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sábado, 29 de agosto de 2026

Aléxia: "Garra é a vontade de lutar pelos seus sonhos"

Rafael Karelisky

Por Michelle Santana - @mii.santanna e Paula Butter - @paulabutter.rocks

Alexia lançou "Garra", seu primeiro álbum autoral, depois de quatro anos de carreira solo e uma trajetória que começou em bandas de covers. Em papo por vídeo com as jornalistas Paula Butter e Michelle Santana, ela falou sobre o processo de composição, luto, presença de palco, o revival dos anos 2000 e as dificuldades de ser mulher no rock nacional. Abaixo, confira a entrevista na íntegra, sem frescuras e nem inibições.


A garra que fere e a garra que impulsiona

Paula Butter: Primeiramente, obrigada por conceder esta entrevista para a Road To Metal. Estamos aqui para conhecer um pouco de você e de como está sendo este momento da sua carreira, que está decolando, com o sucesso do álbum “Garra”. A respeito do nome do álbum, por ser muito impactante e ter muitas músicas com fortes significados, como foi a decisão da escolha deste título? Quando você teve a certeza da escolha? E também as escolhas artísticas da arte da capa e concepção do resultado final da obra, conta pra gente como foi todo esse processo?

Aléxia: Quando gravei o clipe da música "Monstro", tiramos algumas fotos. Isso foi bem antes de termos um álbum, antes de termos a ideia de lançar um álbum. Fiz aquelas fotos e, quando bati o olho na imagem que usamos para a capa, já imaginei que seria perfeita. Lembro que nem divulguei essa foto, deixei guardada.

Quando começamos a pensar em qual seria o nome, olhei aquela foto, visualizamos a garra e pensamos que esse nome seria muito bom por conta da dualidade da palavra. É a garra do monstro que te fere, mas também é a garra de lutar pelos seus sonhos, de ir atrás das coisas.

O álbum todo resume muito tudo que me trouxe até aqui e me fez ter garra. Acho que deu muito certo, tanto a capa quanto o nome e todas as músicas.

Foi um processo bem difícil também definir a ordem das músicas. Fiquei ouvindo várias vezes as músicas em ordens diferentes até definir uma que fizesse sentido.


Paula Butter: Eu e a Michele estávamos conversando. É muito bom esse álbum. Tem muito significado, tem que escutar várias vezes e você está de parabéns. Agora vou passar a palavra pra Michele.

Rafael Karelisky

Vulnerabilidade como coragem

Michelle Santana: Alexia, primeiramente, é uma honra falar com você. Eu ouvi o álbum e fiquei muito impactada. Eu, que sou da área da saúde mental, fiquei muito feliz de ouvir algo tão visceral, tão profundo. Puxando um gancho dessa última pergunta da Paula: "Garra" soa quase como um diário pessoal, cheio de momentos muito íntimos e viscerais. Como foi o processo de transformar experiências tão pessoais em música e em que momento isso foi difícil?

Aléxia: Primeiramente, para mim é uma honra estar com vocês e saber que vocês curtiram o álbum e se conectaram de alguma forma. Foi um processo difícil porque tive que revisitar muitos momentos da minha vida que eu não visitava. Acho que foi também um processo de amadurecimento e autoconhecimento.

Poder colocar no papel, falar sobre sentimentos e me expor completamente foi importante. Eu nunca gostei muito dessa sensação de me sentir vulnerável, mas percebi que a vulnerabilidade exige muita coragem. A conexão que eu vinha tendo com os meus fãs me deu essa coragem, porque vejo neles muitas coisas que vivi e passei.

Pensei que precisava mostrar para eles que também passei por isso, que entendo o que eles estão sentindo. A gente se conectou através dessas músicas de forma muito mais real. Eles me viram como uma pessoa real, que tem momentos de altos e baixos, porque a vida é assim.

Foi um processo difícil, mas acho que saí dele muito mais forte e com muito mais coragem para falar sobre tudo que sinto. Mais garra. Alexia mais garra.

Rafael Karelisky

Sobre a música "Fevereiro"

Michelle Santana: Falando um pouco desse lado emocional do disco, existe alguma música que mexe com você? Qual a sua música preferida do momento? E como ela mexe com você cada vez que sobe ao palco? O que ela desperta?

Aléxia: É tão difícil porque, para mim, todas mexem comigo de um jeito diferente. São músicas diferentes, mas a que mais me emociona todas as vezes e realmente me impacta é "Fevereiro", por ser uma música que fala sobre luto, sobre essa dor de perder alguém, algo que realmente fazia parte da minha vida.

Poder falar sobre isso todas as vezes que estou no palco é muito emocionante. Acho que toda a parte da produção musical dessa música também ficou incrível, com os instrumentos de orquestra. Essa é uma das que mais me emocionam e que considero mais impactantes.


Paula Butter: Essa música me pegou forte também.

Michelle Santana: Essa música foi bem emocionante. É uma das que mais me emocionou no álbum. Até quando você comentou agora, me deu uma coisa. Ela é forte, realmente vai fundo.

Presença de palco: entrega natural

Paula Butter: Desculpa interromper a Michele. Aproveitando esse gancho do palco, como você consegue, porque, independente do tamanho do palco, você preenche o espaço todo nas suas apresentações? É uma coisa surreal. Eu achei surreal, falei: "Meu Deus, quem é essa artista?" Você tem alguma técnica ou simplesmente chega lá e é você? Tem alguma técnica para não deixar nenhuma parte do palco vazia, para interagir com todo mundo, ou é algo natural?

Aléxia: Obrigada! Eu sinto que é muito natural. Não gosto muito de ficar pensando tanto no que fazer. Eu e os meninos da banda tentamos combinar: se estou em um canto do palco, alguém vem e preenche o outro lado para não ficar vazio. Se o Gustavo vai com a guitarra lá perto do Léo, eu vou para esse canto para nunca ficar um espaço vazio.

A parte de entrega e presença de palco acho que é muito natural. Quando a gente se diverte, tudo acontece muito melhor.


Paula Butter: Bom saber. Impacta mesmo. Eu que estava lá fiquei realmente impressionada, virei sua fã. Fico feliz. Agora vou passar pra Michele para a gente falar mais sobre o álbum, que ela tem algumas perguntas também. Depois a gente volta comigo, tá bom?

Rafael Karelisky

O revival dos anos 2000

Michelle Santana: Alexia, você faz parte de uma nova geração de artistas que resgata a sonoridade e a estética dos anos 2000, mas com uma identidade muito própria. Como você enxerga esse movimento e o que mais te inspira nessa época para além da música?

Aléxia: Eu fui aquela adolescente que viveu muito essa fase de ficar vidrada na MTV, assistindo a todos os clipes. Os artistas da época me influenciaram demais: Pitty, Paramore, Evanescence, além da Lady Gaga. Acho que, de alguma forma, todos esses artistas moldaram minha forma de escrever, de cantar e também minha personalidade.

Estamos vivendo esse momento de revival. Muitas bandas dessa fase voltaram, estão fazendo turnês, vindo para o Brasil e lotando estádios, como My Chemical Romance e System of a Down. Estamos vivendo um momento muito legal porque aqueles adolescentes agora têm mais dinheiro para assistir aos artistas que não conseguiam ver na época. Também podem curtir e passar isso para os filhos. Está passando de geração.

Acho que isso veio em uma hora muito boa para eu lançar esse álbum, porque ele traz muito da sonoridade e da identidade visual da época, só que de um jeito mais moderno e atual, colocando também um pouco mais da minha identidade e da identidade dos meninos.

Isso faz com que ele se conecte com essa galera e com outras idades também. É legal porque se conecta com quem sente nostalgia, mas também com os mais jovens que estão conhecendo esse tipo de som agora.

Rafael Karelisky

Michelle Santana: Eu também fui adolescente dos anos 2000 e me identifiquei muito. Para mim, teve essa coisa nostálgica. Foi bem especial, eu ouvi o álbum e gostei bastante.

Aléxia: Que bom, fico feliz. Ele traz essa sensação de estar ouvindo algo da época, mas, ao mesmo tempo, aquela sensação de estar descobrindo uma coisa nova. Essa mistura.


Michelle Santana: Até a música "Um por Um" eu achei que trouxe esse lado moderno também. Não só a estética dos anos 2000, mas muita coisa do metal moderno. Achei muito interessante. Acho que é uma música que ilustra muito bem o que você está falando.

Aléxia: Verdade.

Hoobastank, novos públicos e a explosão nas redes

Paula Butter: Aproveitando o que você estava falando sobre esse revival: você ganhou alguns festivais e, no ano passado, abriu para o The Calling. Foi bem legal, bem emocionante. A partir daí, vimos sua base de fãs aumentar nas mídias sociais, todo mundo torcendo por você. Recentemente, tivemos a notícia de que você vai abrir o show do Hoobastank. É isso?

Aléxia: É o Hoobastank.


Paula Butter: Desculpa. Eu adoro a música, mas é difícil a pronúncia da banda. É uma banda que marcou muito a minha juventude. Você vai estar com o Di Ferrero em alguns shows da turnê?

Aléxia: Sim.


Paula Butter: Como está sendo isso para você, essa explosão e essa atenção da mídia agora, apesar de você já estar há muito tempo na carreira? Você tem uma formação clássica, já está nisso há bastante tempo, mas o que está achando de ver tantos fãs na internet, tanta gente interagindo? Como está se sentindo?

Aléxia: Eu me sinto muito feliz, de verdade, porque é algo que sempre sonhei e pelo qual sempre corri muito atrás. Poder ver meu trabalho sendo reconhecido e chegando a mais pessoas é muito gratificante.

Tudo que puder contribuir para que meu som chegue a mais pessoas me deixa extremamente feliz e realizada. Também poder dividir o palco com artistas que foram influência para mim é muito especial. Vai ter o Di Ferrero, Dead Fish.

Estou muito feliz com essa oportunidade de mostrar meu som para quem não me conhece e também de dividir essa vitória com quem já me conhece há muito tempo e está torcendo por mim. Estou muito feliz.


Paula Butter: Ficamos felizes também. Você também está com esse álbum novo, solo. Atualmente, acho que é uma das vozes femininas mais expressivas, na minha opinião. Está vindo com muita força, o álbum é muito impactante. Vou deixar com a Michele, que também tem mais algumas perguntas sobre isso.

Vitor Duik

De banda cover a carreira autoral

Michelle Santana: Falando um pouco sobre toda essa questão da sua carreira e de onde você está chegando, queria que você falasse um pouco: nesses quatro anos de carreira, quais foram os maiores desafios que enfrentou como artista independente e o que aprendeu com esses desafios?

Aléxia: Cada fase traz desafios novos, então a gente vai aprendendo com isso. São, acho, 15 anos desde quando comecei de fato a querer ser artista e comecei gravando vídeos para a internet. Estudei canto, mas profissionalmente comecei há pouco tempo, e cada uma dessas fases trouxe dificuldades diferentes.

Comecei com uma banda de covers, cantava vários clássicos por várias cidades. Quando fizemos a transição para Alexia e comecei a lançar música autoral, vieram novas dificuldades. Muitas pessoas que gostavam da banda passaram a não gostar só pelo fato de eu ter adotado meu nome e assumido a carreira solo, colocando minha cara no projeto.

Foram muitas mudanças e foi difícil. A gente foi enfrentando e conquistando novos fãs e novos espaços. Para mim, a parte mais difícil foi essa transição de banda cover para uma carreira autoral.

Hoje consegui fazer shows 100% autorais. Foi uma caminhada bem complicada. Ainda existem alguns lugares que não abrem tanto espaço. Muitos festivais e lugares não querem abrir espaço para artistas novos. Infelizmente, existe isso, mas a gente vai entrando onde aparece um espacinho para poder também representar toda uma cena.

Ver meu nome ao lado de um monte de artistas já consagrados também é uma forma de abrir caminho para quem está na mesma cena que eu e fazendo isso também.

Vitor Duik

Sobre "Cereja"

Michelle Santana: Emendando um pouco nessa questão dos desafios, na música "Cereja", você traz uma mensagem forte de empoderamento feminino, e ainda existe resistência quando uma mulher lidera uma banda e ocupa espaço no rock e no metal. Você já sentiu que isso incomodou em algum momento? Pelo fato de ser mulher, isso trouxe alguma situação em que você se indispôs?

Aléxia: Muitas vezes. Infelizmente, como mulher, a gente já sabe que vai ser sempre um pouco mais difícil. Essa fase de transição que te falei, de banda cover para autoral, com certeza, se fosse um cara fazendo isso, não teria gerado tanto ódio e tantos comentários na época.

Um cara seria visto como um grande líder, um grande rockstar. Como é uma mulher, as pessoas tendem a diminuir. Cada coisa que conquisto é questionada. Sempre tem alguém achando que estou ali porque estou pagando aquele lugar. Nunca é valorizado da forma certa. A gente precisa ficar sempre se provando mais e mais vezes.

Diversos momentos também geraram muito hate por conta da roupa. Está cheio de homem fazendo show completamente sem roupa e está tudo bem. São comentários que infelizmente existem.

A gente vê muitas artistas da cena, bandas incríveis. Um exemplo é a banda Malvada, que são mulheres maravilhosas. Sempre que tem algum post delas em algum canal grande, aparece um monte de cara diminuindo o trabalho delas. Mas elas estão conquistando o espaço porque têm talento e merecem.

Acho que essa é a parte chata: ter que ficar se provando o tempo todo.


Michelle Santana: Com certeza.

Mensagem para as novas artistas

Paula Butter: Aproveitando, o que você falaria para essas mulheres que estão começando, que ainda estão galgando espaço com trabalhos autorais, nas casas de show menores, e que sofrem muito? Eu conheço muitas mulheres e cantoras autorais que acabam sofrendo muito esse preconceito que você acabou de falar. Muitas vezes elas tentam, querem desistir, mas não podem. Que recado você daria para elas? No seu caso, sobre perseverar, que mensagem deixaria para aquelas que estão começando e enfrentando todos esses percalços pelos quais você já passou?

Aléxia: É difícil, mas um dos conselhos é não desistir. Vão aparecer muitas barreiras, muitos empecilhos e muita gente tentando atrapalhar, mas é preciso persistir e seguir.

Uma das coisas importantes é estar perto de pessoas que realmente te querem bem e que vão te ajudar nesse processo. Não adianta querer se encaixar em grupos apenas para estar ali. É importante se apegar a pessoas que contribuem para outras mulheres, porque temos uma união muito incrível na cena feminina.

Apeguem-se a essas mulheres também. Vamos fazer diversos rolês, festivais e eventos juntas. Se não querem deixar a gente subir em determinado palco, vamos tentar criar o nosso e fazer a cena acontecer.

Apeguem-se às coisas boas e às pessoas que querem o seu bem. Não percam muito tempo com quem atrapalha, porque não vai adiantar.

Vitor Duik

Michelle Santana: Exatamente. Você tem alguma personalidade ou artista que atualmente diria: "Essa é a pessoa que eu acho que está representando as mulheres com relação à força, encarando o mundo"? Tem alguma pessoa que você admire?

Aléxia: Atualmente, são muitas mulheres em vertentes diferentes que eu admiro. No cenário nacional, temos a Pitty, que sempre foi uma dessas mulheres que abriu caminhos, mas hoje temos outras artistas e bandas incríveis na cena.

Temos Malvada, Eskröta, MC Taya. São muitas minas incríveis. Se todo mundo pudesse acompanhar o trabalho delas, seria incrível.

No âmbito internacional, também admiro a Hayley Williams. Admiro demais por ela ser essa mulher que abre caminhos, inspira e contribui para a cena.

A Lady Gaga é minha maior ídola também. Ela sempre foi uma figura de muita autenticidade. Temos que admirar essas mulheres e nos inspirar em mulheres como elas.


O momento do rock brasileiro

Michelle Santana: Alexia, falando um pouco sobre o cenário nacional, na sua opinião, o rock brasileiro vive um momento de renovação? O que ainda precisa acontecer para que as bandas autorais tenham mais espaço e consigam alcançar novos públicos?

Aléxia: Com certeza. O rock sempre se renovou e se renova todos os dias. Tem muita banda e muita gente fazendo som de qualidade, mas o que complica às vezes são os próprios roqueiros. Existem roqueiros que não querem ouvir coisa nova de jeito nenhum.

Tem esse preconceito gigante. Quando tem banda autoral no rolê, não querem ouvir, não vão atrás. Infelizmente, não temos o mesmo tamanho de investimento no cenário do rock que outros gêneros têm.

Não conseguimos tocar o tempo todo nas grandes rádios, não conseguimos estar no top 10 das plataformas digitais. Não existe esse tamanho de investimento. O som não chega a todas as pessoas. Quem não quer ouvir e não vai atrás dificilmente vai receber essas bandas novas.

Precisamos que a comunidade toda se una e comece a dar valor para esses artistas que estão fazendo música nova, porque em algum momento as bandas mais antigas vão parar de tocar, vão parar de fazer shows. E quem vai assumir esses lugares nos festivais?

Vitor Duik

Precisamos que o próprio público do rock abrace mais a nova geração.

Michelle Santana: Com certeza. Acho que é uma forma de continuar fortalecendo a cena e não deixar a música morrer. Também encontro essa dificuldade dos roqueiros em abrir espaço para o metal moderno ou para as novas bandas que estão trazendo músicas de tanta qualidade, como é o caso da sua música, Alexia.Espero que as pessoas possam abrir a mente para o novo. Acho que é isso que vai fazer o rock continuar mais vivo do que nunca.

Aléxia: Sim, torço muito para isso.

Vitor Duik

Agradecimentos

Paula Butter: Alexia, muito obrigada pelo teu tempo. Temos infinitas perguntas, mas você sabe como é, temos aquele tempinho definido. Esperamos, em breve, poder conversar novamente. Vamos marcar uma próxima entrevista e, se depender de nós, jornalistas, vamos continuar incentivando essas mulheres, as artistas autorais. No que você puder contar com a Road To Metal, conte com a gente. Estaremos sempre aqui, a favor e lutando por essa cena feminina, por essas mulheres maravilhosas que você é.

Aléxia: Obrigada, obrigada mesmo. Obrigada a vocês pelo espaço, que é extremamente importante. Espero encontrar vocês em algum desses shows que vão acontecer, e aí fazemos uma entrevista pessoalmente. Vai ser legal.


Michelle:  Se aparecer em São Paulo, vou ficar muito feliz em conversar com você pessoalmente.

Aléxia: Vamos, vamos. Vai ter show em São Paulo, então quero ver vocês.


Paula Butter: Com certeza. Obrigada, Alexia.

Aléxia: Obrigada. Obrigada pelo tempo.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Cobertura de Show: Green Day – 12/09/2025 – Ligga Arena/CWB

O show da banda californiana foi inacreditável e ficou para a história da capital paranaense.

Green Day finalmente chega à capital paranaense para o show da Saviors Tour 25, focada em seu novo álbum Saviors, lançado em 2024. Os fãs já estavam ansiosos, visto que a banda estadunidense não pisava em solo curitibano desde 2017, onde se apresentaram na Pedreira Paulo Leminski, com a Revolution Radio Tour. 

O Green Day desembarcou em Curitiba, após passarem alguns dias em São Paulo, eles tocaram no festival The Town, no dia 7 de setembro, então a banda teve um tempinho para esticar as pernas, passear e confraternizar em solo brazuca. Lembrando que foi uma pausa compulsória, já que a apresentação do grupo precisou ser cancelada no Rio de Janeiro, por conflitos de agenda com os jogos futebolísticos que estavam marcados no mesmo local.

Bom, mas chega de falatório, afinal como foi a passagem bombástica do Green Day por aqui? São tantos anos de estrada, desde sua formação em 1987 até hoje. São vários álbuns perfeitos ao longo dos anos, e também controversos, recheados de críticas sociais, que acompanharam todo o cenário mundial, principalmente dos Estados Unidos nestas últimas décadas. A tarefa é árdua, mas prazerosa, vamos lá! 

Primeiramente, faz se necessário mencionar a incrível banda até então pouco conhecida Bad Nerves, como convidados de abertura. Estou até este momento me perguntando como não conhecia esses garotos? 

Bad Nerves merece destaque para o talento, energia e simpatia, sem falar nas músicas bem estilo início dos anos 2000 com uma rebeldia Punk Rock estilo Sex Pistols, mas com uma pegada mais moderna, e é claro, um tanto politizada devido ao cenário global dos últimos anos. Além disso, também conseguem entregar aquele feeling romântico de riffs de guitarra chorosos e letras diretas, que por serem mais novos, conseguem transmitir com mais intensidade suas mensagens ao público. 

O Bad Nerves subiu ao palco na Ligga Arena por volta das 19:30 horas, pontualidade digna de uma banda inglesa. O sangue novo do rock inglês é formado por Bobby Nerves no vocal, Will Phillipson e George Berry nas guitarras, no baixo, Jonathan Poulton e finalmente nas baquetas, Samuel “Sam” Morley Tompson.

Apesar da enorme estrutura montada no Estádio da Arena, a banda conseguiu se posicionar muito bem, e inclusive, soube utilizar o artifício da passarela elevada, que saia do palco, fazendo uma divisão na pista geral. E é claro, quem foi esperto o suficiente, tratou de ficar por ali até o início dos shows.

O início foi enérgico e emotivo, o vocalista Bobby Nerves interagia bastante com o público, e também utilizava muito bem a passarela a seu favor, conversando com os fãs, com um português surpreendente, inclusive, ele disse que sua esposa era brasileira, portanto tudo explicado.

Cabe mencionar também, a interação e os pulos simultâneos dos músicos, que formavam uma coreografia digna de estalar os olhos dos mais desanimados de plantão. Apesar do local estar cheio, com cerca de 33 mil pessoas, segundo a produtora do evento, os telões eram grandes e bem posicionados, não deixando ninguém de fora do espetáculo. Os destaque ficam para as músicas mais conhecidas do grupo, como Plastic Rebel, Radio Punk, Can´t Be Mine, You've Got the Nerve e Dreaming. O espírito rebelde do punk está mais vivo do que nunca!

Green Day promove encontro de gerações em Curitiba

Finalmente, a ansiedade do público indo às alturas, por volta das às 21 horas, Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt, Trè Cool e companhia adentram ao palco. Mas não sem antes cumprirem alguns ritos costumeiros no início de cada apresentação. Inclusive, uma destas introduções, cito como um dos momentos mais emocionantes da noite, todos os presentes cantando Bohemian Rhapsody do Queen em uníssono. Após as lágrimas, veio o famoso coelho dançando Blitzkrieg Bop para quebrar a melancolia e dar início ao show propriamente dito.

O início não poderia ser outro, junto com os primeiros acordes de American Idiot, clássico que dá o nome e faz parte de um dos álbuns mais famosos musicalmente e com as letras mais impactantes do grupo. O chão já começa a tremer, era uma sinergia de pulos e pulsos em riste. Foi o começo de um espetáculo histórico, que, claramente, uniu pelo menos três gerações de público, inclusive, havia famílias inteiras assistindo ao show. Fato este, que só bandas do calibre de Green Day conseguem proporcionar. 

Acorde por acorde, clássicos em sequência, uma emoção diferente emergia a cada momento, a revolta quanto às injustiças sociais, o ato de chorar por um amor perdido, outra para celebrar a união e as loucuras de adolescentes. Além do foco nos álbuns principais, a banda abriu espaço para as ótimas Dilemma, hit instantâneo e a fofa, mas nem tanto, Bobby Sox presentes no álbum Savior. 

Entretanto, nem de rosas vive o mundo, e fez se necessário a execução da nova e crítica One Eyed Bastard, um recado de que o rock está vendo tudo e vai continuar reagindo.  Outro momento com uma pausa séria, o discurso de Billie Joe, que disse tudo e mais um pouco sobre as questões atuais, e também pediu ao público que deixassem os celulares de lado por alguns momentos, para olhar uns aos outros, para sermos mais humanos e menos máquinas, para viver os momentos felizes. E é claro não deixou esquecermos que temos armas de destruição em massa sob nossas cabeças. Recado dado, “toca o barco”, Church on Sunday, a profunda Minority, outro acerto, Brain Stew. Também desfilou pela Arena, a quase balada 21 Guns.

Impossível não apreciar o setlist que o grupo trouxe à Curitiba, foi bem completo, não faltaram as músicas novas e muito menos os clássicos. Em Jesus Of Suburbia muitos já não escondiam os arrepios e ver e ouvir este clássico ao vivo, abraçavam amigos, filhos, esposas, namoradas, isso tudo que o ser humano satisfeito faz. Tiveram Basket Case, She, When I Come Around, St. Jimmy, Holiday e inúmeras mais.

Quando você já viu muitos shows na vida, e acha que é tudo do mesmo jeito, ela ainda dá um jeito de te tirar da sua zona de conforto, ou furar a “bolha” do curitibano (já informo: sou curitibana orgulhosa nascida e criada na terra das Araucárias). E por aí foram, as baladas regadas à lágrimas, uma belíssima Wake Me Up When September Ends em sintonia com o calendário. Mas lindo mesmo, foram os papéis picados jogados aos montes em cima do público, ainda por cima com pequenos desenhos de zumbis e a chamada da turnê. Além, lógico de um balão inflável “Bad Year”, durante a execução da música When I Come Around, imperdível! 

Ressalto também o cuidado e profissionalismo com a pirotecnia utilizada no palco, muito bem controlada, elegante e um espetáculo à parte, adicionado às cores e luzes piscantes, harmonizando com os semblantes dos músicos emocionados escancarados nos telões. E foram canções que deram a trilha sonora da vida, com momentos que passaram diante dos olhos de muitos quarentões, que certamente vislumbraram seus velhos skates com silvertape e pistas improvisadas nas ruas da vizinhança.

Por fim, o famoso “sextoouu” do dia 12 de setembro de 2025, proporcionou novas amizades, histórias infames, pessoas desconhecidas relembrando a vida e tomando novas decisões com relação ao futuro. Também fui presenteada com palavras amigas e sábias em um momento em que precisava. 

Inclusive deixo aqui registrado, meu episódio de lágrimas insistentes escorrendo pelo meu rosto, durante a execução da faixa Good Riddance. Esta música me acompanhou em viagens de aventura, e até hoje aperta meu peito de tempos em tempos. Por outro lado, esta composição encontrou um espaço especial no coração do meu filho mais velho, de nove anos, que elegeu esta canção como “Nossa música de ninar”, pela beleza que acalma e ao mesmo tempo lhe traz “A tal da nostalgia”, em suas jovens palavras.

Importa falar aqui, que durante o show houveram infinitos momentos a serem descritos nesta resenha, como a mulher de laranja que subiu ao palco, Billie Joe enrolado na bandeira do Brasil, e assim por diante. Mas faço das palavras da banda, as minhas, o importante mesmo é conseguir passar aos leitores a sensação de ter estado lá, as mil emoções que somos capazes de sentir quando trata-se do amor à música. Peço desculpas, se me excedi, mas acredito que precisamos de mais palavras com significado, sem fórmulas prontas, facilmente acessíveis por inteligência artificial, precisamos ser mais humanos.

Considerações acerca do evento e organização

A Ligga Arena é um local ótimo para shows, por ter sido reformada, possui muitos banheiros, várias áreas com acessibilidade, saídas de emergência de fácil acesso, equipe treinada em grande número e agilidade, em casos de emergência. Fiação e cabos em locais seguros, pessoas treinadas com todas as informações para sanar dúvidas. 

Local central da cidade de Curitiba, arborizado, com opções externas de comidas simples a lanches gourmet. Ponto negativo para a locomoção de que precisou de Táxi ou Uber, os valores estavam exorbitantes. O transporte público encontrava-se muito cheio, mas nada que um pouco de paciência não resolva.

Em sua estrutura arquitetônica, a Arena do Athlético Paranaense possui um teto com arestas retráteis, que desta vez encontravam-se fechadas. Uma particularidade minha e acredito que de muitas pessoas é a importância de se ter o céu como testemunha, em concertos musicais. Mas devido ao mau tempo, e a quantidade de equipamentos, a ação foi necessária.

Faz-se necessário aqui um adendo para a área da inovação em serviços ao consumidor em eventos musicais. As parcerias entre organizadoras e produtoras começaram a olhar para os nichos e focar no conforto e praticidade daquele determinado público, principalmente os fãs de Rock, sempre rotulados como fáceis de agradar. Finalmente perceberam que os jovens, viraram adultos consumidores. A seguir alguns exemplos, do que falei, presentes na The Savior Tour 25 - Green Day

Primeiramente, com relação ao frio que fazia naquela noite, e convenhamos, a cerveja gelada não era muito convidativa (Agora pasmem, no valor de 22 reais/ 350ml). Mas nem tudo são dissabores, e finalmente haviam opções variadas à famosa cerveja no copo, como por exemplo, incríveis opções de vinhos e espumantes para esquentar o corpo com estilo, além claro de comidinhas muito saborosas em embalagens primorosas, além de um serviço de garçom “leva e traz” para quem estava guardando um lugar mais a frente. 

Atualmente, no ponto em que estão as coisas, (no caso a escassez do poder aquisitivo brasileiro e o novo foco em experiências) não vale mais a pena arcar com os valores supervalorizados que se cobram por cervejas comuns e refrigerantes em shows de grande porte. Além disso, é preferível ter mais opções com valores diferenciados (para quem pode, claro), e para os viciados em shows, um copo de água com gás é mais do que suficiente. E, sim, muitos curitibanos bebem vinho e apreciam uma boa degustação. Espero que a moda pegue! Lembrando claro, da colisão divertida de idades naquela noite, comento isto para justificar o fato da presença do vinho. No último ponto, ressalto que a água estava sendo distribuída gratuitamente e à vontade, na forma de copos plásticos.

Finalmente, fiz uma comparação mental, no caso foi real mesmo, de estar sentada na grade de um show em 1996, passando sede e insolação, sendo ignorada pelos ambulantes, sem dinheiro para um pacote de Doritos. Decorridos alguns anos, agora em 2025, estou sentada na grade também de um show de rock, mas com garçons me atendendo e pessoas limpando o chão. Fiquem com suas conclusões, meus colegas headbangers dos anos 90!

Prometo que não vou comentar as taxas abusivas de conveniência na venda de ingressos. Muito Obrigada por lerem esta resenha até o final! Viva ao Rock N’Roll!



Fotos: Alan Ferreira 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Move Concerts

Press: Midiorama


Green Day – setlist:

American Idiot

Holiday

Know Your Enemy

Boulevard of Broken Dreams

One Eyed Bastard

Revolution Radio

Church on Sunday

Longview

Welcome to Paradise

Hitchin' a Ride

Brain Stew

St. Jimmy

Dilemma

21 Guns

Minority

Basket Case

When I Come Around

Letterbomb

Wake Me Up When September Ends

Jesus of Suburbia

Bobby Sox

Good Riddance (Time of Your Life)