A cena sleaze europeia segue revelando nomes consistentes, e os suecos do Smoking Snakes dão um passo importante com All Lights On, álbum que chega em 10 de julho de 2026 via Frontiers Music Srl. Produzido por Jack Stroem, o trabalho evidencia uma banda mais madura, que equilibra com precisão peso e melodias acessíveis, sem abrir mão da estética oitentista que define sua identidade.
A breve vinheta de abertura, “103.1 The Scream - The 80's Late Night Radio Broadcast”, funciona como ambientação, simulando transmissões radiofônicas e preparando o terreno para a sequência do disco. Na prática, é a partir de “Don’t Touch” que o álbum ganha corpo: uma faixa que flerta com o heavy metal mais clássico na introdução, mas rapidamente assume contornos melódicos, com refrão forte e vocais em coro que a posicionam mais próxima do sleaze tradicional.
“Trick or Treat” reforça essa dualidade ao combinar riffs de inspiração claramente oitentista — com ecos de Judas Priest — a um refrão acessível e direto. Já “All I Need” aposta em andamento mais cadenciado, destacando o trabalho de guitarras dobradas e arranjos vocais que remetem à escola do hard rock americano, com forte apelo melódico.
A primeira mudança mais perceptível de dinâmica aparece em “Look In Your Eyes”, que se inicia de forma contida antes de evoluir para uma faixa de caráter mais épico, com estrutura que flerta com o formato de power ballad. Em seguida, “Last Man Standing” retoma a objetividade, apostando em riffs diretos e em uma abordagem mais crua, sem excessos.
“Screaming For More” é um dos momentos mais declaradamente nostálgicos do álbum, evocando a estética dos videoclipes dos anos 80, tanto na construção musical quanto na atmosfera geral. Ainda assim, a produção moderna impede que a faixa soe datada, mantendo sua relevância para o público atual.
Apesar do título sugerir o contrário, “Broken Heart” passa longe de ser uma balada convencional. Trata-se de uma faixa de perfil quase hínico, sustentada por camadas de backing vocals e uma construção melódica eficiente. Em “Nasty & Wild”, o destaque recai sobre o baixo, que ganha maior protagonismo e adiciona textura à base instrumental, além de um interessante breakdown centrado em baixo e bateria.
Já “Turn On the Lights” traz influências mais diretas do hard rock setentista, especialmente na introdução, enquanto desenvolve um refrão mais elaborado, com múltiplas linhas vocais sobrepostas. Na reta final, “Pleasure & Pain” entrega um dos momentos mais energéticos do disco, apostando em velocidade, riffs incisivos e uma abordagem direta que remete ao metal oitentista em sua forma mais crua.
O encerramento com “The Last Nightmare”, outra vinheta, reforça o caráter conceitual leve do álbum, funcionando como epílogo atmosférico.
No balanço geral, All Lights On consolida o Smoking Snakes como um nome relevante dentro do sleaze contemporâneo. Ao combinar referências clássicas com uma produção atual e bem direcionada, a banda não apenas reafirma suas influências, mas também demonstra evolução e personalidade — elementos essenciais para se destacar em um cenário cada vez mais competitivo.
***ENGLISH VERSION***
The European sleaze scene continues to produce increasingly solid contenders, and Sweden’s Smoking Snakes take a significant step forward with All Lights On, set for release on July 10, 2026, via Frontiers Music Srl. Produced by Jack Stroem, the album showcases a band operating with greater maturity, striking a confident balance between grit and melody while fully embracing the aesthetics of classic ’80s arena rock.
The brief opener, “103.1 The Scream - The 80's Late Night Radio Broadcast”, serves as a scene-setter, mimicking a late-night radio transmission and easing the listener into the record’s nostalgic framework. Properly speaking, the album kicks into gear with “Don’t Touch”, a track that initially flirts with traditional heavy metal before quickly shifting into more melodic territory, driven by a hook-laden chorus and gang vocals that lean firmly into sleaze conventions.
“Trick or Treat” reinforces this duality, pairing razor-sharp, Priest-like riffing with an accessible, chant-ready refrain. Meanwhile, “All I Need” slows the pace slightly, highlighting twin-guitar harmonies and polished vocal arrangements rooted in classic American hard rock, with a strong emphasis on melody.
A notable shift in dynamics arrives with “Look In Your Eyes”, which begins on a restrained note before building into a more expansive, almost anthemic piece that flirts with power ballad territory. “Last Man Standing” quickly counters that approach, favouring a more stripped-down, riff-driven structure that prioritises directness over embellishment.
“Screaming For More” stands out as one of the album’s most overtly nostalgic moments, evoking the golden era of MTV through both its musical construction and overall atmosphere. Crucially, however, the modern production prevents it from feeling like mere pastiche, ensuring its appeal extends beyond retro revivalism.
Despite its title, “Broken Heart” avoids ballad clichés altogether, emerging instead as a near-anthem built on layered backing vocals and a strong melodic core. “Nasty & Wild” shifts the spotlight onto the bass, which takes on a more prominent role, adding depth to the arrangement—particularly during a breakdown section centred on bass and drums.
“Turn On the Lights” introduces a touch of ’70s hard rock flair, especially in its opening, before unfolding into a more intricate chorus driven by overlapping vocal lines. Towards the back end, “Pleasure & Pain” delivers one of the album’s most energetic performances, embracing speed, sharp riffing, and a no-frills approach that channels the raw spirit of ’80s metal.
The closing vignette, “The Last Nightmare”, acts as a brief epilogue, reinforcing the album’s loose conceptual thread while providing a fittingly atmospheric conclusion.
Overall, All Lights On cements Smoking Snakes as a rising force within the contemporary sleaze landscape. By blending classic influences with a clean, modern production and a sharpened sense of identity, the band not only pays homage to its roots but also demonstrates the personality and evolution necessary to stand out in an increasingly crowded field.
Quando se fala em Smith/Kotzen, os holofotes naturalmente recaem sobre os dois nomes à frente do projeto: Adrian Smith, guitarrista do Iron Maiden, e Richie Kotzen, um dos mais versáteis instrumentistas do rock, com passagens marcantes pelo Mr. Big e The Winery Dogs. Mas há um detalhe que transforma essa história em algo ainda mais especial para o público brasileiro, que é a espinha dorsal rítmica do projeto, formada por dois músicos do país: a baixista Julia Lage, também conhecida pelo trabalho no Vixen, e o baterista Bruno Valverde, veterano do Angra.
Mais do que músicos de apoio, Julia e Bruno são parte da alma do Smith/Kotzen ao vivo. E é justamente essa dupla que recebemos para uma conversa franca sobre música, identidade, representatividade e a expectativa de encerrar a turnê em casa, no Bangers Open Air 2026, dia 26 de abril, no Memorial da América Latina, em São Paulo. Com humor, afeto e muita honestidade, eles falaram sobre o ambiente familiar que cerca o projeto, os desafios e conquistas de uma carreira construída palco a palco, e o que os fãs brasileiros podem esperar de um show que, nas palavras deles, vai entregar "só creme".
O Smith/Kotzen, no geral, mistura hard rock, tem uma pegada groove, traz elementos de blues rock... São muitos estilos juntos, mas com uma identidade muito definida. Tanto o Adrian quanto o Richie têm essa firmeza e clareza quanto ao estilo deles. A minha pergunta para vocês nisso é: o quanto essa junção de estilos, e até esses estilos de forma isolada, pesa na identidade de vocês como músicos? É algo que vem mais como um desafio, do tipo 'vamos ver como isso funciona', ou é algo que vocês falam simplesmente encaixa naturalmente, como uma luva? 'não, cai como uma luva, é isso mesmo?'
JL: Para mim, meio que caiu como uma luva, porque eu cresci ouvindo hard rock, rock, blues… Então tudo meio que veio dali, do blues e do jazz, e acabou virando rock. Uma coisa conversa com a outra, não é muito diferente. E a gente não está tocando blues, a gente é mais rock. Então o estilo ali, para mim, é super natural. Quando eu ouvi o álbum, ou quando tive que aprender, nada me chamou atenção do tipo 'nossa, não é progressivo', por exemplo. Apesar de que tem uma outra partizinha ali, numa música ou outra, que tem um proguizinho, né, Bruno? (risos)
BV: O senhor Richie Kotzen é o extra bar guy, eu chamo ele assim.
JL: Ele gosta de adicionar uma barra extra no nada. Você fala, por que tem uma barra? Mas, sim, para mim caiu como uma luva com certeza. Então, não sei... Para o Bruno, provavelmente também.
BV: Eu não sou muito da escola do hard rock, não foi algo que eu cresci ouvindo, para ser bem sincero. Mas eu sempre toquei, quando era mais novo, em banda cover, então estou bem familiarizado com o estilo, claro. Então acho que realmente tem um blend ali dos dois, o que é muito legal e faz todo sentido.
Vocês têm uma atmosfera de amizade muito forte, a questão de ensaiarem na casa, de conviverem juntos, a presença da Julia, mulher do Richie, e o Bruno ficando amigo dele, tipo: “O quê? Me chamaram? Como assim? Estou indo!”. Essa atmosfera que vocês criaram, vocês sentem que, de alguma forma, traz uma sensação diferente em relação às outras bandas das quais vocês já participaram?
JL: Para mim, traz, certamente. Eu sou casada com o Richie, o Adrian muitas vezes traz a esposa, a Nathalie, que vai em turnê com a gente. E o Bruno é brasileiro, é família. A gente tem um ambiente bem familiar, bem tranquilo. Eu sinto que, quando estamos sentados no ônibus, conversando, é tudo muito natural. Ninguém está numa vibe esquisita. Então acho que é por conta disso mesmo. Não sei se o Bruno sente a mesma coisa.
BV: Eu acho que sim. Se fosse, de repente, com outro artista com quem você não tem tanta familiaridade, você acaba mantendo certos critérios. Não querendo dizer que não exista respeito, mas é um outro estilo de profissionalismo com o qual você vai lidar. Você tem muito mais barreiras. Às vezes, não tem liberdade para falar de alguns assuntos. Tanto que, nessa turnê, a gente falou sobre estilos de música que gosta e que não gosta, até de política, e tudo bem. Todo mundo ali, conversando, sem problema, sem treta nenhuma. Cada um, às vezes, colocando sua opinião sem ter essas barreiras do tipo 'não posso falar isso porque o chefe pensa assim' ou 'não dá para falar de certa coisa, como política'. Então foi bem aberto. Eu acho que realmente tem uma diferença nesse sentido. Nem todo tipo de projeto permite essa familiaridade que a gente tem ali, e isso é bem legal.
Complementando a primeira pergunta: vocês sentem que essa familiaridade pode trazer mais abertura no processo criativo? Porque, até então, normalmente são mais eles dois à frente. Vocês até contribuem com algumas coisas, mas a produção toda acaba ficando mais com eles.
JL: Eu acho que vai sempre ser dos dois, porque o projeto é deles. Então é algo em que eles sentam, entram no estúdio e ficam lá, trocando ideias, cada um tentando trazer o que vê. O Richie se apega muito à letra, ele vai, pensa bastante nisso e desenvolve a partir daí. É o projeto deles. Eu e o Bruno gravamos no álbum, mas, por exemplo, já em partes que eles tinham em mente o que queriam. Então era algo como 'vai ser mais ou menos assim, assado, estruturado'. A gente faz a nossa parte, mas já dentro de um contexto, com uma base definida tipo 'olha, é isso aqui'. Eu acho que a música é deles, o projeto é deles. Eu, pelo menos, me sinto muito grata por poder participar dos shows ao vivo e, inclusive, das gravações do álbum. Mas o processo criativo acho que fica entre os dois. Existe uma conversa aqui e ali. Talvez fosse legal, um dia, todo mundo ir para o estúdio e tentar fazer um barulho juntos. Não sei se isso vai rolar ou não, mas, a princípio, é deles.
É porque, no geral, por enquanto, está tudo bem definido, já meio que redondo. Isso talvez possa ser uma possibilidade, ali na frente, para agregar alguma coisa em um trabalho novo.
JL: É que também eu acho assim: os dois têm uma ideia de música muito clara. Então, o Richie toca bateria e baixo, o Adrian também toca baixo e sabe o que quer ouvir na bateria. Entre os dois, no estúdio, eles mesmos já vão além, sentam, pegam o baixo e constroem tudo ali. É diferente de quando, por exemplo, você tem um vocalista que talvez não toque todos os instrumentos ou não entenda tanto deles. Nesse caso, ele acaba trazendo uma banda para ajudar a criar, ou um produtor que vai lá e desenvolve com ele. Os dois entendem e sabem exatamente o que querem com os instrumentos. Então fica mais fácil para eles fazerem tudo entre os dois.
BV: E, fora isso, como a Julia falou, eles já têm muito bem definido o que querem fazer e têm uma experiência de um milhão de anos na música. Tem também essa questão de, às vezes, mandar para outra pessoa gravar, aí vem o recall, e até você mudar uma parte no meio do caminho, o cara já está em outra turnê, cada um com o seu projeto. Então, às vezes, isso não ajuda no processo de deixar tudo mais definido. Em alguns casos, o músico precisa de algo muito específico, tecnicamente, em um instrumento que não é o dele. Aí ele pensa 'opa, preciso do outro cara ali para resolver isso'. Mas, no geral, como não é uma proposta instrumental, progressiva ou maluca — é algo mais direto ao ponto —, eles conseguem resolver tudo entre eles. Então não existe muito essa expectativa de 'pô, quero sentar no estúdio com todo mundo', porque isso não faz tanto sentido para a proposta musical que eles querem seguir.
Bruno, você comentou sobre os covers que fazia. Eu te conheço da cena local, porque também sou mauaense (risos). Imagina, para alguém que é do mesmo lugar que você, ver essa sua crescente com o Angra, tendo conhecido músicos que, enquanto você ainda estava engatinhando, já estavam lá criando tantas coisas… Como é isso para você? Como você se sente? Eu sei que você já deu muitas entrevistas falando sobre isso, mas imagino que a resposta nunca seja exatamente a mesma.
BV: Não tem muito o que dizer. Obviamente, a gente cresce, como eu estava falando antes, e isso parece algo sempre muito distante de acontecer. Você cresce em um ambiente totalmente diferente e, de repente, se vê no palco com caras que você cresceu ouvindo e admirando não só pela música em si, mas como músicos também. O próprio Angra, o Kiko Loureiro, toda aquela coisa mais instrumental… E aí, depois, você vai para nomes lendários, como o Adrian Smith, e pensa 'pô, estou no palco com o cara'.
A gente até comentou daquele outro show que fizemos em Londres, nessa turnê, em que o Bruce Dickinson estava no palco. Você está ali, com o fone, ouvindo caras que, quando você nem era nascido, já estavam tocando em estádios e, de repente, você está junto ali. É algo inexplicável. É muito legal, mesmo.
É claro que teve uma evolução, não tem nem o que negar isso aí. Mas o que essencialmente você levou daquele Bruno, que fazia covers, que está até hoje com você?
BV: O que não muda é a paixão pela música em si, aquele spark de onde tudo começou. Eu nunca me vi fora da bateria. Desde que comecei, aos nove anos de idade, foi aquela coisa de 'sim, comecei na bateria' e pensei: não tem nenhuma outra coisa que eu vou fazer na minha vida a não ser estar em cima da batera. O que não muda para mim é essa paixão. Independentemente do projeto em que eu estiver ou com quem eu estiver tocando, eu vou sempre entregar o meu melhor, porque a música e a bateria estão acima de tudo. Eu estou ali para servir a música. Eu falo que sou o chão de fábrica da música, estamos ali para o negócio não parar de acontecer. Acho que a paixão pela música é algo que nunca se altera. Você muda a técnica, evolui, ganha mais experiência. O seu acabamento musical técnico, de arranjo e de percepção vai somando e melhorando ao longo do tempo, mas o que não muda é aquela paixão pela música. Isso é o mais importante para mim.
Isso foi uma entrega assim desde o início. E, nessa nova fase, você olhando de onde você está agora, olhando para trás, qual o seu principal sentimento?
BV: Gratidão. Acho que sou grato por tudo que a música me proporcionou. Sempre grato pelas grandes oportunidades que eu tive e que eu estou tendo ainda na música.
Julia, você tem a sua jornada ali desde a Barra da Saia. Você tem o Vixen também, que é um outro projeto seu. E, nessa questão do Smith/Kotzen mesmo, é a presença feminina que está ali. Isso já é enorme para o nosso país, imagina como um todo na música. Então é muito importante a gente ter essa representatividade. Nesse cenário dos espaços que a mulher ocupa — que lá atrás já tinha mulheres ocupando também, claro —, é o que a gente fala: a gente, como sociedade, como músicos, como amantes da música, progride, evolui, ou às vezes algumas coisas ficam ali no mesmo lugar. O que você sente na cena em relação a isso? Você acha que precisa evoluir muita coisa? Você acha que o espaço das mulheres está cada vez maior? Como isso funciona para você?
JL: Olha, eu vou ser bem sincera. Como o Bruno, eu comecei a tocar baixo e nunca parei. Eu comecei profissionalmente na Barra de Saia, eu tinha dezessete anos e eram só mulheres. Pra mim era normal, porque eu estou tocando música com outras musicistas, e a gente só pensava em ser musicista, não pensava se era mulher ou não, mas a banda era feminina.
A gente começou a notar isso quando fazia festas de rodeio, e alguém chegava e falava: 'Ah, mas vocês não estão tocando de verdade. Prova que você está tocando de verdade'. Aí comecei a pensar: 'Por que eles não acreditam que a gente está tocando de verdade?'. Foi aí que eu comecei a me ligar que era porque a gente é mulher. Mas nunca nos deixamos abalar ou qualquer coisa — a gente fazia o nosso. Isso faz muitos anos atrás. Eu estou nesse business há vinte e seis anos agora.
Quando eu mudei pra cá, eu integrei o Vixen, que é uma banda dos anos oitenta e noventa só de mulheres. Elas estão desde os anos oitenta fazendo rock and roll, dividiram palco com Kiss e Scorpions e estão até hoje tocando. E, pra mim, também rola esse mesmo tipo de conversa: 'Como é que é? É um monte de mulher que toca música?' A gente não pensa que é mulher primeiro, a gente pensa que toca música. A música é o que faz a gente estar ali junto, está acima de ser mulher, homem ou qualquer outra coisa.
E quando eu recebo qualquer convite com qualquer banda, eu não fico pensando: 'Será que é porque eu sou mulher?' ou 'Será que eu não recebi aquela ligação porque eu sou mulher?'. Eu nunca me coloco nessa posição, porque eu sou uma musicista. Então, talvez eu não seja competente pra entrar numa banda assim e tal, mas eu não vou colocar isso nas minhas costas por ser mulher. Eu vou pensar: 'Eu podia ter sentado mais horas e tocado melhor'. É assim que eu encaro a minha vida, não encaro pelo fato de ser mulher.
E eu acho que hoje em dia é o momento pra mulherada, porque tem Instagram, tem rede social, você consegue mostrar o seu talento de verdade. Antigamente, eu nem sei se tinham muitas mulheres que tocavam, porque eu não via. Eu estava no mercado e não via mulher tocando, ainda mais no Brasil, que tinha muita dançarina, cantora e não tinha instrumentista. Era muito difícil de achar. Hoje em dia está em qualquer esquina.
Então eu acho que é um momento bom. Eu acho que as mulheres também se ligaram: 'Ah, por que a gente também não pode?'. Então eu acho que é o momento pra ser mulher, tocar e esquecer isso. Vai tocar, que é uma coisa que te faz bem. Eu encaro a música assim.
É muito legal isso ser orgânico da sua parte. Por isso que eu falei da representatividade, porque tem muitas mulheres que, por exemplo, começam a tocar ou começam a cantar porque pensam: “Nossa, eu vi aquela cantora e me identifiquei muito, me inspirei”. Essa inspiração é importante. E, no seu caso, você ter tido isso não necessariamente por conta de uma representatividade, mas de uma forma bem mais orgânica nesse sentido, é excelente.
JL: Eu queria ser o Steven Tyler, do Aerosmith, eu queria ser o Sebastian Bach, do Skid Row, eu queria ser esses caras. E eu me inspirei neles porque eu gostava da música que saía deles quando eu era bem adolescente.
E aí foi que eu descobri que tinha mulher que tocava também naquela época, porque eu só conhecia os caras. No Brasil, tocava Guns N’ Roses, Aerosmith e Metallica. Tudo bando de homem. A única coisa que eu me sinto grata é de poder mostrar pra mulherada: 'Escuta, a gente também pode fazer'. E está tudo certo, porque é o que você falou. Acho que representar é o que é bacana.
E agora falando sobre o Brasil: claro que o público brasileiro a gente sabe que é puro calor e receptividade sempre. Qual é o sentimento de vocês em fazer parte do fortalecimento da cena a nível nacional? Porque uma coisa é vocês, sendo brasileiros, levarem isso lá pra fora; outra é tocar na terra de vocês. Querendo ou não, o DNA do Smith/Kotzen é cinquenta por cento brazuca.
BV: No palco, a gente está aí representando o nosso brasilzão. Cara, falar da expectativa para o festival já virou uma coisa rotineira pra gente, porque vai ser um grande momento.
Como estávamos conversando, a gente vê aí Mauá, não sei o quê, São Paulo ali, Júlia e tal, e, de repente, a gente volta pra casa, depois de tanto tempo morando fora, com um projeto tão bacana quanto esse. E eu acho que, falando também do ponto de vista do festival, é muito bacana ver que, com toda a coisa dispersa que existe hoje em relação à música — às vezes sendo só um objeto para outra coisa acontecer na frente —, você ter um festival dessa proporção no Brasil, em São Paulo, que está crescendo e já está consolidado é muito legal, porque é a valorização da música na veia.
Ali você vai ter tantos projetos diferentes, projetos novos. Essa própria reunião do Angra também, que é uma coisa diferente, que está todo mundo esperando um dia que acontecesse, e vai acontecer nesse festival. E é só alegria você ter música acontecendo. A gente vive pra isso, vive disso. E as pessoas precisam de mais música.
Pois é. Você aí duplamente nessa jornada.
BV: É, ali o bicho vai pegar! Jornada dupla!
Vai trabalhar nesse dia hein, cobra hora extra depois (risos).
BV: E falam que músico não trabalha, mas vou lá.
Ainda perguntam qual o seu emprego. Vê se pode...
BV: Exatamente! Eu vou terminar, tocar dois shows, aquecer três horas e as pessoas vão perguntar: você trabalha com o quê? Mas está tudo bem.
JL: Não sei se o pessoal é assim, mas teve uma época que era.
BV: É assim até hoje. Esses dias eu vi um cara, alguma coisa assim de serviço público, falando: 'Você não precisa estudar, você pode ser músico". Tipo assim... (risos)
Puxa, que valorização (risos).
BV: O cara é tipo vereador, um negócio assim. 'Ah, não sei o quê, não precisa estudar, você é músico', sabe assim? (N.: Júlia dando risada com o fato)
Até para tocar triângulo tem que ter uma puta técnica. Puta merda!
JL: Você tem que ter técnica pra tudo. E acho que tudo que você quer fazer bem feito, você vai ter que sentar, estudar e praticar e aprender. Mas voltando pra essa coisa do Brasil e fazer o festival, Três anos atrás, ou dois, eu toquei com a Vixen aí e já foi um super momento. Foi a primeira vez que a banda tocou no Brasil.
Só que a gente tocou na área Vip, então foi meio triste, A gente não conseguiu tocar para todo mundo que queria assistir a gente. Agora voltar para o Brasil, para São Paulo, minha terra natal, fechar a turnê lá com o Smith/Kotzen, com o meu marido do meu Lado, com o Brunão, com o Adriano... Desculpa, com o Adrian (risos).
Já está ficando brasileirada de novo, eu gosto disso (risos).
JL: (mais risadas) Já está sendo surreal, eu já estou com a expectativa lá nas alturas. Já sei que vai ser uma adrenalina incrível, que a gente vai ficar tudo emocionado, porque vai ser o último show da turnê. Então, contando os dias para o festival.
Eu imagino. A nível pessoal, eu já estou chorando só de pensar. Estou muito animada, vocês não têm noção. Sou muito fã.
O que, na verdade, nós, fãs, podemos esperar desse show de vocês no Bangers? É claro que, se tiver surpresa, vocês não vão falar, mas vocês acham que vai ter alguma coisa diferente?Porque vocês estão na turnê do último álbum de vocês, só que sempre tem alguma coisinha ali. Estou gostando da sua cara, vou até deixar você falar (referindo-se ao Bruno).
BV: Essa sua pergunta pegadinha, não vai colar. Surpresa, vai ter que estar lá no festival para ver.
JL: Vai pro festival ou vai pra Curitiba, sei lá...
BV: Se tiver, vai ser surpresa. Tem que estar lá para ver.
JL: A diferença que vai ser, que é óbvia, é que vai ser um show menor. O show de Curitiba vai ser o show inteiro, e o show do festival, como é só uma hora, a gente vai ter que fazer só a coisa bacana ali.
BV: Só creme!
JL: Só creme. Credo! É surpresa mesmo. O set, por sinal, a gente não sabe ainda. Eu acho que eles têm que pensar bem no que vão escolher pro show fluir legal e ainda tocar as que as pessoas esperam. Tem que ir, gente.
Qual que é a música, dentro do Smith/Kotzen, é a preferida de vocês. Qual é a música que vocês mais gostam e por que?
JL: Eu falei, na entrevista passada, que uma música que eu curti muito tocar nessa turnê foi "Blacklight", por conta da linha de baixo. É uma linha de baixo muito gostosa de tocar. (N.: Julia faz gestos da levada de bateria do refrão da música). Eu gosto muito dessa música porque ela é diferente de tocar. E, como já é bem no começo do show, já entra com todas as quatro. Então, eu acho uma música muito legal, bem funcional também para o show e para a energia da galera.
BV: Eu também gosto bastante dessa, tem essa coisa meio Funk Rock ao mesmo tempo. É bem legal! Bom, eu gosto bastante da "Blindsider". E gosto da "Hate and Love" por diversos motivos, mas um deles é que eu gosto dessa coisa do groove meio reto, mas que é meio funk também. Ao mesmo tempo, a gente consegue dar uma "funkeada" num Rock Funk que eu acho que fica bem bacana. Então, essas são minhas preferidas.
No festival, obviamente, vocês falaram que o show vai ser menor, vai ser ali uma hora de show, mais ou menos. Então, vocês falaram que ainda não sabem o set. Vocês não fazem ideia do critério que é usado para montar esse set?
JL: Algumas dessas músicas foram tocadas em algumas rádios. No Brasil eu não sei, mas eu sei que tem umas músicas que a gente sabe que não podem faltar, mesmo por nós mesmos. A gente vai querer tocar certas músicas.
Então, acho que o critério são as músicas que são óbvias para a gente: essa música não pode faltar por vários motivos, ou porque tocou em algum lugar. E provavelmente eu imagino que, por ser um festival mais metal, a gente não vai fazer muito as que são muito baladas ou mais devagar. Não sei o que o Bruno acha, porque a gente também não sabe o set ainda.
BV: Eu acho que o critério é bem esse mesmo. Primeiro, pensando em festival, é você provavelmente eliminar algumas baladas, porque você quer aquele show com um andamento mais empolgante, meio que do começo ao fim. Então acho que o critério talvez principal, inicial, seria talvez tirar um pouco de balada e pensar nisso. Obviamente vem a estrutura da produção da banda, do que tocou em rádio, o que a galera quer mais, está pedindo e tal. O pessoal monitora também o que o pessoal está pedindo para não poder faltar.
Até para manter o clima, coesão.
BV: Exatamente. É um festival, a galera não quer ir lá para dormir, o pessoal quer coisa empolgada. Então, vai entregar isso no show, com certeza.
Tem alguma que vocês acham que não pode faltar de jeito nenhum?
BV: A primeira do show, por exemplo, a Life Unchained. Eu acho que essa aí é uma que já tem que começar mesmo dando tapa na cara de todo mundo.
JL: Provavelmente, porque ela já vai com tudo.
Então é um acordo entre vocês? É essa música mesmo?
BV: Eu acho que isso aí não vai mudar não.
JL: E tem uma íntro, que a gente entra com a intro da própria música tocando, então já dá aquela vibe. Aí o Adrian já começa e a gente já vai com tudo. É a primeira do álbum também não é Bruno, do álbum novo?
BV: Uma pergunta boa, mas acho que sim.
JL: Acho que é a primeira do álbum.
BV: Tem aquela intro, estou lembrando aqui. Isso mesmo.
JL: Essa vai ter que estar.
Só para a gente finalizar, mandem um recadinho para os brazucas, os fanzão aqui — isso me inclui. Pensa no meu gato, pensa que eu sou legal.
BV: Bom, o que eu posso dizer da minha parte é que podem esperar um show incrível. Vamos entregar o máximo que a gente tem pra entregar no palco. A expectativa está a mil. Vai ser incrível. Como a gente comentou, essa troca de energia, de empolgação do público — que a gente já sabe que o Brasil é imbatível na empolgação —, e você ter essa troca no palco, você ver aquela reação… eu já consigo imaginar o que vai acontecer. Então isso já me empolga de estar lá também. Então vai ser muito legal.
JL: E a gente quer convidar todos vocês para o dia 26 de abril, domingão, 17h15. A Amanda vem, ela vai trazer o gato...
Doritão vai estar lá. É Doritos o nome do meu gato, vai estar lá.
BV: Vai ter que colocar um protetor no animal, senão ele não vai aguentar.
Ah, ele é bem vida louca, viu?
JL: Ah, é? Mas leva o pobre Doritos. E quem puder, ouve as músicas, já vai se preparando, porque o set vai ser legal, vai ser bacana. A gente vai manter a energia lá em cima e a gente quer fazer essa troca com o Brasil, porque eu, pelo menos, faz três anos que não toco no Brasil. O Ritchie e o Adrian já estão mais acostumados, mas vamos que vamos.
O retorno de Michele Luppi e Oleg Smirnoff ao Vision Divine não é apenas um movimento nostálgico — trata-se de uma reafirmação estética. Em A Clockwork Reverie, EP que marca este novo momento da banda italiana, o grupo encontra um ponto de equilíbrio entre sua identidade clássica e uma abordagem contemporânea mais refinada, sem perder de vista o virtuosismo que sempre o caracterizou.
A breve abertura “Sator Rotas” cumpre função atmosférica, preparando o terreno para a faixa-título, onde o Vision Divine expõe, logo de início, sua proposta. “A Clockwork Reverie” sintetiza com precisão o DNA da banda: alternância constante de andamentos, riqueza de arranjos e um senso melódico apurado. A instrumentação transita entre o power metal tradicional e incursões progressivas, com destaque para a versatilidade rítmica e os arranjos vocais densos, que exploram múltiplas camadas e dinâmicas.
Em “18 (It Feels Like Heaven)”, o grupo desacelera para explorar uma atmosfera mais introspectiva. A condução mais cadenciada favorece o desenvolvimento melódico, enquanto a base instrumental mantém sofisticação sem excessos. É nesse contexto que Luppi se sobressai, entregando uma interpretação que privilegia nuance e controle, reforçando o caráter emocional da faixa.
“Andromeda” retoma a intensidade com uma abordagem mais direta e contemporânea. Elementos eletrônicos nos teclados ampliam a paleta sonora, enquanto a estrutura privilegia velocidade e objetividade. Ainda que preserve mudanças de andamento, a faixa aposta em uma construção mais linear, com menor variação temática — o que a torna uma das composições mais acessíveis do EP. O duelo entre guitarra e teclado nos solos adiciona um elemento clássico ao arranjo.
A segunda metade do trabalho é dedicada a releituras que funcionam menos como exercício de nostalgia e mais como atualização estética. “Identities”, originalmente presente em Stream of Consciousness (2004), ganha nova vida com arranjos mais polidos e um enfoque maior na expressividade vocal, além de um trabalho de piano que amplia sua carga dramática. Já “God Is Dead”, de The Perfect Machine (2005), mantém sua essência acelerada e agressiva, reafirmando suas raízes no power/speed metal, agora com uma produção mais encorpada.
Encerrando o EP, “The 25th Hour”, faixa-título do álbum de 2007, reforça o viés progressivo do grupo, equilibrando técnica e fluidez. A nova versão evidencia maturidade nos arranjos e uma produção que privilegia clareza e coesão, sem recorrer a excessos.
No conjunto, A Clockwork Reverie funciona como um elo entre passado e presente. Mais do que revisitar sua própria história, o Vision Divine demonstra compreensão sobre como atualizar sua linguagem sem diluir sua identidade. O resultado é um EP consistente, tecnicamente sólido e artisticamente relevante, capaz de dialogar tanto com fãs de longa data quanto com uma audiência mais contemporânea dentro do espectro do power e do metal progressivo.
***ENGLISH VERSION***
The return of Michele Luppi and Oleg Smirnoff to Vision Divine is more than a nostalgic reunion — it’s a statement of intent. With A Clockwork Reverie, the Italian outfit bridges past and present, refining its signature blend of melodic power metal and progressive sophistication without sacrificing the technical flair that has long defined its sound.
The short opener “Sator Rotas” serves as an atmospheric prelude, seamlessly leading into the title track — a piece that encapsulates the band’s core identity. “A Clockwork Reverie” thrives on dynamic shifts, intricate arrangements and a strong melodic backbone. The interplay between traditional power metal structures and progressive nuances is handled with precision, while the layered vocal arrangements add both depth and theatricality.
“18 (It Feels Like Heaven)” sees the band dial things back, opting for a more restrained and introspective approach. Its measured pacing allows the melodic elements to breathe, while the instrumentation retains a subtle complexity. Here, Luppi shines with a controlled and expressive performance, emphasizing nuance over sheer power and reinforcing the track’s emotional weight.
“Andromeda” shifts gears with a more direct and contemporary edge. Electronic textures enrich the sonic palette, while the songwriting leans toward immediacy and drive. Although rhythmic changes are still present, the track follows a more streamlined structure, making it one of the EP’s most accessible moments. The keyboard–guitar solo trade-off adds a classic touch to an otherwise modern framework.
The EP’s second half is devoted to re-recordings that feel less like nostalgic retreads and more like purposeful reinventions. “Identities”, originally featured on Stream of Consciousness (2004), benefits from a cleaner, more nuanced production and a stronger emphasis on vocal expressiveness, complemented by elegant piano work. Meanwhile, “God Is Dead”, from The Perfect Machine (2005), retains its high-octane power/speed metal essence, now bolstered by a fuller, more modern sound.
Closing track “The 25th Hour”, the title piece from the band’s 2007 album, leans further into progressive territory while maintaining a sense of urgency. This updated version highlights the band’s musical maturity, with arrangements that prioritize clarity, balance and cohesion over excess.
As a whole, A Clockwork Reverie stands as a compelling bridge between eras. Rather than simply revisiting their catalogue, Vision Divine demonstrate a clear understanding of how to evolve their sound without diluting their identity. The result is a focused, technically accomplished and artistically relevant release — one that resonates equally with long-time fans and newer listeners within the melodic and progressive metal spectrum.
Após uma sequência estratégica de singles, o Crashdïet retorna com Art Of Chaos, seu novo álbum de estúdio, marcando mais um capítulo na trajetória de uma das bandas mais representativas do sleaze rock escandinavo. Ancorado pelo guitarrista e membro fundador Martin Sweet, o grupo mantém sua identidade intacta ao mesmo tempo em que busca expandir sua sonoridade. A ausência temporária de Peter London é compensada pela entrada de Chris Young no baixo, que assume a função com segurança dentro de uma formação sólida e entrosada.
Desde a abertura com “Satizfaction”, o álbum deixa clara sua proposta: refrões diretos, forte apelo melódico e uma produção polida que valoriza cada elemento. A faixa funciona como um cartão de visitas eficiente, equilibrando energia e acessibilidade em um formato clássico do gênero.
Na sequência, “Sick Enough for Me” reforça a veia hard rock da banda, com destaque para o baixo pulsante e uma estrutura que privilegia refrões imediatos e dinâmicas bem definidas. Já “Chaos Magnetic” amplia o escopo sonoro ao incorporar variações rítmicas e discretos elementos eletrônicos, sem comprometer a essência do grupo.
“Can of Worms” apresenta uma abordagem mais pesada, flertando com o metal tradicional, mas mantendo o foco em linhas vocais melódicas e arranjos bem construídos. O uso de camadas vocais e texturas pouco convencionais adiciona profundidade à faixa. Em contraste, “Loveblind” assume o papel de power ballad do álbum, apostando em uma construção gradual que culmina em um refrão emocionalmente carregado, evidenciando as influências clássicas da banda.
A segunda metade do disco mantém a consistência. “Get Out” resgata o lado mais direto e cru do sleaze rock, com riffs rápidos e abordagem mais agressiva nos vocais. “Quitter” aposta em variações estruturais e mudanças de dinâmica, enquanto “Killing It Now” se destaca pela energia e pelo diálogo evidente com o hard rock oitentista, remetendo a nomes como o Kiss da fase Asylum.
“Silent Place” desacelera o andamento e investe em uma construção mais atmosférica, valorizando camadas vocais e nuances melódicas, enquanto “Edge of a Knife”, responsável por encerrar o álbum, sintetiza os principais elementos do trabalho: velocidade, melodia e teatralidade, culminando em um fechamento coeso e expressivo.
No conjunto, Art Of Chaos reafirma o Crashdïet como uma força relevante dentro do sleaze rock contemporâneo. Sem abrir mão de suas raízes, a banda demonstra maturidade ao incorporar novos elementos e refinar sua abordagem composicional. O resultado é um álbum consistente, que dialoga tanto com fãs de longa data quanto com novos ouvintes em busca de uma porta de entrada para o gênero. Obrigatório!
***ENGLISH VERSION***
Following a carefully staggered run of singles, Crashdïet return with Art Of Chaos, a record that reasserts their standing as one of the leading names in modern sleaze rock. Anchored by founding guitarist Martin Sweet, the Swedish outfit strikes a balance between preserving its signature sound and subtly expanding its sonic palette. With Peter London temporarily stepping away, bassist Chris Young slots into the lineup with confidence, contributing to a tight and revitalized unit.
Opening track “Satizfaction” sets the tone with immediate clarity: punchy hooks, glossy production and a chorus built for crowd participation. It’s a statement of intent that leans heavily into the band’s strengths without feeling complacent.
“Sick Enough for Me” follows by doubling down on the band’s hard rock leanings, driven by a prominent bassline and a structure designed for maximum accessibility. Meanwhile, “Chaos Magnetic” broadens the scope, introducing rhythmic shifts and subtle electronic textures that add depth without diluting the band’s core identity.
“Can of Worms” edges into heavier territory, flirting with traditional metal through its guitar tones while maintaining a strong melodic backbone. The layered vocal approach adds richness, hinting at a more contemporary production mindset. In contrast, “Loveblind” fills the obligatory power ballad slot, unfolding gradually into an emotionally resonant chorus that highlights the band’s classic influences.
The album’s second half maintains momentum. “Get Out” strips things back to a more direct, no-frills sleaze attack, pairing sharp riffs with a grittier vocal delivery. “Quitter” injects structural variation and dynamic shifts, while “Killing It Now” channels an unmistakable ‘80s hard rock spirit, with clear nods to Kiss’s Asylum-era sheen.
“Silent Place” offers a more atmospheric detour, leaning on layered vocals and melodic nuance to create a sense of scale. Closing track “Edge of a Knife” pulls the album’s key elements together — speed, melody and a touch of theatricality — delivering a cohesive and emphatic finale.
Taken as a whole, Art Of Chaos reinforces Crashdïet’s relevance within the contemporary sleaze scene. Without straying from their roots, the band demonstrates a clear sense of evolution, refining their songwriting and embracing subtle modern touches. The result is a cohesive and engaging record that will satisfy long-time fans while remaining accessible to newcomers looking for an entry point into the genre. Mandatory!
Em mais uma edição do Circuíto Gárgula Underground (Santa Maria RS), tivemos uma noite de Metal Extremo no feriadão de Páscoa, com a já consolidada Velho e a "novata" Desfiladeiro, duas bandas que trazem como características as letras em português e sonoridade mais direta, "primitiva" e calcada nas origens do estilo, quando pioneiros como Hellhammer e Venom surgiram chocando a cena Metal com seu som agressivo, sujo e que flertava com o Punk.
O Gárgula Bar firmou-se como o principal espaço para o underground e público Metal e alternativo na região central do RS, e os eventos do Circuíto Gárgula Underground tem trazido bons nomes da cena local e brasileira, mesclando novos nomes com outros já com tempo de estrada.
O Velho, fundada em 2009 no RJ, já é um nome conhecido no meio do Metal Extremo, e que retorna a Santa Maria em meio a mais uma de suas turnês que costumam recorrer quase o Brasil inteiro, e a Desfiladeiro, novo nome que vem da fronteira, da cidade de São Borja (RS), iniciou atividades em 2023, e começa a pavimentar sua estrada.
Diante de um bom público, a Desfiladeiro iniciou os rituais, trazendo em sua formação nomes conhecidos do Underground na região, portando, não podemos dizer que se trata de uma banda de novatos, pois já possuem uma certa bagagem no meio.
E isso se mostrou claro durante a apresentação segura e madura do quarteto, que está divulgando seu debut "Nihil", lançado no ano passado.
Logo de início a Desfiladeiro já fez o público bater cabeça, com seu Black/Death direto e agressivo e com letras em português, tendo como uma das principais inspirações o niilismo.
A banda apresentou quase todo seu álbum, excluindo apenas a instrumental "Sorumbática", e ainda os novos sons "Peste Negra" e"Na Infinidade Desértica". Abrindo com a sorumbática intro "Funeral de Párias", que emenda com a ríspida e veloz "Profundo Abismo". Aí a Desfiladeiro já tinha conquistado a atenção dos presentes, exalando agressividade e energia.
Destaques ainda para a climática e mais cadenciada "Marcha Final", para a veloz "Le Mistére" e o final avassalador com "Nihil". A Desfiladeiro deixou uma ótima impressão, agradando ao público, principalmente os adeptos dessa linha mais crua e direta.
Ao final da apresentação essa boa impressão foi confirmada com os diversas fotos que a galera pediu para tirar com a banda.
Após um intervalo e uma breve ajustada nos equipamentos e som, o Velho sobe ao palco, agora já com as pinturas tradicionais de corpse paints, em meio a nuvem de fumaça, que por um momento ficou densa demais, com a galera brincando que era a névoa da floresta, para dar um clima bem Black Metal.
Divulgando seu mais recente trabalho, "Vingando as Bruxas", o Velho já subiu ao palco com o público nas mãos, e já devidamente aquecidos pela Desfiladeiro, novas rodas de mosh se formavam, com o carismático Thiago Caronte conduzindo com maestria o ritual.
Ao fundo, o outro Thiago, o Splatter, destruia o kit de bateria, mostrando a potência e energia características. E a coesão do quarteto é algo a elogiar, com a massa sonora de raw Black Metal tomando todos de assalto, e com muitos já mostrando que até as músicas mais recentes estavam na ponta da língua, destacando a faixa título do último álbum.
O som, ora veloz e com blast beats, ora com trechos mais punk e também com aquela cadência rítmica, já características da banda, fez todos baterem cabeça e acompanharem tal qual um rito tribal, e nesta nova passagem por Santa Maria angariaram ainda mais seguidores, com muitos já pedindo um retorno breve do Velho à região.
O Velho é: Thiago Caronte (guitarra e vocais), Thiago Splatter (bateria), Rafael Lopes (baixo) e Død (guitarras).
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Finalizando, somente elogios à iniciativa dos proprietários do Gárgula pela realização das datas do já tradicional Circuito Underground, pela organização e ótimo atendimento do bar; elogios ao público, colaborando sempre para o ambiente ótimo do local, e parabéns às bandas, por proporcionarem uma noite/madrugada de muita energia e de Metal Extremo em estado bruto!
Supergrupos costumam carregar uma expectativa inerente: transformar pedigree em relevância artística concreta. Em “II”, seu segundo álbum, o Iconic consegue dar um passo além nesse sentido. Mais do que uma vitrine de nomes consagrados, o disco evidencia uma evolução clara em relação ao debut, sobretudo na coesão sonora e na definição de identidade.
Formado por Nathan James (vocais- Inglorious), Michael Sweet (Stryper/Boston) e Joel Hoekstra (Whitesnake, TSO, Night Ranger) (guitarras), Marco Mendoza (baixo - Whitesnake, Thin Lizzy) e Tommy Aldridge (bateria - Whitesnake, Ozzy Osbourne), o grupo opera dentro dos códigos tradicionais do hard rock, mas busca atualizá-los com uma produção moderna e arranjos mais densos. O resultado é um trabalho sólido, que privilegia consistência e execução refinada, ainda que raramente se aventure fora de sua zona de conforto estética.
A abertura com “Cry No More” estabelece imediatamente o direcionamento do álbum: riffs diretos, condução firme e uma performance vocal dominante. Nathan James assume protagonismo com segurança, explorando amplitude e intensidade sem comprometer o controle — um padrão que se repete ao longo do disco.
“All I Want” amplia levemente a paleta sonora ao incorporar nuances rítmicas mais elaboradas, mas mantém o foco na acessibilidade. Já “Open My Eyes” surge como um dos momentos mais trabalhados do repertório, com uso de teclados em camadas, harmonizações vocais mais sofisticadas e uma produção que valoriza a profundidade dos arranjos, especialmente nas linhas de baixo.
“Tears Keep On Falling” introduz variação dinâmica ao flertar com estruturas mais progressivas em sua primeira metade, antes de desembocar em um refrão melódico. É também uma das faixas que melhor evidencia o entrosamento entre seção rítmica e construção musical.
Na sequência, “Take Me To The Place” retoma a energia com uma abordagem mais contemporânea nos timbres e na condução, enquanto “S.O.S.” aposta em uma estética mais clássica, remetendo ao hard rock norte-americano. Nesta última, a contenção funciona como diferencial: a execução precisa abre espaço para que a linha vocal se destaque com mais clareza.
“Nothing Left For Me” equilibra referências ao virtuosismo oitentista com uma estrutura mais controlada, resultando em um dos refrões mais eficazes do álbum. Em contraste, “Far Away” abraça abertamente a tradição, sustentada por uma produção que evita que o resultado soe datado.
“Valley Of Lost Souls” se destaca como um dos pontos altos do disco ao explorar mudanças de andamento e maior liberdade instrumental, revelando o potencial técnico do grupo em um contexto menos previsível. Já “Written In The Stars” reforça a ligação com a herança setentista do gênero, equilibrando referências clássicas com um acabamento contemporâneo.
O encerramento com “Heart Of Stone” segue a cartilha das power ballads, com progressão gradual e clímax bem construído. As influências do hard rock britânico são evidentes, funcionando como uma conclusão eficaz para o álbum.
Sem buscar reinvenção, “II” aposta na solidez — e acerta ao fazê-lo. O Iconic demonstra aqui um nível de maturidade superior ao de sua estreia, entregando um trabalho coeso, bem executado e alinhado às expectativas do público do gênero. Ainda que permaneça fortemente ancorado em convenções, o álbum se sustenta por sua consistência e pelo profissionalismo de seus envolvidos, consolidando o projeto como algo além de um encontro pontual de estrelas. Mandatório, vai aparecer na lista de melhores do ano de muita gente!
***ENGLISH VERSION***
Supergroups tend to carry an inherent expectation: to turn pedigree into tangible artistic relevance. On “II,” their second album, Iconic takes a clear step forward in that regard. More than just a showcase of established names, the record reveals a noticeable evolution from the debut, particularly in terms of sonic cohesion and a more defined identity.
Featuring Nathan James (vocals- Inglorious), Michael Sweet (Stryper/Boston) e Joel Hoekstra (Whitesnake, TSO, Night Ranger) (guitars), Marco Mendoza (bass - Whitesnake, Thin Lizzy) e Tommy Aldridge (drums - Whitesnake, Ozzy Osbourne), the band operates within the traditional framework of hard rock while aiming to modernize it through polished production and denser arrangements. The result is a solid effort that prioritizes consistency and refined execution, even if it rarely ventures beyond its aesthetic comfort zone.
The opener “Cry No More” immediately establishes the album’s direction: straightforward riffs, tight momentum, and a commanding vocal performance. Nathan James takes center stage with confidence, showcasing both range and intensity without sacrificing control—a pattern that carries throughout the record.
“All I Want” slightly broadens the sonic palette by incorporating more intricate rhythmic nuances, while maintaining a strong sense of accessibility. Meanwhile, “Open My Eyes” stands out as one of the most developed tracks, featuring layered keyboards, more sophisticated vocal harmonies, and a production that highlights the depth of the arrangements—particularly in the bass work.
“Tears Keep On Falling” introduces dynamic variation, flirting with more progressive structures in its first half before resolving into a melodic chorus. It also serves as one of the clearest examples of the band’s tight interplay between rhythm section and overall composition.
“Take Me To The Place” restores the album’s energy with a more contemporary approach in both tone and execution, while “S.O.S.” leans into a more classic aesthetic, drawing from American hard rock traditions. In the latter, restraint becomes a strength: the precise execution allows the vocal line to stand out more prominently.
“Nothing Left For Me” balances nods to ’80s guitar virtuosity with a more controlled structure, resulting in one of the album’s most effective choruses. In contrast, “Far Away” fully embraces tradition, supported by a production that keeps it from sounding dated.
“Valley Of Lost Souls” emerges as one of the album’s highlights, exploring tempo shifts and greater instrumental freedom, ultimately showcasing the group’s technical capabilities in a less predictable setting. “Written In The Stars,” on the other hand, reinforces the genre’s ’70s heritage, blending classic influences with a contemporary finish.
The closing track, “Heart Of Stone,” follows the power ballad blueprint with a gradual build and a well-executed climax. The influence of classic British hard rock is evident, making for an effective conclusion to the album.
Without aiming for reinvention, “II” succeeds by doubling down on solidity. Iconic demonstrates a clear step up in maturity compared to its debut, delivering a cohesive, well-executed record that aligns with the expectations of the genre’s audience. While it remains firmly rooted in established conventions, the album stands on its own merits, supported by consistency and the professionalism of its players—ultimately proving that this is more than just a one-off gathering of stars. A must-listen, and likely to appear on many best of the year lists.