quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Molly Hatchet: Espalhando Os Ventos do Sul (Also In English)

Steamhammer (Imp.)

Por Flavio Borges
 

Dezesseis anos depois de Justice (2010), o Molly Hatchet retorna com um álbum que reafirma sua identidade e demonstra que o Southern Rock continua pulsando com força em suas veias. Liderado pelo guitarrista Bobby Ingram, Lost Horizon reúne doze faixas que preservam os elementos fundamentais da sonoridade da banda, mas encontram espaço para explorar novas texturas, ampliar os arranjos e revelar nuances que vão além da fórmula tradicional do gênero.

Gravado no lendário Studio 2 do Abbey Road Studios, em Londres, o álbum também apresenta a nova formação em estúdio, com Garrett Ramsden na bateria e Parker Lee nos vocais, ao lado de Ingram, John Galvin (teclados) e Tim Lindsey (baixo). A renovação não implica uma ruptura com o passado, mas coloca em evidência o desafio de manter vivo um legado que tem em Danny Joe Brown uma de suas referências mais emblemáticas.

Os singles “Dixie Highway” e “Once A Gambler” anteciparam um trabalho fiel às raízes do grupo, enquanto “Jacksonvillain” resgata, com irreverência, as aventuras dos primeiros anos em Jacksonville, na Flórida. Há, porém, mais do que nostalgia em Lost Horizon: a faixa-título e “Coming Home”, duas composições extensas, revelam uma banda disposta a expandir seus horizontes sem abandonar a própria personalidade.

O resultado é um álbum que aposta na força das composições, no entrosamento instrumental e na capacidade de transformar uma tradição consolidada em música ainda relevante.

O disco abre com “Firing Line (Enhanced Version)”, originalmente lançada em 2023. A gravadora não esclarece quais alterações foram realizadas nesta edição, mas a faixa se sustenta por sua força musical. Trata-se de Southern Rock em sua essência, com guitarras afiadas e belas intervenções de piano que enriquecem o arranjo sem disputar espaço com o restante da instrumentação. O refrão é daqueles que se fixam rapidamente, enquanto o trabalho de guitarra acrescenta texturas e dimensões que tornam a composição ainda mais envolvente.

“Whiskey Desperado” dá continuidade ao álbum com uma abordagem mais suja, especialmente nas guitarras, que surgem pesadas e distorcidas. O contraste com a bateria, limpa e bem definida, confere clareza à base rítmica, enquanto o baixo, discreto, mas eficiente, e os teclados bem posicionados completam a massa sonora. A faixa incorpora uma abordagem mais contemporânea ao Southern Rock, sem perder de vista a identidade que caracteriza o Molly Hatchet.

Em seguida, “Jacksonvillain” recupera o espírito descontraído dos primeiros anos da banda. A combinação entre a guitarra distorcida de Bobby Ingram e o piano e os teclados de John Galvin entrega exatamente aquilo que se espera do grupo: uma sonoridade reconhecível, sem concessões desnecessárias. Divertida e acessível, a faixa acrescenta leveza ao repertório e demonstra que a fidelidade às próprias raízes não precisa significar falta de dinamismo.

Primeiro single do álbum, “Dixie Highway” funciona como uma síntese eficiente da proposta de Lost Horizon. Mesmo sem grandes mudanças estilísticas, a composição evidencia que a renovação da formação não comprometeu a identidade musical da banda. O piano característico do gênero, a slide guitar e os tradicionais diálogos entre os instrumentos estão presentes, sustentados por um refrão cativante e backing vocals utilizados com precisão. É um cartão de visita certeiro, com todos os ingredientes necessários para agradar aos admiradores do Southern Rock clássico.

A faixa-título, por sua vez, surpreende logo nos primeiros momentos. Sintetizadores, efeitos de teclado e elementos que remetem a timbres de sopro criam uma atmosfera incomum antes da entrada contundente das guitarras e dos demais instrumentos. As mudanças de dinâmica e os momentos em que as vozes assumem o protagonismo ampliam a complexidade da composição. A guitarra acústica também merece destaque, assim como a interpretação de Parker Lee, que demonstra personalidade e segurança.

Com cerca de nove minutos, “Lost Horizon” apresenta uma sucessão de texturas, mudanças de andamento e passagens instrumentais que impedem a composição de se tornar previsível.

Há ecos de nomes fundamentais dos anos 1970, como Uriah Heep, Black Sabbath e, naturalmente, Lynyrd Skynyrd, mas a faixa não se limita a reproduzir referências. O instrumental é coeso, tecnicamente impecável e repleto de momentos que permitem a cada músico demonstrar sua competência sem comprometer a unidade do conjunto. É um dos pontos altos do álbum e uma evidência de que o Molly Hatchet ainda tem espaço para explorar estruturas mais ambiciosas.

Depois dessa jornada, “The Answer” surge como uma pausa necessária. A composição segue a tradição das baladas de Southern Rock, apoiada em uma guitarra pesada e melódica e em backing vocals que ganham força especialmente no refrão. A interpretação preserva a carga emocional sem recorrer a excessos, enquanto o arranjo oferece um contraponto mais sereno à complexidade da faixa anterior. Uma transição bem-vinda, que permite ao ouvinte respirar antes da retomada da energia.

“Moonshine All Mine” traz de volta o clima festivo e descompromissado. A temática alcoólica, a slide guitar em evidência, o piano e uma cozinha instrumental sólida compõem uma combinação familiar aos fãs da banda. Não há grandes surpresas, mas tampouco há necessidade de reinventar uma fórmula que continua funcionando. A faixa cumpre seu papel com naturalidade e reforça o caráter tradicional do álbum.

Gravar no Abbey Road Studios parece ter inspirado uma homenagem inevitável aos Beatles. A escolhida foi “Helter Skelter”, que recebe uma interpretação inteiramente moldada pela personalidade do Molly Hatchet. O peso e a abordagem sulista transformam a composição sem apagar suas características originais: a referência à versão dos Beatles permanece reconhecível durante toda a execução. O resultado é uma releitura convincente, que respeita a fonte e, ao mesmo tempo, encontra espaço para a identidade dos norte-americanos.

“Stand Up For Freedom” começa envolta em mistério, recuperando os sintetizadores e efeitos que já haviam aparecido na faixa-título. A introdução dá lugar a uma composição de andamento tradicional, marcada pelos vocais roucos, pelas guitarras distorcidas e pela presença do Hammond, que reforça a sustentação harmônica. O refrão é direto, melódico e desprovido de excessos, com backing vocals bem encaixados. Sem reinventar o gênero, a faixa reafirma a competência da banda em trabalhar com os elementos que fizeram do Southern Rock uma linguagem tão característica.

A reta final começa com “Stronger”, que acelera o andamento e aproxima o repertório do Hard Rock tradicional. As melodias ganham protagonismo, os teclados criam uma atmosfera distinta e os vocais mais limpos de Parker Lee revelam outra faceta de sua interpretação. O refrão, apoiado por uma bela base de teclados, apresenta linhas melódicas que flertam com o AOR. Essa combinação amplia a paleta sonora do álbum e representa uma das surpresas mais agradáveis do repertório.

“Once A Gambler”, o segundo single, mantém a energia e a orientação mais acelerada estabelecidas pela faixa anterior. A composição não acrescenta grandes novidades à fórmula apresentada até aqui, mas se encaixa com naturalidade na sequência. Guitarras, melodias e a habitual identidade sulista garantem uma faixa eficiente, que prepara o terreno para o encerramento.

A responsabilidade de concluir o álbum fica com “Coming Home”, outra composição extensa, com quase oito minutos. A introdução cadenciada e limpa estabelece o clima antes de explorar a combinação entre guitarras acústicas e distorcidas, sustentadas por uma base sólida. Os backing vocals conferem dimensão épica ao refrão, enquanto os vocais de Parker Lee e as intervenções de piano contribuem para a construção gradual do arranjo.

Ao longo da faixa, o grupo alterna passagens próximas da balada com momentos mais pesados, solos expressivos e mudanças de intensidade que mantêm o interesse até o final. A composição reúne diferentes facetas do Molly Hatchet e funciona como um encerramento abrangente, valorizando tanto a interpretação vocal quanto o entrosamento instrumental. É uma conclusão à altura de um álbum que, em seus melhores momentos, consegue equilibrar tradição, melodia e ambição composicional.

O Molly Hatchet está de volta — e em grande estilo. A espera de quase dezesseis anos valeu a pena? Para quem procura a sonoridade que consagrou a banda, a resposta é sim. Lost Horizon entrega guitarras marcantes, pianos característicos, refrões envolventes e a mistura de peso e melodia que define o Southern Rock do grupo. Mais importante, as composições extensas demonstram que ainda existe disposição para ir além do repertório mais previsível.

A nova formação também se mostra convincente em estúdio. Parker Lee assume a responsabilidade vocal com personalidade, enquanto Garrett Ramsden contribui para uma base instrumental coesa. Resta descobrir como essa dinâmica se traduzirá nos palcos, mas o álbum oferece motivos suficientes para otimismo. Sem tentar negar o passado ou competir com ele, o Molly Hatchet reafirma sua identidade e entrega um trabalho sólido, envolvente e digno de sua trajetória.

Segue a versão em inglês, adaptada para soar como um texto originalmente escrito para uma publicação especializada, com a abordagem editorial de revistas como Classic Rock e Metal Hammer.

***ENGLISH VERSION***

Sixteen years after Justice (2010), Molly Hatchet return with an album that reaffirms their identity and proves that Southern Rock still runs deep in their veins. Led by guitarist Bobby Ingram, Lost Horizon delivers twelve tracks that preserve the essential ingredients of the band’s sound while finding room to explore new textures, expand their arrangements and reveal nuances that reach beyond the genre’s traditional formula.

Recorded at the legendary Studio 2 at Abbey Road Studios in London, the album also marks the studio debut of the band’s new line-up, featuring Garrett Ramsden on drums and Parker Lee on vocals, alongside Ingram, John Galvin (keyboards) and Tim Lindsey (bass). The changes do not signal a break with the past, but they do underline the challenge of preserving a legacy inextricably linked to Danny Joe Brown, one of the most iconic voices in Molly Hatchet’s history.

Singles “Dixie Highway” and “Once A Gambler” offered an early indication of the album’s commitment to the band’s roots, while “Jacksonvillain” revisits the adventures of their early days in Jacksonville, Florida, with a healthy dose of irreverence. Yet there is more to Lost Horizon than nostalgia. The title track and “Coming Home”, two extended compositions, reveal a band willing to broaden its horizons without abandoning its musical identity.

The result is an album built on strong songwriting, instrumental chemistry and the ability to keep a well-established tradition sounding relevant.

The album opens with “Firing Line (Enhanced Version)”, originally released in 2023. The record label has yet to clarify what changes were made to this edition, but the track stands firmly on its musical merits. This is Southern Rock in its purest form, driven by razor-sharp guitars and beautiful piano passages that enrich the arrangement without competing with the rest of the instrumentation. The chorus is an instant earworm, while the guitar work adds texture and depth, making the song all the more engaging.

“Whiskey Desperado” keeps things moving with a grittier approach, particularly in its heavy, distorted guitars. The contrast with the clean, sharply defined drumming brings clarity to the rhythmic foundation, while the understated yet effective bass and well-placed keyboards complete the sonic picture. The track introduces a more contemporary edge to the band’s Southern Rock without losing sight of the sound that has always defined Molly Hatchet.

“Jacksonvillain” brings the spirit of the band’s early years back into focus. The combination of Bobby Ingram’s distorted guitar and John Galvin’s piano and keyboards delivers precisely what fans expect from Molly Hatchet: a familiar sound with no unnecessary concessions. Fun and immediately accessible, the track adds a welcome touch of lightness to the album and proves that staying true to your roots need not mean sacrificing momentum.

The first single, “Dixie Highway”, serves as an effective distillation of Lost Horizon’s overall approach. Despite making no major stylistic departures, the song demonstrates that the line-up changes have done nothing to compromise the band’s identity. The genre’s trademark piano, slide guitar and classic instrumental interplay are all present, supported by a catchy chorus and backing vocals deployed to perfection. It is a confident calling card, containing all the ingredients required to satisfy devotees of classic Southern Rock.

The title track, meanwhile, delivers an early surprise. Synthesizers, keyboard effects and timbres reminiscent of brass instruments establish an unusual atmosphere before the guitars and the rest of the band crash in. Dynamic shifts and passages in which the vocals take centre stage add further layers of complexity. Acoustic guitar also plays a significant role, while Parker Lee’s performance demonstrates both character and confidence.

At around nine minutes, “Lost Horizon” unfolds through a succession of textures, tempo changes and instrumental passages that keep the composition from becoming predictable. Echoes of key names from the 1970s — Uriah Heep, Black Sabbath and, naturally, Lynyrd Skynyrd — are unmistakable, but the track does not merely recycle familiar influences. The musicianship is cohesive and technically impressive, with each player given room to shine without compromising the collective performance. It is one of the album’s highlights and proof that Molly Hatchet still have an appetite for more ambitious songwriting.

After that journey, “The Answer” arrives as a welcome breather. The song follows the tradition of the Southern Rock ballad, built around a heavy yet melodic guitar line and backing vocals that come into their own, particularly in the chorus. The performance retains its emotional weight without resorting to excess, while the arrangement provides a more restrained counterpoint to the preceding track’s complexity. It is a well-judged change of pace before the album’s energy picks up again.

“Moonshine All Mine” brings back the celebratory, carefree spirit. Its drinking-themed lyrics, prominent slide guitar, piano and rock-solid rhythm section combine familiar ingredients for the band. There are no major surprises, but there is little need to reinvent a formula that continues to work. The track fulfils its purpose naturally and reinforces the album’s commitment to traditional Southern Rock.

Recording at Abbey Road seems to have made a Beatles tribute almost inevitable. The band’s choice is “Helter Skelter”, given an interpretation shaped entirely by Molly Hatchet’s own personality. Their heavier, Southern-inflected approach transforms the song without obscuring its original character: the Beatles’ version remains recognisable throughout. The result is a convincing rendition that respects its source material while leaving plenty of room for the American band’s distinctive sound.

“Stand Up For Freedom” begins on a mysterious note, bringing back the synthesizers and effects heard on the title track. The introduction gives way to a composition built around a traditional groove, gritty vocals and distorted guitars. The Hammond organ reinforces the harmonic foundation, leading into a direct, melodic chorus free of unnecessary embellishments. The backing vocals are simple but effective. Without attempting to reinvent the genre, the track reaffirms the band’s command of the elements that have made Southern Rock such a distinctive musical language.

The final stretch begins with “Stronger”, which picks up the pace and edges closer to traditional Hard Rock. Melody takes centre stage, the keyboards establish a different atmosphere, and Parker Lee’s cleaner vocal delivery reveals another side of his performance. The chorus, supported by a beautifully arranged keyboard foundation, features melodic lines that flirt with AOR. This combination broadens the album’s sonic palette and makes the song one of its most pleasant surprises.

“Once A Gambler”, the second single, maintains the energy and faster pace established by its predecessor. The composition does not introduce many new ideas, but it fits naturally into the sequence. Guitars, melody and the band’s unmistakable Southern identity make for an effective track that sets the stage for the album’s closing statement.

That responsibility falls to “Coming Home”, another extended composition, clocking in at almost eight minutes. Its measured, clean introduction establishes the mood before the arrangement develops around a combination of acoustic and distorted guitars, supported by a solid rhythm section. The backing vocals lend an epic dimension to the chorus, while Parker Lee’s delivery and the carefully placed piano passages help shape the song’s gradual progression.

As the track unfolds, the band moves between ballad-like passages and heavier sections, with expressive solos and shifts in intensity maintaining interest to the very end. The composition brings together different facets of 

Molly Hatchet’s sound and serves as a comprehensive finale, showcasing both the vocal performances and the band’s instrumental chemistry. It is a fitting conclusion to an album that, at its best, balances tradition, melody and compositional ambition.

Molly Hatchet are back — and in fine form. Was the nearly sixteen-year wait worth it? For anyone looking for the sound that made the band a Southern Rock institution, the answer is yes. Lost Horizon delivers muscular guitars, signature piano lines, infectious choruses and the blend of weight and melody that defines the group. More importantly, its longer compositions demonstrate a willingness to venture beyond the more predictable side of the band’s established formula.

The new line-up also proves convincing in the studio. Parker Lee approaches the vocal duties with personality, while Garrett Ramsden helps anchor a cohesive instrumental performance. How this dynamic translates to the live stage remains to be seen, but the album provides plenty of reasons for optimism. Rather than denying the past or attempting to compete with it, Molly Hatchet reaffirm their identity and deliver a solid, engaging record worthy of their legacy.

Benjamin Gabbert

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Seventh Wonder: Nova Voz, Mesma Proposta (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Após um período de silêncio desde The Testament (2022), os suecos do Seventh Wonder retornam com VII, seu sétimo álbum de estúdio e o primeiro a apresentar Mattias Olofsson nos vocais, substituindo Tommy Karevik. Com lançamento previsto para janeiro de 2027 pela Frontiers Music Srl, o trabalho inaugura uma nova fase na trajetória do grupo, que preserva os elementos fundamentais de sua identidade: arranjos sofisticados, virtuosismo instrumental, mudanças de andamento e, acima de tudo, um apurado senso melódico. A mudança de vocalista, contudo, não representa uma ruptura, mas uma oportunidade para explorar novas nuances dentro de uma sonoridade construída ao longo de mais de duas décadas.

A escolha de Memories, primeiro single do álbum, para abrir o repertório é bastante representativa. Desde os primeiros compassos, os timbres e as construções rítmicas remetem imediatamente à sonoridade característica do Seventh Wonder. O metal progressivo está presente em toda a sua complexidade, mas são as melodias, especialmente as linhas vocais, que conduzem a composição. O refrão é marcante e oferece a primeira oportunidade de perceber as diferenças entre Karevik e Olofsson. Mais suave e menos incisiva que a de seu antecessor, a voz do novo integrante imprime uma personalidade distinta à música sem comprometer sua força. Pelo contrário: a execução é impecável, e a adaptação à identidade do grupo soa bastante natural.

Em Riverside, o Seventh Wonder mergulha ainda mais fundo em seu universo progressivo. Uma introdução de piano estabelece o clima antes que os demais instrumentos introduzam um andamento pouco convencional, sobre o qual Olofsson desenvolve linhas vocais melódicas. O refrão, mais direto, ganha dimensão com os bem elaborados backing vocals, enquanto a interação entre baixo e piano proporciona um dos momentos mais interessantes da faixa. Os arranjos vocais merecem destaque à parte, tanto pela riqueza de detalhes quanto pela maneira como se integram à instrumentação. É um exemplo de como a banda consegue equilibrar complexidade e acessibilidade sem sacrificar nenhuma das duas.

Com pouco mais de sete minutos, The Villain and the Whisper amplia consideravelmente o leque de possibilidades do álbum. A familiaridade dos timbres de guitarra e baixo convive com elementos menos habituais, como passagens vocais próximas do gutural, que contrastam com a abordagem limpa e suave de Olofsson. A duração permite à banda desenvolver uma sucessão de mudanças e texturas, explorando diferentes caminhos sem perder a coesão. Até aqui, é a composição que melhor sintetiza o lado mais intrincado do disco, com os músicos demonstrando pleno domínio dos recursos técnicos e criativos à disposição. O resultado acrescenta novas cores à sonoridade do Seventh Wonder e evidencia que a progressividade do grupo vai muito além das mudanças de compasso.

Com Evermore, o álbum assume contornos de balada, embora a classificação não faça justiça à variedade de caminhos percorridos pela composição. Piano e cordas estabelecem uma base elegante para a interpretação de Olofsson, enquanto o baixo ocupa posição de destaque na sustentação harmônica e rítmica. As guitarras também merecem atenção, tanto pelo trabalho de arranjo quanto pela contribuição para a dinâmica da música. Mais uma vez, os backing vocals são empregados com precisão, conduzindo a um refrão de forte apelo melódico, próximo do hard rock melódico. Ao longo de seus mais de sete minutos, a faixa transita entre diferentes territórios, incluindo passagens que remetem ao metal tradicional e ao melodic metal. Essa diversidade não soa como um exercício gratuito de estilo, mas como uma extensão coerente da proposta do álbum.

Cry Wolf recupera uma abordagem mais direta, sem abrir mão dos atributos que definem o Seventh Wonder. Em determinados momentos, a interpretação de Olofsson remete a James LaBrie, uma das referências vocais mais reconhecidas do metal progressivo. O refrão é imediato e bastante melódico, sustentado por camadas de backing vocals que ampliam sua dimensão. A integração entre baixo e bateria também merece destaque: a seção rítmica trabalha em perfeita sintonia com os demais instrumentos, mantendo a precisão necessária mesmo diante da riqueza de detalhes dos arranjos. A mixagem permite distinguir com clareza as diferentes linhas instrumentais e vocais, um aspecto fundamental para que a complexidade da música seja apreciada em toda a sua extensão.

A produção de VII merece um parágrafo próprio. Em uma banda cuja proposta depende tanto da interação entre instrumentos, vozes e camadas de arranjos, o equilíbrio entre definição e impacto é essencial. Aqui, a mixagem permite que os detalhes sejam percebidos sem exigir do ouvinte sucessivas audições para identificar os elementos que compõem cada música. O resultado valoriza tanto o virtuosismo individual quanto o trabalho coletivo, preservando a clareza mesmo nos momentos de maior densidade instrumental. É uma produção à altura das ambições musicais do Seventh Wonder.

A opção por The Storm é particularmente corajosa para um álbum que também funciona como apresentação de um novo vocalista. Sem guitarras, baixo ou bateria, a faixa se sustenta exclusivamente em piano, orquestrações e voz. Olofsson assume uma interpretação teatral, explorando as possibilidades expressivas de sua voz em uma composição essencialmente melódica. Os arranjos de piano e cordas são bem construídos, enquanto os backing vocals surgem nos momentos certos, reforçando a dramaticidade sem sobrecarregar a música. A ausência da instrumentação habitual permite que o vocalista demonstre outras facetas de sua interpretação e acrescenta uma pausa bem-vinda à sequência do álbum. É um momento diferente, elegante e bastante agradável.

A guitarra, o baixo e a bateria voltam a ocupar o primeiro plano em Silver Lining, composição que retoma as mudanças de andamento e a arquitetura progressiva características do grupo. Os diferentes segmentos são organizados com cuidado, sem que a música perca o direcionamento melódico. O refrão, que ganha intensidade em relação aos versos, é o principal destaque e demonstra novamente a capacidade da banda de conciliar sofisticação instrumental e apelo imediato. Trata-se de uma faixa que poderia facilmente figurar em qualquer um dos trabalhos anteriores do Seventh Wonder, reafirmando a continuidade de sua identidade musical e oferecendo aos fãs os elementos que esperam encontrar.

Na reta final, Echoes funciona como uma breve vinheta de pouco mais de um minuto, reduzindo o arranjo a voz e violão. A simplicidade da passagem coloca novamente Olofsson em evidência e prepara o terreno para Ad Infinitum, encerramento épico que ultrapassa os nove minutos. Após preservar inicialmente a atmosfera acústica, a composição se transforma gradualmente em uma extensa jornada pelo universo do rock e do metal progressivo.

A introdução evoca, em determinados momentos, os grandes nomes do rock progressivo, enquanto o desenvolvimento vocal e instrumental aproxima a faixa de referências mais associadas ao Dream Theater. O refrão, de forte apelo melódico, ganha proporções épicas com um amplo conjunto de backing vocals e arranjos vocais particularmente grandiosos. Os timbres de teclado também merecem destaque, contribuindo decisivamente para a atmosfera cinematográfica da composição.

Como não poderia deixar de ser, Ad Infinitum oferece espaço para que todos os músicos demonstrem suas habilidades. Há solos de baixo, guitarra, piano e teclado, integrados à estrutura da música sem comprometer seu desenvolvimento. A bateria é igualmente irrepreensível, acompanhando as sucessivas mudanças de levada com precisão e versatilidade. Longe de se transformar em uma simples demonstração de técnica, a faixa utiliza o virtuosismo como parte de uma construção maior, na qual melodias, arranjos e dinâmica trabalham em conjunto para produzir um encerramento à altura do repertório.

VII confirma que o Seventh Wonder não precisa renunciar à própria identidade para iniciar um novo capítulo. Mattias Olofsson se integra à banda com uma naturalidade surpreendente, oferecendo uma abordagem vocal distinta sem descaracterizar as composições. Ao mesmo tempo, o grupo amplia seu campo de exploração, aprofundando o diálogo entre o metal progressivo, o rock progressivo e passagens de forte apelo melódico. O resultado é um álbum consistente, tecnicamente refinado e repleto de arranjos cuidadosamente elaborados, no qual a complexidade nunca elimina a importância das melodias. VII representa a reafirmação de uma banda que, após mais de duas décadas de carreira, ainda encontra espaço para evoluir sem perder aquilo que a tornou reconhecível.

Segue a versão em inglês, com adaptação editorial para soar como uma resenha originalmente escrita em inglês, seguindo a linha de publicações como Metal Hammer e Classic Rock. Mantive suas impressões sobre cada faixa, as comparações musicais e os destaques instrumentais, preservando o conteúdo da versão em português.

***ENGLISH VERSION***

After a period of silence following 2022’s The Testament, Swedish progressive metal veterans Seventh Wonder return with VII, their seventh studio album and the first to feature new vocalist Mattias Olofsson, who takes over from Tommy Karevik. Due for release in January 2027 via Frontiers Music Srl, the record ushers in a new chapter for the band while retaining the key ingredients that have defined their sound for more than two decades: sophisticated arrangements, instrumental virtuosity, shifting time signatures and, above all, a keen melodic sensibility. Rather than representing a radical departure, the change behind the microphone provides an opportunity to explore fresh nuances within an established musical identity.

Opening with lead single Memories is a statement of intent. From the opening bars, the familiar Seventh Wonder sound is unmistakable, from the instrumental tones to the rhythmic twists and turns. The progressive metal framework is firmly in place, but melody remains at the heart of the composition, particularly in the vocal lines. The chorus is immediately memorable and offers the first opportunity to appreciate the differences between Karevik and his successor. Olofsson’s voice is softer and less forceful than that of the former frontman, bringing a fresh character to the band without diminishing the song’s impact. His performance is assured throughout, and his integration into the group’s sound feels remarkably natural.

Riverside takes a more overtly progressive approach. A distinctive piano introduction sets the scene before the rest of the band enters with an unconventional rhythmic pattern, over which Olofsson delivers another melodic vocal performance. The chorus is more direct, its impact enhanced by carefully arranged backing vocals. The interplay between bass and piano provides one of the track’s most compelling moments, while the vocal harmonies deserve particular praise for their precision and attention to detail. It is a fine example of Seventh Wonder’s ability to balance instrumental complexity with accessibility without compromising either.

At just over seven minutes, The Villain and the Whisper expands the album’s musical palette considerably. Familiar guitar and bass tones are joined by less expected elements, including near-growled vocal passages that contrast sharply with Olofsson’s clean, understated delivery. The extended running time gives the band ample room to explore a succession of changes and textures, yet the composition never loses its cohesion. It is the album’s most overtly progressive track so far, showcasing the musicians’ command of their instruments while adding new dimensions to the Seventh Wonder sound. More than simply demonstrating technical prowess, the arrangement reveals a band willing to push its established formula into more adventurous territory.

Evermore initially suggests a ballad, although such a straightforward label hardly does justice to the range of ideas contained within its expansive structure. Elegant piano and orchestral arrangements provide the backdrop for another accomplished vocal performance, while the bass takes a prominent role in shaping the song’s rhythmic and harmonic foundations. The guitar work is equally noteworthy, contributing both texture and dynamics to the arrangement. Once again, the backing vocals are expertly handled, leading into a chorus with a strong melodic pull and a distinctly melodic hard rock flavour. Across its seven-plus minutes, the track moves between different musical territories, incorporating elements of traditional metal and melodic metal without losing sight of the band’s progressive foundations. The stylistic variety feels entirely organic, serving the composition rather than distracting from it.

Cry Wolf returns to a more direct approach while retaining all the hallmarks of Seventh Wonder’s sound. At times, Olofsson’s delivery recalls James LaBrie, one of progressive metal’s most recognisable vocalists. The chorus is immediate and highly melodic, with layered backing vocals adding depth and impact. The chemistry between bass and drums is another highlight, the rhythm section working in perfect synchronisation with the instrumental arrangements. Despite the density of the music, every element remains clearly audible, from the individual instrumental lines to the intricate layers of lead and backing vocals. That clarity allows the listener to appreciate the detail without losing sight of the song’s overall impact.

The production deserves special mention. For a band whose music relies so heavily on the interplay between instruments, vocal layers and intricate arrangements, achieving the right balance between definition and impact is essential. VII succeeds on that front, allowing individual details to emerge without requiring repeated listens to uncover the elements buried within the mix. The result highlights both the musicians’ individual abilities and their collective chemistry, maintaining clarity even during the album’s densest passages. It is a polished production that serves the music’s ambitions without sacrificing its energy.

The decision to include The Storm is a particularly bold move on an album that also introduces a new vocalist. Dispensing entirely with guitars, bass and drums, the track relies solely on piano, orchestration and voice. Olofsson delivers a theatrical performance, exploring the expressive possibilities of his voice within an essentially melodic framework. The piano and orchestral arrangements are beautifully constructed, while the backing vocals appear at precisely the right moments, enhancing the drama without overwhelming the composition. Stripped of the band’s customary instrumentation, the song allows the new singer to reveal another side of his abilities and provides a welcome change of pace. Elegant, engaging and refreshingly different, it is one of the album’s most distinctive moments.

Guitars, bass and drums return to the foreground on Silver Lining, a track that revisits the shifting time signatures and intricate structures associated with the band. Its various sections are carefully assembled, yet the music never loses its melodic direction. The chorus, which builds in intensity from the verses, is the main attraction, demonstrating once again Seventh Wonder’s ability to reconcile progressive sophistication with immediate appeal. This is a track that could comfortably sit alongside material from any of the band’s previous albums, reaffirming the continuity of their musical identity and delivering precisely the qualities long-time fans will be hoping to hear.

As the album approaches its conclusion, Echoes serves as a brief, little-over-a-minute interlude built around nothing more than voice and acoustic guitar. The stripped-back arrangement once again places Olofsson firmly in the spotlight, setting the stage for Ad Infinitum, an epic closing statement that stretches beyond the nine-minute mark. Initially retaining the acoustic atmosphere established by its predecessor, the composition gradually unfolds into an expansive journey through progressive rock and metal.

The opening passages occasionally evoke the genre’s classic pioneers, while the vocal and instrumental development brings Dream Theater to mind. The chorus is strongly melodic, elevated by a broad ensemble of backing vocals that gives the track an unmistakably epic character. The vocal arrangements are particularly grand, while the keyboard tones contribute significantly to the composition’s cinematic atmosphere.

As expected, Ad Infinitum also provides ample room for each musician to shine. Bass, guitar, piano and keyboard solos are woven into the song’s structure without disrupting its momentum. The drumming is equally impressive, navigating the successive rhythmic shifts with precision and versatility. Rather than becoming a mere showcase for technical ability, the track uses its instrumental fireworks in service of a larger musical vision, bringing melody, arrangement and dynamics together for a finale worthy of the album.

VII confirms that Seventh Wonder can embrace a new chapter without abandoning the qualities that have made the band distinctive. Mattias Olofsson settles into his role with surprising ease, bringing a different vocal character to the material without compromising its identity. At the same time, the band broadens its musical horizons, exploring the relationship between progressive metal, progressive rock and more overtly melodic passages. The result is a cohesive, meticulously crafted album in which technical sophistication never comes at the expense of memorable songwriting. VII represents the reaffirmation of a band that, after more than two decades, continues to evolve while remaining unmistakably itself.

Tallee Savage



terça-feira, 3 de novembro de 2026

Cobertura de Show: Iron Maiden – 27/10/2026 – Nubank Parque/SP

Começar o texto falando o que achou do show é algo anormal, pois, logo que saí do show do Iron Maiden na última terça-feira, 27/10, uma amiga minha perguntou o que eu achei do show. Há dois motivos especiais para tal pergunta: o primeiro é que foi a primeira vez que ela viu a banda ao vivo, e o segundo é que foi justamente no dia do seu aniversário. Que presentão, não é mesmo? Não tem uma resposta específica, pois, com certeza, ela sentiu a mesma sensação que eu senti na primeira vez que os vi, em 2008. E quem me conhece já há bastante tempo sabe que sou suspeito para falar de Iron Maiden, então a minha resposta é mais do que óbvia.

Batizada Run For Your Lives, a turnê celebra os 50 anos de história da Donzela, o que já é padrão nas últimas décadas de atividade, pois turnês de clássicos são comuns quando a banda volta de uma turnê promovendo algum álbum inédito. E, falando em clássicos e por celebrar cinco décadas de estrada, conforme falado há pouco, a banda focou na sua fase de ouro, de 1980 a 1992, ou seja, somente músicas do álbum homônimo até o Fear Of The Dark (1992). A única exceção foi não terem incluído coisas do No Prayer For The Dying (1990), disco que, além de marcar a estreia do guitarrista Janick Gers, é disperso pela banda. Até pode ser um disco abaixo da média, mas dá para fazer proveito dele e merecia a inclusão de alguma música.

O Brasil foi contemplado com três datas, que começaram em pleno domingo de eleição (25/10), no Nubank Parque, em São Paulo, com um sold out, seguido de um quase sold out na terça-feira (27/10, data em que estive presente), e concluindo em Curitiba, na quarta-feira (28/10). O mais legal de estar em um show do Iron Maiden é ver a quantidade de gerações reunidas para prestigiá-los, principalmente crianças e adolescentes acompanhados de seus pais, tios e avós, o que comprova que a experiência vai muito além da música: é também uma reunião entre familiares e amigos.

O que é legal também de lembrar foram as ações feitas semanas antes dos shows, incluindo uma loja oficial com produtos oficiais, corrida de rua, bar em homenagem a banda e bandas tributos tocando nos principais pontos de São Paulo, que, como a maioria sabe, é a terceira cidade que mais ouve Iron Maiden no planeta, segundo dados do Spotify, uma das principais plataformas de música.

Mais uma vez, igual às três vezes anteriores, o Iron Maiden contou com uma banda de abertura. Dessa vez, quem assumiu a responsabilidade foram os americanos do Alter Bridge, que seguem uma proposta mais moderna e diferente da dos donos da festa. Dessa vez, a banda conseguiu atrair o bom público com suas composições, que carregam bastante peso. No domingo, segundo relatos e comentários nas redes sociais, o público não deu muita importância à apresentação da banda, com a maioria preferindo acompanhar a apuração das urnas para saber quem seria eleito presidente.

Confesso que não sou seguidor assíduo da banda, mas reconheço a força que os músicos possuem, principalmente por parte de Myles Kennedy. Conhecido por integrar a banda do Slash, o talento do vocalista vai muito além dentro do Alter Bridge, que, além de assumir os microfones, também assume a tarefa de tocar guitarra com extrema maestria, assim como seu parceiro Mark Tremonti, que merecia mais reconhecimento do que tem e que reteve toda a atenção também para si por meio de seus impactantes riffs e solos.

Infelizmente, não foi possível mostrar muita coisa em uma hora de show, mas souberam escolher os melhores momentos da carreira. O último álbum, o homônimo lançado em janeiro, por exemplo, é um disco que me chamou muita atenção. Não à toa, escolheram “Silent Divide” para abrir o show com seus riffs poderosíssimos, assim como “Addicted to Pain”, do também aclamado Fortress (2013), que mantém o mesmo nível da primeira.

A surpresa ficou para “Ghost Of Days Gone By”, que não havia sido tocada no show anterior e que chama a atenção pelo equilíbrio entre peso, melodia e refrão dramático. “Isolation”, que encerrou o show de forma agressiva, também foi outra surpresa, mas o grande destaque ficou para “Blackbird”. Longa e emotiva, foi a que teve maior recepção por parte do público, o que era de se esperar, pois é um dos principais clássicos da trajetória da banda.

Antes de assisti-los, tive o pensamento de que houvesse dispersão por parte do público, não pelo estilo ser diferente, mas pelo que houve no primeiro show, explicado anteriormente. A banda, em nenhum momento, se sentiu com medo ou intimidada. Fez bonito o que tinha que fazer, com competência e autoridade, sendo aplaudida a cada término de música e ganhando o respeito até mesmo de quem não é muito chegado à banda. Enfim, um show excelente, cheio de peso, energia e uma dose de emoção.

Quem já viu o Iron Maiden ao vivo sabe que existe todo um ritual para estar preparado e bem aquecido. Isso acontece quando “Doctor Doctor”, do UFO, uma das bandas favoritas do baixista e chefe Steve Harris, toca. E, como é uma celebração aos 50 anos de história, o telão, uma das novidades dessa turnê e que substitui os tradicionais backdrops, mostrou os principais pontos de Londres que a banda frequentava, como o Cart & Horses, Ruskin Arms, Acacia Avenue e o Finsbury Park durante “The Ides Of March”.

O início do set priorizou a fase inicial da banda, com músicas que não eram executadas ao vivo há bastante tempo. Sendo assim, a era Paul Di'Anno marcou presença nos minutos iniciais, com as agitadas “Murders in the Rue Morgue”, “Wrathchild” e “Killers”, faixa que dá nome ao segundo disco e que trouxe a primeira aparição do Eddie. Foi superlegal ver a animação do público diante dessas músicas, que não têm status de clássicas, mas que mostram que a fase de Di'Anno tem sim sua importância. Porém, como eu e a maioria notamos, houve uma redução no andamento, principalmente por parte do baterista Simon Dawnson, sobre a qual vamos falar mais ao final.

Continuando, a noite ainda renderia muitas surpresas. Afinal, são cinquenta anos de história e uma noite que prometia muita diversão, conforme disse o vocalista Bruce Dickinson antes de anunciar “Phantom of the Opera”, que há muito tempo ficou de fora dos setlists da banda e que resultou em uma das melhores, se não a melhor, performance da noite, principalmente por conta do trio de guitarristas Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers, que sempre soam orgânicos e sem embolação.

A primeira onda de hits começou justamente pelo primeiro hit da história da banda, ou seja, "The Number of the Beast", que resultou nos primeiros efeitos pirotécnicos da noite, pois cada vez que Bruce cantava 666, labaredas de fogo se elevava pela pilastras do palco. Pena que, dessa vez, o ilustre baphomet não marcou presença.

Diminuindo um pouco a adrenalina, “Infinite Dreams” deixou todos com o sentimento de sonho realizado, fazendo um trocadilho com o título, pois raramente essa música – atmosférica, melódica e com um pouco de peso – é incluída nos shows. Antes de anunciá-la, Bruce repetiu o mesmo discurso (bem poético, por sinal) da noite de dois dias atrás dizendo que 'todos nós devemos ter sonhos'.

De forma mística e também ritualística, “Powerslave” engatou uma trinca matadora e, ao mesmo tempo, cenográfica, do álbum de mesmo nome, que ainda trouxe outro hit, como “2 Minutes to Midnight”, e a épica “Rime of the Ancient Mariner”, que, sem sombra de dúvidas, é a melhor música da história da banda. Inspirada em um poema de Samuel Taylor Coleridge, seus treze minutos fazem você se sentir como se estivesse em uma peça de teatro, trazendo vários momentos diferentes. Novamente, ela foi antecedida por uma brincadeira, com Bruce reclamando que substituíram cachaça por água. Mesmo demitindo a pessoa que comentou isso no primeiro show, o erro foi repetido no segundo, deixando o vocalista aborrecido.

"Run to The Hills", mas uma vez em ritmo de carroça, preparou terreno para outro momento épico com "Seventh Son Of a Seventh Son" antes de partir pra uma sequência de clássicos com "The Trooper" - com Eddie entrando novamente em cena -, "Halloweed Be Thy Name" e a crua "Iron Maiden", indicando os momentos finais do show. O que me surpreendeu na segunda citada foi Bruce sendo tele transportado pra dentro do telão como num passe de mágica. E também foi outra que teve uma cenografia especial, com Bruce aparecendo preso numa gaiola antes de ser enforcado, contextualizando perfeitamente o conceito lírico.

Com uma introdução impactante e com uma linha de guitarra e baixo extremamente ligeiras, Aces High, que antes ocupava um posto mais elevado no set, abriu o bis de forma energética, como se estivessem começando o show. E falando em posição, Fear Of The Dark, que querendo ou não nunca vai ser deixada de ser tocada ao vivo, ficou mais para o final, pois normalmente ela ficava junto com Iron Maiden antes de partir para o bis. O final, propriamente dito, ficou para a emblemática Wasted Years, repetindo o mesmo feito da turnê da passada e a última, para quem se lembra, que o agora aposentado Nicko McBrain tocou ao vivo.

Recapitulando o que havia dito no começo do texto, falar sobre o que achei do show é difícil, pois várias coisas positivas, é claro, passam pela cabeça após assistir ao Iron Maiden ao vivo. Cada show é uma experiência diferente, mas a sensação é a mesma. Mesmo que os membros estejam beirando a casa dos 70, todos aparentam ser jovens senhores, principalmente o baixista Steve Harris e o guitarrista Janick Gers, que possuem uma energia descomunal. Bruce Dickinson, então, nem se fala! Mesmo que a voz não esteja igual à de outrora, ainda continua cantando muito bem para a idade que tem hoje, aos 68 anos.

O único membro que divide opiniões é Simon Dawson. Desde que assumiu o posto deixado por Nicko McBrain, em 2024, ele vem convencendo a maioria dos fãs com sua performance, que é mais dura e, melhor dizendo, lenta, algo que deu para perceber durante o começo do show. Mas, se essa foi a escolha do patrão Steve, que também toca com ele em seu projeto British Lion, o que temos a dizer, não é mesmo? Mas, se fosse por mim, pela maioria e até pelo próprio Nicko, que chegou a sugerir o brasileiro Aquiles Priester para o posto, a escolha com certeza seria outra.

Ver o Iron Maiden chegando ao seu cinquentenário ainda em forma é motivo de imensa gratidão para os fãs, mas também surge aquela sensação: será que o fim está próximo ou não? Por enquanto, acho que essa ideia ainda vai ficar em stand by por um tempo, porque a banda estendeu a turnê para abril de 2027, ano que, a princípio, seria sabático para o grupo. Sabemos que a banda vai voltar ao Brasil mais uma vez, sabe-se lá quando, pois Bruce deu essa certeza ao final do show, usando a clássica frase de James Bond: "Nós voltaremos!". Quanto a isso, não restam dúvidas, porque o mundo é mais feliz com o Iron Maiden ainda em atividade.





Realização: Move Concerts

Press: Midiorama


Alter Bridge – setlist

Silent Divide

Addicted to Pain

Cry of Achilles

Fortress

Ghost of Days Gone By

Metalingus

Blackbird

Rise Today


Iron Maiden – setlist

Murders in the Rue Morgue

Wrathchild

Killers

Phantom of the Opera

The Number of the Beast

Infinite Dreams

Powerslave

2 Minutes to Midnight

Rime of the Ancient Mariner

Run to the Hills

Seventh Son of a Seventh Son

The Trooper

Hallowed Be Thy Name

Iron Maiden

Bis

Aces High

Fear of the Dark

Wasted Years

Archon Angel: Muito Além do Savatage (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Com Zak Stevens à frente, o Archon Angel aprofunda sua identidade musical em um álbum ambicioso, no qual o peso do heavy metal encontra a dramaticidade, as texturas orquestrais e a sofisticação composicional que marcaram a trajetória do Savatage.

Liderado pelo vocalista Zak Stevens (Savatage) e pelo guitarrista, compositor e produtor Aldo Lonobile, o Archon Angel retorna com Beyond The Grave, seu terceiro álbum de estúdio, previsto para dezembro de 2026 pela Frontiers Music Srl. Embora as raízes no legado do Savatage permaneçam evidentes, o projeto demonstra crescente personalidade própria, explorando arranjos elaborados, melodias marcantes e atmosferas cinematográficas. O resultado é um trabalho que equilibra peso, sofisticação e intensidade emocional, com a interpretação de Stevens ocupando, mais uma vez, o centro das atenções.

A faixa-título abre o disco e, em poucos segundos, deixa clara a conexão com o Savatage. O clima teatral, a presença imponente de Zak e, sobretudo, a construção dos backing vocals remetem à fase de The Wake of Magellan. Não há, porém, qualquer sensação de mera reprodução de uma fórmula conhecida. A composição é cuidadosamente arquitetada, com mudanças de dinâmica e camadas vocais que contribuem para a grandiosidade da música. Uma abertura de primeira linha, que estabelece as coordenadas estéticas do álbum sem limitar suas possibilidades.

Com uma abordagem mais direta e guitarras assumindo o protagonismo, Bloodline desloca o foco para o heavy metal propriamente dito. A interpretação teatral de Stevens permanece, assim como suas linhas vocais elaboradas, mas os backing vocals surgem de maneira mais crua, acrescentando textura sem sobrecarregar o arranjo. Menos rebuscada que a faixa de abertura, a música encontra justamente nessa objetividade sua principal virtude.

Without Eyes recupera o viés melódico e introduz uma atmosfera misteriosa por meio de uma bela introdução ao piano, acompanhada por teclados que estabelecem o clima da composição. A voz de Zak conduz a música com segurança até um refrão envolvente, enriquecido por múltiplas camadas vocais que nunca ofuscam a linha principal. Apesar de manter as bases do heavy metal tradicional, a faixa se diferencia das anteriores graças à combinação de melodias acessíveis e nuances atmosféricas. O piano, em particular, merece destaque pela maneira como orienta a construção musical.

Mais cadenciada, You aprofunda a teatralidade que permeia o álbum. As linhas vocais e os backing vocals estabelecem uma espécie de diálogo, criando contrapontos que ampliam a dramaticidade da composição. As guitarras de Aldo Lonobile dominam tanto a base quanto o excelente solo, enquanto os sintetizadores sustentam o clima de suspense introduzido na faixa anterior. No terço final, piano e voz assumem o primeiro plano em uma passagem de grande sensibilidade, demonstrando como a banda consegue explorar momentos de contenção sem perder intensidade.

Com bumbos duplos e uma abordagem que flerta com a grandiosidade dos musicais da Broadway, Chasing Demons apresenta outra faceta do grupo. Em determinados momentos, a interpretação quase falada de Stevens acentua o caráter teatral da composição, transportando o ouvinte para um universo dramático sem que a música abandone sua essência metálica. A complexidade das linhas vocais se combina a melodias bem construídas, enquanto os timbres das guitarras nos solos evocam, em certos momentos, a exuberância técnica do Cacophony. É mais uma faixa que acrescenta novas camadas à identidade sonora do disco.

Darkest Hour surge como uma das passagens mais diretamente ligadas ao heavy metal tradicional. Guitarras incisivas e um breve solo introduzem a voz de Zak, que conduz a composição até um refrão simples, eficiente e sem excessos. Os backing vocals aparecem de maneira pontual, reforçando a melodia sem disputar espaço com o vocalista. O destaque instrumental fica por conta do Hammond, cujo timbre acrescenta uma dimensão sonora distinta ao conjunto. A cozinha mantém tudo em impressionante coesão, enquanto uma passagem de piano sobre uma base pesada prepara o terreno para outro excelente solo de guitarra.

Até aqui, o álbum demonstra uma capacidade notável de apresentar novas ideias sem perder sua unidade.

É com Ethereal, entretanto, que o Archon Angel alcança um de seus momentos mais inspirados. Teclados imponentes, peso e velocidade estabelecem uma atmosfera épica desde o início, enquanto os backing vocals ampliam a grandiosidade dos versos. Pela primeira vez, os efeitos e as camadas vocais assumem papel central na construção do refrão, reforçando a dimensão cinematográfica da música. Stevens entrega uma interpretação poderosa, que permite imaginar o impacto dessa composição ao vivo. O piano volta a se destacar, pontuando os momentos certos, e o solo de guitarra surge na medida exata. Ao lado da faixa-título, é um dos grandes destaques do álbum.

Mantendo a atmosfera épica, Who Am I começa com guitarras e teclados em evidência, antes de desacelerar e adotar uma abordagem mais delicada, com a guitarra assumindo uma função melódica secundária. A voz de Zak conduz a composição, enquanto as orquestrações acrescentam mistério e dramaticidade até a música recuperar o peso e entregar o protagonismo às guitarras e aos vocais. O refrão, direto e sem firulas, ganha profundidade com as texturas vocais. Instrumentalmente, o destaque está na interação entre o piano e os demais elementos, que amplia consideravelmente a complexidade do arranjo. É outro ponto alto de um disco que encontra na combinação entre força e refinamento uma de suas principais qualidades.

Em Asylum, Stevens inicialmente adota uma interpretação mais suave, acompanhado por um delicado pizzicato de violinos, piano e elementos orquestrais. A entrada da banda transforma gradualmente a atmosfera, permitindo que o vocalista volte a exibir toda a potência de sua voz. A composição reúne diversos elementos já apresentados ao longo do álbum, mas evita a repetição ao explorar novas nuances, incluindo diferentes abordagens vocais e variações de dinâmica. A sensação é de uma obra que cresce progressivamente, revelando novas possibilidades a cada audição e preparando o terreno para os momentos finais.

Depois de tanta elaboração, My Crime chega com um impacto imediato. Uma guitarra pesada e veloz, acompanhada por uma cozinha igualmente contundente, estabelece um início agressivo antes de ceder espaço a uma passagem centrada em piano e voz. É nesse contraste que a música reencontra a dramaticidade característica do álbum, desembocando em seu refrão mais melódico. A alternância entre peso e delicadeza se repete ao longo da faixa, conferindo personalidade à composição e tornando suas diferentes seções particularmente eficazes.

Para encerrar, As One aposta em uma balada de orientação semiacústica, permitindo que Zak Stevens explore sua voz com maior liberdade. O uso criterioso dos backing vocals reforça os momentos de maior intensidade sem comprometer a delicadeza do arranjo. É um fechamento elegante, que privilegia a melodia e a interpretação vocal depois de um percurso marcado por mudanças de dinâmica, densidade instrumental e ambição composicional.

Beyond The Grave é, sem dúvida, o álbum mais ambicioso do Archon Angel até aqui, sobretudo pela maneira como suas composições integram diferentes elementos sem sacrificar a identidade do conjunto. Zak Stevens entrega aquilo que seus admiradores esperam: uma voz poderosa, teatral e expressiva, capaz de transitar entre passagens incisivas e momentos de maior sensibilidade. As referências ao Savatage, de Sirens a The Wake of Magellan, são inegáveis, especialmente na construção das melodias, nos arranjos vocais e na dramaticidade que atravessa o repertório.

Isso, entretanto, está longe de significar que o Archon Angel seja uma simples reprodução do Savatage. A influência funciona como ponto de partida para uma proposta que combina heavy metal, sofisticação progressiva, elementos orquestrais e uma abordagem teatral bastante particular. A participação de Stevens torna inevitável a comparação, mas o mérito de Aldo Lonobile e dos demais envolvidos está justamente em transformar essas referências em composições que procuram novos caminhos.

Com faixas como Beyond The Grave, Ethereal e Who Am I, o álbum confirma que grandiosidade e complexidade não precisam excluir a força das boas melodias. É um trabalho que recompensa a atenção aos detalhes e reforça a posição do Archon Angel como um projeto de personalidade própria, capaz de dialogar com um legado histórico sem viver exclusivamente à sua sombra.

***ENGLISH VERSION***

With Zak Stevens at the helm, Archon Angel deepens its musical identity on an ambitious album where heavy metal meets theatrical drama, orchestral textures, and the compositional sophistication that helped define Savatage’s legacy.

Led by vocalist Zak Stevens (Savatage) and guitarist, songwriter, and producer Aldo Lonobile, Archon Angel returns with Beyond The Grave, its third studio album, due out in December 2026 via Frontiers Music Srl. While the band’s roots in Savatage’s legacy remain unmistakable, the project continues to develop a personality of its own, exploring intricate arrangements, memorable melodies, and cinematic atmospheres. The result is an album that balances heaviness, sophistication, and emotional intensity, with Stevens’ voice once again taking center stage.

The title track opens the album and makes the connection to Savatage clear within seconds. Its theatrical atmosphere, Stevens’ commanding presence, and, above all, the layered backing vocals recall the era of The Wake of Magellan. Yet there is no sense of simply recycling a familiar formula. The composition is carefully constructed, with dynamic shifts and vocal layers contributing to its grandeur. It is a first-rate opener that establishes the album’s aesthetic direction without limiting its possibilities.

With a more direct approach and guitars firmly in the spotlight, Bloodline shifts the focus toward traditional heavy metal. Stevens’ theatrical delivery remains, as do his intricate vocal lines, but the backing vocals are rougher around the edges, adding texture without overcrowding the arrangement. Less elaborate than the opening track, the song finds its strength precisely in that straightforward approach.

Without Eyes returns to a more melodic direction, introducing a mysterious atmosphere through a beautiful piano-led opening, enhanced by keyboards that establish the mood. Zak’s voice guides the song with confidence into an engaging chorus, enriched by multiple vocal layers that never overshadow the lead. Although firmly rooted in traditional heavy metal, the track distinguishes itself through its combination of accessible melodies and atmospheric nuances. The piano, in particular, deserves special mention for the way it shapes the song’s development.

More measured in pace, You delves further into the theatricality that permeates the album. The vocal lines and backing vocals establish a kind of dialogue, creating counterpoints that heighten the drama. Aldo Lonobile’s guitars dominate both the foundation and an excellent solo, while the synthesizers sustain the sense of suspense introduced on the previous track. In the final third, piano and voice take center stage in a particularly sensitive passage, demonstrating how the band can explore moments of restraint without sacrificing intensity.

Driven by double-kick drums and an approach that flirts with the grandeur of Broadway musicals, Chasing Demons reveals another side of the band. At times, Stevens’ almost spoken delivery accentuates the theatrical character of the composition, transporting the listener into a dramatic universe without abandoning its metallic core. Intricate vocal lines combine with well-crafted melodies, while the guitar tones in the solos occasionally evoke the technical exuberance of Cacophony. It is another track that adds new layers to the album’s sonic identity.

Darkest Hour emerges as one of the album’s most straightforward heavy metal moments. Sharp guitars and a brief solo introduce Zak’s vocals, which lead into a simple, effective chorus free of unnecessary embellishment. The backing vocals appear sparingly, reinforcing the melody without competing with the singer. The Hammond organ provides the instrumental highlight, adding a distinctive sonic dimension to the arrangement. The rhythm section keeps everything impressively tight, while a piano passage set against a heavy instrumental backdrop prepares the ground for another excellent guitar solo. By this point, the album has demonstrated a remarkable ability to introduce fresh ideas without losing its overall coherence.

With Ethereal, however, Archon Angel reaches one of its most inspired moments. Imposing keyboards, heaviness, and speed establish an epic atmosphere from the outset, while the backing vocals heighten the grandeur of the verses. For the first time, vocal effects and layered harmonies take center stage in shaping the chorus, reinforcing the song’s cinematic scope. Stevens delivers a powerful performance that makes it easy to imagine the impact this composition could have onstage. The piano once again stands out, punctuating the arrangement at precisely the right moments, while the guitar solo arrives at just the right time. Alongside the title track, this is one of the album’s major highlights.

Maintaining the epic atmosphere, Who Am I begins with guitars and keyboards in full force before slowing down into a more delicate passage, with the guitar taking on a secondary melodic role. Zak’s voice guides the composition, while the orchestration adds mystery and drama until the song regains its weight and places the spotlight firmly on guitars and vocals. The chorus is direct and unadorned, gaining depth from the vocal textures. Instrumentally, the highlight lies in the interplay between the piano and the other elements, which considerably expands the arrangement’s complexity. It is another standout on an album whose greatest strengths lie in its balance of power and refinement.

On Asylum, Stevens initially adopts a softer delivery, accompanied by delicate pizzicato strings, piano, and orchestral elements. The band’s entrance gradually transforms the atmosphere, allowing the vocalist to display the full power of his voice once again. The composition brings together several elements introduced earlier in the album but avoids repetition by exploring new nuances, including different vocal approaches and dynamic variations. The result is a song that builds progressively, revealing new possibilities with each listen and setting the stage for the closing stretch.

After so much intricate musical construction, My Crime hits with immediate impact. Heavy, fast guitar work and an equally forceful rhythm section establish an aggressive opening before giving way to a passage centered on piano and voice. It is through this contrast that the song reconnects with the album’s trademark drama, leading into its most melodic chorus. The alternation between heaviness and delicacy returns throughout the track, giving the composition a distinct personality and making its contrasting sections particularly effective.

To close the album, As One opts for a semi-acoustic ballad, giving Zak Stevens plenty of room to showcase his voice. The judicious use of backing vocals reinforces the more intense moments without compromising the delicacy of the arrangement. It is an elegant conclusion that puts melody and vocal expression front and center after a journey marked by dynamic shifts, instrumental density, and compositional ambition.

Beyond The Grave is undoubtedly Archon Angel’s most ambitious album to date, particularly in the way its compositions integrate different elements without sacrificing the band’s identity. Zak Stevens delivers what his admirers have come to expect: a powerful, theatrical, and expressive voice capable of moving between incisive passages and moments of greater sensitivity. References to Savatage, from Sirens to The Wake of Magellan, are unmistakable, particularly in the melodic construction, vocal arrangements, and dramatic intensity that run throughout the record.

That, however, does not make Archon Angel a mere replica of Savatage. The influence serves as a starting point for an approach that combines heavy metal, progressive sophistication, orchestral elements, and a distinctive theatrical sensibility. Stevens’ presence makes comparisons inevitable, but the achievement of Aldo Lonobile and everyone involved lies in transforming those influences into compositions that seek new directions.

With tracks such as Beyond The Grave, Ethereal, and Who Am I, the album confirms that grandeur and complexity need not come at the expense of strong melodies. This is a record that rewards close attention to detail and reinforces Archon Angel’s status as a project with an identity of its own, capable of engaging with a historic legacy without living exclusively in its shadow.

Susan Clayton

sábado, 31 de outubro de 2026

Cobertura de Show: Roy Khan – 17/10/2026 – Carioca Club/SP

Roy Khan no Carioca Club: nostalgia, grandes clássicos e uma noite para guardar na memória

Sabe aquele show que você fica esperando há um tempão e, quando finalmente acontece, dá vontade de voltar no dia seguinte só para viver tudo de novo? Foi mais ou menos assim que saí do Carioca Club no dia 17 de outubro, depois de assistir ao show de Roy Khan, uma das vozes mais marcantes do metal melódico.

Quem conhece o trabalho do Roy sabe que não estamos falando de qualquer cantor. O cara fez história no Kamelot, participou de alguns dos discos mais importantes da banda e tem aquela voz que você reconhece em poucos segundos. E ouvir ao vivo músicas que fizeram parte da nossa vida tem um gostinho especial, né?

Roy esteve no Brasil em abril, quando se apresentou no Bangers Open Air, mas, infelizmente, eu estava cobrindo outro show, que agora não vou me lembrar (risos). Fiquei naquela situação de ver todo mundo comentando sobre o show e pensando: poxa, perdi essa! Mas eis que veio uma segunda oportunidade. Pensando nos fãs que também não conseguiram estar no show do Bangers Open Air, o cantor voltou a São Paulo para uma apresentação no Carioca Club.

E, olha, ainda bem que esse show aconteceu, porque eu não ia querer ficar só na vontade de ouvir esses clássicos ao vivo.


Roy Khan: uma voz que marcou a história do Kamelot

Antes de falar do show em si, vale lembrar um pouquinho da trajetória desse homem, porque história é o que não falta.

Roy Khan começou sua carreira com o Conception, banda norueguesa de metal progressivo, nos anos 1990. Em 1998, entrou para o Kamelot e, a partir daí, ajudou a construir uma das fases mais queridas da banda.

E não foram poucos os discos que marcaram essa trajetória. Karma (2001), Epica (2003), The Black Halo (2005) e Ghost Opera (2007) estão entre os trabalhos que consolidaram seu nome no metal. São álbuns que misturam power metal, elementos sinfônicos, melodias marcantes e aquela dramaticidade que combina perfeitamente com a interpretação de Roy.

Se eu tivesse que escolher um disco para representar essa fase, seria The Black Halo. Aliás, esse álbum é um dos meus favoritos do Kamelot! Lançado em 2005 e inspirado na história de Fausto, ele tem músicas que continuam funcionando tão bem hoje quanto na época em que foram lançadas.

“March of Mephisto”, “When the Lights Are Down” e “The Haunting” são alguns exemplos de como a banda conseguia criar músicas grandiosas sem perder o peso e a melodia. E a voz de Roy era uma parte fundamental disso tudo.

Ele deixou o Kamelot em 2011, mas continuou sua trajetória com o retorno ao Conception, que lançou My Dark Symphony (2018) e State of Deception (2020). Ao longo dos anos, também participou de outros projetos e colaborações, mantendo seu nome presente na cena.

Mas, convenhamos, para muita gente, Roy Khan será sempre aquela voz que deu vida a alguns dos maiores clássicos do Kamelot. E o show no Carioca Club foi uma bela oportunidade de matar a saudade dessa fase.


Maestrick: os brasileiros mostraram a que vieram!

A noite começou com a Maestrick, banda brasileira de metal progressivo que vem conquistando cada vez mais espaço na cena. E já vou adiantar: os caras fizeram bonito!

A banda foi escolhida para acompanhar Roy Khan na turnê The Black Halo and Beyond, pela América Latina. E, depois de assistir à apresentação, ficou bem fácil entender essa escolha.

A Maestrick não estava ali apenas para acompanhar um artista internacional. Os músicos mostraram personalidade, qualidade e um entrosamento daqueles que fazem a gente perceber quando existe muito trabalho por trás de uma apresentação.

Fabio Caldeira nos vocais, Caio Kehyayan na guitarra, Renato Montanha no baixo, Chris Oliveira na bateria e Charles Soulz nos teclados entregaram um show muito consistente. Todo mundo estava afiado, e a interação com o público aconteceu de maneira natural, sem aquela sensação de que a banda estava apenas cumprindo tabela antes da atração principal.

Fabio, em especial, me chamou a atenção pela maneira como conduz os vocais. Ele tem técnica, precisão e sabe colocar emoção na interpretação. Não é só aquela coisa de mostrar que consegue cantar notas difíceis: existe sentimento ali, e isso faz diferença demais no palco.

E essa parceria com Roy Khan não começou agora. No ano passado, a Maestrick lançou “Lunar Vortex”, faixa que conta com a participação do cantor norueguês. Então, os músicos já tinham essa conexão, e foi muito legal ver como ela funciona também ao vivo.

Outra coisa de que gosto na Maestrick é que, apesar de a banda trabalhar com uma sonoridade que conversa muito bem com o prog metal internacional e cantar bastante em inglês, ela não deixa suas raízes brasileiras de lado.

Um dos momentos mais legais do show foi “Penitência”, cantada em português e carregada daquela identidade cultural que faz parte da proposta da banda. E eu acho isso muito importante! É ótimo ver nossos músicos buscando espaço lá fora, mas sem precisar deixar de lado aquilo que os torna únicos.

Durante a apresentação, Fabio agradeceu ao público pela recepção e falou sobre a emoção de ter a oportunidade de acompanhar Roy Khan nessa turnê. Foi um momento muito bacana, porque dava para perceber o quanto aquilo significava para ele.

E o público correspondeu! A galera cantou, pulou e vibrou junto com a banda. Claro que todo mundo estava ansioso para ver Roy, mas a Maestrick conseguiu segurar muito bem essa expectativa e entregar uma apresentação que valeu por si só.

Sabe quando você vai para um show esperando curtir a atração principal e acaba saindo também com vontade de ouvir mais da banda de abertura? Foi essa a sensação. E, sinceramente, é muito bom ver uma banda brasileira mostrando serviço em um palco desses.


Roy Khan: pontualidade, clássicos e um público que sabia cada palavra

Roy subiu ao palco às 19h15, cravadas! E eu preciso fazer um comentário aqui: como é bom quando um show começa no horário anunciado! (risos).

Pode parecer bobagem, mas eu valorizo muito isso. É respeito com quem comprou ingresso, se organizou para chegar ao local e tem outros compromissos no dia seguinte. E nós, os 30+, agradecemos especialmente quando o show começa cedo e não precisamos voltar para casa de madrugada!

Mas vamos ao que interessa: Roy Khan estava ali, diante de nós, pronto para cantar aqueles clássicos que tanta gente esperava ouvir.

O show foi lindo. E digo isso não apenas pela qualidade vocal, que continua impressionante, mas também pela maneira como ele se relacionou com o público durante toda a apresentação.

Roy tem uma presença de palco muito particular. Não precisa ficar exagerando nos movimentos ou tentando chamar atenção o tempo inteiro. Ele simplesmente entra, começa a cantar e pronto: todo mundo está olhando para ele.

Sua voz estava impecável, com aquela precisão que a gente conhece dos discos, e foi muito legal perceber o quanto ele parecia confortável naquele repertório. As músicas fluíam, os músicos estavam muito bem entrosados e o público cantava praticamente tudo.

Em vários momentos, a plateia gritava o nome de Roy, e ele recebia esse carinho com um sorriso e muita gratidão. Teve também um comentário que achei especialmente simpático: ele disse que estar em São Paulo era como estar em casa.

E olha, considerando que essa foi a segunda vez que ele passou pela cidade neste ano, acho que os fãs têm motivos para acreditar! (risos)

O mais bonito era ver como as músicas estavam vivas na memória de todo mundo. Não importava se era um refrão mais conhecido ou uma passagem mais longa: a galera acompanhava, cantava e fazia aquele coral que só acontece quando existe uma conexão real entre o artista e o público.

E eu gosto muito de observar essas coisas durante um show. Às vezes, a gente fica tão concentrado em ouvir o cantor que esquece de olhar ao redor. Mas ver um monte de gente cantando a mesma música, cada um com sua história e suas lembranças, é uma das partes mais legais de ir a um show.

Naquela noite, ficou muito claro o quanto Roy Khan continua sendo querido por aqui.



Zoe Federoff e um dos momentos mais bonitos da noite

Além dos músicos da Maestrick, que acompanharam Roy com muita competência, tivemos a participação especial de Zoe Federoff, ex-vocalista do Cradle of Filth.

Fabio Caldeira também ficou responsável pelos backing vocals, enquanto Zoe participou das passagens vocais que ajudaram a dar ainda mais força a algumas músicas. E foi em “The Haunting” que ela brilhou especialmente.

Para quem não lembra, a versão original conta com Simone Simons, vocalista do Epica, dividindo os vocais com Roy. É uma música que pede bastante interpretação, porque não basta cantar bem: tem todo um clima dramático que faz parte da composição.

Zoe deu conta do recado muito bem! Sua voz combinou com a proposta da música, e a interpretação ficou intensa, criando um daqueles momentos em que você simplesmente para e pensa: caramba, que bonito!

O público gostou tanto que começou a gritar o nome dela, e foi muito legal ver a reação da cantora, visivelmente feliz com o carinho que estava recebendo.

E preciso dizer: Zoe estava lindíssima e afinadíssima! Mesmo participando como vocalista de apoio, ela não passou despercebida em nenhum momento.

Para quem acompanha sua trajetória, o reencontro com o público brasileiro também teve um significado especial, especialmente depois de sua saída conturbada do Cradle of Filth. Sua última passagem pelo Brasil havia sido marcada por esse contexto, inclusive após uma apresentação no Carioca Club.

Dessa vez, foi muito bom vê-la em outro momento, dividindo o palco com músicos talentosos e recebendo uma resposta tão calorosa da plateia.

No fim, o que ficou foi a música e uma participação que acrescentou muito ao show. Zoe mereceu cada grito e cada aplauso!

The Black Halo: um disco que continua sendo especial

Agora, se tem uma coisa que me deixou feliz nessa noite foi poder ouvir ao vivo tantas músicas de The Black Halo.

Eu já falei que esse é um dos meus discos favoritos do Kamelot, né? Então imaginem a minha alegria!

“When the Lights Are Down” foi daqueles momentos em que o público cantou junto sem economizar a voz. “Moonlight” trouxe mais uma vez aquela atmosfera envolvente, enquanto “Memento Mori” mostrou por que esse álbum é tão especial para quem gosta de músicas longas, dramáticas e cheias de nuances.

É um disco que tem personalidade. Cada faixa parece fazer parte de uma história maior, e Roy sabe muito bem como conduzir essas músicas, dando o peso certo a cada momento.

O interessante é que, mesmo depois de tantos anos, elas não soam como lembranças distantes. Pelo contrário: continuam despertando a mesma empolgação, e talvez até mais, porque agora a gente consegue olhar para trás e entender o tamanho da importância que tiveram na história do metal.

E então veio “March of Mephisto”, encerrando a apresentação em grande estilo.

Foi um final à altura de tudo o que aconteceu naquela noite. Uma música grandiosa, cheia de personalidade, que colocou o público para cantar mais uma vez e deixou aquela vontade de que o show pudesse continuar por mais algumas horas.

Se dependesse da galera, acho que ninguém reclamaria de um repertório ainda maior!

Um show que valeu a espera

Saí do Carioca Club muito feliz por finalmente ter conseguido ver Roy Khan ao vivo. Perder sua apresentação no Bangers Open Air tinha sido frustrante, mas essa segunda oportunidade acabou tornando a experiência ainda mais especial para mim.

Foi uma noite de grandes músicas, boas surpresas e, acima de tudo, muito carinho. Roy mostrou que continua com uma voz impressionante e que a conexão com seus fãs permanece firme. A Maestrick fez uma abertura excelente e provou que merece cada vez mais espaço, enquanto Zoe Federoff adicionou um brilho especial a um show que já tinha tudo para dar certo.

E acho que esse é um dos motivos pelos quais a gente continua indo a shows, mesmo depois de tantos anos. Não é só para ouvir ao vivo aquela música que já escutamos centenas de vezes. É pela experiência, pelo encontro com outras pessoas que gostam das mesmas coisas e pela sensação de que, durante algumas horas, o mundo lá fora pode esperar.

Naquela noite, eu estava ali, cantando músicas que continuam tendo um lugar especial na minha vida, cercada por gente que também sabia de cada palavra. E foi impossível não pensar em como algumas bandas e artistas acompanham a gente por tanto tempo que acabam fazendo parte da nossa própria história.

O show terminou, as luzes acenderam e chegou a hora de voltar para casa. Mas a cabeça continuou no Carioca Club, repassando os melhores momentos e cantarolando aqueles refrões que insistem em não sair da cabeça.

No fim das contas, acho que a música tem mesmo esse poder: ela guarda um pedacinho de quem fomos, acompanha quem somos e, de vez em quando, nos devolve tudo isso de uma vez só.

E, quando uma voz como a de Roy Khan volta a cantar aquelas músicas, a gente percebe que algumas coisas não precisam voltar a ser como eram para continuarem sendo especiais.

Basta a primeira nota, um refrão cantado por centenas de pessoas e aquela sensação boa de estar exatamente onde deveria estar.

E, dessa vez, eu estava lá. Ainda bem!

Texto: Michelle F. Santana

Fotos: Amanda Vasconcelos 


Realização: Agência Artística 

Press: TRM Press


Roy Khan – setlist:

When the Lights Are Down

Soul Society

Moonlight

Center of the Universe

Abandoned

The Haunting (Somewhere in Time)

Rule the World

Memento Mori

Nights of Arabia

Karma

Forever

Bis

Ghost Opera

Epilogue

March of Mephisto