O underground brasileiro segue mostrando sua força, e em 2025 um dos nomes que surge carregando a chama mais obscura do Black Metal nacional é o Herege. Oriunda de São Paulo e capitaneada pelo músico Fernando Iser, a banda estreia com Blood War Extermination, um álbum que abandona qualquer polimento excessivo para mergulhar de cabeça na sujeira e na agressividade do Black Metal noventista.
Conhecido por sempre flertar com a vertente mais grega do estilo, Iser apresenta aqui uma faceta muito mais crua, direta e visceral. O resultado é um disco que soa como um verdadeiro ataque nuclear sonoro, remetendo imediatamente à essência do Black Metal dos anos 90, quando o caos e a atmosfera falavam mais alto do que qualquer perfeccionismo técnico.
Formado pelo duo Iser (vocal, guitarra e baixo) e Insulter (bateria), o Herege constrói uma parede sonora intensa e sem concessões. A bateria de Insulter merece destaque absoluto: suas linhas parecem um tanque de guerra avançando sem freios, destruindo tudo pelo caminho com peso, velocidade e brutalidade. Cada virada reforça ainda mais a aura bélica e destrutiva que domina o álbum.
As guitarras carregam riffs cortantes e sombrios, trazendo aquela sensação gelada e sufocante tão característica do Black Metal underground. A produção propositalmente áspera reforça a identidade raw do trabalho e ajuda a transportar o ouvinte diretamente para a atmosfera obscura que o Herege busca construir.
Liricamente, Blood War Extermination abraça sem medo a temática anticristã, elemento clássico e fundamental do estilo. O disco respira blasfêmia, guerra e escuridão do começo ao fim, mantendo viva a essência mais primitiva e agressiva do Black Metal.
Sem reinventar a roda, mas também sem soar datado, o Herege entrega um debut honesto, violento e extremamente fiel às raízes do gênero. Blood War Extermination é um verdadeiro tributo ao espírito do Black Metal underground dos anos 90. Cru, hostil e carregado de ódio.
Para os apreciadores do raw Black Metal e da velha escola extrema, este debut é uma audição obrigatória.
Alguns anos atrás, em uma entrevista com Robson Anadom do Orquídea Negra, destaquei como título a frase: "Somos frutos de muita teimosia, de muitos sonhos", e ela segue resumindo muito bem a história e batalhas do Orquídea, que além de ser uma das bandas pioneiras do Metal Brasileiro, possui também o marco histórico de ser a primeira banda de Heavy Metal do estado de SC.
Formada em Lages (SC) em 1986, o Orquídea Negra completa 40 anos de existência e resistência neste 2026, então vamos lembrar aqui alguns capítulos marcantes dessa história, segue o fio!
O debut “Who’s Dead” foi lançado em LP originalmente em 1992, pelo selo Acit, e na época vendeu cerca de 5 mil cópias. A banda ensaiou exaustivamente todas as noites na casa do vocalista Boca, para se preparar para a gravação, que aconteceu em São Paulo e teve a produção dos irmãos Mário e Wally Garcia, da banda Garcia & Garcia.
A formação que gravou o álbum foi: André "Boca" Graebin (vocais), Fernando Tavares (baixo), Vinícius Porto (guitarras), Robson Anadom (guitarras) e Marcelo Menegotto (bateria).
O baixista Robson conta que a banda ficou hospedada em um quarto, com duas camas somente, as refeições muitas vezes eram feitas no estúdio mesmo, alguns sanduíches e pronto.
As guitarras não foram gravadas com amplificadores, e sim com um pedal de efeitos Zoom do guitarrista Vinícius Porto, que era acionado por um controlador grudado ao corpo da guitarra, e serviu como um pré-amp.
"Miss You", "Surrender" e "It´s Easy to Remember" foram alguns dos destaques do debut, inclusive tocando bastante nas rádios rock.
O Orquídea provavelmente foi uma das primeiras bandas de Metal a ter seu próprio ônibus, batizado carinhosamente de “Orquidão”.
O segundo trabalho, auto intitulado, foi gravado em 94, em uma época complicada para o Heavy Metal no mercado musical, não teve apoio de um selo, e demorou dois anos para ser lançado de forma independente.
Esse período marcou também a saída do vocalista André “Boca”, e a banda no geral desanimou perante as dificuldades.
Robson também recorda detalhes desse segundo trabalho, quando a banda já trazia uma nova formação, pois o baixista Fernando Tavares havia saído: “Deixei a guitarra e assumi o posto de baixista. Nas gravações ainda fiz algumas partes de guitarra e violão. Nosso som estava um pouco mais trabalhado e pesado que no primeiro disco, a banda evoluiu bastante musicalmente.”
Robson lembra que foram com o ônibus da banda para Porto Alegre, e estacionaram ao lado do estúdio Eger, com o “Orquidão” servindo de hotel.
A formação que gravou o segundo álbum foi: André "Boca" Graebin (vocais), Vinícius Porto (guitarras, guitarra solo), Robson Anadom (baixo e guitarras) e Marcelo Menegotto (bateria).
Entre idas e vindas e alterações na formação, em 2003, com Jean (vocais) e Menegotto (bateria) o Orquídea fez o show “More Live Than Never”, marcando 19 anos da banda, a fim de mostrar que o Orquídea seguia firme e resiliente. Após muitos pedidos de fãs, foi lançado em 2005, na primeira edição do Orquídea Rock Festival, o CD com a gravação daquele show.
A formação nesse álbum foi: Jean Varella (vocais), Vinícius Porto (guitarras), Robson Anadom (baixo) e Marcelo Menegotto (bateria).
Em 2012, já com André “Boca” de volta à banda, o Orquídea iniciou as gravações de “Blood of the Gods”. Sobre o retorno do vocalista original Robson é enfático: “A volta dele nos deu um grande ânimo, pois é um grande compositor. Ele não pode nos ouvir fazendo algum riff que já vem com uma letra e já começamos a compor algo novo, o que é algo natural para nós. O que acontece praticamente em todos os ensaios.”
“Blood of the Gods” foi lançado em 2014 no Brasil pela Dies Irae, e Europa através dos selos Secret Service e Metal Soldiers, o que inclusive também viabilizou o relançamento dos primeiros álbuns em CD com edições especiais, incluindo faixas bônus, slipcase e poster.
Sobre as gravações de “Blood of the Gods” Robson relembra algumas peculiaridades: “Foi curioso, pois o estúdio em que gravamos, ‘Olho da Lua’, mudou três vezes de lugar, por isso que demorou um pouco mais para terminarmos tudo. Sem falar que ele foi mixado e remixado umas 3 ou 4 vezes, até que o produtor, também tecladista, Daniel Dante Finardi e nós estivéssemos totalmente satisfeitos com o resultado final.”
A formação em "Blood of the Gods" foi: André "Boca" (vocais), Vinícius Porto (guitarras), Robson Anadom (baixo) e Raphael Marini (bateria)
Durante o período da pandemia, sem poder fazer shows, Robson compôs e gravou seu álbum solo “...and a New Story Begins”(2021). Em entrevista para o Road to Metal na época, Robson falou o seguinte sobre o trabalho: “O título já diz tudo, o início de uma nova história que estou escrevendo com este lançamento, pois certamente, será o primeiro de muitos.
Não podemos ficar estagnados, temos que fazer algo a mais, mostrar que o mundo precisa de música.”
O Orquídea seguiu compondo e retomando a estrada logo que foi possível, com shows solo e em festivais, como mais uma apresentação marcante no tradicional Otacílio Rock Fest, em 2023, com Boca nos vocais, Robson no baixo, Vinícius na guitarra e Marco Antônio na bateria.
Em fevereiro de 2025 lançaram o vídeo para a inédita “Sacrifice”.
A banda fala sobre a faixa: “Essa música foi gravada provavelmente em 2017, e estava guardada até agora. Felipe Holmack fez alguns shows com a banda em momentos em que o vocalista André Graebin não pôde se apresentar. Achamos que seria muito interessante, e como forma de eterna gratidão, ter o Felipe cantando em uma de nossas músicas.
Quando "Sacrifice" foi gravado, a banda também contava com o baterista Raphael Marini.
As Imagens do vídeo foram retiradas de arquivos pessoais de amigos, da própria banda, da internet, incluindo trabalhos realizados pelo amigo Maurício Garcia da Infinity Produtora.”
Em agosto de 2025 o Orquídea teve uma participação marcante na 12° Orquestra de Baterias de Florianópolis, e o vídeo emocionante com “Surrender” sendo tocada junto com a orquestra pode ser visto no YouTube ou no Instagram da banda, e contou com Gabriel Giotti nos vocais, já que André "Boca" afastou-se das atividades.
Em 2026, a banda vem fazendo shows comemorativos aos seus 40 anos, destacando as apresentações no Pauleira Rock Fest III e recentemente, dia 11/04/2026, no II Brothers of Rock, em Luzerna (SC), onde se apresentaram como um trio, com Robson assumindo os vocais, após a saída de Gabriel Giotti - que estava com a banda desde o final de 2024 - e esse formato trio permanecerá por enquanto.
A banda também disponibilizou merchandising alusivo aos 40 anos, o qual pode ser adquirido no link na bio do perfil do Orquídea no Instagram.
Muitas novidades ainda estão sendo trabalhadas para marcar esses 40 anos de resistência e amor ao Metal, como uma nova edição do Orquídea Rock Fest e a conclusão e lançamento do documentário com a história da banda.
A história do Orquídea Negra é de perseverança, sobrevivência e não desistir apesar das dificuldades, e eles seguem escrevendo páginas vencedoras, e muito reconhecimento ainda é merecido, e ele virá.
A banda Homeless foi formada no Brasil por Spaghetti, conhecido por sua passagem como baixista do Ratos de Porão nos anos 1980, período importante para a consolidação do punk/hardcore nacional.
Após sair do Ratos, Spaghetti buscou explorar sonoridades mais extremas e pesadas, o que levou à criação da Homeless em 2010, já com uma proposta voltada ao crossover, e evoluindo para um direcionamento mais Death Metal.
O grupo está em plena divulgação do seu mais recente trabalho, "Obscuro Lado da Alma", e conversou conosco sobre esse álbum e muito mais.
- Olá Spaghetti. Obrigado pela sua gentileza em nos atender.
Parabéns pelo álbum “Obscuro Lado da Alma”.
Obrigado!
- Como você pode descrever o trabalho na composição deste
tipo de sonoridade?
Desde que voltamos a ativa com força total a ideia era fazer
um disco mais sério, tanto em sonoridade quanto nas letras. E esse disco é só o
começo dessa fase mais Metal, vem mais coisa logo mais.
- Vejo que vocês incorporaram novos elementos, como os fãs tem "digerido" essas mudanças?
Como a gente tenta sempre fugir do óbvio, as vezes demora um
pouco pra ser digerido, e a ideia é essa mesmo, não vamos nunca entregar o
famoso “mais do mesmo”.
- Existem planos para o lançamento de “Obscuro Lado da Alma”
no Brasil, no formato físico? Tivemos contato até agora, apenas o formato
digital.
O vinil já está na fábrica, deve sair no máximo até o meio
do ano.É uma parceria de vários selos, estamos empolgados com isso. E estamos
fazendo contatos fora do Brasil também, em breve deve ter novidades.
- Vocês compõem em português, mas isso não
pode vir a atrapalhar vocês no mercado exterior?
Eu acho que quem ouve metal brasileiro fora do Brasil também quer nossa originalidade, e cantar em português faz parte disso. Mas no próximo
trabalho temos vontade de fazer pelo menos um som em inglês, mas tem que ser
natural pra gente.
- Como estão rolando os shows em suporte ao disco? A
aceitação está sendo positiva?
A aceitação está sendo ótima, e estamos armando uma mini
tour para o lançamento do disco em vinil.
- Quem assinou a capa do CD? Qual a intenção dela e como ela
se conecta com o título?
Quem fez todas as artes foi o Vinícius Vai, que é vocal 3
guitarra também, então tá tudo em casa. O que ajuda também a transmitir as ideias também de
forma visual, já que essa identidade visual atrelada ao som é uma coisa muito
importante pra gente.
- “Obscuro Lado da Alma” foi todo produzido pela banda,
confere? Foi satisfatório seguirem por este caminho?
Foi produzido pela banda e com uns toques super importantes
do Niko Teixeira do Extreme Lab Estudios onde gravamos.
- Imagino que já estejam trabalhando em novas composições.
Se sim, como está se dando o processo e como estão soando?
A gente nunca para, e já estamos compondo material pra um EP
que queremos gravar e soltar ainda esse ano. Tá bem mais pesado, isso eu posso
garantir.
- Novamente parabéns pelo trabalho e vida longa ao HOMELESS!
Criada em 1984, a Volúpia fazia parte daquele movimento aguerrido da primeira fase do Rock Pesado brasileiro, onde tudo era feito na raça, o acesso a instrumentos e boas condições de shows e gravações era caro e difícil.
As bandas contavam com a divulgação boca a boca, com os fanzines, programas de rádio e o material de divulgação era artesanal.
Assim como várias bandas desse movimento na época, a Volúpia fazia suas letras em português, e ajudaram na pavimentação do Heavy e Hard aqui no RS, mas assim como muitas outras, por motivos diversos, chegou a encerrar as atividades no início dos anos 90, retornado em 2016, e recentemente lançando seu debut "DéJà Vu".
Conversamos com o baterista e fundador César Five (também baterista da Epitaph) para falar um pouco dessa história, sobre o debut, o cenário do Hard e Heavy atual, e mais! Confira a seguir.
RtM: A Volúpia surgiu em 1984, em plena efervescência do Rock e do Metal brasileiro. Como foi formar uma banda de som pesado em Porto Alegre naquela época?
César Five: Faz tanto tempo... 42 anos... (risos). O mundo era completamente diferente, não tinha redes sociais, não tinha instrumentos importados, a comunicação e divulgação de uma banda era por carta, boca a boca em cartazes na rua e as poucas revistas que tinham não eram muito precisas nas informações.
Montar uma banda de rock e, ainda por cima, de heavy metal e hard rock era no "tato" e muito influenciada pelas bandas que escutávamos na época e até hoje.
E foi uma época muito divertida e muito espontânea, pois se criava aquilo que muitas vezes nunca tinhamos visto, era raro passar shows na tv e lançamentos em vídeo.
O lado bom da época é que existiam os programas de rádio.
RtM: Nos anos 80 a Volúpia já apostava em Heavy/Hard autoral com letras em português. Naquele período isso era uma escolha natural ou também um desafio dentro da cena?
César Five: Na sua primeira fase a Volúpia era mais heavy metal, usávamos braceletes com metal e calças de malha, tipo Iron Maiden nos anos 80, mas aos poucos fomos descobrindo o nosso som e começamos a usar o visual mais hard rock, pois gostávamos de Dokken, Ratt, Scorpions, etc.
Acredito que a Volúpia, desde lá, já era uma banda de hard rock. Eu sempre digo para os caras hoje em dia que vamos manter a linha hard rock, pois já tenho uma banda de heavy Metal, a Epitaph, não preciso de duas (risos).
Escolhemos ter letras em português, pois as bandas que gostávamos como Astaroth, Spartacus, Overdose, etc, faziam isso. Além disso, o nosso público está aqui no Brasil e não lá fora.
RtM: Uma curiosidade da história da banda é que vocês chegaram a ensaiar no porão da Igreja Nossa Senhora da Glória, com autorização do padre. Como surgiu essa situação inusitada e quais lembranças ficaram dessa fase?
César Five: Sim, foi no período final da primeira fase da banda entre 1989 e 1990.
O Ricardo e o Marco já não estavam mais na banda e tentamos uma formação nova, mas não aconteceu de tocarmos ao vivo, pois me acidentei de carro, com tudo isso, a banda acabou em 1990 e ficou parada até 2016, quando resolvemos voltar.
Eu voltei a tocar em 1998 e em 2000 montei a Epitaph que está na ativa até hoje.
E sobre tocar no porão da Igreja, era muito divertido. Tinha baterias montadas, amplificadores e lá ensaiavam várias bandas de estilos diferentes de metal, principalmente thrash.
RtM: A banda participou da coletânea do IV Festival de Rock Viamonense, algo raro para bandas pesadas naquele momento. O que esse registro representou para a Volúpia naquela época?
César Five: A Volúpia ensaiava no bairro Santa Isabel em Viamão, na casa do Gustavo, nosso baixista à época. Aí surgiu a possibilidade de se inscrever no IV FEMUVI. Isso abriu espaço para tocarmos para um grande público, e a recompensa veio com a gravação de uma faixa na coletânea em LP da música “Princípio de Uma Nova Era”.
Em 1985 gravar algo em vinil era impensável.
Tenho muito orgulho disso. Inclusive fizemos uma nova versão mais moderna dessa música, que apresentamos na festa de 40 anos do FEMUVI ocorrida no ano passado em Viamão.
RtM: Comparando o cenário do Metal brasileiro dos anos 80 com o atual, o que vocês sentem que mudou mais, seja em termos de público quanto de estrutura para as bandas? Ou seguem muitos dos velhos problemas?
César Five: As coisas eram mais orgânicas naquela época. Você construía a banda, colava cartazes, fazia flyers e conseguia fazer a música rodar na Ipanema FM.
E, com sorte, tinha alguma “notinha” nas revistas de metal como a Rock Brigade.
E como heavy metal era algo novo, os shows enchiam, mas não tínhamos os contatos que poderiam ter feito a banda crescer na época.
Eu não sou saudosista, mas hoje temos as ferramentas que facilitam como redes sociais e plataformas para colocar seu trabalho. O problema é que a música e a arte em geral viraram produtos descartáveis.
RtM: Hoje temos um mundo "imediatista" e da dopamina barata.
César Five: Gosto de dizer que todo mundo escuta de tudo e não ouve nada, fica tudo perdido naquelas playlists, onde a maioria nem sabe o que está ouvindo, quem fez a capa, etc.
Eu não tenho Spotify, compro CDs, LPS e DVDs, então para mim não mudou nada.
A música está perdida em algum lugar nesse mundo de plástico de hoje em dia, mas como não ligo para isso, sigo fazendo a música que eu gosto.
RtM: Em contrapartida com o lado "superficial" da atualidade, vemos um movimento interessante: novas bandas cantando em português e também vários grupos veteranos voltando à ativa. Como você enxerga essa nova fase do metal nacional?
César Five: É muito bom vermos os mais jovens derrubando o preconceito de cantar em Português.
É óbvio que a língua do metal é o Inglês, mas isso não impede de fazer isso na língua do teu país.
Já vivemos encaixotados em tantas regras, felizmente isso mudou e não existe censura para a arte.
RtM: Em 2025 vocês lançaram o álbum “Déjà Vu”, pela Insanity Records. Como foi o processo de composição e gravação desse trabalho? Ele traz mais nostalgia ou uma visão atual da banda?
César Five: O álbum foi lançado de forma independente. A Insanity Records apenas nos ajudou na divulgação. Todas as músicas, exceto a “Déjà Vu” e a "Adrenalina", foram regravações de material da primeira fase da banda na década de 80. Era um material que modernizamos com pequenas alterações, mantendo a essência das músicas.
A gravação teve atrasos devido a pandemia, mas após termos as guias definidas, gravei minhas partes de bateria. As cordas e os vocais foram gravadas no estúdio Casa dos Gatos, em São Leopoldo, pertencente ao nosso guitarrista Luciano Reis.
Eu gravei uma bateria lá também, inclusive.
A mixagem ficou a cargo do Lucas Santorum da LST Records.
RtM: A capa e título creio que trazem algumas pistas dos sentimentos que permeiam o trabalho.
César Five: A capa foi feita pelo artista gráfico Rômulo Dias, que produz capas de muitas bandas e ao escutar nossos singles trouxe essa ótima ideia da capa que traduz o que somos: caras velhos que sempre se veem como jovens (risos).
RtM: Os singles “Poderes e Forças” e “Rolando no Asfalto” anteciparam o disco. Como foi o retorno do público em relação a essas músicas?
César Five: “Poderes e Forças” é uma música forte, por sinal escrevi essa letra, e acho ela ótima para tocar ao vivo.
Com relação à "Rolando no Asfalto”, ela foi composta pelo Claus Steiner Campos, guitarrista que tocou com o Marco Canto em uma outra banda que não me lembro o nome. Essa música foi incorporada ao nosso repertório por ter tudo a ver com a banda.
RtM: E como vocês estão se sentindo agora, depois dos anos de hiato, e o retorno e na sequência, o lançamento do álbum? A chama voltou a arder mais forte e trouxe motivação para seguir por mais anos e continuar criando e tocando Heavy Metal?
Estamos bem felizes com esse álbum. Vendemos quase todas as cópias em CDs que fizemos. Fizemos alguns shows no ano passado, mas, nesse ano, a ideia é divulgar bastante ao vivo e já começar a compor o novo material, que terá ainda algumas músicas do passado, mas com muitas músicas novas que vão mostrar a nova fase da banda. Posso dizer que são ótimas, pois evoluímos como músicos e compositores.
RtM: As letras da Volúpia sempre tiveram identidade própria em português. De onde costumam surgir as inspirações: experiências pessoais, histórias de estrada, observação do cotidiano ou aquele clima clássico do rock dos anos 80?
César Five: As letras da banda são um caso à parte. Eu escrevi a “Poderes e Forças” e “Lembranças” quando tinha 20 anos e são músicas que ainda funcionam, pois falam do mundo apocalíptico e do amor envelhecido. Elas são atuais, assim como as demais.
Temos a “Adrenalina”, que foi composta depois do retorno da banda em 2016. A letra foi escrita pelo Adriano Lampert, filho do baixista Ricardo Lampert. Ela fala sobre o encontro do seu pai com os amigos do passado.
Eu contribuí com a outra metade da letra, pois havia ficado insuficiente para a música que eu e Ricardo fizemos. Tem a “Rebelião”, cuja letra é do saudoso Gérson Leal, que foi nosso vocalista anterior ao Marco Canto.
A Último Entardecer foi escrita pelo guitarrista Victor Hugo Rosa, um dos fundadores da banda. As demais letras são de autoria do Marco Canto e falam sobre aventuras e desejos juvenis.
RtM: Toda banda com tempo de estrada tem histórias curiosas ou engraçadas. Existe algum episódio marcante ou inusitado em show, ensaio ou viagem que vocês possam compartilhar com a gente?
César Five: Em 1985, fizemos a abertura do festival de música do IPA, em Porto Alegre. Iniciamos o show com uma música instrumental. Na segunda música, o nosso então vocalista Alexandre Torres apareceu no palco fantasiado de vampiro, sem nos comunicar absolutamente nada sobre isso (risos).
Foi uma tremenda surpresa pra nós e para o público, que não entendeu nada sobre o que isso tinha a ver com a banda. O Alexandre fez performances que nunca havia feito antes. Nos deixou bastante incomodados, porém, seguimos tocando o nosso setlist normalmente, afinal o show tinha que continuar.
No final da apresentação, o Alexandre simplesmente foi embora sem nos avisar. Acho que ele sentiu que nós não havíamos gostado nada do que ele havia feito. Enfim, o resultado foi a demissão dele da banda.
RtM: Muito boa! Tipo "rimos muito, e depois o demitimos" (risos). Bom, para encerrar, os tempos são diferentes, mas que mensagem ou conselho vocês dariam hoje para quem está montando sua primeira banda de Heavy Metal, seja recém ensaiando, ou já buscando espaço para tocar, assim como vocês fizeram nos anos 80, qual seria esse recado?
César Five: O recado que eu dou para quem se aventura na música é que faça o que gosta, não espere sucesso, mulheres e etc, pois hoje em dia isso é impossível. O rock infelizmente está fora da mídia há uns 20 anos aqui no Brasil.
Você vai gastar dinheiro, tempo, e se não for para fazer o que gosta vai ser mais complicado.
Eu sempre encarei a música como um hobby levado a sério, então nunca tive decepções.
O retorno que a música te dá é aquilo que você dedica a ela.
A noite de segunda-feira (15), no Carioca Club, marcou um retorno muito aguardado para os fãs brasileiros do Tiamat. Após 16 longos anos de ausência, a lendária banda sueca de doom/gothic metal escolheu São Paulo para encerrar sua turnê latino-americana, em um evento que, apesar da data pouco convencional, transformou-se em uma noite inesquecível. A expectativa era grande e, mesmo com a desvantagem de um show em plena segunda-feira, que naturalmente impactou a presença do público, aqueles que compareceram demonstraram uma paixão e devoção que valiam por uma multidão.
O início da apresentação teve um pequeno atraso de 15 minutos, mas o que poderia ser um inconveniente rapidamente se transformou em um momento memorável para os presentes. De cima do palco, o carismático vocalista Johan Edlund aproveitou a espera para autografar álbuns, camisetas e outros itens que os fãs estendiam em sua direção. Esse gesto inesperado agradou profundamente os fãs mais ardorosos, que fizeram questão de prestigiar a banda, criando uma atmosfera de cumplicidade e gratidão mútua. A felicidade estava estampada em cada rosto e, a cada autógrafo, a certeza de que seria uma noite especial se consolidava.
Especialmente notável foi a postura da banda. Longe de se abalar com o número de presentes, o Tiamat entregou uma performance impecável, como se estivesse tocando para um estádio lotado. A experiência de décadas e a paixão pela música transbordavam de cada integrante, transformando o Carioca Club no lugar perfeito para se vivenciar aquele momento. Os riffs melancólicos, os vocais profundos e a atmosfera densa, marcas registradas do Tiamat, preencheram o ambiente, e a banda conectou-se de forma intensa com cada fã que fez questão de testemunhar esse momento histórico. A resposta calorosa transformou o show quase em um encontro entre velhos conhecidos, algo que a banda pareceu valorizar a cada música.
O setlist, uma verdadeira viagem pela discografia da banda, começou com a força de “Church of Tiamat”, estabelecendo o tom sombrio e envolvente da noite. Clássicos absolutos como “In a Dream”, “Clouds” e a icônica “The Sleeping Beauty” foram recebidos com entusiasmo, transportando os fãs de volta às raízes do som que os conquistou. A precisão instrumental e a entrega emocional em cada nota provaram que o Tiamat não apenas retornou, mas o fez em sua melhor forma, revivendo a magia de seus álbuns mais aclamados.
A jornada musical continuou com uma seleção que contemplou diferentes fases da carreira, passando por “Divided”, “Will They Come?”, “Cain” e a hipnotizante “Love in Chains”. Faixas como “Phantasma De Luxe”, “Brighter Than the Sun” e, especialmente, “Wildhoney” e “Whatever That Hurts”, esta última considerada um hino por muitos, levaram o público a cantar em coro, ecoando anos de espera. A banda soube dosar a melancolia com momentos de pura intensidade, mantendo os fãs imersos em sua sonoridade única.
Para encerrar a noite e a turnê, o Tiamat brindou o público com uma sequência poderosa que incluiu “The Ar”, “Do You Dream of Me?”, “Visionaire”, “Cold Seed”, “Wings of Heaven”, “Vote for Love” e “25th Floor”, culminando com a épica “Gaia”. Cada música foi uma celebração da longevidade e da relevância da banda, provando que o tempo apenas solidificou seu legado. Foi uma despedida à altura: um show que, apesar das circunstâncias, tornou-se um testemunho da lealdade dos fãs brasileiros e da maestria de uma banda que, mesmo após tanto tempo, ainda tem muito a oferecer. O Carioca Club foi palco de um retorno tardio, porém honesto e intenso, que comprovou que a conexão entre o Tiamat e o Brasil segue viva, mesmo depois de 16 anos de espera.
A noite do último dia 14, no Carioca Club, em São Paulo, foi palco de uma verdadeira odisseia sonora, com o Rhapsody of Fire entregando uma jornada épica que celebrou tanto seu trabalho mais recente, “Challenge the Wind” (2024), quanto o 25º aniversário do clássico “Dawn of Victory”. A expectativa era grande, e a banda italiana, mesmo com a ausência forçada do tecladista Alex Staropoli, devido a problemas de saúde, prometeu e entregou uma performance memorável. Abrindo a noite, a banda brasileira Cova Rasa aqueceu o público com sua energia, preparando o terreno para a tempestade sinfônica que estava por vir.
Responsável por abrir a noite no Carioca Club, o Cova Rasa mostrou por que vem conquistando espaço no cenário do metal nacional. Diante de um público que chegava aos poucos, mas já atento, a banda entrou no palco com postura segura e um som bem ajustado, algo que geralmente não é muito comum em shows de abertura. Abrindo a apresentação com “The Red Mansion” e “Borley Rectory”, a banda deixou clara sua proposta musical. “Heartbreakers Hunter” e “Countess of Blood” mantiveram o público envolvido, com refrões fortes e clima épico, enquanto “Reaper’s Rival” e “King of Ghouls” trouxeram um peso maior ao set. Na reta final, “Dr. Death” e “Black Shadow” encerraram a apresentação com energia e personalidade, consolidando um show coeso que agradou bastante quem chegou cedo ao Carioca Club.
Com a formação composta por Giacomo Voli nos vocais, Roby De Micheli nas guitarras, Alessandro Sala no baixo e Paolo Marchesich na bateria, o Rhapsody of Fire subiu ao palco sob uma recepção calorosa. O show teve início com a grandiosidade de “The Dark Secret”, seguida pela fúria de “Unholy Warcry” e pela intensidade de “Rain of Fury”, que imediatamente transportaram a plateia para os reinos fantásticos da banda. A presença de palco de Giacomo Voli mostrou-se magnética, e a coesão instrumental, mesmo sem a presença de Alex, evidenciou a força e a experiência da banda.
Um dos momentos mais tocantes da noite ocorreu durante “I’ll Be Your Hero”, dedicada a Alex Staropoli, gesto que emocionou profundamente os fãs e evidenciou a união da banda. A emoção deu lugar à interação calorosa em “Chains of Destiny”, quando Giacomo Voli surpreendeu a todos ao cantar “parabéns” para uma fã chamada Priscila e, fiel à promessa feita minutos antes, desceu do palco para cantar no meio da plateia, criando uma conexão genuína e inesquecível. A magia seguiu com a execução envolvente de “The Magic of the Wizard’s Dream”, que hipnotizou o público presente.
O repertório transitou com maestria entre o novo e o clássico, apresentando faixas de “Challenge the Wind”, como a música-título e “Kreel’s Magic Staff”, que se integraram perfeitamente aos hinos consagrados da carreira. A celebração dos 25 anos de “Dawn of Victory” foi um dos pontos altos da noite, com a canção sendo entoada em uníssono pelo público. Um incidente inesperado durante “Triumph for My Magic Steel”, marcado por uma queda de energia de alguns minutos, acabou se tornando um momento memorável: ao perguntar se retomariam do trecho interrompido ou recomeçariam a música, Giacomo ouviu uma resposta enfática dos fãs, que levou a banda a reiniciar a canção do início, ganhando ainda mais o respeito dos presentes.
A parte final do show foi um verdadeiro deleite sonoro. Após a apresentação dos integrantes, a banda mergulhou em uma sequência de clássicos que culminou em uma apoteose. “Dargor, Shadowlord of the Black Mountain” preparou o terreno para a explosão de “Holy Thunderforce”, “A New Saga Begins” e “Land of Immortals”, mantendo a intensidade no nível máximo. O grand finale com “Emerald Sword” foi épico, com Giacomo Voli instigando um wall of death, transformando o Carioca Club em uma verdadeira arena, com o público entregue ao último mosh da noite.
Ao final, o Rhapsody of Fire deixou o palco do Carioca Club com a certeza de ter entregado uma performance que superou as expectativas. Apesar da ausência de Alex Staropoli, a banda demonstrou resiliência e paixão, honrando seu legado e apresentando um show vigoroso. Foi uma noite de power metal sinfônico em sua essência mais pura, repleta de momentos emocionantes, intensa interação com os fãs e uma energia contagiante, reafirmando o status do Rhapsody of Fire como uma das maiores forças do gênero e deixando uma marca duradoura na memória dos presentes.
Loserville Gringo Papi Tour transforma o Allianz Parque em caos coletivo com Bullet For My Valentine e Limp Bizkit
A tão aguardada edição do “mini festival” Loserville Gringo Papi Tour desembarcou no Brasil no último sábado, 20/12, reunindo nomes como Slay Squad, Riff Raff, Ecca Vandal, Bullet for My Valentine, que entrou como substituição após o cancelamento do Yungblud e o aguardado headliner da noite, Limp Bizkit.
A equipe do Road To Metal esteve presente e relata abaixo como foi a experiência do que se consolidou como o último grande festival de metal a encerrar o ano de 2025, marcando o calendário com peso, nostalgia e muita energia.
Slay Quad
O grupo californiano Slay Squad, que mistura hip hop, death metal e elementos industriais, foi responsável por abrir as apresentações do dia, enfrentando um calor intenso e um público que ainda chegava timidamente ao local.
O show teve início por volta das 16h10 e contou com cerca de 30 minutos de duração, encerrando-se às 16h40.
Ainda pouco conhecida por parte do público brasileiro, a banda chamou atenção pelo estilo agressivo de se apresentar, sobretudo pela energia constante de seus integrantes, que não economizaram na interação: ao longo do set, foram arremessados diversos itens de merch para a plateia, camisetas, palhetas e até um tênis, lançado pelo vocalista Brahim Grousse.
Riff Raff
O rapper americano Riff Raff, nome artístico de Horst Christian Simco, subiu ao palco às 16h55 para uma apresentação solo, sem banda de apoio. Com um setlist curto, figurino extravagante e pouco carisma, o artista teve dificuldades em prender a atenção do público, que também pareceu não compreender totalmente sua proposta de estética caricata.
O mini show durou cerca de 15 minutos, encerrando-se por volta das 17h10, deixando uma impressão morna e sem grande impacto na plateia.
Ecca Vandal
Em sua estreia em solo brasileiro, a artista sul-africana Ecca Vandal levou ao público presente uma energia e carisma distintos. Vestindo uma camiseta do Sepultura, com letras rápidas, muita dança e um forte “gingado”, a cantora que mescla punk e hip hop, conseguiu elevar o clima do festival, recuperando a energia que havia sido deixada pela atração anterior.
Com um setlist ainda curto, consequência da quantidade de artistas escalados para a noite, a apresentação teve cerca de 30 minutos, tempo suficiente para deixar uma excelente impressão em todos os presentes e marcar positivamente sua primeira passagem pelo país.
311
A banda americana 311 foi a primeira atração do dia a contar com mais tempo de palco e um setlist completo. Conhecida por mesclar rock alternativo, hip hop e reggae, a sonoridade do grupo é bastante familiar aos fãs de Sublime, por exemplo.
Liderada pelo vocalista Nick Hexum, a banda entregou uma performance que equilibrou momentos de energia, como em “Down” e “Come Original”, e com passagens mais melancólicas, destacando “Love Song”, cover do The Cure.
A sinergia entre os vocais de Hexum e Doug "SA" Martinez (DJ e também vocalista) evidenciou o entrosamento da banda no palco. A apresentação contou com 10 músicas e teve duração aproximada de 1 hora, sendo um dos pontos altos da tarde.
Bullet For My Valentine
A Bullet for My Valentine foi a primeira grande banda a se apresentar no dia. A participação do grupo galês veio após o cancelamento, por problemas de saúde, do artista Yungblud. Muitos fãs e inclusive este que vos escreve, consideraram a troca melhor do que o line-up inicial, algo que o Bullet For My Valentine fez questão de provar logo na primeira música.
A banda havia prometido executar na íntegra seu álbum de estreia, The Poison, lançado em 2005. Bastaram os primeiros acordes para ficar claro o porquê de o Bullet ter sido a melhor escolha possível como banda de abertura para o Limp Bizkit.
Logo nos primeiros segundos, entregando todo seu scream rasgado, Matthew Tuck, mais conhecido como Matt, incendiou o público com “Her Voice Resides”. A sequência veio com “4 Words (To Choke Upon)”, e nada acompanhou melhor a banda do que moshpits intensos, que surgiam por todos os lados. O público estava tão eufórico que sinalizadores vermelhos tomaram conta do espaço.
Sem dar tempo para respirar, “Tears Don’t Fall” entrou como uma verdadeira pedrada: muitos cantavam, muitos se jogavam no mosh, e muitos faziam as duas coisas ao mesmo tempo. Vale destacar que, mesmo após 20 anos do lançamento do álbum, a voz de Matt soa praticamente idêntica à de estúdio, sem oscilações. Os backing vocals de Jamie Mathias acompanham o frontman de forma magistral.
A sequência seguiu com “Suffocating Under Words of Sorrow (What Can I Do)” e “Hit the Floor”. Para dar um breve respiro após tantos pulos e rodas, veio a já clássica “All These Things I Hate (Revolve Around Me)”. Mas a calmaria durou pouco: em “Hand of Blood”, qualquer pausa foi deixada de lado. Sendo uma das faixas perfeitas para rodas punk, o que se viu foi um verdadeiro redemoinho de moshpits, novamente tingidos de vermelho pelos sinalizadores, um espetáculo tanto da banda quanto dos fãs.
Já se encaminhando para o final, “Room 409” e a faixa-título “The Poison” mantiveram o público em êxtase. A todo momento, Matt agradecia o público brasileiro, e a banda parecia tão empolgada quanto os fãs, que não viam o grupo no país desde 2022, quando passaram pelo Rock in Rio e um apresentação solo na Audio.
“Cries in Vain” sinalizou que a apresentação se aproximava do fim. A dobradinha final com “The End” e “Waking the Demon” encerrou o set, mas não a energia. Os fãs abriram a maior roda punk da noite até então, aquecendo definitivamente os motores para o headliner que viria a seguir.
Após aproximadamente 1h10 de apresentação, o Bullet for My Valentine mostrou toda a sua força e deixou claro o porquê de ter sido a escolha perfeita para a noite, reunindo fãs, incendiando o público e criando a atmosfera ideal para a sequência do festival.
Limp Bizkit
Todo o aquecimento e a energia deixados pelo Bullet For My Valentine vieram à tona quando o Limp Bizkit finalmente subiu ao palco. Com o estádio lotado e o público em êxtase antes mesmo da aparição dos integrantes, rolou uma singela e respeitosa homenagem ao ex membro Sam Rivers, faleceu em 18 de Outubro aos 48 anos.
Aos poucos, os membros da banda começaram a dar as caras e, logo nos primeiros segundos de “Break Stuff”, o público simplesmente não se conteve. Toda a energia que havia sido economizada durante as apresentações anteriores foi liberada de uma vez só, já no início do show.
Moshs, pulos, gritos, coros e muitos, muitos mesmos - sinalizadores tomaram conta do espaço. Era visível que o público parecia estar se guardando justamente para aquele momento e, como a própria música traduz, todos pareciam prontos para “quebrar alguma coisa”.
“Ladies and gentlemen, introducing the chocolate starfish and the hot dog flavored water”. A introdução marcante de “Hot Dog” trouxe ainda mais ritmo e energia ao palco, elevando o nível do show e mantendo o público em constante explosão.
Em “Show Me What You Got”, ficou evidente tudo aquilo que popularizou o Limp Bizkit: riffs marcantes, as rimas e o rap característicos de Fred Durst, além de DJ Lethal em plena ação, reforçando a identidade sonora de Nu metal, que consagrou a banda.
A sequência veio sem fôlego, com “My Generation” e “Livin’ It Up”, duas faixas que incendiaram ainda mais o público e transformaram o estádio em um verdadeiro caos controlado, com rodas, pulos e coros ecoando por todos os lados.
Para melhorar o que já estava bom, vieram “My Way” e, na sequência, “Rollin (Air Raid Vehicle)”, a faixa perfeita para quem quer cantar, dançar ou simplesmente se jogar no meio da galera enquanto se diverte sem pensar no amanhã.
“Re-Arranged” e “Behind Blue Eyes” vieram para acalmar os ânimos e dar tempo para todos respirarem, e incluo nisso tanto o público quanto a própria banda. Em seguida, com o estádio inteiro iluminado pelos flashes dos celulares, o clima se transformou em um verdadeiro momento de celebração coletiva durante “Behind Blue Eyes”.
Arrisco dizer que a canção ganha outra atmosfera na interpretação do Limp Bizkit, encaixando-se perfeitamente à proposta do grupo e, para muitos, inclusive este que escreve, tornando-se ainda mais impactante do que a versão original do The Who.
Após esse breve momento de celebração coletiva, a banda voltou a todo vapor com “Eat You Alive” e “Nookie”, recolocando o público em estado de caos e retomando a intensidade do show.
Em “Full Nelson”, tivemos uma das grandes surpresas da noite: uma fã, Bia Marcato, foi convidada a subir ao palco para cantar ao lado de Fred Durst. O momento chamou ainda mais atenção pelo talento e desenvoltura da fã, que mostrou muita atitude e conseguiu elevar ainda mais a energia da música, arrancando uma reação imediata do público.
Mantendo o nível e o ritmo da apresentação, veio “Boiler”. Na sequência, a banda surpreendeu com um pequeno trecho de “Careless Whisper”, de George Michael, cantado em coro por todo o estádio, enquanto alguns casais aproveitavam o momento para dançar e se divertir.
Acho curioso e até engraçado, como cada vez mais bandas e artistas do Metal, vêm utilizando esse clássico em suas apresentações. Esse tipo de pausa deixa o clima do show mais leve e descontraído e passa aquele recado implícito que todo mundo entende: metal não é só porradaria, também é amor e diversão.
“Faith” trouxe aquela vibe descontraída que o Limp Bizkit executa com maestria. Em seguida, veio um dos pontos mais altos da noite com “Take a Look Around”. Como o próprio Fred Durst brincou, era hora de “incorporar” Tom Cruise em Missão: Impossível.
A segunda metade da música reuniu tudo o que havia sido visto ao longo da apresentação: moshpits intensos, sinalizadores por todos os lados e o público completamente entregue. Em um momento tão inesperado quanto insano, um fã, quase em sincronia perfeita com o refrão, acendeu um rojão, que explodiu exatamente junto ao ápice da música.
Esse momento, aumentou ainda mais a sensação de loucura coletiva, elevando o clima do show, que já se encaminhava para sua última música.
Em “Break Stuff (Part 2)”, tivemos tudo o que já havia acontecido na abertura do show, porém em uma escala ainda maior e mais coletiva. O Limp Bizkit trouxe todos os artistas que haviam se apresentado anteriormente ao palco para acompanhar a execução da música, instaurando um caos absoluto e compartilhado, perfeito para encerrar a noite em altíssimo nível, após 1h40 de show.
O Loserville Tour Brasil cumpriu o que prometeu, entregando uma noite intensa, diversa e marcada por muita energia do início ao fim. Com apresentações que cresceram ao longo do dia e um encerramento caótico e memorável do Limp Bizkit, o mini festival fechou o ano em alto nível, deixando a sensação de missão cumprida para bandas e público.