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Por Gabriel Arruda
Savatage, uma das bandas mais icônicas do Heavy Metal mundial, que conquistou seu auge entre os anos 1980 e 1990, anunciou seu retorno às atividades no final do ano passado, após quase uma década de hiato.
O primeiro show dessa aguardada volta acontece neste fim de semana, no festival Monsters of Rock, no sábado (19/04), no Allianz Parque, em São Paulo, seguido por uma apresentação no Espaço Unimed, na segunda-feira (21/04).
Em meio aos ensaios, o guitarrista Chris Caffery atendeu rapidamente o Road to Metal para falar sobre esse momento especial e outros assuntos relacionados à trajetória da banda.
Sei que vocês estão no meio dos ensaios, se preparando para os dois primeiros shows deste retorno, que vão acontecer nessa semana no Monsters of Rock (19/04) e o outro no Espaço Unimed (21/4). Como estão os preparativos finais? Imagino que deve estar sendo divertido revisitar essas músicas depois de tanto tempo.
Chris Caffery: Os ensaios têm sido incríveis. Honestamente, nem parece que se passaram tantos anos desde a última vez em que tocamos essas músicas juntos. É como andar de bicicleta, sabe? A gente nunca esquece.
Essa será a segunda vez que vocês tocam no festival Monsters of Rock. Naquela ocasião, dividiram o palco com bandas como Megadeth, Slayer e Dream Theater. Que lembranças você guarda daquele show e também dos outros dois que fizeram aqui?
Chris Caffery: Todos os shows que fiz no Brasil foram incríveis. O Monsters of Rock foi uma experiência inesquecível. Me lembro das câmeras da MTV me seguindo pelo palco em um momento que eu joguei minha guitarra na direção de uma câmera, quase fui parar na plateia, mas acabei me segurando nela e caí de volta no palco.
Lembro claramente dos caras do Manowar me olhando e dizendo: ‘Isso é metal!’. Os shows principais também foram incríveis. No último que fizemos – o de São Paulo, há alguns anos – foi absolutamente insano. Como eu disse, cada show no Brasil foi uma experiência única. Nunca vou esquecer.
O último show do Savatage foi no Wacken, em 2015. Confesso que fiquei com um pouco de inveja por não ter estado lá para vê-los ao vivo. Mas agora são os fãs de outros países que terão que esperar, já que vocês escolheram o Brasil como ponto de partida para esse retorno. Existe um carinho especial pelo nosso país?
Chris Caffery: Com certeza. O Brasil, junto com a Grécia e a Alemanha, é um dos três países que realmente consideramos como uma segunda casa. Claro, a lista é longa... temos muitos amigos e fãs incríveis na Itália, na Holanda e em tantos outros lugares. Mas esses três, em especial, sempre tiveram shows ao vivo com uma energia única e inesquecível.
O Savatage ficou fora dos holofotes por bastante tempo, mas a música da banda continuou conquistando novas gerações. Imagino que, com o surgimento desses novos fãs, também tenha crescido o desejo de voltar aos palcos, até porque muitos deles nem eram nascidos quando a banda estava ativa. Isso pesou na decisão de voltar?
Chris Caffery: Eu sempre tive a esperança de que voltaríamos a tocar. Parte de mim sabia que isso iria acontecer, mais cedo ou mais tarde. Eu costumava dizer às pessoas que, quando chegasse a hora certa, eu estaria pronto.
E chegou a hora. Desde a última vez que subimos no palco, ganhamos muitos novos fãs, como você disse, muitos nem estavam vivos na época! Estou muito empolgado para rever os rostos familiares, mas também para conhecer os novos fãs dessa legião que nos acompanha.
O período mais marcante do Savatage foi entre os anos 80 e 90. A banda não viveu tanto a era da internet, das redes sociais e dos serviços de streaming. Como você enxerga a cena do Heavy Metal hoje em dia?
Chris Caffery: É engraçado, porque pra quem tem a minha idade, o Heavy Metal continua sendo uma parte essencial da vida. Claro, mudou um pouco entre os mais jovens, hoje existem muito mais opções de entretenimento do que quando eu era criança.
Mas a música ainda é muito especial, ainda ocupa um lugar importante na vida de muita gente. Eu diria que talvez não seja mais um estilo de vida tão dominante quanto era nos anos 80, mas vejo muitos fãs jovens super dedicados, e isso é animador.
Também tem muitas bandas novas excelentes por aí. E os músicos de hoje têm acesso a muitos recursos online, isso ajuda a nova geração a atingir um nível técnico impressionante desde cedo. Quando eu era jovem, se você não tivesse dinheiro para aulas, era praticamente impossível aprender. Hoje você encontra tudo online e de graça.
Na sua opinião, está melhor ou pior do que naquela época? Muitos músicos dizem que os anos 90 foram um período difícil para o gênero, mas foi justamente ali que a banda lançou "Edge of Thorns", talvez a música mais emblemática da carreira do Savatage. Como foi enfrentar a ascensão de outros estilos musicais naquela época?
Chris Caffery: Como eu disse, naquela época a gente precisava se virar para aprender. Ou você pagava por aulas ou passava 20 horas tentando tirar uma música de ouvido. Hoje você abre um vídeo no YouTube e alguém te ensina um solo em cinco minutos.
E sim, os anos 90 foram diferentes. Nos anos 80, o Metal estava em alta, era moda. Já nos 90, vieram as camisas de flanela, nada de maquiagem, nada de spray de cabelo. O Metal saiu dos holofotes e voltou para o underground, de onde veio nos anos 70, com bandas como Black Sabbath e Led Zeppelin.
A diferença é que nos anos 90 surgiram grupos como Metallica, Alice In Chains e Pantera, que tinham uma pegada mais crua, mais de rua, mais próxima das raízes. Foi um contraste forte com o estilo glam que dominava a MTV nos anos 80, como Guns N’ Roses, Whitesnake, Mötley Crüe e Bon Jovi.
Além dos shows de reunião, vocês estão trabalhando em um novo álbum, previsto para ser lançado ainda nesse ano de 2025. O que os fãs podem esperar? Será uma continuação da onde pararam ou pretendem revisitar toda a essência do Savatage?
Chris Caffery: Nosso objetivo é fazer um álbum do Savatage que seja realmente grandioso. Já se passou muito tempo, então queremos garantir que ninguém se decepcione. O Savatage tem uma história musical rica, com composições cheias de narrativa, vocais marcantes, contrapontos e queremos continuar explorando tudo isso.
Vamos honrar o legado do Paul O’Neill e usar todas as influências que ele nos deixou. Claro que sentiremos falta dele como letrista e produtor, mas vamos fazer o possível para canalizar sua energia e entregar o melhor disco que pudermos.
Chris, não quero tomar mais do seu tempo. Sei que você está bastante ocupado. Muito obrigado pela atenção! Você gostaria de deixar uma mensagem para os fãs brasileiros?
Chris Caffery: Quero apenas agradecer por estarem sempre com a gente. Vocês são uma das grandes razões pelas quais estamos voltando. Sentimos a falta de vocês, amamos vocês e mal podemos esperar para vê-los de novo!
The Amity Affliction apresenta show enérgico em única apresentação no Brasil
Australianos trás show recheado de hits e emoção para fãs brasileiros.
A banda australiana The Amity Affliction fez sua segunda, rápida e porém marcante passagem por São Paulo no domingo, 6 de abril de 2025. Com um setlist já conhecido dos fãs brasileiros, o grupo não economizou na entrega e realizou um show memorável no Carioca Club.
Sem banda de abertura, o público se concentrou em peso na casa, aguardando com ansiedade o início da apresentação, que começou pontualmente às 20h, conforme prometido. O local estava lotado, com a grade disputada e uma plateia fervorosa — foi esse o cenário que Joel Birch (vocal), Dan Brown (guitarra), Joe Longobardi (bateria) e Johnathan Reeves (baixo) encontraram ao subir no palco. Logo no início, o vocalista recebeu e posicionou no palco uma bandeira do Brasil com o nome da banda, preparada pelos fãs — um gesto que já demonstrava o carinho mútuo entre artista e plateia.
A abertura ficou por conta de “Pittsburgh” (Let the Ocean Take Me, 2014), o hino mais conhecido da banda, que incendiou a casa e deu o tom da noite. Na sequência, “Drag the Lake” (Misery, 2018) emocionou e fez o público cantar em uníssono. Desde os primeiros acordes, dava pra sentir que aquela noite seria especial.
A conexão entre banda e público foi intensa: cartazes, sorrisos, olhares e gestos de carinho dominaram o ambiente, suavizando a atmosfera pesada das guitarras e dos vocais guturais. Joel, sempre atento, interagia com os fãs o tempo todo e, entre uma música e outra, pedia para abrirem espaço para o mosh, que era atendido de imediato, com a pista se abrindo como um mar em meio ao caos.
Clássicos como “Chasing Ghosts” (Chasing Ghosts, 2012) agitaram ainda mais a plateia, e um dos pontos altos da apresentação foi a execução da nova “All That I Remember”, que mostra que a banda segue firme, evoluindo sem perder a carga emocional característica das suas melodias. “Death’s Hand” (Let the Ocean Take Me, 2014) foi entoada como um verdadeiro hino, com o público — em sua maioria jovem — matando a saudade da banda, que havia se apresentado no Brasil pela primeira vez em 2017.
Já às 21h05, o show se encaminhava para o fim. No encore, a banda voltou ao palco com “Soak Me in Bleach”, encerrando com chave de ouro sua passagem pelo país. Joel agradeceu ao público em português, em mais um momento de afeto genuíno, e deixou claro o quanto a banda valoriza os fãs brasileiros. Ao fim da apresentação, enquanto tocava “Girls Just Want to Have Fun”, de Cyndi Lauper, os integrantes ainda interagiram com o pessoal próximo à grade, dando atenção e sorrisos — o tipo de detalhe que fica na memória de quem esteve lá.
Foi uma noite incrível. Tomara que voltem logo!
Texto & Fotos: Raíssa Campos
Edição/Revisão: Gabriel Arruda
Realização: GIG Music
Press: Tedesco Comunicação & Mídia
The Amity Affliction – setlist:
Pittsburgh
Drag the Lake
The Weigh Down
Like Love
Don't Lean on Me
Open Letter
All My Friends Are Dead
Chasing Ghosts
All That I Remember
Death's Hand
I See Dead People
My Father's Son
It's Hell Down Here
Give It All
Bis
Soak Me in Bleach
Ergam-se os copos! Matanza Ritual Fest fecha março com chave de ouro
O já conhecido festival organizado pela banda transforma a Audio em um verdadeiro caos.
Após ser adiado em dezembro de 2024, o tradicional festival da banda Matanza Ritual finalmente aconteceu na última sexta feira (28 de março) na Audio, zona oeste de São Paulo, com convidados de peso e seguindo a tradição de apresentar ao público novas bandas em ascensão: Allen Key abriu os trabalhos, seguidos por Pavilhão 9, os veteranos do Ratos de Porão e os anfitriões da noite Matanza Ritual, que além de relembrar músicas já conhecidas pelos fãs, apresentou novidades do seu novo álbum, "A Vingança é Meu Motor", disponibilizado nas plataformas digitais a poucos dias atrás.
A animada Allen Key
Com um público ainda tímido, a banda paulistana de Hard Rock Allen Key deu início aos trabalhos da noite pontualmente às 21h35. Animados, já que haviam se apresentado no festival Lollapalooza horas antes, eles estavam prontos para oferecer um show enérgico e especial. Mesmo com a pequena plateia e o tempo limitado, Karina Menasce (vocal), Victor Anselmo (guitarra), Pedro Fornari (guitarra), Mateus Hortêncio (bateria) e Raphael Paiva (baixo) se entregaram completamente ao momento, trazendo versatilidade e atitude. A vocalista irradiava felicidade, sempre agradecendo pela oportunidade de estar ali.
Quem já acompanha o Matanza Fest há algum tempo conhece bem a dinâmica do evento, que costuma incluir bandas em ascensão no lineup, trazendo um frescor ao festival. Com o Allen Key não foi diferente. Apesar de já estarem na cena musical há algum tempo, para muitos presentes era a primeira vez que eles tinham contato com a banda.
A vocalista Karina, muito carismática no palco, interagiu com os outros músicos em vários momentos, demonstrando um ótimo entrosamento e proporcionando um show incrível. A apresentação começou com “Granted”, uma música já conhecida pelos fãs. Em seguida, eles tocaram canções de diferentes álbuns da banda, como “Straw House”, “Death from Above” e o mais recente lançamento, “Easy Prey”. Ainda apresentaram “Get in Line” e finalizaram com “The Last Rhino”.
Pavilhão 9 representando o Rap no Fest.
Uma das apresentações mais aguardadas da noite foi da banda Pavilhão 9, que, desde os anos 90, traz em sua trajetória uma mistura inconfundível de Rap e Rock, com letras de protesto. Ao longo de sua história, a banda acumulou diversas parcerias com grandes nomes de vários gêneros. O público estava animado para ver Rhossi, o vocalista fundador, e sua trupe. Era evidente a expectativa da plateia; todos ali queriam testemunhar o Pavilhão 9 — nome que faz referência a uma torcida organizada do time de futebol Corinthians — e seu Rap com letras afiadas, complementado por solos de guitarra.
Usando uma máscara de ferro, o vocalista deixou claro, logo nas primeiras músicas, que não haveria espaço para conversas paralelas. Com uma mistura de letras politizadas, guitarra, baixo, bateria e um DJ, não demorou para que a galera se animasse e participasse ativamente do momento.
A apresentação foi especial. No palco, além dos músicos Rhossi (vocal), Beto Braz (baixo), Leco Canali (bateria), DJ MF e Doze (vocal), que tem acompanhado as raras apresentações da banda, estavam também dois ex-integrantes: o guitarrista Blindado e o respeitado baterista Fernando Schaefer (ex-Korzus), que trouxeram ainda mais força e um sentimento de nostalgia aos fãs.
O setlist, repleto de sucessos consagrados, incluía músicas como "Grito de Liberdade", "Acredita Não Dúvida" e "Vai Explodir", mostrando por que o Pavilhão 9 é uma referência quando o assunto é colocar o dedo na "ferida".
Ratos de Porão mostrando o porquê é considerado uma das maiores bandas punk/hardcore do Brasil
Ir a um festival que tem Ratos de Porão no line-up é ter a certeza de que teremos ótimos momentos com João Gordo, Jão, Boka e Juninho, com seus pulos incríveis. Cada dia mais ativa, a banda paulistana nunca decepciona, seja pela animação, pelos clássicos do setlist ou pelas letras politizadas entoadas não só pelo vocalista João Gordo, mas também pelos fãs presentes no local. E na sexta-feira não foi diferente: subindo ao palco às 23h55, sem pedir licença, já iniciaram com “Ódio”, seguido de “Anarcofobia” e “Amazônia”. Nunca mais sabíamos o que esperar; foi um show para ninguém botar defeito!
Casa cheia, público pronto para o caos que se transformava em mosh e vozes ecoando por toda a Audio. Não havia ninguém parado ou com sono, apesar do horário. Ao contrário, a cada música a resposta era imediata, confirmando o efeito Ratos de Porão. O setlist, lotado de clássicos como “Sofrer”, “Juventude Perdida”, “Alerta Antifascista”, “Crucificados pelo Sistema”, “Beber até Morrer” e com uma breve introdução de 'Bolsonaro na Cadeia', "Aids, Pop e “Repressão” deixou o clima fervendo para os anfitriões. João Gordo fazia paradas estratégicas para respirar, e quem estava na pista aproveitava para também recuperar o fôlego.
É impressionante o poder e a potência que o Ratos de Porão apresenta em seus shows. Para públicos de diversas faixas etárias, não há quem fique atônito ou quieto diante dos quatro músicos. O show do Ratos terminou às 00h45, e você acha que havia alguém desanimado, fraco ou inconsistente? Não! Estavam todos preparadíssimos para o último show da noite...
E veio aí eles... MATANZA RITUAL!
Nem mesmo o atraso de 25 minutos (com início às 1h25 da manhã) foi capaz de desanimar os fãs da banda, que entoavam com empolgação a icônica frase: "Hey Jimmy...". A ansiedade tomava conta de cada canto do local, assim como o público — o espaço do mosh já estava garantido e a animação, em nível máximo. Tinham os fãs veteranos, os +30, mas também muita gente nova, uma geração estreante no festival, que reacendia a energia dos mais antigos.
Quando as cortinas se abriram, o clima já era de pura expectativa. No palco, Antônio Araújo (guitarra), Amílcar Christófaro (bateria) e Renan Campos (baixo, substituindo Felipe Andreoli, ausente por compromissos com o Angra) já estavam a postos, aguardando o momento de explosão: a entrada de Jimmy London, a voz inconfundível do Matanza Ritual. E foi só ele pisar no palco que o público foi ao delírio. A noite começou com “Paciente Secreto”, do recém-lançado álbum A Vingança É Meu Motor, e mesmo sendo uma faixa nova, a galera já estava cantando junto como se fosse clássico.
Mas claro, o que a maioria esperava eram os hinos. E eles vieram, um atrás do outro: “Meio Psicopata”, “Remédios Demais” e “A Arte do Insulto” ecoavam pelos quatro cantos. Jimmy não parava um segundo sequer — a mesma energia que eu vi há 10 anos em outro Matanza Fest estava ali de novo, intacta. A plateia respondia à altura, em gritos e refrões cantados com a alma. Era impossível ficar parado — uma chuva de clássicos embalava a madrugada de sexta para sábado.
Com um setlist de 30 músicas, o Matanza Ritual entregou uma performance memorável, reunindo os maiores sucessos da banda, brincando com frases emblemáticas e revivendo o espírito dos antigos, insanos e inesquecíveis Matanza Fests. Às 2h da manhã, ninguém queria saber de parar — era caos completo na Áudio, do jeitinho que a gente gosta.
E aí veio “Tempo Ruim”. E como sempre, todos cantando em uníssono. Um dos maiores sucessos da banda, e, segundo Jimmy, sua música preferida — com razão. Logo depois, o caos voltou com força total com “Lei do Esforço Mínimo”, uma das novidades do novo disco. O público aproveitou a sequência seguinte, com “Melhor Sem Você” (rara nos shows), “Mulher Diabo” (que teve um probleminha técnico na guitarra) e “Nascido num Dia de Azar”, pra dar uma respirada e abastecer o copo.
Mas a trégua durou pouco. Quando chegou “Todo Ódio da Vingança de Jack Búffalo Head”, o que já era insano virou um pandemônio — o mosh cresceu, o público enlouqueceu, e a energia parecia infinita. Tinha de tudo no meio da roda: veteranos, novatos, mulheres, homens e até um Goku (!) pulando no meio do caos. Já passava das 3h da manhã e, sinceramente, se deixassem, o show só acabaria lá pelas 5h.
Quem esteve lá viveu um momento único: a prova de que o Matanza Ritual segue forte, com um público fiel, vibrante e apaixonado. O chamado não vem só do bar — vem do palco, da voz de Jimmy London, e ainda faz muito, muito barulho.
Vida longa ao Matanza Ritual.
"Qual agressivo e técnico você quer o seu som?" A resposta é sempre "sim!"
Se você imaginava que o ATHEIST trazia muita brutalidade, então a sua definição deste termo precisa ser atualizada. Tendo passado algo ao redor de 25 minutos após a saída do palco destes, o quarteto canadense do CRYPTOPSY chegou ao palco, e sem rodeios. Com uma mala no chão ao estilo James Bond na parte central ao lado de duas caixas de retorno do som, aliado a um atraso de 13 minutos do horário marcado, precisamente às 21:13, eles deixaram a introdução de SLIT YOUR GUTS fazer o falatório no centro das trevas completas que assaltaram o Fabrique Club.
CARNIFICINA MAGNIFICADA FRANCO-CANADENSE
Colocando o "extremo" no Metal, estes trazem uma outra vertente a um gênero já largamente conhecido pela sua característica experimental, com um pouco menos de malabarismo teórico e sendo guiados pelo desespero e pela violência. Os headliners da Burn Into Pieces Tour são liderados por Flo Mounier (Bateria), acompanhados de Matt McGachy (Vocal), Christian Donaldson (Guitarra) e Remi LeGresley (Baixo).
Uma apresentação dominada pelo álbum que os elevaram ao padrão de referência da brutalidade técnica, None So Vile, já era algo esperado. O que não impediu que LASCIVIOUS UNDIVINE desse as caras, vinda do álbum mais recente, As Gomorrah Burns, do ano retrasado, preenchendo o telão com a gárgula imponente que compõe a capa do mencionado álbum (nota do escritor: álbum este que foi uma verdadeira "volta à forma" dos canadenses).
A aparição da grandiosa GRAVES OF THE FATHERS vem com uma declaração de intenção: não importa o quão intelectualizado seja o indivíduo que goste dela, toda e qualquer capacidade cerebral do próprio se voluntaria a ficar de lado e dar vez aos instintos mais bestiais que o homo sapiens sapiens carrega em seu DNA possuírem o seu corpo. Naturalmente, durante a execução deste autêntico Hino da Agressividade, os moshes foram tomando forma, abrindo mão da timidez da apresentação anterior.
NENHUM TÃO VIL, MAS AINDA ASSIM VIL O SUFICIENTE
Destaque aqui para a capacidade de bangear de McGachy. Se você já viu como funciona um ventilador da Arno na potência máxima, é aqui que você testemunha isso pessoalmente, pois as giradas de cabeça de Matt se transformam nas hélices poderosas do ventilador em questão, podendo fazer com que muitos se perguntem se ele seria um parente de grau distante do famoso Corpsegrinder neste aspecto.
Mesmo sabendo bem o que o seu público curte (os trabalhos do memorável vocalista Lord Worm), isso não os impediram de diversificar um pouco o seu cardápio com o surgimento de SIRE OF SIN, que possui a participação do atual vocalista. Tal surgimento teve uma presença de pouca duração, já que após esta, Matt McGachy revela que o próximo petardo viria quando ele ainda tinha 10 anos de idade.
"Tem alguém aí na platéia old-school o suficiente?"
Como None So Vile já havia dado as caras, o palpite tradicional seria só um: era a vez do clássico Blasphemy Made Flesh tomar conta, através de OPEN FACE SURGERY, transformando a casa de shows numa autêntica vórtice desgovernada de entropia.
SERIAL MESSIAH entrou imediatamente em rápida sucessão, sem querer saber do estoque de energia do público ali presente, dando sequência à chacina sonora deselegante que testava constantemente a capacidade do sentido da audição dos felizardos a estarem em seu alcance: com amor, do Canadá.
“FECHE OS OLHOS. ISSO PODE DOER MUITO”
GODLESS DECEIVER chega a ser a faixa mais interessante para quem é brasileiro, e mostra uma conexão dos canadenses com o nosso público. Entregando um sorrisão entre as músicas (em contraste com a cara de poucos amigos, atributo quase sine qua non para a invocação dos vocais vindos do Abismo), Matt a anuncia dizendo que ela foi escrita baseado em um fato do Brasil: o perigo das fake news em nossa sociedade.
Se trata do mórbido caso de Fabiane Maria de Jesus, que encontrou uma partida prematura após ser brutalizada por moradores do Guarujá, estado de São Paulo.
O motivo do ocorrido foi uma falsa acusação em uma rede social ao associá-la ao sequestro de crianças para o uso em rituais de magia negra - tanto que, na própria letra da música, você encontra o termo "bruxa", em bom Português. Aqui foi um dos pontos mais altos de todo o show, e com razão, pois se trata de um acontecimento que ganhou uma repercussão, que tão "geral", virou internacional, mostrando o lado obscuro que a internet pode causar.
Obviamente, a ausência de None So Vile seria tão rápida quanto a um comercial de televisão que impede o consumo do seu programa favorito, já que BENEDICTINE CONVULSIONS daria o ar da desgraça imediatamente, mantendo a prevalência do material da época de Lord Worm.
Uma tentativa de tentar decifrar o que e proferido pelo vocalista Matt McGachy seria uma tarefa quase hercúlea, já que a não ser que o ouvinte já tenha as letras em mente, o que se ouvia eram gritos necromânticos de uma agonia ambiental vindos de um gêmeo perdido do atual governador de São Paulo (Tarcísio de Freitas). A performance de Flo Mounier pode muito bem ser descrita como uma AK-47 agindo no meio de uma guerra em formato humano, com blast beats que parecem ser mais rápidos do que a infame "arma do Rambo" em ação por segundo.
Não é surpreendente que o mesmo seja considerado um dos melhores do seu ramo, já que apesar de parecer ser uma máquina corporificada, ele entrega aquilo que é escutado no CD ali, na tua frente. Com a agravante de uma tocada tão natural quanto as necessidades do corpo humano. A tonalidade visceral do baixo, casada com a acústica profana e digna de uma vórtice deturpada do Inframundo comandaram as almas de quem ousou pisar no Fabrique Club.
A abertura em playback de PHOBOPHILE anunciava um dos maiores pilares de None So Vile, querida pelos fãs desde que veio ao mundo. Era bem nítido perceber que havia uma míriade de padrões comportamentais distintos: alguns estavam em estado de êxtase generalizada, outros soltando a sua animosidade interna com uma brutalidade auditiva maior do que um corpo é capaz de suportar, alguns com euforia notável, já que a referida faixa é motivo de orgulho para os apreciadores do "Metal da Morte".
VOLUNTARIAMENTE, EU OBSERVO O ABISMO, TORCENDO PARA QUE ELE ME OLHE DE VOLTA
O encerramento dado por outro presente do renomado segundo álbum foi feito por ORGIASTIC DISEMBOWELMENT, sendo aquela a última oportunidade da noite para todo mundo realizar o cárdio do dia sem nenhuma moderação.
Mesmo sendo uma apresentação de duração menor do que a anterior, e de ter sido explicitado por Matt sobre a ausência de um bis, a elevação do famigerado "chifre do Metal" foi praticamente unânime, contando até com a presença de membros do próprio ATHEIST durante a execução do ato final, comemorando junto com a galera, como o próprio Kelly e o baixista Yoav.
Uma Sexta à noite muito digna de ser o rolê do final de semana é a característica-chave desta ótima parceria entre a Chamuco, a Xaninho Discos e a Caveira Velha Produções, que terminou num horário ainda possível para aqueles que dependem do transporte público para locomoção.
É de se louvar a capacidade acústica do Fabrique, que não deixou NADA a desejar mesmo para casas de maior tradição e com capacidade maior, como o Carioca Club.
Deve-se notar que ainda havia espaço disponível para mais pessoas preencherem o local, o que foi algo lamentável: talvez porque muitos ainda estão sentindo os efeitos financeiros do final de ano, ou talvez pela tempestade de opções de entretenimento que viriam nas próximas semanas.
Fato é que tanto o ATHEIST demonstrou com maestria o fato de serem uma referência para não só os seus apreciadores mais lineares, mas aqueles que também estão com uma mentalidade mais "fora da caixa", e o CRYPTOPSY ser um dos nomes mais pronunciados quando estamos falando de música extrema vinda do Canadá, que consegue entregar uma apresentação fidedigna do que ouvimos no CD, não importando que quem a toque seja uma gama de musicistas diferentes.
No final, as memórias são tudo o que restam, e dedos cruzados para que o retorno destes Mestres do Death Metal ocorra num intervalo de tempo menor do que o habitual.
Texto: Bruno França
Edição/Revisão: Caco Garcia
Setlist:
1) Slit Your Guts
2) Lascivious Undivine
3) Graves of The Fathers
4) Sire of Sin
5) Open Face Surgery
6) Serial Messiah
7) Godless Deceiver
8) Benedictine Convulsions
9) Flayed The Swine
10) Phobophile
11) Orgiastic Disembowelment