quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Sha-Boom: Oitenta, Noventa e Sempre (Also In English)

Silver Lining Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Formado em Estocolmo em 1987, o Sha-Boom rapidamente se tornou um dos nomes de destaque do hard rock melódico escandinavo, chegando ao topo das paradas na Suécia e na Noruega com “R.O.C.K.”. Após mais de duas décadas afastado dos holofotes, o grupo retorna liderado por Dag Finn com Another Nail In The Coffin, um álbum que resgata o espírito festivo e melódico do rock dos anos 1980 sem abrir mão de uma produção contemporânea. Grandes refrãos, guitarras, teclados e generosas camadas de backing vocals formam a base de um disco que entende perfeitamente que nostalgia não precisa significar falta de vitalidade.

“Never Stop” estabelece imediatamente essa proposta. A faixa é uma explosão de AOR e hard rock melódico, sustentada por guitarras marcantes, teclados, bateria e baixo sólidos e, sobretudo, por um refrão construído para permanecer na cabeça. A sonoridade remete diretamente aos anos 1980, mas a produção de Erik Mårtensson dá peso e definição ao conjunto, evitando que o material soe como uma simples reprodução de uma época.

A faixa-título mantém essa identidade, mas amplia o espectro sonoro com um uso particularmente interessante do piano e uma pegada que remete ao hard rock clássico britânico. É justamente nessa combinação entre referências conhecidas e pequenos acréscimos de textura que o álbum encontra sua personalidade. Walk (Far Away) segue por caminho semelhante, com melodias acessíveis, mudanças de cadência e backing vocals que transformam o refrão em um daqueles momentos que parecem concebidos para serem cantados por uma plateia inteira.

Apesar da predominância do hard rock, Another Nail In The Coffin não funciona em velocidade constante. The Sun, The Moon, The Stars reduz o andamento e introduz uma atmosfera quase mística através de violões, teclados e uma interpretação mais contida de Dag Finn. A guitarra de Erik Mårtensson ganha espaço, enquanto as dobras vocais reforçam o caráter melódico da composição. Já Out of Control mergulha de vez na tradição das power ballads, com guitarra limpa, teclados e uma profusão de harmonias vocais que inevitavelmente remete à escola do Def Leppard.

Esse equilíbrio entre faixas mais aceleradas e momentos cadenciados é importante para que o álbum não se torne previsível. Let's Go (88) abraça sem vergonha os clichês mais clássicos do hard rock oitentista, mas o faz com competência e, principalmente, com boas melodias. Farewell, Goodbye aposta novamente em um refrão de arena, enquanto Back on the Streets introduz um groove ligeiramente diferente, com destaque para a bateria de Thomas Broman. Mesmo trabalhando dentro de uma fórmula bastante definida, o Sha-Boom consegue variar arranjos e dinâmicas o suficiente para manter o interesse.

As duas baladas do álbum também desempenham um papel importante nesse equilíbrio. A Million Miles Away aposta em uma construção mais emocional, combinando guitarra acústica e instrumentação tradicional do grupo. Dag Finn evita excessos e trabalha em registros médios, crescendo apenas quando a música exige, enquanto os backing vocals ampliam o impacto emocional. É uma abordagem que privilegia a melodia em vez do virtuosismo — exatamente como boa parte dos grandes nomes do gênero fazia em seu auge.

One More Drink for the Road leva a celebração para um território mais próximo do hard rock americano e ainda conta com a participação de Linnéa Vikström, vocalista do Thundermother. A presença da cantora acrescenta uma nova dimensão à faixa, que também se destaca pelo baixo de Erik Mårtensson e pelo piano de Jonas Öijvall. O resultado é provavelmente um dos momentos mais descontraídos do disco, com um refrão construído para transformar qualquer ambiente em uma festa.

E o Sha-Boom não poderia encerrar o álbum de outra maneira. Emergency! retoma a energia apresentada desde os primeiros acordes e fecha o trabalho com um hard rock direto, melódico e carregado de coros. Instrumentalmente equilibrada e conduzida por mais uma performance segura de Dag Finn, a faixa deixa a impressão de que o grupo poderia continuar por mais algumas músicas.

É justamente aí que reside o maior mérito de Another Nail In The Coffin. O Sha-Boom não tenta reinventar o hard rock melódico, tampouco esconde suas referências. Ao contrário: abraça deliberadamente tudo aquilo que tornou o gênero tão popular nos anos 1980 — grandes refrãos, harmonias vocais, teclados, guitarras, melodias imediatas e uma dose generosa de diversão. A diferença está na execução. O material é suficientemente bem arranjado e produzido para evitar que a nostalgia se transforme em mera caricatura.

Com Dag Finn novamente à frente, o Sha-Boom retorna sem pedir licença e sem qualquer necessidade de justificar sua própria existência. Another Nail In The Coffin é um disco de hard rock feito para ser ouvido com o volume alto, cantado junto e, acima de tudo, apreciado pelo que é: uma celebração sincera de uma estética que a banda conhece profundamente. Em um gênero no qual a linha entre homenagem e repetição pode ser bastante tênue, o Sha-Boom encontra o equilíbrio certo. Um retorno convincente e, certamente, um dos lançamentos mais agradáveis do hard rock melódico em 2026.


***ENGLISH VERSION***

Formed in Stockholm in 1987, Sha-Boom quickly established themselves as one of the leading names in Scandinavian melodic hard rock, reaching the top of the charts in Sweden and Norway with “R.O.C.K.”. After more than two decades away from the spotlight, the band returns under the leadership of Dag Finn with Another Nail In The Coffin, an album that revives the festive, melodic spirit of 1980s rock without sacrificing contemporary production. Big choruses, guitars, keyboards and generous layers of backing vocals form the foundation of a record that understands perfectly that nostalgia does not have to mean a lack of vitality.

“Never Stop” immediately establishes that approach. The track is an explosion of AOR and melodic hard rock, driven by punchy guitars, solid keyboards, drums and bass and, above all, a chorus designed to stick in your head. Its sound points directly back to the 1980s, but Erik Mårtensson’s production gives the material weight and definition, preventing it from sounding like a simple recreation of a bygone era.

The title track maintains that identity while broadening the sonic palette with particularly effective use of piano and a feel that recalls classic British hard rock. It is precisely in this combination of familiar references and subtle additions of texture that the album finds its personality. Walk (Far Away) follows a similar path, with accessible melodies, changes in cadence and backing vocals that turn the chorus into one of those moments seemingly designed to be sung by an entire crowd.

Despite the dominance of hard rock, Another Nail In The Coffin never runs at a single speed. The Sun, The Moon, The Stars slows the pace and introduces an almost mystical atmosphere through acoustic guitars, keyboards and a more restrained performance from Dag Finn. Erik Mårtensson’s guitar work takes center stage, while the vocal harmonies reinforce the song’s melodic character. Out of Control, meanwhile, dives headfirst into the tradition of the power ballad, combining clean guitar, keyboards and layers of vocal harmonies that inevitably recall the Def Leppard school.

This balance between faster tracks and more laid-back moments is essential in preventing the album from becoming predictable. Let's Go (88) unapologetically embraces the classic clichés of 1980s hard rock, but does so with skill and, most importantly, strong melodies. Farewell, Goodbye once again goes for an arena-sized chorus, while Back on the Streets introduces a slightly different groove, with Thomas Broman’s drumming standing out. Even while working within a clearly defined formula, Sha-Boom varies the arrangements and dynamics enough to keep the listener engaged.

The album’s two ballads also play an important role in maintaining that balance. A Million Miles Away takes a more emotional approach, combining acoustic guitar with the band’s traditional instrumentation. Dag Finn avoids overplaying his hand, remaining largely in the mid-range and rising only when the song demands it, while the backing vocals enhance its emotional impact. It is an approach that puts melody ahead of virtuosity — exactly as many of the genre’s greatest names did at its peak.

One More Drink for the Road takes the celebration into more distinctly American hard rock territory and features Linnéa Vikström, vocalist of Thundermother. Her presence adds another dimension to the track, which also stands out for Erik Mårtensson’s bass work and Jonas Öijvall’s piano. The result is arguably one of the album’s most carefree moments, with a chorus seemingly designed to turn any room into a party.

And Sha-Boom could hardly have ended the album any other way. Emergency! brings back the energy established from the opening moments and closes the record with direct, melodic hard rock packed with powerful vocal harmonies. Instrumentally balanced and driven by another confident performance from Dag Finn, the track leaves you wishing the album had a few more songs.

That is ultimately the greatest strength of Another Nail In The Coffin. Sha-Boom are not trying to reinvent melodic hard rock, nor are they hiding their influences. Instead, they openly embrace everything that made the genre so popular in the 1980s — huge choruses, vocal harmonies, keyboards, guitars, immediate melodies and a generous dose of fun. The difference lies in the execution. The material is arranged and produced with enough care to prevent nostalgia from turning into mere caricature.

With Dag Finn back at the helm, Sha-Boom return without asking permission and with no need to justify their existence. Another Nail In The Coffin is a hard rock record made to be played loud, sung along to and, above all, enjoyed for what it is: a sincere celebration of an aesthetic the band knows inside out. In a genre where the line between homage and repetition can be a very fine one, Sha-Boom strike the right balance. A convincing comeback and, undoubtedly, one of the most enjoyable melodic hard rock releases of 2026.

Divulgação 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Cobertura de Show: Edu Falaschi – 15/08/2026 – Tokio Marine Hall/SP

Edu Falaschi transforma o Tokio Marine Hall em uma celebração de 35 anos de história, amizade e música

Finalmente chegou o tão esperado 15 de agosto, dia de Mi’raj & The Legacy Tour. Cheguei ao Tokio Marine Hall e, antes mesmo de o show começar, a atmosfera já dava pistas do tamanho da noite que estava por vir. Na fila, pais acompanhados dos filhos, jovens, casais e grupos de amigos confraternizavam enquanto aguardavam a abertura da casa. Lá dentro, a mesma sensação continuava. Entre encontros com amigos da vida e da imprensa, rostos familiares e alguns ídolos que eu jamais imaginaria encontrar naquele espaço, fui percebendo que aquela seria uma noite marcada por encontros. E o espetáculo sequer havia começado.

Fui para a frente do palco a tempo de acompanhar o show de Tito Falaschi. Multi-instrumentista, cantor, produtor e irmão de Edu, Tito carrega em sua trajetória parte importante das raízes que conduziram aquela noite. Foi baixista e vocalista do Symbols, dividindo os vocais com Edu nos primeiros anos da banda, além de ter participado de projetos como Almah e Soulspell Metal Opera e construído, ao longo dos anos, um trabalho próprio. Sua apresentação funcionou como uma espécie de ponto de partida para a retrospectiva que viria a seguir. Havia peso, técnica e uma familiaridade evidente com aquele público, enquanto sua presença já colocava em perspectiva o quanto a história dos irmãos Falaschi está ligada a diferentes capítulos do metal brasileiro.

Quando Edu entrou no palco, o espetáculo assumiu outra dimensão. A cenografia já anunciava que aquela seria uma apresentação pensada para além da execução das músicas: ao fundo, elementos diretamente relacionados ao universo de MI’RAJ, acompanhados por duas imponentes figuras de soldados, criavam uma atmosfera de batalha e jornada. O cenário ajudava a transportar o público para dentro da narrativa do álbum, capítulo final da trilogia iniciada em Vera Cruz (2021) e continuada em Eldorado (2023), concebida por Edu em parceria com o artista e escritor Fábio Caldeira. A trajetória de Jorge chega ao Oriente Médio em MI’RAJ e, nesse encerramento, a jornada externa começa a dar espaço para um processo de descoberta interior.

Essa ideia também está presente na identidade visual do disco. A capa criada por Carlos Fides coloca a Vidente no centro da composição, guardiã do Portal dos Doze Véus e responsável por conduzir Jorge durante sua travessia pelo deserto. O azul profundo, o dourado, a presença de Órion e o contraste entre luz e sombra traduzem visualmente o conflito entre as forças da Ordem de Cristo e da Cruz de Nero, ao mesmo tempo em que representam a batalha interna que conduz a narrativa até seu desfecho. No palco, essa estética ganhava uma dimensão física e ajudava a transformar o espetáculo em uma extensão da própria obra.

Edu apareceu acompanhado por uma banda extremamente coesa, formada por Victor Franco e Diogo Mafra nas guitarras, Raphael Dafras no baixo, Jean Gardinalli na bateria e Fábio Laguna nos teclados. A formação mostrou segurança para atravessar as diferentes linguagens presentes no repertório, passando pelo power metal e pelo progressivo, pelas atmosferas cinematográficas e pelos elementos étnicos que fazem parte da identidade de MI’RAJ. Entre os guitarristas, Victor Franco merece destaque especial. Se sua técnica já chama atenção em estúdio, ao vivo ela ganha ainda mais força justamente pela maneira como é utilizada. Victor não precisa transformar cada passagem em uma demonstração de velocidade para se destacar. Existe preocupação com construção melódica, escolha de timbres e musicalidade, características que fazem sentido quando lembramos que o próprio Edu já o definiu como um músico de extremo bom gosto e um verdadeiro gênio.

“Watchers of the Light” abriu a apresentação colocando imediatamente o público dentro da atmosfera de MI’RAJ. A entrada de “Ego Painted Grey”, do Angra, logo depois, mudou a perspectiva e deixou claro que o espetáculo seria construído em camadas, alternando o presente da carreira solo com diferentes períodos da trajetória de Edu. “Eyes in Flames”, do Symbols, foi um dos primeiros momentos realmente especiais. Ao lado de Tito Falaschi e Demian Tiguez, Edu revisitou uma parte muito anterior de sua história, reunindo no mesmo palco três músicos ligados a um capítulo iniciado ainda nos anos 1990. A força daquele encontro estava justamente na passagem do tempo: décadas depois, aquela formação voltava a se encontrar diante de milhares de pessoas.

O repertório seguiu por “Echoes of Vows”, “Running Alone”, do Angra, “Eyes of Time”, do Mitrium, e “Lease of Life”, costurando diferentes fases da carreira. A proposta da turnê era atravessar 35 anos de trajetória, e o setlist cumpriu essa missão com uma quantidade impressionante de referências. Em “The Ancestry”, Thiago Bianchi apareceu para acrescentar mais um capítulo a essa retrospectiva. Além de parceiro de longa data de Edu, Bianchi esteve diretamente envolvido na produção de MI’RAJ, realizado no Fusão Estúdio, repetindo a parceria iniciada em Vera Cruz.

“Unchained” trouxe Wagner Barbosa ao palco com o saxofone e também rendeu uma das brincadeiras mais inesperadas da noite. Antes de a música começar, um pequeno trecho de “Careless Whisper” foi suficiente para arrancar gritos e risadas do público. A referência funcionou como uma espécie de provocação antes de a banda mergulhar novamente na música, e quando o sax entrou de fato em “Unchained”, a atmosfera mudou completamente. O instrumento acrescentou uma camada diferente à composição e reforçou justamente uma das características mais interessantes de MI’RAJ, a disposição de Edu em incorporar elementos progressivos e soluções harmônicas menos convencionais ao power metal que sustenta boa parte de sua carreira solo.

“A Monster in Her Eyes” e “Arising Thunder”, do Angra, mantiveram a apresentação em alta velocidade até a chegada de Fábio Caldeira para “Land Ahoy” e “Eldorado”. A participação de Caldeira talvez seja uma das mais importantes para compreender a própria existência da trilogia. Vocalista, pianista, compositor e integrante do Maestrick, ele desenvolveu ao lado de Edu o universo literário que sustenta a saga de Jorge e chegou a escrever o livro de Vera Cruz. Sua entrada no palco carregava, portanto, uma dimensão quase metalinguística: o artista que ajudou a construir aquela narrativa estava agora interpretando parte dela diante do público.

Depois de “The Voice Commanding You”, Fernando Anitelli trouxe uma mudança completa de textura para o espetáculo. “Sintaxe à Vontade” e “Da Luta”, de O Teatro Mágico, ganharam uma interpretação solo do cantor, que ocupou o palco com uma linguagem baseada muito mais na palavra, na poesia e na teatralidade. A participação poderia parecer improvável em uma noite construída em torno do heavy metal, mas funcionou justamente porque existe uma aproximação conceitual entre os dois artistas. Edu e Anitelli construíram universos próprios em torno de suas obras e compreendem a música como narrativa e experiência. 

Edu então assumiu sozinho o palco para “Eternamente Azul”, versão brasileira de “Blue Forever”, do universo de Os Cavaleiros do Zodíaco. Foi um dos momentos mais afetivos da apresentação justamente pela simplicidade. Sem a banda completa ou uma grande estrutura cenográfica, a música colocou a voz de Edu em primeiro plano e acionou imediatamente a memória de uma geração que cresceu ouvindo seu trabalho também através da televisão. Sua relação com Saint Seiya é uma parte importante de sua trajetória e inclui ainda a versão brasileira de “Pegasus Fantasy”, que apareceria novamente mais adiante no setlist.

“Intuição” trouxe um dos momentos mais simbólicos da noite. Fernando Anitelli, Rafael Bittencourt e Tiago Mineiro se juntaram a Edu para executar a primeira música inédita do cantor em português em 24 anos. A escolha dos convidados já tornava a apresentação especial, mas o momento ganhou outra dimensão quando Edu e Rafael se abraçaram no palco. Não havia necessidade de transformar aquele gesto em discurso. Depois de tantos anos e de tantas mudanças na trajetória de ambos, ver os dois compartilhando novamente aquele espaço dizia bastante sobre o momento vivido pelo espetáculo e sobre a maneira como Edu decidiu olhar para sua própria história.

Na sequência, “Birds of Prey”, do Almah, recebeu Felipe Andreoli, outro músico diretamente ligado à trajetória de Edu. Felipe integrou o Angra durante o período em que Edu ocupava os vocais da banda, e sua presença funcionou como mais uma ponte entre diferentes momentos da carreira. Tecnicamente, Andreoli continua impressionante. Seu baixo se encaixou com precisão na banda, preenchendo os espaços e conversando com a bateria e as guitarras sem perder personalidade.

“Bleeding Heart” trouxe um dos momentos mais espontâneos da apresentação. Edu surpreendeu ao inserir no refrão um trecho da versão feita pelo Calcinha Preta para a música, e a resposta do público foi imediata. Quando os primeiros versos foram entoados, o Tokio Marine Hall inteiro cantou a plenos pulmões, transformando a música em um daqueles momentos coletivos que dificilmente podem ser reproduzidos fora de um show. A cena também dizia muito sobre a longevidade da composição e sobre a maneira como ela ultrapassou o próprio contexto em que foi originalmente lançada.

Veronica Bordacchini foi a convidada seguinte. Em “Spread Your Fire”, a soprano italiana, conhecida mundialmente por seu trabalho no Fleshgod Apocalypse, acrescentou uma dimensão operística à apresentação. Sua voz possui projeção suficiente para ocupar o espaço sem desaparecer diante da banda, característica essencial para uma música que exige justamente esse contraste entre força instrumental e interpretação lírica. Em “Ode to Art (de’ Sepolcri)”, Veronica permaneceu sozinha no palco e teve espaço para demonstrar toda essa potência vocal. Quando voltou ao lado de Edu para “Mi’raj”, o encontro entre os dois timbres produziu um dos momentos mais grandiosos da noite.

Pouco depois, Dino Jelusick entrou em cena. O croata construiu uma carreira que passa por Animal Drive, Trans-Siberian Orchestra, Whom Gods Destroy e Whitesnake, além de ter começado profissionalmente ainda criança e vencido a primeira edição do Junior Eurovision Song Contest. Em 2021, foi convidado por David Coverdale para integrar o Whitesnake. Em “Heroes of Sand”, sua participação ao lado de Edu mostrou imediatamente por que sua voz se encaixava tão bem naquele repertório. Dino possui potência, alcance e uma identidade vocal muito própria, mas também demonstra facilidade para transitar entre diferentes estilos. Em “Stand Up and Shout”, do Dio, essa característica ficou especialmente evidente, enquanto “Here I Go Again”, do Whitesnake, acrescentou uma camada simbólica à participação, considerando sua própria passagem pela banda.

“Pegasus Fantasy” trouxe novamente o universo de Os Cavaleiros do Zodíaco para o centro da apresentação, mas dessa vez de maneira completamente coletiva. O público assumiu a música com uma familiaridade impressionante, transformando a execução em um dos grandes momentos de participação da noite. Depois de tantas músicas ligadas à trajetória do próprio Edu, era interessante perceber como aquela canção também havia se tornado parte da memória de quem estava do outro lado do palco.

Ainda faltava, porém, um dos reencontros mais importantes da noite. “Rebirth” começou e, pouco depois, Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli voltaram ao palco. Edu, Rafael e Felipe reunidos novamente para tocar Angra. A imagem carregava um peso histórico evidente. Os três músicos pertencem a um período fundamental da trajetória da banda e do próprio metal brasileiro, e vê-los novamente juntos era uma oportunidade rara de observar, no mesmo espaço, diferentes capítulos de uma história que ajudou a formar gerações de músicos e fãs.

Quando “Nova Era” veio na sequência, essa dimensão ficou ainda mais clara. A música pertence a um repertório que ultrapassou as fronteiras do Brasil e se tornou referência para uma geração inteira de músicos de metal. Ao longo das quase três horas de show, ficou evidente que ele não estava tentando reconstruir o passado exatamente como ele foi. A própria estrutura da apresentação mostrava outra intenção. Antigos companheiros dividiam espaço com músicos de gerações mais recentes; músicas do Angra apareciam ao lado de composições de MI’RAJ; referências ao Symbols conviviam com O Teatro Mágico, Fleshgod Apocalypse, Dio, Whitesnake e Cavaleiros do Zodíaco. O passado aparecia o tempo todo, mas sempre reorganizado a partir do artista que Edu é hoje.

Essa disposição também aparecia na própria postura do cantor. Edu passou o show inteiro em movimento, correndo pelo palco, interagindo com a plateia, brincando com os músicos e mantendo uma energia impressionante mesmo diante de um repertório extenso e fisicamente exigente. Não havia a sensação de alguém cumprindo uma obrigação comemorativa, pelo contrário, havia prazer evidente em revisitar aquelas músicas e dividir o palco com pessoas que fizeram parte de diferentes momentos de sua vida profissional.

Ao deixar o Tokio Marine Hall, a impressão que ficou foi a de ter acompanhado uma celebração de carreira construída a partir de encontros reais. Havia nostalgia, evidentemente, mas também havia espaço para o presente e para aquilo que ainda está sendo construído. Edu revisitou músicas fundamentais de sua trajetória, reencontrou músicos que fizeram parte dela, apresentou ao público uma formação atual extremamente competente e mostrou que seu legado não está restrito a um período específico.

Talvez seja justamente aí que esteja a força de The Legacy Tour. O espetáculo olha para trás sem transformar o passado em uma prisão. As histórias continuam sendo revisitadas, mas agora convivem com novas parcerias, novas músicas e novas possibilidades. No palco do Tokio Marine Hall, 35 anos de carreira foram apresentados como uma obra ainda em movimento. E, depois de quase três horas, a sensação era de que aquela história ainda está longe de terminar.

E que sorte a nossa por isso!


Texto: Stephanie Ferreira

Fotos: Roberto Sant'Anna


Realização: Agência Artística 

Press: TRM Press


Edu Falaschi – setlist:

Watchers of the Light

Ego Painted Grey

Eyes in Flames

Echoes of Vows

Running Alone

Eyes of Time

Lease of Life

The Ancestry

Unchained

A Monster in Her Eyes

Leaving the Light

Arising Thunder

Land Ahoy / Eldorado

The Voice Commanding You

Sintaxe à vontade / Da luta

Intuição

Birds of Prey

Bleeding Heart

Spread Your Fire

Ode to Art (de' Sepolcri)

Mi'raj

Heroes of Sand

Stand Up and Shout (Dio cover) 

Here I Go Again (Whitesnake cover) 

Pegasus Fantasy

Rebirth

Nova Era

Neon Rider: A Chama do AOR (Also In English)

Pride And Joy Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Formado em Buenos Aires em 2020, o Neon Rider surgiu como um projeto dedicado ao AOR e ao hard rock melódico dos anos 1980. Depois de Destination Unknown (2024), a banda retorna em 2026 com uma nova configuração: Marcos Nieva Green assume os vocais, enquanto Hernan Cattaneo permanece como único guitarrista. O resultado é um trabalho que aposta sem reservas na tradição do gênero, combinando riffs vigorosos, melodias grandiosas e refrãos épicos com uma produção contemporânea.

Drowning In Shallow abre o álbum sem rodeios, com a guitarra estabelecendo a base para baixo e bateria, enquanto os teclados acrescentam a camada melódica característica do AOR. O refrão, reforçado por vocais dobrados, amplia a dimensão melódica da faixa e deixa evidente, desde os primeiros minutos, a devoção do Neon Rider aos grandes nomes do gênero.

O primeiro single do álbum segue exatamente essa cartilha. A faixa combina uma cozinha rítmica sólida com guitarras e teclados que se alternam na construção das melodias, enquanto os vocais limpos ganham força com backing vocals especialmente eficazes no refrão. É AOR clássico em sua essência, mas executado com segurança e uma produção que procura atualizar a fórmula. Curiosamente, a ficha técnica fornecida pela gravadora não identifica o responsável pelos teclados.

Helluva Ride começa com uma breve introdução de teclados antes de desembocar em uma condução cadenciada, mais próxima do hard rock. Os backing vocals novamente desempenham papel importante, sobretudo no refrão, construído para ser imediatamente assimilado. Após três faixas, a identidade do Neon Rider já está completamente estabelecida: não há dúvidas sobre o território musical que a banda pretende explorar.

Em Drifting, a viagem aos anos 1980 se torna ainda mais evidente. A sonoridade é imediatamente reconhecível e, dentro da proposta do grupo, isso está longe de ser um problema. A faixa é direta, sem excessos, com a guitarra sustentando a base e deixando espaço para um refrão marcado pelas belas dobras vocais. As linhas melódicas de Marcos Nieva Green são um dos pontos altos, especialmente quando sua voz ligeiramente rouca acrescenta personalidade à interpretação.

Para quem não viveu a época em que o rádio era um dos principais veículos de divulgação da música, uma canção sobre o próprio rádio pode parecer um conceito distante. Pump Up The Radio, porém, abraça justamente essa nostalgia. A faixa funciona como um pequeno tributo à cultura radiofônica dos anos 1980, utilizando uma estrutura AOR tradicional, backing vocals bem encaixados e um refrão de fácil assimilação.

Waiting For My Call mantém a veia melódica e confirma a consistência da proposta. Cadenciada e com cada instrumento claramente definido na mixagem, a faixa chama atenção pela variedade dos backing vocals, que introduzem novas texturas sem romper a unidade sonora do álbum. Guitarras e teclados são utilizados de maneira particularmente eficiente, complementando-se em vez de disputar espaço.

A faixa-título, Keepers Of The Flame, chega introduzida por guitarra e voz, enquanto um timbre ligeiramente mais sujo cria uma atmosfera quase misteriosa. O contraste desemboca em um refrão no qual a melodia vocal assume o protagonismo, novamente reforçada por backing vocals bem posicionados. A cadência típica do gênero permanece intacta, com cada instrumento cumprindo uma função precisa. Hernan Cattaneo entrega um solo essencialmente melódico, mas acrescenta uma breve passagem shred que amplia sua intensidade sem comprometer a característica acessível da composição.

Heading To The Line apresenta uma abertura particularmente interessante, com a bateria ganhando destaque inclusive na mixagem. Guitarra e baixo entram posteriormente para completar os versos e conduzir a música ao refrão, desta vez com backing vocals que se diferenciam do restante do álbum. Os momentos em que voz e bateria assumem o primeiro plano acrescentam uma camada adicional de dinâmica e complexidade à faixa.

Uma bela passagem de guitarra introduz Those Times Are Now Over, que começa de maneira quase épica, apoiada por teclados e percussão. A faixa se encaixa naturalmente no universo AOR, mas sua construção consegue acrescentar uma nova dimensão ao álbum. O teclado ganha protagonismo na transição para o refrão e, em determinados momentos, chega a dominar completamente o arranjo. O refrão é direto, sem excesso de ornamentação vocal, enquanto uma bela virada de bateria ajuda a conduzir a música.

Dominoes coloca guitarra e teclados lado a lado, tanto na base quanto nas linhas melódicas. Não há propriamente uma disputa pelo protagonismo, mas um diálogo eficiente entre os dois instrumentos. O refrão é novamente bastante melódico e, embora utilize poucos backing vocals, possui uma melodia suficientemente forte para permanecer na cabeça do ouvinte. As mudanças de andamento também ajudam a manter o interesse, enquanto guitarra e teclado continuam dialogando durante o solo, com o segundo reforçando e dobrando algumas das linhas de Cattaneo.

Jukebox Anthem é, como o próprio título sugere, um verdadeiro hino hard rock/AOR. A introdução evoca diferentes referências do gênero, mas o Neon Rider consegue imprimir sua própria dinâmica através do uso de efeitos na guitarra e nos vocais. A faixa cresce naturalmente até o refrão, sustentado por uma base de guitarra pontuada pelos teclados nos momentos certos. Os vocais dobrados reforçam a característica radiofônica da composição e conduzem a um solo bem construído sobre uma sólida cama de teclados. É uma das faixas mais completas do álbum.

Another Love Story encerra o disco sem grandes surpresas — e isso, neste caso, é coerente com a proposta. Em vez de buscar uma guinada de última hora, o Neon Rider prefere terminar reafirmando sua identidade, mergulhada na sonoridade clássica do AOR e em referências claras à década de ouro do gênero. O refrão assume contornos quase épicos, com um belo coro e outro bom trabalho de guitarra.

Keepers Of The Flame cumpre seu objetivo é mais direto: preservar a essência de uma sonoridade que teve seu auge nos anos 1980 e apresentá-la com energia, boas melodias e uma produção atual. Em alguns momentos, a produção poderia ser mais equilibrada, escondendo brevemente determinados instrumentos ou fazendo escolhas de destaque que certamente não serão consensuais. No conjunto, porém, o Neon Rider entrega um álbum sólido, coeso e, acima de tudo, honesto em sua proposta. Para quem ainda mantém acesa a chama do AOR clássico, Keepers Of The Flame tem combustível de sobra.


***ENGLISH VERSION***

Formed in Buenos Aires in 2020, Neon Rider began as a project dedicated to the AOR and melodic hard rock of the 1980s. Following Destination Unknown (2024), the band returns in 2026 with a new configuration: Marcos Nieva Green takes over on vocals, while Hernan Cattaneo remains the sole guitarist. The result is an album that wholeheartedly embraces the genre’s traditions, combining powerful riffs, soaring melodies and epic choruses with contemporary production.

Drowning In Shallow opens the album without hesitation, with guitar laying down the foundation for bass and drums, while keyboards provide the melodic layer so characteristic of AOR. Reinforced by doubled vocals, the chorus expands the song’s melodic dimension and makes Neon Rider’s devotion to the genre’s greats clear from the very first minutes.

The album’s first single follows the same blueprint. The track combines a solid rhythm section with guitars and keyboards alternating in the construction of its melodies, while the clean vocals gain strength from particularly effective backing vocals in the chorus. This is classic AOR at its core, performed with confidence and given a production that seeks to bring the formula into the present. Interestingly, the credits supplied by the record label do not identify the keyboard player.

Helluva Ride begins with a brief keyboard introduction before settling into a measured groove that leans more toward hard rock. Once again, the backing vocals play an important role, particularly in a chorus designed for immediate impact. After three tracks, Neon Rider’s identity is already fully established: there is no doubt about the musical territory the band intends to explore.

On Drifting, the journey back to the 1980s becomes even more apparent. Its sound is instantly recognizable and, within the band’s approach, that is by no means a problem. The track is direct and free of unnecessary embellishment, with the guitar maintaining the foundation while leaving room for a chorus marked by beautiful vocal harmonies. Marcos Nieva Green’s melodic lines are one of the highlights, particularly when his slightly raspy voice adds character to the performance.

For those who did not experience an era when radio was one of the main vehicles for music promotion, a song about radio itself might seem like a distant concept. Pump Up The Radio, however, fully embraces that nostalgia. The track works as a small tribute to 1980s radio culture, employing a traditional AOR structure, well-integrated backing vocals and an instantly accessible chorus.

Waiting For My Call maintains the melodic vein and further confirms the consistency of the band’s approach. Measured in pace, with every instrument clearly defined in the mix, the track stands out for the variety of its backing vocals, which introduce new textures without disrupting the album’s sonic unity. Guitars and keyboards are used particularly effectively, complementing rather than competing with each other.

The title track, Keepers Of The Flame, opens with guitar and vocals, while a slightly dirtier tone creates an almost mysterious atmosphere. The contrast gives way to a chorus in which the vocal melody takes center stage, once again reinforced by well-placed backing vocals. The genre’s characteristic groove remains intact, with each instrument serving a clearly defined purpose. Hernan Cattaneo delivers an essentially melodic solo, adding a brief shred passage that increases its intensity without compromising the song’s accessible character.

Heading To The Line features a particularly interesting opening, with the drums receiving prominent treatment, even in the mix. Guitar and bass enter later to complete the verses and drive the song toward the chorus, this time with backing vocals that differ from those used elsewhere on the album. The sections in which vocals and drums take center stage add another layer of dynamics and complexity to the track.

A beautiful guitar passage introduces Those Times Are Now Over, which begins on an almost epic note, supported by keyboards and percussion. The track fits naturally into the AOR universe, yet its construction manages to add another dimension to the album. Keyboards take center stage during the transition into the chorus and, at certain moments, virtually dominate the arrangement. The chorus is direct, without excessive vocal ornamentation, while a fine drum fill helps drive the song forward.

Dominoes places guitars and keyboards side by side, both in the rhythm section and in the melodic lines. There is no real battle for dominance here, but rather an effective dialogue between the two instruments. The chorus is once again highly melodic and, despite using relatively few backing vocals, has a melody strong enough to stay in the listener’s head. The changes in pace also help maintain interest, while guitar and keyboard continue their dialogue during the solo, with the latter reinforcing and doubling some of Cattaneo’s lines.

Jukebox Anthem is, as its title suggests, a genuine hard rock/AOR anthem. The introduction evokes several of the genre’s major influences, but Neon Rider establishes its own dynamic through the use of effects on both guitar and vocals. The track naturally builds toward the chorus, supported by a guitar foundation punctuated by keyboards at precisely the right moments. The doubled vocals reinforce the song’s radio-friendly character and lead into a well-constructed solo built over a solid bed of keyboards. It is one of the album’s most complete tracks.

Another Love Story closes the album without any major surprises — and in this case, that is entirely consistent with the band’s approach. Rather than attempting a last-minute change of direction, Neon Rider chooses to end by reaffirming its identity, immersed in the classic AOR sound and clear references to the genre’s golden era. The chorus takes on almost epic proportions, with a beautiful choir and another strong guitar performance.

Keepers Of The Flame fulfills its most direct objective: preserving the essence of a sound that reached its peak in the 1980s while presenting it with energy, strong melodies and contemporary production. At times, the production could be more balanced, briefly burying certain instruments or making choices about what to emphasize that will certainly not appeal to everyone. Overall, however, Neon Rider delivers a solid, cohesive album that is, above all, honest about its intentions. For those who still keep the flame of classic AOR burning, Keepers Of The Flame has plenty of fuel to spare.

Divulgação 

domingo, 16 de agosto de 2026

Forbidden: Dualidade e Continuidade na História do Thrash Bay Area (Also In English)

BLKIIBLK (Imp.)

Por Roberto Bertz

Após dois ótimos singles lançados em 2025, o Forbidden já sinalizava um disco completo, apontava que o álbum já estava pronto nesse período e começaram uma forte turnê 2025/2026 para apresentar essas músicas ao público algo novo até que pudessem lançar um full length neste ano. 

O disco é auto entitulado, são 11 faixas no total após de 16 anos do último álbum completo, “Omega Wave” de 2010, um distanciamento de 13 anos de seu antecessor  “Green” de 1997 . Talvez seja uma estratégia da banda demorar mais tempo para lançar algo e alcançar novas experiências, experimentações e colocar o público antigo com o atual nas composições, como é o caso novamente deste que está prestes a ser lançado. A começar pela ótima capa chamativa, sempre duas cores bem destacadas e logotipo clássico, trouxe aquela temática da referência na dualidade em forças opostas. 

Entrando no álbum, o Forbbiden faz jus ao DNA da banda que é começar bem o disco e abrir na pancada; “Single Point Failure” evoca a principal característica dos caras na execução do Thrash Metal no contratempo, ponto principal na composição nos anos oitenta marcado pela bateria de Paul Bostaph, hoje, assegurado por Chris Kontos aos 58 anos. O som se mantém até o final no modo “feito na escola” com riffs bem construídos, solos e técnica apurada do antológico Craig Locicero, juntamente ao novo guitarrista Jeremy Von Epp e o baixo do também veterano Matt Camacho dobrando tudo. Os vocais de Norman Skinner, já expondo o disco como todo, sobem o nível numa técnica do agressivo ao melódico, remetendo o passado quando necessário e explorando outras linhas mais agudas levando o som pra outros caminhos. Seguindo, “Burning The Lungs of Earth” continua no mesmo tom; os singles “Divided By Zero” e “Mutually Assured Dys-function” estão muito bem no disco intercaladas entre a sequência das músicas, bem posicionadas no álbum para o ouvinte ter a sensação sempre pulsante, escolhidas como carro-chefe da divulgação são pontos altos entre as melhores. Destaque também para “Psyclops” com clipe de divulgação, “Sycophantasy”, “The Burden” e fecham com a extensa  “Flower of Life (Chaos By Design)” de nove minutos.

A postura do Forbbiden de trazer novos elementos, talvez não agrade totalmente o fã das antigas, mesmo algumas músicas lembrando aquela fase espetacular dos primeiros discos. Por terem uma discografia com poucos álbuns na carreira e espaçamentos com mais de 10 anos entre eles é inquestionável a evolução por parte do processo dos músicos. A dualidade da capa justificam as músicas, fazer uma passagem do passado para o  presente e o que está por vir, sem perder a essência. Ter um disco novo em 2026 de uma banda clássica que atravessa dois séculos como Forbidden é uma vitória na história do Metal global; trazer novo público sem perder o antigo, formar novas bandas, continuarem tocando de forma hipnotizante pra darem continuidade nesse legado vem deixando ao longo dos anos. 


***ENGLISH VERSION***

After two great singles released in 2025, Forbidden had already signaled that a full-length album was on the way. The band indicated that the album was already completed by that time and embarked on a strong 2025/2026 tour to introduce these new songs to the audience, until they could finally release a full-length album this year.

The album is self-titled and features 11 tracks, arriving 16 years after the band's last full-length, Omega Wave (2010), and following a 13-year gap from its predecessor, Green (1997). Perhaps taking longer to release new material is the band's strategy for gaining new experiences, exploring different ideas, and bringing the old and current audiences together through the compositions, as is once again the case with this upcoming release. It starts with a striking cover, featuring two strongly contrasting colors and the classic logo, bringing back the theme of duality and the idea of opposing forces.

Moving into the album itself, Forbidden lives up to the band's DNA of starting strong and hitting hard from the very beginning. “Single Point Failure” evokes one of the band's main characteristics: their execution of Thrash Metal through off-beat rhythms, a key element of their songwriting in the eighties, marked by Paul Bostaph's drumming and now carried by 58-year-old Chris Kontos. The sound remains true to the end, following a classic “old-school” approach with well-crafted riffs, solos, and the refined technique of legendary guitarist Craig Locicero, alongside new guitarist Jeremy Von Epp and veteran bassist Matt Camacho, who doubles everything up. Norman Skinner's vocals, already standing out throughout the album, take things to another level, ranging from aggressive to melodic, recalling the band's past when necessary while exploring higher vocal lines and taking the sound in new directions.

Next, “Burning The Lungs of Earth” continues in the same vein. The singles “Divided By Zero” and “Mutually Assured Dysfunction” fit very well into the album, strategically placed throughout the tracklist to keep the listener's experience constantly pulsating. Chosen as the main tracks for the promotional campaign, they are among the album's highlights. Other standouts include “Psyclops”, which also received a promotional video, “Sycophantasy”, “The Burden” and the extended nine minute closer, “Flower of Life (Chaos By Design)”.

Forbidden willingness to introduce new elements may not fully satisfy longtime fans, even though some songs recall the spectacular early years of the band. Given their relatively small discography and the gaps of more than 10 years between albums, the band's musical evolution is undeniable. The duality represented on the cover reflects the music itself: a transition from the past to the present and what lies ahead, without losing its essence.

Having a new album from a classic band like Forbidden in 2026, a band whose history spans two centuries, is a victory for the global history of Metal. Bringing in a new audience without losing the old one, inspiring new bands, and continuing to perform in such a hypnotic way are all part of the legacy Forbidden has been building and carrying forward over the years.

Phil Emmerson

sábado, 15 de agosto de 2026

The Eternal: Horizontes Obscuros (Also In English)

Reigning Phoenix Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Há algo de paradoxal em Obscured Horizons. O oitavo álbum do The Eternal é, sem dúvida, uma obra mergulhada na escuridão, mas não se trata de um disco derrotista. Pelo contrário: por trás das guitarras pesadas, das atmosferas melancólicas e das paisagens progressivas existe uma insistente sensação de movimento — como se cada momento de desolação apontasse, ainda que discretamente, para algum lugar além dela.

Desde Skinwalker (2024), o The Eternal vem refinando uma identidade que combina dark metal, gothic, doom e progressivo sem permitir que nenhum desses elementos domine completamente a composição. Obscured Horizons representa um passo adiante nesse processo. A banda amplia suas dimensões sonoras, mas preserva aquilo que sempre foi seu maior trunfo: a capacidade de transformar peso em emoção.

A abertura, “Lament For The Hollow”, estabelece imediatamente o tom. Não há pressa em revelar todas as cartas. O The Eternal constrói tensão através de camadas de guitarras, atmosferas densas e da interpretação de Mark Kelson, cuja voz continua sendo um dos elementos mais reconhecíveis da banda. “Existing To Expire” aprofunda essa sensação, equilibrando melancolia e intensidade em uma composição que sintetiza bem a proposta do álbum.

“Colours Fade” acrescenta outra dimensão ao disco. A música começa de maneira mais contemplativa antes de ganhar corpo, mostrando que o The Eternal entende dinâmica como algo mais importante do que simplesmente alternar momentos pesados e suaves. A banda trabalha com espaços, texturas e mudanças graduais, criando uma sensação quase cinematográfica.

Mas é justamente quando o grupo abandona parte desse controle que Obscured Horizons se torna mais interessante. “Liminality” surge como um dos momentos de maior impacto, introduzindo guitarras mais agressivas e vocais que acrescentam uma dose de brutalidade ao repertório. É uma faixa que quebra a previsibilidade e demonstra que o The Eternal ainda possui algumas cartas escondidas na manga.

A faixa-título mantém a densidade característica do álbum, enquanto “Yesterday’s Gone” expande sua dimensão progressiva. Aqui, a banda parece menos preocupada em criar um single imediato e mais interessada em desenvolver uma narrativa musical. O resultado é um disco que recompensa a audição integral — algo cada vez menos comum em uma época dominada pela lógica das faixas isoladas.

No centro de tudo está Mark Kelson. Sua interpretação raramente busca o exibicionismo; sua força está justamente na capacidade de transmitir vulnerabilidade sem transformar a música em melodrama. As guitarras de Kelson e Richie Poate, por sua vez, funcionam tanto como instrumento de peso quanto como elemento atmosférico, enquanto Niclas Etelävuori e Jan Rechberger fornecem uma base suficientemente sólida para que as composições possam respirar e evoluir.

É importante, entretanto, não confundir sofisticação com reinvenção. Obscured Horizons não representa uma ruptura radical com o passado do The Eternal. Grande parte de sua força está justamente no aperfeiçoamento de uma fórmula que a banda vem desenvolvendo há anos. A diferença é que agora ela parece mais segura de como utilizar seus diferentes componentes.

O álbum também se beneficia de sua coerência temática. A ideia de enfrentar desilusão, identidade fragmentada e a dificuldade de distinguir realidade e ilusão atravessa as composições sem transformar o disco em um manifesto conceitual excessivamente explícito. A escuridão está presente, mas não existe uma glorificação da própria decadência. Há sempre uma possibilidade de saída.

E é essa perspectiva que impede Obscured Horizons de se transformar em mais um exercício previsível de melancolia. O The Eternal entende que tristeza e esperança não são necessariamente opostos. Em sua música, elas coexistem.

“Awaken”, responsável por encerrar o álbum, resume essa trajetória. Depois de atravessar nove faixas marcadas por conflitos internos, peso e introspecção, o The Eternal não oferece uma conclusão triunfalista. O despertar sugerido pelo título é mais humano do que épico: não significa eliminar a escuridão, mas finalmente aprender a enxergar através dela.

Se Skinwalker marcou o início de uma nova fase e Celestial serviu como uma expansão dessa identidade, Obscured Horizons soa como o momento em que essas experiências finalmente encontram uma forma mais madura. Não é necessariamente o álbum mais pesado ou mais progressivo da carreira do The Eternal — e talvez nem precise ser. Sua ambição está em outro lugar: criar uma obra emocionalmente consistente, capaz de transformar atmosferas sombrias em uma narrativa sobre sobrevivência, consciência e renovação.

O horizonte pode estar obscurecido. Mas, para o The Eternal, isso não significa que tenha deixado de existir.


***ENGLISH VERSION***

There is something paradoxical about Obscured Horizons. The Eternal’s eighth album is undoubtedly a work immersed in darkness, but it is by no means a defeatist record. Quite the opposite: behind the heavy guitars, melancholic atmospheres and progressive landscapes lies a persistent sense of movement — as if every moment of desolation, however subtly, were pointing towards somewhere beyond it.

Since Skinwalker (2024), The Eternal have been refining an identity that combines dark metal, gothic, doom and progressive elements without allowing any one of them to completely dominate the compositions. 

Obscured Horizons represents another step forward in that process. The band expands its sonic dimensions while preserving what has always been its greatest strength: the ability to transform heaviness into emotion.

The opening track, “Lament For The Hollow”, immediately establishes the tone. There is no rush to reveal all the cards. The Eternal builds tension through layers of guitars, dense atmospheres and Mark Kelson’s performance, his voice remaining one of the band’s most recognisable features. “Existing To Expire” deepens that feeling, balancing melancholy and intensity in a composition that effectively encapsulates the album’s overall approach.

“Colours Fade” adds another dimension to the record. The song begins in a more contemplative fashion before gradually gaining weight, demonstrating that The Eternal understand dynamics as something far more important than simply alternating heavy and softer passages. The band works with space, texture and gradual shifts, creating an almost cinematic sensation.

Yet it is precisely when the band relinquishes some of that restraint that Obscured Horizons becomes most compelling. “Liminality” emerges as one of the album’s most powerful moments, introducing more aggressive guitars and vocals that inject an additional dose of brutality into the material. It is a track that breaks the sense of predictability and proves that The Eternal still have a few cards hidden up their sleeves.

The title track maintains the album’s characteristic density, while “Yesterday’s Gone” expands its progressive dimension. Here, the band seems less concerned with creating an immediate single and more interested in developing a musical narrative. The result is a record that rewards a complete listen — something increasingly uncommon in an era dominated by the logic of individual tracks.

At the centre of it all is Mark Kelson. His performance rarely seeks to impress through sheer showmanship; its strength lies precisely in his ability to convey vulnerability without allowing the music to descend into melodrama. Kelson and Richie Poate’s guitars, meanwhile, function both as instruments of weight and as atmospheric elements, while Niclas Etelävuori and Jan Rechberger provide a sufficiently solid foundation for the compositions to breathe and evolve.

It is important, however, not to confuse sophistication with reinvention. Obscured Horizons does not represent a radical break with The Eternal’s past. Much of its strength lies precisely in the refinement of a formula the band have been developing for years. The difference is that they now appear more confident in how to deploy each of its components.

The album also benefits from its thematic coherence. The idea of confronting disillusionment, fractured identity and the difficulty of distinguishing reality from illusion runs through the compositions without turning the record into an overly explicit conceptual manifesto. Darkness is ever-present, but there is no glorification of decay itself. There is always a way out.

And it is this perspective that prevents Obscured Horizons from becoming yet another predictable exercise in melancholy. The Eternal understand that sadness and hope are not necessarily opposites. In their music, they coexist.

“Awaken”, the album’s closing track, encapsulates this journey. After traversing nine songs marked by inner conflict, heaviness and introspection, The Eternal offer no triumphant conclusion. The awakening suggested by the title is more human than epic: it is not about eliminating the darkness, but finally learning to see through it.

If Skinwalker marked the beginning of a new phase and Celestial served as an expansion of that identity, Obscured Horizons feels like the moment when those experiences finally take on a more mature form. It is not necessarily the heaviest or most progressive album of The Eternal’s career — and perhaps it does not need to be. Its ambition lies elsewhere: to create an emotionally cohesive work capable of transforming dark atmospheres into a narrative about survival, awareness and renewal.

The horizon may be obscured. But for The Eternal, that does not mean it has ceased to exist.

AJ Savolainen

Social Distortion: 15 Anos Depois, Ainda de Pé

Epitaph Records (Imp.)

15 anos depois, Mike Ness ainda tem algo a dizer 

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Existe uma armadilha particularmente perigosa quando uma banda passa 15 anos sem lançar um álbum de inéditas: a expectativa deixa de ser apenas musical e passa a ser histórica. O novo trabalho precisa responder pelo presente, mas também carregar o peso de tudo aquilo que veio antes. No caso do Social Distortion, essa cobrança é ainda maior. Afinal, estamos falando de uma banda que ajudou a estabelecer uma ponte definitiva entre o punk californiano, o rockabilly, o country e o rock 'n' roll, sem jamais precisar abandonar completamente nenhuma dessas referências.

Born to Kill, lançado em 8 de maio de 2026 pela Epitaph Records, chega exatamente nesse território. É o oitavo álbum de estúdio do Social Distortion e o primeiro desde Hard Times and Nursery Rhymes, de 2011. O intervalo de 15 anos é o maior entre dois discos da carreira e, inevitavelmente, transforma cada faixa em uma espécie de fotografia de uma banda que atravessou décadas, mudanças de formação, problemas pessoais e, no caso de Mike Ness, uma batalha contra o câncer.

Mas talvez o aspecto mais interessante de Born to Kill seja justamente o fato de o Social Distortion não tentar convencer ninguém de que ainda tem 25 anos.

O disco não é uma tentativa desesperada de recuperar a velocidade dos primeiros anos. Tampouco parece interessado em atualizar a banda para caber em alguma tendência contemporânea do punk. O que existe aqui é uma versão mais envelhecida, mais rouca e, em vários momentos, mais contemplativa do mesmo Social Distortion que aprendeu a transformar fracasso, vício, arrependimento, estrada e sobrevivência em canções que parecem simples até que alguma delas encontre o ouvinte no momento certo.

A produção de Mike Ness ao lado de Dave Sardy mantém as guitarras bastante presentes e deixa espaço para que o vocal envelhecido de Ness seja parte da própria narrativa. Há menos preocupação em esconder as marcas do tempo e mais interesse em incorporá-las. É justamente aí que Born to Kill encontra sua personalidade.

Divulgação

1. “Born to Kill”

A faixa-título não poderia ter outra função senão abrir o disco. O primeiro impacto vem da guitarra: suja, encorpada e imediatamente reconhecível, antes que a voz de Ness coloque o restante da identidade no lugar.

É uma abertura que funciona porque não tenta criar suspense. Eles entram em cena sabendo exatamente o que querem fazer. A música tem aquele tipo de riff que parece ter sido construído para funcionar ainda melhor em um palco do que em um fone de ouvido, com uma energia que remete ao rock de garagem e ao punk mais tradicional.

O que mais chama atenção, porém, é o contraste entre a agressividade instrumental e a voz de Ness. Ela está mais áspera, mais castigada, e isso faz diferença. Em um cantor mais jovem, determinadas frases poderiam soar como pose. Na voz dele, carregam uma espécie de histórico.

2. “No Way Out”

Se a primeira faixa apresenta o disco, “No Way Out” mostra que a banda ainda sabe construir uma música imediatamente identificável.

É provavelmente uma das faixas que mais poderiam ser encaixadas em um disco clássico do Social Distortion sem causar estranhamento. O andamento é direto, as guitarras trabalham para sustentar a melodia e existe aquele equilíbrio tão característico entre punk e rock 'n' roll que a banda aperfeiçoou ao longo de sua carreira.

O mérito está nos detalhes. As pausas ajudam a música a respirar e o refrão tem aquela qualidade de “grudar” sem precisar recorrer a qualquer artifício pop.

É uma música que parece simples na primeira passagem, mas ganha força quando se percebe como os instrumentos são organizados ao redor do vocal. Não há excesso. Tudo está ali para empurrar a canção para frente.

3. “The Way Things Were”

Aqui o disco diminui a velocidade e começa a mostrar sua verdadeira idade.

“The Way Things Were” é uma das músicas mais interessantes do álbum justamente porque não tenta esconder a nostalgia. Existe uma sensação de olhar para trás e perceber que algumas coisas não podem ser recuperadas, por mais que a memória insista em reconstruí-las.

A faixa evidencia uma característica importante do álbum: Mike Ness não precisa mais cantar sobre juventude para falar sobre rebeldia. Aos 60 anos, a própria permanência já é uma forma de resistência.

4. “Tonight”

“Tonight” recupera parte do balanço do rockabilly e do country rock que sempre esteve escondido na identidade do Social Distortion.

A música tem uma construção mais calorosa e um andamento que permite que a guitarra respire. O resultado é surpreendentemente acessível. Não há necessidade de acelerar tudo para produzir impacto. O refrão funciona justamente porque a banda deixa espaço para ele.

5. “Partners in Crime”

“Partners in Crime” é uma das faixas que mais facilmente conseguem traduzir a essência do álbum.

Ela começa com mais urgência e logo encontra um refrão que parece feito para ser cantado por uma plateia inteira. Existe uma sensação de camaradagem na composição, como se Ness estivesse retomando um dos elementos mais fundamentais de sua obra.

É também uma música que sintetiza bem a filosofia estética da banda. Poucos acordes, uma melodia forte e uma história suficientemente humana para não depender de grandes metáforas.

6. “Crazy Dreamer”

“Crazy Dreamer” talvez seja o momento em que o álbum mais claramente abandona o punk para mergulhar nas raízes country e blues do Social Distortion.

A participação de Lucinda Williams é fundamental. Sua presença soa como uma extensão natural daquele universo musical. O piano, o balanço mais lento e a guitarra com uma sonoridade quase de honky-tonk criam uma atmosfera completamente diferente das primeiras músicas.

É uma escolha que pode dividir opiniões. Para quem procura no Social Distortion a energia de “Story of My Life” ou “Ball and Chain”, “Crazy Dreamer” provavelmente parecerá lenta demais. Mas, dentro do álbum, ela cumpre uma função importante, e mostra que a banda nunca foi apenas punk.

7. “Wicked Game”

A escolha de “Wicked Game”, clássico de Chris Isaak lançado originalmente em 1989, é uma das decisões mais curiosas do álbum.

É difícil encarar uma música tão associada à interpretação original sem estabelecer algum tipo de comparação. A escolha faz sentido dentro da discografia da banda porque Ness sempre demonstrou interesse por músicas que vivem na fronteira entre rock, country, blues e melodrama.

Ainda assim, é provavelmente a faixa que mais divide o álbum. “Wicked Game” já é uma música extremamente definida em seu imaginário original. Transformá-la em algo definitivamente “Social Distortion” sem destruir aquilo que a tornou especial seria uma tarefa quase impossível. A banda chega perto.

E o mais interessante é perceber que, depois de algumas audições, a escolha parece menos estranha do que na primeira.

8. “Walk Away (Don’t Look Back)”

Se “Wicked Game” representa a pausa, “Walk Away (Don’t Look Back)” coloca o motor novamente em funcionamento.

A introdução da guitarra é um dos grandes momentos instrumentais do disco. O riff tem sujeira, peso e uma simplicidade quase insolente. É o tipo de construção que parece dizer que não existe necessidade de complicar quando três ou quatro movimentos bem colocados podem resolver tudo.

9. “Never Goin’ Back Again”

“Never Goin’ Back Again” chega com uma bateria que imediatamente muda a dinâmica do disco.

David Hidalgo Jr. ganha aqui um papel especialmente importante. A condução tem balanço, mas também força, e as guitarras trabalham sobre ela com uma espécie de groove que faz a música avançar sem parecer apressada. É uma faixa sobre ruptura, mas não tem exatamente o peso dramático de “The Way Things Were”. Existe mais movimento.

10. “Don’t Keep Me Hanging On”

“Don’t Keep Me Hanging On” traz novamente aquela mistura entre rock de estrada, boogie e punk que parece ser uma das zonas de conforto de Ness.

A música tem uma textura mais áspera e uma guitarra que trabalha muito bem com a bateria. É uma faixa que talvez não provoque o mesmo impacto imediato da abertura, mas cresce quando inserida no contexto do álbum.

Há também algo interessante no fato de algumas composições do disco carregarem uma sensação de familiaridade. “Don’t Keep Me Hanging On”, assim como “No Way Out”, poderia facilmente ser reconhecida como Social Distortion mesmo sem a voz de Ness.

Isso é simultaneamente a maior virtude e a principal limitação de Born to Kill. A banda sabe exatamente quem é, mas também não parece interessada em descobrir quem poderia ser.

11. “Over You”

Fechar um álbum como Born to Kill exige algum cuidado. Depois de 11 músicas atravessando punk, country, blues, rockabilly e rock 'n' roll, o Social Distortion escolhe terminar com uma faixa que retoma o lado mais clássico da banda.

“Over You” é um encerramento bastante natural. Os solos de guitarra ajudam a criar a sensação de despedida sem transformar a música em uma grande conclusão cinematográfica.

O disco não termina com a sensação de que Mike Ness resolveu todas as questões apresentadas ao longo dos 45 minutos. Ele termina simplesmente seguindo em frente, e isso combina perfeitamente com o álbum.

Confira a tracklist completa de Born to Kill:

Born to Kill 

No Way Out 

The Way Things Were 

Tonight 

Partners in Crime 

Crazy Dreamer 

Wicked Game 

Walk Away (Don’t Look Back)

Never Goin’ Back Again 

Don’t Keep Me Hanging On 

Over You