sábado, 12 de setembro de 2026

Válvera – Unleashed Fury | Peso, fúria e uma nova fase



Fotos: Divulgação 
Edição/Revisão: Caco Garcia 
 
Eu gosto quando uma banda consegue mudar sem deixar de ser reconhecível. Quando você coloca um disco novo para tocar e pensa: “é diferente, mas eu ainda sei quem está tocando”. Foi exatamente essa sensação que tive ouvindo "Unleashed Fury", novo álbum do Válvera, lançado depois de seis anos sem um disco de inéditas.

Formado em 2010, em Votuporanga, no interior de São Paulo, o Válvera chega ao seu quarto álbum de estúdio mostrando que esse tempo trouxe não apenas experiência, mas também vontade de experimentar.

O Thrash Metal continua sendo a base, mas agora divide espaço com Heavy Metal, Groove e uma sonoridade mais moderna. Não parece que a banda abandonou o que fazia antes. É mais como se tivesse aberto algumas portas novas.

E acho que essa é uma boa maneira de ouvir Unleashed Fury: sem esperar que o Válvera repita os trabalhos anteriores, mas também sem procurar uma banda completamente diferente.


A fúria vai além do título

Apesar do nome, "Unleashed Fury" não é simplesmente um disco sobre raiva. As letras passam por temas como perda, culpa, arrependimento, saúde mental, identidade e reconstrução. A fúria aparece mais como uma energia que precisa ser transformada do que como simples ódio.


Isso também aparece na música. O álbum alterna momentos rápidos e agressivos com riffs mais cadenciados, grooves pesados e atmosferas mais sombrias. E uma coisa que gostei é que o Válvera não tenta manter tudo no máximo o tempo inteiro.

Nas guitarras, Glauber Barreto e Rodrigo Torres são responsáveis por boa parte dessa identidade. Os dois alternam riffs rápidos, bases pesadas e momentos mais melódicos, mantendo as guitarras agressivas sem fazer todas as músicas soarem iguais.

No baixo, Gabriel Prado dá bastante corpo ao instrumental, principalmente nas partes mais cadenciadas.

Nos vocais, Glauber Barreto mantém a agressividade, mas também explora momentos mais contidos e melódicos, evitando que o álbum fique vocalmente uniforme.

Na bateria, vale uma correção importante: quem gravou o álbum foi Leandro Peixoto, antes de sua saída da banda. Vitor Bonati é o baterista da formação atual e representa essa nova etapa do Válvera.


Algumas faixas que merecem atenção:

“Necropolis” foi uma das que mais me chamou atenção pelo clima. É pesada, mas não precisa acelerar o tempo inteiro. As guitarras criam uma tensão constante e a atmosfera mais sombria combina muito bem com a música.

A faixa-título, “Unleashed Fury”, resume bem o conceito do álbum. Existe aquela sensação de algo que ficou preso por muito tempo e finalmente encontrou uma saída. Glauber coloca bastante força nos vocais, enquanto as guitarras acompanham com riffs agressivos.

“What I Left Behind” começa com uma pegada mais Heavy Metal, mas logo o Thrash assume o controle. Essa mudança funciona muito bem e mostra uma das características mais interessantes do disco: a banda mistura estilos sem perder a própria identidade.

Já “Reckoning Has Begun” representa o Válvera mais agressivo. Os riffs são fortes, os vocais têm bastante intensidade e a música tem aquela energia que parece feita para funcionar ainda melhor ao vivo. No álbum, ela aparece em uma versão remixada.

“Venomous Seed” segue uma linha mais pesada e tensa. Talvez não seja a faixa mais imediata do disco, mas funciona bem dentro do conjunto justamente por trazer outro clima.

E “Faceless” é uma das mais diferentes. A música mistura peso, breakdowns e uma atmosfera quase psicodélica, mudando de direção algumas vezes. Vitor Bonati também escolheu a faixa quando perguntado sobre qual música indicaria para alguém conhecer o álbum.

Para fechar, “Old World, Burn!” mantém a energia até o último momento. O título combina com a ideia central do disco: deixar algumas coisas para trás para conseguir seguir em frente.


Uma nova fase.

Eu não terminei "Unleashed Fury" pensando que o Válvera reinventou o Metal — e acho que essa nem era a intenção.
O que encontrei foi uma banda tentando descobrir até onde consegue levar aquilo que já sabe fazer. O Thrash continua sendo a base, mas agora tem Heavy Metal, Groove, elementos mais modernos e momentos em que o clima pesa tanto quanto os riffs.

Nem todas as músicas me pegaram da mesma maneira. Algumas entraram mais rápido, enquanto outras funcionaram melhor depois de algumas audições. Mas isso também faz parte do disco: ele não parece preocupado apenas em entregar uma sequência de músicas pesadas.

Tecnicamente, é um trabalho muito bem executado. Glauber Barreto segura os vocais com personalidade; Glauber Barreto e Rodrigo Torres fazem das guitarras o coração do álbum; Gabriel Prado dá corpo ao baixo; e Leandro Peixoto entrega uma bateria que acompanha muito bem as mudanças das músicas. Enquanto isso, a chegada de Vitor Bonati abre uma nova página para a banda.

Para mim, "Unleashed Fury" é um disco sobre mudança, mas não aquela que apaga o passado. É sobre olhar para o que ficou, entender o que ainda faz sentido e ter coragem de experimentar outra coisa.

E talvez aí esteja a verdadeira fúria do Válvera: não apenas na guitarra pesada ou no vocal rasgado, mas na vontade de não ficar parado no mesmo lugar.

Depois de seis anos, a banda voltou sem fingir que o tempo não passou. Trouxe as marcas da caminhada, mexeu em algumas peças e abriu espaço para uma nova história.

E eu terminei o álbum com uma curiosidade: se Unleashed Fury é o primeiro passo dessa nova fase, quero descobrir até onde o Válvera vai levar essa fúria.




====English Version Below===

Válvera – Unleashed Fury | Weight, Fury, and a New Chapter




I like it when a band manages to change without losing what makes them recognizable. When you put on a new album and think, “This is different, but I still know who I’m listening to.” That was exactly how I felt listening to "Unleashed Fury", Válvera’s new album, released after six years without a new full-length record.

Formed in 2010 in Votuporanga, in the countryside of São Paulo, Válvera arrives at its fourth studio album showing that those years brought not only experience, but also a desire to experiment.

Thrash Metal is still the foundation, but it now shares space with Heavy Metal, Groove, and a more modern sound. It doesn’t feel like the band abandoned what they had done before. It feels more like they opened a few new doors.

And I think that’s a good way to approach Unleashed Fury: without expecting Válvera to simply repeat their previous work, but also without looking for a completely different band.


The Fury Goes Beyond the Title

Despite its name, Unleashed Fury isn’t simply an album about anger. The lyrics touch on themes such as loss, guilt, regret, mental health, identity, and rebuilding. Fury appears more as an energy that needs to be transformed than as simple hatred.

That idea also comes through in the music. The album moves between fast, aggressive moments and slower riffs, heavy grooves, and darker atmospheres. One thing I really liked is that Válvera doesn’t try to stay at full speed all the time.

On guitars, Glauber Barreto and Rodrigo Torres are responsible for a big part of that identity. They move between fast riffs, heavy guitar lines, and more melodic moments, keeping the guitars aggressive without making every song sound the same.

On bass, Gabriel Prado gives the instrumental plenty of body, especially during the slower, more groove-driven sections.

On vocals, Glauber Barreto keeps things aggressive, but also explores more restrained and melodic moments, which helps prevent the album from becoming vocally repetitive.

On drums, there’s an important correction worth mentioning: the album was recorded by Leandro Peixoto, before his departure from the band. Vitor Bonati is the drummer in the current lineup and represents this new chapter for Válvera.



A Few Tracks Worth Highlighting

“Necropolis” was one of the songs that stood out to me because of its atmosphere. It’s heavy, but it doesn’t need to speed up constantly to prove it. The guitars create a constant sense of tension, and the darker mood fits the song really well.

The title track, “Unleashed Fury,” sums up the album’s concept pretty well. There’s a feeling of something that had been bottled up for a long time and finally found a way out. Glauber brings plenty of intensity to the vocals, while the guitars follow that energy with aggressive riffs.

“What I Left Behind” starts with a more Heavy Metal-oriented feel, but Thrash soon takes over. That change works really well and highlights one of the album’s most interesting qualities: the band mixes different styles without losing its own identity.

“Reckoning Has Begun” represents Válvera at its most aggressive. The riffs hit hard, the vocals have plenty of intensity, and the song has the kind of energy that feels like it was made to work even better live. On the album, it appears in a remixed version.

“Venomous Seed” follows a heavier and more tense path. It may not be the most immediate track on the album, but it works well within the bigger picture precisely because it brings a different mood.

And “Faceless” is one of the album’s most unusual tracks. It mixes heaviness, breakdowns, and an almost psychedelic atmosphere, changing direction a few times along the way. Vitor Bonati also picked the song when asked which track he would recommend to someone discovering the album.

To close things out, “Old World, Burn!” keeps the energy going until the very end. Its title fits the album’s central idea: leaving some things behind in order to move forward.


A New Chapter

I didn’t finish Unleashed Fury thinking Válvera had reinvented Metal — and I don’t think that was the point.

What I found was a band trying to discover how far they can take what they already know how to do. Thrash is still the foundation, but now there’s Heavy Metal, Groove, modern elements, and moments where the atmosphere feels just as heavy as the riffs.

Not every song grabbed me in the same way. Some clicked immediately, while others worked better after a few listens. But that’s part of the album too: it doesn’t seem interested only in delivering one heavy song after another.

Technically, it’s a very well-executed record. Glauber Barreto delivers the vocals with plenty of personality; Glauber Barreto and Rodrigo Torres make the guitars the heart of the album; Gabriel Prado gives the bass plenty of weight; and Leandro Peixoto delivers a drum performance that works very well with the songs’ changes in pace. Meanwhile, Vitor Bonati’s arrival opens a new page for the band.

To me, Unleashed Fury is an album about change, but not the kind that erases the past. It’s about looking at what’s behind you, figuring out what still matters, and having the courage to try something different.

And maybe that’s where Válvera’s true fury lies: not only in the heavy guitars or harsh vocals, but in the desire to refuse to stay in the same place.
After six years, the band is back without pretending that time hasn’t passed. They brought the marks of their journey with them, shifted a few pieces around, and made room for a new story.

And I finished the album with one question in my mind: if Unleashed Fury is the first step into this new chapter, I want to see just how far Válvera can take that fury.






Cobertura de Show: Bloodbath, The Haunted, NervoChaos & Warshipper – 08/09/2026 – Carioca Club/SP

Warshipper, NervoChaos, The Haunted e Bloodbath em uma noite para entrar na história do metal extremo

A terça-feira começou diferente. Mesmo depois de um feriado prolongado, o relógio parecia correr em outra velocidade para quem sabia que, ao final daquele dia, algumas horas de sono seriam um preço pequeno diante do que estava por vir. O trabalho aconteceu com aquela sensação boa de contagem regressiva: havia uma noite histórica esperando no Carioca Club, em São Paulo. E, quando as luzes começaram a se apagar, a impressão era de que o dia finalmente tinha começado de verdade.

No palco, quatro nomes de pesos e momentos distintos da história do metal extremo se encontrariam. Warshipper, NervoChaos, The Haunted e Bloodbath construíram, cada um à sua maneira, uma noite que atravessou gerações, estilos e diferentes capítulos do Death Metal. O resultado foi um Carioca Club progressivamente tomado por fãs, rodas de mosh, gritos e uma energia que fez daquela terça-feira, 8 de setembro, muito mais do que uma simples data no calendário de shows.

Warshipper abre a noite olhando para o futuro

Ainda no início da noite, o Warshipper subiu ao palco diante de uma casa que ainda ganharia bastante movimento nas horas seguintes. Isso, porém, não diminuiu a intensidade da apresentação. Pelo contrário. A banda aproveitou cada minuto para mostrar por que ocupa um espaço importante na nova geração do metal extremo brasileiro.

O repertório passou por faixas como “All Hail The Metal of Death”, “Numb (Pleasures of Possession)”, “Shadows of Science”, “Respect!” e “Warshipper”, equilibrando agressividade, precisão e uma execução que nunca pareceu interessada em transformar técnica em demonstração vazia. A força do grupo está justamente nessa capacidade de fazer os instrumentos trabalharem a favor das músicas, mantendo o peso como elemento central.

Com 15 anos de carreira, quatro álbuns e experiências internacionais no currículo, o Warshipper atravessa um momento de maturidade. E isso ficou evidente no palco. A apresentação também funcionou como uma espécie de cartão de visitas para a próxima etapa da banda, que se prepara para o lançamento de mais um álbum. Se o objetivo era deixar uma prévia do que vem pela frente, a missão foi cumprida.

NervoChaos transforma três décadas de história em combustível

Se o Warshipper representou a força de uma geração que continua expandindo os limites da cena nacional, o NervoChaos entrou em cena para lembrar que existe uma história construída à base de persistência, estrada e caos. Celebrando 30 anos de carreira, a banda trouxe ao Carioca Club uma apresentação que não precisou recorrer à nostalgia para reafirmar sua relevância.

“Ritualistic”, “Whisperer in Darkness”, “Ad Majorem Satanae Gloriam ”, “Pazuzu Is Here” e “Total Satan” abriram caminho para uma sequência de músicas que percorreu diferentes momentos da trajetória do grupo. O repertório avançou por “Total Satan”, “I Am Darkness”, “Embrace Chaos” e “For Passion Not Fashion”, mantendo a atmosfera brutal que acompanha o NervoChaos há três décadas.

E talvez seja justamente essa permanência que melhor defina a apresentação. Enquanto muita coisa muda ao redor, a banda segue encontrando maneiras de transformar peso em identidade. 

The Haunted: 18 anos depois, a espera finalmente termina

Particularmente para mim, havia um motivo a mais para esperar por aquela terça-feira. Entre todos os momentos programados para aquela noite, o show do The Haunted era, sem dúvida, o mais aguardado. Eu havia esperado muito tempo para ver Ola Englund pessoalmente. E existe uma diferença enorme entre acompanhar o trabalho de um músico, admirar sua técnica, consumir seu conteúdo e, finalmente, estar diante dele no palco.

Quando o The Haunted entrou em cena, essa espera deixou de ser expectativa e virou realidade. Foram 18 anos desde a última passagem da banda pelo Brasil. Dezoito anos são tempo suficiente para uma geração inteira descobrir uma banda, crescer ouvindo seus discos e, finalmente, ter a oportunidade de vê-la ao vivo. Por isso, o retorno carregava um significado que ia além de uma simples turnê internacional.

“Warhead” abriu o caminho para uma apresentação que atravessou diferentes fases da carreira, passando por “In Fire Reborn”, “99”, “Trespass”, “The Flood”, “The Medication”, “D.O.A.” e “Time (Will Not Heal)”. A banda também revisitou material mais recente, incluindo músicas de Songs of Last Resort, lançado em 2025, antes de avançar por “Hell Is Wasted on the Dead”, “To Bleed Out”, “No Compromise”, “In Vein” e “Death to the Crown”.

Marco Aro foi uma espécie de ponte permanente entre palco e pista. A comunicação com o público era constante, mas não se resumia a frases de efeito. Os pedidos para que as rodas de mosh se abrissem ajudaram a transformar a apresentação em uma experiência coletiva, enquanto Patrik Jensen, Ola Englund e Jonas Björler mantinham uma interação visual constante com a plateia.

E então existe a guitarra. Conhecido também pelo trabalho como criador de conteúdo sobre guitarra e como fundador da Solar Guitars, Ola ocupa um lugar que ultrapassa o universo do The Haunted. Para quem acompanha esse trabalho, observar de perto suas Solar em ação acrescenta uma camada completamente diferente à experiência. Naquela noite, porém, era o guitarrista do The Haunted que estava diante do público brasileiro. E ele entregou exatamente o que se esperava: presença, precisão e uma sonoridade que se encaixou perfeitamente na brutalidade da banda.

Ao lado dele, Jensen e Björler ajudaram a construir uma parede sonora que encontrou em Adrian Erlandsson seu motor. A bateria veio precisa, pesada e incansável, especialmente nos momentos em que os blast beats tomaram conta do Carioca Club.

Depois de “Undead”, “Hollow Ground”, “Dark Intentions”, “Bury Your Dead”, “Hate Song” e “All Against All”, “Bullet Hole” encerrou uma apresentação que não pareceu simplesmente cumprir a promessa de um retorno. Ela respondeu aos 18 anos de espera.

O mais bonito talvez tenha sido perceber que não havia apenas uma geração diante do palco. Havia quem tivesse esperado quase duas décadas por aquele reencontro e havia quem estivesse descobrindo o The Haunted naquele exato momento. A banda conseguiu fazer esses públicos diferentes ocuparem o mesmo espaço, cantarem juntos e dividirem a mesma pista.

Bloodbath e a estreia que São Paulo esperou

Se o The Haunted transformou uma espera antiga em realidade, o Bloodbath tinha uma missão ainda mais inédita: fazer sua primeira apresentação no Brasil.

O palco mergulhou em uma atmosfera mais sombria. As luzes predominantemente vermelhas ajudaram a construir o cenário perfeito para o Death Metal old school da banda, que chegou ao país com uma formação de peso: Nick Holmes, Anders Nyström, Martin “Axe” Axenrot e Joakim Antman.

E a banda não economizou. “So You Die” abriu o repertório, seguido por “Breeding Death”, “Carved”, “Soul Evisceration”, “Like Fire” e “Outnumbering the Day”. A apresentação avançou por “Putrefying Corpse”, “Cancer of the Soul”, “Brave New Hell”, “Mock the Cross”, “Fleischmann”, “Let the Stillborn Come to Me” e “Cry My Name”, mantendo uma combinação de brutalidade, atmosfera e precisão que fez jus à reputação construída pelo grupo.

Nick Holmes conduziu a apresentação com a experiência de quem sabe exatamente como ocupar um palco, enquanto Martin Axenrot se destacou pela precisão, especialmente nos momentos em que os blast beats aceleravam ainda mais a intensidade da apresentação. Em determinado momento, até um avião de papel feito com o setlist acabou voando em direção ao público, uma pequena interação que contrastou com a atmosfera fúnebre construída pela banda.

Para fechar a primeira passagem pelo país, “Eaten” não poderia ser uma escolha mais simbólica. A música colocou um ponto final em uma noite que já havia atravessado três décadas de metal brasileiro, um retorno esperado por 18 anos e, finalmente, uma estreia internacional aguardada por tantos fãs.

Uma noite que pertenceu ao metal extremo

No fim, a noite não precisou de grandes discursos para provar sua importância. Bastaram quatro bandas em momentos completamente diferentes de suas trajetórias, um público disposto a enfrentar uma terça-feira para estar ali e um palco que, durante algumas horas, concentrou diferentes gerações do metal extremo.

O mais interessante é que cada apresentação deixou uma marca diferente: o Warshipper apontando para frente, o NervoChaos carregando três décadas nas costas, o The Haunted finalmente desfazendo uma espera de 18 anos e o Bloodbath fazendo aquilo que ainda não havia feito: tocar no Brasil.

E talvez seja justamente essa a melhor medida de uma noite como essa. Não sair do Carioca Club pensando que viu quatro shows, mas perceber, horas depois, que assistiu a quatro momentos que dificilmente voltam a se repetir da mesma maneira.

Texto: Stephanie Ferreira

Fotos: André Tavares


Realização: Tumba Productions 


Bloodbath – setlist:

So You Die

Breeding Death

Carved

Soul Evisceration

Like Fire

Outnumbering the Day

Putrefying Corpse

Cancer of the Soul

Brave New Hell

Mock the Cross

Fleischmann

Let the Stillborn Come to Me

Bis 

Cry My Name

Eaten


The Haunted – setlist:

Warhead

In Fire Reborn

99

Trespass

Interlude

The Flood

The Medication

D.O.A.

Time (Will Not Heal)

Hell Is Wasted on the Dead

To Bleed Out

Interlude

No Compromise

In Vein

Death to the Crown

Undead

Hollow Ground

Dark Intentions

Bury Your Dead

Hate Song

Bis

All Against All

Bullet Hole

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Shogun Mojo: Rock N' Roll com Groove e Diversão (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Há uma certa ironia no fato de Tommy Thayer, guitarrista que passou boa parte de sua carreira ajudando a manter vivo o espetáculo do KISS, escolher justamente agora um projeto que parece interessado em desmontar algumas das convenções do hard rock de arena. Ao lado de Dan Reed, voz e principal identidade do Dan Reed Network, Thayer troca parte do peso tradicional pelo groove e encontra no funk uma inesperada área de interseção. O resultado atende pelo nome de Shogun Mojo e, em seu álbum de estreia autointitulado, deixa claro que a intenção está menos em reinventar o rock do que em lembrar como é bom simplesmente tocá-lo.

A fórmula é relativamente simples no papel: hard rock setentista, funk norte-americano, soul, grandes refrãos e guitarras em primeiro plano. O mérito está na maneira como esses ingredientes são combinados. Em vez de transformar o funk em mero adorno, o Shogun Mojo faz dele a engrenagem que movimenta boa parte do disco. Baixo e bateria são fundamentais nessa equação, mantendo o groove enquanto Thayer pode explorar diferentes texturas e Dan Reed conduz as músicas com sua voz aveludada e surpreendentemente versátil.

Funky Party abre o álbum na ordem de audição — embora apareça como encerramento no tracklist oficial — e funciona quase como uma declaração de princípios. Os timbres e efeitos de inspiração setentista estabelecem imediatamente o ambiente, enquanto a cozinha cria o espaço necessário para que Thayer desfile suas seis cordas. É uma abertura que não tem pressa de provar nada: simplesmente coloca o groove em movimento e deixa a banda trabalhar.

Under The Gun, escolhida como primeiro single, leva a fórmula para um terreno mais próximo do rock'n'roll. Os versos permanecem ancorados no funk, mas o refrão abre as portas para uma abordagem mais convencional, criando um contraste eficiente. O solo de Thayer poderia facilmente ter vindo de uma faixa de hard rock, mas a base rítmica jamais abandona o groove. É justamente essa convivência entre duas linguagens que dá personalidade à música.

A surpresa aparece em Gonna Raise Hell, que começa apontando para o hard rock antes de mergulhar em uma atmosfera quase disco. Os backing vocals remetem diretamente ao final dos anos 1970, enquanto a guitarra funkeada e o vocal mais suave de Reed impedem que a faixa se transforme em simples exercício de nostalgia. É uma das composições que melhor demonstra que o Shogun Mojo não está particularmente preocupado em manter o rock dentro de fronteiras muito rígidas.

Nothing To See Here aprofunda ainda mais essa característica. Baixo e bateria conduzem uma faixa cadenciada, essencialmente construída sobre o groove, enquanto Tommy adiciona guitarras que funcionam mais como textura do que como demonstração de força. O refrão, simples e cativante, ganha ainda mais naturalidade na voz de Dan Reed. É talvez aqui que a identidade do projeto fique mais evidente: rock e funk já não parecem gêneros distintos, mas partes da mesma linguagem.

Em Turn It Up, o hard rock recupera terreno. Os timbres de guitarra são mais familiares aos fãs do gênero e a levada de baixo mantém a ligação com o funk, enquanto efeitos e inserções rítmicas ampliam essa mistura. O refrão melódico torna a faixa imediatamente acessível, e o solo novamente escapa da linguagem puramente hard rock para incorporar elementos funk. É uma composição relativamente sofisticada, mas que nunca perde a facilidade de audição — uma qualidade que o Shogun Mojo parece colocar acima de qualquer demonstração de virtuosismo.

E então surge In The Air Tonight, o clássico de Phil Collins. Não é uma tentativa de simplesmente reproduzir a atmosfera sombria da versão original. O Shogun Mojo desmonta a música e a reconstrói dentro de seu próprio universo, com Dan Reed assumindo o protagonismo vocal e uma dose generosa de groove. O resultado é tão diferente que o reconhecimento da canção pode demorar até o refrão. Tommy encontra espaço para um belo solo, enquanto baixo, bateria e os discretos teclados ajudam a transformar o cover em uma verdadeira releitura, e não apenas em uma versão hard rock.

Dog Eat Dog talvez seja uma das faixas que melhor sintetizam o projeto. Existe nela uma evidente lembrança do KISS dos anos 1970, mas o peso é substituído por uma abordagem muito mais groovada. A composição não depende de nenhum momento de exibicionismo individual; sua força está na banda funcionando como unidade. Em alguns trechos, a lembrança de ZZ Top também aparece, reforçando essa combinação entre rock americano, blues e funk que percorre o álbum.

Com uma atmosfera mais tranquila, Fire With Fire entrega outro daqueles grooves que parecem feitos para serem sentidos antes mesmo de serem analisados. O baixo ganha espaço, Dan Reed passeia por sua região mais aveludada e os backing vocals ampliam o caráter melódico do refrão. Tommy demonstra feeling em um solo acompanhado por outro momento de destaque do baixo, reforçando novamente a importância da cozinha. É uma música que mostra que o Shogun Mojo não precisa acelerar para prender a atenção.

Fight For The Light, que aparece como abertura no tracklist oficial, mantém a proposta de fusão entre rock e funk. O refrão é direto e melódico, enquanto as guitarras e os backing vocals reforçam a estética setentista. O solo de Thayer, limpo e preciso, evita excessos e se encaixa na arquitetura da música em vez de tentar dominá-la. É mais uma demonstração de que, neste projeto, o guitarrista parece muito mais interessado em servir à música do que em transformar cada faixa em uma vitrine pessoal.

Star Rider encerra o álbum na ordem de audição e adiciona um pouco mais de peso e alguns teclados de sonoridade mais moderna. O refrão é eficiente e a faixa se aproxima mais do rock'n'roll convencional, mas o groove continua funcionando como fio condutor. É um encerramento coerente porque reúne praticamente todos os elementos que definiram os pouco mais de trinta minutos anteriores.

O maior mérito de Shogun Mojo está justamente em não tentar parecer maior do que é. Não há aqui uma pretensão de reinventar o hard rock, tampouco a necessidade de provar que dois veteranos ainda conseguem tocar como músicos muito mais jovens. O disco parece ter sido concebido por músicos que simplesmente queriam entrar em uma sala, ligar os amplificadores e descobrir o que aconteceria.

E essa espontaneidade é perceptível.

A presença constante do funk poderia facilmente resultar em um álbum excessivamente calculado ou estilizado, mas o Shogun Mojo encontra equilíbrio graças à cozinha. Baixo e bateria funcionam como o coração do disco, enquanto Thayer acrescenta riffs, texturas e solos sem nunca perder de vista a música. Dan Reed, por sua vez, é provavelmente a maior surpresa para quem chega ao álbum atraído pelo nome do guitarrista. Sua voz continua sendo um instrumento extremamente maleável, capaz de transitar do rock ao soul sem esforço aparente.

Também é difícil ignorar o contexto em que esse álbum chega. Em uma época na qual gravações podem ser montadas, corrigidas e reconstruídas quase infinitamente, Shogun Mojo aposta justamente no elemento que não pode ser totalmente programado: a química entre músicos tocando juntos. É uma escolha deliberadamente antiquada — e talvez por isso mesmo bastante refrescante.

No final, o Shogun Mojo não entrega outro disco de hard rock feito para alimentar a nostalgia dos anos 1980. Entrega algo mais interessante: uma celebração do rock como linguagem aberta, capaz de absorver funk, soul, disco e blues sem perder sua identidade. Tommy Thayer e Dan Reed não estão tentando repetir suas histórias — estão se divertindo com elas.

E talvez seja exatamente essa falta de pretensão que faça de Shogun Mojo uma estreia tão agradável. Um disco de riffs, groove, refrãos pegajosos e solos de guitarra, mas, acima de tudo, um disco que parece lembrar uma coisa essencial: rock'n'roll também deve ser diversão.

***ENGLISH VERSION***

There is a certain irony in the fact that Tommy Thayer, the guitarist who spent much of his career helping keep the KISS spectacle alive, has now chosen a project that seems intent on dismantling some of the conventions of arena rock. Alongside Dan Reed, the voice and defining force behind Dan Reed Network, Thayer trades some of the genre’s traditional weight for groove, finding in funk an unexpected common ground. The result is Shogun Mojo, and on their self-titled debut, the band makes it clear that the goal is less about reinventing rock than remembering just how good it feels to simply play it.

The formula is relatively straightforward on paper: ’70s hard rock, American funk, soul, big choruses and guitars front and center. The achievement lies in the way these ingredients are brought together. Rather than treating funk as mere decoration, Shogun Mojo makes it the engine driving much of the album. Bass and drums are crucial to the equation, keeping the groove moving while Thayer explores different textures and Dan Reed guides the songs with his smooth, remarkably versatile voice.

Funky Party opens the album in listening order — although it appears as the closing track on the official tracklist — and works almost like a statement of intent. The distinctly ’70s-inspired tones and effects immediately establish the atmosphere, while the rhythm section creates the space for Thayer to let his six-string skills loose. It is an opening that feels in no hurry to prove anything: it simply gets the groove moving and lets the band do its thing.

Under The Gun, chosen as the album’s first single, takes the formula into more traditional rock’n’roll territory. The verses remain firmly rooted in funk, while the chorus opens the doors to a more conventional rock approach, creating an effective contrast. Thayer’s solo could easily have come from a hard rock track, yet the rhythm section never abandons the groove. It is precisely this coexistence of two musical languages that gives the song its personality.

The surprise comes with Gonna Raise Hell, which initially points toward hard rock before quickly plunging into an almost disco-flavored atmosphere. The backing vocals immediately evoke the late ’70s, while the funky guitar and Reed’s softer vocal approach keep the track from becoming a mere nostalgia exercise. It is one of the songs that best demonstrates that Shogun Mojo has little interest in keeping rock within rigid boundaries.

Nothing To See Here takes that approach even further. Bass and drums drive a laid-back, groove-heavy track, while Tommy’s guitars function as much as texture as they do as a showcase of strength. The simple, catchy chorus gains even more natural appeal through Dan Reed’s smooth delivery. This may be where the project’s identity becomes most obvious: rock and funk no longer sound like separate genres, but rather two sides of the same musical language.

On Turn It Up, hard rock takes back some ground. The guitar tones are more familiar territory for fans of the genre, while the bass line maintains the connection with funk and the additional rhythmic touches and effects broaden the mix. The highly melodic chorus makes the song instantly accessible, while the solo once again moves away from pure hard rock to incorporate funky elements. It is a relatively sophisticated composition that never sacrifices its accessibility — a quality Shogun Mojo seems to value above any display of virtuosity.

And then comes In The Air Tonight, Phil Collins’ classic. Shogun Mojo does not simply attempt to reproduce the dark atmosphere of the original. Instead, the band takes the song apart and rebuilds it within its own musical universe, with Dan Reed taking center stage vocally and a generous dose of groove throughout. The result is so different that listeners may take until the chorus to recognize the song. Tommy delivers an excellent solo, while bass, drums and subtle keyboard touches help transform the cover into a genuine reinterpretation rather than just another hard rock version.

Dog Eat Dog may be one of the tracks that best encapsulates the project. There is an unmistakable nod to ’70s KISS, but the heaviness is replaced by a much groovier approach. The song does not rely on individual showboating; its strength lies in the band functioning as a unit. There are moments that bring classic acts such as ZZ Top to mind, while the solo retains its rock’n’roll edge and rides on a foundation in which the bass once again deserves the spotlight.

With a more relaxed atmosphere, Fire With Fire delivers another one of those grooves that seem designed to be felt before they are analyzed. The bass is given plenty of room, Dan Reed explores the smoother side of his voice, and the backing vocals add further melodic weight to the chorus. Tommy shows plenty of feel during the solo, accompanied by another standout moment from the bass. Once again, the interaction between bass and drums provides the foundation, keeping the song moving without ever forcing the pace.

Fight For The Light, which appears as the opening track on the official tracklist, maintains the rock-and-funk fusion established throughout the album. The chorus is direct and melodic, while the guitars and backing vocals reinforce the ’70s aesthetic. Thayer’s solo is clean and precise, avoiding unnecessary excess and fitting into the architecture of the song rather than attempting to dominate it. Once again, the guitarist seems far more interested in serving the song than turning every track into a personal showcase.

Star Rider closes the album in listening order and adds a little more weight, along with keyboards that introduce a somewhat more modern texture. The chorus is effective, and the song moves closer to conventional rock’n’roll, but the groove remains the thread connecting it to everything that came before. It is a fitting conclusion because it brings together virtually all the elements that define the album’s thirty-plus minutes.

The greatest strength of Shogun Mojo is precisely that it never tries to be bigger than it is. There is no grand ambition to reinvent hard rock, nor any need to prove that two veterans can still play like musicians half their age. The album sounds as though it was created by musicians who simply wanted to get into a room, plug in their amplifiers and see what happened.

And that spontaneity can be heard.

The constant presence of funk could easily have resulted in an overly calculated or stylized record, but Shogun Mojo finds its balance through the rhythm section. Bass and drums act as the album’s heartbeat, while Thayer adds riffs, textures and solos without ever losing sight of the song. Dan Reed, meanwhile, may be the biggest surprise for anyone arriving here because of the guitarist’s name. His voice remains an exceptionally flexible instrument, moving effortlessly between rock and soul.

It is also difficult to ignore the context in which this album arrives. At a time when recordings can be endlessly edited, corrected and reconstructed, Shogun Mojo deliberately embraces the very thing that cannot be completely programmed: the chemistry between musicians playing together. It is an intentionally old-fashioned approach — and perhaps that is precisely why it feels so refreshing.

In the end, Shogun Mojo does not deliver another hard rock record designed simply to feed ’80s nostalgia. It offers something more interesting: a celebration of rock as an open musical language, capable of absorbing funk, soul, disco and blues without losing its identity. Tommy Thayer and Dan Reed are not trying to repeat their histories — they are having fun with them.

And perhaps that lack of pretension is exactly what makes Shogun Mojo such an enjoyable debut. A record packed with riffs, groove, infectious choruses and guitar solos, but above all, an album that remembers one essential truth: rock’n’roll is supposed to be fun.

Paja Hartmanova

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Mikko Karmila — The Man Behind the Sound That Took Finnish Metal to the World

By Flavio Borges

There are musicians who become part of history because they wrote the songs. Others because they walked onto a stage and turned their presence into the soundtrack of a generation. And then there are those who work far from the spotlight, yet whose contribution can be heard on hundreds of records.

Mikko Karmila belonged to that rare last category.

Producer, recording engineer and, above all, one of the most respected mixing engineers in the history of European heavy metal, Karmila died on September 9, 2026, at the age of 62. Born in Lohja, Finland, in 1964, he spent more than four decades behind recording consoles and left his mark — directly or indirectly — on more than 300 albums.

For those unfamiliar with his name, it is enough to look at some of the records that helped turn Finnish metal into an international phenomenon: Nightwish, Stratovarius, Children of Bodom, Amorphis, Sonata Arctica, Lordi, Waltari, Sentenced, Tarot, Norther, Charon, Kotiteollisuus and Stone, among many others.

Karmila was not necessarily credited as producer on all of these albums. On some, he worked as an engineer; on others, as a mixer, producer, or in several roles at once. But his work was crucial in making that music reach listeners with the power, clarity and definition that would become hallmarks of an entire generation.

The Beginning of a Story That Would Help Change Finnish Metal

Karmila's story began long before Finland became a heavy metal powerhouse.

As a young man, he made rudimentary recordings of his own band on cassette tapes. His fascination with the recording process eventually became a profession, leading him to work with bands emerging from Finland's underground scene.

One of the first major chapters of his career was written alongside Stone, a band that played a fundamental role in the development of Finnish thrash metal.

It was the beginning of a relationship that would later be repeated with many of the country's most important bands: Karmila entered the studio not simply to document what a band was playing, but to help determine how that music should sound on record.

By 1991, his work had already received national recognition. Karmila was named Producer of the Year at the Emma Awards, one of Finland's most important music industry honors.

From that point forward, his career would become increasingly intertwined with the evolution of Finnish heavy music.

Finnvox and the Construction of an Identity

A large part of that story took place at Finnvox Studios in Helsinki, where Karmila became a central figure.

For decades, the studio served as a meeting point for musicians, producers and engineers responsible for some of the most important records in Finnish heavy music.

It was in this environment that an expression often associated with Karmila's work began to emerge: the idea of a distinctive "Finnish sound."

It was never a rigid formula.

Karmila did not make every band sound the same. Quite the opposite. His challenge was to preserve the identity of each group while making sure that guitars, drums, vocals, keyboards and arrangements had enough impact and definition to stand alongside the biggest international productions.

This became particularly important at a time when Finnish heavy metal was beginning to move beyond the country's borders.

And Karmila was right at the center of that transformation.

An Entire Generation Passed Through the Same Room

One of the most fascinating aspects of Karmila's career is that he did not work exclusively with established bands. In many cases, he encountered musicians while they were still developing their identities.

His career therefore became intertwined with the evolution of an entire generation.

Bands that had started out playing small clubs and rehearsing in modest rooms arrived at the studio with ambitions that often exceeded their resources. Someone had to transform their energy, musicianship and songwriting into something capable of surviving the most demanding test of all: the record.

Karmila understood that recording was not simply a photograph of a band playing. It was an interpretation.

A producer and engineer had to decide how much weight a guitar should carry, where the drums should sit, how a vocal should cut through a wall of guitars, and how far a production could be pushed without destroying the musicians' personality.

That technical knowledge, combined with an almost instinctive understanding of heavy music, became one of the defining characteristics of his work.

And it helps explain why so many musicians returned to him years later.

Stratovarius, Nightwish, Children of Bodom: Three Roads to the World

Few professionals were as closely involved in the international rise of Finnish metal as Karmila.

With Stratovarius, his involvement extended across different periods of the band's career, beginning with Dreamspace and continuing through some of its most important releases. Episode, Visions, Destiny and Infinite helped establish a new reference point for European power metal — melodic, fast, grandiose and technically precise.

Karmila worked as producer, engineer and mixer at different stages of that journey.

With Nightwish, his relationship was even more extensive. Karmila mixed Oceanborn, the band's 1998 album that introduced a still-developing group to a much wider international audience.

From there, his collaboration accompanied Nightwish's transformation into one of the biggest metal bands on the planet.

And then there was Children of Bodom.

If Stratovarius helped consolidate Finnish power metal and Nightwish expanded the boundaries of symphonic metal, Children of Bodom represented a new possibility: speed, aggression, virtuosity and keyboard melodies existing within a musical language that refused to fit comfortably into a single category.

Karmila mixed Hatebreeder, Follow the Reaper and Hate Crew Deathroll, and later took on production and engineering duties on albums including Are You Dead Yet?, Blooddrunk, Halo of Blood, I Worship Chaos and Hexed.

The result was one of the most recognizable sounds in European metal at the dawn of the 21st century.

Far More Than Power Metal

It would nevertheless be a mistake to reduce Karmila to melodic metal.

His discography crossed virtually every territory of Finnish heavy music.

He worked with Amorphis, following the band's transformation from its death metal roots into a sophisticated combination of metal, progressive rock and elements drawn from 

Finnish musical tradition.

He worked with Waltari, a band known for challenging stylistic boundaries and blending metal, alternative rock, electronic music and experimental elements.

He was also connected to Tarot, Sentenced, Norther, Charon, Impaled Nazarene, Kalmah, 

Eternal Tears of Sorrow, Lullacry, To/Die/For and Peer Günt, among many others.

And he maintained a long-standing relationship with Kotiteollisuus, becoming something of a trusted man behind the console for the band.

Then there was Lordi, the masked hard rock phenomenon that won the Eurovision Song Contest in 2006, with Karmila involved in several stages of the band's recording career.

This diversity may be the best way to understand his importance:

Karmila did not create a single sound. He helped shape an entire musical landscape.

When the World Started Knocking on the Door

As Finnish metal gained international recognition, Karmila's work began crossing the country's borders as well.

He became involved with important names in German metal, including Avantasia, Edguy and Masterplan.

He worked on Tobias Sammet's first Avantasia releases, The Metal Opera and The Metal Opera Part II, helping shape the sound of a project that brought together some of the most prominent vocalists and musicians in European heavy metal.

His international credits also included artists and bands from other countries, among them the Argentine project Beto Vázquez Infinity, Italy's Novembre, and numerous other European acts.

His influence eventually reached even farther.

In Japan, Karmila became the mixing engineer for Lovebites, one of the most prominent power metal bands to emerge from the country in the past decade.

The band deliberately sought out the experience of the Finnish production school that had helped define the classic European melodic metal sound.

Karmila and mastering engineer Mika Jussila, also closely associated with Finnvox, became an important part of Lovebites' sonic identity.

There is something almost poetic about that.

A professional who had helped define the sound of one generation of Finnish bands was, decades later, being sought out by a new generation of musicians on the other side of the world precisely because they wanted that sound.

The Karmila–Jussila Partnership and the Finnvox School

Perhaps no professional relationship better illustrates the scope of Karmila's work than his partnership with Mika Jussila.

While Karmila often shaped the mix — the stage at which all the elements of a recording must find their place — Jussila handled mastering, the final process through which an album is prepared for release.

Together, they became something of a calling card for Finnish heavy music.

Their work helped establish standards of clarity, power and definition that became associated with heavy music produced in Finland.

But the most interesting part is that this "school" was not born from a manifesto or a deliberate attempt to create a recognizable brand.

It was born from the work itself.

Record after record.

Band after band.

Year after year.

By the time the world realized that something extraordinary was happening in Finnish heavy music, Karmila and Jussila had already spent years making sure that it sounded as good as it possibly could.

The Producer Who Never Needed to Outshine the Band

There is something particularly human about Karmila's career.

He was never a figure built for the spotlight. His territory was the recording room, the mixing console, the studio monitors and the long hours spent trying to find the balance between what a band played and what the listener would ultimately hear.

That position behind the scenes may explain why his name remains far less familiar to the general public than those of the musicians he worked with.

But the record industry is also built by people like him.

A great engineer can make a drum kit sound bigger. He can separate two guitars that originally occupy the same sonic space. He can make a vocal cut through a wall of guitars. 

He can turn a good recording into a memorable album.

And, perhaps most importantly, he can understand when not to interfere.

That was one of the qualities that made Karmila so sought after.

His signature was not necessarily about making everything sound like Mikko Karmila. It was about discovering how that particular band needed to sound.

More Than 300 Records and a Career That Spanned Generations

Throughout his career, Karmila maintained a personal archive of his work. The list eventually surpassed 300 albums, often with him performing more than one role on the same project.

The number itself is impressive, but perhaps it is not the best way to measure his legacy.

What matters more is the names on that list.

Stone, Stratovarius, Nightwish, Amorphis, Children of Bodom, Sonata Arctica, Sentenced, Waltari, Tarot, Lordi, Kotiteollisuus, Avantasia, Edguy, Masterplan, Lovebites.

They represent different generations, different styles and different countries.

Some helped create modern Finnish metal. Others brought European power metal to a new generation. Some helped reshape extreme metal. Others simply turned to Karmila because they knew he understood how to make a heavy band sound powerful, clear and larger than life.

The Man Behind the Music

Perhaps the best way to explain Mikko Karmila's importance is to imagine what might have happened if, between the late 1990s and early 2000s, all those records had reached the market with less powerful productions.

It is impossible to know.

But we do know that Karmila was there when a generation of Finnish musicians began transforming ideas, riffs and melodies developed in rehearsal rooms into records capable of crossing borders.

The musicians wrote the songs.

The musicians walked onto the stage.

The musicians won the audience.

But Karmila helped make sure that what happened inside a rehearsal room could be heard anywhere in the world.

That is the greatness of professionals like him.

Mikko Karmila was not a rock star.

He never needed to be.

His work is somewhere else: in the records.

And when the history of Finnish heavy metal is told decades from now, his name should appear not merely in the credits, but among the professionals who helped make possible what today seems almost inevitable:

Finland becoming one of the world's great powers in heavy music.

Karmila died at 62, but his work continues to be heard every day by millions of listeners.

Perhaps that is the finest legacy a music professional can leave behind.

As long as these records keep playing, Mikko Karmila will keep working.

Mikko Karmila — O homem por trás do som que levou o metal finlandês ao mundo (Also In English)

Por Flavio Borges

Há músicos que entram para a história porque escreveram canções. Outros, porque subiram aos palcos e transformaram sua presença em parte da memória de uma geração. E há aqueles que trabalham longe dos holofotes, mas cuja contribuição pode ser ouvida em centenas de discos. Mikko Karmila pertence a essa última e rara categoria.

Produtor, engenheiro de gravação e, sobretudo, um dos mais respeitados engenheiros de mixagem da história do heavy metal europeu, Karmila morreu em 9 de setembro de 2026, aos 62 anos. Nascido em Lohja, na Finlândia, em 1964, ele passou mais de quatro décadas atrás das mesas de gravação e deixou sua assinatura — direta ou indiretamente — em mais de 300 álbuns.

Para quem não conhece seu nome, basta olhar para alguns dos discos que ajudaram a transformar o metal finlandês em um fenômeno internacional: Nightwish, Stratovarius, Children of Bodom, Amorphis, Sonata Arctica, Lordi, Waltari, Sentenced, Tarot, Norther, Charon, Kotiteollisuus e Stone, entre muitos outros. Karmila não estava necessariamente creditado como produtor em todos esses trabalhos — em alguns foi engenheiro, em outros mixer, produtor ou acumulou várias funções —, mas seu trabalho foi decisivo para que aquela música chegasse ao público com a força e a definição que se tornariam características de uma geração inteira.

O começo de uma história que ajudaria a mudar o metal finlandês

A história de Karmila começou muito antes de a Finlândia se tornar uma potência do heavy metal. Ainda jovem, ele fazia gravações rudimentares de sua própria banda em fitas cassete. O interesse pelo processo de gravação acabou falando mais alto, e ele passou a trabalhar profissionalmente com grupos da cena finlandesa.

Um de seus primeiros grandes capítulos foi escrito ao lado do Stone, banda fundamental para o desenvolvimento do thrash metal na Finlândia. Era o começo de uma relação que posteriormente se repetiria com algumas das principais bandas do país: Karmila entrava no estúdio não apenas para registrar uma banda, mas para ajudá-la a descobrir como aquela música deveria soar em um disco.

Em 1991, seu trabalho já havia alcançado reconhecimento nacional: Karmila recebeu o prêmio de Produtor do Ano no Emma Awards, uma das principais premiações da música finlandesa.

A partir daí, sua trajetória se confundiria cada vez mais com a própria evolução do rock pesado finlandês.

Finnvox e a construção de uma identidade

Grande parte dessa história passa pelo Finnvox Studios, em Helsinque, onde Karmila se tornou uma figura central. Durante décadas, o estúdio foi uma espécie de ponto de encontro para músicos, produtores e engenheiros responsáveis por alguns dos discos mais importantes da música pesada finlandesa.

É nesse contexto que surge uma expressão frequentemente associada ao trabalho de Karmila: o chamado "som finlandês".

Não se tratava de uma fórmula rígida. Karmila não fazia todas as bandas soarem iguais. Pelo contrário. O desafio estava justamente em preservar a personalidade de cada grupo e, ao mesmo tempo, fazer com que guitarras, bateria, vocais, teclados e arranjos tivessem impacto e definição suficientes para competir com as grandes produções internacionais.

Foi uma tarefa especialmente importante em uma época em que o heavy metal finlandês estava deixando de ser um fenômeno essencialmente doméstico.

E Karmila estava no centro dessa transformação.

Uma geração inteira passou pela mesma sala

Existe uma característica particularmente fascinante na carreira de Karmila: ele não trabalhou apenas com grandes bandas já estabelecidas. Em muitos casos, encontrou músicos quando eles ainda estavam construindo sua identidade.

Isso significa que seu trabalho acompanhou a evolução de uma geração inteira.

Bandas que começaram em pequenos clubes e salas de ensaio chegaram ao estúdio com ambições muito maiores do que sua estrutura permitia. Era necessário transformar energia, técnica e composição em algo que pudesse sobreviver ao teste mais difícil de todos: o disco.

Karmila sabia que uma gravação não era simplesmente uma fotografia de uma banda tocando. Era uma interpretação.

O produtor e o engenheiro precisavam decidir quanto peso uma guitarra deveria ter, onde a bateria deveria ocupar espaço, como um vocal deveria atravessar a mixagem e até onde seria possível levar uma produção sem eliminar a personalidade dos músicos.

Esse conhecimento técnico, aliado a uma compreensão quase intuitiva da música pesada, tornou-se uma das marcas de seu trabalho.

E explica por que tantos músicos voltaram a procurá-lo anos depois.

Stratovarius, Nightwish, Children of Bodom: três caminhos para o mundo

Poucos profissionais estiveram tão presentes na internacionalização do metal finlandês quanto Karmila.

Com o Stratovarius, sua participação atravessou diferentes fases da carreira da banda, começando em Dreamspace e passando por alguns de seus trabalhos mais importantes. Episode, Visions, Destiny e Infinite ajudaram a estabelecer uma nova referência para o power metal europeu — melódico, veloz, grandioso e tecnicamente impecável.

Karmila foi produtor, engenheiro e mixer em diferentes momentos dessa trajetória.

Com o Nightwish, sua relação foi ainda mais longa. Karmila mixou Oceanborn, álbum de 1998 que apresentou uma banda ainda em formação a um público internacional muito maior. A partir daí, sua colaboração acompanhou a transformação do grupo de Tuomas Holopainen em uma das maiores bandas de metal do planeta.

E então veio o Children of Bodom.

Se o Stratovarius ajudou a consolidar o power metal finlandês e o Nightwish ampliou as fronteiras do metal sinfônico, o Children of Bodom representou uma nova possibilidade: velocidade, agressividade, virtuosismo e melodias de teclado convivendo dentro de uma linguagem que não cabia confortavelmente em uma única classificação.

Karmila mixou Hatebreeder, Follow the Reaper e Hate Crew Deathroll, e posteriormente assumiu também funções de produção e engenharia em trabalhos como Are You Dead Yet?, Blooddrunk, Halo of Blood, I Worship Chaos e Hexed.

O resultado foi um dos sons mais reconhecíveis do metal europeu do início do século XXI.

Muito além do power metal

Seria, entretanto, um erro reduzir Karmila ao metal melódico.

Sua discografia atravessa praticamente todos os territórios da música pesada finlandesa. Trabalhou com o Amorphis, acompanhando a transformação da banda desde suas raízes death metal até sua sofisticada combinação de metal, rock progressivo e elementos da tradição musical finlandesa.

Trabalhou com o Waltari, grupo conhecido por desafiar fronteiras estilísticas e misturar metal, rock alternativo, música eletrônica e elementos experimentais.

Também esteve ligado a Tarot, Sentenced, Norther, Charon, Impaled Nazarene, Kalmah, Eternal Tears of Sorrow, Lullacry, To/Die/For, Peer Günt, Don Huonot, Popeda e manteve uma longa relação com o Kotiteollisuus, banda da qual se tornou uma espécie de homem de confiança no estúdio.

E há ainda o Lordi, vencedor do Eurovision de 2006, com quem Karmila trabalhou em diferentes momentos.

Essa diversidade talvez seja uma das melhores maneiras de entender sua importância: Karmila não construiu um único som; ajudou a construir uma paisagem inteira.

Quando o mundo começou a bater à porta

À medida que o metal finlandês ganhou projeção internacional, o trabalho de Karmila também ultrapassou as fronteiras do país.

Ele esteve envolvido com importantes nomes do metal alemão, incluindo Avantasia, Edguy e Masterplan. Participou dos primeiros trabalhos do projeto de Tobias Sammet, The Metal Opera e The Metal Opera Part II, ajudando a definir o som de um projeto que reunia alguns dos principais vocalistas e músicos do heavy metal europeu.

Também trabalhou com artistas e bandas de outros países, entre eles o projeto argentino Beto Vázquez Infinity, o italiano Novembre e diversos grupos europeus.

Sua influência chegou ainda mais longe.

No Japão, tornou-se o responsável pela mixagem dos trabalhos do Lovebites, uma das mais importantes bandas japonesas de power metal surgidas na última década. O grupo buscou justamente na Finlândia a experiência que havia ajudado a construir o som clássico do metal melódico europeu.

Karmila e o engenheiro de mastering Mika Jussila, também ligado ao Finnvox, tornaram-se parte fundamental da identidade sonora da banda.

É uma ironia interessante: um profissional que ajudou a definir o som de uma geração de bandas finlandesas acabou sendo procurado décadas depois por uma nova geração de músicos do outro lado do mundo que queria justamente aquele som.

A dupla Karmila–Jussila e a “escola Finnvox”

Talvez nenhum outro relacionamento profissional ajude tanto a explicar a dimensão de seu trabalho quanto sua parceria com Mika Jussila.

Enquanto Karmila frequentemente construía a mixagem — o momento em que todos os elementos de uma gravação precisam encontrar seu lugar —, Jussila assumia o mastering, a etapa final que preparava o álbum para chegar ao público.

A combinação dos dois se tornou uma espécie de cartão de visitas da produção pesada finlandesa.

O resultado ajudou a estabelecer padrões de clareza, potência e definição que passaram a ser associados à música pesada produzida na Finlândia.

Mas o mais interessante é que essa "escola" não nasceu de um manifesto estético ou de uma tentativa deliberada de criar uma marca.

Ela nasceu do trabalho.

Disco após disco. Banda após banda. Ano após ano.

Quando o mundo percebeu que havia algo especial acontecendo na música pesada finlandesa, Karmila e Jussila já estavam há muito tempo trabalhando para que aquilo soasse da melhor maneira possível.

O produtor que não queria aparecer mais do que a banda

Existe algo de particularmente humano na trajetória de Karmila.

Ele nunca foi uma figura construída para os holofotes. Seu território era a sala de gravação, a mesa de mixagem, os monitores de estúdio e as longas horas tentando encontrar o equilíbrio entre o que uma banda tocava e aquilo que o ouvinte finalmente escutaria.

Essa posição de bastidor talvez explique por que seu nome é muito menos conhecido pelo grande público do que os dos músicos com quem trabalhou.

Mas a indústria fonográfica é feita também dessas pessoas.

Um grande engenheiro pode fazer uma bateria parecer maior. Pode separar duas guitarras que originalmente ocupam o mesmo espaço. Pode fazer um vocal atravessar uma parede de guitarras. Pode transformar uma boa gravação em um disco memorável.

E pode, sobretudo, entender quando não deve interferir.

Essa era uma das características que fizeram de Karmila um profissional tão procurado. Sua assinatura não estava necessariamente em fazer tudo soar como Mikko Karmila, mas em descobrir como aquela determinada banda deveria soar.

Mais de 300 discos e uma carreira que atravessou gerações

Ao longo da carreira, Karmila manteve um arquivo pessoal de seus trabalhos. A lista ultrapassava 300 álbuns, muitas vezes com mais de uma função exercida no mesmo projeto.

Esse número impressiona, mas talvez não seja a melhor maneira de medir seu legado.

Mais importante é observar os nomes que aparecem nessa lista.

Stone, Stratovarius, Nightwish, Amorphis, Children of Bodom, Sonata Arctica, Sentenced, Waltari, Tarot, Lordi, Kotiteollisuus, Avantasia, Edguy, Masterplan, Lovebites.

São bandas que representam diferentes gerações, diferentes estilos e diferentes países.

Algumas ajudaram a criar o metal finlandês moderno. Outras levaram o power metal europeu a uma nova geração. Algumas ajudaram a renovar o metal extremo. Outras simplesmente procuraram em Karmila a experiência de alguém que sabia como fazer uma banda pesada soar grande.

O homem por trás da música

Talvez a melhor maneira de explicar a importância de Mikko Karmila seja imaginar o que aconteceria se, entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, todos aqueles discos tivessem chegado ao mercado com produções menos impactantes.

É impossível saber.

Mas é possível afirmar que Karmila estava lá quando uma geração de músicos finlandeses passou a transformar ideias, riffs e melodias criadas em salas de ensaio em discos capazes de atravessar fronteiras.

Os músicos escreveram as músicas.

Os músicos subiram ao palco.

Os músicos conquistaram o público.

Mas Karmila ajudou a fazer com que aquilo que acontecia dentro de uma sala de ensaio pudesse ser ouvido em qualquer lugar do mundo.

Essa é a grandeza de profissionais como ele.

Mikko Karmila não foi uma estrela do rock. Não precisou ser.

Sua obra está em outro lugar: nos discos.

E quando a história do heavy metal finlandês for contada daqui a algumas décadas, seu nome deverá aparecer não apenas nos créditos, mas entre os profissionais que ajudaram a tornar possível aquilo que hoje parece quase natural: a Finlândia como uma das grandes potências mundiais da música pesada.

Karmila morreu aos 62 anos, mas seu trabalho continua sendo ouvido diariamente por milhões de pessoas. Talvez esse seja o destino mais bonito que um profissional de música possa desejar.

Enquanto esses discos continuarem tocando, Mikko Karmila continuará trabalhando.