quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Cobertura de Show: Edu Falaschi – 03/08/2024 – Tokio Marine Hall/SP

Noite Nostálgica em São Paulo faz fãs “voltarem” no tempo com Edu Falaschi

Na noite do dia 03 de agosto de 2024, o Tokio Marine Hall se transformou numa máquina do tempo para todos os fãs que compareceram em peso (lotando a casa) para prestigiarem uma grande comemoração na carreira de Edu Falaschi, que entregou um verdadeiro espetáculo para que fã nenhum colocasse defeito. A noite contou ainda com as bandas Storia e Noturnall, cada uma com seu estilo e energia, criando a atmosfera perfeita para uma grande noite. 


Abertura com Storia

A abertura dos trabalhos ficou a cargo da jovem e promissora banda Storia, formada por jovens e talentosos músicos que estão despontando no cenário nacional. Eles estiveram presentes em todos os shows da tour comemorativa do Edu Falaschi, sendo destaque também na 35ª do Mariutti Team Zine.

A Storia subiu ao palco às 21h em ponto, neste momento o público já tomava boa parte da pista premium, visando garantir os melhores lugares à frente do palco e foram presenteados com um bom show de abertura. A banda entrou no palco com grande empolgação apresentando um vocal (Pedro Torchetti) ao melhor estilo Power Metal,passeando entre melodias bem acentuadas, limpas e agudas. 

O instrumental muito bem executado pelos músicos, apresentou ao público seu primeiro EP “Revenant - The Silver Age” (produzido pelo Thiago Bianchi) na integra, onde evidencia suas influências de Power Metal e ProgMetal. 

A cozinha da banda formada por Thiago Caeiro (bateria) e Pablo Guillarducci (baixo) mostrou um ótimo entrosamento, com linhas de destaque no baixo e principalmente na bateria. O guitarrista Gabriel Veloso segurou muito bem as linhas de guitarra, apresentando riffs, solos bem executados e boa técnica.

Entre os momentos mais marcantes, destaco a segunda música executada, “Rise of the Silver Knights”, que arrancou calorosos aplausos. Outro destaque foi “It’s Treason Then”, onde a banda conseguiu realmente envolver o público, que, já em maior número, clamava em uníssono pelo nome da banda, demonstrando assim a sua aprovação e confiança no futuro promissor que se avizinha.


Storia

The Grey Twilight

Rise of the Silver Knights

It’s Treason Then

Revenant


Noturnall: Intensidade e Virtuosismo

A banda Noturnall, liderada pelo vocalista Thiago Bianchi, subiu ao palco às 21h37 com os dois pés no peito após serem apresentados por Sergio Sacani, o querido ‘Serjão dos Foguetes’. Com uma energia incrível, a banda levantou o público (que a esta altura já lotava a casa) com seu Metal Progressivo extremamente virtuoso, visceral, pesado e técnico, aliado a versatilidade e potência vocal de Thiago. As suas linhas vocais, que se alternam entre agudos, drives e guturais, estremeceram as estruturas do Tokio Marine Hall. 

A banda mandou uma pedrada atrás da outra com um repertório técnico, rápido e pesado, executado com maestria pelos músicos Victor Franco (guitarra) – carinhosamente chamado de ‘Kikinho’ em alusão a sua similaridade com o guitarrista Kiko Loureiro –, Saulo Xakol (baixo) e Henrique Pucci (bateria). 

O show da banda foi repleto de momentos incríveis que valem cada menção a seguir. Após um início avassalador com as faixas “Try Harder” e “No Turn at All”, chegou a vez da poderosa “Fight the System”, que conta com linhas vocais em português de trechos de músicas dos Racionais MCs, algo que funciona muito bem ao vivo e contagia o público, principalmente aliada a ótima presença de palco do Bianchi, que já na terceira música, estava coberto de suor, mostrando sua entrega durante o show, que não parava um instante se quer. 

A única música que quebrou o ritmo nos encheu de emoção. Relembrando seus tempos de Shaman e mais recentemente ShamAngra (projeto liderado pelo baixista Luis Mariutti), Thiago anuncia em homenagem ao saudoso Andre Matos o hino “Fairy Tale”, pedindo para que o publico acendesse as luzes do celular logo nas primeiras notas. A emoção tomou conta do local, um dos grandes momentos da noite, com uma performance linda de toda a banda e principalmente do Thiago, que cantou a musica maravilhosamente bem. Para abrilhantar ainda mais aquele momento, Thiago anuncia que o piano sendo ouvido por todos era a gravação do próprio Andre tocando. O público, por sua vez, cantou em coro cada linha da música, com muitas pessoas visivelmente emocionadas, criando o ambiente perfeito para tal homenagem. Ao final, o público entoou o nome do eterno Maestro, completando então a homenagem prestada por toda a banda. É muito bom ver todo esse carinho e respeito do Thiago, dos músicos e do público ao legado do Andre num país que facilmente esquece de seus ídolos. Atitudes como essa mantém a chama acesa sempre. 

Dando sequência ao show, a música “Cosmic Redemption” fora executada no lugar da versão de “O Tempo Não Para”, que vinha fazendo parte do set list em datas anteriores, colocando a energia do show no ponto alto mais uma vez. Em “Scream! For!! Me!!!”, o publico tomou conta e literalmente gritou junto com a banda, mostrando mais uma vez como a presença de palco da banda consegue contagiar e trazer o publico para dentro da apresentação, principalmente quando Thiago Bianchi se joga nos braços da galera fazendo o famoso ‘Stage Diving’. 

A esta altura, a apresentação da Noturnall já se encaminhava para o grande final com a música que, ao meu ver, representa a essência da banda, “Nocturnal Human Side”, que demonstra tudo o que o grupo se propõe a fazer musicalmente desde sua trajetória: possui peso, técnica, velocidade, riffs poderosos e um refrão repleto de melodias marcantes. E desta vez não foi diferente, todos esses elementos estavam ali presentes, ao vivo para serem vistos e ouvidos durante o excelente solo da música. 


Thiago mais uma vez deu uma aula de presença de palco, erguendo o guitarrista Victor em seus ombros para o patamar mais alto da casa e realizando um solo nas alturas. Antes de finalizar, chegou o momento em que o público foi convidado a participar ativamente do show, quando Thiago passou o seu próprio microfone para um fã cantar e mostrar toda sua habilidade durante o refrão da música. 

Logo em seguida, a Noturnall encerrou sua apresentação de forma enérgica, virtuosa, interativa e demonstrando o porquê é uma das principais bandas do nosso cenário musical. Posso afirmar que a Noturnall é uma banda que sempre vale muito pena assistir ao vivo, tive várias oportunidades e em todos os shows eles entregam a mesma qualidade e energia no palco. 


Noturnall

Try Harder

No Turn at All

Fight the System

Fairy Tale (Shaman)

Cosmic Redemption

Shallow Grave

Reset the Game

Scream! For!! Me!!!

Nocturnal Human Side


Edu Falaschi: a nostalgia em um presente grandioso

Às 23h em ponto, Segio Sacani volta ao palco para anunciar o momento tão esperado: a chance de reviver ou realizar o sonho de sentir o que foi o DVD “Rebirth World Tour: Live in São Paulo”. No entanto, ainda faltavam cerca de 15 minutos para as cortinas se abrirem e ouvir as primeiras notas ressoarem. A espera, posso dizer, valeu muito a pena. Às 23h15, o publico pôde contemplar o grandioso palco preparado para esta turnê, com os cavaleiros de seis metros de altura em cada lado do palco, cenários que refletiam os temas do primeiro e segundo álbum solo do Edu Falaschi (Vera Cruz e Eldorado) ao fundo e uma bela imagem em alusão ao anjo do disco Rebirth. Como grande surpresa, dois anjos foram posicionados um em cada lado do palco, com a bateria ao centro. A princípio, pareciam estátuas no melhor estilo “Angels Cry”, mas para minha grata surpresa, elas se mexiam. Foram introduzidas no palco as famosas “estátuas vivas”, que interagiam com as músicas ao longo do show, complementando a grandiosidade e perfeição do palco. Além disso, houve um show de pirotecnia em momentos específicos, elevando ainda mais a experiência visual e sonora. Edu, ao longo de sua carreira solo, tem demonstrado habilidade em produções de grande porte, dignas de grandes bandas internacionais. Este era o palco de uma viagem musical no tempo, enquanto a introdução “In Excelsis” ecoava no ar.

Com as primeiras notas de “Nova Era” e a entrada do Edu Falaschi no palco, a casa veio abaixo, dando início a uma grande celebração e uma viagem no tempo tão esperada pelo público. O set list foi exatamente o mesmo do famoso DVD, com Edu relembrando cada momento e todas as falas já conhecidas pelos fãs, que aguardavam ansiosamente para cantar junto com o vocalista. 

“Nova Era” sempre é ótima para abertura de shows, foi assim no rememorado DVD e não seria diferente desta vez, oportunidade ímpar para logo de cara mostrar a potencia sonora que o publico teria durante todo o show. A qualidade dos instrumentos, o volume e o som em geral definiram o ritmo da jornada musical da banda de carreira solo de Edu. Além de Fábio Laguna nos teclados, Raphael Dafras no baixo, Jean Gardinalli na bateria (substituindo Aquiles Priester) e os guitarristas Diogo Mafra e Roberto Barros completaram o time com execuções excelentes. O cenário estava montado para uma noite que deixaria o público em êxtase.

Algo que pegou o público de surpresa durante o anuncio da turnê foi a decisão de Edu voltar a cantar as músicas da fase Andre Matos, que não as cantava desde sua saída do Angra. Essas musicas despertaram a curiosidade de todos, que questionaram como Edu se sairia. Conhecidos os problemas de saúde vocal que enfrentou ao longo de sua carreira, Edu sempre foi muito honesto com seus fãs sobre essas questões, demonstrando a grandeza da sua honestidade. Hoje, compreendo o desafio de estar no palco e imagino as dificuldades que o Edu superou para retornar à sua carreira. Com perseverança, resiliência e grandeza, ele venceu as adversidades, mostrando-se feliz em suas apresentações, irradiando sorrisos e um carisma único, demonstrando segurança e leveza, dignos de alguém que deixou sua marca na história. O publico ali presente estava com o jovem Edu, da época do DVD, com o Edu maduro em sua voz e trajetória, recebendo aplausos e a plateia vibrando e cantando junto como uma torcida. Ao final, a satisfação de ver seu grande ídolo desempenhando o que sempre fez de melhor, e acima de tudo, feliz.


Após a execução de “Acid Rain”, tivemos a clássica “Angels Cry”. E sabe o que acabei de descrever no parágrafo acima? Então, foi exatamente assim. O publico estava imerso numa atmosfera contagiante. O ambiente estava eletrizante, com o público envolvido em cada nota, riff e solo, lotando todos os cantos do local. Em um show repleto de acertos, momentos grandiosos e um set list impecável, fica difícil escolher os destaques, mas seguindo minha linha de resenhas, farei isso, evitando assim uma extensão desnecessária do texto.

Em “Heroes of Sand” e “Millennium Sun” o publico foi presenteado com um dos timbres vocais mais belos do metal, momento verdadeiramente especial que destacou a razão pela qual o Edu é um dos maiores nomes do nosso estilo. Novamente, tivemos uma atmosfera sem igual com o público catando em alto e bom som. “Make Believe” se revelou como um dos grandes momentos da noite com uma interpretação maravilhosa feita pelo Edu, que demonstrou toda sua personalidade e habilidade vocal, com seu timbre e características em uma música tão marcante, que certamente agradou a todos que lá estavam. Os vocalizes no final da música ficaram lindos em sua voz. Assim como no DVD, tivemos o famoso solo de bateria, desta vez tocado por Jean Gardinalli, empolgando a galera mais uma vez.

Durante uma pequena pausa, Edu aproveitou para falar sobre a Vakinha online que fez em prol do Rio Grande do Sul, revelando o vencedor do sorteio dentre os que contribuíram. Logo em seguida, ele apresentou seus companheiros de banda, destacando Roberto Barros (guitarra), como seu parceiro de composição na atual fase de sua carreira solo. 

Com os primeiros dedilhados de violão, Edu reuniu o público para entoar as melodias de "Rebirth", um clássico de sua carreira que marcou uma geração de fãs. Em “Running Alone”, a emoção, mais uma vez, tomo conta deste que escreve, pois já havia assistido a um show da turnê anteriormente, em Santos. Comparado ao show anterior, a apresentação no Tokio Marine Hall foi ainda mais grandiosa. A introdução, a presença dos músicos, os anjos no palco e a performance do Edu tornou a música ainda mais especial. “Nothing to Say”, com o seu groove e riff icônico, foi extremamente bem executado por Roberto Barros.  A energia foi lá em cima, contando com a clássica “dancinha” do DVD com Edu e o trio de cordas performando juntamente com o público. Na sequencia, a musica que se tornou um hino, “Carry on”, mais uma vez levou o público ao delírio, sendo tocada na integra com tudo que tem direito. Nós, fãs, agradecemos. Finalizando o set list do icônico DVD, a clássica “The Number of the Beast”, cover da banda Iron Maiden, foi apresentada. 

Neste instante tivemos o famoso “bis”, onde Edu anunciou “Pegasus Fantasy The Ultimate Version”, a mais nova versão da lendária musica do anime “Cavaleiros do Zodíaco”, que o vocalista gravou a versão nacional na época. Após um momento de descontração, causado devido a uma falha no retorno dos músicos, Edu encarnou seu momento “Axl Rose”. A banda reiniciou a musica e foi absolutamente incrível, mais uma vez o local se agitou com toda a plateia cantando cada palavra da canção, algo que sempre era pedido nos shows do Edu. A versão, além de maravilhosa, ficou impecável ao vivo, digna do mais alto cosmo dos cavaleiros. Encerrando a noite ainda tivemos a poderosa “Spread Your Fire”, do álbum “Temple of Shadows” (2004), outro grande marco na trajetória do Edu. 

Antes de partir para as considerações finais, gostaria de falar sobre os grandes músicos que acompanham o Edu e que fizeram deste um show memorável.

Fábio Laguna (teclados): parceiro do Edu desde os tempos de Angra, responsável por toda a ambientação e atmosfera musical ao vivo no comando dos teclados, além de fazer os backing vocals.  

Raphael Dafras (baixo): acompanha o Edu desde os tempos do Almah, fica a cargo dos graves no trio de cordas, executou as linhas de baixo com grande destreza e capricho. 

Jean Gardinalli (bateria): substituindo Aquiles Priester com muita competência, mandou muito bem nas linhas de bateria, tudo com muita precisão, mostrando que foi a escolha certa para ocupar o posto.

Diogo Mafra (guitarra): acompanha o Edu desde os tempos de Almah, ótimo guitarrista, um dos mais extrovertidos no palco ao lado do Edu, cativando o público. Tocou muito bem as bases e solos, só faltou um pouco mais de volume em sua guitarra para abrilhantar ainda mais sua ótima performance.

Roberto Barros (guitarra): também conhecido como “Cyborg” e destacado pelo Edu no momento da apresentação da banda como seu parceiro de composição, sempre dá um show à parte. É um exímio guitarrista, muito conhecido por sua técnica apurada, velocidade e destreza. Nessa noite não foi diferente. Além de apresentar um timbre de guitarra maravilhoso – e quem toca sabe que não é fácil timbrar uma guitarra, ainda mais para grandes shows –, tocou com maestria cada nota na guitarra, esbanjando técnica e versatilidade. Ele foi responsável desde o “tapping/two hands” inicial de “Heroes of Sand” até os solos mais complexos e desafiadores da noite, executando-os com clareza e precisão, mostrando-se confiante e interagindo com o público de forma cativante, tornando tudo parecer fácil. Foi uma performance impecável, digna de destaque.

Considerações finais

O espetáculo em homenagem ao DVD "Rebirth World Tour: Live in São Paulo" de Edu Falaschi no Tokio Marine Hall, em 03 de agosto de 2024, foi uma noite memorável para os fãs presentes. Repleta de nostalgia, a celebração do passado foi feita com maestria, sem deixar de lado o presente. A produção impecável e a performance dos músicos, que combinaram técnica, emoção, entrega e interação com o público, resultaram em um show inesquecível. O DVD já era icônico o suficiente para merecer uma turnê comemorativa, e este show também se mostrou especial, revivendo lembranças, frases e músicas marcantes. 

Storia e Noturnall também brilharam com performances poderosas, cada uma com suas características únicas. Edu Falaschi, mais uma vez, demonstrou por que é um dos grandes nomes do gênero, com uma carreira repleta de "sold outs". 

Em resumo, foi uma noite de emoção e conexão entre artista e público, que certamente ficará marcada na memória de todos os presentes, que puderam "voltar" no tempo.


Texto: Kaká Campolongo

Fotos: Dener Ariani 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Agência Artística

Mídia Press: TRM Press 


Edu Falaschi

In Excelsis / Nova Era

Acid Rain

Angels Cry

Heroes of Sand

Metal Icarus

Millennium Sun

Make Believe

Unholy Wars

Rebirth

Time

Running Alone

Crossing / Nothing to Say

Unfinished Allegro / Carry On

The Number of the Beast (Iron Maiden cover)

***Encore***

Pegasus Fantasy The Ultimate Version (Os Cavaleiros do Zodíaco)

Spread Your Fire



quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Cobertura de Show: Symphony X – 27/07/2024 –Tokio Marine Hall/SP

No último sábado (27/07), o Tokio Marine Hall em São Paulo foi palco do show da influente banda de metal progressivo Symphony X, formada pelos músicos Michael Romeo (guitarra), Russell Allen (vocal), Michael LePond (baixo), Michael Pinella (teclados) e Jason Rullo (bateria). 

A noite também contou com o show do guitarrista Luiz Toffoli, que se apresentou ao lado de Léo Carvalho (teclado), Pedro Tinello (bateria), Marcos Janowitz (baixo) e Cássio Marcos (vocais).

O curitibano começou a noite diante de um público pequeno, já que o show começou de forma inesperada. Mas isso não impediu que realizassem uma ótima apresentação. O setlist trouxe faixas do álbum “Engima Garden” e incluiu um cover de  “As I Am”, do Dream Theater e uma das maiores inspirações do guitarrista, que deixou o público extremamente animado. Todos os integrantes demonstraram grande técnica e carisma, proporcionando um show incrível.

Em pouco tempo, chegou o momento mais esperado da noite: a apresentação da renomada banda Symphony X. Michael Romeo, Michael LePond, Michael Pinella e Jason Rullo subiram ao palco pontualmente às 22h, seguidos por Russell Allen, que entrou correndo e já começou com a enérgica "Iconoclast", que abriu caminho para "Nevermore".

Russell, sempre muito gentil, interage constantemente com o público e seus colegas de banda, mostrando sua habilidade enquanto se movimenta de um lado para o outro no palco, fazendo com que cantar pareça a tarefa mais fácil do mundo – e, de fato, para ele, é. Sua voz se manteve impecável, preservando uma qualidade inabalável durante toda a apresentação.

O show continuou com “Inferno” e “Serpent's Kiss”. Michael Romeo, como de costume, deu um verdadeiro show com sua guitarra.

A quinta música foi a balada “Without You”, depois dela engataram uma sequência com “To Hell and Back”, “Evolution” e “Run With the Devil”, aproveitando a oportunidade para apresentar os membros da banda e trocar algumas palavras com o público presente. Russel demonstrou enorme agradecimento aos fãs brasileiros.

Concluindo a primeira parte do show, “Set the World on Fire” foi apresentada após uma breve pausa para o bis. O público clamava pelo retorno da banda, que voltou ao palco com um solo de teclado antes de executar “Paradise Lost”.

Uma novidade anunciada durante a noite foi que, no próximo ano, teremos um novo álbum, além de uma possível visita da banda ao Brasil em breve. As duas últimas faixas escolhidas para o grand finale foram “Out of the Ashes” e “Of Sins and Shadows”, encerrando mais um show sensacional do Symphony X em São Paulo.


Texto: Aline Fernandes

Fotos: Belmilson Santos (Headbangers BR)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Top Link Music


Symphony X

Iconoclast

Nevermore

Inferno (Unleash the Fire)

Serpent's Kiss

Without You

To Hell and Back

Evolution (The Grand Design)

Run With the Devil

Set the World on Fire (The Lie of Lies)

***Encore***

Paradise Lost

Out of the Ashes

Of Sins and Shadows

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Cobertura de Show: Roland Grapow – 18/07/2024 – Manifesto Bar/SP

O guitarrista Roland Grapow desembarcou em terras paulistanas no último dia 18/07 e reuniu fãs de sua vasta carreira no Manifesto Bar. 

Entretanto, para abrir o palco, a escalação contou com a brasileira Allen Key, cuja sonoridade contemporânea e suas linhas melódicas cativaram claramente o público, como também o carisma e energia de Karina Menasce (vocal), Pedro Fornari e Victor Anselmo (guitarras), William Moura (baixo) e Felipe Bonomo (bateria). Um belo início! 

Já o lendário guitarrista alemão contou com uma poderosa banda de apoio, formada por João Luiz (vocal, Golpe de Estado), Affonso Jr. (guitar, Confessori Band), Fabio Carito (baixo, Metalium, UDO, Tim Ripper Owens, Warrel Dane, Leather Leone) e Marcus Dotta (bateria, Metalium, UDO, Tim Ripper Owens, Warrel Dane, Leather Leone, About 2 Crash, The Heathen Sÿthe). Nesse contexto, os primeiros acordes de "Mr. Torture" deram o ritmo do que haveria por vir: uma viagem por clássicos de Helloween e Masterplan para nenhum fã de power metal colocar defeito. 

Canções como “Spirit Never Dies” (Masterplan), “The Chance” e “Time of the Oath” (Helloween) foram os destaques da noite e foram cantadas pela casa, que contava com um bom público para uma fria quinta-feira em São Paulo. 

Para o bis, vocalistas convidados foram chamados ao palco e ajudaram a nos levar para clássicos tocados pela carreira de Grapow. Ricardo Peres cantou “ A Tale that Wasn’t Right”, enquanto Victor Emeka, “Eagle Fly Free” e “I Want Out”. 

Por fim, “Heroes”, executada pelo agora trio de vocalistas – completado por Samyr Morgue –, homenageia e exalta as composições de Grapow como grande influência na história power metal.


Texto: Matheus Lopes

Fotos: Bárbara Matos

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: TC7 Produções

Mídia Press: LP Metal Press


Roland Grapow

Mr. Torture

Spirit Never Die

The Chance

Back for My Life

The Time of the Oath

Escalation 666

Kind Hearted Light

The Dark Ride

The Departed (Sun Is Going Down)

After This War

Deliberately Limited Preliminary Prelude Period in Z

Push (feat. Ricardo Peres)

A Tale That Wasn't Right (feat. Ricardo Peres)

Eagle Fly Free (feat. Victor Emeka)

I Want Out (feat. Victor Emeka)

Heroes  

Crawling From Hell 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Resenha: Auro Control – The Harp (2024)

Por Ozyrys Sheratan

Metal Relics (Nac.) / RockShots (Imp.)

Nota: 9,5/10 Nota dos amigos: 9,27/10

Meu primeiro contato com a banda Auro Control foi no show do SHAMANGRA que ocorreu no dia 14/01/24, evento que muitos chamam carinhosamente de “Festa da Firma Mariutti Team”, comunidade que faço parte e considero uma família. Nesse dia, dentre as bandas de abertura, a Auro Control foi a que se destacou de longe para mim, pois percebi seu profissionalismo e qualidade ao vivo que entrega com fidelidade o material gravado em estúdio no álbum The Harp.

Como cantor, me chamou muito atenção a qualidade do vocalista Lucas de Ouro, que possui uma potência vocal e extensão incrível, além da precisão na microafinação (coisa que 90% dos cantores de metal peca, futuramente irei escrever um artigo a respeito disso, aguardem). Mas o restante da banda toda é de altíssimo nível, formando aqueles times que fica difícil dizer quem é o craque, pois a banda é uma verdadeira “Dream Team” em termos de qualidade.

Baixo é meu instrumento preferido, e estamos muito bem servidos com o Thiago “Bonga” Baumgarten (Hibria), que possui técnica e agilidade invejável, além de dominar o tapping, que virou uma marca do Heavy Metal brasileiro tanto no Angra como no Hibria.

A dupla de guitarristas Lucas Barnery (Solo) e Diego Pires (Warlord, Beyond Frequencies) faz uma excelente equipe, com duetos, harmonias e solos incríveis, e para finalizar, o baterista Davi Britto (Nomin, Dream Theater Cover) fecha o time com chave de ouro, trazendo elementos do power e prog metal, além de um excelente trabalho percussivo que agrega a brasilidade e elementos tribais que elevaram muito a sensação de inovação e criatividade do álbum. A ilustração é muito bem-feita, representativa do título e conceito temático do álbum.

A faixa de introdução, “Aurum Regium”, já demonstra a qualidade da banda com arranjos orquestrais de altíssimo nível. O álbum começa para valer com “Feel The Fire” mostrando que a equalização e mixagem dos instrumentos estão muito bem arranjadas no álbum inteiro, mérito do estúdio Fusão e do Thiago Bianchi, que sempre faz produções de altíssimo nível com todas as bandas que passam por suas mãos. O interlúdio inicial do baixo é muito interessante, pena que o baixo some depois disso na mixagem dessa música. Aqui já é possível notar algumas influências de bandas como Angra, Helloween, Stratovarius e Iron Maiden, e nessa música especificamente é possível notar influência da música “Eagle Fly Free”, do Helloween. 

Os vocais estão muito bem colocados e equalizados, as melodias são criativas e cativantes em todo álbum, com backing vocals sem exagero que preenchem a harmonia e que não irão prejudicar a reprodução fiel ao vivo. Destaque também para as letras profundas de todo álbum, que são reflexivas, filosóficas e psicológicas, o que faz ganhar ainda mais pontos comigo, pois como vocalista psicólogo e espiritualista universalista, valorizo muito as mensagens positivas que podem ajudar os fãs a se identificarem, refletirem e superarem momentos difíceis de suas vidas.

O álbum segue com “Not Alone”, música que tem tudo que o fã de rock e metal gosta, e a participação do Jeff Scott Soto dispensa apresentações e comentários, tudo que esse monstro toca/canta vira OURO. 

Continuando com as colaborações, “Rise of the Phoenix” conta com Aquiles Priester na bateria. As suas participações costumam se destacar, e com essa não foi diferente. A letra e metáfora da Fênix foram muito bem utilizadas e casam perfeitamente com o conceito psicológico/filosófico do álbum inteiro.

“The Harp”, faixa-título, tem o baixo fazendo toda a diferença na música. Esse exemplo deveria ser seguido em todas as músicas do álbum, pois essa está entre as melhores do álbum. Felipe Andreolli fez um trabalho incrível com suas melodias utilizando a técnica tapping, que é uma das suas marcas registradas. 

“The Afterglow” possui influências de Stratovarius e Dream Theater, mas senti falta um pouco da identidade da banda nessa música que me chamou muito mais atenção nas músicas com mais brasilidade. “Head Up High” destaca a melodia vocal de Lucas e a letra motivacional incrível para ajudar nos momentos mais difíceis da vida.

“Conception”, power ballad do álbum, é cheia de sentimento. Ótima para fazer uma pausa na correria speed e power metal do álbum. “Runner” segue claramente os clichês do power metal, o que não é necessariamente ruim, pois a música tem um ótimo refrão estilo hino que é cativante e vai ser cantado em coro pelos fãs, mas perto das outras músicas, ela não se destacou para o meu gosto pessoal atual. 

“Breaking Through Silence”, a melhor do álbum, apresenta o melhor mix de volumes e equalizações de baixo, guitarra, voz, bateria e percussões do álbum inteiro, eu usaria essa música como modelo para todas futuras músicas, ficou impecável. Brasilidade e percussões são usadas perfeitamente nessa música. Thiago Bianchi, como sempre, quebrando tudo com suas interpretações viscerais e autênticas.

Tanto a minha média final (9,5) como a média com integrantes da banda e amigos (9,27) ficaram muito próximas, o que indica que a qualidade desse álbum provavelmente vai ser praticamente uma unanimidade entre os apreciadores de um bom rock e metal com elementos progressivos e folclóricos. 

  

O que faltou para a nota 10?

Nesse bloco da resenha, eu me coloco na posição como se fosse um “produtor” para analisar e dar dicas e sugestões para que os próximos trabalhos da banda tenham uma qualidade ainda maior, segundo a minha experiência de 21 anos como ouvinte e cantor de metal.

- Solos de Guitarra: Solos e duetos muito bem arranjados, mas as guitarras poderiam estar mais à frente na mixagem em termos de volume com mais frequências médias/agudas na equalização nos solos e duetos.

- Bateria: poderia ter mais variação em algumas músicas, para não ter bumbo duplo o tempo todo que satura e cansa o ouvinte. O volume da caixa e bumbos poderiam ser um pouco mais baixos, para não poluir o som, pois em algumas músicas a bateria aparece na mixagem muito à frente, “tampando” um pouco a guitarra, e principalmente o baixo.

- Baixo: poderia ter mais variação além de só seguir a bateria em algumas músicas mais rápidas,  e também faltou equalização média e aguda para deixar o baixo mais saliente e audível com aqueles “estalos” gostosos que ouvimos em baixos como do Steve Harris, Luis Mariutti, Felipe Andreolli e Raphael Dafras.


Auro Control chegou com tudo, mostrando a que veio e que poderá se tornar uma das bandas mais representativas da nova fase do Heavy Metal brasileiro. Eu realmente gostei da banda e várias músicas entraram na minha playlist e com certeza vou assistir o próximo show deles em Porto Alegre/RS.

Resenha: Blues Pills – Birthday (2024)

Por Carol Pen

Throwdown Entertainment / BMG (Imp.)

Blues Pills navega sob a mais crua essência do blues rock psicodélico pesado diante das notórias influencias musicais sessentistas, setentistas e oitentistas que o quarteto – atualmente formado pelos suecos Elin Larsson (vocal), André Kvarnström (bateria), Kristoffer Schander (baixo) e o norte-americano Zach Anderson (guitarra) – carregam. 

Sem contar os EPs e álbuns ao vivo, quatro são os que compõe a discografia da banda: o álbum de estreia hardzão autointitulado “Blues Pills” (2014), o psicodélico “Lady In Gold” (2016), “Holy Moly!” (2020) em peso maior, e o recente “Birthday” (2024).

2 de agosto de 2024 é a data que fica marcada na história da cena rock and roll atual, com o lançamento do quarto álbum de estúdio. Conta com onze faixas, de duração 38 minutos e 54 segundos, que tiveram a produção feita por Freddy Alexander.

Ao lado A do novo álbum dos Pills encontramos as faixas “Birthday’, “Don’t You Love It”, “Bad Choices”, “Top Of The Sky”, “Like A Drug” e “Piggyback Ride”.

A faixa-título “Birthday” foi a primeira a ser disponibilizada nas plataformas (8 de março), e abre os trabalhos do álbum. Ela entrega uma ótima mixagem de fortes e marcantes linhas de baixo, bateria e guitarra com a voz poderosa de Elin. A letra foi composta pela banda após terem saído para comemorar, durante uma turnê no México, o aniversário da vocalista e a mesma ter sido desrespeitada por um garçom. Assim explica-se a origem do primeiro verso da faixa: “I’m gonna ruin someone’s birthday”.

“Don’t You Love It” é uma pílula sonora para o ouvinte se soltar e aproveitar os aspectos positivos da vida apesar dos pesares. Também lançada como single, no dia 19 de abril, foi o segundo a sair nas plataformas de streaming e, em edição especial para o Record Store Day 2024, em vinil de 12 polegadas (30cm) juntamente da faixa-título “Birthday”. 

“Bad Choices” é um dos pontos altos do disco e remete bastante a performance vocal da Amy Winehouse. Contém viradas interessantes que envolvem uma variedade nas batidas dos versos ao refrão. Como o próprio título já entrega, a letra da música aborda as escolhas ruins que fazemos, assunto que surgiu durante o momento em que a banda conversava e compunha.

Não podia faltar uma balada poderosa em que Elin Larsson faria uma entrega vocal de arrepiar. “Top Of The Sky” combina cada instrumento em destaque, principalmente as batidas lentas e marcadas da bateria, e faz reflexão aos dias atuais onde a tecnologia predomina sob os limites da humanidade. Foi lançada como single no dia 31 de maio, sendo o terceiro e penúltimo antes do lançamento álbum. “Like A Drug” conta com um groovy ao decorrer da música que cria uma atmosfera bluesística.

“Piggyback Ride” encerra o lado A do álbum com uma energia selvagem e livre. O último single lançado pelos Pills que colaborou para criarmos uma ideia da sonoridade que eles entregariam neste álbum novo. Nessa faixa, a voz de Elin tem o tom abaixado para que ela soasse como um porco e a letra remete a suas reflexões sobre os porcos selvagens que andam por sua vizinhança.

Ao trocar o lado A (que entregou muito) para o lado B é possível encontrar as faixas “Holding Me Back”, “Somebody Better”, “Shadows”, “I Don’t Wanna Get Back On That Horse Again” e “What Has This Life Done To You”. 

“Holding Me Back” inicia o lado B do álbum com uma energia pop punk rock, proeminentemente no refrão. A faixa seguinte, “Somebody Better”, integra viradas fortes com o vocal poderoso. O álbum é concluído com três músicas mais lentas e emotivas: “Shadows”, “I Don’t Wanna Get Back On That Horse Again” e “What Has This Life Done To You”. Destaque para a faixa que encerra o álbum, que é uma balada introspectiva muito tocante.

Considerando a história do Blue Pills que foram de tocadas em bares sujos e lotados para tocadas em festivais grandes, como o Wacken Open Air, a banda evoluiu muito na sonoridade através da personificação de tudo aquilo que carregam como referências e da energia em uma sonoridade única por si só, autentica e moderna que facilmente agrada todos os gostos, falando em gerações. 

A solidificação do som dos Pills neste novo álbum é essencial, tendo em vista que a banda sofreu muitas críticas dos fãs em relação a mudança do som de suas músicas de álbum em álbum. Mas isso só prova que eles estavam experimentando as sonoridades para obter um som característico deles, coisa que bandas renomadas como Led Zeppelin e Black Sabbath fizeram, e se deixaram ser livres.

“Birthday” simboliza a captura da essência mais pura da banda em sua performance cheia de energia, atitude e poder. É um álbum que define a carreira dos Pills pelas letras de atmosfera emocionante e reflexiva, influencia clara pela gravidez de Elin durante a criação do álbum, junto do trabalho impecável que a banda fez nas composições e processos de mixagem juntos.

O álbum novo do Blue Pills está disponível tanto em mídia física (CDs e vinis) quanto nas plataformas de streaming. Para promover sua divulgação a banda está em turnê pela Europa. E quem sabe o Brasil entra na lista de turnê para o ano que vem?


sábado, 10 de agosto de 2024

Uganga: Liberdade, Amor à Música e Sem Máscaras

Por: Renato Sanson/Carlos Garcia


Desde os anos 80 batalhando na cena Metal mineira e brasileira, Manu Joker teve suas primeiras experiências com o Angel Butcher, lançando demos que posteriormente foram relançadas no exterior, e com uma passagem marcante pelo Sarcófago, lançando com a banda o EP "Rotting" (1989), que se tornou um clássico e referência a muitas bandas de Metal extremo. 

Mas a principal referência ao trabalho e capacidade criativa de Manu com certeza é o Uganga, banda a qual fundou em 1993, e se desafia e evolui a cada álbum.

Conversamos com Manu sobre o Uganga, Sarcófago, Manu Joker and The Rottens e muitos outros assuntos e histórias, as quais fazem parte do relicário do Metal e som pesado brasileiro.

Foto por Luan Ferreira

RtM: Manu, resuma pra gente como foi o inicio do Uganga? Pois a banda está ativa há bastante tempo, certo?

Manu Joker: Cara o Uganga foi criado por mim em Uberaba no ano de 1993, ou seja, ano passado celebramos 3 décadas na ativa sem nenhuma pausa. 

Inicialmente era um projeto paralelo já que todos os integrantes tinham outras bandas, porém com o tempo passou a ser nossa prioridade. Vieram mudanças de formação, 7 álbuns, várias tours pelo Brasil e Europa e inúmeras histórias incríveis. Tem sido uma jornada interessante.


RtM: Em sua época de Sarcófago você era baterista, mas no Uganga assumiu as vozes. Como foi lidar com essa mudança?

Manu: Na verdade no início do Uganga eu também era baterista, assumi o posto de vocalista pouco antes das gravações do nosso primeiro álbum “Atitude Lótus” de 2002. 

Nesse disco inclusive eu também toquei bateria em praticamente metade das faixas. Como nós vínhamos tendo dificuldades com os vocalistas, acabei assumindo o posto e meu irmão mais novo, Marco Henriques, veio pra batera. 

Mesmo na época que era o baterista eu sempre cantei algumas músicas, tanto no Angel Butcher quanto no início do Uganga, então acabou sendo uma transição tranquila. A real é que sempre me vi mais como vocalista do que baterista, mas obviamente amo tocar batera.


RtM: Em termos líricos a mensagem passada pela banda traz muito da realidade em que vivemos e muitas criticas ao modo governamental do nosso país. Como é construir as letras para casarem com a sonoridade?

Manu: Eu falo do que está a minha volta, falo sobre o que me inspira, instiga e também sobre o que irrita (risos). Se a gente olhar pela janela não veremos só flores, o mundo é um lugar rude, cruel e belo ao mesmo tempo. 

Tento usar todas essas tonalidades em minhas letras, sempre buscando algo de positivo com esses questionamentos assim como emoldurar essa lírica com uma sonoridade que também represente essas paisagens e emoções diversas.


RtM: Em 2013 vocês lançaram o álbum “Eurocaos ao Vivo” em sua passagem pela Europa. Como foi a recepção dos fãs referente à banda cantar em português?

Manu: Surpreendentemente positiva. Eu esperava algum tipo de rejeição pelo fato de nossas letras serem em português, mas ocorreu exatamente o contrário, fomos muito bem recebidos nas duas tours internacionais. 

Eu acho que o público europeu tem a cabeça mais aberta em relação a esse lance da língua, tanto é que por lá nós tocamos com bandas que cantam em húngaro, alemão, sueco e polonês, além-claro de inglês, e foi uma experiência muito enriquecedora. 

Eu sempre procuro explicar antes, geralmente em inglês ou espanhol, sobre os temas das letras e isso nos aproxima mais do público. Prefiro cantar com verdade, usando minhas gírias, falando sem máscaras e do meu jeito, do que com um sotaque caricato que pode inclusive tirar a poética da escrita. Acredito que lá fora boa parte do público tem concordado comigo nessa visão.


RtM: A cada álbum o Uganga explorou novos elementos, você acredita que essa coragem de experimentar, de buscar caminhos diferentes são fatores que contribuem para um artista se manter relevante e também se desafiar, não perdendo a gana de criar novas músicas? Vejo muitos artistas e bandas que parecem ter se tornado meras cópias de si mesmo.

Manu: Concordo com vocês, muitas bandas simplesmente repetem clichês por décadas e vivem de passado, mas esse definitivamente não é o nosso caso. O Uganga é regido pela liberdade, pelo amor a música e por uma visão de mundo onde as emoções não são suplantadas pelos modismos. 

Não posso falar pelos outros, mas no meu caso eu tenho definitivamente a necessidade de ser livre, inclusive artisticamente. Isso não quer dizer que nosso som não tenha uma assinatura ou influências, eu vejo os elementos que caracterizam a sonoridade do UG em todos nossos álbuns, mas acredito que encontramos a nossa fórmula de experimentar sem descaracterizar a essência.

Foto por Luan Ferreira

RtM: Sobre a discografia do Uganga você poderia nos descrever em poucas palavras cada um dos álbuns?

Manu: "Atitude Lótus (2002)": Um álbum experimental e nosso trabalho menos pesado. Ele registra o momento inicial do UG e reúne material composto nos primeiros anos. Tenho muito orgulho desse trampo apesar de soarmos como outra banda. Creio que a essência já estava ali.

"Na Trilha Do Homem De Bem (2006)": O nosso disco de transição, o elo entre a fase inicial mais leve e a retomada crossover que viria no nosso terceiro álbum. Esse disco reúne elementos dessas duas fases e foi meu primeiro somente como vocalista.

"Vol. 3: Caos Carma Conceito (2010)": Um álbum muito importante que abriu várias portas. Consolidou nosso estilo e até hoje reverbera. Faixas como “Fronteiras da Tolerância” e “Meus Velhos Olhos de Enxergar o Mal (2 Lobos)” são praticamente obrigatórias no set list.

"Eurocaos - Ao Vivo (2013)": Um registro cru, sem truques e artimanhas de estúdio, do que era uma apresentação do Uganga em 2010. Esse material foi gravado em Datteln (Alemanha) no Razorblade Festival e fora o nosso set completo naquele dia tem vários bônus bem interessantes, como por exemplo: versões de “Troops Of Doom” (Sepultura) e “Nightmare” (Sarcófago) extraídas de uma apresentação em Portugal. Tanto esse álbum quanto o “Vol. 3” foram lançados também na Europa.


"Opressor (2014)": Um disco pesado, visceral e com certeza um dos nossos melhores trabalhos. “Opressor” ao meu ver leva alguns passos além a sonoridade do “Vol.3” e rendeu nossa maior tour até aqui, tocamos com Exodus, Coroner, Catedral, Olho Seco, RDP e várias outras bandas que amamos. É outro que também foi lançado na Europa e aqui no Brasil além da opção em CD também saiu em vinil verde.

"Manifesto Cerrado - DVD (2017)": Esse material possui um longa metragem de mesmo nome que retrata nossa trajetória do início da banda até o ano de 2019. Além disso tem também uma apresentação mais intimista do Uganga num prédio histórico aqui da região chamado “Estação Stevenson”. Recomendo muito ambos os materiais que estão disponíveis no nosso canal do YouTube.

"Servus (2019)" - Ao menos até hoje esse é o meu preferido. “Servus” é o único álbum gravado como sexteto, com 3 guitarras, e foi lançado pelo selo alemão Wacken Foundation. Todas as características da banda estão ali, o peso, o groove, a velocidade, a desaceleração, a espiritualidade e o cinismo punk. Foi um álbum ousado, trabalhoso, intenso e também foi, infelizmente, nosso álbum pandêmico. 

Entre outras situações já estava fechada nossa terceira tour na Europa e iríamos pela primeira vez pra Rússia e, de repente, me vi trancado em casa. Mesmo assim fizemos alguns shows legais antes do lockdown tocando ao lado de bandas como: Corrosion Of Conformity, Rattus, Garotos Podres, Black Pantera, Pato Fu entre outras. Amo esse play!

"Libre! (2022)" - Eu encaro o “Libre!” como outro álbum de transição assim como também uma continuação da sonoridade do “Servus”. Esse disco manteve a banda viva e aponta para uma nova fase agora como quarteto e que vai mostrar a que veio muito em breve com o novo álbum. 

É nosso único trabalho que não tem 13 faixas e o primeiro a não passar de 25 minutos de música e gostei muito desse formato. Álbuns como “Reign In Blood” (Slayer), “Cavalo de Pau” (Alceu Valença) e mesmo o “Rotting” tem essas características e é algo que faremos de novo no próximo. É desse disco minha música preferida do UG “Retrovisor”.


RtM:Voltando no tempo, conte-nos um pouco sobre a sua passagem pelo Sarcófago, quais as principais lembranças que você guarda, tendo participado daquela época em que surgiram muitas bandas importantes no cenário mineiro. Inclusive o “Rotting” foi composto e até em parte gravado na sua casa, não é?

Manu: Na verdade o álbum foi composto e ensaiado aqui em casa e gravado no mítico JG Estúdio em BH. As lembranças dessa fase são as melhores possíveis, estávamos extremamente focados em dar o nosso melhor e levamos 12 dias para terminar tudo. Vez ou outra nos encontrávamos com amigos de bandas como Sextrash, Witchhammer, Holocausto ou Overdose para conversas e algumas cervejas, a cena na cidade estava em total ebulição nessa época.


RtM: Ainda sobre o EP “Rotting”, que é até hoje muito celebrado pelos fãs de Metal extremo, em sua visão, qual a importância desse legado?

Manu: “Rotting” segue sendo meu preferido dentre a discografia da banda e não é porque eu toquei nele. Vejo esse disco como uma evolução natural do “INRI”, antes da guinada pro Thrash/Death ocorrida em “The Laws Of Scourge” e acho as letras mais legais também. É o tal “disco de transição” e um item da minha discografia que muito me orgulha.


RtM: Até hoje se fala de certa “disputa” entre algumas bandas da época, o que você lembra a respeito e o que realmente existia em termos de competição ou alguma animosidade.

Manu: A competição positiva sempre vai existir entre as bandas e acho isso saudável, você se motiva a ir além. O foda é quando isso descamba pra ódio, violência etc… Teve um período aí onde Sarcófago e Sepultura foram para esse lugar e coisas não tão legais aconteceram. Apesar de ser um ex-Sarcófago eu nunca tive nenhum problema com o Sepultura, muito pelo contrário.


RtM: Lembro que alguns anos atrás, um tributo ao Sarcófago tomou forma com você e outros ex-integrantes. Como surgiu e porque não seguiram adiante?

Manu: A ideia era fazer só alguns shows pontuais celebrando os 25 anos da “Warfare Noise 1” e deu muito certo. Além de 6 cidades no Brasil fizemos um festival foda em Santiago (Chile) ao lado do grande Possessed (EUA).


RtM: Atualmente você também tem o Manu Jokers & The Rottens, com vários músicos experientes, gostaria que nos falasse um pouco mais sobre esse projeto, e se é algo que vocês podem levar além de tocar o “Rotting” na íntegra e outras versões, de repente produzir músicas inéditas nessa linha?

Manu: O MJTR é um projeto de metal/punk extremo oitentista porém olhando prós dias atuais, ao meu ver é trazer pros palcos de hoje músicas que fazem parte da minha história sem querer soar saudosista. 

A vida segue… Estão comigo nessa empreitada meus irmãos Maurício Nogueira (ex-Krisiun, Matanza, Torture Squad etc…), Bráulio Drumond (Dorsal Atlântica) e Igor Wallace (Rëstos). Além de executar o “Rotting” na íntegra tocamos material do Angel Butcher (minha banda pré Sarcófago) e outras homenagens aos nossos heróis do underground brasileiro. Sobre material novo com certeza isso vai acontecer em algum momento.

Foto por Luan Ferreira

RtM: Você também trabalha como produtor, conhece os dois lados, quais as principais dificuldades ainda enfrentadas pelas bandas e produtores na questão de condições para shows e turnês? O que mudou dos anos 80 e 90 para cá?

Manu: O underground sempre será um lugar de luta, dificuldades e auto afirmação de vontades. Creio que hoje em dia está mais fácil tocar, porém a oferta muitas vezes é maior que a demanda. 

Você pode organizar tours e gravar discos por sua conta com uma acessibilidade que não existia nos anos 90, mas ao mesmo tempo a corrida por likes e seguidores tem inundado o mercado com porcarias sem alma, tá tudo muito padronizado, geral pagando de juiz sem nem limpar o próprio rabo e isso ao meu ver é o lado negativo mais gritante.


RtM: Você sempre expressa seus posicionamentos te políticos e sociais, o que você acha a respeito de pessoas que dizem que o artista deve simplesmente fazer sua música, subir no palco e tocar e pronto, não ficar dando opiniões ou fazendo discursos sobre a sociedade, temas atuais ou posicionamentos políticos?

Manu: Eu não julgo quem não quer se posicionar politicamente, cada um faz o que quiser com sua arte. O que não abro é do meu direito de falar sobre o que eu quiser, onde quiser e quando eu quiser. Escrevo muitas vezes sobre a realidade a minha volta, e essa realidade nos oprime deixa de guarda alta e preocupados com nosso futuro nesse planeta.


RtM: Estamos vendo nos últimos anos um aumento da procura pelas mídias físicas, com as vendas de LPs, e agora novamente o CD, aumentando e com um público novo também se interessando pelas mídias físicas. Pode ser um fator que favoreça nosso nicho? Como você vê a viabilidade hoje e em médio prazo o investimento das bandas em material físico?

Manu: Eu tenho visto as pessoas voltarem a gastar com vinis, cds e até fitas K7 e fico feliz com isso. Vai chegar uma hora que ficar ouvindo trechos de 15 segundos no TIk Tok não vai mais resolver, não trará preenchimento e muitos vão se tocar que não existe nada como apreciar um trabalho completo com arte gráfica, músicas e conceito bem alinhados.


RtM: Com esses anos todos de estrada e vários shows e álbuns lançados, o que você almeja ainda alcançar como artista?

Manu: Eu almejo seguir fazendo o que amo, com saúde e energia positiva. Estamos trabalhando em um documentário da banda, temos muitas datas daqui pro final do ano em várias regiões do país e vamos iniciar as gravações do oitavo álbum. 

As músicas estão matadoras, é UG 100% e muito mais. Esperem, confiram e se possível nos digam o que acharam depois. Também está nos nossos planos a terceira tour internacional. Vamos em frente pois tem muito mais, salve!


Fotos: Acervo do artista e Luan Ferreira Fotografia e Videografia 

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