sarzo

17. London Leatherboys

Balls to the Wall (1983)

Sebastian Bach, Rex Brown, Shawn Drover

18. Monsterman

Metal Heart (1985)

Jeff Scott Soto, Jeff Loomis, Rudy Sarzo

19. Restless and Wild

Restless and Wild (1982)

Chris Jericho, K. K. Downing, Billy Sheehan, Ray Luzier

***ENGLISH VERSION***

A celebration of five decades of history, 19 classics revisited, and no fewer than 50 special guests

Reaching the 50-year mark would be reason enough for ACCEPT to look back and celebrate a career that helped lay the foundations of European heavy metal. But Wolf Hoffmann decided to turn the occasion into something considerably bigger: bringing together a genuine all-star cast from across the metal world to revisit 19 songs from the band's classic catalogue. The result is Teutonic Titans 1976-2026, a project as ambitious as it is inevitably controversial.

The first question that comes to mind when confronted with an album like this is also the most obvious: was it really necessary? After all, these are songs that need no introduction. “Fast as a Shark”, “Balls to the Wall”, “Restless and Wild”, “Metal Heart” and so many other classics already have definitive versions recorded by a band that, at the height of its powers, helped establish the blueprint for German heavy metal and influenced an entire generation that followed. Revisiting them therefore means entering particularly dangerous territory — one where any new version will inevitably be measured against the original.

That is precisely where Teutonic Titans 1976-2026 finds its greatest challenge — and, paradoxically, its reason for existing.

Wolf Hoffmann is not trying to reconstruct the past. Instead, he turns ACCEPT's catalogue into a giant playground for some of the most respected musicians in heavy rock. Rob Halford, Phil Anselmo, Kirk Hammett, Mikkey Dee, Tobias Forge, Billy Corgan, K. K. Downing, Hansi Kürsch, Sebastian Bach, Jeff Scott Soto, Billy Sheehan, Bobby Blitz and many others are not here simply to reproduce what has already been done. Each guest brings his or her own personality to the songs, sometimes in obvious ways, sometimes more subtly.

The line-up is staggering — probably one of the greatest concentrations of first-rate musicians ever assembled for a project of this kind. The achievement, however, is that this parade of stars never becomes a competition to see who can steal the spotlight. Quite the opposite: the diversity of the guests gives each performance its own identity. There are more aggressive voices alongside more melodic ones; guitarists who push certain tracks towards thrash or hard rock; and drummers who add weight, speed and different nuances to ACCEPT's familiar rhythmic architecture.

The result is deliberately diverse. And that matters.

Teutonic Titans should not simply be regarded as another covers album. ACCEPT is, in fact, revisiting its own legacy through the eyes of musicians who were influenced by the band or who, in one way or another, represent the evolution of heavy metal over the past five decades.

It is almost as if Wolf Hoffmann had opened the band's archives and invited contemporaries, admirers and musical partners into the studio to say: now it's your turn to play these songs. The idea transforms the album into something bigger than a straightforward collection of re-recordings: it becomes a kind of tribute to ACCEPT, performed by the very metal community that helped carry its influence forward.

And this is where the project works best — as a collective celebration of heavy metal, rather than an attempt to create definitive new versions of these songs.

Because, let's be honest: when Rob Halford takes on “Balls to the Wall”, the curiosity is irresistible. When Phil Anselmo and Kirk Hammett join forces on “Fast as a Shark”, the combination seems tailor-made to excite any metal fan. Tobias Forge on “Save Us” adds another intriguing dimension, particularly because the song ranks among his favourites from ACCEPT's catalogue. These are the kinds of encounters that immediately fire the imagination.

But once the initial surprise wears off, the inevitable question remains: how often will we return to these versions when the original recordings remain virtually untouchable?

That is the main weakness of Teutonic Titans 1976-2026. There is no real problem with the performances. Quite the opposite: the technical level is exceptional, while the production gives the recordings weight, clarity and a contemporary sound. The question is a different one: the artistic necessity of the project itself.

And here lies a particularly curious missed opportunity. Mark Tornillo has been ACCEPT's singer for almost two decades, firmly establishing himself as the voice of the band's second major era. Yet this project does not give him the opportunity to comprehensively reinterpret the classic material he has helped keep alive onstage. It is therefore impossible not to wonder whether a new album of original material, following Humanoid, might have been a more natural — and perhaps more adventurous — way to celebrate five decades of ACCEPT.

There is another issue worth considering. ACCEPT is not merely celebrating 50 years of existence, but 50 years of evolution. Yet Teutonic Titans focuses primarily on the period between I'm a Rebel (1980) and Eat the Heat (1989), precisely the era that produced the classics which defined the band's international image. It is an understandable choice, since this is the material that best represents the legacy being celebrated, but it also somewhat limits the historical scope suggested by the album's title.

Even so, it would be unfair to judge the album solely on what it could have been.

As a celebration, it works. As a demonstration of the strength of ACCEPT's catalogue, it works even better. There is genuine pleasure in hearing so many important musicians stepping into Wolf Hoffmann's musical universe, and some of the new interpretations manage to surprise precisely because they do not attempt to mechanically reproduce the original recordings. Each line-up offers a slight change of perspective, and that variety keeps the album engaging even when every riff, drum fill and chorus is already etched into our memories.

But Teutonic Titans 1976-2026 ultimately proves an even more important point: ACCEPT's classics never needed help to demonstrate their greatness.

Placed alongside the original recordings, the new versions rarely manage to replace them. And perhaps that was never the intention. The real achievement of the project lies elsewhere: five decades on, these songs are still capable of bringing different generations of metal fans together around the same riffs and choruses that helped establish ACCEPT as one of the genre's foundational bands.

In the end, Teutonic Titans 1976-2026 is less a new chapter in ACCEPT's history than a collective snapshot of the importance that history has acquired. It is a celebratory album, built around extraordinary musicians, produced with considerable skill and packed with moments capable of putting an immediate grin on the face of any heavy metal fan. Its value, however, lies more in the event itself than in any pressing need for the album to exist.

And that's perfectly fine.

After 50 years, ACCEPT has absolutely nothing left to prove. They can simply invite their friends to the party, turn up the amplifiers and revisit some of the songs that helped build heavy metal.

If the results do not replace the originals, they at least prove something perhaps even more important: those songs are still alive, relevant and powerful enough to make 50 of the genre's biggest names want to play them again.

For a band that helped write the history of metal, perhaps that is the most fitting celebration of all.


A brief who's who of the album:

1. Fast as a Shark

Restless and Wild (1982)

Phil Anselmo, Kirk Hammett, Billy Sheehan, Mikkey Dee

2. Balls to the Wall

Balls to the Wall (1983)

Rob Halford, Matthias Jabs, Rex Brown, Jason Bowld

3. Aiming High

Russian Roulette (1986)

Chuck Billy, Gary Holt, David Ellefson

4. Run If You Can

Russian Roulette (1986)

Todd La Torre, Ola Englund, Chuck Garric, Roy Mayorga

5. Hellhammer

Eat the Heat (1989)

Jason McMaster, Zeuss, Phil Shouse

6. Metal Heart

Metal Heart (1985)

Dino Jelusick, Joel Hoekstra, Ava Rebekah Rahman

7. Losers and Winners

Russian Roulette (1986)

Hansi Kürsch, Paul Gilbert, Tommy Aldridge

8. Save Us

I'm a Rebel (1980)

Tobias Forge, Frank Bello, Ray Luzier

9. Up to the Limit

Balls to the Wall (1983)

John Bush, Alex Skolnick, Rudy Sarzo, Shannon Larkin

10. Wrong Is Right

Metal Heart (1985)

Ralf Scheepers, John Norum, Ken Mary

11. Starlight

Accept (1979)

Joseph Michael, Phil Demmel, Michael Cartellone

12. Fight It Back

Breaker (1981)

Mark Lopes, Bumblefoot, Billy Sheehan, Shawn Drover

13. Love Child

Balls to the Wall (1983)

Billy Corgan, David Ellefson, Tommy Aldridge

14. Breaker

Breaker (1981)

Girish Pradhan, Glen Drover, Shawn Drover

15. Demon’s Night

Russian Roulette (1986)

Bobby Blitz, Andy Sneap, David Ellefson, Ray Luzier

16. T.V. War

Russian Roulette (1986)

Joe Lynn Turner, Fredrik Åkesson, Rudy Sarzo

17. London Leatherboys

Balls to the Wall (1983)

Sebastian Bach, Rex Brown, Shawn Drover

18. Monsterman

Metal Heart (1985)

Jeff Scott Soto, Jeff Loomis, Rudy Sarzo

19. Restless and Wild

Restless and Wild (1982)

Chris Jericho, K. K. Downing, Billy Sheehan, Ray Luzier

Robert John

sábado, 29 de agosto de 2026

Aléxia: "Garra é a vontade de lutar pelos seus sonhos"

Rafael Karelisky

Por Michelle Santana - @mii.santanna e Paula Butter - @paulabutter.rocks

Alexia lançou "Garra", seu primeiro álbum autoral, depois de quatro anos de carreira solo e uma trajetória que começou em bandas de covers. Em papo por vídeo com as jornalistas Paula Butter e Michelle Santana, ela falou sobre o processo de composição, luto, presença de palco, o revival dos anos 2000 e as dificuldades de ser mulher no rock nacional. Abaixo, confira a entrevista na íntegra, sem frescuras e nem inibições.


A garra que fere e a garra que impulsiona

Paula Butter: Primeiramente, obrigada por conceder esta entrevista para a Road To Metal. Estamos aqui para conhecer um pouco de você e de como está sendo este momento da sua carreira, que está decolando, com o sucesso do álbum “Garra”. A respeito do nome do álbum, por ser muito impactante e ter muitas músicas com fortes significados, como foi a decisão da escolha deste título? Quando você teve a certeza da escolha? E também as escolhas artísticas da arte da capa e concepção do resultado final da obra, conta pra gente como foi todo esse processo?

Aléxia: Quando gravei o clipe da música "Monstro", tiramos algumas fotos. Isso foi bem antes de termos um álbum, antes de termos a ideia de lançar um álbum. Fiz aquelas fotos e, quando bati o olho na imagem que usamos para a capa, já imaginei que seria perfeita. Lembro que nem divulguei essa foto, deixei guardada.

Quando começamos a pensar em qual seria o nome, olhei aquela foto, visualizamos a garra e pensamos que esse nome seria muito bom por conta da dualidade da palavra. É a garra do monstro que te fere, mas também é a garra de lutar pelos seus sonhos, de ir atrás das coisas.

O álbum todo resume muito tudo que me trouxe até aqui e me fez ter garra. Acho que deu muito certo, tanto a capa quanto o nome e todas as músicas.

Foi um processo bem difícil também definir a ordem das músicas. Fiquei ouvindo várias vezes as músicas em ordens diferentes até definir uma que fizesse sentido.


Paula Butter: Eu e a Michele estávamos conversando. É muito bom esse álbum. Tem muito significado, tem que escutar várias vezes e você está de parabéns. Agora vou passar a palavra pra Michele.

Rafael Karelisky

Vulnerabilidade como coragem

Michelle Santana: Alexia, primeiramente, é uma honra falar com você. Eu ouvi o álbum e fiquei muito impactada. Eu, que sou da área da saúde mental, fiquei muito feliz de ouvir algo tão visceral, tão profundo. Puxando um gancho dessa última pergunta da Paula: "Garra" soa quase como um diário pessoal, cheio de momentos muito íntimos e viscerais. Como foi o processo de transformar experiências tão pessoais em música e em que momento isso foi difícil?

Aléxia: Primeiramente, para mim é uma honra estar com vocês e saber que vocês curtiram o álbum e se conectaram de alguma forma. Foi um processo difícil porque tive que revisitar muitos momentos da minha vida que eu não visitava. Acho que foi também um processo de amadurecimento e autoconhecimento.

Poder colocar no papel, falar sobre sentimentos e me expor completamente foi importante. Eu nunca gostei muito dessa sensação de me sentir vulnerável, mas percebi que a vulnerabilidade exige muita coragem. A conexão que eu vinha tendo com os meus fãs me deu essa coragem, porque vejo neles muitas coisas que vivi e passei.

Pensei que precisava mostrar para eles que também passei por isso, que entendo o que eles estão sentindo. A gente se conectou através dessas músicas de forma muito mais real. Eles me viram como uma pessoa real, que tem momentos de altos e baixos, porque a vida é assim.

Foi um processo difícil, mas acho que saí dele muito mais forte e com muito mais coragem para falar sobre tudo que sinto. Mais garra. Alexia mais garra.

Rafael Karelisky

Sobre a música "Fevereiro"

Michelle Santana: Falando um pouco desse lado emocional do disco, existe alguma música que mexe com você? Qual a sua música preferida do momento? E como ela mexe com você cada vez que sobe ao palco? O que ela desperta?

Aléxia: É tão difícil porque, para mim, todas mexem comigo de um jeito diferente. São músicas diferentes, mas a que mais me emociona todas as vezes e realmente me impacta é "Fevereiro", por ser uma música que fala sobre luto, sobre essa dor de perder alguém, algo que realmente fazia parte da minha vida.

Poder falar sobre isso todas as vezes que estou no palco é muito emocionante. Acho que toda a parte da produção musical dessa música também ficou incrível, com os instrumentos de orquestra. Essa é uma das que mais me emocionam e que considero mais impactantes.


Paula Butter: Essa música me pegou forte também.

Michelle Santana: Essa música foi bem emocionante. É uma das que mais me emocionou no álbum. Até quando você comentou agora, me deu uma coisa. Ela é forte, realmente vai fundo.

Presença de palco: entrega natural

Paula Butter: Desculpa interromper a Michele. Aproveitando esse gancho do palco, como você consegue, porque, independente do tamanho do palco, você preenche o espaço todo nas suas apresentações? É uma coisa surreal. Eu achei surreal, falei: "Meu Deus, quem é essa artista?" Você tem alguma técnica ou simplesmente chega lá e é você? Tem alguma técnica para não deixar nenhuma parte do palco vazia, para interagir com todo mundo, ou é algo natural?

Aléxia: Obrigada! Eu sinto que é muito natural. Não gosto muito de ficar pensando tanto no que fazer. Eu e os meninos da banda tentamos combinar: se estou em um canto do palco, alguém vem e preenche o outro lado para não ficar vazio. Se o Gustavo vai com a guitarra lá perto do Léo, eu vou para esse canto para nunca ficar um espaço vazio.

A parte de entrega e presença de palco acho que é muito natural. Quando a gente se diverte, tudo acontece muito melhor.


Paula Butter: Bom saber. Impacta mesmo. Eu que estava lá fiquei realmente impressionada, virei sua fã. Fico feliz. Agora vou passar pra Michele para a gente falar mais sobre o álbum, que ela tem algumas perguntas também. Depois a gente volta comigo, tá bom?

Rafael Karelisky

O revival dos anos 2000

Michelle Santana: Alexia, você faz parte de uma nova geração de artistas que resgata a sonoridade e a estética dos anos 2000, mas com uma identidade muito própria. Como você enxerga esse movimento e o que mais te inspira nessa época para além da música?

Aléxia: Eu fui aquela adolescente que viveu muito essa fase de ficar vidrada na MTV, assistindo a todos os clipes. Os artistas da época me influenciaram demais: Pitty, Paramore, Evanescence, além da Lady Gaga. Acho que, de alguma forma, todos esses artistas moldaram minha forma de escrever, de cantar e também minha personalidade.

Estamos vivendo esse momento de revival. Muitas bandas dessa fase voltaram, estão fazendo turnês, vindo para o Brasil e lotando estádios, como My Chemical Romance e System of a Down. Estamos vivendo um momento muito legal porque aqueles adolescentes agora têm mais dinheiro para assistir aos artistas que não conseguiam ver na época. Também podem curtir e passar isso para os filhos. Está passando de geração.

Acho que isso veio em uma hora muito boa para eu lançar esse álbum, porque ele traz muito da sonoridade e da identidade visual da época, só que de um jeito mais moderno e atual, colocando também um pouco mais da minha identidade e da identidade dos meninos.

Isso faz com que ele se conecte com essa galera e com outras idades também. É legal porque se conecta com quem sente nostalgia, mas também com os mais jovens que estão conhecendo esse tipo de som agora.

Rafael Karelisky

Michelle Santana: Eu também fui adolescente dos anos 2000 e me identifiquei muito. Para mim, teve essa coisa nostálgica. Foi bem especial, eu ouvi o álbum e gostei bastante.

Aléxia: Que bom, fico feliz. Ele traz essa sensação de estar ouvindo algo da época, mas, ao mesmo tempo, aquela sensação de estar descobrindo uma coisa nova. Essa mistura.


Michelle Santana: Até a música "Um por Um" eu achei que trouxe esse lado moderno também. Não só a estética dos anos 2000, mas muita coisa do metal moderno. Achei muito interessante. Acho que é uma música que ilustra muito bem o que você está falando.

Aléxia: Verdade.

Hoobastank, novos públicos e a explosão nas redes

Paula Butter: Aproveitando o que você estava falando sobre esse revival: você ganhou alguns festivais e, no ano passado, abriu para o The Calling. Foi bem legal, bem emocionante. A partir daí, vimos sua base de fãs aumentar nas mídias sociais, todo mundo torcendo por você. Recentemente, tivemos a notícia de que você vai abrir o show do Hoobastank. É isso?

Aléxia: É o Hoobastank.


Paula Butter: Desculpa. Eu adoro a música, mas é difícil a pronúncia da banda. É uma banda que marcou muito a minha juventude. Você vai estar com o Di Ferrero em alguns shows da turnê?

Aléxia: Sim.


Paula Butter: Como está sendo isso para você, essa explosão e essa atenção da mídia agora, apesar de você já estar há muito tempo na carreira? Você tem uma formação clássica, já está nisso há bastante tempo, mas o que está achando de ver tantos fãs na internet, tanta gente interagindo? Como está se sentindo?

Aléxia: Eu me sinto muito feliz, de verdade, porque é algo que sempre sonhei e pelo qual sempre corri muito atrás. Poder ver meu trabalho sendo reconhecido e chegando a mais pessoas é muito gratificante.

Tudo que puder contribuir para que meu som chegue a mais pessoas me deixa extremamente feliz e realizada. Também poder dividir o palco com artistas que foram influência para mim é muito especial. Vai ter o Di Ferrero, Dead Fish.

Estou muito feliz com essa oportunidade de mostrar meu som para quem não me conhece e também de dividir essa vitória com quem já me conhece há muito tempo e está torcendo por mim. Estou muito feliz.


Paula Butter: Ficamos felizes também. Você também está com esse álbum novo, solo. Atualmente, acho que é uma das vozes femininas mais expressivas, na minha opinião. Está vindo com muita força, o álbum é muito impactante. Vou deixar com a Michele, que também tem mais algumas perguntas sobre isso.

Vitor Duik

De banda cover a carreira autoral

Michelle Santana: Falando um pouco sobre toda essa questão da sua carreira e de onde você está chegando, queria que você falasse um pouco: nesses quatro anos de carreira, quais foram os maiores desafios que enfrentou como artista independente e o que aprendeu com esses desafios?

Aléxia: Cada fase traz desafios novos, então a gente vai aprendendo com isso. São, acho, 15 anos desde quando comecei de fato a querer ser artista e comecei gravando vídeos para a internet. Estudei canto, mas profissionalmente comecei há pouco tempo, e cada uma dessas fases trouxe dificuldades diferentes.

Comecei com uma banda de covers, cantava vários clássicos por várias cidades. Quando fizemos a transição para Alexia e comecei a lançar música autoral, vieram novas dificuldades. Muitas pessoas que gostavam da banda passaram a não gostar só pelo fato de eu ter adotado meu nome e assumido a carreira solo, colocando minha cara no projeto.

Foram muitas mudanças e foi difícil. A gente foi enfrentando e conquistando novos fãs e novos espaços. Para mim, a parte mais difícil foi essa transição de banda cover para uma carreira autoral.

Hoje consegui fazer shows 100% autorais. Foi uma caminhada bem complicada. Ainda existem alguns lugares que não abrem tanto espaço. Muitos festivais e lugares não querem abrir espaço para artistas novos. Infelizmente, existe isso, mas a gente vai entrando onde aparece um espacinho para poder também representar toda uma cena.

Ver meu nome ao lado de um monte de artistas já consagrados também é uma forma de abrir caminho para quem está na mesma cena que eu e fazendo isso também.

Vitor Duik

Sobre "Cereja"

Michelle Santana: Emendando um pouco nessa questão dos desafios, na música "Cereja", você traz uma mensagem forte de empoderamento feminino, e ainda existe resistência quando uma mulher lidera uma banda e ocupa espaço no rock e no metal. Você já sentiu que isso incomodou em algum momento? Pelo fato de ser mulher, isso trouxe alguma situação em que você se indispôs?

Aléxia: Muitas vezes. Infelizmente, como mulher, a gente já sabe que vai ser sempre um pouco mais difícil. Essa fase de transição que te falei, de banda cover para autoral, com certeza, se fosse um cara fazendo isso, não teria gerado tanto ódio e tantos comentários na época.

Um cara seria visto como um grande líder, um grande rockstar. Como é uma mulher, as pessoas tendem a diminuir. Cada coisa que conquisto é questionada. Sempre tem alguém achando que estou ali porque estou pagando aquele lugar. Nunca é valorizado da forma certa. A gente precisa ficar sempre se provando mais e mais vezes.

Diversos momentos também geraram muito hate por conta da roupa. Está cheio de homem fazendo show completamente sem roupa e está tudo bem. São comentários que infelizmente existem.

A gente vê muitas artistas da cena, bandas incríveis. Um exemplo é a banda Malvada, que são mulheres maravilhosas. Sempre que tem algum post delas em algum canal grande, aparece um monte de cara diminuindo o trabalho delas. Mas elas estão conquistando o espaço porque têm talento e merecem.

Acho que essa é a parte chata: ter que ficar se provando o tempo todo.


Michelle Santana: Com certeza.

Mensagem para as novas artistas

Paula Butter: Aproveitando, o que você falaria para essas mulheres que estão começando, que ainda estão galgando espaço com trabalhos autorais, nas casas de show menores, e que sofrem muito? Eu conheço muitas mulheres e cantoras autorais que acabam sofrendo muito esse preconceito que você acabou de falar. Muitas vezes elas tentam, querem desistir, mas não podem. Que recado você daria para elas? No seu caso, sobre perseverar, que mensagem deixaria para aquelas que estão começando e enfrentando todos esses percalços pelos quais você já passou?

Aléxia: É difícil, mas um dos conselhos é não desistir. Vão aparecer muitas barreiras, muitos empecilhos e muita gente tentando atrapalhar, mas é preciso persistir e seguir.

Uma das coisas importantes é estar perto de pessoas que realmente te querem bem e que vão te ajudar nesse processo. Não adianta querer se encaixar em grupos apenas para estar ali. É importante se apegar a pessoas que contribuem para outras mulheres, porque temos uma união muito incrível na cena feminina.

Apeguem-se a essas mulheres também. Vamos fazer diversos rolês, festivais e eventos juntas. Se não querem deixar a gente subir em determinado palco, vamos tentar criar o nosso e fazer a cena acontecer.

Apeguem-se às coisas boas e às pessoas que querem o seu bem. Não percam muito tempo com quem atrapalha, porque não vai adiantar.

Vitor Duik

Michelle Santana: Exatamente. Você tem alguma personalidade ou artista que atualmente diria: "Essa é a pessoa que eu acho que está representando as mulheres com relação à força, encarando o mundo"? Tem alguma pessoa que você admire?

Aléxia: Atualmente, são muitas mulheres em vertentes diferentes que eu admiro. No cenário nacional, temos a Pitty, que sempre foi uma dessas mulheres que abriu caminhos, mas hoje temos outras artistas e bandas incríveis na cena.

Temos Malvada, Eskröta, MC Taya. São muitas minas incríveis. Se todo mundo pudesse acompanhar o trabalho delas, seria incrível.

No âmbito internacional, também admiro a Hayley Williams. Admiro demais por ela ser essa mulher que abre caminhos, inspira e contribui para a cena.

A Lady Gaga é minha maior ídola também. Ela sempre foi uma figura de muita autenticidade. Temos que admirar essas mulheres e nos inspirar em mulheres como elas.


O momento do rock brasileiro

Michelle Santana: Alexia, falando um pouco sobre o cenário nacional, na sua opinião, o rock brasileiro vive um momento de renovação? O que ainda precisa acontecer para que as bandas autorais tenham mais espaço e consigam alcançar novos públicos?

Aléxia: Com certeza. O rock sempre se renovou e se renova todos os dias. Tem muita banda e muita gente fazendo som de qualidade, mas o que complica às vezes são os próprios roqueiros. Existem roqueiros que não querem ouvir coisa nova de jeito nenhum.

Tem esse preconceito gigante. Quando tem banda autoral no rolê, não querem ouvir, não vão atrás. Infelizmente, não temos o mesmo tamanho de investimento no cenário do rock que outros gêneros têm.

Não conseguimos tocar o tempo todo nas grandes rádios, não conseguimos estar no top 10 das plataformas digitais. Não existe esse tamanho de investimento. O som não chega a todas as pessoas. Quem não quer ouvir e não vai atrás dificilmente vai receber essas bandas novas.

Precisamos que a comunidade toda se una e comece a dar valor para esses artistas que estão fazendo música nova, porque em algum momento as bandas mais antigas vão parar de tocar, vão parar de fazer shows. E quem vai assumir esses lugares nos festivais?

Vitor Duik

Precisamos que o próprio público do rock abrace mais a nova geração.

Michelle Santana: Com certeza. Acho que é uma forma de continuar fortalecendo a cena e não deixar a música morrer. Também encontro essa dificuldade dos roqueiros em abrir espaço para o metal moderno ou para as novas bandas que estão trazendo músicas de tanta qualidade, como é o caso da sua música, Alexia.Espero que as pessoas possam abrir a mente para o novo. Acho que é isso que vai fazer o rock continuar mais vivo do que nunca.

Aléxia: Sim, torço muito para isso.

Vitor Duik

Agradecimentos

Paula Butter: Alexia, muito obrigada pelo teu tempo. Temos infinitas perguntas, mas você sabe como é, temos aquele tempinho definido. Esperamos, em breve, poder conversar novamente. Vamos marcar uma próxima entrevista e, se depender de nós, jornalistas, vamos continuar incentivando essas mulheres, as artistas autorais. No que você puder contar com a Road To Metal, conte com a gente. Estaremos sempre aqui, a favor e lutando por essa cena feminina, por essas mulheres maravilhosas que você é.

Aléxia: Obrigada, obrigada mesmo. Obrigada a vocês pelo espaço, que é extremamente importante. Espero encontrar vocês em algum desses shows que vão acontecer, e aí fazemos uma entrevista pessoalmente. Vai ser legal.


Michelle:  Se aparecer em São Paulo, vou ficar muito feliz em conversar com você pessoalmente.

Aléxia: Vamos, vamos. Vai ter show em São Paulo, então quero ver vocês.


Paula Butter: Com certeza. Obrigada, Alexia.

Aléxia: Obrigada. Obrigada pelo tempo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Entrevista - David Defeis: 45 anos do Casamento do Metal e o Romantismo Bárbaro



Por: Carlos Garcia e Gabriel Arruda
Edição: Carlos Garcia

Há quarenta e cinco anos, David DeFeis lidera o Virgin Steele, banda que se tornou referência por unir Heavy Metal, música clássica, literatura, teatro e mitologia em obras conceituais marcantes. 

David e o VS criaram uma identidade forte, inclusive denominando seu estilo como Barbaric-Romantic Metal. Convicto em seus direcionamentos, David é um artista que ama a música e coloca a alma e coração no que faz.

Nesta entrevista exclusiva ao Road to Metal - onde buscamos celebrar esses 45 anos de carreira - o músico fala sobre suas inspirações, sua filosofia artística, convicções pessoais, revisita momentos importantes da carreira e revela novidades sobre o futuro da banda.

Confira a seguir, e espero que aprecie tanto quanto nós!




RtM: Olá David, obrigado por dispor deste tempo para conversar conosco, um ano bem especial que o Virgin Steele comemora 45 anos de existência. 

Vamos lá então! Depois de 45 anos de carreira, o que ainda te motiva a continuar compondo?
David Defeis: Confesso que tenho um amor profundo pela música. Sabe, eu vivo, respiro e a venero. E isso, junto com a palavra escrita, o som e a visão, viver a vida do jeito que vivo, me mantém inspirado. As pessoas ao meu redor me inspiram, meus animais me inspiram, as experiências do dia a dia me fazem querer documentar em palavras e música o que acontece no mundo.


RtM: Ao longo da sua carreira você sempre falou da música quase como algo sagrado. Hoje você reafirma que segue apenas aquilo em que acredita, independentemente das opiniões externas.
David Defeis: Sim, continuo considerando a música uma entidade sagrada.
Ela faz parte do meu universo espiritual. É quase como uma divindade, por isso procuro permanecer fiel a ela. Esse é o combustível que me move.

Quando termino uma música, volto a ouvi-la algum tempo depois e ela ainda consegue provocar exatamente a emoção que senti ao criá-la — seja alegria, fúria, lágrimas ou esperança — sei que consegui alcançar aquilo que buscava.
Esse é o meu verdadeiro parâmetro.


RtM: E o que você gostaria ainda de realizar como artista que até o momento ainda não foi possível?
David Defeis: Boa pergunta... Eu venho documentando cada um de nossos shows e juntando todo esse material, e quero montar um filme e documentário estilo o "The Sound Remains the Same" do Led Zeppelin. Então é um trabalho visual, sabe, oral, mas também algo além disso. 

É o que está acontecendo na mente, na alma, a fusão mente, corpo e espírito da música. É algo nessa linha com o qual estamos trabalhando agora. Tenho mixado horas e horas de faixas, anos de luta e história.

 
RtM: O Virgin Steele sempre se destacou por transformar mitologia, tragédias gregas e acontecimentos históricos em música. De onde surgiu esse fascínio e por que esses temas continuam sendo uma fonte tão rica de inspiração para você?
David DeFeis: Eu cresci no mundo da mitologia, o meu pai era diretor de teatro e produtor. Então eu cresci assistindo peças inspiradas em tragédias gregas, Shakespeare e coisas dessa natureza. 

Então, depois de assistir, eu dizia: "Certo, vou ler". E lia os mitos. E, sabe, depois de muitos anos fazendo isso, meio que entra dentro de você, se cristaliza e se manifesta de várias maneiras na sua vida, sabe, esses mitos universais e tudo mais. Então, por outro lado, as pessoas devem entender que eu não estou tentando dar uma aula de história. 

Às vezes, uso esses mitos como ponto de partida para o que quero expressar sobre o que está acontecendo no mundo hoje. Então, é uma fusão de elementos com essas coisas.


RtM: E você já cogitou lançar livros, ou comic books, algo assim, inclusive com essas histórias que você criou para os álbuns conceituais?
David Defeis: É uma ideia muito boa! Vamos ver no futuro. E eu gostaria de lançar uma biografia, ou algo assim, é uma ótima ideia, talvez para futuras reedições ou algo do tipo, algo assim seria interessante. 

Eu gostaria mesmo de fazer a biografia, a autobiografia, a história do Virgin Steel, meu lugar nisso. E, sabe, como eu vivenciei tudo desde o primeiro dia até o que está acontecendo agora e além. Então haverá algum tipo de livro desse tipo. 

Mas o que você está dizendo, sim, eu entendo. (N.do R.: neste momento David pega uma copia do CD "House of Atreus" e mostra na tela) Tipo, sim, você pega esse trabalho e faz algo visual com ele. Claro, acho que os fãs iriam gostar sim.


RtM: Acho que seria interessante, há muitas histórias fantásticas. Acho que tem muitas coisas que você gostaria de fazer.
David Defeis: Há muita coisa que quero fazer e muita coisa que ainda farei. Sim, enquanto eu estiver respirando na Terra, farei todas essas coisas. Gostaria de fazer como antigamente, havia um canal chamado, vocês provavelmente tinham no Brasil, chamado VH1. E eles faziam um programa chamado Behind the Music. 

Gostaria de fazer isso para este álbum, para este álbum, para todos os álbuns (David mostra vários álbuns da banda). Sabe, algo assim. Para me aprofundar em cada disco. Fiz um pouco disso com algumas das coisas que lançamos nos últimos dois anos, mas eu realmente gostaria de mergulhar fundo, bem fundo, bem fundo, sabe, em cada um, explicar o que estava acontecendo com cada faixa do disco. 

Então, sim, isso está nos meus planos. Também um projeto histórico, bem, acho que seria um filme porque hoje em dia, quem compra DVDs? Não sei. Algumas pessoas ainda compram, eu acho. Mas algo que seja disponibilizado no YouTube ou em qualquer outro lugar, algo que explique toda a história do que fizemos com a Virgin Steele ao longo dos anos, algo assim. Isso também está acontecendo.


RtM: Seria fantástico! Você deve ter muito material incrível arquivado.
David Defeis: Isso pode acontecer mais ou menos quando fizermos... Esse negócio de filme do show ao vivo provavelmente vai acabar sendo um box set, porque eu provavelmente tenho uns dois ou três shows atuais que eu gostaria de lançar e talvez dois ou três shows de arquivo, porque temos uns 30 e poucos shows da turnê do "House of Atreus", alguns com imagens, outros sem. 

Então tem bastante coisa. Mas falando nisso, vamos fazer o relançamento do "Life Among the Ruins" no final de agosto. E para acompanhar, quando o lançamos pela primeira vez, lançamos uma coleção de vídeos chamada "Tale of the Snakeskin Voodoo Man". Tinha uns 24 minutos. 

Eu revisei, coloquei mais vídeos. Agora tem cerca de uma hora. Então tem faixas extras como "Crown of Thorns", um clipe, "Jet Black", um monte de coisas. E também tem a gente no estúdio. Então é uma coisa bem legal. Então, quando o álbum sair no final de agosto, esse filme, por assim dizer, também será lançado.


RtM: Muita, muita coisa legal para os fãs.
David Defeis: E também tem um monte de outros vídeos que fiz nas últimas semanas, algumas coisas para "Marriage...", "Crown of Glory" já tem um vídeo para ela, "House of Dust" e alguns dos trabalhos extras que estão em "Life Among the Ruins". Então, sim, vai ter muita coisa visual sendo lançada do final do verão até o outono.


RtM: Sua interpretação vocal e sua presença de palco são extremamente marcantes. Quais artistas mais influenciaram seu estilo quando você começou? E atualmente, existe algum cantor, compositor ou banda que ainda consiga surpreendê-lo?
David Defeis: Falando especificamente em vocalistas, Rober Plant, Freddie Mercury, todo mundo que esteve no Deep Purple ou Rainbow! (Risos) Todas aquelas vozes! Gillan, Coverdale, Hughes, Graham Bonett! Todos eles.


RtM: Graham Bonett estará aqui para um show único no próximo domingo.
David Defeis: Excelente! Eu vi ele alguns anos atrás. Dio também, obviamente, eu amo o Dio! Então, sim, todas essas pessoas. Mas outra coisa que tentei incorporar na minha voz foi o estilo de pessoas que não são cantores, mas tocam guitarra. 

Pessoas como Jimmy Page, Eddie Van Halen. Sabe, eu queria trazer esse tipo de estilo vocal para a minha voz. É por isso que faço muitas das coisas malucas que faço, porque, acho que eu deveria ser guitarrista, mas segui outro caminho. 

Então pensei: "Tudo bem, se não vou tocar guitarra, vou fazer disso a guitarra" (N. do R.: David aponta para sua garganta). Essa tem sido outra grande inspiração para mim. Ouvir os solos das pessoas e pensar: "Como posso incorporar isso à minha voz?"


RtM: Que interessante isso! 
David Defeis: Bom, e voltando para a outra parte da pergunta, bom, eu continuo ouvindo as mesmas pessoas que me influenciaram lá no início, mas de novos artistas gosto de muitos, alguns se tornaram meus amigos, e tem esse cara, que eu gosto muito, não sei se vocês conhecem, o Matthew Knight do Eternal Winter

Um grande cantor e guitarrista. Eu gosto de ouvi-los. Eu não fico pesquisando ou procurando, mas as coisas que vão cruzando meu caminho, eu tento ouvir e prestar atenção. Ah, vou ouvir isso aqui, isso é legal, isso não, e assim vai, e seguimos em frente.


RtM: O que você acha da música atual? Acha que falta personalidade ou algo mais orgânico como os artistas antigamente faziam?
David Defeis: Você Sabe, eu não quero desmerecer ninguém nem nada do tipo, mas muita coisa que eu faço soa parecida com outras coisas. Parece que todo mundo quer usar os mesmos estúdios, os mesmos amplificadores, o mesmo som, sabe? Então não vejo muita variação. Acho que, às vezes, as pessoas, principalmente hoje em dia com a internet, encontram algo que funciona para um grupo e copiam, dizendo: "Ok, vamos ser assim também". 

Mas antigamente, as bandas eram completamente diferentes, sabe? O AC/DC não soava como UFO, não soava como Black Sabbath, Led Zeppelin ou Rush, sabe? Eram todas muito diferentes. Então, essa sempre foi a mentalidade que eu queria ter. 


RtM: Sim, buscar a própria identidade, a evolução...
David Defeis: Então, eu quero fazer o que faz sentido para mim, o que é honesto para o meu ser físico e o que é honesto para os meus ouvidos, o que está aqui dentro, a mente, o corpo, o espírito, a conexão, e trazer isso à tona na composição e tentar fazer algo que seja único para a banda, em vez de tentar imitar outra coisa. Você pode se inspirar em algo, sim, mas não precisa fazer uma cópia descarada, sabe? 

Eu nem quero copiar o que já fizemos antes. Eu estava tentando continuar em movimento, manter a linha em movimento, sabe? Sim, eu poderia voltar e dizer, "certo, vou escrever outra 'Burning of Rome' ou algo assim", mas isso não é realmente honesto. Se isso acontecer de forma natural, por causa do seu estado de espírito, e funcionar dessa maneira, e for algo realmente viável, não uma imitação, então tudo bem. 

Mas meu objetivo é sempre continuar a expandir os limites e tentar ir aonde nunca fomos antes, sem deixar de lado as raízes de onde viemos, sabe, levar isso até o fim. 

Esse é o meu objetivo e é o que tento fazer. É o meu trabalho. 


RtM: Às vezes, as pessoas ficam esperando por algo diferente, como você disse, um novo "Marriage" ou "Atreus", mas não. Você está fazendo o que sempre fez e seguindo em frente. Do "Nocturnes of Hellfire..." e "Black Light Bacchanalia", eu vi algumas críticas negativas, mas acho que as pessoas às vezes não entendem o que você está fazendo. Só ficam procurando os discos antigos, não veem que a banda precisa evoluir, e não apenas fazer o mesmo álbum repetidamente.
David Defeis: Existem bandas que fazem isso e são muito bem-sucedidas. Sabemos quais são essas bandas. Mas isso nunca foi um interesse meu. Nunca foi interesse de ninguém da banda repetir dessa forma. Sim, eu acho que, sabe, o que você pensa fora das gravações, e o que você traz para as gravações. 

Se sua mente for limitada, sabe, se você só quiser uma coisa, então você não vai conseguir algumas dessas outras tangentes, para onde a banda vai, mas você pode abrir sua mente para outras músicas, voltar a ela mais tarde e pensar:"ah, isto aqui é legal". Isso já aconteceu antes. 

Eu já vi coisas tipo:  "eu realmente não gostei de 'Visions of Eden'!" Quatro anos depois, "ah, é meu álbum favorito". Sei lá. às vezes as pessoas precisam amadurecer musicalmente antes de poderem apreciar algo dessa natureza. É como quando você era criança e não queria comer espinafre ou, sabe, qualquer coisa (Risos). Então você fica mais velho e pega o gosto.

É a natureza da vida e você sabe, não dá para agradar a todos e nós não tentamos agradar a todos, apenas tentamos fazer algo que seja honesto com quem somos e o que somos em qualquer momento, e é isso, e é por isso que ainda estamos aqui 45 anos depois. Poderíamos ter seguido o outro caminho e então, sabe...sumido no éter, nunca mais sermos vistos em lugar nenhum. 


RtM: David, The Marriage e House of Atreus foram considerados por muitos como alguns dos maiores álbuns conceituais da história do The Have Married. Você acha que eles receberam o reconhecimento que realmente merecem?
David Defeis: Bem, eles receberam muitos elogios, o que me deixa feliz. Poderiam ter ido mais longe? Sim, quero dizer, essa é outra questão. Existe a música e existe o lado comercial.
Às vezes, eles não se encontram. Existem ótimos filmes que as pessoas não conhecem, livros, discos, o que for. E existem certas coisas que é preciso fazer se você quiser se manter na vanguarda do lado comercial. 

Nós sempre estivemos muito ocupados vivendo nossas vidas. Sim, estávamos envolvidos na promoção e fazendo isso, aquilo e mais um monte de coisas, mas nunca foi como se fôssemos obrigados a fazer algo que alguém quisesse nos obrigar a fazer se não acreditássemos nisso. Então, sempre fizemos o que queríamos fazer. Por isso, nem sempre entramos no jogo do lado comercial. 

Então, isso pode ter, a longo prazo, prejudicado um pouco o sucesso, mas esse nunca foi o objetivo do grupo. Nunca foi meu objetivo ser a maior banda do mundo. O que eu queria era criar um estilo de vida, ter uma carreira e um estilo de vida que funcionasse para todos os membros do grupo, que se encaixasse bem com a personalidade de cada um. 

E conseguimos isso. Então, no que me diz respeito, alcançamos o que nos propusemos a fazer e continuamos em frente. E para onde isso nos levará... Bom, veremos o que acontece nos próximos anos. 


RtM: Os álbuns do Exorcist, Original Sin e Piledriver se tornaram cult para os fãs, inclusive do Virgin Steel. E vocês gravaram duas músicas do álbum do Exorcist em "Nocturnes of Hellfire". Fale um pouco mais sobre esses álbuns como  foi a composição e gravação deles. O que eles significam para vocês?
David Defeis: Exorcist e Original Sin foram feitos super, super rápido.
Eu e o Edward sentamos em frente a uma máquina de lavar em um porão. E começamos a compor os dois discos. Eles foram compostos bem rápido, provavelmente, sei lá, em uma semana ou algo assim. E então ensaiamos os dois discos por umas duas ou três semanas. E depois fomos para o estúdio e gravamos.

O Exorcist foi feito em três dias, assim como Original Sin. Talvez Original Sin tenha sido feito em dois dias. Gravado e mixado rapidinho. Entramos, saímos. Muito honesto e orgânico. Foi como se estivéssemos pegando fogo!


RtM: Foi tudo muito, muito orgânico! (Risos)
David Defeis: Muito orgânico (mais risos). Eu sempre me senti feliz por termos feito esses álbuns e estou muito orgulhoso deles e do que eles significam para as pessoas. Mas eu sempre senti que, droga, se tivéssemos pegado toda aquela energia que foi investida nesses discos, nesses riffs e em algumas dessas ideias e a transformado mais no estilo do Virgin Steele e lançado como um outro álbum da banda, teria sido um trabalho realmente muito, muito forte. É por isso que eu quis revisitar a "Black Mass.'


RtM: Os riffs e refrãos são maravilhosos!
David Defeis: Edward (Pursino) e eu conversamos sobre isso. Então eu disse: por que não revisitamos algumas dessas coisas e vemos o que podemos fazer no universo do Virgin Steele com isso? E esse foi o resultado dessas faixas, o resultado dessa mentalidade. E eu não me importaria de revisitar mais algumas delas. Eu realmente gostei disso.

E especialmente a "Lucifer's Lament", eu gostaria de revisitá-la algum dia. Falando apenas em excesso, tínhamos a tela original, fizemos "Conjuration of the Watcher", eu reescrevi, eu disse: "Ok, vamos tornar isso mais clássico no meio, trazer aquela outra seção" e fizemos algumas outras coisas, tipo "Fire God" do Pile Driver, que foi... esse é outro disco que fizemos naquela época, esse foi na verdade o primeiro, depois fizemos o  "Exorcist" e "Original Sin".

Então, sim, eu pensei, sim, sempre amamos "Fire God", vamos revisitá-la, vamos adicionar algumas coisas novas e ver onde isso vai dar. E aquilo funcionou e está em "House of Atreus PT 1". Então, sim, há muitas ideias ali que eu acho que ainda poderiam ser exploradas em outro âmbito. Então, talvez... veremos como vai ser.


RtM: Ah, ótimo, seria muito bom. Bom, próxima pergunta... Eu sei que é difícil escolher, mas existe algum álbum específico da sua carreira do qual você se orgulha especialmente? O que torna esse disco tão significativo para você?
David Defeis: Eu amo todos eles. São como filhos, sabe, que você tem, ou animais de estimação que você ama, enfim. Então, todos eles têm um significado muito, muito forte para mim. Mas acho que um dos que eu realmente gosto muito é o "Visions of Eden". Fiquei muito satisfeito com a composição e com a versão de aniversário, com o som que ele tem agora. E para mim, é como quando as pessoas falam sobre Led Zeppelin, elas falam muito sobre Led Zeppelin IV, por causa da voz de Robert Plant e tudo mais. 

Acho que este, "Visions of Eden", foi um momento realmente especial, porque para onde eu queria ir, as músicas realmente combinavam com a voz naquele momento, e fiquei muito satisfeito com o resultado final daquele disco. Esse é um dos meus favoritos, mas eu realmente amo todas eles. Sabe, amo todos mesmo.


RtM: Você considera que "Visions of Eden" foi composta quase como uma trilha sonora de filme, e você certa vez a descreveu como "a Barbaric Romantic Movie of the Mind". Você já considerou trabalhar profissionalmente com trilhas sonoras para filmes?
David Defeis: Falando em VISIONS OF EDEN… Bem… sim, é algo que eu almejo. Eu penso cinematograficamente quando estou compondo e consigo enxergar as possibilidades visuais inerentes a todas as músicas… Então, sim, eu adoraria compor a trilha sonora completa de um filme…

RtM: Falando em trilhas sonoras, o Virgin Steele também teve uma música na trilha sonora de um filme de terror dos anos 80, não é? O que você se lembra dessa experiência?
David Defeis: Sim… o filme se chama "ZOMBIE NIGHTMARE", e a música do VIRGIN STEELE que aparece nele é "WE RULE THE NIGHT", do álbum Noble Savage. Há outros dois filmes que usam músicas do VIRGIN STEELE: um é HEAR NO EVIL, estrelado por Martin Sheen e Marlee Maitlan. 

A música usada é ON THE WINGS OF THE NIGHT, e o outro filme se chama CASUALTY OF LOVE, e usa as músicas: LOVE IS PAIN, NEVER BELIEVED IN GOOD-BYE e SNAKESKIN VOODOO MAN.

Sobre o filme ZOMBIE NIGHTMARE, o que eu me lembro é que o filme era realmente um daqueles filmes de terror trash, mas o que joga a seu favor é a cena em que WE RULE THE NIGHT é usada… Uns jovens estão dirigindo em uma rodovia ouvindo a música no volume máximo e atropelam o personagem principal, que era interpretado por Jon Michael Thor, da banda THOR. 

Aquela cena foi a mais impactante do filme... Ah, sim... o filme também contou com Adam West, o Batman original da série de TV, e com uma Tia Carrera bem jovem... que mais tarde alcançou a fama com o filme "Wayne's World", entre outros.


RtM: Continuando com o "Visions of Eden", você acha que a jornada trágica de Lilith, marcada pela opressão e destruição cultural, serve como um reflexo ainda mais preciso do colapso espiritual que testemunhamos na sociedade atual?
David Defeis: Sim... desde que essa história surgiu, ela ressoa em todas as épocas, em todas as eras, e continuará a ressoar eternamente, pois fala diretamente da profanação e erradicação do Princípio da Deusa que outrora habitava tão livremente a Divindade, bem como da destruição do Paganismo e do Gnosticismo, e ainda carregamos essas cicatrizes hoje. Sim, especialmente hoje, pois a situação só piora.


RtM: E qual foi álbum mais desafiador,  não apenas musicalmente, mas também em termos de conceito, composição, letras, qual foi o maior desafio para você?
David Defeis: Provavelmente são dois. Um foi o "House of Atreus", porque é um trabalho enorme, muito grande.  Tentar dar sentido àquela história e fazer com que não fosse enorme... eram três CDs, mas poderiam ter sido uns 90! (risos)  mas você não quer cortar, mas precisa fazer com que faça sentido e de uma forma digerível. Então esse foi um disco complicado, mas foi bem fácil de gravar. 

O outro que foi complicado foi o último álbum, "Passion of Dionysus". Esse foi um disco complicado porque havia muita coisa que eu queria dizer ali. E, novamente, eu não queria que fosse longo, não queria cortar nada, mas não queria que tivesse quatro CDs. Então, tratava-se de tentar descobrir como trabalhar com esse material, torná-lo compreensível e trazer à tona todos os detalhes. Na minha opinião, portanto, esses dois discos foram provavelmente os mais difíceis de fazer.


David, seus álbuns mais recentes têm abordado uma sonoridade mais sinfônica e teatral. Alguns fãs sentem falta da abordagem mais pesada e intensa do Metal, enquanto que outros apreciaram essa evolução artística. Você acompanha as críticas e as reações dos fãs nas redes? Depois de tantos anos na indústria da música, como você lida com elogios e críticas
David Defeis: Eu não... eu não acompanho muito as críticas e coisas do tipo, nem Facebook, Instagram ou qualquer coisa parecida. Eu simplesmente vivo minha vida. Eu não vivo online, a menos que esteja fazendo algo como isto. Estamos conversando. Sim, eu já tenho muita coisa acontecendo no meu mundo. Fico muito feliz quando recebo feedback, sabe? 

As pessoas dizem, por exemplo, sobre o último álbum, muita gente me perguntou: "Nossa, como você conseguiu esse som? Como isso aconteceu?  Como você conseguiu fazer com que todas essas ideias musicais diferentes pudessem ser ouvidas? Como você conseguiu fazer isso na mixagem?" Ou também "este disco significa tanto para mim que quero fazer uma tese de mestrado sobre ele". 

Muitas das nossas obras acabaram em trabalhos de conclusão de curso por algum motivo, House of Atreus, Dionisyus, Visions, tudo isso. "Marriage of Heaven and Hell" acabou em algum contexto acadêmico universitário, o que também é muito gratificante. Então, estou ciente do que acontece com as pessoas que gostam e não gostam, mas, eu ainda vou fazer as minhas próprias coisas, não vou fazer mais de algo só porque as pessoas gostaram, e também não vou fazer menos de algo só porque não gostaram. 

Acredito firmemente no meu próprio julgamento sobre o que quero fazer e o que a banda é, e todos no grupo têm ideias muito fortes sobre como as coisas devem soar e ser, e nós vamos discutir entre nós, mas não brigar, conversar entre nós e chegar a uma solução sobre onde queremos estar, e essa é a única coisa que realmente importa: com quem você está trabalhando.


RtM: São gostos e opiniões, e como você falou antes, não dá para agradar todo mundo.
David Defeis: Não... para mim, no final das contas, se alguém não gosta de um disco específico, não é um problema. Existem muitos discos no mundo, você pode ouvir outra coisa e gostar, sabe? Você pode gostar daqui a cinco anos ou 15 anos, quem sabe?

Existem muitos discos que são lançados que eu não gosto, e tem muitos discos que eu gosto. Quem se importa? (Risos) Não vou sair por aí ligando para o artista. Então, é isso, a gente continua fazendo o que faz. Eu saio, olho para o céu, olho para as árvores lá no alto e penso: "Nossa, que incrível, né? Preciso registrar isso. Quero escrever algo tão bonito quanto isso." Essa é realmente a minha inspiração.


RtM: Inclusive houve a transição de "The House of Atreus" do estúdio para a produção teatral alemã "Klytaimnestra", e foi certamente um marco.
Nessa produção, atores de teatro tradicional , em vez de cantores de heavy metal, interpretaram suas composições.
Como compositor e arranjador, como foi dirigir esses artistas e adaptar sua música para esse ambiente teatral?
David Defeis: Foi definitivamente um marco! Quando assisti a um ensaio completo no teatro, pensei comigo mesmo: "Uau... talvez esta música possa e vá sobreviver muito depois de eu virar pó".

Trabalhar com aqueles atores, muitos dos quais não eram cantores realmente experientes, foi um desafio, mas também uma inspiração. Descobri que quando existem limites... limitações como tais... em qualquer capacidade, se pensarmos neles não como limites, mas como desafios, então a porta se abre para maior criatividade e improvisação. 

Eu sou totalmente a favor da improvisação (em todos os aspectos da minha vida), é isso que me mantém em movimento e é isso que alimenta minhas composições.


RtM: "The House of Atreus" continua sendo uma das obras mais queridas pelos fãs. Quão desafiador foi traduzir a brutalidade, as maldições de sangue e a intensidade emocional da tragédia grega antiga em uma ópera metal, preservando o poder bruto do seu estilo "romântico bárbaro"?
David Defeis: Traduzir toda aquela brutalidade, maldições de sangue e emoções cruas não foi a parte mais difícil do trabalho... Isso veio naturalmente assim que me imergi completamente na história. 

Eu conhecia a história intimamente... emocionalmente, portanto, pude ficar "possuído" e, como um xamã, exalar todo aquele drama na música e na letra. O difícil foi condensar a obra para que não se tornasse uma peça divagante que se prolongasse indefinidamente. Sim, é uma obra longa... três CDs completos! Mas, como eu disse, poderia ter sido ainda mais longa. 

Eu queria expandir, desenvolver... alongar, musicalmente, liricamente e emocionalmente, mas ainda assim acessível ao público de Rock/Metal. Quando comecei a trabalhar nela, sempre tive em mente que seria apresentado no palco como uma "Ópera", então o aspecto teatral sempre esteve em primeiro plano.


RtM: E há uma curiosidade interessante sobre a capa do álbum, que apresenta um escudo real que pertence à sua família, não é? Imagino que haja uma história fascinante por trás dessa relíquia.
Como ter uma peça tão pessoal da história da sua família na capa tornou essa história trágica de vingança, justiça e destino ainda mais significativa para você?
David Defeis: Sim, essa capa é um escudo que está na minha família há bastante tempo. O primo do meu pai, Cosimo, o trouxe de suas viagens e o presenteou à minha família. Ela estava pendurada na parede da casa onde cresci há anos. 

Quando saí de casa, ganhei de presente. Sempre quis que as capas dos álbuns do VIRGIN STEELE refletissem tanto a música contida neles quanto o ambiente/estilo de vida da época e do lugar onde a música foi criada. Sempre olho ao redor da minha casa para ver o que pode "falar comigo"... e aquela peça saltou aos meus olhos! Então eu disse: "É essa... é essa!" Então sim, ela tem um significado especial para mim.


RtM: Prosseguindo um pouco mais sobre alguns dos álbuns mais queridos por nós , e pela maioria dos fãs, no "The Marriage of Heaven and Hell (Parts I & II)". Durante esse período incrivelmente prolífico de composição, como vocês equilibraram a crueza e a agressividade da Parte I com a sofisticação melódica e os arranjos orquestrais da Parte II, de modo que ambos os álbuns se complementassem tão naturalmente?
David Defeis: Os dois álbuns foram essencialmente compostos ao mesmo tempo, com exceção das músicas EMALAITH, PROMETHEUS THE FALLEN ONE e CROWN OF GLORY (Unscarred). Essas três músicas foram escritas depois que gravamos toda a PARTE 1 e as faixas restantes da PARTE 2. Gravamos toda a PARTE 1 e boa parte da PARTE 2 simultaneamente. Sabíamos o que estaria na PARTE 1, então finalizamos todas essas faixas primeiro e depois voltamos e terminamos de onde tínhamos parado nas faixas da PARTE 2. 

O lado orquestral do projeto estava crescendo, e as faixas restantes da PARTE 2 realmente exigiam e se beneficiaram dessa abordagem mais sinfônica. O que resultou na coesão de ambos os discos decorre do fato de que as ideias para ambas as partes foram concebidas simultaneamente como uma única obra de grande escala.


RtM: Olhando para trás hoje, você vê esse "casamento" entre o Céu e o Inferno mais como uma reconciliação pacífica de nossa natureza dual, ou como um conflito eterno e necessário entre forças opostas?
David Defeis: Ambos. Quando essa dualidade é reconciliada/integrada... um novo e empolgante terceiro elemento surge... quando ambos estão em constante conflito, o desejo, a busca pela integração, permanece e seguirá em frente até que seja harmonizado.


RtM: E sobre o "The Passion of Dionysus",  que você colocou entre os dois álbuns mais desafiadores para você. Ele foi inspirado na tragédia grega de Eurípides para explorar a tensão entre razão e instinto, ordem e liberdade. Ao mesmo tempo, a capa do álbum é impactante, retratando você em imagens que evocam crucificação e martírio.
Como essa imagem poderosa e sacrificial se conecta com a paixão e o sofrimento de Dionísio em Tebas? 
David Defeis: A capa retrata Dionísio. Uma das várias maneiras pelas quais ele teria sido morto, além de ter sido despedaçado por suas seguidoras Mênades, é que ele foi pendurado em uma árvore... e existe, de fato, um antigo amuleto de cerca de 4.000 anos atrás que reflete esse cenário de crucificação. 

Dionísio é um dos muitos deuses-homens que morrem e ressuscitam, como Osíris, Adônis, Mitra, etc... e Jesus, que é o último de uma longa linhagem de tais seres. Dionísio sofre por suas crenças... pela liberdade que ele traz, por sua aparência, por sua história de origem... sua sensualidade, e a lista continua.


RtM: E como essa parábola mitológica reflete o que você vê hoje em um mundo cada vez mais dividido e lutando contra a perda da liberdade?
David Defeis: A cruz tem sido um símbolo sagrado desde os tempos anteriores à Lua. Os quatro braços da cruz representam os quatro elementos físicos: terra, fogo, água e ar. O quinto elemento é o espírito, que está ligado, preso ou pregado aos quatro primeiros elementos físicos/materiais. 

Uma pessoa crucificada representa uma alma/espírito preso/pregado ao corpo físico. Os pregos que prendem o ser humano à cruz são os nossos desejos humanos e, ao morrermos simbolicamente, descartamos ou nos livramos dos nossos desejos e da nossa natureza inferior e renascemos como Deus. 

Não mais "pregados" à cruz dos 4 elementos... estamos livres, desimpedidos... livres... Como mencionei há pouco, além de ser despedaçado, também se dizia que Dionísio foi pendurado na "Árvore"... ou, em essência, numa "Cruz"... onde morreu para a sua natureza inferior e renasceu. 

O Hierofante dos Mistérios de Dionísio, representando o próprio Deus, era simbolicamente "crucificado" durante essas magníficas celebrações rituais. Até mesmo Odin, da mitologia nórdica, teria sido pendurado de cabeça para baixo em uma árvore por nove noites.

Ele buscou isso por conta própria, sacrificando-se para obter sabedoria/conhecimento... então essa história de ser pendurado em uma árvore remonta a tempos muito antigos. Sim! Quando a liberdade está em jogo... o Deus se levanta.


RtM: Bom, estamos chegando na parte final da entrevista, então temos mais algumas perguntas finais. 

Neste mundo acelerado de hoje, dominado pelas redes sociais e pelo consumo imediato de informação. Você ainda acredita que o Heavy Metal tem ainda o poder de inspirar, transformar e elevar a vida das pessoas?
David DeFeis: Sim. Eu acredito que continua tendo esse poder.
Ainda encontro pessoas que estão descobrindo hoje artistas que eu conheci décadas atrás pela primeira vez. Vejo jovens ouvindo Led Zeppelin, Deep Purple, Virgin Steele e tantas outras bandas com a mesma paixão que eu senti quando descobri essa música. Isso mostra que essa força continua existindo.

A música sempre será capaz de emocionar e transformar as pessoas, desde que seja feita de maneira honesta.
Quando nasce do coração, das convicções do artista, ela permanece viva.



RtM: Você está sempre compondo, remixando álbuns e trabalhando em novos projetos, os relançamentos dos "Marriage" e "Life Among the Ruins" já estão chegando (N. do R.: Foram lançados dia 21/08). Além dessas reedições, já existe algum plano para um novo álbum?
David Defeis: Na verdade, temos algo em torno de três álbuns completos em diferentes estágios de produção. Há muita música pronta.
O primeiro a ser lançado será simplesmente aquele que terminarmos primeiro.
Estamos trabalhando em vários projetos ao mesmo tempo, e existe um deles que provavelmente será o próximo lançamento oficial.

Também estamos desenvolvendo esse projeto envolvendo um concerto e um filme, que falamos anteriormente.

Além disso, pensamos na possibilidade de lançar um álbum com raridades, mas não seria apenas uma coletânea, eu gostaria de incluir também músicas inéditas.
Existe uma enorme quantidade de material esperando o momento certo para ser finalizado.


RtM: Que maravilha! E outra pergunta que muitos fãs fazem: Edward Pursino ainda faz parte do Virgin Steele?
David DeFeis: Sim. Edward continua fazendo parte da banda. As pessoas não o veem mais no palco, mas ele continua gravando conosco.
Ele participou do último álbum e também está presente no material novo que estamos produzindo.

O Edward continua participando da parte de estúdio, apenas deixou de viajar conosco por motivos pessoais, que talvez ele próprio possa explicar melhor. Mas a porta permanece completamente aberta, se amanhã ele decidir voltar aos palcos, teremos novamente três guitarristas na banda. Será muito bem-vindo.

Aliás, mantenho contato com praticamente todos os antigos integrantes do Virgin Steele. Converso frequentemente com Rob DeMartino. Também falei recentemente com Joey Ayvazian.

Frank Gilchriest também continua próximo. Inclusive produzi uma música que ele escreveu e gravou. Sempre gostei de manter essas portas abertas. Quem fez parte da história da banda continua sendo parte da família.


RtM: Sobre o VS nas redes sociais, muitos fãs perguntam sobre isso, inclusive eu. O site oficial sempre traz novidades quando há um lançamento, mas você nunca foi muito ativo em redes sociais como Instagram ou Facebook. Existe alguma possibilidade de vermos você mais presente nesses canais? Ou simplesmente prefere dedicar seu tempo à música?
David DeFeis: Como eu disse anteriormente, esse não é o tipo de vida que escolhi viver.
Tenho sentimentos bastante contraditórios em relação às redes sociais. Reconheço que elas fizeram muito bem em determinadas situações e aproximaram muitas pessoas, mas também causaram muitos problemas.

Vivemos em uma época de excesso de informações falsas, teorias conspiratórias e uma necessidade constante de exposição. Prefiro manter certa distância disso. Nós usamos as redes sociais apenas quando realmente existe algo importante para comunicar, como um novo álbum, um show, um videoclipe, uma turnê.

Quando temos algo relevante para dizer, nós falamos. Mas não vejo sentido em aparecer todos os dias apenas para mostrar o que comi no café da manhã, o que almocei ou abrir caixas diante da câmera, isso simplesmente não me interessa.

Também não gostaria de ver Jimmy Page ou Robert Plant fazendo esse tipo de conteúdo! (risos)


RtM: Ótimos pontos de vista.
David Defeis: Yeah...Então... não faz sentido para mim agir dessa maneira, muitas pessoas acreditam que todo artista sonha em ser famoso, que todos querem ser a maior banda do planeta, tipo "olhem pra mim, olhem pra mim! Somos a maior banda da terra"! Nunca foi esse o objetivo do Virgin Steele, nosso objetivo sempre foi fazer a música em que acreditamos. É nisso que dedicamos nossa vida.

Quando estamos em turnê, estamos completamente presentes. Depois de cada shows, você me verá sempre com o público, cumprimentando, abraçando, conversando,  autografando o que quiserem...estar lá fisicamente.
Esse contato humano é muito mais importante para mim do que qualquer número de seguidores.

Se eu tiver algo realmente importante para compartilhar, vocês saberão, caso contrário, prefiro simplesmente continuar vivendo e criando música. Quando os novos videoclipes começarem a ser lançados, no fim de agosto, vocês voltarão a nos ver com mais frequência, até lá, prefiro deixar que a música fale por si.


RtM: E nós esperamos vocês mais presentes nos palcos também. Esperamos ver o Virgin Steele novamente no Brasil. Quem sabe no Bangers Open Air?
David DeFeis: Eu adoraria. Tivemos experiências maravilhosas no Brasil. O público brasileiro é absolutamente fantástico.

Sempre fomos recebidos com um entusiasmo incrível. Gostaria muito de voltar.
Se houver promotores ouvindo esta entrevista, saibam que temos total interesse em retornar.


RtM: Você se lembra das apresentações que fizeram no Brasil?
David DeFeis: Claro. Lembro dos shows em São Paulo e Curitiba. Também participamos de programas de rádio durante aquela visita. Foram momentos muito especiais. Gostei de cada minuto que passamos aí.

A energia do público brasileiro é realmente extraordinária. Espero sinceramente que possamos voltar em breve.


RtM: Após quase cinco décadas de Virgin Steele, qual você acredita ser o maior legado da banda?
David Defeis: A música. O vasto conjunto de obras que existe. As músicas que expandem os limites do que o Rock e o Metal podem ser.


RtM: Você costuma ouvir de músicos mais jovens que sua música os inspirou a formar bandas ou a seguir sua própria visão artística? Aqui no Brasil, por exemplo, a banda Phantom Star, que Lançou o álbum de estreia deles, em junho, citou você e o Virgin Steele como uma de suas maiores inspirações.
David Defeis: Eu recebo notícias de novas bandas que foram inspiradas pelo VIRGIN STEELE, e isso é sempre algo que eu pessoalmente acho muito gratificante, recompensador e que revigora a alma. Quando a música de alguém toca outra alma... mundos nascem... Agradeço muito por me falar sobre a banda PHANTOM STAR! Vou ouvir atentamente o que eles têm a oferecer!



RtM: Obrigado de coração David, há muito tempo queríamos fazer esta entrevista, e claro, há centenas de coisas ainda que gostaríamos de falar sobre esses 45 anos de VS. Deixamos este espaço para que você envie uma mensagem aos fãs brasileiros, que continuam aguardando seu retorno e também um novo álbum do Virgin Steele.
David DeFeis: Quero agradecer, de coração, a todos os fãs brasileiros. Nós adoramos tocar no Brasil. Voltaremos.
Novamente, se houver promotores assistindo ou lendo a esta entrevista, saibam que queremos muito tocar novamente aí.

Também teremos muita música nova chegando.
Obrigado por ouvirem nossa música. Obrigado por acreditarem no Virgin Steele durante todos esses anos. Obrigado por caminharem conosco.
Nós amamos vocês. Até muito em breve.

Agradeço a vocês dois, Carlos e Gabriel, por ouvirem, entenderem e por toda a gentileza e amizade.

With Noble Cheers and a LOUD…BY THE GODS!


Thanks to David Defeis and Mark (VS office) for your kindness.

Noble Cheers!