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domingo, 27 de setembro de 2026

Airbourne: Quando o Rock N' Roll Não Precisa Pedir Licença

Spinefarm Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Há bandas que usam um álbum homônimo para marcar um recomeço. O Airbourne faz algo um pouco diferente em seu sexto trabalho de estúdio: coloca o próprio nome na capa como se estivesse fincando uma bandeira. Airbourne, lançado em 4 de setembro de 2026 pela Spinefarm Records, chega sete anos depois de Boneshaker e funciona menos como uma reinvenção e mais como uma declaração de identidade. É o Airbourne em sua forma mais concentrada: guitarras altas, bateria seca e explosiva, refrões feitos para multidões, solos que não economizam atitude e uma relação quase religiosa com o rock de arena.

A produção ajuda bastante nessa proposta. Brian Howes, que já havia trabalhado com a banda em Black Dog Barking, retorna à produção, enquanto Mike Fraser assume novamente a engenharia de som e Zakk Cervini fica responsável pela mixagem. As gravações passaram pelo Music Farm, próximo a Byron Bay, utilizando equipamentos Neve historicamente ligados às gravações de AC/DC, Rose Tattoo e outros nomes fundamentais do rock australiano. Não é um detalhe meramente decorativo: o disco foi construído para soar grande, físico e, principalmente, como uma banda tocando rock’n’roll com o amplificador no limite.

E há uma questão inevitável antes mesmo de chegar à primeira faixa: AC/DC. O Airbourne nunca escondeu essa influência. Joel O’Keeffe já declarou que considera o AC/DC a maior banda de rock’n’roll de todos os tempos e, portanto, não vê a comparação como um problema. A diferença é que, neste álbum, o Airbourne parece menos interessado em provar que consegue escapar dessas referências e mais interessado em mostrar o que consegue fazer dentro delas.

Divulgação 

1. Gutsy

Começar um álbum homônimo com uma música chamada Gutsy é quase uma declaração de princípios. A faixa entra sem pedir licença, com aquele tipo de riff que imediatamente estabelece a identidade do disco. A guitarra de Joel O’Keeffe chega acompanhada por uma bateria que parece empurrar tudo para frente, enquanto o vocal rouco mantém aquela mistura de provocação e celebração que é praticamente uma assinatura do Airbourne.

O interessante é que Gutsy não tenta ser sofisticada. Ela trabalha justamente com a eficiência do hard rock clássico: riff forte, verso direto, refrão grande e espaço suficiente para que cada instrumento respire. E existe uma razão para ela funcionar tão bem como abertura. A música já vinha sendo apresentada ao vivo antes do lançamento do álbum e, segundo a própria banda, foi escolhida como a primeira amostra justamente por representar essa postura de enfrentamento.


2. Alive After Death (Last Plane Out)

Se Gutsy apresenta a identidade, Alive After Death mostra o quanto o Airbourne consegue transformar essa identidade em uma grande canção.

A música tem uma construção particularmente eficiente. A guitarra conduz tudo com uma sensação de urgência, enquanto Joel canta como se estivesse disputando espaço com os próprios amplificadores. O refrão é daqueles que parecem existir para serem devolvidos pelo público.

Mas existe algo mais interessante aqui. A letra transforma a própria experiência do rock em uma espécie de mecanismo de sobrevivência: enquanto houver música, palco e alguém disposto a tocar, a história continua. Essa ideia conversa diretamente com o tema de legado que reaparece no final do álbum.


3. Here She Comes

Aqui aparece uma das primeiras pequenas surpresas do disco. Here She Comes ainda tem guitarras enormes e o mesmo senso de espetáculo, mas sua construção é mais melódica. Existe uma atmosfera quase de power ballad, só que filtrada pelo vocabulário do Airbourne. O resultado não abandona o peso, apenas permite que a música respire um pouco mais.

E há uma história curiosa por trás dela. A faixa nasceu durante uma tempestade que atingiu o estúdio onde a banda gravava em Byron Bay. A situação foi tão intensa que uma árvore caiu perto do ônibus onde Justin Street estava dormindo. A experiência acabou inspirando a imagem de “Here she comes” associada ao furacão e, posteriormente, a letra ganhou o conhecido duplo sentido característico da banda.

A participação de Bryan Adams e Mutt Lange na composição também ajuda a explicar por que a faixa apresenta um acabamento um pouco diferente. Em vez de simplesmente acelerar, o Airbourne trabalha aqui com uma melodia mais aberta e um refrão feito para arenas.


4. Kid In A Candy Store

Se existe uma faixa que recupera imediatamente o Airbourne mais descarado, é Kid In A Candy Store. O riff tem aquela sujeira deliciosa do hard rock tradicional, enquanto Joel conduz a música com uma interpretação que parece sorrir enquanto canta. A estrutura é simples, mas o arranjo tem detalhes suficientes para evitar que ela seja apenas mais uma faixa rápida.

O breakdown no meio é especialmente interessante porque deixa a guitarra brincar com uma linguagem mais próxima do hard rock oitentista, antes de devolver a música para sua estrutura principal. É um daqueles momentos em que o Airbourne mostra que conhece muito bem o repertório que está revisitando.


5. Sky High

Depois de quatro músicas que praticamente atropelam o ouvinte, Sky High reduz um pouco a velocidade. A faixa tem um andamento mais controlado e um riff mais arrastado, permitindo que o peso apareça de maneira diferente. É um daqueles momentos em que o Airbourne prova que não precisa estar permanentemente acelerado para soar agressivo.


6. Who Put The Rhythm In You?

A segunda parceria com Bryan Adams e Mutt Lange é uma das composições mais interessantes do disco porque apresenta uma camada mais calculada de composição.
O riff continua sendo Airbourne, mas existe uma preocupação maior com a construção do refrão. A música tem aquele tipo de gancho que permanece na cabeça depois que a faixa termina.


7. Christmas Bonus

Agora chegamos ao momento mais controverso do disco. Christmas Bonus é uma faixa deliberadamente vulgar, sexual e caricata. Musicalmente, ela segue a cartilha do Airbourne com competência, mas sua letra trabalha com um humor que pode facilmente envelhecer pior do que os riffs.

A própria banda nunca pretendeu tratá-la como uma canção natalina convencional. Pelo contrário: a ideia nasceu justamente da vontade de fazer algo completamente distante dos tradicionais clichês natalinos. O solo de guitarra brinca com a linguagem natalina e transforma o clichê em parte do arranjo, o que dá à faixa uma camada musical mais interessante do que sua letra poderia sugerir.


8. Last Man Standing

E então o disco volta a ficar muito forte. Last Man Standing tem uma construção de hino clássico. O riff inicial já cria aquela sensação de “música de entrada”, enquanto o refrão parece pedir uma multidão inteira cantando junto.

É uma faixa menos acelerada, mas talvez mais pesada justamente por causa disso. As guitarras trabalham com acordes largos e bastante espaço entre as frases, e Joel utiliza a voz com uma agressividade controlada que combina muito bem com o andamento. É um dos momentos em que a banda consegue transformar simplicidade em impacto.


9. Rock 'N' Roll Ya

Se Last Man Standing é um hino, Rock 'N' Roll Ya é praticamente uma convocação. A música tem uma estrutura extremamente direta, com um refrão construído para interação com o público e uma guitarra que mantém o movimento constante.
É uma faixa que talvez não revele uma nova faceta da banda, mas também não precisa revelar. É exatamente o tipo de composição que ganha uma dimensão diferente quando imaginada ao vivo.


10. Bogotá

Aqui está uma das grandes joias do álbum. Bogotá começa com uma parede de feedback que imediatamente muda a textura da guitarra. A influência de Eddie Van Halen aparece de maneira muito mais explícita, especialmente na abordagem do instrumento e na maneira como o solo ocupa o espaço da música.

Mas o mais interessante é que Joel não tenta reproduzir Van Halen. Ele absorve aquela linguagem e a transforma em uma versão mais suja, pesada e direta do próprio Airbourne. A própria banda destaca que essa foi a primeira vez que Joel utilizou uma guitarra inspirada na famosa “Frankenstein” de Eddie Van Halen, o que explica a escolha estética da faixa.


11. Hells Got No Vacancy

Hells Got No Vacancy volta ao hard rock mais direto, com um riff pesado, vocal rasgado e uma estrutura feita para ser tocada em volume alto.
É também uma das músicas que mais evidencia o problema inevitável do álbum: depois de tantas faixas baseadas em princípios semelhantes, algumas começam a funcionar mais como variações de uma mesma ideia do que como identidades completamente separadas.


12. Send Me To Rock 'N' Roll Heaven

O encerramento muda completamente a perspectiva do álbum. Até aqui, Airbourne passou boa parte do tempo celebrando o presente: festas, sexo, estrada, amplificadores, liberdade e o prazer quase infantil de tocar rock.

Send Me To Rock 'N' Roll Heaven olha para trás. A música é uma homenagem aos artistas que ajudaram a construir o universo musical da banda e que já partiram. Lemmy, Bon Scott, Malcolm Young, John Bonham, Little Richard, Doc Neeson, Eddie Van Halen e Ozzy Osbourne aparecem nessa celebração da história do rock.

E isso dá outro significado ao álbum inteiro. De repente, o Airbourne deixa de parecer apenas uma banda reproduzindo uma fórmula clássica e passa a assumir o papel de uma banda que sabe que está carregando uma tradição.


Divulgação 

Confira a tracklist completa:

Gutsy 
Alive After Death (Last Plane Out) 
Here She Comes
Kid In A Candy Store 
Sky High 
Who Put The Rhythm In You? 
Christmas Bonus
Last Man Standing
Rock 'N' Roll Ya
Bogotá
Hells Got No Vacancy 
Send Me To Rock 'N' Roll Heaven

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Schandmaul: Quando Mudar de Voz não significa Perder a Própria Identidade

Napalm Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Existem mudanças de formação que alteram uma banda. E existem aquelas que colocam em xeque a própria identidade construída ao longo de décadas. Para o Schandmaul, Sternensegler nasce exatamente nesse território delicado. Lançado em 11 de setembro de 2026 pela Napalm Records, o décimo segundo álbum de estúdio do grupo alemão marca a estreia de Till Herence como vocalista principal, enquanto Thomas Lindner, voz que durante mais de duas décadas esteve no centro da personalidade da banda, permanece no Schandmaul assumindo piano, teclados, violão e acordeão.

A primeira impressão, porém, não é de ruptura. É de movimento. Quando Nimm alles mit entra, a sensação é de que o Schandmaul deliberadamente escolheu não transformar esse novo capítulo em um manifesto melancólico. O álbum começa imediatamente, com guitarras, elementos folk e uma energia que aponta para frente. E isso é importante: Sternensegler não tenta esconder que existe uma nova voz, mas também não parece interessado em pedir desculpas por ela.

Till Herence tem uma voz mais clara e menos áspera que a de Lindner. Isso muda a temperatura das músicas. Em alguns momentos, o resultado se aproxima mais do folk rock melódico e até de uma linguagem pop-rock; em outros, especialmente quando as guitarras ganham espaço, essa suavidade se transforma em uma vantagem. O instrumental continua reconhecível: violino, flautas, gaita de foles, viela de roda, alaúdes e as diferentes guitarras dividem espaço com uma cozinha rítmica que mantém o disco em movimento.

O grande mérito de Sternensegler está justamente nessa negociação. O Schandmaul não soa como uma banda tentando recriar artificialmente o passado. Mas também não está reinventando sua linguagem do zero. E é nessa zona intermediária que o álbum encontra sua personalidade.

1. Nimm alles mit

Nimm alles mit já começa com aquela combinação característica de rock e instrumentos tradicionais, mas a voz de Herence muda imediatamente a percepção do conjunto. Ele canta com uma clareza que deixa as melodias mais abertas, enquanto a instrumentação cria a sensação de estrada, movimento e recomeço.
É uma escolha muito inteligente para abrir o álbum porque a música não fica presa ao peso da mudança. Existe uma espécie de urgência positiva nela, como se a banda dissesse que, depois de tudo, ainda existe muito para viver.

Thomas Lindner contou que a música foi escolhida para a abertura justamente porque, quando todas as faixas estavam reunidas, ela se apresentou como uma escolha natural: começa imediatamente, tem energia rock'n'roll e carrega uma mensagem positiva. Musicalmente, é um excelente cartão de visitas para a nova formação.


2. Sternensegler

A faixa-título diminui um pouco a velocidade, mas aumenta a sensação de amplitude. O Schandmaul trabalha aqui com uma construção mais atmosférica, e os instrumentos folk aparecem como parte essencial da arquitetura da música.

O que mais chama atenção é a maneira como a voz de Herence se encaixa nesse espaço. Existe leveza, mas não fragilidade. O refrão tem aquela característica de música que parece feita para ser cantada por um público inteiro, enquanto as guitarras e os elementos tradicionais dão profundidade à composição.

A faixa também funciona como uma espécie de declaração estética do álbum: olhar para o futuro sem abandonar as próprias raízes. É uma música bastante acessível, mas não descartável, principalmente porque a instrumentação impede que ela caia em uma estrutura pop genérica.


3. Beide Füße in der Luft

Aqui o álbum começa a mostrar um lado mais irreverente. Beide Füße in der Luft tem uma energia mais saltitante e uma presença rítmica que deixa a música consideravelmente mais física. É uma das faixas em que o novo vocalista parece mais confortável em assumir a própria personalidade, sem precisar carregar o fantasma da voz anterior.

A guitarra ganha importância, os elementos medievais ficam mais evidentes e o arranjo cria uma espécie de movimento circular que combina perfeitamente com o título. Há também um toque mais próximo do rock tradicional, o que faz a faixa funcionar como uma pequena quebra dentro da sequência inicial.


4. Flagge

Se existe uma faixa que dá ao álbum uma espinha dorsal mais firme, é Flagge. A banda assume uma postura política direta contra o extremismo de direita e o discurso de ódio, mas sem abandonar a característica melódica que sempre esteve no centro do Schandmaul. A música tem uma pegada mais roqueira, com guitarras mais presentes e uma estrutura que privilegia impacto e refrão.

E é justamente aqui que a nova voz funciona particularmente bem. Herence canta com precisão e deixa as palavras muito expostas. Não existe necessidade de exagerar na interpretação porque o arranjo já entrega a força necessária. O resultado é um dos momentos mais marcantes de Sternensegler, justamente por unir mensagem, melodia e peso sem transformar a música em um panfleto.


5. Nosferatu

Nosferatu muda novamente o cenário e coloca o Schandmaul em uma atmosfera mais cinematográfica. A música tem uma construção mais teatral, com os instrumentos folk criando imagens quase imediatamente. É fácil visualizar uma narrativa acontecendo enquanto a faixa avança, e esse é um dos grandes diferenciais do grupo: mesmo quando a produção é moderna e limpa, existe uma preocupação evidente em construir ambientes.

Os elementos tradicionais aparecem com bastante personalidade, enquanto as guitarras seguram a estrutura rock. A faixa é longa o suficiente para desenvolver sua ideia sem parecer apressada, e os arranjos fazem diferença especialmente nos momentos em que a música ganha dimensão.


6. Wo Sprache aufhört

Aqui o disco entra em uma região mais delicada. Wo Sprache aufhört é construída sobre uma melodia extremamente acessível e uma interpretação mais emocional de Herence. O refrão tem forte potencial de permanência e, justamente por isso, é uma das faixas mais fáceis de imaginar funcionando ao vivo.

Mas também é um dos momentos em que Sternensegler chega mais perto do limite entre folk rock e pop-rock. A composição funciona porque o Schandmaul sabe preencher essa estrutura com instrumentos tradicionais. Sem eles, provavelmente seria uma música muito mais convencional. Com eles, ganha identidade suficiente para permanecer dentro do universo da banda.


7. In der Hand

Depois da delicadeza anterior, In der Hand recoloca o corpo do álbum em movimento. A percussão ganha destaque e existe uma sensação de balanço muito mais pronunciada. As melodias folk aparecem de maneira particularmente viva, e a faixa demonstra como o Schandmaul consegue fazer instrumentos tradicionais dialogarem com uma estrutura de rock sem que um lado pareça estar apenas acompanhando o outro.

É uma música extremamente eficiente na construção de clima. Também é aqui que se percebe como a produção de Sternensegler privilegia clareza. Cada instrumento encontra seu espaço, mas a sonoridade não fica excessivamente separada. O resultado é um álbum grande, limpo e contemporâneo, sem eliminar as características acústicas que fazem o grupo ser reconhecido.


8. An beiden Enden

An beiden Enden retorna à atmosfera mais contemplativa do disco. A música tem uma construção que privilegia a melodia e a interpretação vocal, e Herence novamente se beneficia da característica mais clara de sua voz. Ele não tenta reproduzir o peso de Lindner; trabalha com outra dinâmica, deixando as notas respirarem mais.

É uma escolha interessante dentro da sequência porque funciona como uma ponte entre a parte mais energética do álbum e a reta final, que começa a ficar progressivamente mais emocional.


9. Lass nicht los

Aqui o Schandmaul volta a acertar em cheio no refrão. Lass nicht los combina uma interpretação vocal mais expansiva com violino e uma construção melódica extremamente eficiente. É uma daquelas faixas em que a banda consegue ser sentimental sem abandonar completamente o caráter festivo.

A voz de Herence funciona especialmente bem nesse contexto porque existe espaço para ele trabalhar intensidade. Em vez de tentar competir com a instrumentação, ele deixa a melodia conduzir a música.


10. Trag Dich

Trag Dich é a balada declaradamente sentimental do disco. E aqui é preciso reconhecer que o Schandmaul não tenta esconder o romantismo. A música é direta, emocional e deliberadamente delicada. Herence interpreta tudo com bastante controle, evitando transformar a faixa em um exercício vocal exagerado.


11. Zwei Raben feat. Laura Fella

E então chega a música que transforma o encerramento em acontecimento. Zwei Raben já começa em uma atmosfera muito mais frágil, sustentada por elementos folk e pela participação de Laura Fella, do Faun. A entrada da cantora cria imediatamente um contraste interessante com Herence, e a música ganha uma dimensão quase narrativa.

O mais importante, entretanto, é a progressão. A faixa não entrega seu impacto imediatamente. Ela cresce. Primeiro existe intimidade, depois os instrumentos começam a ocupar mais espaço e, quando as guitarras entram com força, o encerramento assume proporções épicas.

A escolha também carrega história: Zwei Raben já havia aparecido no projeto WETO, no álbum Schattenspieler, de 2011, e agora é incorporada ao universo do Schandmaul com uma nova roupagem e a participação de Fella.

É um daqueles casos em que a última faixa não parece simplesmente colocada no fim da tracklist. Ela foi pensada para encerrar o percurso. E funciona.


Daniel Sommer

Confira a tracklist completa de Sternensegler:

Nimm alles mit
Sternensegler
Beide Füße in der Luft
Flagge
Nosferatu
Wo Sprache aufhört
In der Hand
An beiden Enden
Lass nicht los
Trag Dich
Zwei Raben (feat. Laura Fella)

Firewind: A Essência em Novas Dimensões (Also In English)

BLKIINLK (Imp.)

Por Flavio Borges
 

Depois de mais de duas décadas construindo uma identidade própria dentro do power metal europeu, o Firewind decide olhar para suas próprias raízes culturais em Gods, Myths & Titans. Inspirado pela mitologia grega, o álbum transforma deuses, heróis, batalhas e tragédias em matéria-prima para um trabalho conceitual que amplia a dimensão épica da banda sem abandonar os elementos que a tornaram reconhecível.

A ambição fica evidente desde “Prologue Sacrifice”, introdução instrumental orquestrada que abre caminho para “Firegod”. A transição deixa claro que, embora o Firewind tenha investido em uma atmosfera mais cinematográfica, sua essência continua intacta: riffs velozes, refrãos melódicos, coros e, acima de tudo, a guitarra de Gus G., que permanece como um dos principais motores da banda.

“Firegod” e “I Will Sail On” estabelecem rapidamente essa linguagem. São faixas que dialogam diretamente com o power metal que os fãs esperam do Firewind, mas encontram espaço para backing vocals e arranjos que ampliam sua dimensão. A voz de Henning Basse, de volta à banda, também merece atenção. Mais áspera e encorpada do que o padrão vocal associado ao power metal mais tradicional, sua interpretação acrescenta personalidade às composições e funciona particularmente bem quando o material exige maior dramaticidade.

É nesse contexto que “The Legend Of Achilles”, primeiro single, ganha importância. A faixa funciona como a síntese mais imediata da proposta do álbum: peso, velocidade, melodias marcantes e uma atmosfera cinematográfica que transforma a narrativa de Aquiles em um épico de arena. O refrão possui aquela característica essencial ao gênero — fácil assimilação e vocação para ser devolvido pelo público em uníssono — enquanto Gus G. alterna precisão técnica e musicalidade sem transformar o virtuosismo em mero exercício de exibicionismo.

Mais importante, o single estabelece a principal questão que acompanha o restante do disco: até que ponto os elementos orquestrais e cinematográficos conseguem expandir a linguagem do Firewind sem simplesmente ornamentar uma fórmula já conhecida? A resposta, felizmente, é mais complexa do que um simples sim ou não.

“Cries Of A Mortal” é um dos melhores exemplos dessa tentativa de equilíbrio. Mais cadenciada e construída sobre diferentes camadas, a faixa deixa o power metal respirar em vez de depender exclusivamente da velocidade. As mudanças de clima e os backing vocals bem trabalhados acrescentam profundidade à composição, enquanto a banda funciona como um conjunto — algo particularmente importante em um álbum no qual Gus G. naturalmente poderia dominar todos os espaços.

Quando o Firewind acelera novamente, como em “Queen Of The Underworld”, a fórmula tradicional volta a ocupar o centro do palco. A faixa é direta, veloz e repleta de oportunidades para Gus G. demonstrar sua técnica, mas também revela um dos poucos momentos em que o álbum parece simplesmente revisitar territórios já conhecidos. Não chega a comprometer o conjunto, mas sua presença evidencia que a ambição conceitual nem sempre resulta em uma renovação equivalente da linguagem musical.

A influência do power metal europeu é onipresente, mas o Firewind não se limita a um único modelo. “Under Aegean Skies” remete claramente à tradição de bandas como Stratovarius, tanto pelo timbre das guitarras quanto pela construção melódica, enquanto os teclados assumem papel importante na arquitetura da faixa. Já “A King Dethroned” adiciona uma tonalidade mais próxima do hard rock e do heavy metal tradicional, com ecos de Scorpions em seu andamento mais cadenciado e nos refrãos acessíveis.

Essas referências, entretanto, aparecem mais como ingredientes do que como cópias. E é justamente essa variedade que impede Gods, Myths & Titans de se transformar em um exercício excessivamente previsível dentro do power metal. Os solos de Gus G. também ajudam nesse processo: em determinados momentos aproximam-se do erudito, em outros mergulham diretamente no metal, mas quase sempre permanecem subordinados à composição.

“Unbreakable” acrescenta outra peça importante ao álbum: a power ballad. Depois de tanta velocidade e grandiosidade, a faixa começa de maneira mais delicada, apoiada por arranjos orquestrais que criam uma atmosfera quase cinematográfica. Henning Basse apresenta aqui uma faceta mais limpa e contida, enquanto a guitarra de Gus G. traz à tona uma influência evidente de Yngwie J. Malmsteen. O crescimento gradual da composição desemboca em um refrão acompanhado por um belo coral, funcionando como contraponto necessário à avalanche sonora que domina boa parte do disco.

E então chega “Titans Fall”, encerrando a parte musical do álbum antes do epílogo. É provavelmente o momento em que a proposta de Gods, Myths & Titans encontra sua forma mais completa. Cinematográfica desde os primeiros segundos, a faixa reúne coros, melodias grandiosas, peso e um refrão construído para ser cantado coletivamente. Gus G. entrega outro solo de destaque, desta vez acompanhado por um coral que reforça a sensação de clímax. O epílogo instrumental prolonga essa atmosfera e conduz o álbum a um encerramento coerente com sua proposta conceitual.

No final, Gods, Myths & Titans funciona justamente porque o Firewind não tenta abandonar aquilo que sabe fazer para provar que está fazendo algo diferente. A mitologia grega fornece o cenário e a narrativa; as orquestrações e os elementos cinematográficos ampliam a escala; mas a essência continua sendo o power metal melódico, as grandes melodias, os refrãos e a guitarra de Gus G.

O álbum também ganha força com a presença de Henning Basse, cuja voz acrescenta uma camada mais agressiva e dramática às composições. E embora algumas faixas permaneçam próximas demais da fórmula tradicional do gênero, o conjunto encontra variedade suficiente em seus arranjos, mudanças de andamento e referências para evitar que a audição se torne monótona.
Há, portanto, uma coerência interessante entre tema e música. Afinal, poucos grupos poderiam contar uma história sobre deuses, mitos e titãs com tanta propriedade quanto uma banda originária da própria Grécia. O Firewind transforma esse patrimônio cultural em combustível para um álbum que privilegia a grandiosidade sem abrir mão da musicalidade.

Gods, Myths & Titans não representa uma ruptura radical na trajetória do Firewind — e talvez nem precise. É, antes, uma expansão consciente de sua identidade, na qual a banda encontra novas dimensões para uma linguagem que domina há anos. Para os fãs do grupo e do power metal melódico, é uma viagem que entrega peso, técnica, melodias e, acima de tudo, uma boa dose de épica sem perder o prazer de simplesmente ouvir uma grande banda de metal tocando no limite de suas possibilidades.

***ENGLISH VERSION***

After more than two decades of forging their own identity within European power metal, Firewind turn to their cultural roots on Gods, Myths & Titans. Inspired by Greek mythology, the album transforms gods, heroes, battles and tragedies into the raw material for a conceptual work that expands the band's epic dimension without abandoning the elements that have made them instantly recognizable.

The ambition is evident from the opening moments of “Prologue Sacrifice”, an orchestral instrumental that sets the stage for “Firegod”. The transition makes one thing clear: although Firewind have invested heavily in a more cinematic atmosphere, their essence remains intact — fast riffs, melodic choruses, layered backing vocals and, above all, the guitar work of Gus G., which remains one of the band's defining forces.

“Firegod” and “I Will Sail On” quickly establish this musical language. Both tracks embrace the power metal formula Firewind fans expect, while leaving room for carefully arranged backing vocals and additional layers that broaden their scope. Henning Basse, returning to the band, also deserves particular attention. His voice is rougher and more muscular than the style traditionally associated with classic power metal, giving the songs an added sense of character and working particularly well when the material calls for greater dramatic weight.

It is within this context that “The Legend Of Achilles”, the album's first single, becomes particularly significant. The track serves as the clearest statement of intent on Gods, Myths & Titans: weight, speed, memorable melodies and a cinematic atmosphere that turns the story of Achilles into an arena-sized epic. Its chorus has precisely the quality the genre demands — immediate, accessible and seemingly designed to be sung back by a crowd — while Gus G.
balances technical precision with musicality, never allowing virtuosity to become an exercise in showing off.

More importantly, the single establishes the central question that follows the album throughout: to what extent can orchestral and cinematic elements expand Firewind's musical vocabulary without merely decorating a formula they already know inside out? Fortunately, the answer is more complex than a simple yes or no.

“Cries Of A Mortal” provides one of the clearest examples of this balancing act. More measured and built around multiple layers, the track allows the power metal to breathe rather than relying exclusively on speed. Its shifts in mood and carefully arranged backing vocals add depth, while the band works effectively as a unit — something particularly important on an album where Gus G. could easily dominate every available space.

When Firewind accelerate again, as on “Queen Of The Underworld”, the band's traditional formula moves back to the forefront. The track is direct, fast and filled with opportunities for Gus G. to showcase his technique, but it also represents one of the few moments when the album seems content to revisit familiar territory. It does not undermine the record, but its presence makes it clear that the conceptual ambition does not always translate into an equally significant musical departure.

The influence of European power metal is omnipresent, but Firewind are not confined to a single template. “Under Aegean Skies” clearly echoes the tradition of bands such as Stratovarius, both in its guitar tones and melodic construction, while the keyboards play an important role in shaping the track. “A King Dethroned”, meanwhile, introduces a more traditional heavy metal and hard rock flavor, with echoes of Scorpions in its more measured pace and accessible chorus.

These references, however, function more as ingredients than as blueprints. And that distinction is important. The album's variety helps prevent Gods, Myths & Titans from becoming an overly predictable exercise in power metal orthodoxy. Gus G.'s solos contribute to that sense of movement as well: at times they lean toward the classical, at others they plunge headfirst into metal, but they remain largely at the service of the compositions.

“Unbreakable” adds another essential piece to the album: the power ballad. After so much speed and grandeur, the track begins on a gentler note, supported by orchestral arrangements that create an almost cinematic atmosphere. Henning Basse reveals a cleaner and more restrained side here, while Gus G.'s guitar work brings an unmistakable Yngwie J. Malmsteen influence to the surface. The gradual build leads to a chorus enhanced by a beautiful choir, providing a necessary counterpoint to the sonic assault that dominates much of the record.

Then comes “Titans Fall”, closing the musical body of the album before the epilogue. It is arguably the point at which the concept of Gods, Myths & Titans reaches its fullest expression. Cinematic from the opening seconds, the track brings together choirs, grand melodies, weight and a chorus built for communal singing. Gus G. delivers another standout solo, this time framed by a magnificent choir that reinforces the sense of climax. The orchestral epilogue extends that atmosphere and brings the album to a conclusion consistent with its conceptual framework.

Ultimately, Gods, Myths & Titans works because Firewind do not attempt to abandon what they do best simply to prove that they are doing something different. Greek mythology provides the setting and narrative; the orchestration and cinematic elements increase the scale; but the essence remains melodic power metal, driven by strong melodies, memorable choruses and the unmistakable guitar work of Gus G.

The album is further strengthened by the return of Henning Basse, whose voice adds a more aggressive and dramatic layer to the compositions. And although some tracks remain close to the genre's established formula, the combination of different arrangements, tempo changes and musical references provides enough variety to keep the record from becoming predictable.

There is an appealing coherence between theme and music here. After all, few bands could tell a story about gods, myths and titans with quite the same sense of cultural connection as a group originating from Greece itself. Firewind turn that heritage into fuel for an album that embraces grandeur without sacrificing musicality.

Gods, Myths & Titans does not represent a radical break with Firewind's past — nor does it need to. Instead, it is a deliberate expansion of an identity the band have spent years refining, finding new dimensions within a language they already know exceptionally well. For Firewind fans and devotees of melodic power metal, it is a journey that delivers weight, technique, melody and, above all, the sheer pleasure of hearing a great metal band pushing its sound toward the epic without losing sight of what made it compelling in the first place.

Tim Tronckoe

Europe: Quatro Décadas Sem Olhar Para Trás (Also In English)

Silver Lining (Imp.)

Por Flavio Borges 

Quatro décadas depois de The Final Countdown, o Europe poderia simplesmente viver de seu passado. E ninguém poderia culpá-lo por isso. Em vez disso, a banda escolhe olhar para o presente, colocando peso, ambição e uma inquietação quase inesperada em um álbum que talvez seja uma das demonstrações mais claras de sua vitalidade nos últimos anos.

É preciso coragem para desafiar o próprio legado. Poucas bandas carregam um hino tão monumental quanto “The Final Countdown” — e menos ainda conseguem sobreviver por quatro décadas sem se tornarem prisioneiras dele. O Europe poderia facilmente passar o resto da carreira celebrando suas glórias. Em vez disso, prefere continuar avançando.

É desse confronto entre passado e presente que nasce Come This Madness. Joey Tempest e companhia olham para um mundo cada vez mais turbulento e respondem com peso, tensão e, acima de tudo, personalidade. Produzido por Tom Dalgety e gravado em Estocolmo, o álbum conta com participações de Tobias Forge (Ghost) e Mikael Åkerfeldt (Opeth), além da experiência de Mike Fraser na mixagem. Mais do que reunir nomes importantes, entretanto, essa equipe ajuda a construir uma sonoridade que permite ao Europe soar atual sem apagar aquilo que o transformou em uma das bandas fundamentais do hard rock europeu.

E a intenção fica clara logo nos primeiros segundos. “One on One” não é apenas a abertura de Come This Madness; é uma declaração de princípios. O riff pesado, o baixo pulsante e a bateria de Ian Haugland empurram a música para frente, colocando a banda em uma posição mais agressiva do que aquela normalmente associada à sua imagem mais conhecida. Os teclados de Mic Michaeli continuam presentes, assim como a melodia característica e a voz inconfundível de Joey Tempest, mas tudo aparece revestido por uma produção mais encorpada e contemporânea. É como se o Europe dissesse, antes mesmo de o álbum começar de fato: não estamos aqui para repetir “The Final Countdown”.

Se “One on One” funciona como um cartão de visitas, “The Cult of Ignorance” elimina qualquer dúvida sobre as intenções do grupo. Mais pesada e carregada de tensão, a faixa amplia a atmosfera estabelecida pela abertura e mostra uma banda confortável em explorar seu lado mais contundente. John Norum assume as guitarras com a autoridade de quem não precisa provar absolutamente nada, enquanto Michaeli acrescenta camadas e profundidade sem suavizar o impacto. Tempest, por sua vez, entrega a letra com uma combinação de indignação e controle que reforça a sensação de urgência.

É aqui que Come This Madness começa a revelar algo além de sua força musical. “The Cult of Ignorance” transforma a inquietação sonora em comentário sobre o presente, abordando ignorância, intolerância e as tensões de uma sociedade cada vez mais polarizada. Não é uma banda veterana tentando parecer jovem ou agressiva; é uma banda usando a experiência acumulada para falar sobre um mundo que mudou radicalmente desde os anos 1980. A sequência das duas primeiras faixas é reveladora: primeiro o Europe reafirma que ainda sabe soar poderoso; em seguida, demonstra que ainda tem algo a dizer.

Mas Come This Madness não vive apenas de peso e tensão. O Europe continua sendo, antes de tudo, uma banda de canções — e é justamente quando as guitarras cedem espaço para melodias mais elaboradas que sua experiência se torna ainda mais evidente. A banda conhece o valor de um bom refrão, sabe construir tensão antes de liberá-la e entende que uma grande composição não precisa necessariamente de velocidade para causar impacto.

Esse equilíbrio entre contundência e melodia é uma das grandes virtudes do álbum. O Europe não precisa escolher entre ser pesado ou acessível. Transita entre esses dois universos com naturalidade, preservando sua identidade enquanto amplia suas possibilidades. Joey Tempest continua sendo um dos grandes intérpretes do hard rock europeu, mas sua performance aqui parece menos preocupada em demonstrar alcance e mais interessada em transmitir emoção e significado. Há maturidade em sua voz — não apenas técnica, mas também interpretativa.

Grande parte da personalidade do álbum está na interação entre John Norum e Mic Michaeli. Norum continua sendo um guitarrista que entende que um grande solo precisa estar a serviço da música, e não o contrário. Seus riffs dão ao disco boa parte de sua musculatura, enquanto os solos aparecem nos momentos certos, acrescentando tensão e emoção sem cair no exibicionismo. Michaeli, por outro lado, é quase um personagem invisível por trás da arquitetura do álbum. Seus teclados não estão ali simplesmente para reproduzir o Europe dos anos 1980; criam ambientes, acrescentam peso e ampliam a dimensão épica de determinadas passagens.

É justamente essa combinação que impede Come This Madness de se transformar em um simples exercício de hard rock tradicional. Há ecos evidentes das referências que sempre fizeram parte do DNA da banda — do hard rock britânico dos anos 1970 ao metal melódico europeu —, mas o Europe absorve essas influências sem parecer preso a nenhuma delas. O resultado é familiar, mas não acomodado; clássico, mas definitivamente não retrô.

Essa maturidade também aparece quando o grupo reduz a velocidade. Come This Madness não precisa permanecer permanentemente no modo “ataque”. Há espaço para atmosferas mais introspectivas e arranjos delicados, permitindo que o contraste entre força e vulnerabilidade se torne parte da dinâmica do álbum. É nesse terreno que o Europe demonstra que sua evolução ao longo das últimas décadas não foi apenas uma mudança de sonoridade, mas também de perspectiva.

A faixa-título leva essa proposta ainda mais longe. “Come This Madness” é uma das composições mais ambiciosas do disco, construída sobre mudanças de dinâmica e diferentes atmosferas. A música cresce, recua e volta a ganhar força, funcionando quase como uma síntese das intenções do álbum. Se existe um ponto menos convincente, está justamente em um de seus momentos de maior contenção: o trecho mais lento interrompe um pouco o fluxo antes que a composição retome sua intensidade. É uma escolha ousada, embora talvez pudesse ser ligeiramente mais enxuta.

Ainda assim, a ambição compensa. O Europe não está interessado em entregar apenas mais uma coleção de faixas eficientes. Existe uma tentativa clara de construir um álbum com identidade própria, no qual produção, arranjos, letras e performances caminham na mesma direção.

“Scandinavian Eyes” reforça essa impressão ao incorporar uma dimensão mais atmosférica e contemplativa. 

A presença de Tobias Forge e Mikael Åkerfeldt nos vocais de apoio acrescenta uma camada simbólica particularmente interessante: dois artistas de gerações diferentes do rock sueco contribuindo para o trabalho de uma banda que ajudou a colocar o país definitivamente no mapa do hard rock internacional. O mérito, porém, está em como essas participações são incorporadas ao universo do Europe sem transformar os convidados em simples chamariz.

No conjunto, Come This Madness soa como o trabalho de uma banda que já não precisa provar que pertence à história. E talvez seja justamente por isso que consiga tocar com tanta liberdade. O Europe não tenta recuperar a juventude perdida, tampouco reproduzir uma fórmula que funcionou há 40 anos. Sua maior conquista aqui é outra: usar a experiência como ferramenta criativa, e não como justificativa para repetir o passado.

Isso não significa que o álbum seja uma ruptura radical. Quem acompanha a trajetória do Europe sabe que elementos do classic rock, do hard rock setentista e de suas próprias raízes continuam presentes. Algumas escolhas poderiam ser mais ousadas e nem todas as composições alcançam o mesmo nível de inspiração. Mas exigir uma reinvenção completa seria perder justamente aquilo que torna o disco interessante.

Come This Madness funciona porque entende a diferença entre identidade e repetição.

Quarenta anos depois de “The Final Countdown”, a pergunta mais importante já não é se o Europe consegue escrever outra música como aquela. Não consegue — e não precisa. O que importa é saber se ainda existe criatividade por trás do nome, se esses músicos ainda têm algo a dizer e se a banda ainda consegue entrar em estúdio com vontade de desafiar a própria zona de conforto.

A resposta está nas guitarras de Norum, nos teclados de Michaeli, na voz de Tempest, na bateria de Haugland, no baixo de Levén e, principalmente, na maneira como esses músicos transformam experiência em energia.

Come This Madness não é uma tentativa de voltar ao passado. É o Europe aceitando seu legado, colocando-o de lado por alguns instantes e perguntando o que ainda pode fazer com tudo o que aprendeu ao longo dessas quatro décadas.

E talvez essa seja a maneira mais apropriada de celebrar 40 anos de The Final Countdown: não olhando para trás, mas mostrando que a contagem regressiva ainda não terminou.

Andy Ford

***ENGLISH VERSION***

Four decades after The Final Countdown, Europe could simply live off its past. And no one could really blame them for doing so. Instead, the band chooses to look forward, bringing weight, ambition and an almost unexpected sense of restlessness to an album that may well be one of the clearest demonstrations of their vitality in recent years.

It takes courage to challenge your own legacy. Few bands carry a song as monumental as “The Final Countdown” — and even fewer manage to survive four decades without becoming prisoners of it. Europe could easily spend the rest of their career celebrating their glory days. Instead, they choose to keep moving forward.

It is from this confrontation between past and present that Come This Madness emerges. Joey Tempest and company look at an increasingly turbulent world and respond with weight, tension and, above all, personality. Produced by Tom Dalgety and recorded in Stockholm, the album features guest appearances from Tobias Forge (Ghost) and Mikael Åkerfeldt (Opeth), with Mike Fraser handling the mix. More than simply bringing together a collection of big names, however, this team helps create a sound that allows Europe to feel contemporary without erasing what made them one of the defining bands of European hard rock.

And the intention becomes clear within the first few seconds. “One on One” is not merely the opening track of Come This Madness; it is a statement of intent. The heavy riff, pulsing bass and Ian Haugland’s driving drums push the song forward, placing the band in a more aggressive territory than the image most commonly associated with them. Mic Michaeli’s keyboards are still there, as are the characteristic melodies and Joey Tempest’s unmistakable voice, but everything is wrapped in a fuller, more contemporary production. It is as if Europe is saying, before the album has even properly begun: we are not here to repeat “The Final Countdown”.

If “One on One” works as a calling card, “The Cult of Ignorance” leaves no doubt about the band’s intentions. Heavier and charged with tension, the track expands on the atmosphere established by the opener and shows a band entirely comfortable exploring its more forceful side. John Norum handles the guitars with the authority of a player who has nothing left to prove, while Michaeli adds layers and depth without taking away any of the impact. Tempest, meanwhile, delivers the lyrics with a combination of indignation and restraint that reinforces the sense of urgency.

This is where Come This Madness begins to reveal something beyond its musical strength. “The Cult of Ignorance” turns its musical unease into a comment on the present, addressing ignorance, intolerance and the tensions of an increasingly polarised society. This is not a veteran band trying to sound young or aggressive; it is a band using the experience it has accumulated to speak about a world that has changed dramatically since the 1980s. The sequence of the first two tracks is revealing: first, Europe reminds us that they still know how to sound powerful; then they show that they still have something to say.

But Come This Madness does not live on weight and tension alone. Europe remains, above all, a band built around songs — and it is precisely when the guitars make room for more elaborate melodies that their experience becomes even more apparent. They understand the value of a good chorus, know how to build tension before releasing it, and recognise that a great song does not necessarily need speed to make an impact.

That balance between punch and melody is one of the album’s greatest strengths. Europe does not have to choose between being heavy and accessible. They move naturally between the two worlds, preserving their identity while expanding their possibilities. Joey Tempest remains one of the great voices in European hard rock, but his performance here seems less concerned with demonstrating his range and more interested in conveying emotion and meaning. There is maturity in his voice — not merely technical maturity, but interpretive maturity as well.

Much of the album’s personality comes from the interplay between John Norum and Mic Michaeli. Norum remains a guitarist who understands that a great solo has to serve the song, not the other way around. His riffs provide much of the album’s muscle, while his solos arrive at the right moments, adding tension and emotion without slipping into unnecessary showmanship. Michaeli, meanwhile, is almost an invisible character behind the album’s architecture. His keyboards are not simply there to recreate Europe’s 1980s sound; they create atmosphere, add weight and broaden the epic dimension of certain passages.

It is precisely this combination that prevents Come This Madness from becoming just another exercise in traditional hard rock. There are clear echoes of the influences that have always been part of the band’s DNA — from 1970s British hard rock to European melodic metal — but Europe absorbs those influences without sounding trapped by any of them. The result is familiar, but never complacent; classic, but definitely not retro.

That maturity also becomes apparent when the band slows things down. Come This Madness does not need to remain permanently in attack mode. There is room for more introspective atmospheres and delicate arrangements, allowing the contrast between strength and vulnerability to become part of the album’s dynamics. It is in these moments that Europe demonstrates that its evolution over the past few decades has not simply been about changing its sound, but also about changing its perspective.

The title track takes that idea even further.  “Come This Madness” is one of the album’s most ambitious compositions, built around shifts in dynamics and contrasting atmospheres. The song grows, pulls back and then gathers strength again, almost functioning as a summary of the album’s intentions. If there is a less convincing moment, it comes precisely during one of its most restrained passages: the slower section slightly interrupts the flow before the song regains its intensity. It is an ambitious choice, although perhaps one that could have been trimmed a little.

Still, the ambition pays off. Europe is not interested in delivering just another collection of efficient songs. There is a clear attempt to build an album with an identity of its own, one in which production, arrangements, lyrics and performances all move in the same direction.

“Scandinavian Eyes” reinforces that impression by introducing a more atmospheric and contemplative dimension. 

The presence of Tobias Forge and Mikael Åkerfeldt on backing vocals adds an especially interesting symbolic layer: two artists from different generations of Swedish rock contributing to the work of a band that helped put Sweden firmly on the international hard rock map. The real achievement, however, lies in the way those appearances are incorporated into Europe’s universe without turning the guests into mere promotional attractions.

Taken as a whole, Come This Madness sounds like the work of a band that no longer needs to prove that it belongs in history. And perhaps that is precisely why they are able to play with such freedom. Europe is not trying to reclaim lost youth, nor are they attempting to reproduce a formula that worked 40 years ago. Their greatest achievement here is something else: using experience as a creative tool rather than as an excuse to repeat the past.

That does not mean the album represents a radical departure. Anyone familiar with Europe’s career knows that elements of classic rock, 1970s hard rock and the band’s own roots remain firmly in place. Some choices could have been bolder, and not every composition reaches the same level of inspiration. But demanding a complete reinvention would miss precisely what makes the record interesting.

Come This Madness works because it understands the difference between identity and repetition.

Forty years after “The Final Countdown”, the most important question is no longer whether Europe can write another song like it. They cannot — and they do not need to. What matters is whether there is still creativity behind the name, whether these musicians still have something to say, and whether the band can still walk into a studio with the desire to challenge its own comfort zone.

The answer is in Norum’s guitars, Michaeli’s keyboards, Tempest’s voice, Haugland’s drums, Levén’s bass and, above all, in the way these musicians turn experience into energy.

Come This Madness is not an attempt to return to the past. It is Europe accepting its legacy, setting it aside for a moment and asking what it can still do with everything it has learned over the past four decades.

And perhaps that is the most appropriate way to celebrate 40 years of The Final Countdown: not by looking back, but by showing that the countdown is not over yet.

Andy Ford 


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Metalite: Metal, Tecnologia e Uma Dose de Futuro (Also In English)

Perception (Imp.)

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Se tem uma coisa que o Metalite sabe fazer muito bem é misturar o metal melódico com elementos modernos sem deixar o peso de lado. Formada na Suécia em 2015, a banda vem construindo sua identidade dentro do power metal moderno, acrescentando sintetizadores, elementos eletrônicos e atmosferas cinematográficas. Não é por acaso que o grupo é considerado um dos pioneiros do moderno sci-fi inspired power metal.

Em Discovery, essa proposta aparece ainda mais forte. O conceito futurista e de ficção científica é bastante ousado e está presente não apenas nas letras, mas também na própria sonoridade. Comparando com os trabalhos anteriores, sinto que a banda foi ainda mais fundo nessa ideia de unir o metal melódico aos elementos eletrônicos.

E isso já fica muito claro na primeira faixa, “Our Time Has Come”. A música é explosiva e grandiosa do começo ao fim e resume muito bem o que vamos encontrar pela frente. “In Case of Emergency” segue praticamente a mesma linha, mantendo aquela energia que parece feita para funcionar muito bem ao vivo.

Nos vocais, Erica Ohlsson realmente rouba a cena. A técnica vocal é impecável e ela consegue acompanhar toda a grandiosidade das músicas sem perder clareza ou potência. Para mim, ela é a grande estrela de Discovery.

Também gostei bastante do trabalho instrumental. A bateria de Erik Junttila mantém o álbum sempre em movimento, enquanto Edwin Premberg, nas guitarras, entrega solos bem construídos e momentos que acrescentam ainda mais peso às músicas.

Falando em produção, aqui não tem muito o que reclamar. A mixagem e a masterização ficaram por conta de Jacob Hansen, produtor conhecido por trabalhos com bandas como Amaranthe e Evergrey, e o resultado é realmente impecável. Tudo soa muito limpo, moderno e grandioso, mas sem tirar o protagonismo das guitarras e dos vocais.

Em “Into the Maze”, por exemplo, temos uma faixa mais pesada, com um ótimo solo de guitarra. Já “Echoes of You” começa com piano e traz uma atmosfera um pouco diferente, menos acelerada. É uma das faixas que mais me chamou atenção justamente por conseguir quebrar um pouco a velocidade do álbum sem perder sua identidade.

“Starchild” é provavelmente uma das músicas mais eletrônicas do disco. É dançante, moderna e tem uma energia quase impossível de ignorar, mas continua mantendo o peso do metal. É justamente esse tipo de combinação que faz o Metalite funcionar tão bem.

Outra que gostei bastante foi “Wings of Fire”. A faixa mantém a pegada moderna, mas acrescenta elementos de hard rock, criando um dos momentos mais equilibrados do álbum. A música consegue te transportar para um grande festival. O solo de guitarra também dá um brilho especial à faixa, que, para mim, é uma das melhores do disco.

“Metal Elite” também merece destaque e mantém a energia que encontramos ao longo de Discovery. Já “Triforce”, escolhida para fechar o álbum, funciona muito bem como encerramento porque permanece fiel à proposta tanto musicalmente quanto no conceito futurista.

No geral, Discovery é um disco muito energético. São 12 faixas com bastante eletrônica, refrões explosivos e grandiosos e uma produção extremamente moderna. Confesso que senti falta de um pouco mais de espaço para desacelerar em alguns momentos, talvez uma balada, mas também entendo que essa velocidade constante faz parte da proposta.

Para mim, o Metalite conseguiu entregar exatamente o que se propôs a fazer. Discovery é ousado, ambicioso e muito bem produzido, sendo um prato cheio para quem gosta de power metal melódico e não se incomoda em ver o gênero flertando bastante com a música eletrônica e a estética futurista.

É um disco que parece ter sido feito para ser ouvido alto — e, principalmente, para ser levado para o palco. Eu consigo imaginar facilmente esses refrões enormes sendo cantados por uma plateia inteira.

***ENGLISH VERSION***

If there’s one thing Metalite knows how to do really well, it’s mixing melodic metal with modern elements without losing its heaviness. Formed in Sweden in 2015, the band has been building its own identity within modern power metal, adding synthesizers, electronic elements and cinematic atmospheres. It’s no coincidence that the band is considered one of the pioneers of modern sci-fi-inspired power metal.

On Discovery, this approach becomes even stronger. The futuristic and science-fiction concept is quite bold and can be felt not only in the lyrics, but also throughout the music itself. Compared to their previous releases, I feel the band has gone even further with the idea of bringing melodic metal and electronic elements together.

This becomes clear right from the opening track,  “Our Time Has Come”. The song is explosive and grand from beginning to end, and it sums up very well what we’re about to experience. “In Case of Emergency” follows pretty much the same path, keeping that energy that feels like it was made to work really well on stage.

When it comes to the vocals, Erica Ohlsson really steals the show. Her vocal technique is impeccable, and she manages to keep up with all the grandeur of the songs without losing clarity or power. For me, she is the real star of Discovery.

I also really enjoyed the instrumental work. Erik Junttila’s drumming keeps the album constantly moving, while Edwin Premberg delivers well-crafted guitar solos and moments that add even more weight to the songs.

And when it comes to the production, there isn’t much to complain about. The mixing and mastering were handled by Jacob Hansen, a producer known for his work with bands such as Amaranthe and Evergrey, and the result is truly flawless. Everything sounds clean, modern and grand, without taking the spotlight away from the guitars and vocals.

In “Into the Maze”, for example, we get a heavier track with a great guitar solo. “Echoes of You”, on the other hand, opens with piano and brings a slightly different atmosphere, slowing things down a bit. It’s one of the tracks that caught my attention the most precisely because it manages to break up the album’s constant pace without losing its identity.

“Starchild” is probably one of the most electronic songs on the album. It’s danceable, modern and has an energy that’s almost impossible to ignore, while still keeping the weight of metal. This is exactly the kind of combination that makes Metalite work so well.

Another track I really enjoyed is “Wings of Fire”. It keeps the modern approach but brings in some hard rock elements, creating one of the most balanced moments on the album. The song can easily transport you to a huge festival. The guitar solo also gives the track an extra spark and, for me, makes it one of the best songs on the album.

“Metal Elite” also deserves a mention, keeping up the energy we find throughout Discovery. “Triforce,” chosen to close the album, works really well as a finale because it stays true to the album’s proposal both musically and conceptually, especially with its futuristic theme.

Overall, Discovery is a very energetic album. Across its 12 tracks, we get plenty of electronics, explosive and grand choruses, and an extremely modern production. I have to admit that I sometimes missed having a little more room to slow things down, maybe with a ballad, but I also understand that this constant energy is part of the album’s identity.

For me, Metalite delivers exactly what they set out to do. Discovery is bold, ambitious and very well produced, making it a great choice for anyone who enjoys melodic power metal and doesn’t mind seeing the genre flirt heavily with electronic music and futuristic aesthetics.

This is an album that feels like it was made to be played loud — and, most importantly, to be taken to the stage. I can easily imagine those huge choruses being sung by an entire crowd.

Divulgação 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Mad Max: 45 anos de histórias, mas ainda olhando para frente

ROAR (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Quarenta e cinco anos de carreira costumam colocar uma banda diante de uma escolha: olhar para trás ou tentar provar que ainda existe futuro pela frente. Stories Of Destiny, novo álbum do Mad Max, tenta fazer as duas coisas, e seu maior mérito está justamente em não tratar essas possibilidades como opostas.

Lançado em 4 de setembro de 2026 pela ROAR!, Stories Of Destiny chega como uma celebração dos 45 anos da banda alemã, fundada em Münster por Jürgen Breforth em 1981. Mas o aniversário é apenas o ponto de partida. O álbum reúne material novo, composições que ficaram guardadas por décadas, uma releitura de um clássico da própria banda e até a primeira música do Mad Max com letras em espanhol.

A formação também carrega essa ideia de passado e presente convivendo no mesmo espaço. Alan Clark assume os vocais principais, enquanto Andreas Baesler, primeiro vocalista do Mad Max, retorna ao microfone pela primeira vez em 45 anos. Jürgen Breforth continua sendo o eixo criativo e guitarrístico, acompanhado por Dethy Borchardt, Fabian Watermann e Axel Kruse.

E existe uma diferença importante entre fazer um álbum comemorativo e fazer um álbum sobre a própria história. Stories Of Destiny escolhe a segunda opção.

O resultado é um disco de hard rock melódico que não tenta esconder suas referências oitentistas, mas também não parece interessado em transformar o Mad Max em peça de museu. As guitarras continuam ocupando o centro do palco, os refrões são grandes e a produção de Rolf Munkes mantém tudo limpo e musculoso.

1. “Silver”

“Silver” é uma abertura extremamente segura. A guitarra aparece imediatamente como protagonista e, em poucos segundos, fica claro que o Mad Max não pretende começar seu 45º aniversário com uma balada ou uma introdução excessivamente conceitual. O riff tem peso, mas existe uma leveza melódica por trás dele que impede a música de soar agressiva demais.

É justamente essa combinação que define o disco. O verso é mais contido, enquanto o refrão abre a música e deixa Alan Clark mostrar por que sua entrada na formação é uma das novidades mais importantes desta fase. Sua voz tem uma aspereza interessante. Existe uma referência inevitável ao hard rock melódico clássico, mas Clark não soa como alguém tentando reproduzir vocalistas de outra geração. Ele traz uma personalidade própria, especialmente quando as guitarras ganham peso.

2. “Weapons Of Love”

“Silver” termina deixando uma impressão bastante imediata, e “Weapons Of Love” escolhe não aumentar a velocidade. É uma decisão interessante. A segunda faixa trabalha mais a melodia e o balanço do hard rock do que o peso. O riff é relativamente econômico e o refrão aposta em uma construção bastante clássica de arena rock.

3. “Keep You Alive”

É aqui que Stories Of Destiny finalmente mostra os dentes. “Keep You Alive” começa de maneira mais contida, quase enganando o ouvinte sobre o que está por vir. Quando as guitarras entram com força, a música muda completamente de dimensão.

O riff é mais pesado e o baixo de Fabian Watermann ganha uma presença que não estava tão evidente nas duas primeiras faixas. E o refrão é exatamente o tipo de coisa que o Mad Max sabe fazer bem: grande, direto e feito para crescer quando cantado por uma plateia.

4. “Far Behind”

“Far Behind” muda novamente o clima. Se “Keep You Alive” funciona pelo impacto, aqui o Mad Max trabalha com espaço.

As guitarras são mais abertas e o andamento permite que Alan Clark conduza a música sem precisar disputar atenção com a banda. É uma composição mais emocional, mas não chega a ser uma power ballad convencional. Existe uma melancolia no arranjo, especialmente na forma como as guitarras sustentam as linhas vocais.

5. “Piece Of Candy” — 2026 Version

“Piece Of Candy” é o coração histórico do álbum. O riff que deu origem à música foi o primeiro riff de guitarra escrito por Jürgen Breforth para o Mad Max, em 1981. Quarenta e cinco anos depois, ele volta a ser gravado com a formação atual.

Mas o detalhe que realmente transforma a faixa em algo especial está nos vocais. Alan Clark divide a música com Andreas Baesler, o primeiro vocalista do Mad Max. É impossível ouvir essa escolha apenas como uma participação especial. A música passa a funcionar como uma conversa entre duas épocas da banda.

Instrumentalmente, a nova gravação mantém a essência do hard rock clássico, mas recebe uma produção muito mais definida. As guitarras têm mais corpo, a bateria soa mais robusta e o refrão ganha uma amplitude que provavelmente não existia na gravação original.

6. “‘Til The End Of Time”

Depois da carga histórica de “Piece Of Candy”, o álbum poderia facilmente perder força. Não perde. “‘Til The End Of Time” é a segunda composição recuperada das sessões de 1991, e talvez seja uma das melhores surpresas do disco justamente porque soa como uma peça que encontrou o momento certo para finalmente existir.

A música tem um balanço mais encorpado e uma pegada que remete diretamente ao hard rock europeu do final dos anos 1980 e início dos 1990. As guitarras têm mais presença e o ritmo é mais envolvente. É também uma daquelas faixas em que se percebe como a produção moderna pode beneficiar uma composição antiga sem necessariamente descaracterizá-la.

7. “Bullet”

“Bullet” é onde o disco ganha outra injeção de energia.

O riff tem mais ataque e a guitarra volta a ocupar o primeiro plano. A bateria empurra a composição para frente e o refrão mantém a preocupação melódica que atravessa o álbum. Mas existe algo particularmente interessante aqui: a música tem uma pegada de hard rock americano que lembra, em alguns momentos, aquela tradição de bandas que conseguem equilibrar peso e refrões extremamente acessíveis.

8. “Mad Gone Blind”

“Mad Gone Blind” é uma das melhores músicas do álbum. E é também uma das que melhor mostram o potencial da formação atual.

A estrutura é mais dinâmica, as guitarras têm mais peso e Alan Clark parece especialmente confortável quando a banda aumenta a intensidade. O refrão é grande sem ser excessivamente açucarado, e há uma boa alternância entre momentos de maior agressividade e espaços para a melodia respirar.

9. “She Was Mine”

Depois de “Mad Gone Blind”, o álbum desacelera novamente. “She Was Mine” entra em um território mais sentimental, mas sem abandonar completamente as guitarras.

É uma faixa que depende bastante da interpretação de Clark. Sua voz fica mais limpa e menos agressiva, permitindo que a melodia carregue a música. Não é necessariamente uma composição revolucionária, e provavelmente não precisa ser. Ela representa aquela tradição do hard rock em que a banda deixa a velocidade de lado para construir uma história emocional.

10. “Wings Of Freedom”

“Wings Of Freedom” é a grande balada de Stories Of Destiny. Mas existe uma diferença importante entre uma balada simplesmente colocada no meio de um álbum e uma composição que realmente entende seu papel dentro da sequência.

Aqui, ela chega na hora certa. A música começa de maneira mais delicada e cresce gradualmente, permitindo que as guitarras entrem sem destruir o caráter emocional da composição.

O refrão é amplo e claramente pensado para ser cantado ao vivo. E existe uma espécie de mensagem de encerramento antecipado na letra: liberdade, movimento e a capacidade de seguir adiante.

11. “Dulces Falsos”

E então vem “Dulces Falsos”. A decisão de terminar o álbum em espanhol poderia parecer, à primeira vista, apenas uma curiosidade. Não é.

“Dulces Falsos” é uma nova versão de “Piece Of Candy” e representa o primeiro lançamento do Mad Max com letras em espanhol. A música foi pensada como uma homenagem à base de fãs latino-americana, especialmente importante para a história recente da banda na região. E a escolha de fechar o álbum com ela é bastante inteligente.

Depois de passar 45 anos olhando para sua própria história, o Mad Max termina olhando para fora.


Steffi Kruse

Confira a tracklist completa de Stories Of Destiny:

1. Silver

2. Weapons Of Love 

3. Keep You Alive 

4. Far Behind 

5. Piece Of Candy (2026 Version) 

6. 'Til The End Of Time 

7. Bullet 

8. Mad Gone Blind 

9. She Was Mine 

10. Wings Of Freedom

11. Dulces Falsos