segunda-feira, 6 de abril de 2026

Dream Theater: 40 anos de um sonho sem fim

 Por: Renato Sanson

A lendária banda Dream Theater está pronta para protagonizar um dos eventos mais aguardados do Prog Metal no Brasil em 2026. Celebrando quatro décadas de carreira, o grupo norte-americano retorna ao país em maio com a grandiosa turnê “40th Anniversary Tour Parasomnia”, prometendo apresentações históricas e uma imersão completa em sua sonoridade única.

A nova excursão marca não apenas a comemoração dos 40 anos de estrada, mas também a divulgação do recém-lançado álbum “Parasomnia”, que será executado na íntegra durante os shows. O disco, já considerado por muitos fãs como um dos trabalhos mais ambiciosos da banda nos últimos anos, explora atmosferas densas, conceitos ligados ao sono e à mente humana, além de trazer a complexidade técnica que consagrou o grupo mundialmente.

Mas a experiência não para por aí. Em um gesto que certamente agradará os fãs mais antigos, o Dream Theater também incluiu no repertório a execução completa do clássico “A Change of Seasons”. Lançado em 1995, o EP é considerado uma obra-prima do Metal Progressivo, especialmente pela faixa-título de mais de 20 minutos, que se tornou um marco na carreira da banda.

Outro grande destaque da turnê é o retorno da formação clássica, reunindo nomes fundamentais como James LaBrie, John Petrucci, John Myung, Jordan Rudess e Mike Portnoy. A reunião dessa formação histórica adiciona ainda mais peso emocional e técnico aos shows, reacendendo a química que ajudou a consolidar o Dream Theater como um dos maiores nomes do gênero.

Serão seis apresentações em solo brasileiro, todas com duração aproximada de três horas, um verdadeiro espetáculo para os fãs, que poderão acompanhar uma jornada musical completa, passando por diferentes fases da carreira da banda. A proposta é oferecer uma experiência imersiva, com sets longos, mudanças de atmosfera e uma produção visual à altura da complexidade sonora do grupo.

A “40th Anniversary Tour Parasomnia” não é apenas mais uma turnê: trata-se de uma celebração da longevidade, da inovação e da conexão profunda entre banda e público. Para os fãs brasileiros, será uma oportunidade única de testemunhar ao vivo uma das bandas mais influentes da história em um momento tão especial de sua jornada.

Se a expectativa já é alta, a promessa é de noites inesquecíveisD daquelas que entram para a história tanto da banda quanto do público.

Entrevista - Robert Lowe: "A Música Precisa Te Levar em uma Jornada."



English version available below

O vocalista norte-americano Robert Lowe é considerado uma das vozes mais emblemáticas do doom metal mundial, tanto pela sua importância no Solitude Aeturnus — ajudando a consolidar o epic doom como um subgênero — quanto pela sua contribuição à trajetória de uma das maiores bandas do estilo, o Candlemass.

Robert chega ao Brasil neste mês de abril para uma mini tour de três datas(dia 10 em São Paulo, 11 em Sorocaba e 12 no Rio de Janeiro. Midgard e Loss são as bandas convidadas na turnê) onde apresentará clássicos do Solitude Aeturnus e Candlemass. 

Conversamos com Robert para falar um pouco dessa história e contribuição para o estilo. Confira!



Renato: Oi, Robert
Robert: E aí, irmão?


Renato: Cara, meu nome é Renato, do site Road to Metal. É um prazer falar com você.
Antes de começarmos, preciso dizer que não falo muito inglês, estou me desafiando aqui. Sou muito seu fã, Robert, seja com o Solitude ou Candlemass.
Robert: Sabe de uma coisa? Podemos dizer logo que, atualmente, moro na Noruega, não falo muito norueguês, então, sabe, estamos na mesma página. [risos]


Renato: Para início de conversa, vamos falar sobre seus anos no Candlemas. Diga-me, quais são as principais contribuições que você acredita ter deixado como legado para a banda durante esse período? 
Robert: Bem, boa pergunta. Contribuição? Você sabe, espero que com esse tempo que passei com esses caras, que são ótimos, isso tenha contribuído para melhorar o que eles vinham já fazendo. Ninguém estava tentando melhorar, mas apenas adicionar algo para que todos nos sentíssemos confortáveis com o que o que estávamos fazendo.


Renato: Ainda sobre sua história com Candlemas, o álbum “Death Magic Doom” se tornou um álbum muito amado pelos fãs, com músicas que se tornaram icônicas, como “Hammer of Doom”. Eu gostaria que você falasse sobre a importância deste álbum na sua carreira e um pouco sobre como ele foi concebido. 
Robert: Bem, você sabe, Hammer of Doom é Hammer of Doom. Eu adoro tocar essa música, adoro tocar. Uma das coisas sobre todo esse álbum é que conseguimos retratar certas coisas, mas essa, essa me toca profundamente, sabe, porque, quero dizer, há poder. 

Leif e os caras, Lars, Lasse e Mappe, sabe, caras ótimos, músicos ótimos. E, sabe, você tem que dar os parabéns a esses caras.
Quer dizer, eu, eu não fiz nada. Eu não sou ninguém. [risos]

Então eu não fiz nada. Mas poder lançar algo assim é uma coisa que te qualifica,  te permite ser quem você é. E, novamente, aqueles tempos e estar com o Candlemass foram momentos de qualidade.


Renato: A próxima pergunta é sobre a era Solitude Aeturnus. Diga-nos, como foi formar uma banda de Doom Metal no Texas, a terra do Southern Rock e da cultura country? Quais foram suas principais inspirações? 
Robert:  Bem, antes de mais nada, preciso dizer que adoro ser texano e sempre vou apreciar isso. Mas o que importa é que, como você perguntou, o John Perez e o Lyle, que sempre foi meu amigo de longa data, nós dois ouvimos, sei lá, Pentagram, Trouble, sabe, Celtic Frost, certo? E tipo: “ei, a gente devia fazer isso.” E aí você pensa, dane-se, vamos fazer. E aí você acaba fazendo! [risos]

Mas o ponto é que a qualidade desses caras, sabe, com os instrumentos deles e o que eles fazem é importante, porque você pode confiar no seu colega de banda. Porque seu colega de banda é importante quando você está no palco ou em qualquer outra coisa que você faça: A qualidade da amizade. Acho que é isso que faz com que, seja com quem for, você traga essa qualidade para a mesa, que vai permitir que você faça o que tem de ser feito.


Renato: Agora uma pergunta muito importante para mim. Gostaria que você falasse um pouco sobre “Beyond the Crimson Horizon”.
Robert:  Nossa! Sim, sim. Fantástico.


Renato: Perfeito. Ele é considerado por muitos a obra-prima da banda, um álbum magistral, cara, ostentando a melhor atmosfera e a mistura perfeita de doom esmagador e melodia. Conte-nos o que você acha disso e se concorda. E claro, o que este álbum significa para você? 
Robert:  Bem, fazer esse álbum, e vou ser breve na resposta, o que não vou fazer porque seria uma mentira. [risos]

A música precisa te levar em uma jornada, e fazer esse álbum com esses meus amigos, simplesmente, eu não sei como dizer de outra forma, mas você simplesmente faz acontecer!
 
E as letras, e a música, e o tempo que você passa com cada um…escrever riffs de guitarra, e/ou, sabe, ei, que tal essas letras? Ou que tal aquelas? Sabe, tudo isso, a culminação de todo o processo é o que importa.
E tem tanta coisa envolvida. Mas eu amo esse álbum.


Renato: É um álbum foda!
Robert: É mesmo. E eu sou extremamente feliz por ter feito parte desse processo. Quer dizer, significou muito para mim poder ter meus companheiros de banda, meus amigos, fazer algo juntos. Significou muito para mim.


Renato: Para mim, este álbum é uma obra-prima do metal.
Robert: É o melhor. É isso aí,  irmão.



Renato: E se é possível escolher: Candlemass ou Solitude Aeturnus? Qual a sua preferida? [Risos]
Robert Lowe: Sabe de uma coisa? Ambos são os melhores porque o Candlemass traz algo para a mesa e o Solitude traz algo também. Se eu estivesse na sala de estar, ou no quarto, e fosse colocar um álbum para ouvir, eu gostaria de ouvir Messiah Marcolin no Candlemass, ou ouvir Solitude Aeturnus... é uma daquelas coisas que depende do que fala aos seus sentimentos ou emoções. O Leif traz isso e, como eu disse antes, todos os caras do Solitude também. São todos pessoas incríveis.


Renato: Valeu, cara. Obrigado pela música, obrigado pela sua voz. Tchau!
Robert Lowe: Obrigado a você. Agradeço seu tempo e nos vemos por aí. Talvez para fumar algo ou tomar uma cerveja, sei lá. O importante é aproveitar nosso tempo. Espero aproveitar com todos os fãs brasileiros. Se cuida irmão!


Entrevista: Renato Sanson (colaborou: Caco Garcia)
Transcrição e Edição: Caco Garcia 
Fotos: Divulgação, arquivos do artista e Terje Tysnes

Agradecimentos: Som do Darma 




English Version

Interview - Robert Lowe: "Music Needs to Take You on a Journey."


The North American singer Robert Lowe is considered one of the most emblematic voices in world doom metal, both for his importance in Solitude Aeturnus—helping to consolidate epic doom as a subgenre—and for his contribution to the trajectory of one of the style's greatest bands, Candlemass.

Robert arrives in Brazil this April for a mini-tour of three dates (April 10th in São Paulo, April 11th in Sorocaba, and April 12th in Rio de Janeiro. Midgard and Loss are the guest bands on the tour) where he will present classics from Solitude Aeturnus and Candlemass.

We talked with Robert to discuss a bit of his history and contribute to the style. Check it out!

Renato: Hello, Roberto.

Robert: Hey, brother?

Renato: Man, my name is Renato, from the Road to Metal website. It's a pleasure to talk to you.

Before we begin, I need to say that I don't speak much English; I'm challenging myself here. I'm a big fan of yours, Robert, whether with Solitude or Candlemass.

Robert: You know what? We can say right away that, currently, I live in Norway, I don't speak much Norwegian, so, you know, we're on the same page. [laughs]

Renato: To start the conversation, let's talk about your years in Candlemass. Tell me, what are the main contributions you believe you left as a legacy for the band during that period?

Robert: Well, good question. Contribution? You know, I hope that with the time I spent with these guys, who are great, it contributed to improving what they were already doing. Nobody was trying to improve, but I just added something so that we all felt comfortable with what we were doing.


Renato: Still on your history with Candlemass, the album "Death Magic Doom"

became a much-loved album by fans, with songs that became iconic, such as "Hammer of Doom". I'd like you to talk about the importance of this album in your career and a little about how it was conceived.

Robert: Well, you know, Hammer of Doom is Hammer of Doom. I love playing that song, I love playing it. One of the things about this whole album is that we managed to portray certain things, but this one, this one touches me deeply, you know, because, I mean, there's power.

Leif and the guys, Lars, Lasse and Mappe, you know, great guys, great musicians. And, you know, you have to congratulate those guys.

I mean, I, I didn't do anything. I'm nobody. [laughs]

So I didn't do anything. But being able to release something like that is something that qualifies you, allows you to be who you are. And, again, those times and being with Candlemass were quality moments.


Renato: The next question is about the Solitude Aeturnus era. Tell us, what was it like forming a Doom Metal band in Texas, in the land of Southern Rock and country culture? What were your main inspirations?

Robert: Well, first of all, I need to say that I love being Texan and I will always appreciate that. But what matters is that, as you said, John Perez and Lyle, who has always been a longtime friend of mine, we both listened to, I don't know, Pentagram, Trouble, you know, Celtic Frost, right? And like: "hey, we should do this." And then you think, screw it, let's do it. And then you just did it! [laughs]

But the point is that the quality of these guys, you know, with their instruments and what they do is important, because you can trust your bandmate. Because your bandmate is important when you're on stage or anything else you do: The quality of the friendship. I think that's what makes it so that, whoever it is, you bring that quality to the table, which will allow you to do what needs to be done.

Renato: Now a very important question for me. Roberto: Wow! Yes, yes. Fantastic.

Renato: Perfect. It's considered by many to be the band's masterpiece, a masterful album, man, boasting the best atmosphere and the perfect mix of crushing doom and melody. Tell us what you think about it and if you agree. Of course, what does this album mean to you?

Robert: Well, make this album, and I'll be brief in my answer, which I won't do because it would be a lie. [laughs]

Music needs to take you on a journey, and making this album with these friends of mine, simply, I don't know how else to say it, but you just make it happen!

And the lyrics, and the music, and the time you spend with each one…writing guitar riffs, and/or, you know, hey, how about these lyrics? Or how about this? You know, all of that, the culmination of the whole process is what matters.

And there's so much involved. But I love this album.

Renato: It's a fucking awesome album!

Robert: It really is. And I'm extremely happy to have been a part of this process. I mean, it meant a lot to me to be able to have my bandmates, my friends, to do something together. It meant a lot to me.

Renato: For me, this album is a masterpiece of metal.

Robert: It's the best. That's it, brother.

Renato: And if it's possible to choose: Candlemass or Solitude Aeturnus?
Which one is your favorite? [Laughs]

Robert Lowe: You know what? Both are the best because Candlemass brings something to the table and Solitude brings something too. If I were in the living room, or in the bedroom, and I was going to put on an album to listen to, I would want to listen to Messiah Marcolin on Candlemass, or listen to Solitude Aeturnus... it's one of those things that depends on what speaks to your feelings or emotions. Leif brings that and, as I said before, all the guys from Solitude too. They are all incredible people.

Renato: Thanks, man. Thank you for the music, thank you for your voice. Bye!

Robert Lowe: Thank you. I appreciate your time and see you around. Maybe to smoke something or have a beer, I don't know. The important thing is to enjoy our time. I hope to enjoy it with all the Brazilian fans. Take care, brother!


Interview: Renato Sanson (collaboration: Caco Garcia)
Transcription and Editing: Caco Garcia
Photos: Press release, artist's archives and Terje Tysnes

Acknowledgements: Som do Darma

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Cobertura de Show: Kadavar – 21/03/2026 – Carioca Club/SP

A banda Kadavar retornou ao Brasil para um show exclusivo no Carioca Club, em São Paulo. Promovendo o último trabalho, I Just Want To Be A Sound (2025), o evento marcou o retorno dos alemães após uma espera de oito anos e contou com dois nomes de peso da cena nacional, Hammerhead Blues e Espectro, que transformaram as apresentações em um portal direto aos anos 70.

A responsabilidade de abrir a noite coube ao Hammerhead Blues, e a banda paulistana cumpriu a tarefa com maestria. Com seu blues rock carregado de peso e psicodelia, o trio formado por Otavio Cintra (vocal e baixo), Luiz Cardim (guitarra) e Willian Paiva (bateria) entregou um setlist coeso e envolvente. Desde a abertura com "Hero", a banda demonstrou um entrosamento incrível, com riffs marcantes e uma cozinha que comandava o ritmo. Faixas como "Roger’s Cannabis Confusion" e "Black Abyss" solidificaram a atmosfera psicodélica, enquanto "Traveller", "Age of Void" e "Around The Sun" mostraram a versatilidade do grupo em construir climas que transitam entre o arrastado e o energético, deixando claro que o grupo sabe entregar uma boa performance ao vivo.

Na sequência, o Espectro elevou a intensidade com uma pegada mais sombria e agressiva. A banda, conhecida por seu doom/stoner metal com letras em português, trouxe uma intensidade visceral ao palco. O line up com Reinaldo Zonta (vocal), João Wegher (guitarra), Luan Bremer (guitarra), Felipe Rippervert (baixo) e Karina D’Alessandre (bateria) trouxe um setlist que incluiu "The Ritual", "Twist the Knife" e "Death Dealing", foi uma sucessão de riffs arrastados, vocais agressivos e uma atmosfera que beirava a um ritual. A performance de "Wicked Life", "1000 Nights" e "Lost in the Aether" demonstrou a capacidade do Espectro de criar um ambiente sonoro denso e hipnótico, com passagens que alternavam momentos de pura fúria com outros de contemplação sombria, deixando o público completamente imerso em sua música.

Era hora e o Kadavar tomou o palco alguns minutos antes do previsto e, logo que iniciaram a apresentação com “Goddess of Dawn”, transformou o Carioca Club em uma catedral do rock psicodélico dos anos 70. O quarteto alemão, com sua formação minimalista e presença magnética, entregou uma performance impecável, cheia de energia vintage e riffs que pareciam saídos de um vinil antigo, assim como seus figurinos setentistas. "Lies" e "Doomsday Machine" seguiram com a mesma intensidade, com o som massivo e cru que é a marca registrada do Kadavar, fazendo o público vibrar desde as primeiras notas.

A performance dos alemães é um testemunho da força do rock old school e da autenticidade. Christoph "Lupus" Lindemann na guitarra e vocal, Simon "Dragon" Bouteloup no baixo, Christoph "Tiger" Bartelt na bateria e Jascha Kreft na guitarra formam uma máquina sonora impecável. O som era colossal, com o timbre da guitarra de Lupus preenchendo cada canto do ambiente junto com Jascha Kreft, o baixo de Dragon pulsando com um groove hipnótico e a bateria de Tiger ditando o ritmo com precisão e potência avassaladoras. A banda não precisa de grandes artifícios de palco; sua presença é magnética, e a música fala por si.

“Last Living Dinosaur” e “Black Sun” aprofundaram a atmosfera setentista que define o Kadavar. Os riffs soavam pesados sem perder a fluidez, enquanto a banda explorava bem as dinâmicas das músicas. “The Old Man” manteve o ritmo frenético, daqueles que fazem o público balançar a cabeça quase automaticamente. Com uma dinâmica diferente, “Explosions in the Sky” expôs uma aura à la Beatles, meio psicodélica, para dar uma aliviada em meio a tantos riffs. Mas durou pouco: logo mandaram “Total Annihilation”, a música mais rápida da banda e talvez uma das mais pesadas do catálogo deles, que não deixou ninguém parado.

A reta final do set principal foi sensacional, com "Scar on My Guitar" e "Purple Sage" demonstrando a maestria da banda em criar riffs memoráveis junto a atmosferas densas em meio a uma psicodelia alucinante. O ápice veio com "Die Baby Die", que encerrou essa parte com uma explosão de energia, deixando o público sedento por mais. Os aplausos e gritos de "Kadavar! Kadavar!" tomaram conta do Carioca Club, clamando pelo retorno do quarteto.

O encerramento foi épico. “Regeneration” trouxe uma sonoridade mais moderna sem perder a identidade da banda. “Come Back Life” veio com uma carga emocional forte, e o grand finale com “All Our Thoughts” fechou a noite de forma perfeita, deixando o ar carregado de fumaça, suor e satisfação. Em suma, as apresentações foram um triunfo para o rock pesado. Desde as performances sólidas e envolventes de Hammerhead Blues e Espectro, que aqueceram o público com suas respectivas doses de groove e peso, até a apresentação magistral do Kadavar, que entregou um espetáculo de rock setentista com uma energia contagiante. Durante o show, o Kadavar se permitiu alongar as músicas, brincar com texturas e criar momentos imersivos e imprevisíveis. Diante de tudo isso, pode-se dizer que foi uma experiência completa, que celebrou a força e a vitalidade do gênero, deixando a certeza de que o bom e velho rock and roll está mais vivo do que nunca. 


Texto: Marcelo Gomes 


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Agência Sob Controle



Hammerhead Blues – setlist:

Hero
Roger’s Cannabis Confusion
Black Abyss
Traveller
Age of Void
Around The Sun

Espectro – setlist:

The Ritual
Twist the Knife
Death Dealing
Wicked Life
1000 Nights
Lost in the Aether

Kadavar – setlist:

Goddess of Dawn

Lies

Doomsday Machine

Last Living Dinosaur

Black Sun

The Old Man

Explosions in the Sky

Total Annihilation

Scar on My Guitar

Purple Sage

Die Baby Die

Regeneration

Come Back Life

All Our Thoughts

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Adna Melan: A Doçura Angelical da Nova Revelação do Gothic Rock Brasileiro

 

Por Denis A. Lacerda

Nota: 09.0/10.0

O novo single “Lie”, da cantora ADNA MELAN, desponta como um dos lançamentos mais relevantes do Gothic Rock brasileiro nos últimos anos, reafirmando o potencial da artista em sua carreira solo. Com uma abordagem estética fiel às raízes do gênero, a faixa evidencia maturidade artística e um direcionamento sonoro consistente dentro de uma cena que carece de novos artistas.

A interpretação vocal de ADNA MELAN é, sem dúvida, um dos principais trunfos da composição. Sua voz, avaliada pelo nosso portal como doce como um anjo, contrasta de forma marcante com a carga emocional da música, transmitindo sensações de dor e angústia com precisão. Essa dualidade entre suavidade e melancolia reforça a identidade da musicista e amplia o impacto da faixa junto ao ouvinte.

“Lie” se apresenta de forma enxuta e direta, sem a pretensão de reinventar estruturas já consolidadas do Gothic Rock. A opção por permanecer estritamente dentro dos limites do gênero se mostra acertada, especialmente por valorizar a atmosfera sombria e introspectiva que caracteriza a proposta artística de ADNA MELAN.

Em termos de produção, o single entrega um resultado funcional, ainda que sem grandes destaques técnicos. A sonoridade cumpre seu papel, mas aponta para a necessidade de aprimoramentos em futuros lançamentos, sobretudo considerando a expectativa natural em torno de um álbum completo. Há espaço para evolução, especialmente no refinamento de camadas sonoras e na valorização da dinâmica instrumental.

Diante desse cenário, “Lie” consolida ADNA MELAN como um nome promissor dentro do Gothic Rock nacional, ao mesmo tempo em que desperta expectativa por um trabalho no formato de álbum. A recepção positiva do single reforça o interesse por um álbum completo, que poderá ampliar ainda mais o alcance e a relevância da artista no cenário alternativo brasileiro.

John Corabi: Conforto e Nostalgia em "New Day"

Frontiers Records (Imp.)

Por Paula Butter 

O veterano John Corabi vem com tudo neste debut solo, em audição antecipada, cortesia da Gravadora Frontiers, fui surpreendida com omelhor álbum de conforto que ouvi este ano. Já nas primeiras faixas, o ímpeto de pegar a estrada e seguir para lugar nenhum com o volume máximo é irresistível. Aquele "mojo" do Rock com uma pitada de blues que nos desperta toda a nostalgia de um tempo que já não volta mais (Será?).

E não é para menos, se levarmos em consideração os nomes responsáveis pela produção do álbum, só a nata do rock mainstream. Dentre eles, está o produtor americano Marti Frederiksen, que já trabalhou com Aerosmith, Ozzy Osbourne e Gavin Rossdale, e nesta parceria contribui também comvocais de apoio, guitarras, piano e percussão. Também temos Richard Fortus (Guns N' Roses) na guitarra solo; Paul Taylor (Winger, Steve Perry) no piano, órgão e clavinete, e Charlie Starr do fantástico Blackberry Smoke com solos de guitarra. Ou seja, não tem como errar o alvo.

Já nas primeiras faixas, "New Day" e "That Memory", uma exuberância de guitarras clássicas, refrões grudentos, daqueles que adoramos, batidas no compasso, baixo perfeito e o mais importante: Aquele Rock raiz cantado com alma e empolgação. Na sequência, uma pausa nos pensamentos fugazes, para dar lugar às introspectivas "Faith, Hope And Love" e "When I Was Young", onde temos o lado bluseiro cheio de melodias de John Corabi. Belíssimas canções, inclusive "When I Was Young" poderia facilmente figurar em alguma trilha sonora cinematográfica de Cameron Crowe (responsável pelos sucessos "Quase Famosos" e "Jerry Maguire").

Apesar de um álbum competente e bem produzido, as canções são bem genéricas, com uma passagem ou outra que chamam mais a atenção. É uma obra nostálgica, como o próprio músico já adiantou, que nos traz "conforto" em momentos onde tudo vira caos. Simplesmente é a alma de John sendo compartilhada conosco, sem muita pretensão. Ainda temos algumas já conhecidas, como "Così Bella" de 2021 e "Your Own Worst Enemy" de 2022, para dar o toque final nesta obra que mostra a competência e talento de quem fez e faz parte da história do rock, e nem sempre esteve nos holofotes.

Por fim, destaque para a última canção "Everyday People" pelo ritmo e a ótima letra, que conseguiu fechar bem a obra, destilando um tom de homenagem aos rockeiros de plantão. Um disco para se ter na prateleira, na playlist de viagens e nos momentos em que precisamos "voltar às raízes".

Jeff Fasano


terça-feira, 31 de março de 2026

Exodus: morno e esquecível

Por: Renato Sanson 

O retorno de Rob Dukes ao Exodus carregava um peso simbólico enorme, não apenas pela nostalgia, mas pela energia brutal que marcou sua primeira passagem pela banda. E é justamente aí que mora a grande frustração de "Goliath": um álbum que tinha tudo para ser um renascimento agressivo, mas acaba soando apático, previsível e, em muitos momentos, surpreendentemente sem identidade.

Desde o anúncio, impulsionado pelas declarações de Gary Holt de que este seria “um disco feito para nós, não para os fãs”, já existia um certo receio. O problema é que, ao ouvir o resultado final, essa frase deixa de soar como uma provocação artística e passa a parecer um aviso ignorado. Falta justamente aquilo que sempre definiu o Exodus: urgência, riffs memoráveis e aquela sensação constante de perigo iminente.

Rob Dukes, que em álbuns como "The Atrocity Exhibition... Exhibit A" e "Exhibit B: The Human Condition" havia se consolidado como um sucessor à altura ou até mesmo o verdadeiro herdeiro do espírito de Paul Baloff, aqui parece subaproveitado. Sua performance continua potente, carregada de agressividade, mas engessada por composições que não acompanham sua intensidade. É quase como ver um motor de alta performance preso a uma carroceria que não responde.

A comparação com "Force of Habit" (92), infelizmente, não é exagero. Assim como naquele controverso lançamento dos anos 90, Goliath flerta com uma abordagem diferente, menos inspirada, menos visceral e paga o preço por isso. A tentativa de explorar novas nuances acaba resultando em faixas arrastadas e pouco memoráveis, que dificilmente sobreviverão ao teste do tempo dentro de um catálogo tão respeitado.

Se Steve Souza havia recolocado a banda nos trilhos com dois discos sólidos, reacendendo a chama do Thrash clássico, o retorno de Dukes, que deveria elevar ainda mais o nível acaba soando como um passo em falso. A expectativa era de algo avassalador, mas o que se entrega é um trabalho morno, que raramente empolga.

Nem mesmo o aspecto visual ajuda: a capa, pouco inspirada, parece refletir exatamente o conteúdo do álbum. Genérico, sem impacto e distante da força estética que o Exodus já apresentou em outros momentos da carreira.

No fim, Goliath não é um desastre completo, mas talvez seja ainda mais frustrante por isso: é um disco que tinha potencial para ser gigante como o nome sugere e termina apenas esquecível.