Por Anderson Bellini - @andersonbellinii
Quando Leo Leoni, guitarrista e membro fundador do Gotthard, criou o CoreLeoni em 2017, a proposta inicial estava diretamente ligada ao resgate de uma parte importante da história do hard rock suíço: revisitar os clássicos dos primeiros anos do Gotthard e manter viva a sonoridade que ajudou a transformar a banda em uma das referências do gênero. Com o passar dos anos, porém, o projeto ganhou identidade própria e passou a funcionar como uma banda de fato.
É justamente essa identidade que chega ao seu quarto capítulo de estúdio com “Generection”, álbum que será lançado em 11 de setembro de 2026 pela Reigning Phoenix Music e que representa, talvez, o trabalho mais ambicioso e pesado do CoreLeoni até aqui.
Ao lado de Leoni estão Eugent “Gent” Bushpepa nos vocais, Jgor Gianola nas guitarras, Mila Merker no baixo e Alex Motta na bateria. É o segundo álbum do grupo com Bushpepa, vocalista que novamente demonstra enorme força e versatilidade, mas que desta vez também parece mais à vontade para imprimir sua própria personalidade às composições.
“Generection” nasce predominantemente de material inédito e tem uma diferença importante em relação aos trabalhos anteriores: todos os integrantes participaram de maneira mais efetiva do processo de composição. O resultado, entretanto, não descaracteriza a assinatura de Leo Leoni. Pelo contrário. O guitarrista consegue incorporar novas ideias sem abrir mão dos elementos que construíram sua identidade ao longo de décadas.
E é impossível falar deste disco sem mencionar sua sonoridade.
A produção aposta em uma abordagem analógica, buscando reproduzir a sensação e a profundidade das gravações clássicas dos anos 1970 e 1980, mas sem abrir mão da potência de uma produção contemporânea. Guitarras encorpadas, bateria orgânica, baixo pulsante e vocais muito presentes fazem com que o álbum soe simultaneamente vintage e atual.
O título “Generection” funciona perfeitamente como conceito. O CoreLeoni procura estabelecer uma ponte entre diferentes gerações de fãs de rock: apresenta aos mais jovens uma sonoridade que nasceu décadas atrás e, ao mesmo tempo, oferece aos veteranos uma viagem nostálgica pelos tempos áureos do hard rock melódico.
“Generation Rock”, primeiro single, talvez seja a melhor representação dessa ideia. O riff poderoso, o refrão imediatamente assimilável e a sonoridade analógica deixam claro desde os primeiros segundos qual é a proposta do álbum.
Mas “Generection” não vive apenas de nostalgia. Há momentos em que o CoreLeoni olha para frente e flerta abertamente com sonoridades mais modernas e pesadas. “Howling At The Moon”, por exemplo, é uma das maiores demonstrações dessa nova faceta.
A história da música, aliás, é particularmente interessante para os fãs de Gotthard. A composição nasceu de uma ideia desenvolvida por Jgor Gianola e Steve Lee durante sessões de composição do Gotthard no início dos anos 1990. Décadas depois, o material foi redescoberto e reconstruído para o CoreLeoni.
Essa conexão com o passado aparece em diversos momentos do disco, mas nunca de maneira puramente arqueológica. Leo Leoni conhece profundamente a fórmula que ajudou a construir o Gotthard clássico — riffs marcantes, melodias fortes, refrões grudentos e equilíbrio entre peso e acessibilidade — e utiliza esse conhecimento para construir um álbum que poderia facilmente ter sido lançado em outra época, mas que não soa deslocado em 2026.
E talvez seja justamente essa a grande força de “Generection”.
FAIXA A FAIXA
01. LAST GOODBYE
O disco começa com “Last Goodbye”, e a primeira impressão é imediata: estamos diante de um riff potente, encorpado e cheio de energia. A guitarra de Leo Leoni traz aquela característica que os fãs dos primeiros discos do Gotthard reconhecerão imediatamente.
Eugent Bushpepa também chama atenção logo de cara. Em alguns momentos, sua interpretação remete inevitavelmente ao saudoso Steve Lee, não por uma tentativa de imitá-lo, mas pela maneira como consegue transitar entre força, melodia e emoção.
O destaque fica ainda para o duelo de guitarras entre Leo Leoni e Jgor Gianola, que funciona como uma espécie de cartão de visitas para o que virá pela frente.
02. GENERATION ROCK
Faixa que dá nome ao álbum e uma das mais importantes do disco.
“Generation Rock” reúne praticamente todos os ingredientes que fizeram o Gotthard da era Steve Lee conquistar tantos fãs: acordes marcantes, melodias fortes, guitarras poderosas e, principalmente, um refrão daqueles que grudam na cabeça depois da primeira audição.
Há momentos que lembram bastante “Dream On”, do álbum Lipservice, de 2006. A diferença está justamente na produção: aqui, a sonoridade analógica se torna muito evidente e ajuda a transportar o ouvinte para outra época.
É nesta faixa que entendemos perfeitamente a proposta de “Generection”. O passado e o presente estão dividindo o mesmo espaço.
03. HOWLING AT THE MOON
Começa com uma atmosfera mais sombria até que um riff pesado entra em cena, trazendo uma pegada quase industrial, com alguns elementos que podem lembrar o peso do Rammstein.
Teclados aparecem de maneira bastante presente e ajudam a construir o clima da música, enquanto as guitarras de Leoni e Gianola novamente protagonizam bons momentos.
04. SEX ON THE BEACH
O título já entrega boa parte da proposta.
“Sex On The Beach” é aquela música que pede estrada, motocicleta, sol e uma viagem rumo ao litoral. O clima é descontraído e divertido, mas sem abandonar o peso característico do CoreLeoni.
O riff traz uma pegada que remete aos anos 1960, com uma influência blues bastante perceptível. É uma das faixas mais leves e divertidas do disco, funcionando como uma espécie de respiro entre momentos mais pesados.
Rock’n’roll sem muita preocupação — exatamente como deve ser.
05. BELIEVE
Uma das melhores músicas do álbum.
“Believe” começa de maneira delicada, com Eugent Bushpepa acompanhado por uma bonita melodia de piano. Aos poucos, a música cresce até desembocar em um refrão grandioso, daqueles que imediatamente remetem às grandes baladas do hard rock dos anos 1980.
Whitesnake é uma referência inevitável aqui.
É também uma das faixas em que Bushpepa mais demonstra sua identidade como cantor. O vocal é potente, mas também extremamente versátil e emocional.
“Believe” mostra que o CoreLeoni não precisa depender exclusivamente da nostalgia para funcionar. Quando Leo Leoni e sua banda apostam em uma grande composição, o resultado fala por si só.
06. VISION CORELIONE
Uma das grandes surpresas do álbum.
“Vision” em uma nova roupagem para uma das grandes músicas do Gotthard, originalmente lançada no álbum “Open”, de 1999.
Leo Leoni não tenta simplesmente copiar a gravação original. A música recebe uma roupagem mais moderna e passa a soar como uma composição genuinamente pertencente ao universo do CoreLeoni.
As melodias originais são respeitadas, especialmente no refrão, mas os novos arranjos dão outra personalidade à faixa.
Para os fãs de Gotthard, é um presente. Para quem conhece a versão original, uma releitura que merece atenção.
Parabéns, Leo.
07. ROCK’N’ROLL REBEL
A música começa com um efeito de voz reverso que imediatamente remete a “Higher”, faixa de abertura de “Dial Hard”, do Gotthard.
A partir daí, porém, o CoreLeoni parte para um território mais pesado, com uma influência que passa pelo grunge dos anos 1990.
A bateria é empolgante e a guitarra mantém aquela pegada poderosa que caracteriza o disco. O solo, apesar do peso da composição, segue uma linha bastante melódica.
É provavelmente a faixa que mais soa como um verdadeiro soco no estômago. Pesada, agressiva e direta.
08. DON’T TELL ME
Hard rock em sua forma mais clássica.
“Don’t Tell Me” remete diretamente ao Gotthard da época de Steve Lee, especialmente pela construção do refrão. É aquele tipo de música que não precisa de grandes invenções para funcionar.
O refrão é grudento, os backing vocals tornam tudo ainda mais empolgante e a guitarra mantém o equilíbrio perfeito entre peso e melodia.
É praticamente impossível ouvir a música sem sentir vontade de acompanhar o ritmo.
09. I’M AFRAID I’M IN LOVE
Outra faixa que poderia facilmente ter aparecido em um álbum clássico do Gotthard, nesse caso, no “Need To Beleve”.
“I’m Afraid I’m In Love” possui todos aqueles elementos que Leo Leoni sabe utilizar tão bem: riff marcante, melodia acessível, refrão forte e uma construção que cresce naturalmente até o momento de maior impacto.
É uma música que poderia tranquilamente ter sido escolhida como single e ganhar um videoclipe.
Eugent novamente entrega uma interpretação muito segura, reforçando que sua presença no CoreLeoni não é apenas uma substituição de vocalista, mas uma nova fase para o projeto.
10. YEARNING
“Yearning” começa com violão e voz e imediatamente apresenta uma atmosfera diferente do restante do disco.
Talvez seja a música que menos me remeta ao Gotthard, e justamente por isso merece destaque.
É uma balada hard rock com forte apelo pop, arranjos muito bem construídos e uma carga emocional bastante significativa. Leo Leoni mostra aqui que continua dominando uma das artes mais difíceis do rock: escrever músicas simples, acessíveis e, ao mesmo tempo, emocionalmente eficientes.
É o tipo de faixa que poderia facilmente ter encontrado espaço nas rádios durante os anos 1990 — e, em outra época, não seria difícil imaginá-la entre as músicas mais executadas da MTV.
11. LADY MARMALADE
Uma escolha bastante curiosa para encerrar a experiência do álbum.
Conhecida mundialmente através de diversas versões, “Lady Marmalade” ganhou enorme repercussão na voz de Christina Aguilera e também ficou eternizada na trilha sonora de Moulin Rouge!, de 2001.
O CoreLeoni transforma completamente a música.
Riffs pesadíssimos, guitarras agressivas e uma abordagem genuinamente hard rock fazem com que a composição ganhe uma nova personalidade.
Confesso que nunca fui um grande admirador da versão original. Depois de ouvir esta interpretação, entretanto, passei a enxergar a música de outra maneira.
É uma daquelas versões que conseguem fazer o ouvinte redescobrir uma composição conhecida.
VEREDITO
“Generection” é um excelente disco. Nota 8/10.
Na minha opinião, é facilmente um dos trabalhos mais interessantes relacionados ao universo do Gotthard lançado nos últimos anos.
É importante deixar claro: gosto muito dos discos que o Gotthard gravou com Nic Maeder nos vocais. Entretanto, a banda naturalmente se transformou depois da morte de Steve Lee, em 2010. A proposta passou a ser outra, e isso faz parte da história do grupo.
O CoreLeoni segue por um caminho diferente.
Leo Leoni não tenta esconder suas raízes. Muito pelo contrário: ele as coloca no centro da produção. Os riffs, os refrões, as melodias e a própria construção das músicas remetem constantemente ao Gotthard de sua fase clássica.
Mas “Generection” não é simplesmente uma tentativa de reproduzir o passado.
A participação mais efetiva de toda a banda no processo criativo, a presença de Gent Bushpepa e principalmente a produção analógica dão ao álbum uma identidade própria. O resultado é um disco que consegue olhar para trás sem parecer preso ao passado.
Para os fãs do Gotthard da era Steve Lee, é praticamente um prato cheio.
Para quem gosta de hard rock melódico, guitarras poderosas e refrões que ficam na cabeça, também.
Ouça sem moderação.






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