sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Iron Savior: A Essência Permanece (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Formada em Hamburgo, o Iron Savior chega aos 30 anos de carreira com Deathbringer, seu novo álbum de estúdio e sucessor de Firestar (2023). Produzido por Piet Sielck no tradicional Powerhouse Studio, o disco retoma o formato conceitual e mergulha novamente na combinação que se tornou a assinatura da banda: power metal vigoroso, refrãos grandiosos, velocidade e ficção científica. Com produção robusta e composições carregadas de energia, Deathbringer não apenas celebra três décadas de trajetória, como reafirma o Iron Savior em plena forma.

Deathbringer traz o Iron Savior exatamente como sempre foi — e talvez esse seja precisamente seu maior mérito. Em vez de perseguir tendências ou tentar reinventar uma fórmula que já se mostrou eficiente, Piet Sielck retorna ao território que conhece como poucos: o power metal de raízes germânicas, construído sobre riffs precisos, refrãos monumentais e uma produção que transforma cada guitarra em uma declaração de princípios. E vale lembrar que Sielck não é apenas o líder do Iron Savior, mas também um dos nomes ligados à primeira formação do Helloween.

A grande força do álbum está justamente naquilo que une todas as suas faixas: o caráter hínico, grandioso e imediatamente reconhecível. É uma característica que acompanha o Iron Savior desde seus primeiros trabalhos e que permanece intacta aqui. O disco também representa o retorno da banda ao formato de álbum conceitual, depois do projeto Reforged, dedicado às regravações de seu material da era Noise Records, e do interessante álbum de covers.

A jornada começa com a breve introdução instrumental e épica Shadows Of Neverness, que prepara o terreno para a faixa-título. Deathbringer entra em cena em alta velocidade, carregada de energia e com força suficiente para capturar imediatamente a atenção do ouvinte. Na sequência, Light In The Dark acelera ainda mais o passo, com claras referências ao Blind Guardian dos primeiros álbuns. A associação não é gratuita: Thomas “Thomen” Stauch, baterista da formação clássica do Blind Guardian, fez parte do Iron Savior em seus primeiros anos. O resultado é uma faixa que representa o power metal teutônico em sua essência.

Creature’s Tale surge como outro dos grandes momentos do álbum. Sem abandonar a identidade do Iron Savior, a música se aventura por um território mais cru, próximo ao heavy metal tradicional, mas preserva sua atmosfera épica e o característico uso de backing vocals. É um bom exemplo de como a banda consegue introduzir pequenas variações sem colocar em risco uma identidade construída ao longo de três décadas.

Back From The Fires Of Hell começa de maneira um pouco mais cadenciada, mas rapidamente se encaixa na proposta central do álbum: power metal melódico com a assinatura inconfundível do Iron Savior. Mais uma vez, o refrão é melódico e épico, reforçando a atmosfera grandiosa do disco. E, apesar da proximidade entre algumas soluções musicais, Deathbringer não chega a se tornar monótono.

Mais um hino dá continuidade à jornada. To Boldly Go aposta ainda mais na melodia e apresenta um trabalho de guitarra típico do power metal alemão. A faixa soa um pouco mais leve em boa parte de seu andamento, embora algumas passagens mais obscuras introduzem um contraste interessante. É uma variação discreta, mas suficiente para ampliar a dinâmica do álbum.

Fechando o conjunto de singles previamente lançados, Climbing Higher é provavelmente a faixa mais imediatamente acessível do disco. Construída para ser cantada por qualquer plateia em um show do Iron Savior, possui aquele tipo de refrão que parece destinado aos palcos. É, sem dúvida, a composição mais “comercial” do álbum, sem que isso represente uma concessão à identidade da banda. O uso de efeitos eletrônicos, particularmente na bateria, também acrescenta uma novidade à sonoridade tradicional do grupo.

Entre as faixas apresentadas como bônus, No Deal retorna ao power metal com o carimbo do Iron Savior. Menos rebuscada e mais agressiva que sua antecessora, mantém a continuidade sonora do álbum e não causa qualquer ruptura em sua narrativa musical.

Dawn Of Deliverance novamente flerta com a linguagem do Blind Guardian, trazendo um power metal essencialmente germânico e inúmeras linhas de guitarra. O trabalho instrumental de Piet e Piesel merece destaque, assim como a impressionante variedade de backing vocals, que transforma a faixa em mais um dos grandes hinos do disco.

Com uma abordagem diferente e vocais particularmente limpos, Gunslinger apresenta um início pouco convencional para os padrões do álbum, mas permanece firmemente dentro do universo do power metal. Sua maior contribuição está em oferecer um momento de maior cadência, quebrando parcialmente a sequência de velocidade e intensidade. O refrão é mais direto que os anteriores, mas a sonoridade do Iron Savior permanece evidente, deixando claro que a faixa pertence ao mesmo universo. Uma “acalmada” bem-vinda — se é que podemos chamar de calma uma música do Iron Savior.

De volta à velocidade habitual e aos vocais mais rasgados, Never To Yield retoma integralmente a sonoridade característica do disco. O refrão melódico, cercado por camadas de backing vocals, reforça aquela atmosfera épica que se tornou uma das marcas registradas da banda. Mais uma vez, tudo está bem colocado e produzido, favorecendo uma audição fluida e revelando uma composição essencialmente melódica.

Encerrando a parte autoral do álbum, Forever And A Day cumpre sua função sem surpresas: é mais uma competente faixa de power metal, encerrando a jornada dentro dos parâmetros que o Iron Savior estabeleceu para Deathbringer.

E ainda há espaço para um último tributo. Fechando o álbum, a banda apresenta uma versão de Fever, do Judas Priest, uma de suas maiores influências. Originalmente lançada em Screaming For Vengeance, a música funciona como um bônus bastante apropriado para concluir o disco.

Deathbringer chega reafirmando a identidade de uma banda que, após três décadas, conhece perfeitamente seu território. O Iron Savior entrega aqui exatamente aquilo que seus fãs esperam: power metal alemão vigoroso, melodias marcantes, refrãos feitos para grandes plateias e uma produção poderosa.

Pode faltar ao álbum o elemento de surpresa capaz de redefinir os rumos do gênero, mas sobra consistência. E, em uma carreira de 30 anos, saber exatamente quem você é pode ser uma das maiores demonstrações de força. Deathbringer talvez não acrescente uma nova página à história do power metal, mas confirma o Iron Savior como um de seus nomes mais sólidos e fiéis à própria essência.

***ENGLISH VERSION***

Formed in Hamburg, Iron Savior reaches the 30-year mark with Deathbringer, their new studio album and the follow-up to 2023’s Firestar. Produced by Piet Sielck at the band’s long-established Powerhouse Studio, the record returns to the concept-album format while once again diving into the combination that has become the band’s trademark: powerful power metal, huge choruses, speed and science fiction. With a robust production and compositions packed with energy, Deathbringer not only celebrates three decades of the band’s career but also confirms Iron Savior in outstanding form.

Deathbringer delivers Iron Savior exactly as they have always been — and perhaps that is precisely its greatest strength. Rather than chasing trends or attempting to reinvent a formula that has already proven successful, Piet Sielck returns to the territory he knows better than most: German-rooted power metal built on precise riffs, monumental choruses and a production that turns every guitar part into a statement of intent. It is also worth remembering that Sielck is not only the leader of Iron Savior, but was also one of the figures involved in the early formation of Helloween.

The album’s greatest strength lies precisely in what unites all of its tracks: their anthemic, grandiose and immediately recognizable character. It is a quality that has accompanied Iron Savior since their earliest work and remains completely intact here. The album also marks the band’s return to the concept-album format following the Reforged project, dedicated to re-recording their material from the Noise Records era, and the interesting covers album.

The journey begins with the brief, epic instrumental introduction Shadows Of Neverness, which sets the stage for the title track. Deathbringer bursts in at full speed, loaded with energy and powerful enough to grab the listener’s attention immediately. Light In The Dark then pushes the pace even further, with clear references to Blind Guardian’s early albums. The connection is hardly coincidental: Thomas “Thomen” Stauch, drummer of Blind Guardian’s classic lineup, was part of Iron Savior during their early years. The result is a track that captures the essence of Teutonic power metal.

Creature’s Tale emerges as another of the album’s major highlights. Without abandoning Iron Savior’s identity, the song ventures into a rawer territory, closer to traditional heavy metal, while retaining its epic atmosphere and the band’s characteristic use of backing vocals. It is a good example of how the band can introduce subtle variations without compromising an identity built over three decades.

Back From The Fires Of Hell starts at a slightly more measured pace but quickly settles into the album’s central proposition: melodic power metal with the unmistakable Iron Savior stamp. Once again, the chorus is melodic and epic, reinforcing the record’s grandiose atmosphere. And despite the familiarity of some of its musical ideas, Deathbringer never becomes monotonous.

Another anthem continues the journey. To Boldly Go leans even further into melody and features guitar work typical of German power metal. The track feels somewhat lighter for much of its duration, although darker passages introduce an interesting contrast. It is a subtle variation, but enough to broaden the album’s dynamics.

Closing out the set of previously released singles, Climbing Higher is probably the album’s most immediately accessible track. Built to be sung by any audience at an Iron Savior show, it possesses exactly the kind of chorus that seems destined for the stage. Without question, it is the album’s most “commercial” composition, although that never comes at the expense of the band’s identity. The use of electronic effects, particularly on the drums, also adds a fresh touch to the group’s traditional sound.

Among the tracks presented as bonus material, No Deal returns to power metal bearing the unmistakable Iron Savior stamp. Less elaborate and more aggressive than its predecessor, it maintains the album’s sonic continuity without disrupting its musical narrative.

Dawn Of Deliverance once again flirts with the language of Blind Guardian, delivering quintessentially German power metal and an abundance of guitar lines. The instrumental work by Piet and Piesel deserves particular mention, as does the impressive variety of backing vocals, which transforms the song into yet another of the album’s anthemic highlights.

With a different approach and particularly clean vocals, Gunslinger opens in an unconventional manner by the album’s standards, but remains firmly rooted in the power metal universe. Its main contribution is to provide a more measured moment, partially breaking up the sequence of speed and intensity. The chorus is more direct than those of the preceding tracks, but Iron Savior’s sound remains unmistakable, leaving no doubt that the song belongs to the same universe. A welcome change of pace — if we can really call anything on an Iron Savior album “calm.”

Back to the album’s customary speed and grittier vocals, Never To Yield fully embraces its established sound. The melodic chorus, surrounded by layers of backing vocals, reinforces the epic atmosphere that has become one of the band’s trademarks. Once again, everything is well arranged and produced, making for a smooth listening experience while revealing another fundamentally melodic composition.

Closing the album’s original material, Forever And A Day fulfills its role without surprises: another solid power metal track that brings the journey to an end within the parameters Iron Savior have established for Deathbringer.

And there is still room for one final tribute. Closing the album, the band delivers a version of Fever by Judas Priest, one of their greatest influences. Originally released on Screaming For Vengeance, the song works as a fitting bonus with which to bring the record to a close.

Deathbringer arrives reaffirming the identity of a band that, after three decades, knows its territory inside out. Iron Savior deliver precisely what their fans expect: vigorous German power metal, memorable melodies, choruses designed for huge audiences and a powerful production.

The album may lack the element of surprise capable of redefining the genre’s direction, but it more than makes up for it with consistency. And after 30 years, knowing exactly who you are can be one of the greatest demonstrations of strength. Deathbringer may not add an entirely new chapter to the history of power metal, but it confirms Iron Savior as one of the genre’s most solid bands — and one of its most faithful to their own essence.

Thomas Spengler 


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Black Pantera: O Mundo Tem Pele Preta

Deckdisc (Nac.)

Por Lais Rüdiger (@lais.rudiger) e Eduardo Okubo Jr. (@eduardookubojunior)

Continental, o quinto álbum do trio formado por Charles Gama (guitarra e vocais), Chaene da Gama (baixo e vocais) e Rodrigo Pancho (bateria e percussão) tem a missão de seguir o sucesso de crítica e público do Perpétuo (2024), que foi o passo mais importante da banda para furar a bolha do underground e de expandir seu público.

As letras continuam versando sobre representatividade, sobre racismo, desigualdade social, política e igualdade de gênero. Dessa vez a mistura agrega geopolítica, globalização, viagens no tempo e até samurais.

Continental, ao mesmo tempo que mantém a identidade da banda (tem peso, velocidade e a agressividade do Hardcore Punk, Trash Metal e Hardcore), também flerta com novos estilos: temos aceno ao Punk Rock-Pop em "Velho Jeans Rasgado" e "Sic Mundus", MPB com "Quando Canto" com a voz poderosa de Sandrá Sá e a belíssima "Banzo" com a companhia de Chico César e até trilhas sonoras.


Continental 

"Nós somos a América do Sul" 

"Nós não somos seus inquilinos" 

"Eles não são o mundo"

E assim começa a faixa "Continental" com uma muralha sonora, crua, rápida e pesada mostrando que o Black Pantera segue sendo a mesma banda que não tem medo de tocar o dedo na ferida das mazelas da sociedade. E aqui temos a participação especial mais inusitada e importante do álbum: "porque eu tenho que acreditar que a história vai ser sempre feita por eles?" Milton Santos aponta que podemos ser uma força criativa e transformadora que pode ditar os destinos do mundo.

O Mundo somos todos nós e o mundo tem pele preta!



Serotonina 

"Você pode ser fã de RDP, BTS, Negra Li, Jorge Be...Rock , Funk, Rap..." O baixo do Chaene da Gama comanda essa faixa cheia de groove e com a bela voz da Duquesa dando um toque feminino e feminista para a faixa. 

"Não vou gastar meu alfabeto com vacilão" já escuto as plateias cantando junto esse refrão marcante.

Hórus

Com foco na religiosidade, “Hórus” traz explicitamente em sua letra elementos que transitam entre o catolicismo e religiões de matriz africana, assim como a simbologia da divindade egípcia que dá título a música. Uma crítica social ao corpo negro, que na grande maioria das vezes é apontado sob os holofotes de maneira pejorativa ou como ameaça, tendo que limitar seus movimentos e tomar cuidado na hora de se vestir para não ser confundido com o estereótipo pré conceituado de ladrão. E esse julgamento acontece até mesmo entre os próprios negros, quando colocados em posições de vigiar e punir para monitorarem cada passo daqueles que possuem a sua cor de pele. 

Dentre os versos da canção, a cidade natal da banda, Uberaba, recebe também a sua homenagem, lembrando sempre a importância que o Black Pantera carrega por destacar suas raízes.    

Quando Canto (com Sandra Sá)

No batuque do tambor de “Quando Canto”, faixa em parceria e iniciada com a voz de Sandra Sá, ocorre a exaltação do povo preto pelo povo preto. A fusão do singular com o plural. O destaque da coletividade, da reunião das vozes que perduram sua luta através das gerações. A morte ganha protagonismo, para dimensionar o empenho dos que foram até o fim buscando por melhores condições de vida e que agora finalmente chegaram num lugar aonde a dor não os alcança. E apesar da passagem física dos que já foram, a herança da voz permanece.  

Gostaria de destacar a bela união sonora gerada pelo metálico da guitarra e os instrumentos de percussão, que vão ganhando intensidade ao longo da música e explodem na bateria de Rodrigo Pancho.

Velho Jeans Rasgado

Uma bela faixa que começa com o baixo marcante do Chaene e um "Hey, Hey, Hey" que já entrega a influência do Punk Rock, me lembrou Ramones, melódica e dançante.

"Quantas vezes o horizonte foi a minha casa"

Uma faixa que narra as dificuldades de quem faz o corre, que vive na estrada; temos o sofrimento, superação, resiliência; a saudade de quem amamos; e quem sabe as conquistas merecidas no final da jornada. É uma bela homenagem para todos que vivem de música, se apresentando para 10, 20, 100 ou uma arena cheia. 

E que bom que o corre de vocês valeu a pena, Charles! 

Negusa Nagast 

Bateria, baixo, riffs poderosos e a marcante voz de Chaena da Gama (cantando cada vez melhor) comandam a faixa. "Deixa a Gira girar, que ela vai te guiar..." uma belíssima faixa que mostra a evolução do trio como músicos. O título da música significa na língua ge'ez Rei dos Reis, e era uma referência ao último imperador etíope, que é uma figura sagrada para o movimento rastafári.

Start The Game

A ferocidade de “Start The Game” está mergulhada no universo dos jogos de vídeo game, numa narrativa que destaca a individualidade de cada jogador em busca de chegar ao final de uma fase para avançar para a seguinte, sem pensar no coletivo. Cada um por si, mentes manipuladas para estarem em combate umas com as outras a todo momento e a ponderação do quanto custou chegar até o fim da linha para alguns poucos jogadores. Mal sabem eles que essas cartas já são marcadas e, na verdade, o jogo nunca chega num término real, porque depois da última fase, tudo recomeça. 

Uma reflexão sobre as questões sociais de manipulação e poder.

Obsoleto 

"Preciso de atualização, me sinto obsoleto", verdade que as vezes todos nos sentimos assim com essa loucura que é o mundo moderno. A faixa vai direto ao ponto, com essa letra que aparenta ser simples, mas que traz uma reflexão atual e universal. Aqui temos outra aguardada participação mais do que especial: Derrick Green (vocalista do Sepultura), cuja performance vocal encaixa perfeitamente com o som do Black Pantera. Derrick mostra que envelheceu bem, como um bom vinho e a dobradinha com Charles Gama é maravilhosa.  

O vocalista da maior e mais influente banda de Metal do Brasil bem que poderia dar uma canja em algum show do trio de Uberaba.

Meu sonho é ouvir “é Black Pantera do Brasil, um, dois, três, quatro".

P.S.: Temos uma inesperada homenagem ao Metallica na faixa Black Pantera, é isso mesmo?

W.P.P.

Começando pelo refrão, a visceral “W.P.P.” descreve como pessoas brancas e com poder aquisitivo reclamam a todo o momento de fatos rotineiramente banais, o que ironicamente ficou conhecido na Internet como White People Problem. A letra também destaca o privilégio branco, as regras que não são aplicadas e a justiça da impunidade, de uma Lei que não é válida para todos. 

Aborda ainda uma temática muito polarizada, que é remetente as questões das ações de políticas públicas, que buscam minimizar as discrepâncias de direitos na fenda criada no período da escravidão e que perdura até os dias atuais.

Banzo (com Chico César)

Black Pantera é uma banda que sempre vai tocar nas feridas deixadas nos negros. A temática de “Banzo” – palavra existente e de origem banto – é envolta numa malemolência sonora diferenciada do habitual e com versos na voz de Chico César, retratando a questão da saúde mental e física que a negritude carrega desde a época da escravidão. 

Remetendo a uma comparação entre brancos e negros, entre quem tem recursos e quem não tem, essa letra destaca o fato de que somente quem passa por uma determinada situação tem o real entendimento das dores provocadas por ela. Afinal de contas, é muito fácil falar de meritocracia quando se tem recursos financeiros. Na prática, uma barriga vazia não significa somente fome, mas também uma limitação orgânica para obtenção e desfrute de um melhor aprendizado teórico. Sem combustível para um corpo, são a mente consequentemente também não consegue ficar sã. E vice-versa. 

Uma criança que perde o brilho da infância trabalhando cresce sendo um adulto amargurado muitas das vezes, o que pode se transformar numa raiva não compreendida pelos chefes que só vivem para manter as aparências. O rico não sobreviveria um dia sendo pobre.


Yasuke

‘Temos trilha sonora de abertura de anime? Temos sim! Mais uma piscadela da banda para a Cultura Geek. Yasuke, personagem do anime de mesmo nome, e que por sua vez é baseado na história real do primeiro Samurai negro do Japão. E a temática do personagem cabe perfeitamente no discurso da banda. 

Agora resta um desejo: Chaene tem que aparecer vestido de Samurai algum dia desses nas apresentações ao vivo da banda, empunhando sua katana e seu baixo como um verdadeiro Samurai que ele é.

Sic Mundus

Ouvir os dois irmãos cantando junto a letra da música é absurdamente bom, uma letra esperta, cheia de referências. "O Passado se faz presente, ninguém veio do futuro para nos salvar" o nosso destino está em nossas próprias mãos, não podemos continuar passivos diante das injustiças, da máquina de moer gente e dos devoradores de mente. Mais uma bela música com refrão delicioso de se cantar ao vivo junto com a banda e balançando a cabeça junto, e, fazendo a gente refletir sobre o mundo no qual vivemos. 

"Sic mundus creatus est" - "Assim o mundo foi criado" piscou e perdeu mais uma referência Geek, desta vez à série da Netflix Dark.

Punhos Cerrados

Descrevendo um posicionamento corporal de encorajamento, “Punhos Cerrados” é uma exaltação ao partido revolucionário socialista norte americano dos Panteras Negras, criado em 1966. O grupo foi formado com o intuito de proteger a população negra, através de patrulhas armadas e combatendo a violência policial. Mais uma vez um ato de autoproteção do povo preto. 

Além da defesa armada, o grupo urbano também desenvolvia projetos sociais comunitários. E é justamente por conta desse movimento que ganhou notória visibilidade na questão dos direitos civis e na luta antirracista que esse trio fundou uma banda e a nomeou de Black Pantera. Mas que fique bem claro: estude sobre os movimentos revolucionários e não confunda o oprimido com o opressor!


Divulgação

Velveteen Queen: Hard Rock Renovado (Also In English)

Silver Lining Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Segundo álbum da sueca Velveteen Queen, The Greater Good mergulha de cabeça na tradição do hard rock americano, mas o faz com uma produção contemporânea e uma energia que impede o disco de soar como simples exercício de nostalgia. A banda transita com naturalidade entre hard rock, sleaze e glam, tendo Guns N’ Roses, Hanoi Rocks e Shotgun Messiah como referências evidentes, enquanto acrescenta elementos próprios suficientes para manter a identidade intacta.

“Too Far Gone” dá o pontapé inicial com riffs provocantes, produção afiada e todos os ingredientes do sleaze rock clássico, incluindo um refrão feito para ser cantado em coro. Os efeitos sobre os vocais aparecem com alguma frequência ao longo do disco, mas não chegam a comprometer o resultado. Na faixa-título, a banda desloca ligeiramente o foco para o hard rock, deixando o sleaze em segundo plano e apostando em uma sonoridade mais orgânica. O arranjo é particularmente bem construído e ganha um toque especial com o piano de Peter Keys, do Lynyrd Skynyrd.

É justamente nessa capacidade de alternar abordagens sem perder o fio condutor que The Greater Good encontra um de seus maiores méritos. “Talk or Walk” combina hard rock e sleaze em uma faixa conduzida por um riff de guitarra bastante eficiente, enquanto “Adrenaline” aproxima-se do universo do Aerosmith, sobretudo pelo groove e pelas linhas vocais. Direta, orgânica e imediatamente assimilável, é uma daquelas músicas que revelam sua força já na primeira audição.

“Can’t Go Back in Time” retoma a influência do Guns N’ Roses, desta vez sob uma perspectiva mais moderna, enquanto “Chains” quebra o ritmo com uma abordagem semi acústica construída sobre violão e voz. A interpretação de Samuel Nilsson é um dos destaques, mostrando que a banda não depende exclusivamente das guitarras elétricas para sustentar sua personalidade.

Quando as guitarras voltam a dominar, “It Ain’t Over” recupera o peso e a energia do álbum, combinando hard rock contemporâneo e referências clássicas. O refrão melódico e os backing vocals acrescentam uma dimensão mais acessível à composição. “Liar” “Best of the Best” seguem pela mesma estrada, explorando a zona de fronteira entre hard e sleaze, mas sempre com timbres e efeitos que atualizam a fórmula. Na segunda, a introdução marcada pela bateria cria expectativa para a entrada dos demais instrumentos, enquanto os backing vocals, quase melancólicos, estabelecem um interessante contraponto à voz principal.

A reta final reserva outra mudança de atmosfera. “Sorry” surge como uma balada construída sobre guitarra e voz, com vocais completamente limpos e um arranjo que combina guitarras acústicas e elétricas. A voz rouca de Nilsson encaixa-se perfeitamente nesse contexto mais intimista, dando à faixa uma carga emocional que contrasta com a energia predominante no restante do disco.

“Try (To Believe Me)” fecha o álbum retomando o hard rock americano e seu groove característico, funcionando quase como uma síntese de tudo o que veio antes. O trabalho das guitarras se destaca, enquanto os vocais de Nilsson, reforçados pelos backing vocals nos momentos certos, conduzem a composição até o encerramento.

The Greater Good mostra uma Velveteen Queen afiada e consciente de suas referências. O álbum certamente encontrará seu público entre os fãs do hard rock americano e do sleaze, especialmente aqueles que ainda reconhecem no Guns N’ Roses uma das grandes referências do gênero. A diferença é que a banda não se limita a reproduzir fórmulas: há uma preocupação evidente em atualizar timbres, produção e arranjos, mantendo o equilíbrio entre o clássico e o moderno.

A variedade entre as faixas também evita que o álbum caia na repetição, alternando momentos mais pesados e diretos com passagens acústicas e baladas. A produção precisa e moderna de Søren Andersen contribui decisivamente para esse equilíbrio, mantendo o som vigoroso sem retirar da banda sua característica mais orgânica.

No fim, The Greater Good não pretende recriar o hard rock — e tampouco precisa disso. Seu mérito está em entender exatamente o que torna esse estilo tão irresistível e traduzir essa fórmula para uma nova geração. A Velveteen Queen sabe de onde veio, sabe onde quer chegar e, principalmente, parece estar se divertindo bastante no caminho.


***ENGLISH VERSION***

The second album from Swedish band Velveteen Queen dives headfirst into the traditions of American hard rock, but does so with contemporary production and an energy that keeps the record from sounding like a mere exercise in nostalgia. The band moves effortlessly between hard rock, sleaze and glam, with Guns N’ Roses, Hanoi Rocks and Shotgun Messiah serving as obvious reference points, while adding enough of its own character to maintain a distinct identity.

“Too Far Gone” kicks things off with provocative riffs, razor-sharp production and all the ingredients of classic sleaze rock, including a chorus made for singing along. Vocal effects appear with some frequency throughout the album, but never to the point of compromising the overall result. On the title track, the band shifts its focus slightly toward hard rock, pushing the sleaze elements into the background in favor of a more organic sound. The arrangement is particularly well constructed and gets an added touch of class from the piano played by Peter Keys of Lynyrd Skynyrd.

It is precisely this ability to switch between different approaches without losing the album’s overall direction that becomes one of The Greater Good’s greatest strengths. “Talk or Walk” blends hard rock and sleaze around a highly effective guitar riff, while “Adrenaline” moves closer to the Aerosmith universe, particularly through its groove and vocal lines. Direct, organic and immediately accessible, it is one of those songs that reveals its appeal after a single listen.

“Can’t Go Back in Time” revisits the Guns N’ Roses influence, this time from a more modern perspective, while “Chains” breaks the momentum with a semi-acoustic approach built around acoustic guitar and vocals. Samuel Nilsson’s performance is one of the highlights, demonstrating that the band does not rely exclusively on electric guitars to sustain its identity.

When the guitars take over again, “It Ain’t Over” restores the album’s weight and energy, combining contemporary hard rock with classic influences. The melodic chorus and backing vocals add a more accessible dimension to the song. “Liar” and “Best of the Best” follow a similar path, exploring the territory between hard rock and sleaze while using modern tones and effects to update the formula. On the latter, the drum-led introduction builds anticipation before the other instruments and lead vocals enter, while the almost mournful backing vocals provide an interesting counterpoint to the main vocal line.

The final stretch of the album brings another change of atmosphere. “Sorry” arrives as a guitar-and-vocal ballad, featuring completely clean vocals and an arrangement that combines acoustic and electric guitars. Nilsson’s raspy voice fits the more intimate setting perfectly, giving the song an emotional weight that contrasts with the energy dominating much of the record.

“Try (To Believe Me)” closes the album by returning to American hard rock and its characteristic groove, functioning almost as a summation of everything that came before. The guitar work stands out, while Nilsson’s vocals, reinforced by backing vocals at just the right moments, carry the song through to the finish.

The Greater Good presents a sharp Velveteen Queen fully aware of its influences. The album should certainly find an audience among fans of American hard rock and sleaze, particularly those who still regard Guns N’ Roses as one of the genre’s defining reference points. The difference is that the band does not simply reproduce established formulas: there is a clear effort to modernize the tones, production and arrangements while maintaining a balance between the classic and the contemporary.

The variety between the tracks also keeps the album from becoming repetitive, moving between heavier, more direct moments, acoustic passages and ballads. Søren Andersen’s precise, modern production plays a decisive role in maintaining that balance, keeping the sound powerful without stripping away the band’s more organic character.

Ultimately, The Greater Good has no intention of reinventing hard rock — and it doesn’t need to. Its strength lies in understanding exactly what makes the genre so irresistible and translating that formula for a new generation. Velveteen Queen knows where it came from, knows where it wants to go and, most importantly, sounds like it is having a hell of a good time along the way.

Divulgação 


Sha-Boom: Oitenta, Noventa e Sempre (Also In English)

Silver Lining Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Formado em Estocolmo em 1987, o Sha-Boom rapidamente se tornou um dos nomes de destaque do hard rock melódico escandinavo, chegando ao topo das paradas na Suécia e na Noruega com “R.O.C.K.”. Após mais de duas décadas afastado dos holofotes, o grupo retorna liderado por Dag Finn com Another Nail In The Coffin, um álbum que resgata o espírito festivo e melódico do rock dos anos 1980 sem abrir mão de uma produção contemporânea. Grandes refrãos, guitarras, teclados e generosas camadas de backing vocals formam a base de um disco que entende perfeitamente que nostalgia não precisa significar falta de vitalidade.

“Never Stop” estabelece imediatamente essa proposta. A faixa é uma explosão de AOR e hard rock melódico, sustentada por guitarras marcantes, teclados, bateria e baixo sólidos e, sobretudo, por um refrão construído para permanecer na cabeça. A sonoridade remete diretamente aos anos 1980, mas a produção de Erik Mårtensson dá peso e definição ao conjunto, evitando que o material soe como uma simples reprodução de uma época.

A faixa-título mantém essa identidade, mas amplia o espectro sonoro com um uso particularmente interessante do piano e uma pegada que remete ao hard rock clássico britânico. É justamente nessa combinação entre referências conhecidas e pequenos acréscimos de textura que o álbum encontra sua personalidade. Walk (Far Away) segue por caminho semelhante, com melodias acessíveis, mudanças de cadência e backing vocals que transformam o refrão em um daqueles momentos que parecem concebidos para serem cantados por uma plateia inteira.

Apesar da predominância do hard rock, Another Nail In The Coffin não funciona em velocidade constante. The Sun, The Moon, The Stars reduz o andamento e introduz uma atmosfera quase mística através de violões, teclados e uma interpretação mais contida de Dag Finn. A guitarra de Erik Mårtensson ganha espaço, enquanto as dobras vocais reforçam o caráter melódico da composição. Já Out of Control mergulha de vez na tradição das power ballads, com guitarra limpa, teclados e uma profusão de harmonias vocais que inevitavelmente remete à escola do Def Leppard.

Esse equilíbrio entre faixas mais aceleradas e momentos cadenciados é importante para que o álbum não se torne previsível. Let's Go (88) abraça sem vergonha os clichês mais clássicos do hard rock oitentista, mas o faz com competência e, principalmente, com boas melodias. Farewell, Goodbye aposta novamente em um refrão de arena, enquanto Back on the Streets introduz um groove ligeiramente diferente, com destaque para a bateria de Thomas Broman. Mesmo trabalhando dentro de uma fórmula bastante definida, o Sha-Boom consegue variar arranjos e dinâmicas o suficiente para manter o interesse.

As duas baladas do álbum também desempenham um papel importante nesse equilíbrio. A Million Miles Away aposta em uma construção mais emocional, combinando guitarra acústica e instrumentação tradicional do grupo. Dag Finn evita excessos e trabalha em registros médios, crescendo apenas quando a música exige, enquanto os backing vocals ampliam o impacto emocional. É uma abordagem que privilegia a melodia em vez do virtuosismo — exatamente como boa parte dos grandes nomes do gênero fazia em seu auge.

One More Drink for the Road leva a celebração para um território mais próximo do hard rock americano e ainda conta com a participação de Linnéa Vikström, vocalista do Thundermother. A presença da cantora acrescenta uma nova dimensão à faixa, que também se destaca pelo baixo de Erik Mårtensson e pelo piano de Jonas Öijvall. O resultado é provavelmente um dos momentos mais descontraídos do disco, com um refrão construído para transformar qualquer ambiente em uma festa.

E o Sha-Boom não poderia encerrar o álbum de outra maneira. Emergency! retoma a energia apresentada desde os primeiros acordes e fecha o trabalho com um hard rock direto, melódico e carregado de coros. Instrumentalmente equilibrada e conduzida por mais uma performance segura de Dag Finn, a faixa deixa a impressão de que o grupo poderia continuar por mais algumas músicas.

É justamente aí que reside o maior mérito de Another Nail In The Coffin. O Sha-Boom não tenta reinventar o hard rock melódico, tampouco esconde suas referências. Ao contrário: abraça deliberadamente tudo aquilo que tornou o gênero tão popular nos anos 1980 — grandes refrãos, harmonias vocais, teclados, guitarras, melodias imediatas e uma dose generosa de diversão. A diferença está na execução. O material é suficientemente bem arranjado e produzido para evitar que a nostalgia se transforme em mera caricatura.

Com Dag Finn novamente à frente, o Sha-Boom retorna sem pedir licença e sem qualquer necessidade de justificar sua própria existência. Another Nail In The Coffin é um disco de hard rock feito para ser ouvido com o volume alto, cantado junto e, acima de tudo, apreciado pelo que é: uma celebração sincera de uma estética que a banda conhece profundamente. Em um gênero no qual a linha entre homenagem e repetição pode ser bastante tênue, o Sha-Boom encontra o equilíbrio certo. Um retorno convincente e, certamente, um dos lançamentos mais agradáveis do hard rock melódico em 2026.


***ENGLISH VERSION***

Formed in Stockholm in 1987, Sha-Boom quickly established themselves as one of the leading names in Scandinavian melodic hard rock, reaching the top of the charts in Sweden and Norway with “R.O.C.K.”. After more than two decades away from the spotlight, the band returns under the leadership of Dag Finn with Another Nail In The Coffin, an album that revives the festive, melodic spirit of 1980s rock without sacrificing contemporary production. Big choruses, guitars, keyboards and generous layers of backing vocals form the foundation of a record that understands perfectly that nostalgia does not have to mean a lack of vitality.

“Never Stop” immediately establishes that approach. The track is an explosion of AOR and melodic hard rock, driven by punchy guitars, solid keyboards, drums and bass and, above all, a chorus designed to stick in your head. Its sound points directly back to the 1980s, but Erik Mårtensson’s production gives the material weight and definition, preventing it from sounding like a simple recreation of a bygone era.

The title track maintains that identity while broadening the sonic palette with particularly effective use of piano and a feel that recalls classic British hard rock. It is precisely in this combination of familiar references and subtle additions of texture that the album finds its personality. Walk (Far Away) follows a similar path, with accessible melodies, changes in cadence and backing vocals that turn the chorus into one of those moments seemingly designed to be sung by an entire crowd.

Despite the dominance of hard rock, Another Nail In The Coffin never runs at a single speed. The Sun, The Moon, The Stars slows the pace and introduces an almost mystical atmosphere through acoustic guitars, keyboards and a more restrained performance from Dag Finn. Erik Mårtensson’s guitar work takes center stage, while the vocal harmonies reinforce the song’s melodic character. Out of Control, meanwhile, dives headfirst into the tradition of the power ballad, combining clean guitar, keyboards and layers of vocal harmonies that inevitably recall the Def Leppard school.

This balance between faster tracks and more laid-back moments is essential in preventing the album from becoming predictable. Let's Go (88) unapologetically embraces the classic clichés of 1980s hard rock, but does so with skill and, most importantly, strong melodies. Farewell, Goodbye once again goes for an arena-sized chorus, while Back on the Streets introduces a slightly different groove, with Thomas Broman’s drumming standing out. Even while working within a clearly defined formula, Sha-Boom varies the arrangements and dynamics enough to keep the listener engaged.

The album’s two ballads also play an important role in maintaining that balance. A Million Miles Away takes a more emotional approach, combining acoustic guitar with the band’s traditional instrumentation. Dag Finn avoids overplaying his hand, remaining largely in the mid-range and rising only when the song demands it, while the backing vocals enhance its emotional impact. It is an approach that puts melody ahead of virtuosity — exactly as many of the genre’s greatest names did at its peak.

One More Drink for the Road takes the celebration into more distinctly American hard rock territory and features Linnéa Vikström, vocalist of Thundermother. Her presence adds another dimension to the track, which also stands out for Erik Mårtensson’s bass work and Jonas Öijvall’s piano. The result is arguably one of the album’s most carefree moments, with a chorus seemingly designed to turn any room into a party.

And Sha-Boom could hardly have ended the album any other way. Emergency! brings back the energy established from the opening moments and closes the record with direct, melodic hard rock packed with powerful vocal harmonies. Instrumentally balanced and driven by another confident performance from Dag Finn, the track leaves you wishing the album had a few more songs.

That is ultimately the greatest strength of Another Nail In The Coffin. Sha-Boom are not trying to reinvent melodic hard rock, nor are they hiding their influences. Instead, they openly embrace everything that made the genre so popular in the 1980s — huge choruses, vocal harmonies, keyboards, guitars, immediate melodies and a generous dose of fun. The difference lies in the execution. The material is arranged and produced with enough care to prevent nostalgia from turning into mere caricature.

With Dag Finn back at the helm, Sha-Boom return without asking permission and with no need to justify their existence. Another Nail In The Coffin is a hard rock record made to be played loud, sung along to and, above all, enjoyed for what it is: a sincere celebration of an aesthetic the band knows inside out. In a genre where the line between homage and repetition can be a very fine one, Sha-Boom strike the right balance. A convincing comeback and, undoubtedly, one of the most enjoyable melodic hard rock releases of 2026.

Divulgação 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Cobertura de Show: Edu Falaschi – 15/08/2026 – Tokio Marine Hall/SP

Edu Falaschi transforma o Tokio Marine Hall em uma celebração de 35 anos de história, amizade e música

Finalmente chegou o tão esperado 15 de agosto, dia de Mi’raj & The Legacy Tour. Cheguei ao Tokio Marine Hall e, antes mesmo de o show começar, a atmosfera já dava pistas do tamanho da noite que estava por vir. Na fila, pais acompanhados dos filhos, jovens, casais e grupos de amigos confraternizavam enquanto aguardavam a abertura da casa. Lá dentro, a mesma sensação continuava. Entre encontros com amigos da vida e da imprensa, rostos familiares e alguns ídolos que eu jamais imaginaria encontrar naquele espaço, fui percebendo que aquela seria uma noite marcada por encontros. E o espetáculo sequer havia começado.

Fui para a frente do palco a tempo de acompanhar o show de Tito Falaschi. Multi-instrumentista, cantor, produtor e irmão de Edu, Tito carrega em sua trajetória parte importante das raízes que conduziram aquela noite. Foi baixista e vocalista do Symbols, dividindo os vocais com Edu nos primeiros anos da banda, além de ter participado de projetos como Almah e Soulspell Metal Opera e construído, ao longo dos anos, um trabalho próprio. Sua apresentação funcionou como uma espécie de ponto de partida para a retrospectiva que viria a seguir. Havia peso, técnica e uma familiaridade evidente com aquele público, enquanto sua presença já colocava em perspectiva o quanto a história dos irmãos Falaschi está ligada a diferentes capítulos do metal brasileiro.

Quando Edu entrou no palco, o espetáculo assumiu outra dimensão. A cenografia já anunciava que aquela seria uma apresentação pensada para além da execução das músicas: ao fundo, elementos diretamente relacionados ao universo de MI’RAJ, acompanhados por duas imponentes figuras de soldados, criavam uma atmosfera de batalha e jornada. O cenário ajudava a transportar o público para dentro da narrativa do álbum, capítulo final da trilogia iniciada em Vera Cruz (2021) e continuada em Eldorado (2023), concebida por Edu em parceria com o artista e escritor Fábio Caldeira. A trajetória de Jorge chega ao Oriente Médio em MI’RAJ e, nesse encerramento, a jornada externa começa a dar espaço para um processo de descoberta interior.

Essa ideia também está presente na identidade visual do disco. A capa criada por Carlos Fides coloca a Vidente no centro da composição, guardiã do Portal dos Doze Véus e responsável por conduzir Jorge durante sua travessia pelo deserto. O azul profundo, o dourado, a presença de Órion e o contraste entre luz e sombra traduzem visualmente o conflito entre as forças da Ordem de Cristo e da Cruz de Nero, ao mesmo tempo em que representam a batalha interna que conduz a narrativa até seu desfecho. No palco, essa estética ganhava uma dimensão física e ajudava a transformar o espetáculo em uma extensão da própria obra.

Edu apareceu acompanhado por uma banda extremamente coesa, formada por Victor Franco e Diogo Mafra nas guitarras, Raphael Dafras no baixo, Jean Gardinalli na bateria e Fábio Laguna nos teclados. A formação mostrou segurança para atravessar as diferentes linguagens presentes no repertório, passando pelo power metal e pelo progressivo, pelas atmosferas cinematográficas e pelos elementos étnicos que fazem parte da identidade de MI’RAJ. Entre os guitarristas, Victor Franco merece destaque especial. Se sua técnica já chama atenção em estúdio, ao vivo ela ganha ainda mais força justamente pela maneira como é utilizada. Victor não precisa transformar cada passagem em uma demonstração de velocidade para se destacar. Existe preocupação com construção melódica, escolha de timbres e musicalidade, características que fazem sentido quando lembramos que o próprio Edu já o definiu como um músico de extremo bom gosto e um verdadeiro gênio.

“Watchers of the Light” abriu a apresentação colocando imediatamente o público dentro da atmosfera de MI’RAJ. A entrada de “Ego Painted Grey”, do Angra, logo depois, mudou a perspectiva e deixou claro que o espetáculo seria construído em camadas, alternando o presente da carreira solo com diferentes períodos da trajetória de Edu. “Eyes in Flames”, do Symbols, foi um dos primeiros momentos realmente especiais. Ao lado de Tito Falaschi e Demian Tiguez, Edu revisitou uma parte muito anterior de sua história, reunindo no mesmo palco três músicos ligados a um capítulo iniciado ainda nos anos 1990. A força daquele encontro estava justamente na passagem do tempo: décadas depois, aquela formação voltava a se encontrar diante de milhares de pessoas.

O repertório seguiu por “Echoes of Vows”, “Running Alone”, do Angra, “Eyes of Time”, do Mitrium, e “Lease of Life”, costurando diferentes fases da carreira. A proposta da turnê era atravessar 35 anos de trajetória, e o setlist cumpriu essa missão com uma quantidade impressionante de referências. Em “The Ancestry”, Thiago Bianchi apareceu para acrescentar mais um capítulo a essa retrospectiva. Além de parceiro de longa data de Edu, Bianchi esteve diretamente envolvido na produção de MI’RAJ, realizado no Fusão Estúdio, repetindo a parceria iniciada em Vera Cruz.

“Unchained” trouxe Wagner Barbosa ao palco com o saxofone e também rendeu uma das brincadeiras mais inesperadas da noite. Antes de a música começar, um pequeno trecho de “Careless Whisper” foi suficiente para arrancar gritos e risadas do público. A referência funcionou como uma espécie de provocação antes de a banda mergulhar novamente na música, e quando o sax entrou de fato em “Unchained”, a atmosfera mudou completamente. O instrumento acrescentou uma camada diferente à composição e reforçou justamente uma das características mais interessantes de MI’RAJ, a disposição de Edu em incorporar elementos progressivos e soluções harmônicas menos convencionais ao power metal que sustenta boa parte de sua carreira solo.

“A Monster in Her Eyes” e “Arising Thunder”, do Angra, mantiveram a apresentação em alta velocidade até a chegada de Fábio Caldeira para “Land Ahoy” e “Eldorado”. A participação de Caldeira talvez seja uma das mais importantes para compreender a própria existência da trilogia. Vocalista, pianista, compositor e integrante do Maestrick, ele desenvolveu ao lado de Edu o universo literário que sustenta a saga de Jorge e chegou a escrever o livro de Vera Cruz. Sua entrada no palco carregava, portanto, uma dimensão quase metalinguística: o artista que ajudou a construir aquela narrativa estava agora interpretando parte dela diante do público.

Depois de “The Voice Commanding You”, Fernando Anitelli trouxe uma mudança completa de textura para o espetáculo. “Sintaxe à Vontade” e “Da Luta”, de O Teatro Mágico, ganharam uma interpretação solo do cantor, que ocupou o palco com uma linguagem baseada muito mais na palavra, na poesia e na teatralidade. A participação poderia parecer improvável em uma noite construída em torno do heavy metal, mas funcionou justamente porque existe uma aproximação conceitual entre os dois artistas. Edu e Anitelli construíram universos próprios em torno de suas obras e compreendem a música como narrativa e experiência. 

Edu então assumiu sozinho o palco para “Eternamente Azul”, versão brasileira de “Blue Forever”, do universo de Os Cavaleiros do Zodíaco. Foi um dos momentos mais afetivos da apresentação justamente pela simplicidade. Sem a banda completa ou uma grande estrutura cenográfica, a música colocou a voz de Edu em primeiro plano e acionou imediatamente a memória de uma geração que cresceu ouvindo seu trabalho também através da televisão. Sua relação com Saint Seiya é uma parte importante de sua trajetória e inclui ainda a versão brasileira de “Pegasus Fantasy”, que apareceria novamente mais adiante no setlist.

“Intuição” trouxe um dos momentos mais simbólicos da noite. Fernando Anitelli, Rafael Bittencourt e Tiago Mineiro se juntaram a Edu para executar a primeira música inédita do cantor em português em 24 anos. A escolha dos convidados já tornava a apresentação especial, mas o momento ganhou outra dimensão quando Edu e Rafael se abraçaram no palco. Não havia necessidade de transformar aquele gesto em discurso. Depois de tantos anos e de tantas mudanças na trajetória de ambos, ver os dois compartilhando novamente aquele espaço dizia bastante sobre o momento vivido pelo espetáculo e sobre a maneira como Edu decidiu olhar para sua própria história.

Na sequência, “Birds of Prey”, do Almah, recebeu Felipe Andreoli, outro músico diretamente ligado à trajetória de Edu. Felipe integrou o Angra durante o período em que Edu ocupava os vocais da banda, e sua presença funcionou como mais uma ponte entre diferentes momentos da carreira. Tecnicamente, Andreoli continua impressionante. Seu baixo se encaixou com precisão na banda, preenchendo os espaços e conversando com a bateria e as guitarras sem perder personalidade.

“Bleeding Heart” trouxe um dos momentos mais espontâneos da apresentação. Edu surpreendeu ao inserir no refrão um trecho da versão feita pelo Calcinha Preta para a música, e a resposta do público foi imediata. Quando os primeiros versos foram entoados, o Tokio Marine Hall inteiro cantou a plenos pulmões, transformando a música em um daqueles momentos coletivos que dificilmente podem ser reproduzidos fora de um show. A cena também dizia muito sobre a longevidade da composição e sobre a maneira como ela ultrapassou o próprio contexto em que foi originalmente lançada.

Veronica Bordacchini foi a convidada seguinte. Em “Spread Your Fire”, a soprano italiana, conhecida mundialmente por seu trabalho no Fleshgod Apocalypse, acrescentou uma dimensão operística à apresentação. Sua voz possui projeção suficiente para ocupar o espaço sem desaparecer diante da banda, característica essencial para uma música que exige justamente esse contraste entre força instrumental e interpretação lírica. Em “Ode to Art (de’ Sepolcri)”, Veronica permaneceu sozinha no palco e teve espaço para demonstrar toda essa potência vocal. Quando voltou ao lado de Edu para “Mi’raj”, o encontro entre os dois timbres produziu um dos momentos mais grandiosos da noite.

Pouco depois, Dino Jelusick entrou em cena. O croata construiu uma carreira que passa por Animal Drive, Trans-Siberian Orchestra, Whom Gods Destroy e Whitesnake, além de ter começado profissionalmente ainda criança e vencido a primeira edição do Junior Eurovision Song Contest. Em 2021, foi convidado por David Coverdale para integrar o Whitesnake. Em “Heroes of Sand”, sua participação ao lado de Edu mostrou imediatamente por que sua voz se encaixava tão bem naquele repertório. Dino possui potência, alcance e uma identidade vocal muito própria, mas também demonstra facilidade para transitar entre diferentes estilos. Em “Stand Up and Shout”, do Dio, essa característica ficou especialmente evidente, enquanto “Here I Go Again”, do Whitesnake, acrescentou uma camada simbólica à participação, considerando sua própria passagem pela banda.

“Pegasus Fantasy” trouxe novamente o universo de Os Cavaleiros do Zodíaco para o centro da apresentação, mas dessa vez de maneira completamente coletiva. O público assumiu a música com uma familiaridade impressionante, transformando a execução em um dos grandes momentos de participação da noite. Depois de tantas músicas ligadas à trajetória do próprio Edu, era interessante perceber como aquela canção também havia se tornado parte da memória de quem estava do outro lado do palco.

Ainda faltava, porém, um dos reencontros mais importantes da noite. “Rebirth” começou e, pouco depois, Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli voltaram ao palco. Edu, Rafael e Felipe reunidos novamente para tocar Angra. A imagem carregava um peso histórico evidente. Os três músicos pertencem a um período fundamental da trajetória da banda e do próprio metal brasileiro, e vê-los novamente juntos era uma oportunidade rara de observar, no mesmo espaço, diferentes capítulos de uma história que ajudou a formar gerações de músicos e fãs.

Quando “Nova Era” veio na sequência, essa dimensão ficou ainda mais clara. A música pertence a um repertório que ultrapassou as fronteiras do Brasil e se tornou referência para uma geração inteira de músicos de metal. Ao longo das quase três horas de show, ficou evidente que ele não estava tentando reconstruir o passado exatamente como ele foi. A própria estrutura da apresentação mostrava outra intenção. Antigos companheiros dividiam espaço com músicos de gerações mais recentes; músicas do Angra apareciam ao lado de composições de MI’RAJ; referências ao Symbols conviviam com O Teatro Mágico, Fleshgod Apocalypse, Dio, Whitesnake e Cavaleiros do Zodíaco. O passado aparecia o tempo todo, mas sempre reorganizado a partir do artista que Edu é hoje.

Essa disposição também aparecia na própria postura do cantor. Edu passou o show inteiro em movimento, correndo pelo palco, interagindo com a plateia, brincando com os músicos e mantendo uma energia impressionante mesmo diante de um repertório extenso e fisicamente exigente. Não havia a sensação de alguém cumprindo uma obrigação comemorativa, pelo contrário, havia prazer evidente em revisitar aquelas músicas e dividir o palco com pessoas que fizeram parte de diferentes momentos de sua vida profissional.

Ao deixar o Tokio Marine Hall, a impressão que ficou foi a de ter acompanhado uma celebração de carreira construída a partir de encontros reais. Havia nostalgia, evidentemente, mas também havia espaço para o presente e para aquilo que ainda está sendo construído. Edu revisitou músicas fundamentais de sua trajetória, reencontrou músicos que fizeram parte dela, apresentou ao público uma formação atual extremamente competente e mostrou que seu legado não está restrito a um período específico.

Talvez seja justamente aí que esteja a força de The Legacy Tour. O espetáculo olha para trás sem transformar o passado em uma prisão. As histórias continuam sendo revisitadas, mas agora convivem com novas parcerias, novas músicas e novas possibilidades. No palco do Tokio Marine Hall, 35 anos de carreira foram apresentados como uma obra ainda em movimento. E, depois de quase três horas, a sensação era de que aquela história ainda está longe de terminar.

E que sorte a nossa por isso!


Texto: Stephanie Ferreira

Fotos: Roberto Sant'Anna


Realização: Agência Artística 

Press: TRM Press


Edu Falaschi – setlist:

Watchers of the Light

Ego Painted Grey

Eyes in Flames

Echoes of Vows

Running Alone

Eyes of Time

Lease of Life

The Ancestry

Unchained

A Monster in Her Eyes

Leaving the Light

Arising Thunder

Land Ahoy / Eldorado

The Voice Commanding You

Sintaxe à vontade / Da luta

Intuição

Birds of Prey

Bleeding Heart

Spread Your Fire

Ode to Art (de' Sepolcri)

Mi'raj

Heroes of Sand

Stand Up and Shout (Dio cover) 

Here I Go Again (Whitesnake cover) 

Pegasus Fantasy

Rebirth

Nova Era

Neon Rider: A Chama do AOR (Also In English)

Pride And Joy Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Formado em Buenos Aires em 2020, o Neon Rider surgiu como um projeto dedicado ao AOR e ao hard rock melódico dos anos 1980. Depois de Destination Unknown (2024), a banda retorna em 2026 com uma nova configuração: Marcos Nieva Green assume os vocais, enquanto Hernan Cattaneo permanece como único guitarrista. O resultado é um trabalho que aposta sem reservas na tradição do gênero, combinando riffs vigorosos, melodias grandiosas e refrãos épicos com uma produção contemporânea.

Drowning In Shallow abre o álbum sem rodeios, com a guitarra estabelecendo a base para baixo e bateria, enquanto os teclados acrescentam a camada melódica característica do AOR. O refrão, reforçado por vocais dobrados, amplia a dimensão melódica da faixa e deixa evidente, desde os primeiros minutos, a devoção do Neon Rider aos grandes nomes do gênero.

O primeiro single do álbum segue exatamente essa cartilha. A faixa combina uma cozinha rítmica sólida com guitarras e teclados que se alternam na construção das melodias, enquanto os vocais limpos ganham força com backing vocals especialmente eficazes no refrão. É AOR clássico em sua essência, mas executado com segurança e uma produção que procura atualizar a fórmula. Curiosamente, a ficha técnica fornecida pela gravadora não identifica o responsável pelos teclados.

Helluva Ride começa com uma breve introdução de teclados antes de desembocar em uma condução cadenciada, mais próxima do hard rock. Os backing vocals novamente desempenham papel importante, sobretudo no refrão, construído para ser imediatamente assimilado. Após três faixas, a identidade do Neon Rider já está completamente estabelecida: não há dúvidas sobre o território musical que a banda pretende explorar.

Em Drifting, a viagem aos anos 1980 se torna ainda mais evidente. A sonoridade é imediatamente reconhecível e, dentro da proposta do grupo, isso está longe de ser um problema. A faixa é direta, sem excessos, com a guitarra sustentando a base e deixando espaço para um refrão marcado pelas belas dobras vocais. As linhas melódicas de Marcos Nieva Green são um dos pontos altos, especialmente quando sua voz ligeiramente rouca acrescenta personalidade à interpretação.

Para quem não viveu a época em que o rádio era um dos principais veículos de divulgação da música, uma canção sobre o próprio rádio pode parecer um conceito distante. Pump Up The Radio, porém, abraça justamente essa nostalgia. A faixa funciona como um pequeno tributo à cultura radiofônica dos anos 1980, utilizando uma estrutura AOR tradicional, backing vocals bem encaixados e um refrão de fácil assimilação.

Waiting For My Call mantém a veia melódica e confirma a consistência da proposta. Cadenciada e com cada instrumento claramente definido na mixagem, a faixa chama atenção pela variedade dos backing vocals, que introduzem novas texturas sem romper a unidade sonora do álbum. Guitarras e teclados são utilizados de maneira particularmente eficiente, complementando-se em vez de disputar espaço.

A faixa-título, Keepers Of The Flame, chega introduzida por guitarra e voz, enquanto um timbre ligeiramente mais sujo cria uma atmosfera quase misteriosa. O contraste desemboca em um refrão no qual a melodia vocal assume o protagonismo, novamente reforçada por backing vocals bem posicionados. A cadência típica do gênero permanece intacta, com cada instrumento cumprindo uma função precisa. Hernan Cattaneo entrega um solo essencialmente melódico, mas acrescenta uma breve passagem shred que amplia sua intensidade sem comprometer a característica acessível da composição.

Heading To The Line apresenta uma abertura particularmente interessante, com a bateria ganhando destaque inclusive na mixagem. Guitarra e baixo entram posteriormente para completar os versos e conduzir a música ao refrão, desta vez com backing vocals que se diferenciam do restante do álbum. Os momentos em que voz e bateria assumem o primeiro plano acrescentam uma camada adicional de dinâmica e complexidade à faixa.

Uma bela passagem de guitarra introduz Those Times Are Now Over, que começa de maneira quase épica, apoiada por teclados e percussão. A faixa se encaixa naturalmente no universo AOR, mas sua construção consegue acrescentar uma nova dimensão ao álbum. O teclado ganha protagonismo na transição para o refrão e, em determinados momentos, chega a dominar completamente o arranjo. O refrão é direto, sem excesso de ornamentação vocal, enquanto uma bela virada de bateria ajuda a conduzir a música.

Dominoes coloca guitarra e teclados lado a lado, tanto na base quanto nas linhas melódicas. Não há propriamente uma disputa pelo protagonismo, mas um diálogo eficiente entre os dois instrumentos. O refrão é novamente bastante melódico e, embora utilize poucos backing vocals, possui uma melodia suficientemente forte para permanecer na cabeça do ouvinte. As mudanças de andamento também ajudam a manter o interesse, enquanto guitarra e teclado continuam dialogando durante o solo, com o segundo reforçando e dobrando algumas das linhas de Cattaneo.

Jukebox Anthem é, como o próprio título sugere, um verdadeiro hino hard rock/AOR. A introdução evoca diferentes referências do gênero, mas o Neon Rider consegue imprimir sua própria dinâmica através do uso de efeitos na guitarra e nos vocais. A faixa cresce naturalmente até o refrão, sustentado por uma base de guitarra pontuada pelos teclados nos momentos certos. Os vocais dobrados reforçam a característica radiofônica da composição e conduzem a um solo bem construído sobre uma sólida cama de teclados. É uma das faixas mais completas do álbum.

Another Love Story encerra o disco sem grandes surpresas — e isso, neste caso, é coerente com a proposta. Em vez de buscar uma guinada de última hora, o Neon Rider prefere terminar reafirmando sua identidade, mergulhada na sonoridade clássica do AOR e em referências claras à década de ouro do gênero. O refrão assume contornos quase épicos, com um belo coro e outro bom trabalho de guitarra.

Keepers Of The Flame cumpre seu objetivo é mais direto: preservar a essência de uma sonoridade que teve seu auge nos anos 1980 e apresentá-la com energia, boas melodias e uma produção atual. Em alguns momentos, a produção poderia ser mais equilibrada, escondendo brevemente determinados instrumentos ou fazendo escolhas de destaque que certamente não serão consensuais. No conjunto, porém, o Neon Rider entrega um álbum sólido, coeso e, acima de tudo, honesto em sua proposta. Para quem ainda mantém acesa a chama do AOR clássico, Keepers Of The Flame tem combustível de sobra.


***ENGLISH VERSION***

Formed in Buenos Aires in 2020, Neon Rider began as a project dedicated to the AOR and melodic hard rock of the 1980s. Following Destination Unknown (2024), the band returns in 2026 with a new configuration: Marcos Nieva Green takes over on vocals, while Hernan Cattaneo remains the sole guitarist. The result is an album that wholeheartedly embraces the genre’s traditions, combining powerful riffs, soaring melodies and epic choruses with contemporary production.

Drowning In Shallow opens the album without hesitation, with guitar laying down the foundation for bass and drums, while keyboards provide the melodic layer so characteristic of AOR. Reinforced by doubled vocals, the chorus expands the song’s melodic dimension and makes Neon Rider’s devotion to the genre’s greats clear from the very first minutes.

The album’s first single follows the same blueprint. The track combines a solid rhythm section with guitars and keyboards alternating in the construction of its melodies, while the clean vocals gain strength from particularly effective backing vocals in the chorus. This is classic AOR at its core, performed with confidence and given a production that seeks to bring the formula into the present. Interestingly, the credits supplied by the record label do not identify the keyboard player.

Helluva Ride begins with a brief keyboard introduction before settling into a measured groove that leans more toward hard rock. Once again, the backing vocals play an important role, particularly in a chorus designed for immediate impact. After three tracks, Neon Rider’s identity is already fully established: there is no doubt about the musical territory the band intends to explore.

On Drifting, the journey back to the 1980s becomes even more apparent. Its sound is instantly recognizable and, within the band’s approach, that is by no means a problem. The track is direct and free of unnecessary embellishment, with the guitar maintaining the foundation while leaving room for a chorus marked by beautiful vocal harmonies. Marcos Nieva Green’s melodic lines are one of the highlights, particularly when his slightly raspy voice adds character to the performance.

For those who did not experience an era when radio was one of the main vehicles for music promotion, a song about radio itself might seem like a distant concept. Pump Up The Radio, however, fully embraces that nostalgia. The track works as a small tribute to 1980s radio culture, employing a traditional AOR structure, well-integrated backing vocals and an instantly accessible chorus.

Waiting For My Call maintains the melodic vein and further confirms the consistency of the band’s approach. Measured in pace, with every instrument clearly defined in the mix, the track stands out for the variety of its backing vocals, which introduce new textures without disrupting the album’s sonic unity. Guitars and keyboards are used particularly effectively, complementing rather than competing with each other.

The title track, Keepers Of The Flame, opens with guitar and vocals, while a slightly dirtier tone creates an almost mysterious atmosphere. The contrast gives way to a chorus in which the vocal melody takes center stage, once again reinforced by well-placed backing vocals. The genre’s characteristic groove remains intact, with each instrument serving a clearly defined purpose. Hernan Cattaneo delivers an essentially melodic solo, adding a brief shred passage that increases its intensity without compromising the song’s accessible character.

Heading To The Line features a particularly interesting opening, with the drums receiving prominent treatment, even in the mix. Guitar and bass enter later to complete the verses and drive the song toward the chorus, this time with backing vocals that differ from those used elsewhere on the album. The sections in which vocals and drums take center stage add another layer of dynamics and complexity to the track.

A beautiful guitar passage introduces Those Times Are Now Over, which begins on an almost epic note, supported by keyboards and percussion. The track fits naturally into the AOR universe, yet its construction manages to add another dimension to the album. Keyboards take center stage during the transition into the chorus and, at certain moments, virtually dominate the arrangement. The chorus is direct, without excessive vocal ornamentation, while a fine drum fill helps drive the song forward.

Dominoes places guitars and keyboards side by side, both in the rhythm section and in the melodic lines. There is no real battle for dominance here, but rather an effective dialogue between the two instruments. The chorus is once again highly melodic and, despite using relatively few backing vocals, has a melody strong enough to stay in the listener’s head. The changes in pace also help maintain interest, while guitar and keyboard continue their dialogue during the solo, with the latter reinforcing and doubling some of Cattaneo’s lines.

Jukebox Anthem is, as its title suggests, a genuine hard rock/AOR anthem. The introduction evokes several of the genre’s major influences, but Neon Rider establishes its own dynamic through the use of effects on both guitar and vocals. The track naturally builds toward the chorus, supported by a guitar foundation punctuated by keyboards at precisely the right moments. The doubled vocals reinforce the song’s radio-friendly character and lead into a well-constructed solo built over a solid bed of keyboards. It is one of the album’s most complete tracks.

Another Love Story closes the album without any major surprises — and in this case, that is entirely consistent with the band’s approach. Rather than attempting a last-minute change of direction, Neon Rider chooses to end by reaffirming its identity, immersed in the classic AOR sound and clear references to the genre’s golden era. The chorus takes on almost epic proportions, with a beautiful choir and another strong guitar performance.

Keepers Of The Flame fulfills its most direct objective: preserving the essence of a sound that reached its peak in the 1980s while presenting it with energy, strong melodies and contemporary production. At times, the production could be more balanced, briefly burying certain instruments or making choices about what to emphasize that will certainly not appeal to everyone. Overall, however, Neon Rider delivers a solid, cohesive album that is, above all, honest about its intentions. For those who still keep the flame of classic AOR burning, Keepers Of The Flame has plenty of fuel to spare.

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