quarta-feira, 3 de junho de 2026

Evanescence: Metal Moderno Sem Perder a Essência (Also In English)

BMG (Nac./Imp.)
Por Michelle F. Santana

O Evanescence, banda americana formada em 1995, lança seu sexto álbum de estúdio, Sanctuary, cinco anos após The Bitter Truth (2021). Cercado de expectativa por parte dos fãs, o trabalho já dava sinais do que estava por vir através dos singles "Afterlife" e "Fight Like a Girl", que antecipavam uma sonoridade mais pesada, moderna e ambiciosa.

Liderada pela multi-instrumentista e compositora Amy Lee, uma das vozes mais marcantes do rock e do metal das últimas décadas, a banda construiu uma identidade única ao longo da carreira. Misturando peso, melancolia, elementos orquestrais e uma forte carga emocional, o Evanescence marcou gerações com músicas que abordam perda, dor, obsessão, desilusões e superação, sempre conduzidas pela interpretação intensa e cinematográfica de sua vocalista.

Canções como "Bring Me to Life", "My Immortal", "Call Me When You're Sober" e "Lithium" ajudaram a transformar os álbuns Fallen (2003) e The Open Door (2006) em marcos de uma geração. Mais de duas décadas depois, Sanctuary mostra uma banda que não busca repetir o passado, mas expandir sua identidade. O álbum parece ter amadurecido junto com seu público: as feridas ainda estão presentes, mas agora são encaradas com mais força, consciência e resiliência.

As letras seguem a linha de empoderamento apresentada em The Bitter Truth, mas aqui assumem uma postura ainda mais madura e individual. Musicalmente, a banda incorpora elementos do metal moderno e do metalcore de forma natural, sem abrir mão das características que sempre definiram seu som. O resultado é um trabalho que equilibra inovação e familiaridade com notável segurança.

Mais do que um álbum sobre força individual, Sanctuary também reflete inquietações muito atuais. Em diferentes momentos, as composições abordam questões relacionadas à identidade, ao pertencimento e à busca por conexões genuínas em uma era marcada pelo excesso de informação e pela superficialidade das relações digitais. 

Nesse contexto, o título do álbum ganha um significado ainda mais profundo: o santuário não surge como uma fuga da realidade, mas como um espaço de acolhimento, verdade e resistência diante de um mundo cada vez mais caótico.

"Beautiful Lie" abre o álbum deixando claro que o Evanescence não pretende revisitar fórmulas antigas. Elementos eletrônicos introduzem a faixa antes que ela cresça gradualmente em intensidade. Quando Amy Lee canta "I don't belong to you", a música já estabelece o tom de independência e força que atravessa grande parte do disco. 

Os riffs ganham peso ao longo da composição, enquanto a interpretação vocal adiciona profundidade emocional a uma faixa que figura entre os momentos mais fortes do álbum.

"Who Will You Follow" aprofunda a proposta contemporânea do trabalho. Acompanhada por um videoclipe visualmente impressionante, a música apresenta uma crítica à perda de identidade na era digital. Mesmo dialogando com temas atuais, a banda mantém intacta sua essência, equilibrando modernidade e identidade própria sem soar artificial.

Já "Afterlife", que ganhou destaque ao integrar a adaptação animada de Devil May Cry, é uma das faixas mais impactantes do álbum. Sua combinação de peso, melodia e intensidade emocional funciona perfeitamente tanto dentro do contexto do disco quanto de forma isolada. A letra aborda a capacidade de transformar sofrimento em força, enquanto os riffs marcantes e a interpretação poderosa de Amy Lee ajudam a explicar o sucesso da canção entre os fãs.

A faixa-título, "Sanctuary", representa um dos momentos mais atmosféricos do álbum. Sua introdução densa remete, em alguns momentos, à aura sombria presente em Origin (2000), trabalho que permanece cultuado por muitos fãs. Os arranjos cinematográficos ganham ainda mais destaque graças à produção de Jordan Fish, cuja experiência em construções grandiosas adiciona camadas e profundidade à composição.

Em "Calm Down", a banda demonstra disposição para experimentar. Os elementos eletrônicos assumem papel central, dialogando com guitarras pesadas e criando uma atmosfera urbana e contemporânea. Mesmo explorando novas texturas sonoras, a faixa mantém o equilíbrio entre delicadeza e intensidade que sempre caracterizou o Evanescence.

"Forever Without You" surge como um momento de respiro em meio ao peso do álbum. Conduzida pelo piano de Amy Lee, a música funciona como uma balada melancólica e acolhedora, transportando o ouvinte para um espaço de introspecção. Aqui, o peso não está nas guitarras, mas na vulnerabilidade emocional. É mais uma demonstração da habilidade da banda em construir baladas memoráveis sem cair na excessiva sentimentalidade.

O encerramento fica por conta de "Wide Open Heart", que começa de forma minimalista antes de crescer gradualmente até alcançar um refrão intenso e emocionante. Com arranjos refinados e uma atmosfera grandiosa, a faixa sintetiza a proposta do álbum e oferece um desfecho à altura da jornada construída ao longo de suas músicas.

Sanctuary vai além de um simples retorno: representa uma nova etapa na trajetória do Evanescence. A banda absorve influências do metal moderno, experimenta novas texturas e amplia sua identidade sonora sem abrir mão daquilo que a tornou relevante desde o início. O resultado é um álbum pesado, emocional e ambicioso, que honra seu passado enquanto aponta para o futuro.

Se Fallen (2003) representou a voz de uma geração marcada por conflitos, inseguranças e descobertas, Sanctuary soa como a expressão de quem atravessou essas tempestades e encontrou força para seguir em frente. Para os fãs que cresceram ouvindo o Evanescence, o álbum carrega uma sensação familiar e, ao mesmo tempo, renovadora. É o som de uma banda que não ficou presa ao passado, mas também não abandonou aquilo que a tornou especial. Um trabalho que honra sua história, abraça o presente e encontra novas formas de seguir em frente.



***ENGLISH VERSION***

Evanescence, the American band formed in 1995, returns with its sixth studio album, Sanctuary, five years after The Bitter Truth (2021). Surrounded by high expectations from fans, the record had already hinted at what was to come through the singles "Afterlife" and "Fight Like a Girl", both of which previewed a heavier, more modern, and ambitious sound.

Led by multi-instrumentalist and songwriter Amy Lee, one of the most distinctive voices in rock and metal over the past two decades, Evanescence has built a unique identity throughout its career. Combining heaviness, melancholy, orchestral elements, and deep emotional intensity, the band has left its mark on generations of listeners with songs that explore loss, pain, obsession, heartbreak, and resilience, all carried by Lee's powerful and cinematic performances.

Songs such as "Bring Me to Life," "My Immortal," "Call Me When You're Sober," and "Lithium" helped turn Fallen (2003) and The Open Door (2006) into defining albums of a generation. More than twenty years later, Sanctuary presents a band that is not interested in repeating the past, but rather expanding its identity. The album seems to have matured alongside its audience: the wounds are still there, but they are now faced with greater strength, awareness, and resilience.

Lyrically, the album continues the themes of empowerment introduced in The Bitter Truth, but approaches them from a more mature and personal perspective. Musically, Evanescence incorporates elements of modern metal and metalcore with remarkable ease, without sacrificing the qualities that have always defined its sound. The result is an album that balances innovation and familiarity with impressive confidence.

More than an album about personal strength, Sanctuary also reflects some of today's most pressing concerns. Throughout the record, the songs touch on themes of identity, belonging, and the search for genuine human connection in an era shaped by information overload and increasingly superficial digital interactions. In this context, the album's title takes on an even deeper meaning: sanctuary is not portrayed as an escape from reality, but as a place of truth, comfort, and resistance in an increasingly chaotic world.

"Beautiful Lie" opens the album by making it clear that Evanescence has no intention of revisiting old formulas. Electronic elements introduce the track before it gradually builds in intensity. When Amy Lee sings, "I don't belong to you," the song immediately establishes the themes of independence and empowerment that run throughout much of the album. The riffs grow heavier as the composition unfolds, while Lee's vocal performance adds emotional depth to what stands as one of the strongest moments on the record.

"Who Will You Follow" further develops the album's contemporary approach. Accompanied by a visually striking music video, the song offers a critique of identity loss in the digital age. Even while engaging with modern themes, Evanescence remains true to its essence, successfully balancing innovation and authenticity without ever sounding forced.

"Afterlife," which gained widespread attention through its connection to the animated adaptation of Devil May Cry, is one of the album's most impactful tracks. Its combination of heaviness, melody, and emotional intensity works perfectly both within the context of the album and as a standalone single. The lyrics explore the ability to transform suffering into strength, while the memorable riffs and Amy Lee's commanding performance help explain why the song resonated so strongly with listeners.

The title track, "Sanctuary," delivers one of the album's most atmospheric moments. Its dense opening occasionally recalls the dark aura of Origin (2000), a release that remains beloved among longtime fans. The cinematic arrangements are elevated by the production work of Jordan Fish, whose experience crafting large-scale soundscapes adds depth, texture, and grandeur to the composition.

On "Calm Down," the band demonstrates a willingness to experiment. Electronic elements take center stage, interacting with heavy guitars to create a contemporary and urban atmosphere. Despite exploring new sonic territory, the track maintains the balance between delicacy and intensity that has always been central to Evanescence's identity.

"Forever Without You" serves as a moment of reflection amid the album's heavier passages. Guided by Amy Lee's piano, the song unfolds as a melancholic and comforting ballad, drawing listeners into a deeply introspective space. Here, the weight comes not from the guitars but from emotional vulnerability. It is another reminder of the band's ability to craft memorable ballads without falling into excessive sentimentality.

The album closes with "Wide Open Heart," which begins in a minimalist fashion before gradually building toward a powerful and emotionally charged chorus. With refined arrangements and a sense of grandeur, the track perfectly encapsulates the album's overall vision while providing a fitting conclusion to the journey that precedes it.

Sanctuary is more than a simple comeback; it represents a new chapter in Evanescence's career. The band embraces modern metal influences, experiments with new textures, and expands its sonic identity without abandoning the qualities that made it relevant in the first place. The result is a heavy, emotional, and ambitious album that honors its past while confidently looking toward the future.

If Fallen (2003) was the voice of a generation navigating conflict, insecurity, and self-discovery, Sanctuary feels like the voice of those who have weathered those storms and emerged stronger on the other side. For the fans who grew up with Evanescence, the album feels both familiar and refreshingly new. It is the sound of a band that has refused to become trapped by its past while never losing sight of what made it special. A record that honors its legacy, embraces the present, and finds new ways to move forward.

Divulgação



terça-feira, 2 de junho de 2026

A.A. Williams: Vulnerabilidade em Peso (Also In English)

Reingning Phoenix Music (Imp.)

Por Michelle F. Santana

Natural de Londres, A.A. Williams vem construindo seu nome desde o lançamento de seu EP de estreia, em 2019. Misturando doom atmosférico, post-rock, dark rock e influências da música clássica, a cantora e multi-instrumentista se destacou pela capacidade de unir delicadeza e peso emocional em composições profundamente pessoais.

Em Solstice, seu novo álbum, Williams aprofunda ainda mais essa proposta. O título faz referência ao solstício, fenômeno que marca a transição entre luz e escuridão, ideia que atravessa todo o disco ao equilibrar momentos de tristeza, reflexão e esperança. Com uma atmosfera densa e carregada de emoção, o álbum convida o ouvinte a encarar suas próprias vulnerabilidades através de músicas que exploram diferentes facetas da dor, da contemplação e da fragilidade humana.

Um dos maiores destaques do disco é a forma como A.A. Williams usa sua voz. Mais do que apenas cantar, ela transforma o vocal em parte da atmosfera das músicas. Sua interpretação transita entre o delicado, o etéreo e o melancólico, carregando cada verso com emoção e fazendo da voz o elemento mais marcante do álbum.

O peso de Solstice não está em riffs agressivos ou em momentos de explosão sonora. Ele nasce da atmosfera construída ao longo das faixas e da carga emocional presente em cada composição. É um disco que encontra força justamente na sensibilidade e na capacidade de envolver o ouvinte em seus sentimentos.

Comparando com o álbum *As the Moon Rests*(2022), Solstice não tenta mudar radicalmente a identidade da artista. Em vez disso, A.A. Williams refina o que já funcionava tão bem em seus trabalhos anteriores. O resultado é um álbum mais maduro e consistente, onde tudo parece trabalhar em favor da mesma proposta emocional.


Faixas em Destaque

"Poison" funciona como a porta de entrada perfeita para o universo do álbum. Guiada pela voz marcante da artista, a faixa cresce aos poucos e estabelece o clima melancólico que acompanha todo o trabalho.

"Wolves" é um dos momentos em que a influência do doom atmosférico aparece com mais força. A música cria uma tensão constante que envolve o ouvinte e reforça a carga emocional do disco.

"Little by Little" é o ponto mais alto do álbum. A faixa mostra com clareza a habilidade de A.A. Williams em criar peso sem recorrer à agressividade. A emoção cresce aos poucos até atingir um dos momentos mais tocantes de Solstice.

"The Veil" destaca-se pela atmosfera sombria e pela forma como a voz parece flutuar sobre os instrumentos. É uma faixa que reforça o caráter introspectivo do álbum e convida o ouvinte a olhar para dentro de si.

"The Gentle Harm" encerra o disco de forma perfeita. A música funciona como o capítulo final dessa jornada emocional, deixando uma sensação melancólica que permanece mesmo depois dos últimos acordes.

Solstice vai além do doom atmosférico: é um mergulho nas emoções humanas. A.A. Williams mostra que o peso nem sempre vem da agressividade; muitas vezes, ele nasce da forma crua e sincera com que sentimentos difíceis são expostos. É um disco que exige atenção e entrega do ouvinte, mas recompensa quem aceita embarcar nessa jornada com uma experiência intensa, sensível e profundamente tocante.

***ENGLISH VERSION***

Hailing from London, A.A. Williams has been steadily building her reputation since the release of her debut EP in 2019. Blending atmospheric doom, post-rock, dark rock, and classical influences, the singer-songwriter and multi-instrumentalist has carved out a unique space through her ability to balance delicacy with emotional weight in deeply personal compositions.

On Solstice, her latest album, Williams pushes that approach even further. The title refers to the solstice, a phenomenon that marks the transition between light and darkness, an idea that runs throughout the record as it balances moments of sadness, reflection, and hope. With a dense and emotionally charged atmosphere, the album invites listeners to confront their own vulnerabilities through songs that explore different facets of pain, contemplation, and human fragility.

One of the album's greatest strengths is the way A.A. Williams uses her voice. Rather than simply singing, she turns her vocals into an essential part of the music's atmosphere. Her performance moves between the delicate, the ethereal, and the melancholic, filling every line with emotion and making her voice the most striking element of the record.

The weight of Solstice does not come from aggressive riffs or explosive moments. Instead, it emerges from the atmosphere woven throughout the album and the emotional depth embedded in each composition. It is a record that finds its power in sensitivity and in its ability to draw listeners into its emotional world.

Compared to As the Moon Rests (2022), Solstice does not seek to radically redefine Williams' artistic identity. Instead, she refines the elements that have worked so well in her previous releases. The result is a more mature and cohesive album, where every element serves the same emotional purpose.


Highlights

Poison serves as the perfect gateway into the album's world. Guided by Williams' captivating vocals, the track gradually builds in intensity while establishing the melancholic tone that runs throughout the record.

Wolves is one of the moments where the influence of atmospheric doom is most apparent. The song creates a constant sense of tension that draws the listener in and reinforces the album's emotional weight.

Little by Little stands as the album's high point. The track showcases Williams' remarkable ability to create a sense of heaviness without relying on aggression. Its emotional impact builds steadily, culminating in one of the most moving moments on Solstice.

The Veil stands out for its dark atmosphere and the way Williams' voice seems to float above the instrumentation. It is a deeply introspective piece that encourages listeners to turn inward and reflect.

The Gentle Harm provides the perfect closing chapter to the album. The song brings this emotional journey to a fitting conclusion, leaving behind a lingering sense of melancholy long after the final notes have faded.

Solstice goes beyond atmospheric doom; it is a profound exploration of human emotion. A.A. Williams demonstrates that heaviness does not always come from aggression. More often, it emerges from the raw and honest way difficult emotions are laid bare. It is an album that demands attention and emotional investment, but rewards those willing to embrace its journey with an experience that is intense, sensitive, and deeply moving.

Jack Owens



segunda-feira, 1 de junho de 2026

Cobertura de Show: Cult Of Fire – 20/05/2026 – Burning House/SP

O Cult of Fire transformou sua passagem por São Paulo em uma experiência sensorial profunda, quase um ritual fechado, em que música, simbolismo e atmosfera se fundiram em uma única entidade sonora. Integrando a turnê “Mantras for Peaceful Death Over Latin America” e promovendo o excelente The One, Who Is Made of Smoke (2025), a banda tcheca reafirmou aquilo que a tornou um dos nomes mais singulares do metal extremo contemporâneo: sua capacidade de dissolver as fronteiras entre apresentação musical e cerimônia espiritual. Conhecido por suas performances ritualísticas, figurinos inspirados em tradições orientais e forte carga visual, o grupo fez, mais uma vez, da cenografia um elemento indispensável de sua narrativa sonora. A apresentação aconteceu na Burning House, no último dia 20.

Durante o show, ficou claro que não haveria espaço para conversas desnecessárias, brincadeiras com o público ou discursos inflamados. O Cult of Fire optou pela imersão absoluta. Em meio a luzes calculadamente projetadas, fumaça abundante e à presença quase litúrgica dos músicos em seus figurinos característicos, “Loss” abriu o caminho como um portal para o universo conceitual do novo álbum. “Mourning” e “Anger” vieram na sequência, ampliando a sensação de envolvimento emocional e transcendência, ao combinar a agressividade do black metal com camadas melódicas densas, elementos ritualísticos e uma construção atmosférica que parecia engolir lentamente o ambiente.

A execução do material recente foi simplesmente impecável. “Dhoom”, “Blessing” e “Joy” demonstraram como The One, Who Is Made of Smoke funciona quase como uma obra contínua quando transportada ao palco. Em vez de depender apenas da violência tradicional do gênero, a banda construiu tensão por meio de contrastes: passagens contemplativas colidiam com explosões de bateria, guitarras hipnóticas e vocais alucinantes. “There Is More to Lose” surgiu como um dos pontos altos da apresentação, carregando um peso emocional particular e reforçando a temática do álbum, centrada em perda, transformação e espiritualidade.

Se o início foi marcado pelo mergulho no trabalho mais recente, a segunda metade do show serviu como uma celebração da identidade construída pelo grupo ao longo da carreira. “Závěť Světu”, “Kālī mā”, “Untitled 1” e “Khaṇḍa maṇḍa yōga” conduziram o público por paisagens sonoras em que a brutalidade do black metal convive naturalmente com referências hinduístas, atmosferas meditativas e uma abordagem quase cinematográfica. Era impressionante perceber como a audiência acompanhava, em silêncio reverente, cada transição entre as faixas, absorvendo cada detalhe, em vez de buscar a reação caótica típica de apresentações extremas.

“(ne)Čistý”, “Satan Mentor” e “Buddha 5” elevaram ainda mais a intensidade antes do encerramento. Mesmo sem interação constante, a conexão entre banda e público era evidente justamente pela ausência de palavras: o Cult of Fire preferiu permitir que a música falasse sozinha. E funcionou. Cada composição parecia cuidadosamente posicionada dentro de uma narrativa maior, como capítulos de uma liturgia obscura que exigia atenção total dos presentes.

Somente próximo da despedida veio a primeira interação, rompendo o silêncio ritualístico. Antes da última música, o vocalista Vojtěch Holub finalmente dirigiu algumas palavras ao público, agradecendo a presença, lembrando que aquela era a apresentação final da turnê e anunciando uma faixa extra dedicada ao falecido amigo brasileiro Leonardo. O gesto simples ganhou peso justamente por surgir após uma apresentação quase inteira sem interação com o público. O encore com “Reach The Sky and Die!” encerrou a cerimônia de forma explosiva, liberando a energia acumulada durante toda a performance. Mais do que um show memorável, o Cult of Fire entregou, na Burning House, uma experiência de entrega total, intensa, contemplativa, desconcertante e profundamente hipnótica. Uma noite que não pediu participação do público; pediu apenas rendição. 


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda 




Cult Of Fire – setlist:

Loss

Mourning

Anger

Dhoom

Blessing

Joy

There Is More to Lose

Závěť Světu

Kālī mā

Untitled 1

Khaṇḍa maṇḍa yōga

(ne)Čistý

Satan Mentor

Buddha 5

Reach The Sky and Die! 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Savatage: O Registro da Transformação Definitiva (Also In English)

Por Flavio Borges 

O lançamento de Madness Reigns From The Gutter (1990) transcende a ideia de apenas “mais um álbum ao vivo” do Savatage. O registro funciona, acima de tudo, como um documento histórico essencial de um dos períodos mais decisivos da trajetória da banda — o momento exato em que o grupo deixava para trás as amarras do heavy metal tradicional dos anos 80 e avançava rumo à identidade teatral, progressiva e emocional que o transformaria em uma entidade singular dentro da música pesada norte-americana.

Gravado durante a lendária Rulin’ The Gutter Tour, em 1990, o álbum captura o Savatage em estado de ebulição criativa. A banda ainda carregava a agressividade cortante de discos como Hall of the Mountain King, mas já incorporava, com impressionante naturalidade, arranjos sofisticados, melodias melancólicas, passagens de piano dramáticas e construções narrativas muito mais ambiciosas. Era o início da metamorfose definitiva do grupo.

A formação registrada aqui é frequentemente apontada pelos fãs como a encarnação definitiva do Savatage: Jon Oliva surge teatral, intenso e absolutamente visceral nos vocais; Criss Oliva, infelizmente falecido cedo demais, demonstra por que ainda hoje é reverenciado como um dos guitarristas mais expressivos e subestimados da história do metal; Chris Caffery aparece jovem, explosivo e repleto de energia; Johnny Lee Middleton sustenta o peso e a dinâmica das composições com enorme consistência; enquanto Steve “Doc” Wacholz entrega uma performance brutal e tecnicamente impressionante atrás de sua gigantesca bateria de três bumbos.

O grande mérito deste lançamento está justamente em evidenciar uma banda em plena transformação artística. Em 1990, o metal norte-americano caminhava rapidamente para sonoridades cada vez mais extremas — thrash, death e, posteriormente, groove metal começavam a dominar o cenário underground. Em vez de seguir tendências, o Savatage optou por expandir seus horizontes criativos. O grupo escolheu dramatizar sua música, torná-la mais emocional, mais épica e artisticamente mais ousada — uma decisão que acabaria definindo sua relevância histórica.

O repertório reforça essa transição de maneira brilhante. O setlist equilibra clássicos mais crus e agressivos, como “Sirens”, “Power of the Night” e “Hall of the Mountain King”, com composições mais sofisticadas e atmosféricas oriundas de Gutter Ballet, caso de “When the Crowds Are Gone” e da própria faixa-título. O contraste evidencia uma banda capaz de soar simultaneamente pesada, técnica, teatral e profundamente emotiva sem jamais perder identidade.

Musicalmente, o álbum também funciona como uma vitrine definitiva para o talento monumental de Criss Oliva. Sua guitarra alterna riffs agressivos, melodias neoclássicas e solos carregados de emoção com uma fluidez impressionante. Poucos guitarristas da época conseguiam unir técnica refinada e sensibilidade melódica de maneira tão orgânica. Não por acaso, muitos fãs consideram este período o auge absoluto de sua criatividade antes da trágica morte do músico, em 1993. A conexão artística entre Criss e Jon Oliva, registrada nessas performances, soa quase telepática.

Outro aspecto fascinante é perceber como várias sementes do futuro já estavam plantadas aqui. Muito do senso dramático, das orquestrações implícitas e da construção épica que mais tarde desembocariam na Trans-Siberian Orchestra já pode ser percebido nessas apresentações ao vivo. Em retrospecto, Madness Reigns From The Gutter (1990) soa quase como um elo perdido entre o Savatage mais agressivo dos anos 80 e a grandiosidade conceitual que definiria sua fase posterior.

A recepção entre os fãs veteranos tem sido extremamente positiva, especialmente pela força do repertório, pela intensidade das performances e pelo enorme valor histórico da gravação. Mais do que um exercício de nostalgia, o álbum reafirma algo que o tempo apenas tornou mais evidente: o Savatage foi uma das bandas mais criativas, ambiciosas e injustamente subestimadas da história do heavy metal. Enquanto muitos contemporâneos permaneceram presos a fórmulas desgastadas, o grupo buscava constante evolução artística — e este registro captura precisamente o instante em que essa transformação atingia seu ponto de combustão máxima.

Para fãs da banda — e para qualquer apreciador da evolução artística do heavy metal americano — Madness Reigns From The Gutter (1990) não é apenas recomendável: é absolutamente indispensável.

***ENGLISH. VERSION***

The release of Madness Reigns From The Gutter (1990) transcends the notion of being merely “another live album” by Savatage. Above all, this recording stands as an essential historical document from one of the most pivotal periods in the band’s career — the exact moment when the group began shedding the constraints of traditional ’80s heavy metal and moved toward the theatrical, progressive, and emotionally charged identity that would ultimately establish them as a singular force within American heavy music.

Recorded during the legendary Rulin’ The Gutter Tour in 1990, the album captures Savatage in a state of creative combustion. The band still carried the razor-edged aggression of albums like Hall of the Mountain King, yet was already incorporating sophisticated arrangements, melancholic melodies, dramatic piano passages, and far more ambitious narrative structures with remarkable naturalness. It was the beginning of the group’s definitive metamorphosis.

The lineup documented here is frequently regarded by fans as the definitive incarnation of Savatage: Jon Oliva appears theatrical, intense, and utterly visceral on vocals; Criss Oliva — taken far too soon — demonstrates why he is still revered today as one of the most expressive and underrated guitarists in metal history; Chris Caffery emerges youthful, explosive, and overflowing with energy; Johnny Lee Middleton anchors the compositions with immense weight and consistency; while Steve “Doc” Wacholz delivers a brutal and technically stunning performance behind his massive triple-bass drum kit.

The true strength of this release lies in how clearly it showcases a band in the midst of artistic transformation. By 1990, American metal was rapidly gravitating toward increasingly extreme sounds — thrash, death metal, and eventually groove metal were beginning to dominate the underground scene. Rather than following trends, Savatage chose to expand its creative horizons. The band decided to make its music more dramatic, more emotional, more epic, and artistically more daring — a decision that would ultimately define its historical significance.

The setlist reinforces that transition brilliantly. It balances raw and aggressive classics such as “Sirens,” “Power of the Night,” and “Hall of the Mountain King” with the more sophisticated and atmospheric compositions from Gutter Ballet, including “When the Crowds Are Gone” and the title track itself. The contrast highlights a band capable of sounding simultaneously heavy, technical, theatrical, and deeply emotional without ever losing its identity.

Musically, the album also serves as a definitive showcase for the monumental talent of Criss Oliva. His guitar work shifts effortlessly between aggressive riffs, neoclassical melodies, and emotionally charged solos with extraordinary fluidity. Few guitarists of that era managed to combine refined technique and melodic sensitivity so organically. Unsurprisingly, many fans consider this period to represent the absolute peak of his creativity before his tragic death in 1993. The artistic chemistry between Criss and Jon Oliva, captured throughout these performances, feels almost telepathic.

Another fascinating aspect is realizing how many seeds of the future had already been planted here. Much of the dramatic sensibility, implied orchestration, and epic construction that would later culminate in Trans-Siberian Orchestra can already be heard in these live performances. In retrospect, Madness Reigns From The Gutter (1990) feels almost like a missing link between the more aggressive Savatage of the 1980s and the conceptual grandeur that would define the band’s later years.

The reception among longtime fans has been overwhelmingly positive, particularly due to the strength of the material, the intensity of the performances, and the immense historical value of the recording. More than a nostalgic exercise, the album reaffirms something time has only made clearer: Savatage was one of the most creative, ambitious, and unjustly underrated bands in heavy metal history. While many of their contemporaries remained trapped within worn-out formulas, Savatage constantly pursued artistic evolution — and this release captures the precise moment when that transformation reached its point of maximum combustion.

For fans of the band — and for anyone who appreciates the artistic evolution of American heavy metal — Madness Reigns From The Gutter (1990) is not merely recommended: it is absolutely essential.

Frank White

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Foice: "a música tem que ser marcante, não passageira"

Entrevista por: Renato Sanson


Direto do underground gaúcho, a Foice vem carregando o peso do Death Metal com riffs brutais, agressividade e identidade própria. Hoje vamos trocar uma ideia sobre a trajetória da banda, influências, som extremo e os caminhos do Metal pesado no sul do Brasil.

“Chapter. 1” marcou a estreia oficial da Foice. Como foi o processo de composição e gravação desse primeiro material?

O processo de composição ocorreu de maneira fluída, baseado no que estávamos vivendo naquele momento, por isso o nomeamos como Chapter. 1, um começo de algo que visualizamos para o futuro.

Buscamos desde o início uma identidade inspirada nas bandas de Death Metal old school, desde a infância nós já tínhamos o costume de nos reunir para compor e improvisar algo que quiséssemos passar, então a parte instrumental ocorreu naturalmente, acreditamos que isso vem do fato de sermos irmãos. As gravações do EP foram feitas no nosso estúdio, guitarras, baixo, vocais, mixagem e masterização, a parte da captação de bateria foi feita no estúdio Bokada, pelo nosso amigo, Marcelo Rubira. A capa do EP também foi feita por nós, juntando os elementos que definem a banda.

 O EP tem uma identidade muito forte entre o Death Metal old school e momentos mais técnicos. Quais bandas vocês consideram suas principais influências?

Algumas das nossas influências são: Cannibal Corpse, Obituary, Dying Fetus, Death, Entombed e não podemos deixar de citar nossos amigos, e conterrâneos, Postmortem.

A cena extrema gaúcha sempre teve bandas importantes e uma personalidade própria. Como vocês enxergam a cena atual de Pelotas e do Rio Grande do Sul?

Depois da pandemia de Covid-19, muitas das bandas pelotenses, acabaram se desfazendo, mas a cena segue, porquê sempre surgem bandas novas, a cena do Rio grande do Sul, atualmente tem grandes nomes que levam bem o nome do Death Metal como: Krisiun, Rebaellium, e também membros gaúchos de outras bandas como a Luana Dametto que toca na Crypta e o Maurício Weimar que mesmo que hoje não esteja em alguma banda, é gaúcho e uma grande influência para bateristas do mundo todo.

O som de vocês lembra bastante aquela atmosfera do Death Metal da Flórida do fim dos anos 80/início dos 90. O que mais chama atenção de vocês dessa época do metal extremo?

Gostamos porquê quando tocavam parecia que era para descarregar toda a raiva acumulada, um som cru e pesado, como um soco na boca.

Apesar da agressividade, o EP também mostra bastante preocupação técnica e estrutural nas músicas. Isso surge naturalmente nas composições ou é algo pensado pela banda?

As ideias surgem naturalmente, costumamos fazer ensaios que duram o dia inteiro, ao mesmo tempo que gostamos de fazer coisas mais técnicas, acreditamos que a música deve ser marcante e não algo passageiro.

Como tem sido a recepção do público ao “Chapter. 1” desde o lançamento? Teve algum retorno que surpreendeu vocês?

O EP foi muito bem recebido, já recebemos vários convites para tocar em festivais, ainda esse ano começaremos os shows.

Vocês já estão trabalhando em material novo. O que podemos esperar dessa próxima fase? Vai seguir a mesma linha ou teremos mudanças sonoras?

Sim, estamos trabalhando no nosso primeiro álbum, vocês podem esperar mais técnica velocidade, peso e muito blast beat.

Para finalizar: qual é o objetivo da Foice dentro do underground brasileiro hoje? Até onde vocês querem levar esse projeto?

Dentro do underground, a nossa vontade é de tocar no máximo de lugares possíveis, conhecer mais bandas e espalhar nosso Death Metal, queremos levar o projeto o mais longe possível, se conseguirmos levar até a lua, nós levaremos (risos).

 

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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Graspop Metal Meeting: A Experiência Definitiva do Metal Europeu

Festival reúne grandes nomes do metal internacional, estrutura completa de camping e milhares de fãs em quatro dias de imersão musical na cidade de Dessel, na Bélgica

Por Cammy Marino

O tradicional Graspop Metal Meeting já confirmou as datas de sua edição de 2026 e promete mais uma vez transformar a cidade de Dessel, na Bélgica, em um dos principais pontos de encontro dos fãs de heavy metal no mundo. O festival acontece entre os dias 18 e 21 de junho e deve reunir milhares de pessoas para quatro dias de shows, camping e experiências voltadas ao universo da música pesada.

Reconhecido pela grande estrutura e organização, o evento oferece múltiplos palcos, área oficial de camping, espaços de alimentação, lojas de merchandising, lockers, sistema cashless e infraestrutura completa para o público que busca viver a experiência integral do festival.

Chris Stessens

O line-up inicial já conta com grandes nomes da cena internacional, entre eles Megadeth, Anthrax, Alice Cooper, Alter Bridge, Mastodon, Within Temptation, Architects, BABYMETAL, Bad Omens e Limp Bizkit.

Para o público internacional, o acesso ao festival pode ser realizado por meio dos aeroportos de Bruxelas, Antuérpia ou Eindhoven, com opções de transporte público e transfers oficiais até o local do evento.

Chris Stessens

A organização recomenda que os visitantes viajem com documentação válida e ingresso digital em mãos. Também é importante se preparar para temperaturas baixas e possibilidade de chuva durante os dias do festival. Quem optar pelo camping deve organizar barraca e equipamentos com antecedência, além de levar itens essenciais como power bank, capa de chuva e cartão internacional.

Mais do que um festival, o Graspop Metal Meeting consolidou-se como uma verdadeira peregrinação anual para fãs de metal de diversas partes do mundo.

Serviço: 

Local: Festivalpark Stenehei, Kastelsedijk, em Dessel, Bélgica. Fica a cerca de 60 km de Antuérpia e a 99 km de Bruxelas. 

Data: 18 a 21 de junho de 2026

Camping: O ingresso padrão (fim de semana) geralmente inclui acesso ao acampamento oficial do festival. Consultar em https://www.graspop.be/en/tickets

Opções Premium: Para mais conforto, é possível reservar o Graspop Metal Town, que oferece cabanas de madeira (Festihut) e espaço para motorhomes