A seleção do Blues-Rock jogou em casa: Shawn James incendeia o Cine Joia
Era para ser mais uma sexta-feira fria (graças à mudança maluca de tempo) em São Paulo, se não fosse por um detalhe: era dia de show do Shawn James no Cine Joia. Inicialmente, todo o meu conhecimento sobre ele vinha da minha paixão pelos games e da voz inconfundível e absurdamente inacreditável, que saía da trilha de The Last of Us Part II. Mas, para minha sorte, ele me faria ficar de boca aberta inúmeras vezes ao longo daquela noite.
Para quem ainda não conhece a fundo essa figura, Shawn James é um cantor e compositor americano, nascido em Chicago, que transita com perfeição entre o blues, o folk, o soul e o rock pesado. Com um alcance vocal impressionante e letras cruas que parecem sair direto da alma, ele vem construindo uma carreira sólida e visceral desde meados de 2012. E o público paulistano estava com saudade: fazia dois anos que Shawn não pisava em solo brasileiro, o que só ajudava a acumular a energia represada daquela noite.
Mas, vamos começar do início. Cheguei à casa de shows, localizada no coração da Liberdade, pontualmente para o credenciamento. Enquanto aguardava a pulseira, vi parte dos músicos descendo e pude sentir uma animação que de pronto me contagiou. Entrei, peguei um bom lugar, vi fãs devotos com camisetas de diferentes modelos e tipografias e aguardei o início. Deu 21h e, pontualmente, a introdução começou. Aos gritos, os músicos subiram ao palco e, logo em seguida, sob uma ovação que eu nem achava possível para o tamanho daquele local, Shawn apareceu e mandou logo Curse of the World.
Em anos de shows e coberturas, poucas vezes na vida vi fãs cantarem tão alto a ponto de me fazer sentir em um festival para mais de 50 mil pessoas. Eles sabiam cada letra e vibravam como se a seleção brasileira estivesse fazendo um gol na final da Copa. E, de fato, era. A seleção deles estava bem ali, na frente de cada um. Na sequência, ele emendou I Want More e Burn The Witch, com um público que simplesmente não parava de cantar.
Aliás, vale fazer uma pausa obrigatória aqui para falar de Sage, o violonista da banda. Eu simplesmente não consegui tirar os olhos dele o show inteiro. A entrega, a animação e o amor visível pelo que faz são coisas das quais nunca vou me esquecer, principalmente no momento em que ele perdeu totalmente a cabeça e se jogou no público, caindo nos braços da galera. Foi épico!
No intervalo para a próxima música, Shawn comentou que estavam filmando o show e que o motivo de terem escolhido São Paulo era justamente por sermos a melhor plateia do mundo. Fomos o experimento mais legal do projeto, já que era a primeira vez que faziam um registro audiovisual desse tipo.
Na sequência, tivemos Icarus, Orpheus, Flow e Thief And The Moon. Após o final dessa última, os músicos deixaram o palco, dando lugar ao momento acústico de Shawn. Foi quando ele contou que um fã foi ao meet & greet e fez uma "pinky promise" (aquela promessa de dedinho) para convencê-lo a tocar uma música que ele pedia há anos, intitulada When I’m Gone. Shawn brincou que, se ele errasse tudo, a culpa seria desse fã (o que ele disse caindo na risada, claro, já que tocou e cantou majestosamente). Na sequência, contando um pouco sobre como surgiu o convite da produção para vir ao Brasil, engatou American Hearts e The Guardian.
Então, chegou a hora da catarse. Shawn começou a falar sobre a época em que tocava em bares e que, naqueles dias, compôs uma música que teve de deixar de lado para tocar mais covers e sons que mantivessem a atenção das pessoas, já que ninguém queria ouvir baladas. Isso o chateou bastante na época, pois era algo muito visceral dele. Até que, quando o procuraram para inserir uma faixa em The Last of Us Part II, pediram justamente a menos popular: Through The Valley. Nesse momento, o Cine Joia veio abaixo. Todo mundo cantando ainda mais alto, mãos para cima, preenchendo cada centímetro do espaço com uma energia surreal.
Depois desse momento mágico, veio o restante do setlist: Headed for the End, Peace of Mind e My Juliet, entre muita animação, um Shawn extremamente grato e bem no estilo "mestre cervejeiro" que chegou até a provar o drink de uma pessoa da plateia.
Mais à frente, ele compartilhou que, pelo bem da sua saúde mental, teve que dar uma pausa no ano passado para respirar e sair da correria das turnês, o que lhe fez um bem enorme. Contou que, no México, perguntaram se ele estava bem por conta da música forte que cantaria a seguir, e ele respondeu que sim, pois a música era a sua terapia, o lugar onde ele colocava as dores e as deixava ir. Veio então Tired Of Trying, seguida por No Blood e Haunted, na qual ele dividiu a plateia para cantar junto, provando mais uma vez por que a gravação tinha que ser ali.
Em Devil’s Daughters, ele anunciou que seria a última música, arrancando na hora um coro demorado de "Eu não vou embora!" do público. E não foram mesmo. Shawn e a banda voltaram para o bis com Muerte Mi Amor e Let Me Go, encerrando uma noite simplesmente inesquecível.
Saí do Cine Joia com a certeza de que uma troca pura e honesta de energia entre artista e público. O frio de São Paulo ficou do lado de fora; do lado de dentro, Shawn James e sua banda provaram que a música feita com a alma ainda tem o poder de lavar a nossa. Que ele não demore tanto tempo para voltar!
Em 2021, em plena pandemia, uma banda que trouxe a influência do heavy metal e hard rock oitentista chamou a atenção do público brasileiro com o disco Prisioneiro do Rock N’ Roll, que marca a estreia do Trovão e que despertou o interesse do público, das mais variadas faixas etárias, por esse resgate clássico do estilo e por ser cantado em português.
Depois de três anos, a banda, agora com uma nova formação e mais consolidada, lançou o Diamante, que, depois de um ano de lançamento, ainda continua rendendo bons frutos e proporcionando shows em festivais importantes, como o Bangers Open Air e o Keep It True, um feito histórico para uma banda que canta na sua língua nativa em um país que respira heavy metal.
Para falar sobre esse momento especial que a banda vem vivendo, o vocalista Gustavo conversou com a Road To Metal para falar sobre esses acontecimentos, o mais recente disco, os novos singles e o novo trabalho, que já está na fase de composição e que será lançado no próximo ano.
2026, até agora, está sendo um ano muito legal para o Trovão. Teve o lançamento do Diamante no ano anterior e a estreia de vocês lá no Bangers. Vocês fizeram recentemente um show bem legal abrindo para o Riot V, em Curitiba, e, muito em breve, vão estar no Keep It True, na Alemanha. São consequências do trabalho que vocês estão fazendo? Como vocês têm vivido esse momento? Em algum instante caiu a ficha de que a banda estava alcançando um novo patamar?
Gustavo: Na verdade, a coisa foi andando passo a passo. A gente lançou o Diamante sem nenhuma pretensão, apenas de lançar mais um disco, já que o Prisioneiro... tinha ido muito bem na época. Acabou sendo uma continuação, mas não foi pensando em fazer grandes shows ou esse monte de coisa. A coisa simplesmente foi acontecendo. O primeiro convite que a gente teve foi para tocar lá fora. Não foi no Keep It True, foi em um evento em Portugal, que teria o Sortilégio como headliner. Mas a parte financeira que eles iam arcar não estava tão interessante para a gente. Acabamos recusando. Depois veio o convite para tocar no Ópera de Arame com o Riot V. E aí foi indo. Depois apareceu o convite do Keep It True. Então foi uma coisa atrás da outra. Mas não era algo que estava programado, que a gente pensou que ia acontecer. As expectativas sempre foram baixas. A gente é uma banda, querendo ou não, de nicho. É uma banda underground. Então não pode ficar sonhando com muita coisa. Eu estou preocupado em fazer um bom material, que é o que vai ficar. O resto é consequência, e a gente está aproveitando cada momento.
E olhando para trás, desde a formação do Trovão até hoje, qual você considera ter sido o principal ponto de virada da trajetória da banda?
Gustavo: Eu costumo falar que não teve um ponto de virada. A virada foi quando a gente decidiu gravar o primeiro disco. A partir daí foi uma sequência. A gente gravou, ficou satisfeito com o trabalho e o pessoal gostou bastante. Foi muito bem aceito na época. Até hoje ele é muito bem falado. Depois pegamos tudo o que faltou no primeiro disco e trouxemos para o segundo. Fizemos mais músicas, mais variações. Trabalhamos melhor as letras, a timbragem dos instrumentos e a produção. Então fomos melhorando o trabalho. Para mim, não houve uma virada, e sim uma evolução da banda. Foi consequência da vontade de fazer a coisa muito bem feita.
Agora falando sobre o Diamante, um disco que eu adorei, gostei bastante. Ele foi recebido com muito entusiasmo pelo público. É difícil até escolher uma faixa preferida, porque todas são ótimas. Parabéns mesmo. Mas, se eu fosse escolher uma, seria Olhos da Cidade, que é a que eu mais curto do disco.
Gustavo: Essa também está entre as minhas favoritas. Foi uma música que eu fiz meio de última hora. Ela surgiu para completar o repertório, porque faltava uma balada. Acabei fazendo ela. Dessas músicas do disco, acho que é uma das mais novas que eu compus.
E justamente por essa questão de ser uma balada, de ter aquela melodia logo no início, ela me cativou muito. Foi isso que mais me surpreendeu. Conceitualmente e musicalmente, o que esse álbum representa para o Trovão?
Gustavo: Para a gente, esse foi o ápice da parte criativa. Tudo o que a gente pôde fazer de melhor, fez. Eu lembro que foi um trabalho de dois anos. Pensamos com muito cuidado em tudo: na ordem das músicas, na parte lírica, na capa. Fizemos tudo com muito carinho. Então, para mim, representa isso: o melhor que a gente podia fazer naquele momento. Agora já estamos trabalhando nos materiais futuros.
Todo disco registra um momento específico de uma banda. O que o Diamante diz sobre quem vocês eram durante o processo de composição e gravação?
Gustavo: Fala muito sobre maturidade. Eu, particularmente, consegui gravar algumas tonalidades que, na época do Prisioneiro..., eu não conseguia cantar. Era muito difícil para mim. No Diamante eu consegui. Tem várias músicas em tonalidades que eu jamais imaginaria que conseguiria interpretar. Explorei bastante essa parte vocal. A parte dos solos de guitarra também evoluiu bastante. Os teclados cresceram muito. Quando o Luke foi gravar com a gente, trouxe outras referências de timbres e ideias que agregaram bastante ao som. Agora, nesse próximo disco, vamos contar com o Fusa, que está tocando teclado com a gente. Ele também vai trazer outras referências. Então a gente vai agregando, amadurecendo e se aprimorando. O futuro ninguém sabe, mas eu sei que quero gravar outro disco. Já estou com algumas músicas prontas e também tenho um cover que vou fazer. Vou resgatar mais uma banda nacional desconhecida. Vai ser uma grande surpresa para quem curte. Não vou revelar agora o que é, mas podem ficar tranquilos que vem coisa boa. Depois que a gente finalizar o show do Keep It True, ainda teremos mais um show de encerramento, no final do ano, aqui em São Paulo. Depois vamos parar os shows para nos dedicar somente ao estúdio, à composição e ao próximo trabalho.
Continuando falando sobre o Diamante, existe alguma faixa do álbum que ganhou um significado diferente, além de Olhos da Cidade, que a gente comentou agora, seja por ter sido levada aos palcos ou pela forma como foi abraçada pelos fãs?
Gustavo: Acredito que não. Acho que as letras foram abraçadas da maneira que eu imaginei mesmo. Não acho que tenha mudado o significado de nenhuma delas.
Recentemente vocês lançaram um single novo, que é como se fosse uma prévia do que a gente vai ver no terceiro disco, que você comentou que deve sair no ano que vem. Meu Caminho transmite, ao mesmo tempo, uma sensação de perda — você tinha comentado isso comigo antes —, mas também de perseverança e identidade. Temas que parecem dialogar com o momento que o Trovão vive atualmente. Essa conexão foi intencional ou a música acabou ganhando um significado ainda maior conforme a trajetória da banda foi evoluindo?
Gustavo: A letra de Meu Caminho fala sobre perda, sobre luto. Ela conta a história de uma pessoa que perdeu outra e, para continuar sentindo essa pessoa por perto, conversa com ela. A letra fala disso. Nem todo mundo entendeu essa parte. Muita gente levou para o lado da perseverança. Também existe essa questão da perseverança, mas acho que ela é muito mais focada no luto. É uma música mais melancólica.
Junto com esse novo single, Meu Caminho, vocês também fizeram um cover de Olho Animal, da Patrulha do Espaço, e, de certa forma, estabeleceram um diálogo com uma obra que faz parte da história do metal brasileiro. O que motivou essa escolha? E como vocês encontraram esse equilíbrio entre preservar a essência da música original e imprimir a identidade do Trovão nessa nova versão?
Gustavo: A Patrulha do Espaço foi uma das minhas referências para montar o Trovão. Então, acho que nada mais justo do que prestar essa homenagem. Eu fui mais na onda da regravação que eles fizeram no Primos Inter Pares, com o Percy Weiss nos vocais, que também é uma grande influência para mim. É um cover que eu já queria gravar havia algum tempo. Na época do Diamante, eu já cogitava gravar esse som, mas, como eu já tinha feito o cover de Vapor, não queria colocar dois covers no mesmo disco. Então pensei: "Em um material futuro eu lanço essa música." Eu já tinha feito alguns testes em casa, algumas gravações minhas, e tinha dado certo. Depois imprimimos a nossa marca nela. Trabalhamos melhor a questão dos solos, acrescentamos algumas camadas de teclado, sem destoar da música e sem descaracterizar a versão original, mas trazendo mais para a nossa identidade. Então acredito que o resultado ficou bem bacana.
Agora falando um pouquinho do que aconteceu com o Trovão neste ano. Vocês tocaram no Bangers Open Air, um dos festivais mais importantes da América Latina e um objetivo para muitas bandas brasileiras. Como foi receber esse convite e viver essa estreia dentro do que é o maior festival de heavy metal do Brasil e também da América Latina?
Gustavo: Eu já tinha tocado em alguns festivais na época do Selvageria, mas não desse porte. Não eram festivais tão grandes, com tantas bandas internacionais e com uma estrutura como aquela. Então, para a gente, foi uma experiência totalmente nova. Foi bem diferente e muito legal. A gente tocou na festa de abertura, na sexta-feira, na Audio, e depois no Memorial da América Latina, no domingo. Foi fantástico. Um palco excelente, qualidade de som muito boa e um público incrível. Muita gente que não conhecia o Trovão teve a oportunidade de conhecer a banda ali. Como somos uma banda de nicho, existe muita gente de outros estilos que nem imaginava que existíamos. Também conhecemos muita gente de fora: pessoas do Chile, da Argentina e de outros países vizinhos que foram prestigiar o evento. Eles ficaram malucos com a banda e me mandam mensagens até hoje. Foi uma oportunidade muito importante para nós.
E vocês receberam esse convite através do Edu Macedo, da MS Metal. Foi muito legal da parte dele.
Gustavo: Exatamente. Ele colocou a gente no evento. O Edu é fantástico. Um abraço para ele, se estiver vendo esta entrevista. Foi foda. Foi muito legal. Inesquecível.
O que mais marcou você naquele dia? A preparação, a reação do público ou os bastidores, dividindo espaço com artistas consagrados? Pelo que eu sei, você teve a oportunidade de conversar com o Ralf Scheepers e ainda conseguiu um autógrafo em um vinil da primeira banda dele. Você tinha comentado isso comigo antes e eu achei muito legal. Infelizmente eu não consegui assistir ao show de vocês no domingo do Bangers, porque foi no mesmo horário do Smith/Kotzen.
Gustavo: A gente até encontrou o Adrian Smith de relance no túnel que tinha embaixo do palco. Na hora em que eu estava prestes a entrar, ele estava passando pelo mesmo corredor. Existe um corredor subterrâneo onde as bandas circulam, e foi muito legal. Eu vi o Udo, vi um monte de gente. No domingo tinha um espaço onde o pessoal ficava comendo, tinha churrasco, bebida... então as bandas acabavam se encontrando por lá. Eu tinha levado os discos do Tyran' Pace, que foi a primeira banda do Ralf Scheepers. Na sexta-feira eu não consegui encontrá-lo, porque estava uma correria muito grande. Então levei novamente no domingo para ele assinar. Ele ficou impressionado, porque muita gente nem conhece essa fase da carreira dele. O pessoal acha que ele nasceu no Primal Fear, mas não foi assim.
E também teve o Gamma Ray. Muita gente conhece ele por causa do Gamma Ray.
Gustavo: Exatamente. O Tyran' Pace era uma banda dos anos 80, com uma influência muito forte de Judas Priest. Depois ele foi para o Gamma Ray e, em seguida, para o Primal Fear, onde está até hoje. Eu não sei se ele tem algum outro projeto atualmente, mas esses são os que eu conheço.
Só esses mesmo. Ele chegou a fazer uma participação no Avantasia, mas o foco dele sempre foi o Primal Fear.
Gustavo: Ah, então. Acabei pegando o autógrafo e conversando um pouco com ele. Foi uma honra enorme.
Você comentou sobre o fato de terem tocado tanto na pré-party quanto no domingo, e de muitas pessoas que não estavam habituadas ao estilo do Trovão terem se surpreendido com as músicas da banda e com a qualidade de vocês ao vivo. Depois dessas duas apresentações, vocês perceberam mudanças concretas na visibilidade da banda, no alcance, nos convites para shows e também no reconhecimento dentro da cena?
Gustavo: Sempre acontece. Sempre abre novos horizontes. Recebemos outras propostas e estamos conversando com bastante gente, produtores também. Lá no evento a gente conheceu até o dono do Wacken. Ele foi na sexta-feira, tiramos uma foto com ele e tudo mais.
Eu cheguei a encontrar com ele também lá no Bangers.
Gustavo: Legal. A cada dia que passa, a gente acaba fazendo mais contatos, recebendo novos convites e surgindo novas oportunidades. Mas vamos avaliando o que faz sentido e o que não faz. Neste momento, a gente realmente vai parar para fazer um novo disco. Precisamos de tempo para isso. Não tem como manter uma agenda intensa de shows e, ao mesmo tempo, focar na composição. Pelo menos para a gente, não funciona. A cabeça acaba ficando concentrada em uma coisa só. Mas, neste ano, tudo o que a gente queria conquistar, conquistou. Foi muito legal. Até agora, tudo saiu melhor do que a gente imaginava. Nunca pensamos que conseguiríamos fazer tanta coisa em um único ano. Ficamos muito felizes, porque superamos as expectativas que tínhamos.
Na sequência, depois do show de hoje, no Sesc Belenzinho (N.T.: a entrevista foi realizada no dia do show, 18/07), vocês embarcam para o Keep It True, na Alemanha. É um festival onde vocês vão dividir palco com Savatage, Saxon e Armored Saint. Levar um trabalho autoral brasileiro para um país que tem uma tradição tão forte no heavy metal — afinal, além do Keep It True, eles têm o Wacken, o Summer Breeze e tantos outros festivais importantes — certamente tem um peso especial. Qual é a expectativa de vocês para essa experiência, que também representa outra grande conquista para o Trovão?
Gustavo: Essa talvez seja a maior conquista. Levar um heavy metal cantado em português para a Alemanha, sendo que a gente ainda é uma banda de nicho, é um grande feito. É uma coisa que eu nunca imaginei que aconteceria. Eu até imaginava que faríamos shows internacionais mais perto daqui, como Bolívia ou Argentina, onde a língua é mais próxima da nossa e existe uma facilidade maior de entendimento. Na Europa, eu pensava mais em Portugal e Espanha, mas isso para um futuro mais distante. Não era uma coisa para acontecer agora. Mas aconteceu. Como eu tinha comentado, nosso primeiro convite internacional foi aquele evento em Portugal, que acabou não acontecendo por questões financeiras. Tenho certeza de que, depois do Keep It True, outros convites vão aparecer. Portugal e Espanha são mercados interessantes para a gente. Agora é fazer bonito, mostrar o nosso trabalho e colher os frutos, ainda mais quando tivermos material novo. Além disso, temos a parceria com a Classic Metal, que faz as prensagens dos nossos discos e CDs, e também com a Lost Helmet, de Portugal. Isso facilita bastante, porque você já tem um braço na Europa, alguém com contatos por lá, e isso ajuda a ampliar as oportunidades.
Acho que cheguei a ver um post da Classic Metal. Acho que eles estavam até mandando o disco do Trovão para o Japão.
Gustavo: Vai para o Japão algumas cópias também. O meu sonho é tocar no Japão. No dia em que eu tocar lá, vou sentir que venci na vida.
E eu sei que você é muito fã do Michael Schenker. Ele gravou aquele disco ao vivo no Budokan. Nossa, acho que seria um sonho para qualquer banda tocar ali. Os Beatles tocaram no Budokan também.
Gustavo: O Japão, para mim, é um grande sonho. Um sonho que eu tenho de conhecer, quanto mais tocar por lá. Acredito que um dia isso possa acontecer. Tenho essa esperança. Quem sabe mais para frente? Vamos ver como as coisas acontecem. Vamos gravar mais material, manter o nível do Diamante e do Prisioneiro. É capaz de isso acontecer lá na frente.
Vai dar certo, sim. Vocês estão fazendo um trabalho muito consistente. Tudo direitinho. Com calma, vocês vão conquistar isso.
Gustavo: Obrigado!
Falando agora sobre a identidade da banda. O Trovão vem construindo uma identidade bastante própria dentro do metal nacional. Na sua visão, quais características fazem a banda ser reconhecida logo nos primeiros minutos de um show ou de uma música?
Gustavo: Acho que muito pelo vocal. A forma como eu canto acaba trazendo uma identidade forte. Eu tenho um jeito específico de cantar. Peguei muita referência dos vocalistas nacionais dos anos 70. Tenho muita influência da forma de cantar do Made in Brazil, do Cornelius, do Percy Weiss, da Patrulha do Espaço. Toda essa aura do rock paulista dos anos 70 e 80. Então eu tenho muito essa veia na questão da voz. Eu não sou um cara supertécnico, superestudado, mas acredito que a forma como eu canto faz com que a pessoa escute e já saiba que sou eu. Agora, com essa questão dos teclados sintetizados e das guitarras, o pessoal também já faz essa associação. Então foi se criando essa identidade. O que eu faço não é uma inovação. Isso sempre existiu, principalmente lá atrás. Mas hoje em dia acabou ficando em desuso. É difícil encontrar uma banda que misture heavy metal, hard rock e AOR. Antigamente existiam várias. Hoje você encontra uma banda de heavy metal, outra de hard n' heavy, outra de AOR lá fora. Mas que faça essa junção toda, atualmente eu realmente não conheço ninguém.
Você falou das influências da banda. Como vocês conseguem equilibrar todas essas características? Porque, quando a gente ouve as músicas do Trovão, percebe claramente a influência do heavy metal clássico dos anos 80, mas também do hard rock, do AOR e do melodic rock. E eu noto isso principalmente nos timbres de guitarra. Percebo muita influência do Warren DeMartini, do Ratt, e também do George Lynch, do Dokken.
Gustavo: Em termos de guitarra, minhas principais referências para fazer esse tipo de som são justamente o Warren DeMartini e o George Lynch, do Dokken. Para mim, eles são as grandes referências de guitarra para esse estilo que eu faço. Eu pego muita influência deles mesmo. Sempre tento chegar o mais próximo possível daquilo que me agrada. Às vezes muda alguma coisa no timbre, mas minha base sempre vai ser essa: o hard n' heavy. Sou apaixonado por esse estilo. É o tipo de som que eu realmente gosto. Mas também tem muita influência do Accept e do Judas Priest. Para mim, o Judas é a melhor banda de heavy metal do planeta. Não existe banda mais foda que o Judas. Vou pegando uma coisa aqui, outra ali. Também temos muita referência do Pretty Maids. É uma banda que fazia exatamente isso: misturava heavy metal com hard rock e também com AOR.
Eu adoro o Pretty Maids.
Gustavo: É uma banda de que pouca gente fala, mas fazia isso com excelência.
Você chegou a assistir ao show do Pretty Maids no Bangers Open Air do ano passado?
Gustavo: Não. Acabei não indo.
Que show sensacional! Foi uma realização ver o Pretty Maids ao vivo. Eu também consegui conhecer o Ronnie Atkins.
Gustavo: Conheceu? Ele estava enfrentando um câncer. Nem sei como conseguiu fazer aquele show.
Ele continua se tratando, mas está muito bem e cantando demais. É impressionante.
Gustavo: Demais! O Pretty Maids, para mim, é uma banda-modelo. Se eu tivesse que citar uma banda internacional como referência, seria o Pretty Maids. É uma puta referência para mim.
E naquele dia ele estava muito animado. Acho que, para eles também, foi a realização de um sonho. Afinal, são mais de quarenta anos de estrada. Ele comentou que faltava apenas um show do Pretty Maids no Brasil. Foi realmente um show inesquecível.
Gustavo: Todo mundo que foi falou muito bem.
Agora falando sobre o cenário nacional. Na sua opinião, o metal brasileiro vive um momento de renovação? O que ainda precisa acontecer para que as bandas autorais tenham mais espaço e consigam alcançar novos públicos?
Gustavo: É difícil responder isso. O metal underground ainda tem pouco espaço hoje em dia. Não existem muitos lugares que ofereçam uma boa estrutura. Acho que as bandas precisam correr atrás do próprio trabalho e fazer o melhor possível. É preciso se profissionalizar ao máximo. Eu estou nessa estrada há muitos anos. A primeira vez que subi em um palco foi em 2001. Então já comi muita poeira, já toquei em muito buraco. Sei bem do que estou falando. É preciso ter perseverança. Não se vender por pouco. Tem muita banda que paga para tocar. Eu mesmo já paguei muito para tocar. Tirei dinheiro do bolso e só me ferrei. Então acho que cada banda precisa fazer o seu trabalho e se preocupar em construir uma identidade. Isso é importantíssimo. Não adianta ser apenas uma cópia. É claro que a minha ideia nunca foi criar algo totalmente novo. Não é essa a proposta. A minha ideia sempre foi prestar uma homenagem a tudo aquilo de que eu gosto. Fazer o som que eu gostaria de ouvir em uma banda. Tudo aquilo que eu queria escutar, eu faço no Trovão. Então não é uma questão de inovação, mas é fundamental ter identidade. Identidade visual também. Se preocupar em fazer o melhor possível com os recursos que você tem. Acho que tudo começa por aí. Agora, o que falta? É difícil responder. O heavy metal continua sendo um estilo muito pequeno. É um nicho. E o som que a gente faz é o nicho do nicho. Então não tem muito segredo. É seguir em frente. Gravar discos. Fazer shows. Fazer aquilo em que você acredita de verdade. Não ficar pensando apenas no mercado, porque isso não funciona. Eu tenho o meu trabalho. Não vivo da banda. Os outros integrantes também trabalham. É claro que seria maravilhoso viver da música, mas essa ainda não é a nossa realidade. Como a banda não gera renda suficiente para isso, você precisa fazer tudo com a alma, com o coração, dentro das possibilidades que tem. O restante vai acontecendo naturalmente. As oportunidades aparecem como consequência do trabalho. Hoje a gente vai para a Europa. Tocamos no Bangers. Fizemos vários shows. Vamos tocar hoje no Sesc. Tudo isso aconteceu por causa do trabalho. É simples. Claro que também existe um pouco de sorte. Nem tudo depende apenas da gente. Mas o importante é continuar fazendo. Continuar seguindo em frente.
Depois de conquistar festivais importantes, vocês sentem uma responsabilidade maior em representar essa nova geração do metal nacional?
Gustavo: Com certeza. A maioria dos shows que fizemos agora tinha gente de todas as idades. O pai levando o filho, o filho com a camiseta do Trovão... Teve um show que fizemos na Burning House, acho que foi o primeiro da turnê do Diamante. Cara, estava lotado. Tinha criança, adolescente, o pai levando o filho porque o filho gostava da banda. O pai também gostava, mas o filho gostava ainda mais. Também vi gente com mais de 70 anos no show. Isso é muito legal. O que mais me deixa feliz é ver o pessoal mais novo, porque é uma forma de manter tudo isso vivo. Não pode morrer com a nossa geração. As coisas precisam ser passadas para frente. Amanhã eu posso não estar mais aqui.
E o mais legal é que pessoas que nem ouvem o estilo do Trovão acabam gostando da banda. Vou dar um exemplo. Uma amiga minha vai estar no show de hoje. Eu apresentei o Trovão para ela, mas o estilo que ela costuma ouvir é mais metal sinfônico. Mesmo assim, ela falou: "Caramba, a banda é muito legal. Ela resgata esse feeling retrô." Ela gosta de coisas mais clássicas, mas não está acostumada com esse nicho. Ainda assim, gostou tanto que falou que irá assistir ao show hoje.
Gustavo: Isso foi uma conquista nossa. Muita gente de fora do nicho gosta do Trovão. Muita mesmo. Tem gente do black metal que gosta. O Wagner, que foi do Sarcófago, adora o Trovão. O pessoal do Vulcano veio falar comigo assim que lancei o Prisioneiro do Rock'n'Roll. Tem muita gente fora dessa onda do hard and heavy que gosta da banda. Até pessoas que tinham certo preconceito com metal em português acabam gostando do Trovão. Por algum motivo, elas se identificam. Eu não sei explicar exatamente o que é.
Acho que isso acontece porque, apesar de as letras serem em português, quando a gente ouve parece que vocês estão cantando em inglês. É muito difícil encontrar bandas brasileiras que compõem em português, mas que têm essa fluidez na melodia vocal. Acho que esse é um dos grandes diferenciais do Trovão.
Gustavo: Talvez seja pela forma como eu componho as melodias. Eu penso quase como se estivesse escrevendo em inglês. Penso de uma maneira que a melodia deslize sobre a música, sem aquela sensação de encaixe forçado. Eu componho o riff junto com a linha vocal. Não faço primeiro o riff para depois colocar a voz, nem escrevo a letra antes para depois criar a melodia. Eu faço tudo junto. É um processo meio maluco, mas foi a forma que encontrei de compor. Acho que isso acaba criando essa sensação de que a música tem uma sonoridade internacional. Cada compositor tem um método diferente. Não existe regra. Foi assim que eu me encontrei como compositor. Fazia isso no Trovão e também fazia no Selvageria, quando as letras também eram em português.
Já existem músicas novas? Um novo álbum? Outros projetos que o público já pode começar a esperar?
Gustavo: Sim. Na verdade, já tenho três músicas prontas. Também já decidi qual será o próximo cover. Então já posso considerar quatro faixas encaminhadas. A ideia é compor mais cinco músicas, totalizando nove, para gravar o próximo disco. Agora vamos focar totalmente nisso. Mas, antes do álbum de estúdio, quero lançar um trabalho ao vivo. Quero ver se consigo gravá-lo na Alemanha, para não ficar um intervalo muito grande entre um disco e outro. Quero fazer um disco ao vivo de verdade, bem produzido. As faixas ao vivo que lançamos como bônus são praticamente bootlegs, retiradas da mesa de som. Agora queremos fazer um trabalho com mixagem, tratamento e qualidade para se tornar um álbum oficial ao vivo. Como você comentou do Live at Budokan, existem vários discos ao vivo clássicos: Live After Death, Unleashed in the East, Priest... Live!, Stay Alive, do Accept... A ideia é fazer um trabalho que reúna músicas do Prisioneiro e do Diamante. Vamos ver se conseguimos lançar esse material antes do terceiro álbum.
Para a gente encerrar: se daqui a dez anos alguém olhar para a história do Trovão, o que você gostaria que fosse lembrado? Os palcos que a banda conquistou ou o impacto que as músicas tiveram na vida das pessoas? E por quê?
Gustavo: Com certeza, o impacto das músicas. O show é momentâneo. É uma lembrança daquele dia. Agora, o disco é eterno. A gente pode pegar como exemplo as bandas de que gosta. O Dio já se foi. Eu tive a oportunidade de assistir a vários shows dele, acho que três ou quatro. Os shows passaram, mas os discos continuam intactos. O disco é praticamente a imortalização do artista. É a obra que permanece. As músicas são eternas. Ninguém tira isso. Elas sempre vão estar lá, seja no formato físico ou no digital. Então, eu gostaria que o Trovão fosse lembrado pelo impacto das músicas.
Formado pelo vocalista e guitarrista sueco Andi Kravljaca (Seventh Wonder, Hydra, Find Me) e pelo multi-instrumentista norueguês Andreas Nergård (Nergard), o Kindred North nasce da união de dois músicos experientes que compartilham uma paixão declarada pelo hard rock melódico. Inspirado pelo refinamento sonoro do final dos anos 1980, o duo evita a simples nostalgia e opta por reinterpretar aquela estética com produção contemporânea, excelente acabamento técnico e composições que equilibram tradição e modernidade. O resultado é um álbum de estreia que demonstra personalidade suficiente para dialogar com os clássicos do gênero sem soar preso ao passado.
A abertura, "A Guiding Heart", sintetiza perfeitamente essa proposta. Entre o AOR e o hard rock melódico, a faixa combina refrão memorável, arranjos refinados e uma produção cristalina. A interpretação segura de Andi Kravljaca conduz a música com naturalidade, enquanto guitarras, teclados e baixo trabalham de forma equilibrada, estabelecendo um padrão de qualidade que o restante do disco faz questão de manter.
Primeiro single, "Natural High" mergulha de cabeça no AOR clássico. Sintetizadores elegantes, guitarras limpas e uma seção rítmica precisa sustentam uma construção que cresce gradativamente até explodir em um refrão contagiante. O solo merece destaque especial pela musicalidade e pelo bom gosto, reforçando o alto nível técnico da dupla.
Apesar do título sugerir uma balada, "If This Is Love" segue direção oposta. Guitarras pesadas e um andamento mais vigoroso aproximam a faixa do hard rock tradicional, enquanto os vocais exploram diferentes nuances de Kravljaca, incluindo registros mais agressivos e harmonizações muito bem trabalhadas. É um dos momentos mais intensos do álbum.
A primeira pausa emocional chega com "Learn To Love Again", uma power ballad construída de forma gradual. Piano, sintetizadores e guitarras limpas criam uma atmosfera intimista antes da entrada da banda completa transformar a música em um refrão grandioso, daqueles que remetem diretamente à fase áurea do gênero sem perder o acabamento moderno.
O clima mais energético retorna em "A Billion Miles Away", que aposta na clássica combinação entre guitarras e teclados, reforçada por linhas vocais que exploram registros mais altos. O refrão mantém o elevado padrão melódico do disco, enquanto a base pesada aproxima a composição do hard rock mais tradicional.
"Walk Through The Fire" figura entre os grandes destaques do trabalho. Os teclados aparecem sempre na medida certa, mas são as harmonias vocais e o excelente trabalho de guitarras que conduzem a faixa. Tudo parece cuidadosamente calculado para servir à música, sem excessos ou demonstrações gratuitas de virtuosismo.
Introduzida por piano e vozes em camadas, "Dance The Night Away" surpreende ao incorporar elementos eletrônicos e novas texturas sem abandonar sua essência. A fusão entre sintetizadores oitentistas, guitarras marcantes e harmonizações vocais cria uma das composições mais sofisticadas do álbum.
Outra balada, "Runaway", começa de maneira contida, sustentada por programação eletrônica, guitarras limpas e belos arranjos de teclado. Aos poucos, cresce até transformar-se em uma faixa épica, impulsionada por um refrão extremamente acessível e uma interessante combinação entre elementos pop dos anos 1980 e o hard rock melódico contemporâneo.
Em "Divine", piano e voz conduzem uma introdução elegante antes que a música ganhe força com guitarras encorpadas e um refrão de forte apelo melódico. As harmonizações vocais e o diálogo constante entre guitarras e teclados remetem a nomes como Europe, Winger e Dokken sem cair na simples imitação.
"Lose Control" adiciona mais peso e groove ao repertório. Kravljaca entrega uma interpretação mais agressiva, enquanto as guitarras assumem protagonismo absoluto. Ainda assim, a identidade melódica permanece intacta, demonstrando a capacidade da dupla em variar a dinâmica do álbum sem comprometer sua coesão.
O encerramento fica por conta de "It's Hard To Say Goodbye", que reúne praticamente todas as virtudes apresentadas ao longo do disco. A base sólida de hard rock, os teclados discretos, as harmonizações vocais e um refrão imediatamente memorável oferecem um desfecho à altura da qualidade apresentada desde a primeira faixa.
Mais do que uma homenagem ao hard rock melódico dos anos 1980, Kindred North mostra como esse estilo ainda pode soar atual quando colocado nas mãos de músicos talentosos e compositores inspirados. Andi Kravljaca e Andreas Nergård evitam a armadilha do saudosismo fácil e entregam um álbum consistente, tecnicamente impecável e repleto de grandes melodias. Talvez falte um momento verdadeiramente surpreendente que o eleve ao patamar dos clássicos absolutos do gênero, mas isso não impede que este seja um dos lançamentos mais sólidos do hard rock melódico em 2026 e um forte candidato a figurar entre os melhores discos do ano.
***ENGLISH VERSION***
Formed by Swedish vocalist and guitarist Andi Kravljaca (Seventh Wonder, Hydra, Find Me) and Norwegian multi-instrumentalist Andreas Nergård (Nergard), Kindred North brings together two seasoned musicians united by a shared passion for melodic hard rock. Rather than simply paying tribute to the golden era of the late '80s, the duo revitalizes its timeless sound with modern production, refined musicianship, and memorable songwriting. The result is a debut album that honors its influences while confidently establishing its own identity.
Opening track "A Guiding Heart" immediately defines the album's direction. Blending AOR with melodic hard rock, it delivers soaring hooks, polished arrangements, and crystal-clear production. Kravljaca's expressive vocal performance leads the way, while guitars, keyboards, and rhythm section interact seamlessly to create an energetic and highly melodic introduction.
The album's first single, "Natural High" embraces classic AOR from the very first notes. Warm synthesizers, clean guitars, and a tight rhythm section gradually build toward an irresistibly catchy chorus. The guitar solo deserves special mention, combining technical precision with genuine melodic flair, further highlighting the duo's exceptional musicianship.
Despite its title, "If This Is Love" is anything but a ballad. Driven by muscular guitar riffs and an energetic pace, the song leans further into hard rock territory while allowing Kravljaca to explore a more aggressive vocal approach. Rich harmonies and layered backing vocals add depth, making it one of the album's most powerful moments.
The emotional pace slows with "Learn To Love Again" a beautifully crafted power ballad that unfolds with patience. Piano, keyboards, and clean guitars establish an intimate atmosphere before the full band gradually transforms the song into a soaring, arena-ready anthem. It captures everything fans expect from a classic melodic rock ballad without sounding dated.
Energy quickly returns with "A Billion Miles Away" built around the timeless partnership of guitars and keyboards. Higher vocal melodies inject additional intensity, while the heavier guitar work reinforces the album's hard rock credentials. Once again, Kindred North demonstrates an impressive ability to balance melody and power.
One of the record's undeniable highlights, "Walk Through The Fire" showcases the band's songwriting at its strongest. Tastefully layered keyboards support beautifully arranged vocal harmonies, while the guitar work remains consistently inspired throughout. Every musical element feels purposeful, creating one of the album's most complete and satisfying compositions.
Introduced by piano and layered vocals, "Dance The Night Away" takes an unexpected turn by incorporating electronic textures and contemporary production elements. Rather than feeling out of place, these additions enrich the arrangement, resulting in one of the album's most sophisticated and dynamic tracks while maintaining its unmistakable melodic rock identity.
Another ballad, "Runaway" begins with electronic percussion, shimmering keyboards, and delicate clean guitars before steadily evolving into an epic melodic anthem. The combination of '80s-inspired pop sensibilities and modern hard rock production creates one of the album's most immediately memorable choruses.
Opening with elegant piano and vocals, "Divine" gradually develops into a rich melodic hard rock number built around an anthemic chorus and beautifully layered harmonies. The interplay between guitars and keyboards recalls classic acts such as Europe, Winger, and Dokken, although Kindred North never feels like a mere imitation of its influences.
"Lose Control" injects additional groove and intensity into the album without sacrificing its melodic foundation. Kravljaca delivers one of his most forceful vocal performances, while the guitars take center stage with muscular riffs and another well-crafted solo. Even at its heaviest, the band's commitment to strong melodies remains intact.
Closing track "It's Hard To Say Goodbye" serves as the perfect finale, bringing together everything that makes this debut so enjoyable. Strong hard rock foundations, tasteful keyboard arrangements, layered vocals, and a chorus that demands repeat listens provide a thoroughly satisfying conclusion to the record.
More than a nostalgic celebration of melodic hard rock, Kindred North proves that the genre can still sound vibrant and relevant when handled by musicians of this caliber. Andi Kravljaca and Andreas Nergård avoid the common trap of simply recreating the past, instead delivering an album that combines outstanding musicianship, polished production, and consistently strong songwriting. While it may lack that one truly groundbreaking moment capable of elevating it into the ranks of the genre's all-time classics, it stands comfortably among the strongest melodic hard rock releases of 2026 and deserves serious consideration for many year-end best-of lists.
Poucas bandas do underground brasileiro construíram uma trajetória tão consistente e fiel às próprias convicções quanto o Apokalyptic Raids. Formado em 1998 por Leon Manssur "Necromaniac", o trio transformou décadas de dedicação ao metal extremo em uma discografia cultuada mundialmente, inúmeras turnês pelo Brasil, América do Sul e Europa, além de uma sólida parceria com o selo Hell Music.
Mantendo-se sempre distante de modismos e guiado por uma visão artística própria, o Apokalyptic Raids consolidou seu nome como uma das principais referências do metal underground nacional.
Nesta entrevista, conversamos com Leon Manssur sobre a história da banda, sua filosofia, os desafios de permanecer independente, os rumos do metal extremo e muito mais. Confira.
RtM: O Apokalyptic Raids se tornou uma referência cult dentro do underground extremo brasileiro. Na sua visão, o que manteve a banda viva e relevante ao longo dos anos, mesmo distante dos grandes circuitos comerciais? Leon Manssur: Já houve tempo em que eu achava importante ocupar mais esses espaços no “meio Metal”. Eu era mais inocente e achava que teríamos igualdade de condições com as “bandas-empresa”, com vantagem em autenticidade.
Mostrar como se faz, sem ceder ao comercialismo, hoje representado pelas bandas cheias de mídia training e instagrams profissionais.
Mas isso foi uma ilusão. Hoje em dia eu me importo cada vez menos com a opinião dos outros, seja do pseudo mainstream metálico, seja dos caciques dos pequenos poderes do underground. Quem gostar, gostou. Faço o que faço há bastante tempo pra já ter afastado os interesseiros, os deslumbrados, os falsos em geral.
RtM: Muito da identidade sonora do Apokalyptic Raids carrega a essência obscura e primitiva do Hellhammer. Como nasceu essa conexão com a banda e de que forma ela moldou tua visão artística e pessoal dentro do metal extremo? LM: Há mais de 40 anos é minha banda favorita. O mix perfeito de peso, sujeira, pouca técnica, gravação suja mas cuidadosa, composições perturbadoras e perfeitas... Como se fosse o Black Sabbath de 1972 tocando o repertório do Mötorhead... É só isso e tudo isso. Portanto eu apenas tinha e tenho a intenção de recriar esse estilo. Nem mais, nem menos.
RtM: O underground brasileiro sempre sobreviveu mais pela paixão do que pela estrutura. Como você enxerga a cena atualmente em comparação aos anos 80 e 90, principalmente em relação à autenticidade e ao comprometimento das bandas? LM:As qualidades e defeitos do ser humano são bem previsíveis. Da até sono. Se tirar a tecnologia, esta sim, que mudou muito, são os mesmos garotos iludidos, os mesmos pseudo-produtores malandros frustrados querendo faturar em cima, o mesmo amadorismo, e no meio disso um ou outro que se salvam. Todos os anos muitos entram no nosso meio, mas poucos irão aguentar permanecer com consistência após 10, 20 anos. Nem sempre é claro quem é quem.
RtM: Vivemos uma era dominada por streaming, redes sociais e consumo rápido de música. Em sua opinião, essas tendências digitais fortaleceram o underground ou acabaram tirando parte da essência e do culto que existia antigamente? LM: Ganha-se algumas coisas, perde-se outras. Por um lado, qualquer desqualificado tem acesso material que não deveria, podendo usar algumas das melhores bandas do passado pra piadocas, memes, falas equivocadas. Por outro lado, tem material antigo bom online pra quem sabe o que procurar.
O que faz a diferença é o conhecimento de cada um. Nem tudo é "internetável". Facilmente encontro nos meus arquivos material que não existe online. E aos poucos vai sendo disponibilizado em espaços virtuais marginais, fora do circuito das redes sociais da moda.
Quem não viveu, quem não conhece, não saberá encontrar, nem saberá que precisa, até um dia aparecer em um selo de raridades. Há muito movimento no subterrâneo do subterrâneo. A maioria da geração atual viu tudo, tem toda a informação disponível, mas não sabe o que fazer com isso, não tem vivência.
RtM: O Apokalyptic Raids possui uma identidade muito fiel às raízes do metal extremo. Existe espaço para evolução sonora sem perder a essência, ou certas características devem permanecer intocáveis? LM: Evolução pra trás! (Risos) A modernidade chegou ao Metal nos anos 90, já ficou velha e não importou em nada na minha opinião. Nos nossos álbuns mais recentes existem sim algumas composições “arriscadas”, apontando pros anos 70, outras pro Heavy tradicional... Que acaba estando no contexto do Black Death Speed Metal do Hellhammer.
É bom não ter um estilo definido pelos padrões atuais. Por um lado, você é um “animal estranho”, que as gerações modernas não conseguem decodificar, e por outro lado você acaba ficando independente disso. Veja, Heavy tradicional e 70s está no contexto. Então tem espaço pra isso. Tudo depende de conseguirmos atingir esse tipo de som com classe e dentro do contexto. Ouçam e me digam se deu certo.
RtM: Olhando para tua trajetória dentro do metal underground nacional, qual legado o Apokalyptic Raids deixa para as novas gerações de músicos e fãs da música extrema? LM: Não sei, é difícil julgar. Talvez eu seja só desimportante. Talvez alguém encontre algo relevante. Eu sou só um cara aí que curte uns sons aí. Igual à minha trajetória tem vários. A História que se encarregue dos julgamentos, eu estou ocupado tentando fazer algo que me satisfaça (risos)
RtM: Falando em turnês e lançamentos, o AR sempre se mantém ativo e representando o Brasil fora do país. Como é ser mais reconhecido mais lá fora do que no próprio país? Pergunto isso, pois é notável a devoção dos fãs gringos e que em minha opinião era para ser aqui também. Além, de a maioria dos lançamentos da banda saírem por gravadoras internacionais. Mostrando realmente que nossa cena é falha com quem trabalha de verdade. LM: Não sei se somos mais reconhecidos lá que aqui. Talvez sim. O Metal tem ciclos de público, idade, estilos. Uma década de vacas gordas, outra de vacas magras. Como já vi vários desses ciclos, me impressiono menos hoje. Mas sim, sou agradecido por algumas demonstrações de algumas pessoas que importam daqui e de fora.
A distribuição no exterior é uma necessidade. Somos um país quebrado, um salário mínimo compra uns 7 LPs. Então é impossível contar apenas com público local pra esgotar um título. Mas foi pra conhecer o mundo que o Ozzy entrou no Sabbath, não é mesmo?
Não posso reclamar, não. Fizemos 20 shows na Europa em novembro de 2025 e deu mais gente que das vezes anteriores, show lotado em segunda feira, merchandise esgotado faltando 3 shows pro fim da tour. Então, apesar de tudo, me considero privilegiado por ainda ter um bando de doidos (no bom sentido) que comparece aos nossos shows. Talvez não sejamos animais tão estranhos assim.
RtM: Quais são suas as impressões sobre a questão da IA na música? LM: Acredita que eu mal uso AI pra p*** nenhuma? Tem gente que está viciado nisso, não pensam mais, nem nas coisas que precisam ser pensadas. Pra minha atividade, particularmente, não tem muita utilidade. Pra fazer um resumo ou elaborar algumas buscas, talvez. Mas a AI precisa ser alimentada, treinada. E eu gosto de trabalhar nas coisas que costumam alimentar e treinar a AI.
Então pra mim é só mais uma ferramenta, para quem e quando for a ocasião de usar. Não é uma panaceia universal. Na música em particular, é claro que mal conseguimos distinguir algo criado por humanos de algo feito por máquinas. Exceto por aqueles fatores que eu citei que são não-internetáveis. Não dá pra enlatar um show ao vivo, por mais que se transmita um festival pro mundo todo hoje. Estar lá sempre será diferente.
RtM: Leon, você foi de certa forma o incentivador e influência de muitas bandas e músicos não só do Rio de Janeiro assim como de todo o mundo. Isso te faz ter que ter um cuidado maior ao se expressar publicamente ou você se mantém liberto ao seu modo de pensar perante ao mundo em geral, e não somente ao nosso meio metal? LM: Sobre ser influenciador, ocorre com o tempo. Você vai colando com quem tem idéias parecidas. O estilo é muito esparso, é um daqui, outro da Alemanha, outro do Japão... E esparso no tempo também. Então quem vem depois acaba se espelhando em quem veio antes, como eu mesmo já fiz. Com maior ou menor grau de atraso e ruído.
É claro que tenho senso de responsabilidade ao me expressar publicamente. Palavras tem consequências, e quando se é uma pessoa pública, essas consequências são amplificadas para o bem ou para o mal, sem que se planeje exatamente. Então já houve e há ocasiões em que precisamos modular o discurso, mesmo correndo riscos, pra não produzir efeitos contrários e indesejáveis.
A palavra “liberto” é um grande problema hoje. Eu sou um libertário, sempre fui desde que me entendo por gente. Mas aqui preciso parar e notar que não, eu não posso dizer tudo que eu penso hoje em dia, incluindo coisas que eu sempre disse antes. E isso é um enorme problema. Estamos na era do cancelamento, né.
É muito autoritarismo, muitas vezes de quem menos se espera. A pergunta na minha cabeça nesses últimos 5 ou 6 anos é: “tocar com quem, tocar pra quem?” Uma pergunta para a qual eu ainda não tenho uma resposta não-trivial.
Então, sinto muito, mas minha melhor resposta à sua indagação sobre modo de pensar neste momento é a pior possível: um silêncio ensurdecedor.
RtM: Você tem como formação acadêmica em física e é Doutor nessa área porém hoje não está atuando no meio acadêmico. Qual foi o motivo pelo qual você decidiu que deveria seguir outro caminho? LM: Eu fui fazer física porque achava bonito, e ainda acho, e por ter gosto pela abstração. Isso no Brasil é um tipo de suicídio a prestação. No início dos anos 2000, nada de concurso, pagamento pingado, perspectiva de carreira nômade, então por motivos pessoais resolvi engavetar o diploma e cuidar mais da família.
Me reorganizei, até vivi da música por alguns anos, o que coincidentemente estava pegando tração entre 2003 e 2008, com muitos lançamentos em LP.
Eu fazia produções e masterizações para alguns selos. Depois a vida foi complicando mais, mas comecei com a Hell Music informalmente por volta de 2009 e acelerei lançamentos do selo a partir de 2015.
RtM: A educação no Brasil ainda tem uma saída ao seu ver? Se sim qual ou quais seriam? Basicamente não (risos) Somos uma sociedade da desconfiança. Veja os países europeus ou os USA por exemplo. Eles foram fundados por uma determinada sociedade com determinados valores. Bem longe de serem perfeitos, mas tem uma estrutura que se formou e se depurou ao longo de centenas e centenas de anos. Visão de mundo, filosofia, instituições, formando pessoas que formam mais pessoas. Você pode criticar, querer reformar, mas você não pode ignorar. Outras culturas copiam.
Compare com casos de sucesso na Ásia por exemplo, com bases em outros sistemas de valores. Você copia o que funciona, descarta o que não funciona.
No Brasil, você desconfia do próximo, porque é provável que ele te ferre, e é assim aqui. E o próximo pode ser bem próximo, pode ser da família. Ou seja, é cada um por si. Em que século dessa evolução as pessoas irão parar de querer passar a perna umas nas outras e resolver cooperar, isso eu não sei. Mas eu sei que é só depois desse ponto que a educação tem qualquer chance. Mesmo não tendo p**** nenhuma, tem que querer primeiro.
No momento, somos pouco mais que um bando de primatas se matando uns aos outros a socos. Como fazer pra se comunicar nesse cenário? Não tenho uma resposta. É nesse estágio que estamos. O mal e a ignorância são indistinguíveis, e tomaram proporções muito grandes, continentais.
RtM: Muitas bandas com o mesmo tempo de estrada que hoje vocês tem, ficaram pelo caminho. Que fatores você acredita que tenha tido para conseguir manter o Apokalyptic Raids vivo? LM: Autismo, TOC, hiper foco em Hellhammer... (Risos) Sabe a parte da resistência à mudanças? É isso aí. Alguns amigos ao longo do caminho, e a ideia fixa. E um pouco de sorte.
RtM: Se tudo hoje continuar da mesma forma como se encontra no meio underground você acredita que a evolução em termos de estrutura e qualidade das casas de eventos e equipamentos melhorou ou melhorará? LM: Sinceramente, depois de 3 turnês na Europa, 2 no Brasil, 2 América do Sul? Não. Porque eu conto nos dedos os eventos que eu fiz aqui que foram no horário. E eu conto nos dedos os eventos que eu fiz na Europa que atrasaram. Só por aí você já vê. O cara lá não tem como se atrasar. Tudo funciona. Tem um letreiro no ponto do ônibus dizendo que o próximo chega em 4 minutos. Passa 4 minutos, o ônibus chega. Então você consegue fazer tudo que planeja, consegue planejar.
Aqui não tem transporte, e a rua tem buraco, e o cara do som atrasou porque ontem teve evento, ele tem que dobrar pra poder sobreviver, o ampli tá ferrado e não tem outro, tudo custa mais caro, a remuneração é 10 vezes menor, empreender custa muito caro, contratar é impossível, produtividade estagnada há 50 anos por cultura arcaica, os estímulos tem o efeito contrário ao objetivo alegado... Passa por aquele assunto da educação. Pra acontecer minimamente, você teria que reformar o ser humano, e isso não está acontecendo. Espero não estar sendo excessivamente pessimista!
RtM: Leon, obrigado por dedicar um tempo para nos responder e expor suas opiniões, fica o espaço para sua mensagem final. LM: Obrigado pela entrevista! Estamos trabalhando em um álbum novo, fiquem ligados!
Formada em 2022 na Hungria pelo baixista Zoltán Papi, a Burning Sun rapidamente conquistou espaço na cena underground do Power Metal ao abraçar, sem qualquer constrangimento, a tradição da escola europeia dos anos 1990. Influenciada por gigantes como Helloween, Gamma Ray, Edguy e HammerFall, a banda construiu sua identidade sobre melodias marcantes, refrões grandiosos e uma execução técnica que privilegia a essência do gênero. Após os lançamentos de Wake of Ashes (2023) e do conceitual Retribution (2025), o grupo estreia uma nova formação com a chegada do vocalista Nicolas Peter e do baterista Edmond Kulcsár, apresentando em Power to Survive seu trabalho mais consistente até aqui.
A abertura com "Quest Divine" estabelece imediatamente a proposta do álbum. As guitarras velozes, a cozinha sólida e um refrão de forte apelo melódico remetem diretamente ao auge do Power Metal alemão dos anos 90. As mudanças de andamento evitam a previsibilidade, enquanto o baixo ganha espaço em passagens estratégicas, acrescentando personalidade a uma composição que funciona como um verdadeiro cartão de visitas.
Na sequência, "Emaly's Hymn", com a participação de Herbie Langhans (Firewind), reforça essa identidade. A influência de Helloween e Gamma Ray aparece de forma evidente nas harmonizações de guitarra e na construção do refrão, enriquecido por teclados discretos e coros bem encaixados. A participação de Langhans acrescenta peso sem ofuscar o protagonismo de Nicolas Peter, consolidando a força da nova formação.
"Tale of Brothers" mantém o alto nível ao apostar em uma abordagem tradicional, conduzida por riffs rápidos e linhas de baixo bastante presentes. Nicolas Peter demonstra bom senso ao privilegiar interpretação e melodia em vez de exagerar nos agudos, enquanto os solos de guitarra dialogam com naturalidade com a proposta clássica da banda. O resultado é uma das faixas mais equilibradas do disco.
Com "Light of the World", o Burning Sun amplia ligeiramente seu espectro sonoro. A faixa flerta com o Heavy Metal tradicional do final dos anos 80 antes de acelerar novamente em direção ao Power Metal. Essa mudança de dinâmica evita que o álbum caia na repetição e acrescenta novas cores à audição, culminando em um excelente solo de guitarra de inspiração quase sinfônica.
A participação de Alexandra Lioness (Frozen Crown) em "Over and Beyond" introduz outra influência importante: a escola finlandesa do gênero. A velocidade inicial lembra Stratovarius, enquanto a combinação das vozes cria uma atmosfera diferenciada. Mesmo que o refrão seja menos grandioso do que em outras músicas, a composição funciona justamente por equilibrar referências distintas do Power Metal europeu.
Se existe uma faixa capaz de sintetizar a herança de Gamma Ray, essa é "Come Home". A construção melódica, os coros grandiosos e os vocais em registros elevados remetem diretamente ao estilo consagrado por Kai Hansen. Ainda assim, a banda evita soar como mera cópia graças à competência dos arranjos e à energia contagiante da execução.
Depois da intensidade inicial, "Spirit Alive" desacelera o ritmo e apresenta uma das atmosferas mais interessantes do álbum. O baixo assume papel de destaque, os teclados ganham maior protagonismo e Nicolas Peter explora uma interpretação mais contida, revelando versatilidade vocal. É uma pausa bem-vinda que acrescenta profundidade ao repertório.
A curtíssima "Prayer", com pouco mais de quarenta segundos, funciona como uma introdução para "Holy Light", faixa que surpreende pela delicadeza da abertura acústica e pela construção melódica mais emocional. O contraste em relação ao restante do disco é evidente e demonstra que a banda sabe variar sua abordagem sem comprometer a identidade sonora.
O encerramento com "We Rise Again" devolve toda a velocidade característica do álbum. Guitarras afiadas, base rítmica precisa, refrão monumental e solos claramente inspirados na fase clássica do Helloween fecham o disco em alta, reafirmando o compromisso da banda com o Power Metal mais tradicional.
O Burning Sun aposta na tradição e executa essa proposta com competência, entusiasmo e convicção. Em um momento em que muitas bandas buscam modernizar excessivamente o Power Metal, os húngaros seguem o caminho oposto, entregando um álbum que celebra as raízes do estilo sem soar datado. Para os admiradores da escola europeia clássica, trata-se de um lançamento sólido, consistente e extremamente satisfatório.
***ENGLISH VERSION***
Formed in Hungary in 2022 by bassist Zoltán Papi, Burning Sun has quickly established itself as one of the most promising names in the underground Power Metal scene. Proudly embracing the golden era of European Power Metal, the band draws clear inspiration from genre heavyweights such as Helloween, Gamma Ray, Edguy and HammerFall, crafting a sound built on soaring melodies, anthemic choruses and razor-sharp musicianship. Following the releases of Wake of Ashes (2023) and the conceptual Retribution (2025), the arrival of vocalist Nicolas Peter and drummer Edmond Kulcsár marks the beginning of a new chapter, with Power to Survive emerging as the band's strongest and most accomplished effort to date.
Opening track "Quest Divine" immediately sets the tone. Galloping guitars, a rock-solid rhythm section and an instantly memorable chorus transport listeners straight back to the heyday of '90s German Power Metal. Well-timed tempo shifts prevent the song from becoming formulaic, while the bass enjoys several standout moments, giving the arrangement an extra layer of personality.
Next comes "Emaly's Hymn", featuring guest vocals from Herbie Langhans (Firewind). Closely following the path laid out by the opener, the track reinforces the band's musical identity with soaring melodies, layered keyboards and powerful gang vocals. The unmistakable influence of Helloween and Gamma Ray shines through the guitar work, while Langhans' appearance adds further depth without overshadowing Nicolas Peter's confident performance.
"Tale of Brothers" continues the momentum with classic Power Metal songwriting driven by energetic riffs and an impressive bass performance. Nicolas Peter wisely favors melody and control over excessive high-pitched acrobatics, allowing the song to breathe naturally. Combined with tasteful twin-guitar solos, it stands out as one of the album's most balanced and rewarding compositions.
With "Light of the World", Burning Sun briefly broadens its musical palette. Leaning more toward traditional Heavy Metal before accelerating into full-speed Power Metal, the song introduces welcome variation to the album. The dynamic shifts keep the record engaging while an almost symphonic guitar solo provides one of its musical highlights.
Guest vocalist Alexandra Lioness (Frozen Crown) joins the band on "Over and Beyond", a track that initially leans toward the Finnish school of Power Metal, recalling bands such as Stratovarius through its speed and vocal melodies. While its chorus may be less extravagant than others on the album, the vocal interplay and the seamless blend of Finnish and German influences make it one of the record's more distinctive moments.
If one song perfectly captures the spirit of Gamma Ray, it is undoubtedly "Come Home" From its explosive opening and soaring vocal lines to its massive gang-chorus hooks, everything here feels like a heartfelt tribute to the classic German sound. Yet Burning Sun avoids slipping into mere imitation thanks to strong songwriting and an energetic, convincing performance.
After several high-speed anthems, "Spirit Alive" offers a refreshing change of pace. The bass takes center stage during the opening passages while keyboards create a richer atmosphere, allowing Nicolas Peter to showcase a more restrained and expressive vocal performance. The result is one of the album's most atmospheric and emotionally engaging tracks.
The brief "Prayer", clocking in at little more than forty seconds, serves as a natural introduction to "Holy Light" Opening with delicate acoustic guitars before gradually unfolding into an emotional ballad, the track provides a welcome contrast to the relentless pace of the album and demonstrates the band's ability to explore softer textures without compromising its identity.
Closing track "We Rise Again" returns to full-speed Power Metal with all the hallmarks fans could hope for: driving guitars, thunderous rhythms, towering vocal melodies and another triumphant chorus. The guitar solos, heavily inspired by Helloween's classic era, provide the perfect finale to an album that never loses sight of its mission.
Burning Sun fully embraces the genre's classic foundations, delivering an album packed with memorable melodies, impressive musicianship and genuine enthusiasm. At a time when many bands are eager to modernize the style, these Hungarian musicians confidently look back to its roots, producing a record that feels both authentic and refreshingly sincere. For fans of traditional European Power Metal, Power to Survive is an easy recommendation and one of the genre's most enjoyable releases of the year.