segunda-feira, 20 de abril de 2026

Cobertura de Show: Nile – 22/03/2026 – Burning House/SP

Escrever sobre o Nile é uma honra e também um desafio, a música deles é tão densa e técnica quanto os hieróglifos egípcios. O show na Burning House rolou no último dia 22 e foi uma verdadeira aula de como o Death Metal técnico deveria ser executado: direto, com precisão cirúrgica e um peso ancestral digno das pirâmides do Egito.

Na noite de domingo, 22 de março, a capital paulista testemunhou uma das apresentações mais viscerais do ano. O Nile, titã do Technical Death Metal, transformou o palco do Burning House em um ritual sonoro, provando que, após décadas de estrada, Karl Sanders e companhia ainda detém a coroa da brutalidade.

A banda abriu o set com a devastadora "Stelae of Vultures", seguida imediatamente por "To Strike With Secret Fang". O som da casa estava afiado — o que é essencial para uma banda onde cada nota de guitarra e cada batida de pedal duplo precisam ser ouvidos com clareza.

A sequência com "Sacrifice Unto Sebek" e "The Black Flame" trouxe aquele clima egípcio sufocante que só eles sabem criar. É impressionante observar a técnica de Sanders e Brian Kingsland; as guitarras parecem são rápidas, cortantes e precisas dando uma sensação de que estamos presenciando em uma batalha ancestral com milhões de anos.

O ponto alto do show veio com a aclamada Kafir!" que foi certamente um dos momentos mais intensos da noite. Em coro o público aclamou "There is no God!" que ecoou pela Burning House com uma fúria impressionante, unindo banda e público em um só transe.

Como Nile não é feito só de velocidade em Sarcophagus" eles desaceleraram o tempo indo para o território do Doom/Death, com um peso quase físico que praticamente arrastou as estruturas. Um turbilhão técnico que deixou a roda de mosh em chamas com a Chapter for Not Being Hung Upside Down on a Stake in the Underworld and Made to Eat Feces by the Four Apes.

O encerramento do set principal foi com "Black Seeds of Vengeance", um clássico do death moderno e esse foi o hino de vingança preparou o terreno para o que viria no bis.

Ao retornarem para o palco, o Nile entregou o que muitos consideram sua obra-prima: "Annihilation of the Wicked". Ver George Kollias manter aquela velocidade constante é hipnotizante. Finalizaram a noite com "Khetti Satha Shemsu", deixando os fãs em estado de êxtase metálico.

Os shows de metal pesado na Burning House em parceria com o Caveira Velha produções e a Vênus Concert vem se tornando uma das melhores referências para shows de metal extremo em São Paulo. Trazer o Nile foi certamente um presente para os fãs de Death Metal, a banda muito admirada por todos que curtem o estilo  é uma experiência sonora vinda diretamente das catacumbas das pirâmides do Egito.

Os shows de metal pesado na Burning House, em parceria com a Caveira Velha Produções e a Vênus Concert, estão se consolidando como uma das principais referências para o metal extremo em São Paulo. A vinda do Nile foi, sem dúvida, um presente para os fãs de Death Metal. Admirada por todos que apreciam o estilo, a banda proporciona uma experiência sonora intensa, transportando o público diretamente para as catacumbas das pirâmides do Egito.

A banda carioca Ereboros iniciou os trabalhos nesta noite memorável, representando o melhor do Blackened Death Metal, o grupo entregou uma performance técnica, veloz e obscura que serviu como o aquecimento ideal para o death metal técnico dos americanos.

O repertório foi focado em temas autorais de atmosfera densa e agressividade rítmica, com destaque para faixas como "Salute to Disorder" e a homônima "Ereboros". A execução impecável de som encorpado,levantou a energia do público paulista, entregando uma das aberturas mais elogiadas da turnê The Underworld Awaits Us All em solo brasileiro.



Fotos: Pri Secco 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 





Nile – setlist:

Stelae of Vultures

To Strike With Secret Fang

Sacrifice Unto Sebek

The Black Flame

Smashing the Antiu

Kafir!

Hittite Dung Incantation

In the Name of Amun

Sarcophagus

Long Shadows of Dread

Chapter for Not Being Hung Upside Down on a Stake in the Underworld and Made to Eat Feces by the Four Apes

Naqada II Enter the Golden Age

Black Seeds of Vengeance

Bis

Annihilation of the Wicked

domingo, 19 de abril de 2026

Visions of Atlantis: “O Brasil nos pede para voltar, e a gente sempre volta”

Divulgação 

Por Paula Butter

"Vocês pediram por anos. Agora a gente está realmente indo." Clémentine Delauney 

"Não é um show passivo. O público está aqui para embarcar numa grande aventura." Michele Guaitoli 

Clémentine Delauney e Michele Guaitoli, vozes do Visions of Atlantis, conversaram com a Road to Metal antes de desembarcarem no Brasil para o Bangers Open Air 2026. E nesta pauta imperdível, estão: o show de abril, a era Pirates, o álbum orquestral e a relação que a banda construiu com o público brasileiro ao longo de três visitas.
 
Há algo de simbólico no fato de o Visions of Atlantis chegar ao Brasil exatamente agora. A banda austríaca de metal sinfônico, que completa 25 anos em 2025, que inclusive vive o melhor ciclo da sua história: uma formação estável há quase uma década, dois álbuns aclamados pela crítica e pelos fãs dentro da era pirata, e números que falam por si. Pirates II - Armada (2024) entrou no top 5 das paradas oficiais da Alemanha e da Áustria, façanha rara para uma banda do gênero. Já em fevereiro de 2026, foi a vez de Armada – An Orchestral Voyage, versão totalmente rearranjada do disco com instrumentos solistas, produzida e mixada pelo próprio Michele Guaitoli.
 
Tudo isso chega ao Brasil num momento igualmente especial: a terceira visita da banda ao país em sete anos, desta vez num dos palcos mais importantes do país. No dia 26 de abril, Clémentine e Michele sobem ao Sunday Stage do Bangers Open Air, no Memorial da América Latina, em São Paulo, ao lado de In Flames, Killswitch Engage, Within Temptation, Angra e dezenas de outros nomes do heavy metal mundial. 

Para a Road to Metal, a dupla abriu o jogo sobre o que esperar do show, contou os bastidores da criação do álbum orquestral e deixou uma mensagem direta para os fãs que ainda estão em dúvida se compram o ingresso.
 
Nossos agradecimentos à Agência Traga e produção do Bangers Open Air no Brasil.
 
Road to Metal (Paula Butter): Vocês já estiveram em São Paulo antes? É a cidade onde acontece o Bangers Open Air este ano.
 
Michele: Sim, acho que já tocamos em São Paulo duas vezes, se não me engano. 

Clémentine: É... a gente nunca teve a sorte de realmente visitar a cidade, porque a agenda sempre é super apertada quando vamos tocar lá. Mas estamos muito animados para nos apresentar no Bangers Open Air pela primeira vez!

 
O BANGERS OPEN AIR E O PÚBLICO BRASILEIRO 

RM: Já que é a primeira vez de vocês no Bangers Open Air, o que vocês sabem ou imaginam sobre o público de metal brasileiro?
 
Clémentine: É a primeira vez que tocamos em um festival na América do Sul — não só a primeira vez no Bangers Open Air, mas em festival por lá de modo geral. E acho que, pelo menos aqui na Europa, festival é a melhor forma de divulgar a banda, porque é um público enorme. A gente só sonhava, sabe, olhando para o Rock in Rio e para os grandes festivais, vendo as fotos das 
edições anteriores do Bangers Open Air. Então as expectativas estão bem altas.

Michele: Pela experiência que já tivemos no Brasil e na América Latina, a gente sente que há uma paixão enorme pela nossa música, e por bandas que raramente têm a chance de tocar por lá. A gente tem memórias de públicos absolutamente incríveis, cantando tudo, vibrando, sendo muito expressivos na forma de apreciar a música. Estou muito ansioso para shows com uma energia altíssima.
 
"O público brasileiro é realmente algo especial. Poder tocar num show ao ar livre como o Bangers vai ser um momento super divertido para todo mundo, inclusive para mim." 

O SETLIST E A EXPERIÊNCIA AO VIVO 

RM: Como vocês montam um setlist para um festival grande como esse, onde muita gente talvez esteja vendo vocês pela primeira vez?
 
Michele: No fim das contas, a gente ainda precisa mostrar quem somos agora, e estamos no ciclo do Armada. É a primeira vez que trazemos esse disco para o Brasil. É importante que todo público receba o show mais atual e mais completo que a banda pode oferecer. Não faria sentido mudar o setlist para cada país. O foco vai ser principalmente o Armada e, claro, os grandes clássicos da banda, tudo dentro do tempo que nos derem.
 
RM: Tem algum momento no setlist atual que, com certeza, vai inflamar o público independente do país?
 
Clémentine: Temos muitas músicas que unem as pessoas. Para quem acompanha a banda, temos “Clocks”, que sempre é muito bem recebida. Temos “Melancholy Angel", temos “Armada”. E a gente também gosta de montar o show de forma bem interativa, mesmo para quem não nos conhece, é fácil entrar e se envolver. O Michele é quem realmente mexe com o público e faz com que eles se tornem piratas de verdade junto com a gente. Quando você assiste a um 
show do Visions of Atlantis, não é um show passivo. (Animado)
 
RM: Qual música você considera essencial para quem vai ver o Visions of Atlantis pela primeira vez num grande festival?
 
Michele: Ainda é “Melancholy Angel”, sabe. É a música que mais fica na memória do público e uma das mais ativas, porque pedimos para as pessoas pularem toda vez, e você quase se sente culpado se não pular. Toda vez eu sinto que esse é o momento em que o público esquece onde está, o que está fazendo, e a gente realmente vira um só. É uma força interior linda dessa música. E o “Armada” também tem algo especial, porque une todas as pessoas para cantar juntas. Mas, se eu tiver que escolher uma, é “Melancholy Angel". Se tiver que escolher duas, são “Melancholy Angel” e “Armada”. "Quando você assiste a um show do Visions of Atlantis, não é um show passivo. O público está aqui para embarcar e viver uma grande aventura — e a gente garante que isso aconteça."

 
PIRATES II – ARMADA E O ÁLBUM ORQUESTRAL 

RM: Pirates II entrou no top 5 na Alemanha e na Áustria. O que isso significa para a banda?
 
Clémentine: É a sensação de que finalmente somos vistos pelo público desses países. São números que falam por si mesmos, e você nunca sabe com antecedência quanto as pessoas vão comprar discos, porque isso acontece cada vez menos. Então quando ainda temos esses números e essas provas de reconhecimento, isso nos fortalece muito e reforça nossa crença de que estamos fazendo algo grandioso. É a melhor motivação, pelo menos para mim. 

RM: Como surgiu a ideia do álbum totalmente orquestral? 

Michele: Isso veio verdadeiramente dos fãs, honestamente. Quando lançamos o Pirates, depois dos primeiros meses, as pessoas estavam com uma sede enorme de uma versão orquestral. No metal sinfônico isso realmente toca os fãs, porque eles querem ouvir as orquestras em versão pura. Fizemos duas vezes e investimos muito nisso, tem uma capa completamente nova, um arranjo completamente novo. Para o Pirates II, até contratamos músicos para tocar os instrumentos solistas, o que não aconteceu no primeiro. Não é simplesmente 'vamos pegar a orquestra do disco e lançar'. E devo dizer que, quando fizemos para o Pirates sem as flautas, as pessoas nos disseram que era uma pena não ter instrumentos solistas. Então a gente ouviu, e fez isso no Pirates II. A gente escuta os fãs, e isso é importante para nós! 

UMA BANDA MULTINACIONAL 

RM: Michele, você é da Itália, Clémentine é da França, e a banda é austríaca. Essa mistura internacional aparece no palco de alguma forma?
 
Clémentine: No palco, temos personalidades muito variadas entre os cinco. O sangue latino, Michele e eu, somos os mais extrovertidos, estamos por todo o palco. E os austríacos ficam mais no lado tranquilo, tomando menos espaço. Eles deixam a gente conduzir o show. É mais nos bastidores que acontecem os choques culturais. O Michele e eu adoramos fazer jantares com todo mundo, apreciar a comida e compartilhar esse momento. Isso nem sempre é algo que os membros austríacos compartilham. E também não temos o mesmo senso de humor. Então às vezes é um pouco engraçado, digamos assim. Mas acho que isso torna nossa banda e nossa música mais ricas, porque a gente se confronta, se ajusta. É muito mais rico do que estar rodeado de pessoas muito parecidas com você o tempo todo.
 
Michele: O que mais importa é que encontramos um equilíbrio. O Visions of Atlantis é uma banda internacional agora, e não pode mais ser considerada uma banda austríaca, apesar de ter base na Áustria. Há equilíbrio, e isso é fantástico. "Lutamos muito para voltar ao Brasil. Nunca é economicamente favorável para nós, é sempre um investimento. Mas não nos importamos, porque o que importa é levar nossa música até lá."
 
O BRASIL E A MENSAGEM AOS FÃS

RM: Tem alguma coisa que vocês querem ver ou fazer em São Paulo além do palco?

Clémentine: Adoraria comer uma boa comida!

Michele: Sinceramente, visitar o Brasil seria um sonho. Quando você está em turnê, as pessoas pensam que você vê o mundo, mas você vê casas de shows, aeroportos e aviões. Seria fantástico ter tempo de verdade para mergulhar na cultura, na história. A Floresta Amazônica, eu adoraria ver. E claro, encontrar alguns animais malucos (risos). 

RM: O que vocês querem dizer diretamente aos fãs brasileiros que vão ao Bangers Open Air, ou que ainda estão decidindo se vão?
 
Clémentine: Primeiro de tudo: vocês ficaram pedindo “venham pro Brasil” por anos, e agora a gente está realmente indo. Estamos muito felizes em compartilhar quem somos e a nossa música com vocês novamente. Desta vez num festival, não num show solo. Mas é uma boa forma de construir algo por lá e talvez ter a chance de voltar mais vezes. Venham curtir um grande show de metal sinfônico pirata, que é muito único do jeito que a gente faz.
 
Michele: O que eu quero dizer (e quero dizer em voz alta) é que lutamos muito para voltar constantemente ao Brasil. Nunca é economicamente favorável para nós, é sempre um investimento. Mas não nos importamos, porque o que importa é levar nossa música até lá. A gente lê as redes sociais, lemos os comentários, vemos o quanto de amor vem de lá. Nos últimos anos, sempre voltamos: fizemos para o The Deep & The Dark, para o Pirates, e agora estamos fazendo para o Armada. Se você tem alguma dúvida, ouça isso e faça a sua parte também, porque a gente precisa de vocês! Finalmente, o recado está dado, por esses dois músicos simpaticíssimos e com um extraordinário talento! Nos vemos no dia 25 Abril no Memorial da América Latina! 

SERVIÇO 

Bangers Open Air 2026 
Local: Memorial da América Latina — São Paulo 
Datas: 25 e 26 de Abril de 2026




Tesla: Uma Viagem Pelas Suas Origens (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Com mais de quatro décadas de estrada, o Tesla reafirma sua conexão com as raízes do rock em Homage, álbum previsto para 17 de julho de 2026 pela Frontiers Music Srl. Apostando em uma proposta assumidamente nostálgica, o grupo norte-americano apresenta uma coleção de covers que vai além do simples tributo, funcionando como uma declaração de influências e uma síntese da identidade musical construída ao longo de sua carreira. Ao revisitar nomes fundamentais como Elvis Presley e Freddie Mercury, a banda não apenas presta homenagem, mas também reposiciona essas referências dentro de sua própria linguagem sonora.

A única composição inédita do disco, “Never Alone”, cumpre o papel de reafirmar a essência do Tesla. Combinando violões, guitarras elétricas e o característico timbre rouco de Jeff Keith, a faixa não propõe rupturas, mas entrega exatamente o que se espera da banda — um hard rock sólido, direto e eficiente.

A abertura com “Bring It On Home”, clássico de Sam Cooke, estabelece o tom do álbum: arranjos respeitosos, com intervenções pontuais que aproximam as músicas do universo sonoro do Tesla. Essa abordagem se repete ao longo do trabalho, como em “Spread Your Wings”, do Queen, onde a banda equilibra fidelidade e releitura com inteligência, incorporando nuances próprias sem descaracterizar a composição original.

O trânsito entre gêneros é um dos aspectos mais interessantes de Homage. Em “I Wish It Would Rain”, do The Temptations, o grupo mergulha em suas influências soul, enquanto “Night Moves”, de Bob Seger, evidencia a faceta mais introspectiva e acústica da banda, com destaque para o uso de piano e arranjos mais contidos. Já “If I Can Dream” revela uma interpretação vocal mais expansiva de Jeff Keith, explorando dinâmicas que dialogam diretamente com o legado de Elvis Presley.

A incursão pelo pop britânico surge em “Come And Get It”, do Badfinger, que mantém o espírito leve e melódico da original, ainda que filtrado pela estética do hard rock. Em contrapartida, “I Got You”, de James Brown, traz uma abordagem mais energética, substituindo os metais por guitarras e teclados, sem perder o caráter reconhecível da composição.

Um dos momentos mais acessíveis do álbum aparece em “Give A Little Bit”, do Supertramp, onde os arranjos com violões de 12 cordas e a interpretação mais limpa de Keith evidenciam a versatilidade da banda. Na sequência, “I Love You”, da Climax Blues Band, aposta em uma atmosfera mais cadenciada, com harmonias vocais que remetem ao rock progressivo e ao pop britânico dos anos 1970.

O vínculo com o rock sulista e o folk norte-americano se torna evidente em “Have You Ever Seen the Rain”, do Creedence Clearwater Revival, e “The Ballad of Curtis Loew”, do Lynyrd Skynyrd — duas faixas que dialogam diretamente com a formação estética do Tesla. Em ambas, a banda opta por versões fiéis em espírito, mas com identidade própria bem definida.

Nos momentos finais, Homage amplia ainda mais seu alcance estilístico. “I’d Rather Go Blind”, eternizada por Etta James, destaca-se como um exercício de interpretação vocal, permitindo que Jeff Keith explore nuances pouco recorrentes em sua discografia. Já “Mind Your Own Business”, de Hank Williams Sr., encerra o álbum em clima descontraído, reforçando a influência do country na formação musical do grupo.

Mais do que uma coletânea de releituras, Homage funciona como um mapa das influências que moldaram o Tesla. Ao transitar com naturalidade entre soul, blues, country, pop e diferentes vertentes do rock, a banda constrói um tributo coeso, que evidencia não apenas respeito às originais, mas também uma forte identidade artística. Mesmo com apenas uma faixa inédita, o álbum se sustenta como uma obra representativa — e, acima de tudo, genuinamente alinhada à essência do Tesla.

***ENGLISH VERSION***

With over four decades behind them, Tesla reaffirm their deep-rooted connection to rock’s foundations on Homage, set for release on July 17, 2026, via Frontiers Music Srl. Embracing a deliberately nostalgic concept, the American outfit delivers a covers album that goes beyond mere tribute, functioning instead as both a statement of influence and a distillation of the band’s musical identity. By revisiting seminal artists such as Elvis Presley and Freddie Mercury, Tesla not only pay homage but reframe these inspirations through their own unmistakable sonic lens.

The album’s sole original composition, “Never Alone,” serves as a reminder of the band’s core strengths. Built on a blend of acoustic textures, electric guitar drive, and Jeff Keith’s signature raspy delivery, the track doesn’t aim to reinvent the wheel — it simply delivers what Tesla have always done best: straightforward, no-frills hard rock with conviction.

Opening with Sam Cooke’s “Bring It On Home,” Tesla set the tone early with a respectful yet subtly reworked approach. The arrangements remain largely faithful, with just enough adaptation to align the material with the band’s gritty aesthetic. This balance between reverence and reinterpretation carries through the record, notably on Queen’s “Spread Your Wings,” where Tesla inject their own character without compromising the spirit of the original.

One of Homage’s most compelling aspects is its stylistic breadth. “I Wish It Would Rain” sees the band tapping into their latent soul influences, while Bob Seger’s “Night Moves” highlights a more introspective, semi-acoustic side, enriched by piano and restrained instrumentation. On “If I Can Dream,” Jeff Keith delivers one of his most dynamic performances, navigating a broader vocal range that echoes the emotional weight of Elvis Presley’s legacy.

The album’s excursion into British pop comes via Badfinger’s “Come And Get It,” which retains its melodic lightness while being filtered through Tesla’s rock sensibility. In contrast, James Brown’s “I Got You” injects a burst of energy, replacing brass sections with guitars and keyboards without sacrificing the track’s instantly recognisable groove.

A particularly accessible moment arrives with Supertramp’s “Give A Little Bit,” where 12-string acoustic arrangements and a notably cleaner vocal approach from Keith underline the band’s versatility. Meanwhile, “I Love You” by Climax Blues Band leans into a more laid-back, groove-driven atmosphere, complete with layered backing vocals that nod toward the sophistication of ’70s British pop and progressive rock.

Tesla’s affinity for American roots music is especially evident in “Have You Ever Seen the Rain” (Creedence Clearwater Revival) and “The Ballad of Curtis Loew” (Lynyrd Skynyrd). Both tracks feel organically aligned with the band’s DNA, maintaining the essence of the originals while reinforcing Tesla’s own identity. The latter, in particular, underscores their blues foundations, even as Jeff Keith’s vocal phrasing contrasts with Ronnie Van Zant’s distinctive delivery.

In its closing stretch, Homage broadens its emotional and stylistic reach. “I’d Rather Go Blind,” immortalised by Etta James, stands out as a vocal showcase, allowing Keith to explore nuances rarely heard in Tesla’s catalogue. The album concludes on a lighter note with “Mind Your Own Business” by Hank Williams Sr., a spirited, country-infused rendition that captures a sense of looseness and celebration.

More than just a collection of covers, Homage operates as a roadmap of the influences that shaped Tesla. Seamlessly moving between soul, blues, country, pop, and multiple shades of rock, the band crafts a cohesive tribute that reflects both deep respect for the originals and a firmly established artistic identity. Even with only one new track, the album stands as a genuine and fitting representation of Tesla’s enduring essence.

Brandon Gullion

sábado, 18 de abril de 2026

Creye: Um Novo Fôlego Melódico (Also In English)

Frontiers Records (Imp.) 

Por Flavio Borges 

O Creye inaugura um novo capítulo em sua trajetória com IV Aftermath, álbum que evidencia não apenas uma renovação de fôlego, mas também um refinamento estético significativo. Impulsionada pela entrada do vocalista Simon Böös e por ajustes pontuais na formação, a banda sueca reafirma sua identidade ao equilibrar com precisão o hard rock melódico clássico com uma abordagem contemporânea. Sob a batuta criativa do guitarrista Andreas Gullstrand, o disco se destaca pela sofisticação das composições, pela produção polida e por uma execução que evidencia maturidade artística.

A abertura com “Something Missing” estabelece imediatamente o tom do trabalho: grandiosa, densa em camadas e com forte presença de teclados, a faixa funciona como um cartão de visitas para a nova fase. Böös impressiona desde os primeiros versos, enquanto a instrumentação alterna entre peso e dinâmica com naturalidade, culminando em um refrão marcante.

Na sequência, “Bad Romance” reforça o compromisso com a tradição do gênero, mas sem abrir mão de elementos modernos. A incorporação de texturas eletrônicas é feita com bom gosto, sem comprometer a essência do hard rock — sustentada por riffs sólidos, melodias cativantes e um solo de guitarra preciso.

“Rust” apresenta uma construção mais gradual, iniciando de forma intimista e evoluindo para uma estrutura que transita entre power ballad e hard rock tradicional. A condução rítmica é eficiente, com baixo e bateria sustentando os versos até a explosão melódica do refrão.

Com “Left in Silence”, o Creye se aproxima do AOR, explorando nuances progressivas nos versos antes de desembocar em um refrão amplo e altamente melódico. Já “Don’t Talk About It” representa o momento mais ousado do álbum, incorporando uma estética próxima ao pop rock eletrônico contemporâneo. Mesmo com forte uso de efeitos e sintetizações, a faixa mantém um elo com o peso característico do gênero.

“Through the Window” recoloca o disco em terreno mais familiar, resgatando o hard rock tradicional com eficiência. A coesão do álbum se fortalece aqui, especialmente pela estrutura clássica e pela ponte que conduz a um solo bem construído.

“Only You” subverte expectativas ao rejeitar o formato de balada sugerido pelo título. Trata-se de uma faixa dinâmica, com base instrumental elaborada e forte carga interpretativa nos vocais. Elementos progressivos reaparecem, enriquecendo a composição sem comprometer sua acessibilidade.

Em “Glow”, o grupo aposta novamente em uma abordagem épica, com variações rítmicas que mantêm o interesse ao longo da execução. O refrão direto e eficiente reforça o apelo melódico do disco. “Aligned”, por sua vez, sintetiza bem a proposta do álbum ao combinar levadas modernas com um refrão tradicional, destacando também os arranjos vocais.

“The Last Night On Earth” mergulha de vez no AOR, privilegiando timbres mais limpos e atmosferas mais suaves, enquanto os vocais flertam com uma estética pop contemporânea. A diversidade sonora do álbum se evidencia sem comprometer sua unidade.

O encerramento com “Clay” segue a cartilha do hard rock clássico, com introdução marcante e desenvolvimento consistente. O contraste entre a base tradicional e nuances modernas na bateria confere à faixa um caráter atual, encerrando o álbum de forma eficaz.

IV Aftermath é, em essência, um trabalho que equilibra complexidade e acessibilidade. O Creye demonstra domínio ao integrar elementos modernos ao seu DNA sonoro sem descaracterizá-lo. A performance de Simon Böös se revela um acerto decisivo, contribuindo para um álbum coeso, elegante e plenamente alinhado às exigências do hard rock melódico contemporâneo.

***ENGLISH VERSION***

Creye usher in a new chapter in their career with IV Aftermath, an album that reflects not only a renewed sense of energy but also a notable refinement in their sound. Driven by the arrival of vocalist Simon Böös and subtle lineup adjustments, the Swedish outfit reaffirms its identity by striking a careful balance between classic melodic hard rock and a contemporary approach. Under the creative direction of guitarist Andreas Gullstrand, the record stands out for its sophisticated songwriting, polished production, and a performance that highlights the band’s artistic maturity.

Opening track “Something Missing” immediately sets the tone: grand, layered, and driven by prominent keyboards, it works as a compelling introduction to this new phase. Böös makes an instant impression, while the instrumentation shifts naturally between weight and dynamics, culminating in a memorable chorus.

“Bad Romance” follows by reinforcing the band’s commitment to the genre’s traditions without abandoning modern elements. The integration of electronic textures is handled with restraint, preserving the essence of hard rock through solid riffs, strong melodies, and a well-crafted guitar solo.

“Rust” adopts a more gradual build, beginning with a stripped-down approach before evolving into a structure that moves between power ballad sensibilities and traditional hard rock. The rhythm section plays a key role here, anchoring the verses before the song opens up into a melodic chorus.

With “Left in Silence”, Creye lean toward AOR territory, incorporating progressive nuances in the verses before unfolding into a broad, melodic refrain. In contrast, “Don’t Talk About It” marks the album’s most adventurous moment, embracing a contemporary pop rock aesthetic with prominent electronic elements. Even so, the track maintains a connection to the band’s heavier roots.

“Through the Window” brings the album back to more familiar ground, revisiting classic hard rock with confidence. Its traditional structure strengthens the record’s overall cohesion, particularly through a well-executed bridge leading into a strong guitar solo.

“Only You” defies expectations suggested by its title. Rather than a ballad, it delivers a dynamic arrangement built around intricate guitar work and an expressive vocal performance. Progressive influences resurface, adding depth without compromising accessibility.

“Glow” returns to a more epic approach, with shifting tempos that sustain interest throughout. Its direct and effective chorus reinforces the album’s melodic appeal. “Aligned”, in turn, encapsulates the record’s core idea by blending modern rhythmic elements with a distinctly traditional chorus, while also showcasing layered vocal arrangements.

“The Last Night On Earth” dives deeper into AOR, favouring cleaner tones and smoother textures, while the vocal arrangements flirt with a contemporary pop sensibility. The album’s stylistic range is evident here, yet never at the expense of its unity.

Closing track “Clay” follows a classic hard rock blueprint, with a strong opening and consistent development. The contrast between its traditional foundation and subtle modern touches in the drumming gives the song a current edge, providing an effective conclusion to the album.

IV Aftermath ultimately succeeds in balancing complexity and accessibility. Creye demonstrate a clear command of their craft, integrating modern elements into their sonic identity without diluting it. Simon Böös’ performance proves to be a decisive addition, helping shape a cohesive, refined record that sits comfortably within the landscape of contemporary melodic hard rock.

Andreas Ungré



Matéria Especial - Orquídea Negra: 40 Anos de Resistência

 

Alguns anos atrás, em uma entrevista com Robson Anadom do Orquídea Negra, destaquei como título a frase: "Somos frutos de muita teimosia, de muitos sonhos", e ela segue resumindo muito bem a história e batalhas do Orquídea, que além de ser uma das bandas pioneiras do Metal Brasileiro, possui também o marco histórico de ser a primeira banda de Heavy Metal do estado de SC.

Formada em Lages (SC) em 1986, o Orquídea Negra completa 40 anos de existência e resistência neste 2026, então vamos lembrar aqui alguns capítulos marcantes dessa história, segue o fio!

O debut “Who’s Dead” foi lançado em LP originalmente em 1992, pelo selo Acit, e na época vendeu cerca de 5 mil cópias. A banda ensaiou exaustivamente todas as noites na casa do vocalista Boca, para se preparar para a gravação, que aconteceu em São Paulo e teve a produção dos irmãos Mário e Wally Garcia, da banda Garcia & Garcia.

A formação que gravou o álbum foi: André "Boca" Graebin (vocais), Fernando Tavares (baixo), Vinícius Porto (guitarras), Robson Anadom (guitarras) e Marcelo Menegotto (bateria).


O baixista Robson conta que a banda ficou hospedada em um quarto, com duas camas somente, as refeições muitas vezes eram feitas no estúdio mesmo, alguns sanduíches e pronto. 

As guitarras não foram gravadas com amplificadores, e sim com um pedal de efeitos Zoom do guitarrista Vinícius Porto, que era acionado por um controlador grudado ao corpo da guitarra, e serviu como um pré-amp.


 "Miss You", "Surrender" e "It´s Easy to Remember" foram alguns dos destaques do debut, inclusive tocando bastante nas rádios rock.

O Orquídea provavelmente foi uma das primeiras bandas de Metal a ter seu próprio ônibus, batizado carinhosamente de “Orquidão”.

O segundo trabalho, auto intitulado, foi gravado em 94, em uma época complicada para o Heavy Metal no mercado musical, não teve apoio de um selo, e demorou dois anos para ser lançado de forma independente. 


Esse período marcou também a saída do vocalista André “Boca”, e a banda no geral desanimou perante as dificuldades.  

Robson também recorda detalhes desse segundo trabalho, quando a banda já trazia uma nova formação, pois o baixista Fernando Tavares havia saído: “Deixei a guitarra e assumi o posto de baixista. Nas gravações ainda fiz algumas partes de guitarra e violão. Nosso som estava um pouco mais trabalhado e pesado que no primeiro disco, a banda evoluiu bastante musicalmente.”


Robson lembra que foram com o ônibus da banda para Porto Alegre, e estacionaram ao lado do estúdio Eger, com o “Orquidão” servindo de hotel. 

A formação que gravou o segundo álbum foi: André "Boca" Graebin (vocais), Vinícius Porto (guitarras, guitarra solo), Robson Anadom (baixo e guitarras) e Marcelo Menegotto (bateria).

Entre idas e vindas e alterações na formação, em 2003, com Jean (vocais) e Menegotto (bateria) o Orquídea fez o show “More Live Than Never”, marcando 19 anos da banda, a fim de mostrar que o Orquídea seguia firme e resiliente. Após muitos pedidos de fãs, foi lançado em 2005, na primeira edição do Orquídea Rock Festival, o CD com a gravação daquele show.

A formação nesse álbum foi: Jean Varella (vocais), Vinícius Porto (guitarras), Robson Anadom (baixo) e Marcelo Menegotto (bateria).


Em 2012, já com André “Boca” de volta à banda, o Orquídea iniciou as gravações de “Blood of the Gods”. Sobre o retorno do vocalista original Robson é enfático: “A volta dele nos deu um grande ânimo, pois é um grande compositor. Ele não pode nos ouvir fazendo algum riff que já vem com uma letra e já começamos a compor algo novo, o que é algo natural para nós. O que acontece praticamente em todos os ensaios.”

“Blood of the Gods” foi lançado em 2014 no Brasil pela Dies Irae, e Europa através dos selos Secret Service e Metal Soldiers, o que inclusive também viabilizou o relançamento dos primeiros álbuns em CD com edições especiais, incluindo faixas bônus, slipcase e poster.


Sobre as gravações de “Blood of the Gods” Robson relembra algumas peculiaridades: “Foi curioso, pois o estúdio em que gravamos, ‘Olho da Lua’, mudou três vezes de lugar, por isso que demorou um pouco mais para terminarmos tudo. Sem falar que ele foi mixado e remixado umas 3 ou 4 vezes, até que o produtor, também tecladista, Daniel Dante Finardi e nós estivéssemos totalmente satisfeitos com o resultado final.”

A formação em "Blood of the Gods" foi: André "Boca" (vocais), Vinícius Porto (guitarras), Robson Anadom (baixo) e Raphael Marini (bateria)

Durante o período da pandemia, sem poder fazer shows, Robson compôs e gravou seu álbum solo “...and a New Story Begins”(2021). Em entrevista para o Road to Metal na época, Robson falou o seguinte sobre o trabalho: “O título já diz tudo, o início de uma nova história que estou escrevendo com este lançamento, pois certamente, será o primeiro de muitos. 

Não podemos ficar estagnados, temos que fazer algo a mais, mostrar que o mundo precisa de música.”


O Orquídea seguiu compondo e retomando a estrada logo que foi possível, com shows solo e em festivais, como mais uma apresentação marcante no tradicional Otacílio Rock Fest, em 2023, com Boca nos vocais, Robson no baixo, Vinícius na guitarra e Marco Antônio na bateria.
 
Em fevereiro de 2025 lançaram o vídeo para a inédita “Sacrifice”.  


A banda fala sobre a faixa: “Essa música foi gravada provavelmente em 2017, e estava guardada até agora. Felipe Holmack fez alguns shows com a banda em momentos em que o vocalista André Graebin não pôde se apresentar. Achamos que seria muito interessante, e como forma de eterna gratidão, ter o Felipe cantando em uma de nossas músicas.

Quando "Sacrifice" foi gravado, a banda também contava com o baterista Raphael Marini.

As Imagens do vídeo foram retiradas de arquivos pessoais de amigos, da própria banda, da internet, incluindo trabalhos realizados pelo amigo Maurício Garcia da Infinity Produtora.”

Em agosto de 2025 o Orquídea teve uma participação marcante na 12° Orquestra de Baterias de Florianópolis, e o vídeo emocionante com “Surrender” sendo tocada junto com a orquestra pode ser visto no YouTube ou no Instagram da banda, e contou com Gabriel Giotti nos vocais, já que André "Boca" afastou-se das atividades.


Em 2026, a banda vem fazendo shows comemorativos aos seus 40 anos, destacando as apresentações no Pauleira Rock Fest III e recentemente, dia 11/04/2026, no II Brothers of Rock, em Luzerna (SC), onde se apresentaram como um trio, com Robson assumindo os vocais, após a saída de Gabriel Giotti - que estava com a banda desde o final de 2024 - e esse formato trio permanecerá por enquanto.


A banda também disponibilizou merchandising alusivo aos 40 anos, o qual pode ser adquirido no link na bio do perfil do Orquídea no Instagram.

Muitas novidades ainda estão sendo trabalhadas para marcar esses 40 anos de resistência e amor ao Metal, como uma nova edição do Orquídea Rock Fest e a conclusão e lançamento do documentário com a história da banda.

A história do Orquídea Negra é de perseverança, sobrevivência e não desistir apesar das dificuldades, e eles seguem escrevendo páginas vencedoras, e muito reconhecimento ainda é merecido, e ele virá.

Como diz a música “Surrender”: 

“ I know what I have to do
I never surrender
I've made my own story
I never give up
So I never give up
So I never surrender”


Texto e Edição: Carlos Garcia 
Fotos: Arquivos da banda


O Orquídea Negra é:
Robson Anadom: baixo e vocais 
Vinícius Porto: guitarra e voz
Marco Antônio Alves Filho: bateria

Redes Sociais:










sexta-feira, 17 de abril de 2026

Entrevista - Homeless: Ex- Ratos de Porão Desafia o Mercado Fonográfico com Novo Projeto

 


A banda Homeless foi formada no Brasil por Spaghetti, conhecido por sua passagem como baixista do Ratos de Porão nos anos 1980, período importante para a consolidação do punk/hardcore nacional.

Após sair do Ratos, Spaghetti buscou explorar sonoridades mais extremas e pesadas, o que levou à criação da Homeless em 2010, já com uma proposta voltada ao crossover, e evoluindo para um direcionamento mais Death Metal.

O grupo está em plena divulgação do seu mais recente trabalho, "Obscuro Lado da Alma", e conversou conosco sobre esse álbum e muito mais. 


- Olá Spaghetti. Obrigado pela sua gentileza em nos atender. Parabéns pelo álbum “Obscuro Lado da Alma”.

Obrigado! 


- Como você pode descrever o trabalho na composição deste tipo de sonoridade?

Desde que voltamos a ativa com força total a ideia era fazer um disco mais sério, tanto em sonoridade quanto nas letras. E esse disco é só o começo dessa fase mais Metal, vem mais coisa logo mais.


- Vejo que vocês incorporaram novos elementos, como os fãs tem "digerido" essas mudanças?

Como a gente tenta sempre fugir do óbvio, as vezes demora um pouco pra ser digerido, e a ideia é essa mesmo, não vamos nunca entregar o famoso “mais do mesmo”.

- Existem planos para o lançamento de “Obscuro Lado da Alma” no Brasil, no formato físico? Tivemos contato até agora, apenas o formato digital.

O vinil já está na fábrica, deve sair no máximo até o meio do ano.É uma parceria de vários selos, estamos empolgados com isso. E estamos fazendo contatos fora do Brasil também, em breve deve ter novidades.


- Vocês compõem em português, mas isso não pode vir a atrapalhar vocês no mercado exterior?

Eu acho que quem ouve metal brasileiro fora do Brasil também quer nossa originalidade, e cantar em português faz parte disso. Mas no próximo trabalho temos vontade de fazer pelo menos um som em inglês, mas tem que ser natural pra gente.


- Como estão rolando os shows em suporte ao disco? A aceitação está sendo positiva?

A aceitação está sendo ótima, e estamos armando uma mini tour para o lançamento do disco em vinil.


- Quem assinou a capa do CD? Qual a intenção dela e como ela se conecta com o título?

Quem fez todas as artes foi o Vinícius Vai, que é vocal 3 guitarra também, então tá tudo em casa. O que ajuda também a transmitir as ideias também de forma visual, já que essa identidade visual atrelada ao som é uma coisa muito importante pra gente.

- “Obscuro Lado da Alma” foi todo produzido pela banda, confere? Foi satisfatório seguirem por este caminho?

Foi produzido pela banda e com uns toques super importantes do Niko Teixeira do Extreme Lab Estudios onde gravamos.


- Imagino que já estejam trabalhando em novas composições. Se sim, como está se dando o processo e como estão soando?

A gente nunca para, e já estamos compondo material pra um EP que queremos gravar e soltar ainda esse ano. Tá bem mais pesado, isso eu posso garantir.


- Novamente parabéns pelo trabalho e vida longa ao HOMELESS!

Valeu! 

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Robin Beck: A Consistência De Uma Voz Que Desafia o Tempo (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Com uma carreira sólida e respeitada dentro do melodic rock, Robin Beck retorna com Living Proof, seu 11º álbum de estúdio, reafirmando não apenas sua longevidade artística, mas também sua capacidade de se manter relevante em um cenário cada vez mais competitivo. Lançado pela Frontiers Music Srl, o trabalho equilibra com precisão a tradição do AOR com uma produção contemporânea, sustentado por uma performance vocal marcante, por colaborações de peso como James Christian(House of Lords) e Tommy Denander (Radioactive), por melodias cativantes, arranjos bem construídos e, sobretudo, pela interpretação sempre marcante da cantora.

A faixa-título abre o disco de forma assertiva, estabelecendo imediatamente o tom do álbum: refrões fortes, guitarras bem posicionadas e uma performance vocal segura e expressiva. Na sequência, “Love and Money” acrescenta peso ao repertório com uma pegada mais hard rock, destacando o diálogo entre riffs encorpados e um refrão de apelo coletivo.

“Trouble or Nothing” introduz nuances mais modernas, com elementos eletrônicos sutis e uma condução mais cadenciada, enquanto “What A Night” resgata o lado mais emotivo do gênero em uma power ballad que cresce progressivamente, ancorada em piano, camadas de teclado e uma interpretação vocal versátil.

O clima mais introspectivo surge em “Karma”, uma das faixas mais densas do álbum, onde Beck explora diferentes nuances interpretativas em meio a uma atmosfera mais sombria. Já “Never Gonna Let You Go” aposta em uma abordagem mais clássica, com forte influência gospel perceptível nos arranjos vocais e na construção do refrão.

A descontração aparece em “Na Na Na”, um hard rock direto e descomplicado, centrado em riffs de guitarra e com um refrão de fácil assimilação. Em contrapartida, “Voodoo” se destaca pela ousadia, incorporando elementos rítmicos e timbres pouco usuais ao longo do álbum, resultando em uma faixa que, apesar da diversidade, mantém coesão com o conjunto.

Na reta final, “Don’t Tempt Me” retoma o DNA clássico do melodic rock, com destaque para a dinâmica entre vocais e instrumentação, além de um solo de guitarra bem encaixado. O encerramento fica por conta de “Let It Rain”, que combina elementos eletrônicos e orgânicos em uma construção crescente, culminando em um refrão marcado por influências gospel e forte carga emocional.

No balanço geral, Living Proof cumpre exatamente o que seu título sugere: é uma prova concreta da vitalidade artística de Robin Beck. Sem reinventar o gênero, o álbum aposta na consistência, na qualidade das composições e na força interpretativa de sua protagonista para entregar um trabalho sólido, coeso e plenamente alinhado às expectativas dos fãs de melodic rock.

***ENGLISH VERSION***

With a long-established and respected career in melodic rock, Robin Beck returns with Living Proof, her 11th studio album, reaffirming not only her artistic longevity but also her ability to remain relevant in an increasingly competitive landscape. Released via Frontiers Music Srl, the record strikes a careful balance between classic AOR traditions and contemporary production, driven by Beck’s commanding vocal performance, high-profile contributions from James Christian (House of Lords) and Tommy Denander (Radioactive), memorable melodies, well-crafted arrangements, and, above all, her consistently compelling delivery.

The title track opens the album with confidence, immediately setting the tone: strong hooks, well-placed guitars, and a vocal performance that is both assured and expressive. “Love and Money” follows by adding extra weight, leaning more into hard rock territory and highlighting the interplay between muscular riffs and a chant-worthy chorus.

“Trouble or Nothing” introduces a more modern edge, blending subtle electronic elements with a more measured pace, while “What A Night” taps into the genre’s emotional core with a power ballad that gradually builds, anchored by piano, layered keyboards, and a versatile vocal performance.

A more introspective mood emerges with “Karma”, one of the album’s densest tracks, where Beck explores a range of vocal nuances within a darker atmosphere. In contrast, “Never Gonna Let You Go” adopts a more classic approach, with strong gospel influences evident in both the vocal arrangements and the structure of the chorus.

A sense of looseness and fun comes through in “Na Na Na”, a straightforward, no-frills hard rock track driven by guitar riffs and an instantly accessible refrain. Meanwhile, “Voodoo” stands out for its boldness, incorporating unconventional rhythms and textures that, despite their diversity, remain cohesive within the album’s framework.

Towards the closing stretch, “Don’t Tempt Me” revisits the core DNA of melodic rock, with particular emphasis on the dynamic interplay between vocals and instrumentation, alongside a well-executed guitar solo. The album closes with “Let It Rain”, a track that blends electronic and organic elements in a gradual build-up, culminating in a chorus enriched by gospel influences and strong emotional weight.

Overall, Living Proof delivers exactly what its title promises: a clear statement of Robin Beck’s enduring artistic vitality. Without attempting to reinvent the genre, the album relies on consistency, strong songwriting, and the power of its lead performance to offer a solid, cohesive work that fully meets the expectations of melodic rock fans.

William Murray

Dark Hearts: Ecos da NWOBHM, Olhos No Futuro (Also In English)

Pride & Joy Music (Imp.)

Por Flavio Borges 

Veteranos da cena britânica surgida na esteira da NWOBHM, o Dark Heart retorna com Shadow of the Night, um trabalho que não apenas reafirma sua relevância, mas também evidencia uma clara evolução estética. Sob a liderança do membro fundador Alan Clark, agora acompanhado pelo guitarrista Nick Catterick, a banda se distancia das amarras do movimento oitentista para explorar uma sonoridade mais ampla, sofisticada e contemporânea. Com produção de Pete Newdeck e masterização assinada por Harry Hess (Harem Scarem), o álbum apresenta um equilíbrio consistente entre peso, melodia e refinamento técnico.

A abertura com “Light The Flame” já estabelece essa nova direção, mesclando hard rock e metal com forte presença de teclados e uma abordagem que remete ao mercado americano e europeu da segunda metade dos anos 80, sem abrir mão de um toque moderno. Na sequência, “Cold Winter” reforça a veia hard n’ heavy, destacando a versatilidade vocal de Clark e um trabalho de guitarras elegante e melódico.

“End Of Tomorrow” introduz uma atmosfera mais sombria, com claras influências de Black Sabbath, explorando cadência e densidade emocional, enquanto “Hands Of Fate” amplia o espectro sonoro ao incorporar elementos que transitam entre Dio e Dokken, combinando peso, técnica e refrões marcantes.

A acessibilidade melódica ganha força em “Spread Your Wings”, uma das faixas mais radiofônicas do disco, com forte DNA AOR, enquanto “Ride The Highway” flerta com estruturas mais elaboradas, aproximando-se momentaneamente do metal progressivo antes de se firmar como um hino de heavy metal clássico.

“You And I” funciona como uma síntese do álbum, reunindo diferentes nuances estilísticas em uma composição sólida e bem estruturada. Já “Life To Crucify” evidencia o lado mais contemporâneo da banda, com maior protagonismo dos teclados e uma produção que privilegia timbres modernos.

Na reta final, “Eyes Of Light” resgata o equilíbrio entre hard e heavy com um refrão poderoso e arranjos vocais bem trabalhados, enquanto “Mortality” mergulha novamente em atmosferas densas e épicas, evocando a fase Dio do Black Sabbath com personalidade própria. O encerramento com “Burned” sintetiza a proposta do álbum ao combinar elementos eletrônicos sutis com uma base de metal melódico, resultando em um desfecho coeso e envolvente.

Shadow of the Night é, acima de tudo, um álbum de reafirmação e maturidade. Ao mesmo tempo em que honra suas raízes, o Dark Heart demonstra capacidade de adaptação e evolução, entregando um trabalho que dialoga tanto com fãs do hard rock tradicional quanto com ouvintes de metal melódico contemporâneo.

***ENGLISH VERSION***

Emerging from the early ’80s British metal underground and responsible for the cult favourite Shadows of the Night (1984), Dark Heart return with Shadow of the Night, a record that feels less like a nostalgic comeback and more like a statement of intent. Spearheaded by founding member Alan Clark alongside guitarist Nick Catterick, the band steps beyond its NWOBHM roots, embracing a broader, more contemporary sound palette. With production by Pete Newdeck and mastering courtesy of Harry Hess (Harem Scarem), the album strikes a confident balance between classic metal grit, melodic sophistication and modern sheen.

Opening cut “Light The Flame” immediately signals that shift. Rooted as much in mid-’80s American and European hard rock as in traditional metal, the track blends muscular riffing with prominent keyboards and arena-ready vocal hooks, all delivered with a subtle modern edge. “Cold Winter” follows with a stronger hard rock leaning, showcasing Clark’s vocal versatility while pairing tight, punchy rhythms with a refined and melodic solo.

A darker tone emerges with “End Of Tomorrow”, where acoustic textures and keys set a brooding atmosphere before giving way to a slow-burning, Sabbath-esque weight. It’s a pivotal moment that expands the album’s emotional range. That sense of diversity continues with “Hands Of Fate”, a track that channels influences from Dio to Dokken, combining piano-driven passages, metallic riffing and soaring vocal harmonies into a dynamic and technically assured piece.

“Spread Your Wings” delivers one of the album’s most accessible moments — a melodic, AOR-tinged anthem driven by strong vocal arrangements and tasteful guitar work — while “Ride The Highway” initially hints at progressive metal complexity before settling into a more straightforward, yet highly effective, classic metal groove with a memorable chorus.

“You And I” acts as something of a microcosm of the album, shifting seamlessly between hard rock warmth and heavier, Sabbath-inspired passages, all while maintaining a cohesive identity. In contrast, “Life To Crucify” leans heavily into a more modern aesthetic, with keyboards taking centre stage and contemporary production values shaping the track’s overall feel.

Towards the final stretch, “Eyes Of Light” reaffirms the band’s command of the hard ‘n’ heavy formula, built around a strong mid-tempo groove, layered vocals and a powerful, well-crafted solo. “Mortality” dives back into darker territory, evoking the Dio-era Black Sabbath sound with a slightly more hard rock-oriented approach, complete with anthemic choruses and a slow-building, epic solo section.

Closing track “Burned” encapsulates the album’s overarching vision: a fusion of melodic metal, subtle electronic textures and classic hard rock sensibilities. It’s a fitting finale that underlines the band’s ability to evolve without losing sight of its roots.

Ultimately, Shadow of the Night is a record of reinvention and maturity. Dark Heart successfully distance themselves from the constraints of the NWOBHM tag, delivering an album that resonates equally with fans of classic hard rock, traditional heavy metal and modern melodic metal.

Divulgação 




terça-feira, 14 de abril de 2026

Cobertura de Show: Monsters Of Rock – 04/04/2026 – Allianz Parque/SP

Realizado no Allianz Parque, em São Paulo, no dia 04 de abril, o Monsters of Rock chegou à sua nona edição reafirmando seu status como um dos principais festivais do gênero no país. Com um line-up diverso que mesclou nomes clássicos e novas promessas, incluindo Guns N' Roses, Lynyrd Skynyrd, Extreme, Halestorm, Yngwie Malmsteen, Dirty Honey e Jayler, o evento foi conduzido com carisma pelos mestres de cerimônia Eddie Trunk e Walcir Chalas, que ajudaram a manter a energia do público entre as apresentações. Em um dia marcado por grandes performances, estrutura de alto nível e uma verdadeira celebração do rock em suas diferentes vertentes, o festival mais uma vez transformou a capital paulista em ponto de encontro obrigatório para fãs de música pesada.

Abrir um festival do porte do Monsters of Rock nunca é uma tarefa simples, ainda mais quando o público chega aos poucos, sem necessariamente conhecer quem está no palco. Foi nesse cenário que a jovem banda britânica Jayler assumiu a responsabilidade de dar início ao dia e fez isso com segurança e personalidade, transformando um horário ingrato em uma oportunidade de converter curiosos em fãs. A banda, liderada pelo carismático James Bartholomew, deu início com “Down Below” e seguiu com “The Getaway” e “No Woman”. A faixa “Riverboat Queen” explodiu com um solo de gaita visceral, que Bartholomew executou enquanto corria pelo palco. Rolou também uma versão blues de “I Believe to My Soul”, de Ray Charles. O encerramento com “Over The Mountain” e “The Rinsk” manteve a aura setentista do som deles e agradou aos presentes. Ao final, uma coisa fica evidente: a semelhança com o Led Zeppelin, tanto no som quanto no visual. Para quem gosta de algo no estilo dos veteranos do Led Zeppelin, é um prato cheio e bem-feito, mas longe de superar seus mestres.

A segunda atração foi a banda Dirty Honey, entregando uma performance robusta e cheia de atitude. Abrindo com a energia de “Won’t Take Me Alive”, a banda rapidamente cativou o público, seguindo com “California Dreamin’” e “Heartbreaker”, que demonstraram a coesão do quarteto. Um dos momentos mais marcantes da apresentação foi durante “Don’t Put Out the Fire”, quando o carismático vocalista Marc LaBelle desceu ao pit, interagindo diretamente com os fãs e elevando a conexão entre banda e público. A performance continuou com a intensidade de “Another Last Time” e “Lights Out”, que prepararam o terreno para o solo de guitarra de John Notto. Encerrando o show com “When I’m Gone” e “Rolling 7s”, o Dirty Honey deixou uma boa impressão, provando que seu hard rock clássico e sem frescuras é adequado para qualquer público.

A apresentação de Yngwie Malmsteen foi uma verdadeira aula de virtuosismo, desmontando qualquer narrativa de que o guitarrista estaria em baixa. Muito pelo contrário: Malmsteen mostrou-se em ótima forma física e técnica, esbanjando precisão e velocidade. Acompanhado por Nick Marino (teclados e vocal), Emi Martinez (baixo) e o excelente baterista Kevin Klingeschmid, o guitarrista sueco abriu a apresentação com a explosiva “Rising Force”, seguiu com “Top Down, Foot Down” e “No Rest for the Wicked”, não dando trégua: passou por “Soldier”, “Into Valhalla”, “Baroque & Roll”, “Relentless Fury” e a sequência épica “Now Your Ships Are Burned / Caprice no. 24”. O público, em sua maioria fãs de Guns N’ Roses, reagiu de forma um pouco morna no início, mas quem foi para ver shredding puro saiu impressionado com a entrega total do mestre.

O set ainda reservou momentos de puro fogo com “Wolves at Your Door”, o medley sensacional “Paganini 4th / Adagio / Far Beyond the Sun / Bohemian Rhapsody”, “Fire and Ice”, “Evil Eye” e uma versão de “Smoke on the Water”, do Deep Purple, cantada pelo próprio guitarrista. Passando por “Trilogy Suite Op. 5”, “Overture” e “Badinerie”, reforçou suas influências clássicas enquanto parecia brincar com seu instrumento. A reta final com “Black Star” e “I’ll See the Light Tonight” encerrou a apresentação com chave de ouro, deixando claro que, apesar de qualquer percepção externa, Malmsteen continua sendo uma lenda no mundo do metal neoclássico, entregando tudo o que se espera de um verdadeiro virtuose.

Na sequência, o Halestorm subiu ao palco e rapidamente mudou o clima do festival. Liderado pela vocalista e guitarrista Lzzy Hale, o que se viu foi uma força da natureza em ação. Lzzy se entrega de corpo e alma a cada nota, correndo pelo palco, interagindo com o público e usando sua voz, que simplesmente beira o absurdo: potente, versátil e cheia de atitude. Para quem não conhecia a banda, saiu do show absolutamente maravilhado. O set começou forte com “Fallen Star”, “Mz. Hyde”, “I Miss the Misery”, “Love Bites (So Do I)” e “Watch Out!”. No entanto, o ponto alto veio com a sequência de “Like a Woman Can”, “I Get Off” e “Familiar Taste of Poison”. A diversidade das músicas proporcionou uma dinâmica envolvente, na qual Lzzy pôde mostrar todo seu talento com seu potente vocal, ora agressivo, ora delicado, em meio a belas melodias que colocaram o Allianz Parque literalmente aos seus pés. Com o jogo ganho, tocaram a pesada “Rain Your Blood on Me”, culminando em um solo de bateria de Arejay Hale, que arriscou ritmos brasileiros e depois usou baquetas gigantes que mais pareciam cabos de vassoura, chegando até a arrancar algumas risadas do público. Encerraram com “Wicked Ways” e “I Gave You Everything”, não deixando pedra sobre pedra e o público sedento por mais.

É engraçado que, antes do show, algumas pessoas da mídia especializada comentavam que Lzzy era exagerada ou que sua voz poderia irritar; depois da apresentação, todos mudaram completamente de ideia. O Halestorm não apenas conquistou novos fãs, mas também solidificou sua reputação como uma das bandas mais empolgantes e autênticas da atualidade, com Lzzy Hale roubando a cena, incendiando o público e transformando a apresentação em um dos momentos mais marcantes do festival.

Com tudo isso, o Extreme subiu ao palco com uma difícil tarefa e, para ajudar, sob uma forte chuva que fez muita gente correr para se abrigar no estádio. Mas, felizmente, o temporal durou poucos minutos e o show continuou com tudo. Arrisco dizer que o Extreme foi a banda que tocou mais pesado no festival, desmistificando a ideia de que sua carreira se resume à balada “More Than Words”. O vocalista Gary Cherone demonstrou ser um performer nato, enquanto o guitarrista Nuno Bettencourt provou que seu virtuosismo está no mesmo patamar de Malmsteen.

Abriram com “It ('s a Monster)” e “Decadence Dance”, já mostrando que o peso viria forte, e logo entraram em “#Rebel” e “Play With Me” (com a intro de “We Will Rock You”, do Queen). Apesar de o som do P.A. ter caído por alguns segundos, ficou evidente que o grupo vai muito além do rótulo de banda de baladas. O ritmo seguiu intenso com “Am I Ever Gonna Change” e “Thicker Than Blood”, revelando composições pesadas e virtuosas que colocam o Extreme no lugar de destaque que merece.

Mesmo as instrumentais “Flight of the Wounded Bumblebee” e “Midnight Express” empolgaram e serviram para mostrar a técnica de Nuno. E, como não poderia faltar, a balada e hit “More Than Words” fez o estádio vir abaixo, com todos cantando. Despediram-se com o groove contagiante de “Get the Funk Out” e o peso de “Rise”, acabando com qualquer estigma que a banda pudesse ter. Com uma performance intensa, técnica e cheia de personalidade, a banda conseguiu equilibrar peso, groove e virtuosismo, deixando claro que não apenas honra seu legado, mas também segue renovada e pronta para conquistar novas gerações.

Era hora do Lynyrd Skynyrd, e o clima já anunciava que não seria um show qualquer. Havia um consenso claro entre o público: a banda é uma verdadeira instituição do southern rock americano e merecia todo o respeito. E foi exatamente isso que aconteceu. Quando iniciaram com “Workin’ for MCA” e “What’s Your Name”, os fãs deram uma recepção calorosa. A sequência seguiu com clássicos como “That Smell”, “I Need You”, “Gimme Back My Bullets”, “Saturday Night Special” e “Down South Jukin’”, mostrando a banda em ótima forma, entregando o som característico de guitarras gêmeas, groove pesado e atitude que define o Lynyrd Skynyrd há décadas.

O clima ficou ainda mais emocionante quando tocaram “Tuesday’s Gone”, dedicada a Gary Rossington, trazendo um momento de homenagem e respeito, preparando o terreno para um dos pontos mais marcantes da noite: “Simple Man”. Com a bandeira do Brasil projetada no telão e o céu iluminado por um mar de celulares, a canção provocou uma reação intensa do público, com muitos fãs visivelmente emocionados, alguns às lágrimas enquanto cantavam esse hino. A banda seguiu com “Gimme Three Steps” e o cover de J.J. Cale, “Call Me the Breeze”, mantendo o público totalmente envolvido. O ápice chegou com o mega hit “Sweet Home Alabama”, que teve uma breve introdução de “Red, White & Blue”. Nessa hora, ninguém ficou parado. Cheguei até a ver um segurança dançando e curtindo o momento, em uma cena que sintetiza perfeitamente o poder da música, e tudo fez sentido.

Para encerrar, a banda voltou para o encore com a épica “Free Bird”, dedicada aos integrantes que já se foram. A homenagem foi especialmente comovente: imagens de Ronnie Van Zant foram projetadas no telão enquanto a banda tocava, permitindo que o público ouvisse mais uma vez a voz do lendário vocalista junto com a formação atual. Foi uma despedida emocionante, respeitosa e grandiosa, deixando claro porque o Lynyrd Skynyrd continua sendo reverenciado como uma das maiores bandas da história do rock. 

O Guns N’ Roses encerrou com autoridade a edição de 2026 do Monsters of Rock no Allianz Parque. Apenas seis meses após um show histórico no mesmo palco, que registrou o maior público da arena, a banda voltou como headliner do festival e entregou uma apresentação energética, dinâmica e cheia de surpresas. O setlist sofreu mudanças em relação à passagem anterior, tornando a apresentação mais especial para os fãs brasileiros que lotaram o festival. Axl Rose, Slash e Duff McKagan mostraram que o fogo do Guns ainda queima forte no palco.

A abertura com a explosiva “Welcome to the Jungle” já incendiou o público, seguida por “Slither” (do Velvet Revolver) e os clássicos “It’s So Easy”, “Live and Let Die” e “Mr. Brownstone”. A menos óbvia “Bad Obsession” agradou os fãs mais atentos, e então veio “Rocket Queen”, resgatando os bons momentos de Appetite for Destruction. Músicas como “Perhaps”, “Dead Horse”, “Double Talkin’ Jive”, “Nothin’”, “You Could Be Mine” e “Civil War” mostraram como a banda estava soando coesa e pesada. Como todos sabem, a voz do Axl hoje não é mais a mesma, mas é interessante como a percepção no show é bem diferente. Você não tem a sensação de que é a voz do Mickey, como muitos dizem por aí.

Um dos momentos mais marcantes foi a homenagem ao saudoso Ozzy Osbourne, com a faixa “Junior’s Eyes”, do Black Sabbath. Foi uma grata surpresa, e Axl comentou sobre a importância da música no início de sua carreira. Já “Knockin’ on Heaven’s Door”, de Bob Dylan, veio com uma introdução de “Only Women Bleed”, do Alice Cooper, e teve seu refrão cantado em dueto pelo estádio todo. Outro destaque foi “New Rose”, do The Damned, com Duff assumindo os vocais e trazendo uma pegada mais punk para o show.

Do material mais recente, tocaram “Atlas”, que deixou o clima morno, mas logo veio o solo do homem da cartola, que, como sempre, foi um espetáculo à parte, levantando o público e reafirmando seu status de ícone. O clímax veio com “Sweet Child o’ Mine”, aquele mega hit que até quem não gosta de Guns conhece. O estádio veio abaixo, mas não parou por aí. A sequência com “Estranged” e “Bad Apples”, tocada pela primeira vez desde 1991, foi um presente para fãs de longa data, e a monumental “November Rain” levou os fãs à loucura.

O encerramento com a eletrizante “Nightrain” e a apoteótica “Paradise City” foi incrível, com o Allianz Parque cantando junto e pulando. O retorno em poucos meses mostrou que a banda não se apresenta para cumprir tabela e reforçou seu status como uma das maiores bandas de rock da história. Para os fãs paulistanos, foi mais uma prova de que, mesmo com o tempo passando, Axl, Slash e companhia ainda sabem como transformar uma apresentação em uma experiência inesquecível.

A nona edição do Monsters of Rock mostrou mais uma vez sua força ao reunir nomes de diferentes vertentes e gerações, entregando uma experiência rica e dinâmica para o público. De apresentações tecnicamente impecáveis, como a de Yngwie Malmsteen, passando pela energia avassaladora do Halestorm, até a afirmação pesada e virtuosa do Extreme, o festival evidenciou que o rock segue vivo. Os veteranos do Lynyrd Skynyrd  e Guns N Roses são mais do que nostalgia e ainda despertam a paixão que dos fãs. O sangue novo do Jayler e Dirty Honey mantiveram a chama viva do estilo em um dia que certamente ficará marcado na memória de quem esteve presente.


Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Ricardo Matsukawa (exceto Guns N' Roses)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Mercury Concerts



Jayler – setlist:

Down Below

The Getaway

No Woman

Riverboat Queen

Lovemaker

I Believe To My Soul [Ray Charles]

Need Your Love

Over The Mountain

The Rinsk 


Dirty Honey – setlist:

Won't Take Me Alive

California Dreamin'

Heartbreaker

The Wire

Don't Put Out the Fire 

 Another Last Time

Lights Out

Guitar Solo

When I'm Gone

Rolling 7s 

Yngwie Malmsteen – setlist:

Rising Force

Top Down, Foot Down

No Rest For The Wicked

Soldier

Into Valhala

Baroque & Roll

Relentless Fury

Now Your Ships Are Burned / Caprice no. 24

Wolves At Your Door

Paganini 4Th / Adagio / Far Beyond The Sun / Bohemian Rhapsody

Fire And Ice

Evil Eye

Smoke On The Water

Trilogy Suite Op 5 / solo / Overture

Badinerie

Black Star

I´ll See The Light Tonight 


Halestorm – setlist:

Fallen Star

Mz. Hyde

I Miss the Misery

Love Bites (So Do I)

WATCH OUT!

Like a Woman Can

I Get Off

Familiar Taste of Poison

Rain Your Blood on Me

Freak Like Me

Wicked Ways

I Gave You Everything 


Extreme – setlist: 

('s a Monster)

Decadence Dance

#REBEL

Play With Me 

 Am I Ever Gonna Change

THICKER THAN BLOOD

Hole Hearted

Flight of the Wounded Bumblebee 

Midnight Express

More Than Words

Get the Funk Out

RISE

Lynyrd Skynyrd – setlist: 

Workin' for MCA

What's Your Name

That Smell

I Need You

Gimme Back My Bullets

Saturday Night Special

Down South Jukin'

Still Unbroken

The Needle and the Spoon

Tuesday's Gone

Simple Man 

Gimme Three Steps

Call Me the Breeze (J.J. Cale cover)

Sweet Home Alabama 

Free Bird 

Guns N Roses – setlist: 

Welcome to the Jungle

Slither (Velvet Revolver)

It's So Easy

Live and Let Die

Mr. Brownstone

Bad Obsession

Rocket Queen 

Perhaps

Dead Horse

Double Talkin' Jive

Nothin'

You Could Be Mine

Civil War

Junior's Eyes (Black Sabbath)

Knockin' on Heaven's Door (Bob Dylan)

New Rose (The Damned)

Atlas

Sweet Child o' Mine

Estranged

Bad Apples 

November Rain

Nightrain

Paradise City