segunda-feira, 25 de maio de 2026

Night Ranger: Mais que um Greatest Hits (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Quatro décadas após consolidar seu nome entre os pilares do hard rock americano, o Night Ranger retorna com uma coletânea que vai além do tradicional exercício nostálgico. Em vez de simplesmente repetir a fórmula previsível dos antigos greatest hits, o novo best of da banda procura apresentar um retrato mais amplo e atualizado de sua trajetória, conectando os clássicos imortais da era MTV à surpreendentemente sólida produção lançada nas últimas duas décadas.

Naturalmente, o coração emocional do álbum permanece ancorado nos hinos que transformaram o grupo em um dos grandes nomes do hard rock dos anos 80. As novas versões de “Don’t Tell Me You Love Me”, “(You Can Still) Rock in America”, “Sister Christian”, “When You Close Your Eyes” e “Four in the Morning” reafirmam a força composicional que tornou o Night Ranger um fenômeno radiofônico e uma presença constante na programação da MTV. Mesmo revisitadas em 2026, essas músicas continuam carregando melodias instantaneamente reconhecíveis, refrões gigantescos e o equilíbrio quase perfeito entre peso acessível, sofisticação melódica e apelo comercial.

Ainda assim, o grande diferencial desta coletânea está justamente fora do eixo nostálgico. Ao incluir material oriundo de álbuns como Somewhere in California, High Road e Don’t Let Up, a banda demonstra rara confiança em sua produção contemporânea — algo incomum em coletâneas de grupos clássicos do hard rock. 

Faixas como “Growin’ Up in California”, “High Road”, “Somehow Someway” e “Don’t Let Up” evidenciam um Night Ranger artisticamente maduro, ainda inspirado e capaz de reproduzir com autenticidade a energia, os hooks e o refinamento melódico que definiram sua identidade nos anos dourados.

Essa escolha também revela uma tentativa clara de reequilibrar a percepção do catálogo da banda nos serviços de streaming. Enquanto plataformas como Spotify e Apple Music continuam concentrando a maior parte das execuções em hits absolutos como “Sister Christian” e “Rock in America”, esta coletânea funciona quase como uma defesa artística da relevância da fase moderna do grupo — frequentemente subestimada fora do círculo mais dedicado de fãs de AOR e hard rock.

Por outro lado, algumas ausências inevitavelmente chamam atenção. Clássicos como “Goodbye”, “Sentimental Street” e “Sing Me Away”, ainda extremamente populares entre fãs e ouvintes casuais, fazem falta em um lançamento que poderia facilmente assumir caráter definitivo. Isso reforça a impressão de que o objetivo aqui não era montar apenas uma seleção cronológica de sucessos, mas apresentar uma narrativa mais pessoal e contemporânea da banda.

Os bônus ajudam a ampliar esse caráter celebratório. “Wasted Time”, registrada no Sweetwater Studios, adiciona um sabor mais intimista e espontâneo ao repertório, enquanto “Feliz Navidad (Live)” surge como curiosidade descontraída para colecionadores. Já “Hole In The Sun”, incluída como bônus da edição japonesa, resgata um dos momentos mais fortes da elogiada fase pós-retorno do grupo.

No fim, esta coletânea funciona menos como um simples “greatest hits” e mais como uma reafirmação de legado. O Night Ranger parece interessado não apenas em celebrar seu passado glorioso, mas em lembrar que sua história não terminou nos anos 80. E, considerando a qualidade consistente do material apresentado aqui, talvez tenha razão em insistir nisso.

***ENGLISH VERSION***

More than four decades after establishing themselves as one of the defining names of American melodic hard rock, Night Ranger return with a compilation that goes far beyond the traditional nostalgia exercise. Rather than simply recycling a predictable greatest hits formula, this new best of aims to present a broader and more up-to-date portrait of the band’s career, bridging the immortal classics of the MTV era with the surprisingly strong material released over the last two decades.

Naturally, the emotional core of the album still rests on the anthems that turned the group into one of the biggest melodic rock acts of the 1980s. The 2026 re-recordings of “Don’t Tell Me You Love Me,” “(You Can Still) Rock in America,” “Sister Christian,” “When You Close Your Eyes,” and “Four in the Morning” reaffirm the songwriting strength that made Night Ranger both a radio phenomenon and an MTV staple. Even revisited in 2026, these songs still carry instantly recognizable melodies, massive choruses, and the near-perfect balance between accessible heaviness, melodic sophistication, and commercial appeal.

However, the real distinguishing factor of this compilation lies outside the nostalgic framework. By including material taken from albums such as Somewhere in California, High Road, and Don’t Let Up, the band displays remarkable confidence in its contemporary output — something rather uncommon for classic hard rock compilations. Tracks like “Growin’ Up in California,” “High Road,” “Somehow Someway,” and “Don’t Let Up” showcase a musically mature Night Ranger that still sounds inspired and fully capable of recreating the energy, hooks, and melodic refinement that defined its identity during its golden years.

This decision also reflects a clear attempt to rebalance the perception of the band’s catalog on streaming platforms. While services such as Spotify and Apple Music continue to concentrate most plays around timeless hits like “Sister Christian” and “(You Can Still) Rock in America,” this compilation almost feels like an artistic statement defending the relevance of the band’s modern era — a period often underestimated outside the more dedicated AOR and melodic rock circles.

On the other hand, some omissions inevitably stand out. Classics such as “Goodbye,” “Sentimental Street,” and “Sing Me Away,” all still extremely popular among longtime fans and casual listeners alike, are noticeably absent from a release that could easily have positioned itself as the definitive Night Ranger anthology. That absence reinforces the impression that the goal here was not simply to assemble a chronological collection of hits, but rather to present a more personal and contemporary narrative of the band’s legacy.

The bonus tracks further strengthen that celebratory atmosphere. “Wasted Time,” recorded at Sweetwater Studios, adds a more intimate and spontaneous flavor to the setlist, while “Feliz Navidad (Live)” appears as a lighthearted curiosity aimed at collectors. Meanwhile, “Hole In The Sun,” included as a Japanese bonus track, revisits one of the standout moments from the band’s highly praised post-reunion era.

In the end, this collection works less as a conventional greatest hits package and more as a reaffirmation of legacy. Night Ranger seem determined not only to celebrate their glorious past, but also to remind listeners that their story did not end in the 1980s. And considering the consistently strong material featured here, they may very well be right to insist on that point.

Kevin Baldes

Sahara: 25 Anos Depois, Ainda Impecável (Also In English)

Pride & Joy Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Originalmente lançado em 2001, o debut autointitulado do Sahara conquistou, ao longo das últimas duas décadas, um respeitável status cult entre os apreciadores de AOR e melodic rock. Hoje tratado como peça de colecionador dentro do gênero, o álbum retorna em 2026 em edição limitada, remasterizado por Harry Hess, reafirmando a força criativa do projeto liderado por Peter Lidström e Ulrick Lönnqvist. Mais do que um exercício nostálgico, Sahara permanece como um retrato elegante e extremamente bem executado da tradição sueca de melodic rock dos anos 2000 — sofisticado, melodicamente refinado e dotado de uma produção que privilegia atmosfera e musicalidade acima do excesso.

“Stranger” abre o disco sintetizando praticamente todos os elementos que definem o álbum. As linhas vocais limpas e extremamente bem harmonizadas dialogam com guitarras cristalinas e um andamento cadenciado que privilegia a construção melódica. O refrão chega com naturalidade, carregado por um excelente trabalho de backing vocals e conduzindo a um solo de guitarra clássico, melódico e perfeitamente integrado à proposta da faixa. É uma abertura segura, eficiente e imediatamente envolvente.

Na sequência, “Time Is a Healer” amplia ainda mais a identidade sonora do álbum. Os teclados surgem com protagonismo sutil, criando uma cama harmônica sofisticada sobre a qual guitarra e bateria desenvolvem uma condução elegante e tipicamente escandinava. O baixo ganha destaque especial na ponte para o refrão, contribuindo para a dinâmica da música sem comprometer sua leveza melódica. O solo de guitarra merece menção especial pela escolha cuidadosa de timbres e pela musicalidade acima do exibicionismo técnico — característica recorrente em todo o álbum.

“Over and Over” talvez seja uma das faixas que melhor exemplifica o apelo cinematográfico do disco. A interação entre piano, guitarra e bateria cria uma introdução quase épica, evocando a estética grandiosa do AOR clássico de rádio FM. O groove permanece contido, mas extremamente eficiente, enquanto o baixo novamente assume papel fundamental na sustentação da música até a explosão melódica do refrão. Há aqui uma aproximação mais evidente com o hard rock melódico, adicionando peso sem sacrificar a elegância característica da banda.

Com “Dreams”, o grupo introduz novas texturas ao repertório. A presença mais destacada da percussão e do baixo cria uma atmosfera diferente das faixas anteriores, oferecendo maior profundidade rítmica à composição. As melodias vocais são especialmente bem construídas, enquanto o refrão mantém o forte apelo melódico que permeia todo o trabalho. O solo surge de forma econômica e eficiente, respeitando a dinâmica da música sem interromper seu fluxo natural.

“The Fire” abre com efeitos sonoros que imediatamente transportam o ouvinte para uma atmosfera quase cinematográfica. O andamento mais acelerado injeta energia ao álbum, enquanto guitarras e teclados constroem uma tensão constante, próxima de uma trilha sonora de suspense. O refrão evita exageros e aposta na eficiência melódica, funcionando precisamente porque não tenta soar grandioso à força. A música revela uma banda madura, consciente de seus próprios recursos e extremamente cuidadosa nos detalhes de arranjo.

“Never Say Never” devolve o álbum ao território mais tradicional do melodic rock. Trata-se da típica faixa sustentada por um refrão melódico forte, harmonias vocais elegantes e uma cozinha extremamente coesa entre baixo e bateria. Embora não apresente grandes novidades em relação ao restante do repertório, sua execução é sólida o suficiente para justificar plenamente sua presença no tracklist. É o tipo de composição que talvez não surpreenda, mas reforça a consistência do álbum.

“Silent Rain” quebra parte da uniformidade sonora do disco ao apostar em linhas vocais mais elaboradas e em um trabalho de teclados particularmente marcante. Os arranjos vocais acrescentam densidade e profundidade à música, enquanto o andamento mais acelerado ajuda a renovar o dinamismo do álbum. O solo de guitarra mantém a energia elevada sem soar excessivo, contribuindo para uma das faixas mais interessantes e versáteis do trabalho.

“Dream of You” representa outro momento de renovação estética dentro do disco. A guitarra acústica assume protagonismo, oferecendo uma abordagem mais intimista e orgânica. A guitarra elétrica aparece apenas nos momentos certos, valorizando ainda mais o impacto do refrão e do solo. As discretas dobras vocais acrescentam profundidade emocional sem transformar a faixa em uma balada excessivamente sentimental. É uma composição extremamente equilibrada e uma das mais elegantes do álbum.

“Deep Inside” recoloca a banda no terreno clássico do melodic rock, mas com uma introdução criativa que explora a separação estéreo das guitarras para criar sensação de amplitude e imersão. O trabalho de timbres merece destaque, especialmente na combinação entre guitarra, piano e baixo, que confere peso adicional à música em momentos estratégicos. Há aqui uma aproximação pontual com o hard rock clássico, mas sempre filtrada pela sofisticação melódica típica da escola sueca.

Quando tudo parece indicar a chegada de uma balada tradicional, “What Is Love” surpreende ao se transformar na faixa mais diretamente hard rock do álbum. Construída em crescendo, a música acumula tensão até explodir em um refrão forte, imediato e extremamente acessível. As guitarras surgem mais encorpadas, enquanto o piano adiciona brilho e sustentação harmônica. O solo é um dos pontos altos do disco, equilibrando emoção, técnica e excelente escolha de timbres.

Encerrando o álbum, “Night” aposta em uma abordagem mais intimista e emocional. Inicialmente conduzida apenas por voz e guitarra acústica, a música cresce gradualmente com a entrada do piano, da percussão e do baixo. O resultado é uma balada elegante, sustentada por interpretações vocais extremamente sensíveis e por arranjos discretos, porém muito bem construídos. O uso econômico de backing vocals reforça a atmosfera contemplativa da faixa, garantindo um encerramento sofisticado e emocionalmente eficiente.

Mesmo após 25 anos de seu lançamento original, Sahara impressiona por não soar datado. A nova remasterização evidencia nuances e detalhes de produção que antes permaneciam parcialmente ocultos, valorizando ainda mais a riqueza melódica e instrumental do álbum. Mais do que um simples relançamento voltado ao colecionismo, este retorno reafirma o disco como uma obra extremamente representativa do melodic rock escandinavo do início dos anos 2000 — um trabalho que combina classe, acessibilidade e refinamento composicional em níveis raramente alcançados dentro do gênero.

***ENGLISH VERSION***

Originally released in 2001, the self-titled debut album by Sahara gradually earned a respected cult status among AOR and melodic rock enthusiasts over the last two decades. Now regarded as a true collector’s item within the genre, the album returns in 2026 in a limited edition remastered by Harry Hess, reaffirming the creative strength of the project led by Peter Lidström and Ulrick Lönnqvist. More than a nostalgic exercise, Sahara remains an elegant and exceptionally well-crafted representation of the Swedish melodic rock tradition of the early 2000s — sophisticated, melodically refined, and driven by a production style that values atmosphere and musicality over excess.

“Stranger” opens the record by encapsulating virtually every element that defines the album. The clean, beautifully layered vocal lines interact seamlessly with crystalline guitars and a measured tempo that prioritizes melodic development. The chorus arrives naturally, supported by excellent backing vocals and leading into a classic, highly melodic guitar solo perfectly aligned with the song’s overall direction. It is a confident, effective, and immediately engaging opener.

Next comes “Time Is a Healer”, which further expands the album’s sonic identity. The keyboards emerge with subtle prominence, creating a sophisticated harmonic foundation upon which the guitar and drums develop an elegant, distinctly Scandinavian approach. The bass receives particular attention during the bridge leading into the chorus, contributing to the song’s dynamics without sacrificing its melodic smoothness. The guitar solo deserves special praise for its careful choice of tones and emphasis on musicality rather than technical showmanship — a recurring characteristic throughout the album.

“Over and Over” is perhaps one of the tracks that best exemplifies the cinematic appeal of the record. The interaction between piano, guitar, and drums creates an almost epic introduction, evoking the grand FM-radio AOR aesthetic. The groove remains restrained yet extremely effective, while the bass once again plays a fundamental role in sustaining the song until the melodic explosion of the chorus. There is a more noticeable hard rock influence here, adding weight without compromising the band’s trademark elegance.

With “Dreams” the band introduces new textures into the album. The stronger presence of percussion and bass creates a different atmosphere from the previous tracks, adding greater rhythmic depth to the composition. The vocal melodies are especially well constructed, while the chorus maintains the strong melodic appeal that permeates the entire record. The solo appears in an economical and efficient manner, respecting the song’s dynamics without interrupting its natural flow.

“The Fire” opens with sound effects that immediately place the listener inside an almost cinematic atmosphere. The faster tempo injects energy into the album, while guitars and keyboards build constant tension reminiscent of a suspense movie soundtrack. The chorus avoids unnecessary excess and instead relies on melodic efficiency, working precisely because it never forces grandeur. The track reveals a mature band fully aware of its own strengths and remarkably attentive to arrangement details.

“Never Say Never” brings the album back to more traditional melodic rock territory. It is the classic type of song driven by a strong melodic chorus, elegant vocal harmonies, and an extremely cohesive rhythm section between bass and drums. Although it does not introduce major innovations compared to the rest of the material, its execution is solid enough to fully justify its place in the tracklist. It may not surprise the listener, but it certainly reinforces the album’s consistency.

“Silent Rain” breaks part of the album’s sonic uniformity by focusing on more elaborate vocal lines and particularly striking keyboard arrangements. The vocal harmonies add density and depth to the song, while the faster pace helps renew the album’s momentum. The guitar solo maintains the elevated energy without sounding excessive, contributing to one of the record’s most versatile and engaging tracks.

“Dream of You” represents another moment of aesthetic renewal within the album. Acoustic guitar takes center stage, offering a more intimate and organic approach. Electric guitar appears only at the right moments, further enhancing the impact of both the chorus and the solo. The discreet vocal overdubs add emotional depth without turning the song into an overly sentimental ballad. It is an extremely balanced composition and one of the album’s most elegant moments.

“Deep Inside” places the band once again in classic melodic rock territory, but with a creative introduction that uses stereo guitar separation to create a sense of space and immersion. The work on tones deserves particular praise, especially in the interaction between guitar, piano, and bass, which adds extra weight to the song at strategic moments. There are occasional touches of classic hard rock here, though always filtered through the melodic sophistication typical of the Swedish scene.

Just when the listener expects a traditional ballad, “What Is Love” surprises by becoming the album’s most direct hard rock track. Built around a gradual crescendo, the song accumulates tension until exploding into a powerful, immediate, and highly accessible chorus. The guitars sound fuller and more aggressive, while the piano adds brightness and harmonic support. The solo stands among the album’s highlights, balancing emotion, technique, and excellent tonal choices.

Closing the album, “Night” embraces a more intimate and emotional approach. Initially driven only by voice and acoustic guitar, the track gradually expands with the addition of piano, percussion, and bass. The result is an elegant ballad sustained by deeply sensitive vocal performances and understated yet carefully crafted arrangements. The restrained use of backing vocals reinforces the song’s contemplative atmosphere, providing a sophisticated and emotionally effective conclusion.

Even 25 years after its original release, Sahara remains remarkably fresh and far from dated. The new remaster highlights nuances and production details that previously remained partially hidden, further enhancing the album’s melodic and instrumental richness. More than a simple collector-oriented reissue, this return reaffirms the record as a highly representative work of early-2000s Scandinavian melodic rock — an album that combines class, accessibility, and compositional refinement at levels rarely achieved within the genre.

Divulgação 

domingo, 24 de maio de 2026

Lalu: O Prog Como Experiência Cinematográfica (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Celebrando duas décadas de trajetória, Lalu retorna com A Mythmaker’s Demise, um álbum que reafirma a relevância artística do projeto liderado por Vivien Lalu dentro do progressive rock contemporâneo. Unindo sofisticação técnica, forte carga emocional e uma abordagem de produção orgânica e refinada, o trabalho resgata conexões importantes da história da banda — incluindo os retornos de Martin LeMar (Nachtgeschrei, Mekong Delta), Simon Phillips (Toto, MSG, Asia, The Who, Protocol) e do parceiro de longa data Joop Wolters — além da participação especial de Jens Johansson (Yngwie Malmsteen, Stratovarius, Rainbow). Ao mesmo tempo, o disco propõe uma reflexão sobre o impacto da inteligência artificial na imaginação humana, tema que permeia suas atmosferas densas e cinematográficas. O resultado é uma obra ambiciosa, sofisticada e profundamente enraizada na essência clássica do progressive rock, mas sem soar presa ao passado.

Toda a complexidade esperada de um álbum progressivo já se manifesta logo na abertura com “Tears Of The Muse”. Como toda grande composição do gênero, a faixa vive da imprevisibilidade: mudanças constantes de dinâmica, construções harmônicas elaboradas e texturas de teclado que parecem atravessar décadas da história do prog. A interpretação vocal assume contornos quase teatrais, enquanto cada instrumento encontra espaço para brilhar sem comprometer a fluidez da música. O mais impressionante, porém, é como Lalu evita transformar virtuosismo em exibicionismo vazio. Tudo soa cuidadosamente pensado, equilibrado e musicalmente relevante.

Na sequência, “EKO” adiciona uma camada mais moderna à identidade do álbum, especialmente através dos efeitos vocais que dominam sua introdução. O baixo surge em absoluto destaque, profundamente conectado à bateria em uma cozinha dinâmica e precisa, criando a base perfeita para que a guitarra explore melodias e intervenções técnicas com elegância. Conforme a faixa evolui, os vocais limpos assumem protagonismo em linhas melódicas extremamente bem construídas. O magnífico solo de baixo que antecede a seção mais explosiva da música funciona como uma síntese perfeita da proposta do disco: técnica refinada colocada a serviço da composição.

“I Am The One” amplia ainda mais o espectro sonoro do trabalho. Seu início enigmático conduz o ouvinte por diferentes camadas de texturas e climas, sustentadas por uma interpretação vocal impecável tanto em melodia quanto em timbre. Há um cuidado raro na escolha dos arranjos, fazendo com que mesmo os momentos mais intrincados permaneçam acessíveis e envolventes. A produção merece destaque especial: cada instrumento ocupa exatamente o espaço necessário, permitindo que a riqueza dos detalhes nunca comprometa a clareza sonora. O coral que encerra a faixa é simplesmente monumental.

A primeira instrumental do álbum, “Mayacama”, revela uma das facetas mais sofisticadas da banda. Introduzida por um piano delicado, a composição rapidamente se transforma em um caleidoscópio de sensações. A guitarra alterna entre solos e conduções harmônicas com naturalidade impressionante, enquanto baixo e bateria sustentam uma base precisa, orgânica e pulsante. Os teclados — tanto acústicos quanto eletrônicos — ampliam a dimensão cinematográfica da faixa. O título pode remeter ao conceito de “Maya”, palavra sânscrita associada à ilusão e ao encantamento, ideia perfeitamente traduzida pela atmosfera quase hipnótica da música.

“Prince With The Swift Warning”, primeiro single do álbum, talvez seja a síntese mais clara da proposta artística de A Mythmaker’s Demise. A faixa aborda temas extremamente atuais — migração, exílio e sobrevivência — sem perder o caráter épico e progressivo. Musicalmente, é um exercício de equilíbrio entre sofisticação técnica e impacto emocional. Mais uma vez, todos os músicos encontram seus momentos de destaque sem comprometer a coesão da composição. Os solos são executados com extremo bom gosto, enquanto as linhas vocais reforçam o caráter dramático da narrativa.

Com uma introdução minimalista baseada em piano, baixo e voz, “Learning To Fly” conduz o álbum para um território ainda mais teatral. Há algo de musical da Broadway em sua construção dramática, mas reinterpretado através da linguagem do progressive rock clássico. As mudanças de clima funcionam quase como transições de cena, permitindo que a música evolua de maneira visual e emocional. É uma faixa que estimula a imaginação do ouvinte e demonstra como Lalu compreende o aspecto narrativo do gênero.

“A Drop Of Water” funciona como uma breve pausa contemplativa em meio à grandiosidade do disco. Com menos de dois minutos, a faixa assume caráter quase de vinheta, mas consegue criar uma atmosfera extremamente sensorial. O delicado trabalho de guitarra acústica, acompanhado por teclados e percussões sutis, faz com que o ouvinte praticamente “sinta” o movimento da água sugerido pelo título.

Efeitos eletrônicos difusos introduzem “Fhloston Paradise”, uma das faixas mais atmosféricas e modernas do álbum. Os vocais processados contrastam com passagens limpas, enquanto a instrumentação combina bateria seca, timbres clássicos de Hammond e uma guitarra base marcante. A referência ao resort espacial fictício do filme The Fifth Element, dirigido por Luc Besson, reforça o caráter futurista e cinematográfico da composição. Mais uma vez, o álbum impressiona pela maturidade das escolhas melódicas e pela inteligência dos arranjos.

“Cordal Weaves” representa o momento em que o álbum mergulha mais profundamente no progressive rock clássico. A influência de Genesis é perceptível em diferentes passagens, especialmente nas construções harmônicas e no protagonismo do baixo. A interação entre bateria e baixo é absolutamente brilhante, formando uma base sólida para que guitarras e teclados alternem momentos de protagonismo. As linhas vocais transitam com naturalidade entre momentos mais agressivos e outros contemplativos. O solo de baixo que conduz a reta final da faixa é particularmente memorável.

Encerrando o álbum, “Midnight Ink” oferece um desfecho elegante e emocionalmente carregado. Construída sobre piano, baixo e camadas sutis de teclado, a faixa assume contornos de uma verdadeira balada progressiva. A interpretação vocal é extremamente sensível, enquanto os arranjos sinfônicos ampliam gradualmente sua carga dramática. A combinação entre piano e cello adiciona profundidade emocional ao encerramento, criando uma conclusão melancólica e cinematográfica para o disco.

A Mythmaker’s Demise é, sem dúvida, um álbum profundamente progressivo, mas surpreendentemente acessível. Mesmo em seus momentos mais complexos, o disco jamais se torna excessivamente hermético ou cansativo. O grande mérito de Lalu está justamente em transformar virtuosismo em narrativa, técnica em emoção e sofisticação em experiência sensorial. Com composições meticulosamente elaboradas, interpretações vocais acima da média e uma produção impecável, o grupo entrega não apenas um dos melhores álbuns progressivos do ano, mas uma obra capaz de dialogar com diferentes gerações de ouvintes do gênero.

***ENGLISH VERSION***

Celebrating two decades of existence, Lalu return with A Mythmaker’s Demise, an album that once again confirms the artistic relevance of the project led by Vivien Lalu within contemporary progressive rock. Combining technical sophistication, strong emotional depth, and an organic yet refined production approach, the record reconnects with important chapters of the band’s history — including the returns of Martin LeMar (Nachtgeschrei, Mekong Delta), Simon Phillips (Toto, MSG, Asia, The Who, Protocol) — while also featuring a special guest appearance by Jens Johansson (Yngwie Malmsteen, Stratovarius, Rainbow). At the same time, the album reflects on the impact of artificial intelligence on human imagination, a theme that permeates its dense and cinematic atmospheres. The result is an ambitious, sophisticated work deeply rooted in the classic essence of progressive rock without ever sounding trapped in the past.

All the complexity expected from a progressive rock album is immediately evident in the opening track, “Tears Of The Muse”. Like every great composition within the genre, the song thrives on unpredictability: constant shifts in dynamics, elaborate harmonic structures, and keyboard textures that seem to travel through decades of prog history. The vocal performance takes on almost theatrical contours, while every instrument is given room to shine without compromising the flow of the composition. Most impressive, however, is the way Lalu avoids turning virtuosity into empty self-indulgence. Everything feels carefully crafted, balanced, and musically purposeful.

Next comes “EKO”, which adds a more modern layer to the album’s identity, especially through the vocal effects dominating its introduction. The bass takes center stage, deeply intertwined with the drums in a dynamic and precise rhythm section that lays the perfect foundation for the guitar to explore melodies and technical passages with elegance. As the track unfolds, clean vocals emerge with beautifully constructed melodic lines. The magnificent bass solo preceding the song’s most explosive section perfectly encapsulates the album’s artistic vision: refined technique placed entirely at the service of the composition.

“I Am The One” expands the album’s sonic palette even further. Its enigmatic opening guides the listener through multiple layers of textures and moods, all sustained by an impeccable vocal performance both melodically and tonally. There is a rare level of care in the arrangements, ensuring that even the most intricate moments remain engaging and accessible. The production deserves special praise as well: every instrument occupies precisely the right space, allowing the richness of the details to flourish without sacrificing sonic clarity. The choir-driven finale is simply monumental.

The album’s first instrumental piece, “Mayacama”, reveals one of the band’s most sophisticated facets. Introduced by delicate piano lines, the composition quickly evolves into a kaleidoscope of sensations. The guitar effortlessly alternates between solos and harmonic support, while bass and drums sustain a precise, organic, and pulsating foundation. Both acoustic and electronic keyboards further expand the track’s cinematic dimension. The title may allude to the concept of “Maya”, the Sanskrit word associated with illusion and enchantment — an idea perfectly embodied by the song’s almost hypnotic atmosphere.

“Prince With The Swift Warning”, the album’s first single, is perhaps the clearest representation of A Mythmaker’s Demise’s artistic vision. The track addresses highly contemporary themes — migration, exile, and survival — without sacrificing its epic and progressive character. Musically, it is an exercise in balancing technical sophistication with emotional impact. Once again, every musician finds their moment to shine without compromising the cohesion of the composition. The solos are executed with remarkable taste, while the vocal lines reinforce the dramatic nature of the narrative.

Built around a minimalist introduction featuring piano, bass, and voice, “Learning To Fly” takes the album into even more theatrical territory. There is something distinctly Broadway-like in its dramatic construction, though filtered through the language of classic progressive rock. The shifting moods function almost like scene transitions, allowing the song to evolve in both visual and emotional terms. It is a track that stimulates the listener’s imagination while demonstrating Lalu’s deep understanding of the narrative dimension of the genre.

“A Drop Of Water” serves as a brief contemplative pause amidst the album’s grandeur. At less than two minutes long, the piece functions almost like an interlude, yet still manages to create an intensely sensory atmosphere. The delicate acoustic guitar work, accompanied by subtle keyboards and percussion, makes the listener practically “feel” the movement of the water suggested by the title.

Diffuse electronic effects introduce “Fhloston Paradise”, one of the album’s most atmospheric and modern tracks. Processed vocals contrast with cleaner passages, while the instrumentation combines dry-sounding drums, classic Hammond textures, and a striking rhythm guitar. The reference to the fictional space resort from the film The Fifth Element, directed by Luc Besson, reinforces the futuristic and cinematic character of the composition. Once again, the album impresses through the maturity of its melodic choices and the intelligence of its arrangements.

“Cordal Weaves” marks the moment when the album dives deepest into classic progressive rock territory. The influence of Genesis is noticeable throughout several passages, particularly in the harmonic structures and the prominence of the bass. The interaction between bass and drums is absolutely brilliant, forming a solid foundation upon which guitars and keyboards alternate moments of prominence. The vocal lines transition naturally between more aggressive passages and contemplative moments. The bass solo leading into the track’s final section is especially memorable.

Closing the album, “Midnight Ink” delivers an elegant and emotionally charged conclusion. Built around piano, bass, and subtle keyboard layers, the track takes the form of a genuine progressive ballad. The vocal performance is deeply sensitive, while the symphonic arrangements gradually intensify its dramatic weight. The interplay between piano and cello adds emotional depth to the finale, creating a melancholic and cinematic ending for the album.

A Mythmaker’s Demise is undoubtedly a deeply progressive album, yet surprisingly accessible. Even at its most complex moments, the record never becomes overly hermetic or exhausting. Lalu’s greatest achievement lies precisely in transforming virtuosity into narrative, technique into emotion, and sophistication into a sensory experience. With meticulously crafted compositions, outstanding vocal performances, and flawless production, the band delivers not only one of the finest progressive rock albums of the year, but also a work capable of resonating with different generations of listeners within the genre.


Jayler: Reflorestando o Espírito do Rock Clássico (Also In English)

Silver Lining Music (Imp.)

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Jayler dá nova vida ao som dos anos 70 em Voices Unheard

Jayler chega com o debut Voices Unheard mostrando que o rock clássico ainda consegue soar vivo e verdadeiro nas mãos de uma banda nova. O álbum é praticamente uma viagem pelo hard rock e blues setentista, mas sem parecer uma cópia vazia do passado. Pelo contrário: tudo soa muito natural, como se o Jayler realmente tivesse crescido ouvindo esse tipo de som e simplesmente quisesse continuar carregando essa energia adiante.

As comparações com Led Zeppelin são inevitáveis, principalmente por causa da voz de James Bartholomew, que lembra bastante Robert Plant em alguns momentos. Mas a própria banda parece lidar muito bem com isso. James comentou que eles pegam aquilo que bandas como Led Zeppelin representavam e ‘replantam’ de uma maneira própria — e honestamente, faz bastante sentido. Afinal, apesar da influência do Zeppelin ser muito clara, o Jayler não vive só disso. Dá para perceber referências de Aerosmith, AC/DC e The Beatles, além de muito blues e rock psicodélico espalhados pelo álbum em vários momentos.

Edu Lawless - @edulawless

A "Intro" já mostra exatamente essa proposta. A intro começa com uma gaita carregada de blues, um canto despretensioso, trazendo uma vibe muito setentista e até lembrando algumas coisas mais clássicas do Aerosmith. O jeito que a faixa soa quase parece uma gravação antiga em fita, com aquele clima vintage extremamente aconchegante e nostálgico. É aquele tipo de introdução que já te joga direto para a estética dos anos 70, 80 e até 90, criando uma sensação muito familiar logo de cara.

Depois disso vem “Down Below”, uma música energética, divertida e muito gostosa de ouvir. A gaita continua presente, o ritmo é dançante e a música passa uma mensagem de superação e volta por cima. Aqui, James já mostra sua técnica vocal impecável, alternando momentos mais agressivos com linhas melódicas muito naturais.

Edu Lawless - @edulawless

“Riverboat Queen” mergulha ainda mais fundo na identidade setentista da banda. É intensa, energética e cheia daquela 'sujeira' boa do hard rock clássico. Os riffs têm bastante personalidade e a música inteira parece feita para tocar alto.

A faixa “Bittersweet” vem como um momento de calma no meio de toda a energia do álbum. A faixa tem uma pegada mais acústica e folk, mostrando um lado mais sensível da banda. Aqui, a voz de James fica angelical e doce, e justamente pela simplicidade, a faixa acaba se tornando uma das músicas mais bonitas do disco.

Edu Lawless - @edulawless

“Lovemaker” traz aquele hard rock clássico, pesado e cheio de atitude. As guitarras distorcidas, os riffs marcantes e os vocais rasgados remetem muito à escola de Jimmy Page e ao rock setentista mais explosivo. É uma faixa intensa e extremamente divertida.

O álbum fecha com “The Rinsk”, talvez uma das músicas mais interessantes do disco. Ela vai crescendo aos poucos, ficando cada vez mais intensa conforme avança. O solo mais longo no final traz um lado mais experimental que combina muito bem com a proposta da banda, mostrando que Jayler consegue ir além da simples nostalgia.

Edu Lawless - @edulawless

Voices Unheard convence justamente porque soa verdadeiro. E é verdadeiro porque cumpre bem sua missão, eles não apenas "replantam", mas reflorestam o rock clássico. O Jayler claramente ama o rock clássico e coloca paixão em cada faixa, conseguindo transformar todas essas influências em algo que ainda tem uma  personalidade própria. A banda entende algo fundamental: algumas linguagens musicais se tornam atemporais justamente porque continuam encontrando novas vozes dispostas a mantê-las vivas. É um álbum energético, nostálgico, divertido e muito bem feito, daqueles que nos fazem lembrar por que o rock dos anos 70 continua influenciando tanta gente até hoje.

Edu Lawless - @edulawless

***ENGLISH VERSION***

Jayler arrives with their debut album Voices Unheard, proving that classic rock can still sound alive and genuine in the hands of a new band. The record feels like a journey through ’70s hard rock and blues, yet it never comes across as an empty imitation of the past. On the contrary, everything feels incredibly natural, as if Jayler genuinely grew up immersed in this kind of music and simply wanted to carry that energy forward.

Comparisons to Led Zeppelin are inevitable, mainly because of James Bartholomew’s voice, which strongly recalls Robert Plant at certain moments. But the band itself seems completely comfortable with that. James once mentioned that they take what bands like Led Zeppelin represented and “replant” it in their own way — and honestly, that description makes perfect sense. Even though Zeppelin’s influence is very clear, Jayler is far from being limited to it. You can also hear traces of Aerosmith, AC/DC, and The Beatles, alongside plenty of blues and psychedelic rock scattered throughout the album.

The “Intro” immediately establishes this concept. It opens with a blues-driven harmonica and an unpretentious vocal delivery, creating a deeply ’70s atmosphere that even recalls some of Aerosmith’s more classic moments. The way the track sounds almost resembles an old tape recording, carrying that warm, vintage, nostalgic feeling. It’s the kind of introduction that instantly throws you into the aesthetics of the ’70s, ’80s, and even ’90s, creating a strong sense of familiarity right from the start.

Then comes “Down Below,” an energetic, fun, and incredibly enjoyable track. The harmonica remains present, the rhythm is danceable, and the song carries a message of resilience and overcoming adversity. Here, James already showcases his impeccable vocal technique, alternating between more aggressive moments and naturally melodic lines.

“Riverboat Queen” dives even deeper into the band’s ’70s identity. It’s intense, energetic, and full of that gritty, dirty charm that defines classic hard rock. The riffs have a lot of personality, and the entire song feels designed to be played at maximum volume.

“Bittersweet” arrives as a calm moment amidst the album’s explosive energy. With a more acoustic and folk-inspired approach, the track reveals a more sensitive side of the band. James’ voice sounds angelic and delicate here, and precisely because of its simplicity, the song becomes one of the album’s most beautiful moments.

“Lovemaker” delivers classic hard rock in its purest form — heavy, loud, and packed with attitude. The distorted guitars, memorable riffs, and raw vocals strongly evoke Jimmy Page’s school of hard rock and the explosive spirit of the ’70s. It’s an intense and extremely entertaining track.

The album closes with “The Rinsk,” perhaps one of the record’s most interesting songs. It builds gradually, becoming more intense as it progresses. The longer solo near the end introduces a more experimental side that fits the band’s proposal perfectly, proving that Jayler is capable of going beyond simple nostalgia.

Voices Unheard succeeds precisely because it feels authentic. And it feels authentic because it fully accomplishes its mission: they don’t merely “replant” classic rock — they reforest it. Jayler clearly loves classic rock and pours genuine passion into every track, transforming all these influences into something that still carries its own identity. The band understands something fundamental: some musical languages become timeless precisely because new voices continue to emerge, willing to keep them alive. It’s an energetic, nostalgic, fun, and extremely well-crafted album — the kind that reminds us why ’70s rock still influences so many people today.

Divulgação


sábado, 23 de maio de 2026

Cobertura de Show: Nevermore – 28/04/2026 – Carioca Club/SP

Nevermore retorna em grande forma no Carioca Club em side show do Bangers Open Air

Após a aguardada apresentação no Bangers Open Air, o Nevermore realizou em São Paulo um side show especial no Carioca Club, na noite de 28 de abril de 2026. Mesmo sendo uma terça-feira, a casa estava completamente lotada e o público respondeu com intensidade do início ao fim, em uma apresentação que mostrou uma banda extremamente entrosada e tecnicamente irrepreensível.

Se no Bangers Open Air o retorno do Nevermore já havia sido um dos momentos mais comentados do festival, no Carioca Club a banda encontrou o ambiente perfeito para uma apresentação ainda mais intensa e próxima do público.

A atual formação conta com os membros fundadores Jeff Loomis e Van Williams, acompanhados por Jack Cattoi na guitarra, Semir Özerkan no baixo e pelo novo vocalista Berzan Önen, que acabou sendo um dos grandes destaques da noite. Esta turnê marca uma nova fase da banda após anos de hiato e incertezas sobre seu futuro. 

Pontualmente às 20h30, a intro “Ophidian” abriu caminho para “Beyond Within”, dando início a uma apresentação intensa e carregada de energia. Logo nas primeiras músicas já era possível perceber que o público estava disposto a transformar o show em algo especial. Os coros surgiam espontaneamente e o vocalista rapidamente demonstrou sintonia total com a plateia, chegando a pegar a câmera de um fotógrafo para filmar o público.

Musicalmente, a banda soou impecável. O som da bateria de Van Williams mereceu destaque especial durante toda a apresentação, com timbres extremamente definidos e execução precisa, especialmente nas passagens progressivas mais complexas. Jeff Loomis, por sua vez, entregou exatamente o que se espera de um dos guitarristas mais respeitados do Metal na atualidade: solos executados com naturalidade absurda, técnica refinada e presença constante durante toda a noite.

Mas a grande curiosidade naturalmente girava em torno de Berzan Önen. E qualquer dúvida parece ter desaparecido rapidamente. O vocalista não apenas alcançou linhas extremamente difíceis do repertório clássico da banda, como também trouxe personalidade própria às interpretações. Em um set recheado de clássicos, músicas como “Enemies of Reality”, “Sentient 6”, “Born” e “Next In Line” chamaram atenção tanto pela agressividade quanto pelos agudos muito bem executados, além da forte interação com o público. Em determinado momento, após conduzir um “aquecimento vocal” divertido com a plateia, resumiu o sentimento da noite: “You’re insane, I love you”.

“Sentient 6”, apresentada por Berzan como a melhor balada de todos os tempos, acabou se tornando um dos pontos altos do show, especialmente pela interpretação emocional e pela resposta do público, que acompanhou a música com mãos erguidas e forte participação nos refrões. Já “Born” elevou ainda mais o nível de intensidade da casa, com direito a stage diving, roda e um público completamente entregue à apresentação. “Next In Line” foi outra pra incendiar de vez o público do Carioca Club.

A interação da banda no palco também chamou atenção durante toda a noite. Berzan demonstrava constante proximidade tanto com Jeff Loomis quanto com os demais integrantes, enquanto Loomis frequentemente observava a reação da plateia sorrindo, claramente satisfeito com a recepção brasileira.

Outro momento marcante veio com “The Heart Collector”, em que Berzan dedicou ao poderoso vocalista original Warrel Dane, eternamente querido por todos nós. O Carioca Club inteiro acompanhou o refrão em coro, criando um dos momentos mais emocionantes do show.

Já “This Godless Endeavour”, que encerrou o set principal, teve uma recepção um pouco diferente: parte do público aparentava guardar energia para o encore, observando atentamente os detalhes técnicos da música — especialmente a impressionante performance de Van Williams e os solos de Loomis — antes da explosão definitiva durante o bis.

O retorno ao palco aconteceu sob fortes gritos de “Nevermore”- o que foi uma constante em toda a apresentação. Jeff Loomis agradeceu visivelmente satisfeito pela recepção, e afirmando como era bom estar de volta. O bis trouxe “Narcosynthesis”, que reacendeu imediatamente a energia da casa, seguida por “The River Dragon Has Come”, encerrando a noite em altíssimo nível.

Ao final da apresentação, ficou evidente que esta nova fase do Nevermore encontrou um caminho bastante promissor. Mais do que simplesmente reproduzir clássicos, a banda demonstrou estar viva, motivada e conectada com o público. E Berzan Önen, principalmente, saiu de São Paulo mais do que aprovado pelos fãs presentes.

Resta aguardar pelos próximos passos – o lançamento do sucessor de “The Obsidian Conspiracy”, acompanhado de outra passagem memorável pelo Brasil em breve.

Texto: Juliana Novo

Fotos: Pri Secco

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Bangers Open Air  / Honorsounds

Press: Agência Taga


Nevermore – setlist:

Ophidian

Beyond Within

My Acid Words

Enemies Of Reality

Engines Of Hate

Sentient 6

Next In Line

Moonrise (Through Mirrors Of Death)

Inside Four Walls

The Heart Collector

Born

Final Product

Believe In Nothing

This Godless Endeavour

Bis

Narcosynthesis

The River Dragon Has Come

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Cobertura de Show - Lançamento Vídeo da Epitaph + Fire Machine - Estúdio Legato - 08/05 - POA RS


No dia 09 de maio de 2026 a banda brasileira de Heavy Metal, Epitaph (não confundir com a clássica banda alemã de rock progressivo e hard rock dos anos 70), lançou seu novo vídeo clipe, The Girl Who Loved the Dead, no Estúdio Legato em Porto Alegre, local onde também foi realizada a sua gravação sob produção da Chama Vídeo Independente.

Com abertura da banda Fire Machine, que também está retornando aos palcos depois de longo hiato com energia redobrada e músicas novas, o evento entregou ótimas performance e um clima leve e divertido.

Com seu Hard com inspiração 70's e 80's, com muita pegada e groove, essa nova formação da Fire Machine se mostra cada vez mais coesa. Destaque para "She's a Good Lover", que mostra essa alma 70's bem evidente.







Era hora dos donos da festa. Formada em 2000 e lançando seu primeiro álbum em 2009, intitulado "Getting Down to Business", e com.o novo trabalho já a caminho, a Epitaph reúne em seu line-up músicos altamente qualificados. 

Com Joe F. Louder nos vocais, Marlon Steindorff e André Carvalho nas guitarras, Fábio Figueredo no baixo e César "Five" Louis na bateria, a banda que por muitos anos eu conhecia de nome, porém nunca parei para escutar por pensar que fossem de um estilo próximo da Obituary (se parar para pensar, as duas são parte de funerais, e planejo deixar o meu para muito mais adiante...), a Epitaph realmente me surpreendeu, tanto tecnicamente em relação aos instrumentistas quanto ao vocalista. 

É Heavy Metal Clássico, com inspiração em Judas, Accept, Saxon, resumindo, ícones que ajudaram a  forjar e lapidaram o estilo.

Gurizada! Além das músicas serem boas pra caramba e quase todas "falarem de amor", segundo Joe durante os intervalos entre cada música, o carisma, humildade e carinho que Louder tem com seus parceiros e amigos de banda e com o público me cativaram de uma forma enorme. 

Foi a hora em que todos os presentes na festa começaram a perceber que a Epitaph estava fazendo um "PQP! QUE P*** SHOW!"

E de quebra ainda vivi algo que nunca imaginei presenciar em um show de rock e metal, onde sempre imaginamos pessoas com caras de poucos amigos e balançando suas cabeleiras tirando o pó dos locais (o que é muito longe da realidade, porém imaginário popular é complicado, com exceção de tirar o pó com as cabeleiras, essa parte é real), simplesmente ocorreu um quase show de comédia stand up por parte de Joe a cada pausa. 

Sério, quem não conseguiu ir não tem ideia do que foi. Era uma música, um comentário e risadas começavam a ecoar no Legato. Eu sempre me considerei muito profissional no que faço, seja fotografia seja texto e mesmo assim teve horas que eu precisava largar a câmera, parar de rir, secar os olhos (sim, foi esse o naipe do negócio!) e voltar a fotografar e ou escrever anotações para esta resenha!

E devo admitir, Joe F. Louder aos meus olhos é muito parecido com um artista brasileiro que eu pessoalmente gosto, Sidnei Magal (sim, me julguem), as feições, a fala, alguns trejeitos em cima do palco, gurizada, sério, é o Magal do Metal em pessoa, mas com um estilo não tão "brega" (mesmo que fosse uma alcunha usada pelo próprio Magal para brincar com seu próprio estilo) quanto o original.

"Ah mas e o clipe, não vai falar nada"? Calma jovens gafanhotos, irei! 

A produção foi ótima, o visual com uma temática mais gótica e sombria que usaram para a produção e proposta do videoclipe também encaixou muito bem com a música, uma ruivaça vestida de preto carregando taças de vinho (ou sangue... deixarei para a imaginação de vocês) a qual ajeitava caveiras, fazia rituais para conversar com seus "beloveds" e surgia a banda (genial), e ainda por cima, com toda esta temática geralmente utilizada por bandas de um estilo levemente diferente? Sensacional!


Que venham muitos mais shows, muitas músicas, clipes e álbuns, além de reconhecimento à esta banda que num piscar de olhos, chegará à marca dos trinta anos de existência!



Texto e fotos: Vinny Vanoni 
Edição/revisão: Caco Garcia 




Clipe da música "The Girl Who Loved the Dead"

Álbum: Digital Screams (2026)  - data lançamento a confirmar 

Letra: Dênis Winston
Filmagem: por Renato Chama
Chama Vídeo Independente 
Stela Menezes "The Girl"
Cátia Rocho - Assistente de produção 
Katrina Addams - Maquiagem 
Filmado no Legato Estúdio Porto Alegre/Brasil
Música gravada e mixada por
Lucas Santorum LST Records
Música: André Soares, César Louis, 
Marcelo Fernandez e Marlon Steindorff