terça-feira, 19 de maio de 2026

Cobertura de Show: Draconian – 16/05/2026 – Carioca Club/SP

Hoje, o Draconian se destaca como um dos nomes mais importantes do gothic doom metal mundial e chega ao seu oitavo disco em uma fase interessante da carreira. Após dois álbuns com Heike Langhans nos vocais, o mais recente trabalho da banda marca o retorno de Lisa Johansson, vocalista original que havia deixado o grupo em 2012. Atualmente, a banda é formada por Anders Jacobsson nos vocais guturais, Lisa Johansson nos vocais limpos, Johan Ericson e Niklas Nord nas guitarras, Daniel Arvidsson no baixo e Jerry Torstensson na bateria.

Os suecos, junto da cantora Emma Ruth Rundle, estrearam sua turnê conjunta pela América Latina no sábado, 16 de maio, na Carioca Club.

Pela segunda vez no Brasil, a banda já conquista uma casa maior e forma uma legião de fãs que os esperavam ansiosos e curiosos pelo setlist, por se tratar do primeiro show da turnê.

Dessa vez, estavam acompanhados de Emma Ruth Rundle, que, apesar de não ser exatamente do doom metal, tem uma carreira consolidada tanto em seu projeto solo quanto na banda Marriages. Além disso, a artista também escreve poesias e pinta quadros.

Desde o começo da tarde já era possível ver muitos fãs ansiosos na porta do Carioca Club, casa em que o Draconian viria estrear seu novo álbum, In Somnolent Ruin. A banda chegou por volta das 14h para a passagem de som e, apesar do calor que fazia em São Paulo, fez um meet & greet gratuito para os fãs que estavam na porta, conversando e tirando fotos.

Apesar de alguns questionamentos sobre a organização da fila, o meet & greet começou pontualmente às 15h e, às 16h, a fila já contornava o quarteirão da casa. As camisetas deixavam bem claro que, além da banda principal, muitos também aguardavam ansiosamente pela cantora Emma.

As portas se abriram às 16h35, e os fãs foram entrando e se acumulando em frente ao palco enquanto aproveitavam uma ótima playlist do DJ da casa, que envolveu o Carioca ao som de bandas de metal mais sombrio, como Theatre of Tragedy e Paradise Lost.

Pontualmente às 18h, Emma entrou no palco, cumprimentou a plateia, sentou-se em sua cadeira e iniciou seu show apenas com voz e violão. Abrindo com Living With the Black Dog, de seu primeiro álbum, Some Heavy Ocean, era perceptível a curiosidade do público que, em grande parte, ainda não conhecia a carreira solo da cantora. Emma então finalizou sua primeira música, apresentou-se e agradeceu ao público por recebê-la tão bem em sua primeira vez no Brasil.

O estilo que Emma segue é mais próximo do dark folk e post-rock, com um clima introspectivo e sombrio, utilizando muitos elementos de ambiência no timbre da voz e do instrumento. É um estilo que, apesar de dialogar com a banda principal, se distancia bastante do que o público do metal costuma escutar.

Na segunda música, Arms I Know So Well, apesar de enfrentar um problema técnico com o som de seu violão, resolveu tudo rapidamente sozinha e continuou a música de onde havia parado, recebendo muito carinho da plateia. A artista utilizava uma técnica de dedilhado intercalada com palhetadas e afinava o violão diversas vezes para as diferentes músicas.

Seguiu com Citadel e Blooms of Oblivion, que pareceu ser uma das músicas mais aguardadas pelos fãs da cantora. Emma também trouxe ao setlist duas músicas ainda não lançadas, executadas pela primeira vez nesse show.

Quando seguiu para sua próxima música, Darkhorse, faixa de seu quarto álbum, fez uma dedicação: “Essa é para Jennie”, uma fã que lhe entregou um presente antes do show  um colar com um pingente de cavalo, simbolizando a capa do álbum. Inclusive, Emma usava o colar durante a apresentação, mostrando o carinho que tem por seus fãs.

Para finalizar, puxou Marked for Death e foi muito bem recebida pela plateia que estava ali para prestigiar sua estreia no Brasil. A cantora encerrou o show agradecendo ao público e, a pedido do fotógrafo, tirou a clássica foto com os fãs.

Emma fez uma belíssima apresentação, preparando o público presente com uma atmosfera sombria e intimista. Mesmo utilizando apenas voz e violão, entregou um show cheio de detalhes e sensibilidade. No entanto, era perceptível que parte da plateia não se interessou tanto pelo som da cantora, muitas vezes aproveitando o momento para conversar alto, o que interferia na experiência das demais pessoas, já que o som de Emma é mais delicado e qualquer barulho acabava atrapalhando. Apesar disso, Emma se emocionou durante o show, demonstrando gratidão por sua primeira apresentação no Brasil. É uma artista completa, que merece ainda mais espaço  talvez acompanhada de artistas com uma proposta mais próxima da sua.

Após o primeiro show, era notável uma movimentação na pista: alguns fãs de Emma indo para mais longe do palco e os fãs do Draconian se aproximando da grade. As cortinas se abriram às 19h05, dando início ao show da banda principal.

O Draconian iniciou sua apresentação com a estreia ao vivo de I Welcome Thy Arrow, faixa de seu mais recente álbum, In Somnolent Ruin. A plateia vibrava ainda mais com a entrada dos vocalistas Lisa Johansson e Anders Jacobsson. Após cumprimentarem a plateia, trouxeram duas músicas que não eram tocadas ao vivo desde 2019: The Wretched Tide e The Last Hour of Ancient Sunlight. A surpresa pareceu emocionar os fãs, que cantavam junto a plenos pulmões.

“The Wretched Tide” é originalmente gravada por Heike Langhans, antiga vocalista da banda que substituiu Lisa após sua primeira passagem pelo grupo. No entanto, Lisa conquistou todos com sua voz meiga e potente, interpretando a faixa de forma leve e emocionante.

Seguiram com Heavy Lies the Crown, conduzida pelos guitarristas Johan Ericson e Niklas Nord, trazendo um timbre sombrio e pesado logo complementado pela voz doce de Lisa. A música foi extremamente bem recebida pelo público, que acompanhava os vocalistas cantando junto. Durante a faixa, era possível ver Anders sinalizando para a mesa de som algum ajuste técnico, provavelmente relacionado ao retorno de palco.

Em seguida veio A Scenery of Loss, faixa também tocada na primeira passagem da banda pelo país. Anders iniciou a música com uma parte falada e, ao longo da canção, os dois vocalistas alternavam entre os guturais densos de Anders e os vocais agudos e melancólicos de Lisa. 

Anders parecia sentir profundamente a música durante as partes instrumentais, trazendo performances intensas e sensíveis  inclusive colocando a touca de seu sobretudo para criar uma estética ainda mais gótica. Lisa, por sua vez, entregava melancolia e delicadeza em um lindo vestido verde-escuro, além de demonstrar muita simpatia com a plateia, fazendo questão de olhar para as pessoas que estavam ali.

Seguindo para a próxima, as guitarras iniciaram e os fãs já previam o que vinha por aí: The Face of God. Também executada ao vivo pela primeira vez, a música foi apresentada por Anders durante a introdução enquanto a plateia gritava animada e acompanhava o ritmo com palmas.

Na sequência, vieram mais duas faixas do novo álbum também executadas ao vivo pela primeira vez: Asteria Beneath the Tranquil Sea e Cold Heavens. A primeira trouxe um momento mais introspectivo, com Lisa brilhando praticamente sozinha acompanhada apenas por camadas de synths e strings. Foi um dos momentos mais bonitos do show, e a cantora foi ovacionada pela plateia. Logo depois, Cold Heavens trouxe uma energia mais intensa e animada, fazendo o público cantar coros de “hey, hey, hey” e pular junto, emocionado.

Após os aplausos, Anders voltou a animar a plateia enquanto o baixista Daniel Arvidsson caminhava para a frente do palco levantando seu baixo com uma mão enquanto tocava, arrancando reações empolgadas do público. Muitos levantavam os celulares para registrar a performance.

Era a vez de Lustrous Heart, faixa do álbum Under a Godless Veil. No início, Anders pareceu novamente um pouco incomodado com algo relacionado ao microfone ou ao retorno, o que o fez atrasar levemente algumas entradas. Ainda assim, a performance da banda fez com que o público praticamente não percebesse a pequena falha. “Muito obrigado”, agradeceu o músico ao final.

Então chegou outra estreia ao vivo: Misanthrope River. Apesar de não ter levantado tanto a plateia quanto a faixa anterior, talvez por conta da expectativa criada anteriormente, foi um momento mais contemplativo do show.

Em seguida, Anders apresentou Heaven Laid in Tears (Angel’s Lament), faixa carregada de temas luciferianos e atmosfera gótica. O público claramente aguardava pela música e cantava alto junto aos vocalistas. Quase no final da música, fãs entregaram uma bandeira do Brasil para Lisa, que a ergueu durante o último refrão, emocionando a plateia. Após esse grande momento, a banda puxou a também inédita ao vivo Claw Marks on the Throne, seguida por Seasons Apart, cantada em coro pelo público junto de Lisa.

Para encerrar a noite, a banda agradeceu novamente aos fãs e iniciou uma de suas músicas mais conhecidas, The Sethian. Durante a música, Lisa se aproximou ainda mais da plateia, cantando ajoelhada bem próxima da grade.

Após um show carregado de sentimento, entrega e emoção, o Draconian estreou sua turnê latino-americana com uma apresentação completa, trazendo cinco músicas novas e diversos clássicos, deixando no público a sensação de ter assistido a uma performance intensa, fiel e memorável.





Realização: Sellout Tours



Emma Ruth Rundle – setlist:

Living With the Black Dog

Arms I Know So Well

Citadel

Blooms of Oblivion

(Sem nome) – Nova música

(Sem nome) – Nova música

Darkhorse

Marked for Death


Draconian – setlist:

I Welcome Thy Arrow

The Wretched Tide

The Last Hour of Ancient Sunlight

Heavy Lies the Crown

A Scenery of Loss

The Face of God

Asteria Beneath the Tranquil Sea

Cold Heavens

Lustrous Heart

Misanthrope River

Heaven Laid in Tears (Angels' Lament)

Claw Marks on the Throne

Seasons Apart

The Sethian

Dimmu Borgir: A Serpente Troca de Pele (Also In English)

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Por Michelle F. Santana 

Dimmu Borgir é uma das bandas mais importantes e influentes do black metal sinfônico, formada na Noruega em 1993 por Shagrath e Silenoz durante a ascensão da segunda onda do black metal norueguês. Conhecida por unir agressividade extrema, atmosferas sombrias e arranjos orquestrais grandiosos, a banda construiu sua identidade explorando temas ligados à morte, ocultismo, misantropia, espiritualidade e transformação humana, sempre equilibrando brutalidade e sofisticação musical.

Oito anos após "Eonian" (2018), o grupo retorna com Grand Serpent Rising, um álbum que resgata parte da essência mais obscura e agressiva do Dimmu Borgir sem abandonar completamente sua grandiosidade sinfônica.

Produzido novamente por Fredrik Nordström responsável por clássicos como "Puritanical Euphoric Misanthropia" (2001) e "Death Cult Armageddon" (2003) o disco aposta em uma sonoridade mais orgânica, visceral e equilibrada, priorizando riffs, atmosfera e intensidade ao invés de excessos orquestrais constantes. O retorno do produtor Fredrik reforça essa sensação de reconexão com as origens da banda. 

Após anos dividindo opiniões com trabalhos mais experimentais, Dimmu Borgir retorna de forma triunfal em Grand Serpent Rising, um álbum que reafirma a essência da banda, trazendo elementos que marcaram parte de sua trajetória.

Mesmo sendo um disco com 13 faixas, Grand Serpent Rising dificilmente se torna cansativo. Pelo contrário: a consistência das composições mantém a intensidade do começo ao fim. Os riffs estruturados, a orquestração é bem dosada, os vocais impecáveis de Shagrath e a atmosfera sombria fazem do álbum um verdadeiro prato cheio para fãs de black metal sinfônico. 

“Ascent” surge como um dos momentos mais fortes do álbum justamente por equilibrar peso, velocidade e atmosfera, remetendo diretamente ao Dimmu Borgir do início dos anos 2000. A guitarra de Silenoz brilham com precisão nessa faixa.

A faixa “The Qryptfarer” reforça o lado mais obscuro e agressivo do disco, sustentada por riffs marcantes e uma construção quase sufocante em determinados momentos.

“Ulvgjeld & Blodsødel”, cantada na língua nativa da banda, representa um retorno claro às raízes norueguesas do grupo. A faixa carrega uma atmosfera ritualística e sombria que aproxima novamente o Dimmu Borgir de elementos mais tradicionais do black metal, sem perder a grandiosidade característica da banda.

Em “Phantom of the Nemesis” que o álbum encontra seu ponto de equilíbrio mais impressionante. Aqui, o lado sinfônico reaparece, mas sem sufocar os riffs ou a agressividade das guitarras. Pelo contrário: a orquestração com os riffs reforçando a sensação cinematográfica sem transformar a música em um excesso de grandiosidade artificial. A faixa deixa claro que o elemento sinfônico continua sendo parte fundamental da identidade do Dimmu Borgir apenas mais equilibrado e melhor integrado à composição.

O encerramento com a instrumental “Gjoll” é outro grande acerto do álbum. Extremamente atmosférica, a faixa conduz o ouvinte por paisagens sombrias que remetem quase visualmente a florestas frias e obscuras do norte europeu. Os riffs mais arrastados, aliados às camadas ambientais e à construção melancólica da música, criam um fechamento preciso e elegante para o disco, encerrando Grand Serpent Rising com sensação de grandiosidade sem precisar recorrer a excessos.

E talvez seja justamente aí que esteja a força de Grand Serpent Rising: não em tentar reviver o passado, mas em compreender que até mesmo a escuridão evolui. Como uma serpente trocando de pele nas sombras das florestas norueguesas, o Dimmu Borgir retorna mais maduro, agressivo e consciente da própria identidade, transformando peso, melancolia e grandiosidade em um ritual sonoro sombrio e imponente.

***ENGLISH VERSION***

Dimmu Borgir is one of the most important and influential bands in symphonic black metal, formed in Norway in 1993 by Shagrath and Silenoz during the rise of the second wave of Norwegian black metal. Known for uniting extreme aggressiveness, dark atmospheres, and grandiose orchestral arrangements, the band built its identity by exploring themes related to death, occultism, misanthropy, spirituality, and human transformation, always balancing brutality and musical sophistication.

Eight years after "Eonian" (2018), the group returns with Grand Serpent Rising, an album that reclaims part of Dimmu Borgir's darkest and most aggressive essence without completely abandoning its symphonic grandiosity.

Produced once again by Fredrik Nordström—responsible for classics such as "Puritanical Euphoric Misanthropia" (2001) and "Death Cult Armageddon" (2003)—the record bets on a more organic, visceral, and balanced sound, prioritizing riffs, atmosphere, and intensity over constant orchestral excesses. The return of producer Fredrik reinforces this sense of reconnection with the band's origins.

After years of dividing opinions with more experimental works, Dimmu Borgir makes a triumphant return in Grand Serpent Rising, an album that reaffirms the band's essence, bringing back elements that marked part of their trajectory.

Even as a 13-track album, Grand Serpent Rising rarely becomes tiresome. On the contrary: the consistency of the compositions maintains the intensity from start to finish. The structured riffs, well-measured orchestration, Shagrath's flawless vocals, and the dark atmosphere make the album a true feast for symphonic black metal fans.

“Ascent” emerges as one of the album's strongest moments precisely because it balances heaviness, speed, and atmosphere, directly recalling the Dimmu Borgir of the early 2000s. Silenoz's guitars shine with precision on this track.

The track “The Qryptfarer” reinforces the darker and more aggressive side of the record, sustained by striking riffs and an almost suffocating structure at certain points.

“Ulvgjeld & Blodsødel”, sung in the band's native language, represents a clear return to the group's Norwegian roots. The track carries a ritualistic and dark atmosphere that once again brings Dimmu Borgir closer to more traditional elements of black metal, without losing the band's characteristic grandiosity.

It is in “Phantom of the Nemesis” that the album finds its most impressive point of balance. Here, the symphonic side reappears, but without suffocating the riffs or the aggressiveness of the guitars. On the contrary: the orchestration works with the riffs, reinforcing the cinematic feel without turning the music into an excess of artificial grandiosity. The track makes it clear that the symphonic element remains a fundamental part of Dimmu Borgir's identity—just more balanced and better integrated into the composition.

The closing with the instrumental “Gjoll” is another great success of the album. Extremely atmospheric, the track leads the listener through dark landscapes that almost visually evoke the cold, dark forests of Northern Europe. The slower, dragging riffs, combined with ambient layers and the song's melancholic build, create a precise and elegant closing for the record, ending Grand Serpent Rising with a sense of grandiosity without having to resort to excesses.

And perhaps that is precisely where the strength of Grand Serpent Rising lies: not in trying to revive the past, but in understanding that even darkness evolves. Like a serpent shedding its skin in the shadows of the Norwegian forests, Dimmu Borgir returns more mature, aggressive, and aware of its own identity, transforming heaviness, melancholy, and grandiosity into a dark and imposing sonic ritual.



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Cobertura de Show: Bangers Open Air – 26/04/2026 – Memorial da América Latina/SP

O segundo e último dia, domingo, chegou prometendo tanto quanto o primeiro, ou seja, muita gente para prestigiar mais 12 horas dos mais diferentes estilos dentro do metal, além de um sol forte como sempre, sem ameaças de chuva. Para quem chegou mais cedo, felizmente não houve problemas para entrar, conseguindo assistir às primeiras atrações do Ice e do Sun sem maiores transtornos. Ponto para os organizadores que, após as reclamações do dia anterior, decidiram liberar a entrada do público geral mais cedo.

Dessa vez, não consegui ter muito tempo para conferir as feiras e outras atrações que o festival oferece, como a feira geek, de tatuagem e gastronômica, nem mesmo a tão disputada signing session, com destaque para a do Within Temptation, onde a simpática e super receptiva Sharon den Adel fez questão de atender todos que não conseguiram pegar senha.

Outra coisa legal é ver a molecada – que até certa idade não paga – curtindo os shows ao lado de seus pais. E havia muitas presentes, ainda bem, pois é sinal de que o estilo estará mais vivo do que nunca daqui a alguns anos.

Infelizmente, eu, Gabriel Arruda, não consegui ver os piratas do Visions of Atlantis devido a problemas com o transporte público para chegar ao local do festival. Por sorte, consegui pegar os momentos finais dos alemães do Primal Fear, que sempre dão uma aula de como fazer um show de heavy metal. O destaque sempre vai para o excelente Ralf Scheepers, com seus incríveis agudos, e para Thalía Bellazecca, que vem assumindo muito bem o posto de guitarrista ao lado de Magnus Karlsson não só pela sua competência, mas também por ser uma das poucas mulheres negras dentro do estilo. Que, através dela, isso possa mudar. Mais uma vez não tivemos a presença do Matt Sinner devido a um acidente na sua perna. Dirk Schlächter, do Gamma Ray, acabou assumindo a missão. 

NEVERMORE HONRA O LEGADO DE WARREL DANE EM APRESENTAÇÃO MEMORÁVEL

Texto: Gabriel Arruda

Fotos: Edu Lawless

Depois de alguns minutos, era vez de pular para o palco Ice para ver um dos shows mais aguardados desta quarta edição. Jamais imaginaria que o Nevermore fosse retomar as atividades por conta da ausência de Warrel Dane, um de seus fundadores, falecido em 2017, e do baixista James Sheppard, que se aposentou há alguns anos.

Com prós e contras – mais prós, ainda bem – o guitarrista Jeff Loomis, junto com o baterista Van Williams, os únicos da formação original, decidiu voltar com uma nova formação para honrar o legado da banda, que foi muito importante no metal no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Esse retorno também permite conquistar uma nova geração de fãs e se apresentar para aqueles que nunca tiveram a oportunidade de ver a banda no passado, como foi o caso de muitas pessoas que estiveram no Bangers e também no side show, que aconteceu dois dias depois no Carioca Club. Vale lembrar que a banda já havia tido uma experiência em festivais no Brasil, se apresentando no extinto Live 'n Louder, em 2006. Ou seja, sabiam bem o que fazer.

Logo na abertura com Narcosynthesis, que também abre o estupendo Dead Heart in a Dead World (2000), já mostravam que não estavam para brincadeira. A banda estava muito bem ensaiada: Jeff – ao lado do jovem Jack Cattor – despejava riffs esmagadores, enquanto Van Williams, junto ao baixista Semir Özerkan, mantinha a versatilidade rítmica intacta. E, claro, o vocalista Berzan Önen mostrou que vem sendo a escolha certa para assumir o posto do saudoso Warrel, conseguindo emular suas características, mas também apresentando sua própria personalidade.

Por ser um festival, onde os shows são mais curtos e cronometrados, a banda precisou escolher bem as músicas do setlist. Mesmo com pouco tempo, fizeram bonito. Trouxeram músicas do This Godless Endeavor (1999), como My Acid Words e Born, tocadas mais para o final e grandes destaques do show. Até mesmo o pouco lembrado Enemies of Reality (2003) marcou presença com a faixa-título. No entanto, foram as músicas de Dead Heart in a Dead World (2000) que mais empolgaram os fãs: além de Narcosynthesis, vieram The River Dragon Has Come, Inside Four Walls e Engines of Hate, mostrando que o quinteto de Seattle ainda tem muito a oferecer. Sem dúvidas, um dos melhores shows do dia, fazendo valer a pena a espera.

EXPLOSÃO MODERNA SOB O SOL: AMARANTHE ENTREGA ENERGIA E CONEXÃO NO BANGERS OPEN AIR 2026 

Texto: Michelle F. Santana

Fotos: Edu Lawless

Sob um sol escaldante de aproximadamente 30 °C, às 15h em ponto no Hot Stage, o Amaranthe transformou a tarde do segundo dia de Bangers Open Air em um verdadeiro espetáculo de energia e intensidade. Formada em 2008, na Suécia, a banda se consolidou como um dos nomes mais marcantes do metal moderno, apostando em uma proposta pouco convencional: três vocalistas dividindo o protagonismo, Elize Ryd nos vocais limpos, Nils Molin também no limpo e Mikael Sehlin trazendo o peso gutural. Essa combinação, que poderia soar arriscada, ao vivo se mostra extremamente coesa e poderosa. Mesmo sob condições adversas, a banda entregou presença de palco impecável, performance carregada de paixão, conexão e explosão.

Conhecida por transitar entre diferentes vertentes sonoras, Amaranthe encontrou um público completamente entregue, diverso em idade, mas harmônico na intensidade. Era possível ver fãs cantando cada faixa com entusiasmo, transformando o show em uma experiência coletiva. A abertura já veio como um impacto direto, com “Fearless”, “Viral” e “Digital World” levando o público ao limite da euforia. No meio desse turbilhão, “Amaranthine” surgiu como um respiro emocional, delicada, luminosa, arrancando um coro forte e carregado de sentimento. No palco, Elize se mostrou extremamente carinhosa e conectada com o público, enquanto Nils trouxe uma energia visceral e Mikael sustentou o peso com brutalidade precisa, criando um equilíbrio que define a identidade da banda.

Com qualidade sonora consistente e vocais impecáveis, o Amaranthe entregou um show que alterna entre o intenso e o sensível, muito impulsionado pela suavidade e brilho da voz de Elize. Em sua segunda passagem pelo Brasil, a banda deixou claro que não veio para ser passageira. Ao contrário, reforçou sua força dentro do metal contemporâneo, mostrando que o gênero segue evoluindo, conquistando espaço e quebrando barreiras. Foi um show marcante, daqueles que não apenas entretêm, mas ficam, pulsando na memória de quem esteve ali, sob o mesmo sol, vivendo o espetáculo.

WINGER SE DESPEDE DO BRASIL COM SHOW CARREGADO DE CLÁSSICOS

Texto: Gabriel Arruda

Fotos: Edu Lawless

A tarde foi reservada para as bandas de hard rock. Em comparação às edições anteriores, este ano contou com a presença de poucas bandas do gênero, mas que acertaram na escolha, mesmo com essa “minimalização". Infelizmente, não foi possível assistir a todo o show dos suecos do Crazy Lixx, já que o Winger tocou praticamente no mesmo horário, o que gerou muitas reclamações por parte dos fãs que curtem ambas as bandas. Por conta da longa espera e, muito provavelmente, por ser a última chance de vê-los ao vivo no Brasil, muitos optaram pelo Winger, o que já era esperado.

Kip Winger, que dispensa apresentações, junto com os renomados Reb Beach (guitarra), Paul Taylor (teclado/guitarra), Rod Morgenstein (bateria) e o recém-chegado Howie Simon (guitarra), mostraram que a banda resistiu ao tempo, mesmo enfrentando certa rejeição e chacota — vide o caso da animação Beavis and Butt-Head e o famoso episódio do dardo arremessado por Lars Ulrich, baterista do Metallica, na foto de Kip.

Mesmo sem ter ensaiado e com pequenos problemas técnicos no início – que deixaram Kip e Reb visivelmente irritados – a banda conseguiu conquistar não só os fãs devotos, mas também aqueles que não são tão familiarizados com o grupo e passaram a apreciá-lo depois do que viram, contribuindo para tornar o show (repleto de clássicos) ainda melhor. E clássicos é o que não faltou. O setlist foi concentrado no primeiro álbum, homônimo, e no "In the Heart of the Young" (1990), com músicas como Seventeen, Can’t Get Enough, Miles Away, Rainbow in the Rose, Time to Surrender, Headed for a Heartbreak, Easy Come Easy Go e Madalaine. Do Pull (1993), apenas Down Incognito marcou presença, além de Stick the Knife In and Twist, do recente Seven (2023), que abriu o show de forma tímida. Uma pena a banda decidir encerrar as atividades, pois ainda se mostra em plena forma.

SMITH/KOTZEN TRANSFORMA ESTREIA EM UM DOS GRANDES MOMENTOS DO BANGERS OPEN AIR

Texto: Gabriel Arruda

Fotos: Edu Lawless

O penúltimo show do palco Ice foi um dos mais aguardados desde o anúncio, principalmente por se tratar de uma estreia. Estou falando, é claro, do Smith/Kotzen, talvez o melhor duo surgido nos últimos anos. Quem, em sã consciência, imaginaria Ritchie Kotzen ao lado do grande Adrian Smith, do Iron Maiden, criando um projeto que unisse suas influências em comum. O resultado foi um excelente disco de estreia, lançado durante a pandemia, que traz fortes influências do hard rock setentista e do blues, ou seja, um classic rock de primeira, que ao vivo soa ainda melhor. 

O mais interessante é ver que os dois, ao lado dos brasileiros Bruno Valverde (bateria) e Julia Lage (baixo), não seguem um protocolo rígido no palco. É simplesmente uma banda tocando como se estivesse em um ensaio: fazendo jams, trocando sorrisos e olhares de forma espontânea, como em um show intimista. Outro destaque é o lado vocal do Adrian, que surpreende com um timbre muito marcante. Já Bruno e Julia impressionam pela energia e maestria, reforçando ainda mais o peso e a qualidade da banda com toda a experiência que carregam.

O setlist não trouxe muitas surpresas, apesar do mistério criado por Bruno e Julia em entrevista aqui na Road To Metal. Ainda assim, músicas como Life Unchained, Black Light e Blindsided se destacaram logo de cara, ao lado de Taking My Chances e Darkside, que conta com um solo maravilhoso de Adrian. Got a Hold on Me, um hard/blues fulminante, também empolgou o público.  Por mais previsível que fosse, Wasted Years, composição de Adrian no Iron Maiden, marcou presença no set. E, no fim das contas, tinha que ser ela para encerrar um dos melhores shows do dia.

ENTRE NOSTALGIA E INTENSIDADE: WITHIN TEMPTATION TRANSFORMA O BANGERS OPEN AIR 2026 EM UM ESPETÁCULO EMOCIONAL



No segundo dia de festival, pontualmente às 18h25, no Ice Stage do Bangers Open Air 2026, o Within Temptation subiu ao palco e fez mais do que um show, construiu uma experiência emocional que atravessou gerações. Formada em 1995, na Holanda, e liderada pela icônica Sharon den Adel, a banda entregou um setlist profundamente nostálgico, costurando diferentes fases da carreira com precisão e sensibilidade. A abertura com “Go to War”, faixa do álbum Bleed Out (2023) que curiosamente ficou de fora da última passagem pelo Brasil, já indicava o tom da apresentação. Em seguida, clássicos como “The Howling”, “Stand My Ground” e “Bleed Out” incendiou o público, que se entregou a um coro potente, guiado pela voz lírica de Sharon em contraste com o peso das guitarras. Em “Ritual”, Sharon dedicou às mulheres, a banda reforçou sua mensagem de empoderamento, ecoando forte em uma plateia diversa e conectada.

Sharon brilhou com uma presença magnética, com suas danças, conduzindo o público com naturalidade e emoção. Na primeira metade do show, sua voz parecia guardar força, como se preparasse o terreno para o que viria e veio. Após mencionar o calor intenso, mesmo no início da noite, a apresentação ganhou outra dimensão a partir de “In the Middle of the Night” e “Forsaken”, elevando a energia a um nível quase catártico. A inclusão de “Paradise (What About Us?)”, eternizada na colaboração com Tarja Turunen, intensificou ainda mais o clima épico. Era impossível não notar a quantidade de fãs vestindo camisetas da banda pelo festival, um reflexo claro de sua relevância e conexão com o público ao longo dos anos.

Na reta final, o Within Temptation transformou emoção em memória viva com as músicas “Ice Queen” e "Mother Earth", que em um dos momentos mais simbólicos do show, Sharon dedicou “Mother Earth” ao Brasil, destacando o país como uma nação de riquezas naturais imensas, o que deu à música um peso emocional ainda maior ao vivo, trouxe lágrimas e um coro carregado de nostalgia, reafirmando o impacto duradouro da banda. Mais do que técnica impecável, o grupo entrega significado: suas músicas transitam entre o íntimo e o político, denunciando mazelas do mundo enquanto criam um espaço de pertencimento. O resultado foi um espetáculo intenso, diverso e profundamente humano um daqueles momentos que ultrapassam o palco e se instalam na memória de quem esteve presente. Within Temptation não é apenas uma banda; é parte da história afetiva de seus fãs. E, naquela noite, escreveu mais um capítulo inesquecível.


COM UMA REUNIÃO HISTÓRICA, ANGRA ENTREGA O SHOW MAIS SIMBÓLICO DE SUA CARREIRA


Enfim, chegamos ao último show do dia. Normalmente, em festivais grandes como o Bangers, uma banda internacional de grande porte é escolhida como headliner. Para a surpresa de muita gente, o Angra foi o nome escolhido para encerrar essa quarta edição. Mas não seria um show comum, como os fãs estão acostumados a ver. Na ocasião, a organização, junto com o management da banda, idealizou uma reunião histórica: Edu Falaschi (vocal), Kiko Loureiro (guitarra) e Aquiles Priester (bateria) se juntaram aos remanescentes Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli para um encontro que muitos, como eu, achava improvável. Além disso, o show marcou o encerramento de um ciclo e o início de outro, com a saída de Fabio Lione e a entrada de Alírio Netto como seu substituto.

Tudo aconteceu conforme prometido, até mais. O show passeou por todas as fases da banda ao longo de seus 35 anos, com uma produção de palco surpreendente com pirotecnia e uma passarela que aproximava ainda mais os músicos do público. Nesse quesito, foi, sem dúvida, a melhor experiência visual ao vivo da história da banda.

Mesmo com pouco tempo de ensaio, todos entregaram o máximo de seu potencial — com destaque para Bruno, que ensaiou apenas uma vez devido à sua agenda com o projeto Smith/Kotzen. Apesar do nervosismo, Alírio fez uma boa estreia ao cantar músicas da fase do saudoso Andre Matos, começando por Nothing to Say e Angels Cry, demonstrando personalidade e competência. Impressiona não só sua presença de palco — muito influenciada por sua experiência no teatro —, mas também sua coragem. Após muito tempo fora do repertório, “Wuthering Heights” voltou ao set sem depender de convidados, mostrando que ele está pronto para encarar esse desafio.

Era visível a emoção de Alírio durante o show. Vale lembrar que ele quase integrou a banda no passado, após a saída de Edu Falaschi. Esse sentimento ajudou a encerrar o primeiro ato com Carolina IV, do Holy Land (1996), e que não era executada há bastante tempo. Ainda sobre esse primeiro ato, tivemos a última participação de Fabio Lione como vocalista do Angra, interpretando Tides of Changes (Part I & II), Lisbon e Vida Seca. No entanto, sua participação poderia ter sido mais extensa, incluindo mais músicas de sua fase. Fica a impressão de que houve certo desconforto: o volume de seu microfone parecia mais baixo em comparação ao de Alírio e Edu. Ainda assim, o Mago, como é conhecido, mostrou por que é uma força da natureza, superando qualquer adversidade com sua performance consistente. Segundo relatos de amigos que estavam presentes, Fabio não permaneceu no palco durante todo o restante do show, preferindo ficar no meio do público, tirando fotos e aproveitando o momento, retornando apenas no final – o que pode ajudar a explicar essa percepção.

O segundo e principal ato do show foi o mais comemorado da noite. Afinal, depois de dezenove anos, Rafael, Felipe, Kiko, Edu e Aquiles estavam ali juntos novamente. Não importavam deslizes, erros ou mesmo ausências – o que realmente importava era que todos estavam reunidos outra vez, em paz entre si e com os rancores do passado deixados de lado. Foi uma verdadeira reunião, como o próprio espetáculo se propõe, privilegiando os clássicos de Rebirth, que neste ano completa 25 anos. O público pôde celebrar músicas como Nova Era, Millennium Sun, Heroes of Sand, Acid Rain e a faixa-título, além de outros clássicos dessa fase, como Waiting Silence, Ego Painted Grey, a mais pop Bleeding Heart – embalada por um mar de luzes que parecia alcançar até a estação Barra Funda do metrô – e Spread Your Fire.

Já o terceiro e último ato começou de forma emocionante, com uma homenagem ao saudoso Andre Matos. Um vídeo foi exibido mostrando o vocalista na época em que ainda integrava a banda, durante um show no Japão, acompanhado da primeira parte de Silence and Distance, inicialmente executada de forma mecânica, antes de Alírio Netto e Edu Falaschi – que dividiram os vocais –, ao lado de Marcelo Barbosa, Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt – protagonizando a primeira aparição do grupo com três guitarristas, algo muito aguardado pelos fãs –, Felipe Andreoli e Bruno Valverde darem continuidade à música. Ainda houve tempo para a formação Nova Era – como é conhecida o line-up responsável pelos álbuns Rebirth (2001), Temple of Shadows (2004) e Aurora Consurgens (2006) – retornar ao palco em Late Redemption, com Alírio dividindo os vocais novamente com Edu. A célebre Carry On, com todos reunidos no palco, encerrou um show que, mesmo antes de acontecer, já havia entrado para a história, deixando a expectativa de que essa reunião volte a acontecer mais vezes.


O Bangers Open Air vem, ano após ano, se consolidando como um dos principais festivais de música do país. Isso simboliza um sentimento de orgulho, pois o heavy metal segue mostrando seu devido valor em uma terra onde, muitas vezes, estilos mais fúteis recebem maior atenção.

Em especial nesta edição, tanto o público que acompanha o festival desde a primeira realização quanto aqueles que tiveram a oportunidade de vivenciar essa experiência pela primeira vez demonstraram um apoio incomensurável. Afinal, esta quarta edição foi uma das mais difíceis de ser realizada devido a algumas baixas na organização, mas, felizmente, resistiu a todas as adversidades graças ao apoio massivo do público, que compareceu em peso nos dois dias e quase levou o festival ao sold out, algo inédito em relação às edições anteriores.

Agora, resta a expectativa e a ansiedade para 2027, que certamente promete ser novamente uma experiência memorável para os fãs de música pesada.


Realização: Bangers Open Air

Press: Agência Taga


Nevermore – setlist:

Narcosynthesis

Enemies of Reality

The River Dragon Has Come

Beyond Within

Inside Four Walls

Engines of Hate

My Acid Words

Born


Amaranthe – setlist:

Fearless

Viral

Digital World

Damnation Flame

Maximize

Strong

PvP

The Catalyst

Chaos Theory

Amaranthine

The Nexus

Call Out My Name

Archangel

That Song

Drop Dead Cynical


Winger – setlist:

Stick the Knife In and Twist

Seventeen

Can't Get Enuff

Down Incognito

Miles Away

Rainbow in the Rose

Time to Surrender

Headed for a Heartbreak

Easy Come Easy Go

Madalaine


Smith/Kotzen – setlist:

Life Unchained

Black Light

Wraith

Blindsided

Taking My Chances

Darkside

Got a Hold on Me


Within Temptation – setlist:

We Go to War

The Howling

Stand My Ground

Bleed Out

Ritual

In the Middle of the Night

The Heart of Everything

Faster

Wireless

Lost

Forsaken

Paradise (What About Us?)

Don't Pray for Me

Ice Queen

Mother Earth

White Noise

Scars

Running

Wasted Years


Angra – setlist:

Ato I

Nothing to Say

Angels Cry

Tide of Changes - Part I e Part II

Lisbon

Vida seca

Wuthering Heights

Carolina IV


Ato II

Nova Era

Waiting Silence

Millennium Sun

Heroes of Sand

Ego Painted Grey

Bleeding Heart

Spread Your Fire

Acid Rain

Rebirth


Ato III

Silence and Distance

Late Redemption

Carry On

Moonlight Haze: O poder da melodia sob uma estética cinematográfica (Also In English)

Scarlet Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

A italiana Moonlight Haze retorna com Interstellar Madness, EP que reforça sua posição entre os nomes mais consistentes da atual geração do symphonic power metal europeu. 

Apostando em uma combinação de grandiosidade cinematográfica, melodias de forte apelo emocional e refinamento técnico, o grupo liderado pela vocalista Chiara Tricarico amplia a identidade construída ao longo de sua trajetória sem perder o senso de acessibilidade melódica que sempre caracterizou sua música. Produzido por Sascha Paeth, o trabalho mergulha em atmosferas cósmicas e emoções intensas com uma abordagem mais madura, dinâmica e sofisticada.

A abertura com “Moonlight Legion” entrega exatamente o que o público do power metal melódico espera — mas com execução acima da média. Guitarras velozes, bumbo duplo pulsante e linhas de teclado expansivas sustentam uma faixa construída para soar grandiosa sem cair no excesso caricatural que frequentemente compromete bandas do gênero. O diferencial está justamente na interpretação de Chiara Tricarico: ao evitar o exagero operístico típico de parte do symphonic metal, a cantora privilegia uma abordagem mais direta e rock’n’roll, conferindo personalidade e fluidez à composição. Os coros monumentais e os arranjos sinfônicos ampliam o impacto épico da faixa sem sufocar sua estrutura melódica.

Na sequência, “Lost in Moonlit Symphonies” mantém a intensidade elevada enquanto evidencia ainda mais as influências clássicas da banda. O diálogo entre o vocal principal e os corais funciona de maneira extremamente eficiente, criando uma atmosfera quase teatral sem perder o senso de urgência característico do power metal europeu. A seção rítmica segue impulsionada em alta velocidade, enquanto guitarras e teclados dividem protagonismo de forma equilibrada. Mais uma vez, Chiara se destaca pela capacidade de alternar delicadeza e potência sem soar artificial ou excessivamente técnica.

A terceira faixa reduz parcialmente a velocidade para explorar novas nuances dentro da proposta do EP. Embora os elementos sinfônicos permaneçam presentes, eles cedem espaço para guitarras mais pesadas e uma base rítmica mais agressiva, aproximando a sonoridade de territórios contemporâneos do metal melódico. A introdução de vocais guturais acrescenta contraste e profundidade à composição, enriquecendo a dinâmica do álbum sem descaracterizar a essência da banda. É justamente nesse momento que Interstellar Madness demonstra maior ambição artística, evitando a armadilha da repetição estrutural que frequentemente limita lançamentos do gênero.

“Shine” recoloca o EP em uma abordagem mais tradicional, mas com um refinamento composicional superior. A introdução construída sobre guitarras e linhas vocais melódicas estabelece imediatamente um clima envolvente, enquanto os arranjos distribuem protagonismo entre todos os instrumentos de forma orgânica e inteligente. O trabalho vocal impressiona não apenas pela técnica, mas pelo controle emocional e pela maneira como cada camada é utilizada para ampliar a carga dramática da música sem transformá-la em algo excessivamente pomposo. Há um equilíbrio raro entre exuberância e contenção.

A faixa-título, “Interstellar Madness”, representa o momento mais ambicioso e teatral do EP. A introdução carregada de mistério rapidamente evolui para uma combinação de guitarras pesadas, teclados atmosféricos e arranjos corais que remetem diretamente às raízes mais cinematográficas do symphonic metal. Aqui, o lirismo vocal aparece de maneira muito mais evidente, inclusive com trechos interpretados em italiano, reforçando o caráter dramático da composição. Elementos como o cravo emulado nos teclados, os corais grandiosos e as passagens instrumentais ajudam a construir uma experiência quase narrativa. Ainda assim, a banda demonstra inteligência ao quebrar constantemente a densidade da música com mudanças de dinâmica, inserções mais agressivas e até passagens com vocais extremos, evitando que a faixa se torne excessivamente indulgente. É o ponto em que Moonlight Haze revela maior maturidade na construção de atmosferas.

O encerramento com “Interstellar Madness: Finale” funciona mais como epílogo cinematográfico do que como composição essencial. Embora a instrumental tenha utilidade na ambientação conceitual do EP, sua inclusão transmite certa sensação de apêndice, como se servisse mais para ampliar artificialmente a duração do lançamento do que para acrescentar algo verdadeiramente indispensável à experiência.

Ainda assim, Interstellar Madness confirma o excelente momento vivido por Moonlight Haze. O EP evidencia uma banda cada vez mais segura de sua identidade, capaz de equilibrar virtuosismo, emoção e acessibilidade sem soar previsível ou excessivamente formulaica. Para fãs de symphonic power metal moderno, trata-se de um lançamento forte, elegante e artisticamente mais maduro do que grande parte das produções recentes do estilo.

***ENGLISH VERSION***

Italian outfit Moonlight Haze return with Interstellar Madness, an EP that further solidifies their place among the most consistent names in the current European symphonic power metal scene.

Blending cinematic grandeur, emotionally charged melodies, and refined musicianship, the band led by vocalist Chiara Tricarico expands upon the identity they have built throughout their career without sacrificing the melodic accessibility that has always defined their sound. Produced by Sascha Paeth, the release dives into cosmic atmospheres and intense emotions with a more mature, dynamic, and sophisticated approach.

Opening track “Moonlight Legion” delivers exactly what fans of melodic power metal expect — but with execution that rises above the genre’s average standards. Fast-paced guitars, relentless double bass drumming, and expansive keyboard arrangements sustain a song designed to sound massive without falling into the exaggerated caricature that often undermines bands within the style. The key difference lies in Chiara Tricarico’s performance: by avoiding the overly operatic tendencies common to parts of symphonic metal, she opts for a more direct and rock-oriented delivery, giving the composition greater personality and fluidity. Monumental choirs and symphonic orchestrations amplify the track’s epic impact without overwhelming its melodic core.

Following that, “Lost in Moonlit Symphonies” maintains the EP’s high intensity while further highlighting the band’s classic influences. The interplay between the lead vocals and layered choruses works exceptionally well, creating an almost theatrical atmosphere without sacrificing the urgency that defines European power metal. The rhythm section continues at full speed, while guitars and keyboards share the spotlight in a balanced and organic way. Once again, Chiara stands out for her ability to shift between delicacy and power without sounding artificial or excessively technical.

The third track partially slows the pace in order to explore new textures within the EP’s framework. Although the symphonic elements remain present, they make room for heavier guitars and a more aggressive rhythmic foundation, pushing the sound toward more contemporary melodic metal territory. The inclusion of harsh vocals adds contrast and depth to the composition, enriching the EP’s dynamics without compromising the band’s essence. It is precisely here that Interstellar Madness reveals greater artistic ambition, avoiding the structural repetition that often limits releases within the genre.

“Shine” brings the EP back toward a more traditional direction, albeit with a noticeably more refined compositional approach. Its introduction, built around melodic guitar lines and expressive vocal arrangements, immediately establishes an engaging atmosphere, while the instrumentation distributes prominence among all members in a natural and intelligent way. The vocal performance impresses not only through technical ability, but through emotional control and the careful use of layered harmonies to intensify the song’s dramatic weight without becoming overly pompous. There is a rare balance between exuberance and restraint.

The title track, “Interstellar Madness”, represents the EP’s most ambitious and theatrical moment. A mysterious introduction quickly evolves into a blend of heavy guitars, atmospheric keyboards, and grand choral arrangements that directly evoke the cinematic roots of symphonic metal. Here, the vocal theatricality becomes far more pronounced, including passages sung in Italian that reinforce the composition’s dramatic character. Elements such as harpsichord-like keyboard textures, majestic choirs, and extended instrumental sections help shape an almost narrative experience. Even so, the band demonstrates intelligence by constantly breaking the song’s density through dynamic shifts, heavier passages, and even moments featuring extreme vocals, preventing the track from becoming self-indulgent. It is the clearest example of Moonlight Haze’s growing maturity in atmosphere-building and songwriting.

Closing piece “Interstellar Madness: Finale” works more as a cinematic epilogue than as an essential composition. While the instrumental serves a purpose within the EP’s conceptual atmosphere, its inclusion carries a slight sense of redundancy, as though it exists more to extend the release’s runtime than to add something truly indispensable to the overall experience.

Even so, Interstellar Madness confirms the excellent creative phase currently enjoyed by Moonlight Haze. The EP showcases a band increasingly confident in its identity, capable of balancing virtuosity, emotion, and accessibility without sounding predictable or excessively formulaic. For fans of modern symphonic power metal, this is a strong, elegant, and artistically mature release — one that stands above much of the genre’s recent output.

Beatrice Demori

Cobertura de Show - Maestrick - 17/05/26 (Gravador Pub - POA/RS)

Por: Renato Sanson

Fotos: Cristiano Cruz/Renato Sanson

 

No último domingo, Porto Alegre recebeu o encerramento da turnê gaúcha da banda paulista Maestrick, promovendo o excelente “Expresso Della Vita: Lunare” (3° álbum da carreira). Depois de passarem por Pelotas e Caxias do Sul, a capital foi responsável pelo fechamento dessa sequência de apresentações no Rio Grande do Sul, em um show realizado no Gravador Pub.

E que experiência foi finalmente assistir o Maestrick ao vivo.

Mesmo já conhecendo os integrantes pessoalmente há algum tempo, essa foi minha primeira oportunidade de acompanhar a banda no palco, e a impressão não poderia ter sido melhor. O grupo entregou exatamente aquilo que os fãs esperam: técnica absurda, musicalidade refinada, peso, emoção e uma execução praticamente impecável do começo ao fim.

Para esta turnê, a banda contou também com a presença do guitarrista convidado Gabriel Veloso (Storia), agregando ainda mais peso e consistência às apresentações ao vivo. O entrosamento no palco foi evidente durante toda a noite, reforçando ainda mais a riqueza musical das composições executadas.

Ao vivo, o Maestrick consegue elevar ainda mais a proposta musical apresentada em estúdio. Cada integrante demonstra domínio absoluto do instrumento, mas sem transformar a apresentação em algo frio ou excessivamente técnico. Existe sentimento em cada passagem, em cada dinâmica e principalmente na interpretação de Fábio Caldeira, que conduziu o show com presença e proximidade com o público presente.

Um dos grandes momentos da noite aconteceu durante a música “Pescador”, que ganhou uma interpretação especial com a participação do vocalista Jonathas Pozo (Rage In My Eyes) dividindo os vocais com Fábio. A performance ainda contou com a participação do guitarrista Alexandre Tellini, tornando a execução uma das mais marcantes da noite e arrancando ótima reação do público presente.

Infelizmente, o evento contou com um público abaixo do que uma banda desse nível merece. Ainda assim, os presentes fizeram valer a noite, acompanhando atentamente cada música e criando um clima bastante respeitoso e caloroso dentro da casa. Foi uma apresentação que claramente merecia um alcance maior.

Outro ponto que acabou impactando parcialmente a experiência foi a sonorização do local, que em alguns momentos não conseguiu entregar toda a clareza necessária para uma banda com tantos detalhes e camadas musicais quanto o Maestrick. Soma-se a isso a limitação de horário da casa, que encerra atividades às 22h, obrigando a banda a encurtar o setlist e retirar cerca de duas músicas da apresentação.

Mesmo assim, o encerramento aconteceu de forma especial. Já nos momentos finais do show, Fábio perguntou ao público qual música deveria fechar a noite. A escolhida foi “Ethereal”, faixa do novo álbum, e sinceramente, não poderia existir encerramento melhor. A música trouxe aquele clima épico, emotivo e grandioso que resume perfeitamente a essência da banda atualmente.

Apesar das limitações da noite, o saldo final foi extremamente positivo. Ver o Maestrick ao vivo foi uma experiência marcante, daquelas que reafirmam o quanto ainda existem bandas nacionais produzindo material de altíssimo nível dentro do Prog Metal mundial.

Que o grupo retorne em breve ao Rio Grande do Sul, e que da próxima vez encontre o público que realmente merece.


Maestrick Spotify 
Instagram