Warshipper, NervoChaos, The Haunted e Bloodbath em uma noite para entrar na história do metal extremo
A terça-feira começou diferente. Mesmo depois de um feriado prolongado, o relógio parecia correr em outra velocidade para quem sabia que, ao final daquele dia, algumas horas de sono seriam um preço pequeno diante do que estava por vir. O trabalho aconteceu com aquela sensação boa de contagem regressiva: havia uma noite histórica esperando no Carioca Club, em São Paulo. E, quando as luzes começaram a se apagar, a impressão era de que o dia finalmente tinha começado de verdade.
No palco, quatro nomes de pesos e momentos distintos da história do metal extremo se encontrariam. Warshipper, NervoChaos, The Haunted e Bloodbath construíram, cada um à sua maneira, uma noite que atravessou gerações, estilos e diferentes capítulos do Death Metal. O resultado foi um Carioca Club progressivamente tomado por fãs, rodas de mosh, gritos e uma energia que fez daquela terça-feira, 8 de setembro, muito mais do que uma simples data no calendário de shows.
Warshipper abre a noite olhando para o futuro
Ainda no início da noite, o Warshipper subiu ao palco diante de uma casa que ainda ganharia bastante movimento nas horas seguintes. Isso, porém, não diminuiu a intensidade da apresentação. Pelo contrário. A banda aproveitou cada minuto para mostrar por que ocupa um espaço importante na nova geração do metal extremo brasileiro.
O repertório passou por faixas como “All Hail The Metal of Death”, “Numb (Pleasures of Possession)”, “Shadows of Science”, “Respect!” e “Warshipper”, equilibrando agressividade, precisão e uma execução que nunca pareceu interessada em transformar técnica em demonstração vazia. A força do grupo está justamente nessa capacidade de fazer os instrumentos trabalharem a favor das músicas, mantendo o peso como elemento central.
Com 15 anos de carreira, quatro álbuns e experiências internacionais no currículo, o Warshipper atravessa um momento de maturidade. E isso ficou evidente no palco. A apresentação também funcionou como uma espécie de cartão de visitas para a próxima etapa da banda, que se prepara para o lançamento de mais um álbum. Se o objetivo era deixar uma prévia do que vem pela frente, a missão foi cumprida.
NervoChaos transforma três décadas de história em combustível
Se o Warshipper representou a força de uma geração que continua expandindo os limites da cena nacional, o NervoChaos entrou em cena para lembrar que existe uma história construída à base de persistência, estrada e caos. Celebrando 30 anos de carreira, a banda trouxe ao Carioca Club uma apresentação que não precisou recorrer à nostalgia para reafirmar sua relevância.
“Necroccult”, “Demonic Juggernaut”, “Ritualistic”, “Pazuzu Is Here” e “Total Satan” abriram caminho para uma sequência de músicas que percorreu diferentes momentos da trajetória do grupo. O repertório avançou por “Dragged to Hell”, “Feast of Cain”, “Shadows of Destruction”, “The Mark of the Beast”, “For Passion Not Fashion”, “Moloch Rise” e “To the Death”, mantendo a atmosfera brutal que acompanha o NervoChaos há três décadas.
E talvez seja justamente essa permanência que melhor defina a apresentação. Enquanto muita coisa muda ao redor, a banda segue encontrando maneiras de transformar peso em identidade.
The Haunted: 18 anos depois, a espera finalmente termina
Particularmente para mim, havia um motivo a mais para esperar por aquela terça-feira. Entre todos os momentos programados para aquela noite, o show do The Haunted era, sem dúvida, o mais aguardado. Eu havia esperado muito tempo para ver Ola Englund pessoalmente. E existe uma diferença enorme entre acompanhar o trabalho de um músico, admirar sua técnica, consumir seu conteúdo e, finalmente, estar diante dele no palco.
Quando o The Haunted entrou em cena, essa espera deixou de ser expectativa e virou realidade. Foram 18 anos desde a última passagem da banda pelo Brasil. Dezoito anos são tempo suficiente para uma geração inteira descobrir uma banda, crescer ouvindo seus discos e, finalmente, ter a oportunidade de vê-la ao vivo. Por isso, o retorno carregava um significado que ia além de uma simples turnê internacional.
“Warhead” abriu o caminho para uma apresentação que atravessou diferentes fases da carreira, passando por “In Fire Reborn”, “99”, “Trespass”, “The Flood”, “The Medication”, “D.O.A.” e “Time (Will Not Heal)”. A banda também revisitou material mais recente, incluindo músicas de Songs of Last Resort, lançado em 2025, antes de avançar por “Hell Is Wasted on the Dead”, “To Bleed Out”, “No Compromise”, “In Vein” e “Death to the Crown”.
Marco Aro foi uma espécie de ponte permanente entre palco e pista. A comunicação com o público era constante, mas não se resumia a frases de efeito. Os pedidos para que as rodas de mosh se abrissem ajudaram a transformar a apresentação em uma experiência coletiva, enquanto Patrik Jensen, Ola Englund e Jonas Björler mantinham uma interação visual constante com a plateia.
E então existe a guitarra. Conhecido também pelo trabalho como criador de conteúdo sobre guitarra e como fundador da Solar Guitars, Ola ocupa um lugar que ultrapassa o universo do The Haunted. Para quem acompanha esse trabalho, observar de perto suas Solar em ação acrescenta uma camada completamente diferente à experiência. Naquela noite, porém, era o guitarrista do The Haunted que estava diante do público brasileiro. E ele entregou exatamente o que se esperava: presença, precisão e uma sonoridade que se encaixou perfeitamente na brutalidade da banda.
Ao lado dele, Jensen e Björler ajudaram a construir uma parede sonora que encontrou em Adrian Erlandsson seu motor. A bateria veio precisa, pesada e incansável, especialmente nos momentos em que os blast beats tomaram conta do Carioca Club.
Depois de “Undead”, “Hollow Ground”, “Dark Intentions”, “Bury Your Dead”, “Hate Song” e “All Against All”, “Bullet Hole” encerrou uma apresentação que não pareceu simplesmente cumprir a promessa de um retorno. Ela respondeu aos 18 anos de espera.
O mais bonito talvez tenha sido perceber que não havia apenas uma geração diante do palco. Havia quem tivesse esperado quase duas décadas por aquele reencontro e havia quem estivesse descobrindo o The Haunted naquele exato momento. A banda conseguiu fazer esses públicos diferentes ocuparem o mesmo espaço, cantarem juntos e dividirem a mesma pista.
Bloodbath e a estreia que São Paulo esperou
Se o The Haunted transformou uma espera antiga em realidade, o Bloodbath tinha uma missão ainda mais inédita: fazer sua primeira apresentação no Brasil.
O palco mergulhou em uma atmosfera mais sombria. As luzes predominantemente vermelhas ajudaram a construir o cenário perfeito para o Death Metal old school da banda, que chegou ao país com uma formação de peso: Nick Holmes, Anders Nyström, Martin “Axe” Axenrot e Joakim Antman.
E a banda não economizou. “So You Die” abriu o repertório, seguido por “Breeding Death”, “Carved”, “Soul Evisceration”, “Like Fire” e “Outnumbering the Day”. A apresentação avançou por “Putrefying Corpse”, “Cancer of the Soul”, “Brave New Hell”, “Mock the Cross”, “Fleischmann”, “Let the Stillborn Come to Me” e “Cry My Name”, mantendo uma combinação de brutalidade, atmosfera e precisão que fez jus à reputação construída pelo grupo.
Nick Holmes conduziu a apresentação com a experiência de quem sabe exatamente como ocupar um palco, enquanto Martin Axenrot se destacou pela precisão, especialmente nos momentos em que os blast beats aceleravam ainda mais a intensidade da apresentação. Em determinado momento, até um avião de papel feito com o setlist acabou voando em direção ao público, uma pequena interação que contrastou com a atmosfera fúnebre construída pela banda.
Para fechar a primeira passagem pelo país, “Eaten” não poderia ser uma escolha mais simbólica. A música colocou um ponto final em uma noite que já havia atravessado três décadas de metal brasileiro, um retorno esperado por 18 anos e, finalmente, uma estreia internacional aguardada por tantos fãs.
Uma noite que pertenceu ao metal extremo
No fim, a noite não precisou de grandes discursos para provar sua importância. Bastaram quatro bandas em momentos completamente diferentes de suas trajetórias, um público disposto a enfrentar uma terça-feira para estar ali e um palco que, durante algumas horas, concentrou diferentes gerações do metal extremo.
O mais interessante é que cada apresentação deixou uma marca diferente: o Warshipper apontando para frente, o NervoChaos carregando três décadas nas costas, o The Haunted finalmente desfazendo uma espera de 18 anos e o Bloodbath fazendo aquilo que ainda não havia feito: tocar no Brasil.
E talvez seja justamente essa a melhor medida de uma noite como essa. Não sair do Carioca Club pensando que viu quatro shows, mas perceber, horas depois, que assistiu a quatro momentos que dificilmente voltam a se repetir da mesma maneira.
Texto: Stephanie Ferreira
Fotos: André Tavares
Realização: Tumba Productions
Bloodbath – setlist:
So You Die
Breeding Death
Carved
Soul Evisceration
Like Fire
Outnumbering the Day
Putrefying Corpse
Cancer of the Soul
Brave New Hell
Mock the Cross
Fleischmann
Let the Stillborn Come to Me
Bis
Cry My Name
Eaten
The Haunted – setlist:
Warhead
In Fire Reborn
99
Trespass
Interlude
The Flood
The Medication
D.O.A.
Time (Will Not Heal)
Hell Is Wasted on the Dead
To Bleed Out
Interlude
No Compromise
In Vein
Death to the Crown
Undead
Hollow Ground
Dark Intentions
Bury Your Dead
Hate Song
Bis
All Against All
Bullet Hole
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