Por: Fernanda Luísa e Renato Sanson
Fotos: Divulgação
Edição/revisão: Caco Garcia
Poucas bandas do underground brasileiro construíram uma trajetória tão consistente e fiel às próprias convicções quanto o Apokalyptic Raids. Formado em 1998 por Leon Manssur "Necromaniac", o trio transformou décadas de dedicação ao metal extremo em uma discografia cultuada mundialmente, inúmeras turnês pelo Brasil, América do Sul e Europa, além de uma sólida parceria com o selo Hell Music.
Poucas bandas do underground brasileiro construíram uma trajetória tão consistente e fiel às próprias convicções quanto o Apokalyptic Raids. Formado em 1998 por Leon Manssur "Necromaniac", o trio transformou décadas de dedicação ao metal extremo em uma discografia cultuada mundialmente, inúmeras turnês pelo Brasil, América do Sul e Europa, além de uma sólida parceria com o selo Hell Music.
Mantendo-se sempre distante de modismos e guiado por uma visão artística própria, o Apokalyptic Raids consolidou seu nome como uma das principais referências do metal underground nacional.
Nesta entrevista, conversamos com Leon Manssur sobre a história da banda, sua filosofia, os desafios de permanecer independente, os rumos do metal extremo e muito mais. Confira.
RtM: O Apokalyptic Raids se tornou uma referência cult dentro do underground extremo brasileiro. Na sua visão, o que manteve a banda viva e relevante ao longo dos anos, mesmo distante dos grandes circuitos comerciais?
Leon Manssur: Já houve tempo em que eu achava importante ocupar mais esses espaços no “meio Metal”. Eu era mais inocente e achava que teríamos igualdade de condições com as “bandas-empresa”, com vantagem em autenticidade.
RtM: O Apokalyptic Raids se tornou uma referência cult dentro do underground extremo brasileiro. Na sua visão, o que manteve a banda viva e relevante ao longo dos anos, mesmo distante dos grandes circuitos comerciais?
Leon Manssur: Já houve tempo em que eu achava importante ocupar mais esses espaços no “meio Metal”. Eu era mais inocente e achava que teríamos igualdade de condições com as “bandas-empresa”, com vantagem em autenticidade.
Mostrar como se faz, sem ceder ao comercialismo, hoje representado pelas bandas cheias de mídia training e instagrams profissionais.
Mas isso foi uma ilusão. Hoje em dia eu me importo cada vez menos com a opinião dos outros, seja do pseudo mainstream metálico, seja dos caciques dos pequenos poderes do underground. Quem gostar, gostou. Faço o que faço há bastante tempo pra já ter afastado os interesseiros, os deslumbrados, os falsos em geral.
RtM: Muito da identidade sonora do Apokalyptic Raids carrega a essência obscura e primitiva do Hellhammer. Como nasceu essa conexão com a banda e de que forma ela moldou tua visão artística e pessoal dentro do metal extremo?
LM: Há mais de 40 anos é minha banda favorita. O mix perfeito de peso, sujeira, pouca técnica, gravação suja mas cuidadosa, composições perturbadoras e perfeitas... Como se fosse o Black Sabbath de 1972 tocando o repertório do Mötorhead... É só isso e tudo isso. Portanto eu apenas tinha e tenho a intenção de recriar esse estilo. Nem mais, nem menos.
RtM: O underground brasileiro sempre sobreviveu mais pela paixão do que pela estrutura. Como você enxerga a cena atualmente em comparação aos anos 80 e 90, principalmente em relação à autenticidade e ao comprometimento das bandas?
LM:As qualidades e defeitos do ser humano são bem previsíveis. Da até sono. Se tirar a tecnologia, esta sim, que mudou muito, são os mesmos garotos iludidos, os mesmos pseudo-produtores malandros frustrados querendo faturar em cima, o mesmo amadorismo, e no meio disso um ou outro que se salvam. Todos os anos muitos entram no nosso meio, mas poucos irão aguentar permanecer com consistência após 10, 20 anos. Nem sempre é claro quem é quem.
LM:As qualidades e defeitos do ser humano são bem previsíveis. Da até sono. Se tirar a tecnologia, esta sim, que mudou muito, são os mesmos garotos iludidos, os mesmos pseudo-produtores malandros frustrados querendo faturar em cima, o mesmo amadorismo, e no meio disso um ou outro que se salvam. Todos os anos muitos entram no nosso meio, mas poucos irão aguentar permanecer com consistência após 10, 20 anos. Nem sempre é claro quem é quem.
RtM: Vivemos uma era dominada por streaming, redes sociais e consumo rápido de música. Em sua opinião, essas tendências digitais fortaleceram o underground ou acabaram tirando parte da essência e do culto que existia antigamente?
LM: Ganha-se algumas coisas, perde-se outras. Por um lado, qualquer desqualificado tem acesso material que não deveria, podendo usar algumas das melhores bandas do passado pra piadocas, memes, falas equivocadas. Por outro lado, tem material antigo bom online pra quem sabe o que procurar.
O que faz a diferença é o conhecimento de cada um. Nem tudo é "internetável". Facilmente encontro nos meus arquivos material que não existe online. E aos poucos vai sendo disponibilizado em espaços virtuais marginais, fora do circuito das redes sociais da moda.
Quem não viveu, quem não conhece, não saberá encontrar, nem saberá que precisa, até um dia aparecer em um selo de raridades. Há muito movimento no subterrâneo do subterrâneo. A maioria da geração atual viu tudo, tem toda a informação disponível, mas não sabe o que fazer com isso, não tem vivência.
RtM: O Apokalyptic Raids possui uma identidade muito fiel às raízes do metal extremo. Existe espaço para evolução sonora sem perder a essência, ou certas características devem permanecer intocáveis?
LM: Evolução pra trás! (Risos) A modernidade chegou ao Metal nos anos 90, já ficou velha e não importou em nada na minha opinião. Nos nossos álbuns mais recentes existem sim algumas composições “arriscadas”, apontando pros anos 70, outras pro Heavy tradicional... Que acaba estando no contexto do Black Death Speed Metal do Hellhammer.
É bom não ter um estilo definido pelos padrões atuais. Por um lado, você é um “animal estranho”, que as gerações modernas não conseguem decodificar, e por outro lado você acaba ficando independente disso. Veja, Heavy tradicional e 70s está no contexto. Então tem espaço pra isso. Tudo depende de conseguirmos atingir esse tipo de som com classe e dentro do contexto. Ouçam e me digam se deu certo.
RtM: Olhando para tua trajetória dentro do metal underground nacional, qual legado o Apokalyptic Raids deixa para as novas gerações de músicos e fãs da música extrema?
LM: Não sei, é difícil julgar. Talvez eu seja só desimportante. Talvez alguém encontre algo relevante. Eu sou só um cara aí que curte uns sons aí. Igual à minha trajetória tem vários. A História que se encarregue dos julgamentos, eu estou ocupado tentando fazer algo que me satisfaça (risos)
RtM: Falando em turnês e lançamentos, o AR sempre se mantém ativo e representando o Brasil fora do país. Como é ser mais reconhecido mais lá fora do que no próprio país? Pergunto isso, pois é notável a devoção dos fãs gringos e que em minha opinião era para ser aqui também. Além, de a maioria dos lançamentos da banda saírem por gravadoras internacionais. Mostrando realmente que nossa cena é falha com quem trabalha de verdade.
LM: Não sei se somos mais reconhecidos lá que aqui. Talvez sim. O Metal tem ciclos de público, idade, estilos. Uma década de vacas gordas, outra de vacas magras. Como já vi vários desses ciclos, me impressiono menos hoje. Mas sim, sou agradecido por algumas demonstrações de algumas pessoas que importam daqui e de fora.
A distribuição no exterior é uma necessidade. Somos um país quebrado, um salário mínimo compra uns 7 LPs. Então é impossível contar apenas com público local pra esgotar um título. Mas foi pra conhecer o mundo que o Ozzy entrou no Sabbath, não é mesmo?
Não posso reclamar, não. Fizemos 20 shows na Europa em novembro de 2025 e deu mais gente que das vezes anteriores, show lotado em segunda feira, merchandise esgotado faltando 3 shows pro fim da tour. Então, apesar de tudo, me considero privilegiado por ainda ter um bando de doidos (no bom sentido) que comparece aos nossos shows. Talvez não sejamos animais tão estranhos assim.
RtM: Quais são suas as impressões sobre a questão da IA na música?
LM: Acredita que eu mal uso AI pra p*** nenhuma? Tem gente que está viciado nisso, não pensam mais, nem nas coisas que precisam ser pensadas. Pra minha atividade, particularmente, não tem muita utilidade. Pra fazer um resumo ou elaborar algumas buscas, talvez. Mas a AI precisa ser alimentada, treinada. E eu gosto de trabalhar nas coisas que costumam alimentar e treinar a AI.
LM: Acredita que eu mal uso AI pra p*** nenhuma? Tem gente que está viciado nisso, não pensam mais, nem nas coisas que precisam ser pensadas. Pra minha atividade, particularmente, não tem muita utilidade. Pra fazer um resumo ou elaborar algumas buscas, talvez. Mas a AI precisa ser alimentada, treinada. E eu gosto de trabalhar nas coisas que costumam alimentar e treinar a AI.
Então pra mim é só mais uma ferramenta, para quem e quando for a ocasião de usar. Não é uma panaceia universal. Na música em particular, é claro que mal conseguimos distinguir algo criado por humanos de algo feito por máquinas. Exceto por aqueles fatores que eu citei que são não-internetáveis. Não dá pra enlatar um show ao vivo, por mais que se transmita um festival pro mundo todo hoje. Estar lá sempre será diferente.
RtM: Leon, você foi de certa forma o incentivador e influência de muitas bandas e músicos não só do Rio de Janeiro assim como de todo o mundo. Isso te faz ter que ter um cuidado maior ao se expressar publicamente ou você se mantém liberto ao seu modo de pensar perante ao mundo em geral, e não somente ao nosso meio metal?
LM: Sobre ser influenciador, ocorre com o tempo. Você vai colando com quem tem idéias parecidas. O estilo é muito esparso, é um daqui, outro da Alemanha, outro do Japão... E esparso no tempo também. Então quem vem depois acaba se espelhando em quem veio antes, como eu mesmo já fiz. Com maior ou menor grau de atraso e ruído.
É claro que tenho senso de responsabilidade ao me expressar publicamente. Palavras tem consequências, e quando se é uma pessoa pública, essas consequências são amplificadas para o bem ou para o mal, sem que se planeje exatamente. Então já houve e há ocasiões em que precisamos modular o discurso, mesmo correndo riscos, pra não produzir efeitos contrários e indesejáveis.
A palavra “liberto” é um grande problema hoje. Eu sou um libertário, sempre fui desde que me entendo por gente. Mas aqui preciso parar e notar que não, eu não posso dizer tudo que eu penso hoje em dia, incluindo coisas que eu sempre disse antes. E isso é um enorme problema. Estamos na era do cancelamento, né.
É muito autoritarismo, muitas vezes de quem menos se espera. A pergunta na minha cabeça nesses últimos 5 ou 6 anos é: “tocar com quem, tocar pra quem?” Uma pergunta para a qual eu ainda não tenho uma resposta não-trivial.
Então, sinto muito, mas minha melhor resposta à sua indagação sobre modo de pensar neste momento é a pior possível: um silêncio ensurdecedor.
RtM: Você tem como formação acadêmica em física e é Doutor nessa área porém hoje não está atuando no meio acadêmico. Qual foi o motivo pelo qual você decidiu que deveria seguir outro caminho?
LM: Eu fui fazer física porque achava bonito, e ainda acho, e por ter gosto pela abstração. Isso no Brasil é um tipo de suicídio a prestação. No início dos anos 2000, nada de concurso, pagamento pingado, perspectiva de carreira nômade, então por motivos pessoais resolvi engavetar o diploma e cuidar mais da família.
Me reorganizei, até vivi da música por alguns anos, o que coincidentemente estava pegando tração entre 2003 e 2008, com muitos lançamentos em LP.
Eu fazia produções e masterizações para alguns selos. Depois a vida foi complicando mais, mas comecei com a Hell Music informalmente por volta de 2009 e acelerei lançamentos do selo a partir de 2015.
RtM: A educação no Brasil ainda tem uma saída ao seu ver? Se sim qual ou quais seriam?
Basicamente não (risos) Somos uma sociedade da desconfiança. Veja os países europeus ou os USA por exemplo. Eles foram fundados por uma determinada sociedade com determinados valores. Bem longe de serem perfeitos, mas tem uma estrutura que se formou e se depurou ao longo de centenas e centenas de anos. Visão de mundo, filosofia, instituições, formando pessoas que formam mais pessoas. Você pode criticar, querer reformar, mas você não pode ignorar. Outras culturas copiam.
Compare com casos de sucesso na Ásia por exemplo, com bases em outros sistemas de valores. Você copia o que funciona, descarta o que não funciona.
No Brasil, você desconfia do próximo, porque é provável que ele te ferre, e é assim aqui. E o próximo pode ser bem próximo, pode ser da família. Ou seja, é cada um por si. Em que século dessa evolução as pessoas irão parar de querer passar a perna umas nas outras e resolver cooperar, isso eu não sei. Mas eu sei que é só depois desse ponto que a educação tem qualquer chance. Mesmo não tendo p**** nenhuma, tem que querer primeiro.
No momento, somos pouco mais que um bando de primatas se matando uns aos outros a socos. Como fazer pra se comunicar nesse cenário? Não tenho uma resposta. É nesse estágio que estamos. O mal e a ignorância são indistinguíveis, e tomaram proporções muito grandes, continentais.
RtM: Muitas bandas com o mesmo tempo de estrada que hoje vocês tem, ficaram pelo caminho. Que fatores você acredita que tenha tido para conseguir manter o Apokalyptic Raids vivo?
LM: Autismo, TOC, hiper foco em Hellhammer... (Risos) Sabe a parte da resistência à mudanças? É isso aí. Alguns amigos ao longo do caminho, e a ideia fixa. E um pouco de sorte.
RtM: Se tudo hoje continuar da mesma forma como se encontra no meio underground você acredita que a evolução em termos de estrutura e qualidade das casas de eventos e equipamentos melhorou ou melhorará?
LM: Sinceramente, depois de 3 turnês na Europa, 2 no Brasil, 2 América do Sul? Não.
Porque eu conto nos dedos os eventos que eu fiz aqui que foram no horário. E eu conto nos dedos os eventos que eu fiz na Europa que atrasaram. Só por aí você já vê. O cara lá não tem como se atrasar. Tudo funciona. Tem um letreiro no ponto do ônibus dizendo que o próximo chega em 4 minutos. Passa 4 minutos, o ônibus chega. Então você consegue fazer tudo que planeja, consegue planejar.
Aqui não tem transporte, e a rua tem buraco, e o cara do som atrasou porque ontem teve evento, ele tem que dobrar pra poder sobreviver, o ampli tá ferrado e não tem outro, tudo custa mais caro, a remuneração é 10 vezes menor, empreender custa muito caro, contratar é impossível, produtividade estagnada há 50 anos por cultura arcaica, os estímulos tem o efeito contrário ao objetivo alegado... Passa por aquele assunto da educação. Pra acontecer minimamente, você teria que reformar o ser humano, e isso não está acontecendo. Espero não estar sendo excessivamente pessimista!
RtM: Leon, obrigado por dedicar um tempo para nos responder e expor suas opiniões, fica o espaço para sua mensagem final.
LM: Obrigado pela entrevista! Estamos trabalhando em um álbum novo, fiquem ligados!
LM: Obrigado pela entrevista! Estamos trabalhando em um álbum novo, fiquem ligados!
contact@apokalypticraids.com
https://www.apokalypticraids.com/
www.apokalypticraids.bandcamp.com
www.hellmusicrecords.bandcamp.com






Um comentário:
666
Postar um comentário