quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Wednesday 13: Uma História Ainda em Movimento (Also In English)

Napalm Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Há algo particularmente apropriado em registrar uma carreira como a de Wednesday 13 diante de uma das maiores multidões da história do rock europeu. Em 2025, o Pol’and’Rock Festival reuniu centenas de milhares de pessoas no Czaplinek-Broczyno Airfield, na Polônia, e foi nesse cenário gigantesco que Joseph Michael Poole levou ao palco uma versão concentrada de mais de duas décadas de horror rock, punk, metal e sleaze.

O resultado chega agora em Un-Alive from Pol’and’Rock 2025, um registro ao vivo que, mais do que revisitar o passado, funciona como uma fotografia bastante precisa do momento atual de Wednesday 13.

A primeira impressão é a de uma banda que não tem qualquer interesse em esconder sua natureza atrás de uma produção excessivamente polida. Captado diretamente da mesa de som, o álbum preserva uma aspereza que joga a favor da proposta. As guitarras soam pesadas, a bateria mantém tudo em movimento e os vocais naturalmente roucos de Wednesday 13 carregam aquele desgaste que, longe de ser um problema, tornou-se parte fundamental de sua identidade. Há pouco verniz aqui — e ainda bem.

É justamente essa característica que faz Un-Alive soar como um show, e não como uma gravação de estúdio disfarçada de álbum ao vivo. O público está presente, a banda está solta e existe uma sensação permanente de que tudo pode descambar para o caos a qualquer momento. Para um artista cuja carreira sempre esteve associada a personagens, horror e teatralidade, é uma combinação que funciona.

Mas o verdadeiro interesse do álbum está na maneira como seu setlist organiza uma trajetória que já atravessa mais de vinte anos. São quinze músicas e aproximadamente uma hora de apresentação — tempo insuficiente para transformar o disco em uma retrospectiva definitiva. Ainda assim, a seleção consegue atravessar diferentes capítulos da carreira sem cair na armadilha de simplesmente empilhar maiores sucessos.

A viagem começa com “Blood Fades To Black”, de Calling All Corpses, de 2011, antes de recuar para os primeiros anos da carreira solo com “Look What The Bats Dragged In” e “I Want You Dead”, de Transylvania 90210: Songs of Death, Dying and the Dead. O álbum de estreia solo de Wednesday 13, lançado em 2005, é um dos pilares do repertório e ainda retorna mais adiante com “I Walked With A Zombie” e, no encerramento, “Bad Things”.

“I Walked With A Zombie”, em particular, é um daqueles temas que parecem ter sido feitos para sobreviver ao tempo. No contexto do Pol’and’Rock, ganha ainda mais força graças à resposta da plateia, deixando claro que a conexão entre Wednesday 13 e seu público não depende apenas da nostalgia.

O repertório avança então por diferentes momentos da carreira. The Dixie Dead aparece representado por “Too Fast For Blood”, enquanto Horrifier, de 2022, contribui com “Good Day To Be A Bad Guy”. O passado, portanto, está devidamente representado, mas Wednesday 13 não está interessado em transformar a apresentação em um museu.

Mid Death Crisis, seu álbum de estúdio mais recente, recebe quatro representantes: “There’s No Such Thing As Monsters”, “Rotting Away”, “When The Devil Commands” e “In Misery”. É uma presença significativa — exatamente o mesmo número de músicas dedicado a Transylvania 90210 — e revela uma escolha importante: as novas composições não estão ali apenas para cumprir tabela. Elas precisam dividir o palco com músicas que há muito tempo fazem parte do imaginário do público, e conseguem fazê-lo sem parecer intrusas. E então existe o Murderdolls.

“Summertime Suicide”, “197666” e “Nowhere” recuperam uma das fases mais cultuadas da trajetória de Poole e estabelecem uma ponte direta com o período em que dividiu o projeto com Joey Jordison. São músicas que carregam uma identidade própria e que, décadas depois, continuam perfeitamente integradas ao universo de Wednesday 13.

“Nowhere” ganha ainda uma dimensão especial quando Wednesday 13 presta homenagem a Ozzy Osbourne antes de executá-la. É um daqueles momentos que fazem um registro ao vivo ultrapassar a simples documentação de um concerto e adquirir valor como retrato de uma época.

O encerramento com “I Love To Say Fuck” também não é uma escolha aleatória. Originalmente pertencente aos Frankenstein Drag Queens From Planet 13, projeto que antecedeu Murderdolls e a carreira solo, a faixa funciona quase como uma assinatura do personagem Wednesday 13. Sua presença fecha um círculo que conecta Frankenstein Drag Queens, Murderdolls e sua carreira solo — três capítulos diferentes de uma mesma identidade artística.

É justamente aí que a setlist revela sua maior qualidade e, ao mesmo tempo, sua principal limitação.

Para apenas quinze músicas, a seleção é surpreendentemente abrangente. Há espaço para os Frankenstein Drag Queens, Murderdolls, diferentes momentos da carreira solo e, sobretudo, para o material mais recente. O problema é que o catálogo de Wednesday 13 é grande demais para caber em uma hora.

Fang Bang, Skeletons, Condolences e Necrophaze ficam sem representação direta, enquanto boa parte de Calling All Corpses também permanece de fora, apesar de “Blood Fades To Black” funcionar como seu representante. E há uma longa fila de músicas que poderiam perfeitamente reivindicar um lugar: “I Wanna Be Cremated”, “Ghoul of My Dreams”, “Candle for the Devil”, “From Here To The Hearse” e “Decompose”, entre outras.

Por isso, chamar Un-Alive de um “best of” seria forçar a barra. É um bom setlist, certamente, mas não uma retrospectiva definitiva. E talvez nem devesse ser.

Afinal, este não é um álbum concebido para resumir toda a carreira de Wednesday 13. É o registro de um show específico, em um momento específico, quando Mid Death Crisis estava apresentando uma nova etapa da carreira. Nesse contexto, a presença expressiva do álbum mais recente faz todo sentido. O passado está representado, mas não domina o presente.

Essa talvez seja a melhor maneira de ouvir Un-Alive from Pol’and’Rock 2025: não como um Greatest Hits Live, mas como uma fotografia de uma carreira que continua em movimento.

Murderdolls está ali. Frankenstein Drag Queens está ali. Os primeiros discos solo estão ali. Mas Mid Death Crisis também reivindica seu espaço — e a banda parece determinada a provar que suas músicas mais recentes não precisam se esconder atrás dos clássicos.

Musicalmente, o álbum entende perfeitamente o que um grande festival exige de Wednesday 13. Músicas diretas, refrãos para serem berrados por uma multidão, peso suficiente para manter a adrenalina elevada e uma dose generosa de teatralidade. A banda soa coesa, os vocais mantêm a personalidade e o público é incorporado à gravação de maneira natural.

É nesse ponto que Un-Alive ganha força. Não há a preocupação de transformar o show em uma peça de museu, nem de apresentar uma versão excessivamente comportada de Wednesday 13. O disco quer transmitir energia — e consegue.

A principal ressalva, portanto, está menos na execução do que naquilo que ficou de fora. Quinze músicas inevitavelmente significam escolhas e sacrifícios quando o artista possui uma discografia tão extensa. Alguns fãs certamente sentirão falta de determinados clássicos, mas essa mesma ausência serve para dimensionar o tamanho do repertório acumulado por Wednesday 13.

Talvez o verdadeiro problema de Un-Alive seja justamente esse: quando o artista possui material suficiente para preencher vários discos ao vivo, qualquer seleção de uma hora estará inevitavelmente incompleta.

No fim, porém, é difícil ignorar a imagem que permanece. Wednesday 13 conseguiu transformar horror, punk, metal, hard rock e uma boa dose de teatralidade em uma identidade que é imediatamente reconhecível. Mais de duas décadas depois de I Walked With A Zombie, ele ainda consegue colocar uma multidão gigantesca para cantar suas músicas em uníssono.

Un-Alive from Pol’and’Rock 2025 não é a palavra final sobre a carreira de Wednesday 13 — e nem pretende ser. É algo mais interessante: um instantâneo vivo, barulhento e genuinamente espontâneo de uma história que ainda está sendo escrita.

***ENGLISH VERSION***

There is something particularly fitting about documenting a career like Wednesday 13’s in front of one of the biggest crowds in European rock. In 2025, Poland’s Pol’and’Rock Festival drew hundreds of thousands of people to the Czaplinek-Broczyno Airfield, and it was against this colossal backdrop that Joseph Michael Poole took the stage with a condensed dose of more than two decades of horror rock, punk, metal and sleaze.

The result is Un-Alive from Pol’and’Rock 2025, a live album that, rather than simply looking back, offers a remarkably accurate snapshot of where Wednesday 13 stands today.

The first impression is of a band with no interest in hiding behind an overly polished production. Captured straight from the soundboard, the album retains a raw edge that works entirely in its favour. The guitars hit hard, the drums keep everything moving and Wednesday 13’s naturally ragged vocals carry the kind of wear and tear that, far from being a weakness, has become an essential part of his identity. There is very little gloss here — and that is precisely the point.

It is this quality that makes Un-Alive sound like a live show rather than a studio recording dressed up as one. The crowd is present, the band sounds loose and there is a constant sense that things could tip into chaos at any moment. For an artist whose career has always been built around characters, horror and theatricality, it is a combination that works remarkably well.

But the real fascination of the album lies in the way its setlist maps out a career that now spans more than two decades. Fifteen songs and roughly an hour of music are nowhere near enough to turn this into a definitive career retrospective. Even so, the selection manages to move through several chapters of Wednesday 13’s history without falling into the trap of simply assembling a greatest-hits package.

The journey begins with “Blood Fades To Black”, from 2011’s Calling All Corpses, before moving back to the early days of his solo career with “Look What The Bats Dragged In” and “I Want You Dead”, from Transylvania 90210: Songs of Death, Dying and the Dead. His 2005 solo debut is one of the pillars of the set, returning later with “I Walked With A Zombie” and, in the closing stretch, “Bad Things”.

“I Walked With A Zombie”, in particular, is one of those songs that seems built to outlive its era. At Pol’and’Rock, it gains even more impact from the response of the crowd, making it clear that Wednesday 13’s connection with his audience is about more than nostalgia.

The set then moves through other stages of his career. The Dixie Dead is represented by    “Too Fast For Blood”, while 2022’s Horrifier contributes “Good Day To Be A Bad Guy”. The past is certainly represented, but Wednesday 13 has no intention of turning the show into a museum piece.

His most recent studio album, Mid Death Crisis, gets four songs — “There’s No Such Thing As Monsters”, “Rotting Away”, “When The Devil Commands” and “In Misery”. That is a significant presence, and exactly the same number of tracks given to Transylvania 90210. It also says something important about the set: the new material isn’t there simply to fill space. These songs have to share the stage with tracks that have been part of the audience’s musical vocabulary for years, and they manage to hold their own. And then there’s Murderdolls.

“Summertime Suicide”, “197666” and “Nowhere” revisit one of the most revered chapters of Poole’s career, establishing a direct link to the period when he shared the project with Joey Jordison. These songs have a character all of their own and, decades later, still fit naturally into the Wednesday 13 universe.

“Nowhere” takes on an added dimension when Wednesday 13 pays tribute to Ozzy Osbourne before performing it. It is one of those moments that allows a live recording to become more than a simple document of a concert and instead capture something of its particular moment in time.

The closing “I Love To Say Fuck” is equally telling. Originally recorded by Frankenstein Drag Queens From Planet 13, the project that preceded Murderdolls and his solo career, the song works almost like a signature for the Wednesday 13 persona. Its inclusion closes a circle connecting Frankenstein Drag Queens, Murderdolls and his solo work — three different chapters of essentially the same artistic identity.

And that is where the setlist reveals both its greatest strength and its most obvious limitation.

For just fifteen songs, the selection is impressively broad. Frankenstein Drag Queens, Murderdolls, various stages of the solo career and, most importantly, the current material all get their moment. The problem is that Wednesday 13’s catalogue has simply grown too large to fit comfortably into an hour.

Fang Bang, Skeletons, Condolences and Necrophaze receive no direct representation, while much of Calling All Corpses is also left untouched despite “Blood Fades To Black” serving as its representative. And there is a long list of songs that could easily have made a case for inclusion: “I Wanna Be Cremated”, “Ghoul of My Dreams”, “Candle for the Devil”, “From Here To The Hearse” and “Decompose”, among others.

So calling Un-Alive a “best of” would be stretching the point. It is a strong setlist, certainly, but not a definitive retrospective. And perhaps it was never meant to be one.

After all, this is not an album designed to summarize Wednesday 13’s entire career. It captures one particular show at one particular point in time, when Mid Death Crisis was introducing the next chapter of his story. In that context, the significant presence of the latest album makes perfect sense. The past is represented, but it does not overshadow the present.

Perhaps that is the best way to approach Un-Alive from Pol’and’Rock 2025: not as a Greatest Hits Live, but as a snapshot of a career that is still moving forward.

Murderdolls is here. Frankenstein Drag Queens is here. The early solo albums are here. But Mid Death Crisis also demands its share of the spotlight — and the band seems determined to prove that the newer material has no need to hide behind the classics.

Musically, the album understands exactly what a major festival demands from Wednesday 13. Direct songs, choruses designed to be screamed back by a massive crowd, enough weight to keep the adrenaline pumping and a generous dose of theatricality. The band sounds tight, the vocals retain their unmistakable character and the audience becomes a natural part of the recording.

That is where Un-Alive really hits its mark. There is no attempt to turn the performance into a museum piece, nor to present an overly sanitized version of Wednesday 13. The album wants to convey energy — and it does.

The main caveat, then, lies less in the execution than in what has been left out. Fifteen songs inevitably mean choices and sacrifices when an artist has accumulated such an extensive catalogue. Some fans will undoubtedly miss certain favourites, but those omissions also serve to underline just how much material Wednesday 13 now has behind him.

Perhaps the real problem with Un-Alive is precisely that: when an artist has enough material to fill several live albums, any one-hour selection is inevitably going to feel incomplete.

In the end, though, the lasting impression is of an artist who has turned horror, punk, metal, hard rock and a generous dose of theatricality into an instantly recognisable identity. More than two decades after I Walked With A Zombie, he can still make a gigantic crowd sing his songs back at him as one.

Un-Alive from Pol’and’Rock 2025 is not the final word on Wednesday 13’s career — nor does it try to be. It is something more interesting: a living, noisy and genuinely spontaneous snapshot of a story that is still being written.

Anna D Flux

terça-feira, 29 de setembro de 2026

City of Lights: A Nova Tradição do AOR (Also In English)

Pride And Joy Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Há uma diferença importante entre uma banda que demonstra potencial e outra que começa a transformar esse potencial em identidade. Quatro anos depois de Before The Sun Sets, seu álbum de estreia, o City Of Lights parece ter chegado justamente a esse ponto de inflexão.

Formado em 2018 a partir da parceria entre o compositor e guitarrista britânico Neil Austin e o vocalista grego Manos Fatsis, o grupo nasceu de uma combinação pouco convencional. Para dar vida às primeiras composições, Austin recrutou a seção rítmica de sua banda favorita, o sueco Degreed, formada pelo baixista Robin Eriksson e pelo baterista Mats Eriksson. A química funcionou tão bem que aquilo que inicialmente parecia apenas uma colaboração acabou se transformando em uma banda propriamente dita. Posteriormente, o guitarrista britânico Nathan Doyle, velho amigo de Austin, juntou-se oficialmente ao grupo, completando a formação atual.

Before The Sun Sets apresentou uma banda claramente ancorada no melodic hard rock e no AOR, mas já disposta a ir além das fórmulas mais previsíveis do gênero. O novo City Of Lights, porém, representa um passo diferente. A sensação aqui não é mais a de músicos procurando estabelecer seu espaço, mas a de uma banda que compreendeu suas forças e sabe exatamente como utilizá-las.

A primeira impressão é de maturidade, consistência e, sobretudo, liberdade. O álbum preserva os elementos que formaram a base do som do grupo — grandes melodias, refrãos marcantes, guitarras expressivas, harmonias vocais e uma produção moderna —, mas amplia consideravelmente seu campo de atuação. O AOR continua sendo uma referência evidente, assim como o hard rock melódico europeu das décadas de 1980 e 1990, mas o City Of Lights não está interessado em simplesmente reproduzir essa tradição.

É justamente nessa relação entre tradição e personalidade que o álbum encontra seu maior mérito.

Há momentos em que a banda aposta diretamente na fórmula mais acessível do melodic rock, como em “Just Like Yesterday” e “One More Night”. Em outros, prefere ampliar as estruturas e explorar territórios mais ambiciosos. “City Of Lights”, “Unbreakable” e “Masquerade” introduzem elementos progressivos sem descaracterizar a proposta, enquanto “Learn To Live” e “Care For You” revelam um lado mais contemplativo, permitindo que a dinâmica do disco respire e que as emoções assumam o primeiro plano.

É essa variedade que torna a audição particularmente fluida. A monotonia simplesmente não encontra espaço aqui. As influências são perceptíveis, mas aparecem na medida certa, incorporadas a uma composição que procura preservar personalidade própria. O álbum pode mudar de direção, andamento e atmosfera, mas nunca perde sua identidade.
No centro dessa equação está Manos Fatsis. Se no primeiro álbum sua voz já era uma das características mais evidentes do grupo, aqui ela encontra um repertório capaz de explorar muito mais de suas possibilidades. Fatsis transita entre potência, melodia, dramaticidade e delicadeza com impressionante naturalidade, mas talvez seu maior mérito esteja na maneira como escolhe os timbres e a intensidade adequados a cada composição. 

A variedade musical do álbum oferece ao vocalista espaço de sobra para demonstrar sua versatilidade. Fatsis não precisa recorrer à força o tempo inteiro para se impor; sabe quando atacar, quando segurar e, principalmente, quando deixar a melodia trabalhar a seu favor. É uma interpretação que contribui diretamente para a personalidade de cada faixa e, consequentemente, para a unidade do álbum.

As guitarras também merecem atenção especial. A chegada definitiva de Nathan Doyle acrescenta uma segunda personalidade ao trabalho de Austin, permitindo que riffs, harmonias e solos assumam maior protagonismo. A dupla demonstra precisão e técnica tanto nas bases quanto nos solos e, igualmente importante, nas passagens sem distorção.

Os solos, por sua vez, não parecem existir apenas para cumprir uma função obrigatória dentro do melodic hard rock. Em vários momentos, funcionam como extensão das próprias canções, ajudando a conduzir suas melodias e emoções. A participação de Magnus Berglund, do Arctic Rain, em “Beautiful & Broken”, Daniel Johansson, do Degreed, em “Unbreakable”, e Viktor Őstrőm Berg, do Care Of Night, em “One More Night”, acrescenta ainda outras nuances ao trabalho de seis cordas.

Na base, Robin e Mats Eriksson confirmam a experiência adquirida no Degreed. Baixo e bateria transitam com segurança entre as diferentes atmosferas do disco, sustentando os momentos mais pesados sem ocupar espaço desnecessário quando teclados, guitarras e vocais precisam assumir o protagonismo. É uma seção rítmica que entende que peso não significa necessariamente excesso.

Essa mesma noção de equilíbrio se estende à produção. Tudo parece encontrar seu lugar dentro da mixagem: teclados, guitarras, voz, baixo e bateria aparecem com definição, sem que nenhum elemento pareça estar ali apenas para preencher espaço. O resultado é particularmente importante em um álbum que percorre tantas atmosferas diferentes. Manter essa diversidade sem fazer com que determinadas faixas pareçam deslocadas exige um trabalho cuidadoso de produção e masterização — e aqui ele funciona.

O álbum soa contemporâneo, mas não tenta esconder suas raízes. As referências ao AOR clássico estão presentes, porém City Of Lights não soa como uma peça de arqueologia musical. A banda não tenta recriar os anos 1980; utiliza a linguagem daquela época para construir algo que pertence ao presente.

Também chama atenção a maneira como o álbum trabalha suas emoções. As letras passam por perda, sonhos frustrados, imperfeição humana, saúde mental, amor, amizade e pelos vínculos criados através da música. São temas que poderiam facilmente cair em clichês dentro do gênero, mas a interpretação de Fatsis e a variedade dos arranjos impedem que o disco fique preso a uma única atmosfera.

Entre os momentos mais diretos e radiofônicos e as passagens mais progressivas e introspectivas, City Of Lights funciona como um álbum que não tem pressa de mostrar todas as suas cartas de uma vez. E talvez seja justamente por isso que ele recompense audições sucessivas: quanto mais a estrutura do disco se revela, mais clara fica a intenção por trás de sua diversidade.

Se Before The Sun Sets foi responsável por colocar o nome City Of Lights no radar dos apreciadores de melodic rock, o novo álbum representa algo mais significativo: a consolidação de uma identidade.

Não se trata apenas de uma evolução técnica ou de uma produção mais sofisticada. O que se percebe é uma banda que encontrou um ponto de equilíbrio entre suas referências, suas experiências individuais e aquilo que deseja apresentar como grupo. City Of Lights reafirma, assim, a posição do City Of Lights como uma força relevante dentro do atual cenário do melodic hard rock, ao mesmo tempo em que demonstra que seus horizontes não precisam estar limitados às fronteiras mais tradicionais do gênero.

Em um estilo que frequentemente oscila entre a reverência ao passado e a repetição de fórmulas já estabelecidas, o City Of Lights encontra uma terceira possibilidade: respeitar a tradição sem se tornar prisioneiro dela.

E talvez seja exatamente por isso que este segundo álbum seja tão importante. O City Of Lights já não está apenas mostrando o que sabe fazer. Está deixando claro quem é.

***ENGLISH VERSION***

There is an important difference between a band that shows potential and one that begins to turn that potential into an identity. Four years after Before The Sun Sets, their debut album, City Of Lights appear to have reached precisely that turning point.
Formed in 2018 through the partnership of British songwriter and guitarist Neil Austin and Greek vocalist Manos Fatsis, the band emerged from a rather unconventional combination. To bring his early compositions to life, Austin recruited the rhythm section of his favourite band, Swedish melodic rock outfit Degreed — bassist Robin Eriksson and drummer Mats Eriksson. The chemistry worked so well that what initially looked like a one-off collaboration eventually evolved into a fully-fledged band. British guitarist Nathan Doyle, a longtime friend of Austin, later joined officially, completing the current line-up.

Before The Sun Sets introduced a band firmly rooted in melodic hard rock and AOR, but already willing to push beyond the genre's more predictable formulas. The new City Of Lights, however, represents a different step forward. This no longer sounds like musicians trying to establish where they belong, but like a band that has figured out exactly what its strengths are — and how to make the most of them.

The first impression is one of maturity, consistency and, above all, freedom. The album retains the elements that shaped the band's sound — strong melodies, memorable choruses, expressive guitars, layered vocal harmonies and modern production — while considerably widening its scope. AOR remains an obvious reference point, as does the European melodic hard rock of the 1980s and ’90s, but City Of Lights are not interested in simply recreating that tradition.

It is precisely in that balance between tradition and personality that the album finds its greatest strength.

There are moments when the band goes straight for the accessible side of melodic rock, as on “Just Like Yesterday” and “One More Night”. Elsewhere, the songwriting takes a more ambitious route. “City Of Lights”, “Unbreakable” and “Masquerade” introduce progressive elements  compromising the band's identity, while “Learn To Live” and “Care For You” reveal a more reflective side, allowing the album to breathe and giving its emotional dimension room to take centre stage.

That variety is one of the reasons the record is such an easy listen. There is simply no room for monotony. The band's influences are easy to recognise, but they are used in the right measure, absorbed into songwriting that consistently strives to retain its own character. The album can change direction, pace and atmosphere, yet never loses its identity.

At the centre of it all is Manos Fatsis. If his voice was already one of the defining features of the debut, here he is given material that allows him to explore his range far more fully. Fatsis moves effortlessly between power, melody, drama and restraint, but perhaps his greatest strength lies in the way he chooses the right tone and vocal colour for each song.

The album's musical diversity gives the vocalist plenty of room to demonstrate his versatility. Fatsis does not need to rely on sheer power at every turn; he knows when to push, when to hold back and, most importantly, when to let the melody do the heavy lifting. His performance contributes directly to the character of each song and, ultimately, to the cohesion of the album as a whole.

The guitars deserve equal attention. Nathan Doyle's official arrival adds a second personality to Austin's work, allowing riffs, harmonies and solos to take on a more prominent role. The pair display precision and technique not only in the heavier passages and lead work, but also in the cleaner sections, where restraint becomes just as important as firepower.

The solos, meanwhile, never feel like obligatory genre decoration. At several points they function as an extension of the songs themselves, helping to carry their melodies and emotional weight. The additional contributions from Magnus Berglund of Arctic Rain on “Beautiful & Broken”, Daniel Johansson of Degreed on “Unbreakable”, and Viktor Őstrőm Berg of Care Of Night on “One More Night” add further shades to the album's six-string palette.

At the foundation of it all, Robin and Mats Eriksson bring the experience accumulated through their work with Degreed. Bass and drums move confidently through the album's shifting moods, providing weight when required without crowding the space needed by the keyboards, guitars and vocals. It is a rhythm section that understands that heaviness does not necessarily mean excess.

That same sense of balance extends to the production. Everything seems to occupy its rightful place in the mix: keyboards, guitars, vocals, bass and drums all have definition, with no element feeling as though it has been added merely to fill space. That becomes particularly important on an album that moves through so many different atmospheres. Maintaining that diversity without making individual tracks feel disconnected requires careful production and mastering — and here, it works.

The album sounds contemporary without attempting to disguise its roots. The influence of classic AOR is unmistakable, yet City Of Lights never feels like a piece of musical archaeology. The band is not trying to recreate the 1980s; it is using the language of that era to create something that belongs to the present.

There is also a striking emotional dimension to the record. The lyrics touch on loss, shattered dreams, human imperfection, mental health, love, friendship and the bonds created through music. These are themes that could easily slip into cliché within the genre, but Fatsis' interpretation and the variety of the arrangements prevent the album from becoming trapped in a single emotional register.

Moving between direct, radio-friendly moments and more progressive, introspective passages, City Of Lights is an album that does not feel the need to show all its cards at once. And perhaps that is precisely why it rewards repeated listens: the more familiar its architecture becomes, the clearer the intention behind its diversity appears.

If Before The Sun Sets put the City Of Lights name on the radar of melodic rock fans, the new album represents something more significant: the consolidation of an identity.

This is not simply a matter of technical progression or more sophisticated production. What emerges is a band that has found a balance between its influences, its individual experiences and what it wants to represent collectively. City Of Lights therefore reaffirms the band's position as a significant force in today's melodic hard rock scene, while also making it clear that its horizons need not remain confined to the genre's traditional boundaries.

In a style that so often swings between reverence for the past and repetition of established formulas, City Of Lights finds a third way: respect the tradition without becoming a prisoner of it.

And perhaps that is precisely what makes this second album so important. City Of Lights are no longer simply showing what they can do. They are making it clear who they are.

Divulgação 

domingo, 27 de setembro de 2026

Airbourne: Quando o Rock N' Roll Não Precisa Pedir Licença

Spinefarm Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Há bandas que usam um álbum homônimo para marcar um recomeço. O Airbourne faz algo um pouco diferente em seu sexto trabalho de estúdio: coloca o próprio nome na capa como se estivesse fincando uma bandeira. Airbourne, lançado em 4 de setembro de 2026 pela Spinefarm Records, chega sete anos depois de Boneshaker e funciona menos como uma reinvenção e mais como uma declaração de identidade. É o Airbourne em sua forma mais concentrada: guitarras altas, bateria seca e explosiva, refrões feitos para multidões, solos que não economizam atitude e uma relação quase religiosa com o rock de arena.

A produção ajuda bastante nessa proposta. Brian Howes, que já havia trabalhado com a banda em Black Dog Barking, retorna à produção, enquanto Mike Fraser assume novamente a engenharia de som e Zakk Cervini fica responsável pela mixagem. As gravações passaram pelo Music Farm, próximo a Byron Bay, utilizando equipamentos Neve historicamente ligados às gravações de AC/DC, Rose Tattoo e outros nomes fundamentais do rock australiano. Não é um detalhe meramente decorativo: o disco foi construído para soar grande, físico e, principalmente, como uma banda tocando rock’n’roll com o amplificador no limite.

E há uma questão inevitável antes mesmo de chegar à primeira faixa: AC/DC. O Airbourne nunca escondeu essa influência. Joel O’Keeffe já declarou que considera o AC/DC a maior banda de rock’n’roll de todos os tempos e, portanto, não vê a comparação como um problema. A diferença é que, neste álbum, o Airbourne parece menos interessado em provar que consegue escapar dessas referências e mais interessado em mostrar o que consegue fazer dentro delas.

Divulgação 

1. Gutsy

Começar um álbum homônimo com uma música chamada Gutsy é quase uma declaração de princípios. A faixa entra sem pedir licença, com aquele tipo de riff que imediatamente estabelece a identidade do disco. A guitarra de Joel O’Keeffe chega acompanhada por uma bateria que parece empurrar tudo para frente, enquanto o vocal rouco mantém aquela mistura de provocação e celebração que é praticamente uma assinatura do Airbourne.

O interessante é que Gutsy não tenta ser sofisticada. Ela trabalha justamente com a eficiência do hard rock clássico: riff forte, verso direto, refrão grande e espaço suficiente para que cada instrumento respire. E existe uma razão para ela funcionar tão bem como abertura. A música já vinha sendo apresentada ao vivo antes do lançamento do álbum e, segundo a própria banda, foi escolhida como a primeira amostra justamente por representar essa postura de enfrentamento.


2. Alive After Death (Last Plane Out)

Se Gutsy apresenta a identidade, Alive After Death mostra o quanto o Airbourne consegue transformar essa identidade em uma grande canção.

A música tem uma construção particularmente eficiente. A guitarra conduz tudo com uma sensação de urgência, enquanto Joel canta como se estivesse disputando espaço com os próprios amplificadores. O refrão é daqueles que parecem existir para serem devolvidos pelo público.

Mas existe algo mais interessante aqui. A letra transforma a própria experiência do rock em uma espécie de mecanismo de sobrevivência: enquanto houver música, palco e alguém disposto a tocar, a história continua. Essa ideia conversa diretamente com o tema de legado que reaparece no final do álbum.


3. Here She Comes

Aqui aparece uma das primeiras pequenas surpresas do disco. Here She Comes ainda tem guitarras enormes e o mesmo senso de espetáculo, mas sua construção é mais melódica. Existe uma atmosfera quase de power ballad, só que filtrada pelo vocabulário do Airbourne. O resultado não abandona o peso, apenas permite que a música respire um pouco mais.

E há uma história curiosa por trás dela. A faixa nasceu durante uma tempestade que atingiu o estúdio onde a banda gravava em Byron Bay. A situação foi tão intensa que uma árvore caiu perto do ônibus onde Justin Street estava dormindo. A experiência acabou inspirando a imagem de “Here she comes” associada ao furacão e, posteriormente, a letra ganhou o conhecido duplo sentido característico da banda.

A participação de Bryan Adams e Mutt Lange na composição também ajuda a explicar por que a faixa apresenta um acabamento um pouco diferente. Em vez de simplesmente acelerar, o Airbourne trabalha aqui com uma melodia mais aberta e um refrão feito para arenas.


4. Kid In A Candy Store

Se existe uma faixa que recupera imediatamente o Airbourne mais descarado, é Kid In A Candy Store. O riff tem aquela sujeira deliciosa do hard rock tradicional, enquanto Joel conduz a música com uma interpretação que parece sorrir enquanto canta. A estrutura é simples, mas o arranjo tem detalhes suficientes para evitar que ela seja apenas mais uma faixa rápida.

O breakdown no meio é especialmente interessante porque deixa a guitarra brincar com uma linguagem mais próxima do hard rock oitentista, antes de devolver a música para sua estrutura principal. É um daqueles momentos em que o Airbourne mostra que conhece muito bem o repertório que está revisitando.


5. Sky High

Depois de quatro músicas que praticamente atropelam o ouvinte, Sky High reduz um pouco a velocidade. A faixa tem um andamento mais controlado e um riff mais arrastado, permitindo que o peso apareça de maneira diferente. É um daqueles momentos em que o Airbourne prova que não precisa estar permanentemente acelerado para soar agressivo.


6. Who Put The Rhythm In You?

A segunda parceria com Bryan Adams e Mutt Lange é uma das composições mais interessantes do disco porque apresenta uma camada mais calculada de composição.
O riff continua sendo Airbourne, mas existe uma preocupação maior com a construção do refrão. A música tem aquele tipo de gancho que permanece na cabeça depois que a faixa termina.


7. Christmas Bonus

Agora chegamos ao momento mais controverso do disco. Christmas Bonus é uma faixa deliberadamente vulgar, sexual e caricata. Musicalmente, ela segue a cartilha do Airbourne com competência, mas sua letra trabalha com um humor que pode facilmente envelhecer pior do que os riffs.

A própria banda nunca pretendeu tratá-la como uma canção natalina convencional. Pelo contrário: a ideia nasceu justamente da vontade de fazer algo completamente distante dos tradicionais clichês natalinos. O solo de guitarra brinca com a linguagem natalina e transforma o clichê em parte do arranjo, o que dá à faixa uma camada musical mais interessante do que sua letra poderia sugerir.


8. Last Man Standing

E então o disco volta a ficar muito forte. Last Man Standing tem uma construção de hino clássico. O riff inicial já cria aquela sensação de “música de entrada”, enquanto o refrão parece pedir uma multidão inteira cantando junto.

É uma faixa menos acelerada, mas talvez mais pesada justamente por causa disso. As guitarras trabalham com acordes largos e bastante espaço entre as frases, e Joel utiliza a voz com uma agressividade controlada que combina muito bem com o andamento. É um dos momentos em que a banda consegue transformar simplicidade em impacto.


9. Rock 'N' Roll Ya

Se Last Man Standing é um hino, Rock 'N' Roll Ya é praticamente uma convocação. A música tem uma estrutura extremamente direta, com um refrão construído para interação com o público e uma guitarra que mantém o movimento constante.
É uma faixa que talvez não revele uma nova faceta da banda, mas também não precisa revelar. É exatamente o tipo de composição que ganha uma dimensão diferente quando imaginada ao vivo.


10. Bogotá

Aqui está uma das grandes joias do álbum. Bogotá começa com uma parede de feedback que imediatamente muda a textura da guitarra. A influência de Eddie Van Halen aparece de maneira muito mais explícita, especialmente na abordagem do instrumento e na maneira como o solo ocupa o espaço da música.

Mas o mais interessante é que Joel não tenta reproduzir Van Halen. Ele absorve aquela linguagem e a transforma em uma versão mais suja, pesada e direta do próprio Airbourne. A própria banda destaca que essa foi a primeira vez que Joel utilizou uma guitarra inspirada na famosa “Frankenstein” de Eddie Van Halen, o que explica a escolha estética da faixa.


11. Hells Got No Vacancy

Hells Got No Vacancy volta ao hard rock mais direto, com um riff pesado, vocal rasgado e uma estrutura feita para ser tocada em volume alto.
É também uma das músicas que mais evidencia o problema inevitável do álbum: depois de tantas faixas baseadas em princípios semelhantes, algumas começam a funcionar mais como variações de uma mesma ideia do que como identidades completamente separadas.


12. Send Me To Rock 'N' Roll Heaven

O encerramento muda completamente a perspectiva do álbum. Até aqui, Airbourne passou boa parte do tempo celebrando o presente: festas, sexo, estrada, amplificadores, liberdade e o prazer quase infantil de tocar rock.

Send Me To Rock 'N' Roll Heaven olha para trás. A música é uma homenagem aos artistas que ajudaram a construir o universo musical da banda e que já partiram. Lemmy, Bon Scott, Malcolm Young, John Bonham, Little Richard, Doc Neeson, Eddie Van Halen e Ozzy Osbourne aparecem nessa celebração da história do rock.

E isso dá outro significado ao álbum inteiro. De repente, o Airbourne deixa de parecer apenas uma banda reproduzindo uma fórmula clássica e passa a assumir o papel de uma banda que sabe que está carregando uma tradição.


Divulgação 

Confira a tracklist completa:

Gutsy 
Alive After Death (Last Plane Out) 
Here She Comes
Kid In A Candy Store 
Sky High 
Who Put The Rhythm In You? 
Christmas Bonus
Last Man Standing
Rock 'N' Roll Ya
Bogotá
Hells Got No Vacancy 
Send Me To Rock 'N' Roll Heaven

Cobertura de Show: Helloween – 19/09/2026 – Suhai Music Hall/SP

A turnê de 40 anos do Helloween chegou ao Suhai Music Hall, em São Paulo, no dia 19, com a força de quem ainda tem muito a dizer. A banda alemã apresentou tanto os clássicos que moldaram o power metal quanto o material recente do álbum "Giants & Monsters", de 2025. Trinta anos depois da estreia brasileira, em 1996, o público continua sendo um dos mais fiéis do planeta: gritou, cantou e respondeu a cada provocação dos músicos com uma energia que só quem acompanha o estilo entende. Foi uma celebração de legado e presente, sem nostalgia barata.

A formação atual, composta por Michael Kiske (vocal), Andi Deris (vocal), Kai Hansen (guitarra e vocal), Michael Weikath e Sascha Gerstner nas guitarras, Markus Grosskopf no baixo e Dani Löble na bateria, funciona como uma engrenagem sofisticada. A alternância entre os três vocalistas não é só um recurso artístico: ela dá descanso real a vozes que enfrentam melodias extremamente exigentes. Enquanto um recupera o fôlego, o outro entra em cena e mantém a intensidade. O resultado é um show que respira, ganha dinâmica e nunca perde o fôlego.

Instrumentalmente, a banda mostrou que o tempo foi generoso. Os riffs continuam afiados, os solos conversam com precisão e a cozinha de Grosskopf e Löble empurra tudo para frente com a mesma força de décadas atrás. Depois de 30 anos visitando o Brasil, os músicos ainda soam em excelente forma: sem excessos, sem relaxamento, com a confiança de quem domina o próprio repertório.

O setlist abriu com o clássico "March of Time" e logo mergulhou em "The King for a 1000 Years", ganhando o público rapidamente. Andi Deris lembrou que aquele era o último show da turnê e provocou o público para fazer o maior barulho possível. A resposta veio à altura, antes de Kai Hansen assumir o centro do palco para introduzir um dos maiores clássicos da banda, "Future World". "This Is Tokyo", de "Giants & Monsters", trouxe a fase atual para o centro do palco e, logo em seguida, a banda resgatou "We Burn". A música foi apresentada no Brasil somente uma vez, em 1996. Cantada exclusivamente por Deris, o momento ganhou um significado especial para quem acompanha a banda desde aquela época.

A sequência continuou equilibrando eras. "Twilight of the Gods" ficou por conta de Kiske, com apoio de Kai no refrão; "Ride the Sky" devolveu Hansen aos vocais do petardo dos primeiros anos. O equilíbrio entre passado e presente continuou sendo um dos pontos altos da apresentação. "Into the Sun" proporcionou um dos momentos mais emocionantes da noite ao colocar Andi e Kiske lado a lado. Uma das grandes surpresas do setlist foi "I'm Alive", que voltou ao repertório somente nesse show, transformando o Suhai Music Hall em uma verdadeira festa. Teve até um pequeno deslize de Kiske, que se empolgou demais e voltou antes do solo terminar, mas ninguém ligou. Depois, Andi retornou para "Hey Lord!", apontando para cima antes de anunciar que aquela era "para Ele". "Universe (Gravity for Hearts)", também do álbum de 2025, teve uma recepção mais discreta, mas serviu para mostrar que o Helloween não está simplesmente vivendo de suas glórias passadas, continua criando e promovendo seu material recente no palco.

O solo de bateria de Löble, com as tradicionais pausas para a participação do público, preparou o terreno para "I Want Out", um daqueles clássicos absolutos capazes de transformar qualquer casa de shows em um gigantesco karaokê. Cantada por Andi e Kiske, com a participação maciça dos fãs e uma chuva de papel picado no final, a música foi um dos momentos mais grandiosos da noite. A seguir, "A Tale That Wasn't Right", que, segundo Deris, trouxe a calmaria antes da tempestade. Kiske pegou o violão, arriscou trechos de "Suspicious Minds", de Elvis Presley, e "Yesterday", dos Beatles, acompanhado pelo público, antes de Andi assumir o instrumento para iniciar a canção do Helloween. Quando toda a banda retornou durante o solo, sob um verdadeiro mar de celulares, o resultado foi simplesmente emocionante e sensacional.

A reta final começou com Andi pregando uma peça na plateia ao anunciar que "A Little Is a Little Too Much" seria a última música, fazendo uma pausa dramática antes de revelar que, na verdade, seria a última representante de "Giants & Monsters". O susto rapidamente deu lugar a mais uma sequência histórica: Kai Hansen voltou aos vocais para "Heavy Metal (Is the Law)", resgatando novamente os primórdios do Helloween, e depois a banda encarou a longa e épica "Halloween", uma T viagem por diferentes climas e passagens musicais que ultrapassa os dez minutos. O bis começou com Michael Kiske sozinho em "Eagle Fly Free". Depois de se perder brevemente após o primeiro refrão, ele entregou o trecho para a plateia, que evidentemente não se importou nem um pouco com a pequena derrapada e continuou cantando em alto e bom som. Andi então assumiu "Power", fazendo novamente o público participar em massa, antes dos dois vocalistas dividirem os vocais em "Dr. Stein", que praticamente colocou o Suhai Music Hall abaixo. Para encerrar a noite que funcionou como uma verdadeira retrospectiva viva da trajetória do Helloween, ainda houve espaço para um pequeno trecho de "Keeper of the Seven Keys", apenas o suficiente para matar a saudade e deixar no ar uma última lembrança de uma das obras mais importantes da história do power metal.

Desde aquela primeira apresentação brasileira, em 1996, o vínculo entre Helloween e seus fãs no país atravessou mudanças de formação, diferentes fases musicais e três décadas de história, mas permanece intacto. A atual formação mostrou que a banda encontrou uma maneira particularmente eficiente de unir experiência, técnica e energia. A alternância dos vocais, a força instrumental e um repertório que passeia pelos primórdios da carreira até "Giants & Monsters" fizeram da apresentação muito mais do que uma comemoração de aniversário: foi uma demonstração de que, após 40 anos de Helloween e 30 anos de encontros com o público brasileiro, os Pumpkins ainda sabem exatamente como transformar suas histórias em uma grande noite de heavy metal. 


Texto: Marcelo Gomes




Realização: Mercury Concerts




 March of Time

 The King for a 1000 Years

 Future World

 This Is Tokyo

 We Burn

 Twilight of the Gods

 Ride the Sky

 Into the Sun

 I'm Alive

 Hey Lord!

 Universe (Gravity for Hearts)

 I Want Out

 A Tale That Wasn't Right

 A Little Is a Little Too Much

 Heavy Metal (Is the Law)

 Halloween

 Eagle Fly Free

 Power

 Dr. Stein

 Keeper of the Seven Keys  

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Resenha - Ricky de Camargo: The Truth Is Out There

 

Por Denis A. Lacerda

Nota: 09.0/10.0

O novo single “The Truth Is Out There” amplia o universo instrumental construído pelo guitarrista RICKY DE CAMARGO e apresenta uma composição que aposta menos na demonstração gratuita de técnica e mais na criação de uma narrativa sonora. A participação especial de Dallton Santos acrescenta outra personalidade às guitarras e ajuda a transformar a faixa em uma espécie de diálogo musical sobre o desconhecido, o cosmos e as perguntas que permanecem sem resposta. O resultado é uma peça que procura despertar a imaginação sem depender de uma estrutura excessivamente complexa para sustentar seu interesse.

Essa escolha encontra respaldo na própria trajetória do músico. Natural de Sorocaba (SP), nascido em 1988, RICKY DE CAMARGO acumula mais de duas décadas de dedicação à música e construiu uma discografia autoral composta por Origins (2019), Maverick (2021), Relentless (2022) e Beast Mode (2025). Ao longo desses trabalhos, a guitarra permaneceu como eixo de uma linguagem que transita pelo Rock, Metal, Progressivo e Fusion, mas sem transformar o virtuosismo em finalidade absoluta.

Em entrevistas, o próprio guitarrista já explicou que procura escrever músicas que sejam “legais de se ouvir e tocar”, evitando complicar as composições sem necessidade. Essa filosofia é particularmente relevante em “The Truth Is Out There”, porque a faixa consegue utilizar recursos técnicos como parte da construção musical, e não como uma sucessão de exibições instrumentais. O equilíbrio entre passagens mais elaboradas, melodias e atmosferas permite que o ouvinte acompanhe a composição sem precisar necessariamente analisá-la sob uma perspectiva estritamente guitarrística.

A presença de Dallton Santos merece atenção justamente por esse aspecto. Em vez de funcionar apenas como um convidado inserido para acrescentar prestígio ao lançamento, sua participação reforça a proposta de estabelecer diferentes perspectivas dentro da guitarra instrumental. A escolha também dá continuidade a uma característica que RICKY DE CAMARGO vem desenvolvendo em seus trabalhos mais recentes: a ampliação de sua paleta sonora por meio de colaborações com outros músicos. No projeto seguinte a Beast Mode, por exemplo, o guitarrista já havia anunciado participações de Edu Ardanuy, Roberto Barros e Dallton Santos.

Como prévia do próximo álbum, “The Truth Is Out There” cumpre ainda uma função importante: demonstra que RICKY DE CAMARGO continua interessado em evoluir sem romper com aquilo que sustenta sua identidade. A faixa combina peso, ambiência, musicalidade e diferentes possibilidades de expressão da guitarra para construir uma experiência que pode ser apreciada tanto por instrumentistas quanto por ouvintes que simplesmente buscam uma boa composição de Rock/Metal instrumental. É justamente nessa capacidade de colocar a técnica a serviço da música que reside um dos pontos mais interessantes deste novo capítulo da carreira do guitarrista.

Entrevista - Adulfe: Quando o Modern Metal se Funde ao Underground Nacional

 

- Olá Bruno. Obrigado pela sua gentileza em nos atender. Parabéns pelo lançamento do álbum “Anxiety”, pois o material ficou de primeira...

R: Muito Obrigado! nós que agradecemos o reconhecimento, foi um trabalho árduo, e que chegou no resultado que queríamos.

- Como você pode descrever o trabalho na composição deste tipo de sonoridade?

R: Bom, nesse estilo em especifico que foi Deathcore, buscamos uma sonoridade mais bruta, direta e pesada com pouquíssimas passagens melódicas, ao contrario do 1º álbum, guitarras bem presentes, bastante breakdowns e vocais guturais, foi um estilo que nunca trabalhamos antes, então o nosso produtor teve uma parte importante na nossa incorporação nesse estilo.

- Eu escutei o álbum diversas vezes e, só após várias tentativas, consegui captar parte das suas ideias. Os fãs têm sentido este tipo de dificuldade também?
R: olha, sinceramente não, pra quem já está acostumado com o estilo, sabe que muitas vezes pela distorção e os guturais não dá pra entender a letra, porem ao lê-la creio q ideia do álbum fica bem clara, que tratamos de doenças mentais, como ansiedade e depressão e qual a sensação que elas causam e o quão importante é trata-las

- Existem planos para o relançamento de “Anxiety” através da MS Metal Records na Europa, que é atual gravadora de vocês?

- Adorei o fato de trabalharem com o inglês, mas isso não pode vir a atrapalhar vocês no mercado nacional?

R: Sim e não, nosso objetivo realmente não é o mercado nacional, pois esse estilo é muito pouco valorizado aqui no brasil e nós sabemos disso, por isso o inglês e por isso o trabalho com a MS Metal Records lá fora.

- Como estão rolando os shows em suporte ao disco? A aceitação está sendo positiva?

R: Olha, mais do que o esperado as pessoas tem elogiado bastante, e sempre mencionando nossas musicas nas redes sociais, e o shows estão bem enérgicos, do jeito que queríamos, os fãs comprando bastante merch, está fluindo bem.

- Quem assinou a capa do CD? Qual a intenção dela e como ela se conecta com o título?

R. Quem fez a capa foi o Carlos Fides, pra nós o melhor nesse contexto, ficamos muito satisfeitos com o resultado. Sobre como a capa se conecta com o titulo, nela nós vemos uma pessoa sentada, abraçando as pernas e com muitos espinhos nela, isso é a forma ilustrada de como uma pessoa ansiosa se sente, os pensamentos descontrolados, vontade de fazer tudo mas sem conseguir se mexer como se tivesse vários espinhos a prendendo daquele jeito e não sabendo como sair disso.

- “Anxiety” foi todo produzido pela banda, confere? Foi satisfatório seguirem por este caminho?

R. confesso que o caminho foi mais difícil que o esperado, pois mesmo sendo metal, nunca trabalhamos com deathcore, então era tudo novo pra todos, mas vendo por um outro lado isso nos forçou a evoluir técnica e psicologicamente então creio que no final das contas o saldo foi positivo.

- Imagino que já estejam trabalhando em um novo full lenght. Se sim, como está se dando o processo e como ele está soando?

R. a sim estamos sim, mas ele vai soar um pouco diferente, buscamos uma sonoridade mais moderna como Motionless in White e BMTH estão fazendo hoje, mas está ficando incrível.

- Novamente parabéns pelo trabalho e vida longa ao ADULFE... Agora é contigo para as suas considerações finais... 

R. R. Nós que agradecemos o espaço, foi muito bom conversar com vocês, sigam a @_Adulfe no Instagram, e nas outras redes sociais, nossa musica está em todas as plataformas digitais, Spotfy, Deezer, Itunes, Youtube...


Um grande abraço e até a próxima

Valeu!