
Olá Claudio Monteiro. Obrigado pela sua gentileza em nos atender. Parabéns pelo lançamento do CD “Covenant of Chaos”, pois o material ficou de primeira…
Claudio Monteiro: Nós é que agradecemos o espaço e a atenção da ROAD TO METAL. Muito obrigado pelas palavras. Covenant of Chaos é um trabalho construído com muito cuidado e convicção ao longo de anos de estrada. Ele não foi pensado para fórmulas ou concessões, mas como uma expressão honesta das reflexões que carregamos desde o início da banda, ainda em 1993. É resultado de uma longa observação das transformações — e dos colapsos — morais, sociais e espirituais que seguimos presenciando, e que continuam nos impulsionando criativamente.
Como você descreve o trabalho de composição dessa sonoridade?
Claudio Monteiro: A composição no ThemalefiK começa na ruptura. Trabalhamos com dissonância, repetição opressiva, variações rítmicas instáveis e camadas que criam tensão constante. Não há compromisso com gêneros ou fórmulas, apenas com intenção. A música precisa soar como falha estrutural, como algo prestes a ruir, porque é exatamente assim que o mundo se apresenta. Se o som incomoda, é porque reflete algo real.
O disco exige várias audições para ser compreendido. Isso tem sido percebido pelos fãs?
Claudio Monteiro: Sim, e isso é natural. Covenant of Chaos não se revela apenas pelo ouvido, mas pelo que cada um carrega por dentro. O disco não entrega respostas prontas — ele provoca dúvidas, silêncios e confrontos internos. A cada audição, o ouvinte encontra camadas que dialogam diretamente com suas próprias contradições, crenças e fragilidades. O caos ali não é apenas externo; ele reflete aquilo que cada um sabe que sente, mas muitas vezes evita encarar. Não acreditamos em música que passa sem deixar marcas.
Existem planos para o lançamento físico do álbum no Brasil?
Claudio Monteiro: Sim. O formato físico continua sendo essencial no underground. O digital espalha, mas o físico consolida. Quando Covenant of Chaos sair nesse formato, não será apenas um CD, mas um objeto conceitual, pensado como extensão do álbum. Nada será feito de forma vazia ou apressada.
O uso do inglês pode afastar o público brasileiro?
Claudio Monteiro: Não. O ThemalefiK nunca se limitou a idioma. Muito antes disso, já expúnhamos a realidade brasileira de forma direta em português. “Vergonha”, gravada em 1998, já escancarava uma nação construída sobre humilhação, miséria moral e silenciamento. A letra questiona diretamente do que deveríamos nos orgulhar — ou se o único sentimento honesto possível seria a vergonha. O mais perturbador é constatar que, décadas depois, essa pergunta continua válida porque nada mudou no Brasil. “Cadáveres nos Jornais” aprofunda essa denúncia ao mostrar a morte transformada em rotina e manchete descartável, enquanto a corrupção se esconde atrás do discurso da falta de recursos. A mídia não informa — anestesia. As pessoas veem, se calam e seguem vivendo uma vida anormal. Já “Vida”, gravada em 1998 e regravada no álbum Your Belief, vai além da crítica social e atinge o núcleo da crença humana. A música desmonta a ideia de transcendência, questiona a vida pós-vida e reduz a existência àquilo que ela realmente é: barro, carne, água e sangue. Não há promessa futura, apenas o instante. Essa música antecipa de forma clara a filosofia de Your Belief, que questiona a fé, a obediência e a necessidade humana de criar ilusões para suportar a finitude religiosa.
Como estão rolando os shows em suporte ao disco?
Claudio Monteiro: O palco não é entretenimento, é exposição. Ao vivo, o ThemalefiK funciona como um rito de confronto. Não suavizamos nada. Quem se conecta entende que não se trata de conforto, mas de presença e intensidade; quem já presenciou o ThemalefiK ao vivo sabe disso muito bem. Se alguém se sente desconfortável, talvez seja exatamente aí que deveria prestar mais atenção. Estamos preparando o terreno e fazendo o nosso papel na divulgação do álbum e, consequentemente, dos shows.
Quem assinou a capa do CD e qual a intenção dela?
Claudio Monteiro: A capa foi concebida junto à banda, a partir de um conceito muito claro: o pacto com o caos. Ela representa a ruptura definitiva com crenças impostas, a falência da ordem e a aceitação do colapso como força transformadora. Não explica — provoca, assim como a música. A arte nasceu de um esboço criado pelo baterista; a partir daí, buscamos a essência da banda de 1993, resgatamos isso e trouxemos o passado para o presente. Assim nasceu o disco.
“Covenant of Chaos” foi totalmente produzido pela banda?
Claudio Monteiro: Sim. Produzir o próprio material é uma escolha ideológica. Desde Your Belief, seguimos uma linha clara: controle total da mensagem. Questionamos a fé, a obediência e as estruturas que moldam o comportamento humano. Covenant of Chaos é a consequência direta disso — quando a crença cai, o caos assume.
Já existem novas composições em andamento?
Claudio Monteiro: Sim. O processo continua, mas não como ruptura, e sim como aprofundamento. Seguimos explorando crença, colapso, repetição histórica e decadência humana. O ThemalefiK não reage ao mundo — ele o reflete de forma crua. No fim, tudo isso é sobre lucidez, mesmo quando ela dói.
Novamente parabéns pelo trabalho e vida longa ao THEMALEFIK…
Claudio Monteiro: Agradecemos o espaço e o respeito. O metal não sobrevive pela aceitação, mas pela resistência. Enquanto houver silêncio imposto, o ThemalefiK continuará fazendo barulho.
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