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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Barbarity: a brutalidade da bárbarie e da não-vida



Para além dos gostos pessoais por podreiras (eu me incluo), seria clichê afirmar que a brutalidade é primal ao analisar o Brutal Death Metal qualitativamente. Justamente estou aqui tentando mostrar algum critério e penso que os clichês trabalham em extremos, aprimorando ou execrando o objeto. No caso de Barbarity temos o primeiro caso, de longe a banda se eleva dentro do estilo, é abissal a sua habilidade com a agressividade.

Os blast beats são muito bem colocados, os riffs são assassinos e o vocal é enfurecedor. No Brutal Death Metal é muito fina a variação do repertório sonoro nas músicas, é fácil uma banda soar mais do mesmo ou fazer com que você não lembre nenhuma música deles mesmo após ouvir várias vezes seu CD, isso não é demérito ao meu ver, – inclusive gosto, me sinto num loop eterno de destruição sem fim – mas não teria como não ser um mérito o som se sobressair e te marcar.

Barbarity não se esqueceu da variação necessária para uma referência ao peso extremo do som, há paradas e reduções dos andamentos, sem perder a brutalidade. Aí está a finesse dos Russos. Não estou falando que Brutal Death tem que ter progressividade, ao contrário, me parece que a banda tem mérito justamente porque percebeu que “menos é mais”, sem queimar riffs os caras te deram um prato cheio de barbaridade em Debut “Keeper of Oblivion” (2018).


Destaque para a faixa “Desfigured and Burnt”. É difícil encontrar uma banda com linhas de baixo tão enraizadas e guitarras tão ferozes em forma crua e integrada. Você sente que a música foi construída pelo baixo e que tudo parte deste peso inicial, ao ouvir você sabe que a banda funciona como um coletivo, o som é justamente o oposto daqueles sons super performáticos onde parece que cada instrumento foi para um lado e a música foi para a casa do baralho.

Outro som incrível é “When Heaven Turns Into Hell”, aqui você toma um coice de mula na fonte! A música é uma pedrada do começo ao fim, o espírito eslavo se deflagra aqui de forma devastadora nesse som, as dinâmicas lembram os momentos mais Death Metal do Sepultura com uma pitada BRUTAL. Os caras não pouparam nada.

Resenha por: Nicolas Quadros


Formação:
Roman – Vocals
Stephatred – Guitars
Bonif – Bass
Thanatoly – Drums


Tracklist:
1. Slave for the State    
2. Die in Bloodshed
3. Keeper of Oblivion
4. Suicide Is Not Weakness
5. Disfigured and Burnt
6. When Heaven Turns into Hell              
7. Under a Tombstone
8. VI
9. My Lonely Grave

Links:
barbarity.bandcamp.com

Instagram: @barbarityband

domingo, 4 de junho de 2017

Concordea: Metal Russo de Criatividade e Emoções Diversas



Evolução é o que se espera de uma banda, e o Concordea, que foi fundada na grande Ekaterinburg (região Ural da Rússia), partindo da busca da guitarrista e compositora Daria Piankova por companheiros para formar uma banda, isso em 2011, e somente em 2012 a banda, já com Aleksei Turetckov (Teclados), completou a primeira formação.  Em 2014 lança seu EP de estreia, e mostrava já a busca por uma identidade e novos caminhos dentro do Power Metal, procurando apresentar contrastes interessantes e criativos, mesclando peso, belas melodias, certas doses de dramaticidade e melancolia. (English Version)

Passaram-se 3 anos do EP "Before the Sunrise" (que teve o vocalista italiano Andrea Bicego, do 4th Dimension, nos vocais), e muita coisa mudou na banda, restando apenas o núcleo criativo Daria Domovik (guitarras) e Aleksei Turetckov (teclados), e a dupla foi buscar a ajuda do baixista Ilya Reyngard (Incarnator), que trouxe peso e técnica com suas linhas, e mais uma vez tem um cantor italiano, Felippo Tezza (Chronosfear, Tezza F.), uma boa promessa vinda da bota, e ambos prestaram um serviço muito bom, entendendo muito bem a proposta da banda (a bateria foi gravada por músicos contratados, não creditados).


O Progressive Melodic Power Metal temperado por esses contrastes (lembram aquele estilo finlandês, dos bons anos de Stratovarius, Sonata Arctica e até algo do Nightwish, que trazem também esse lado mais dark e melancólico), ganhou em qualidade e maturidade, envolto por uma produção superior a do EP, e com composições também melhor lapidadas, apresenta uma sonoridade que tem peso e melodia, tem velocidade mas também momentos de calmaria, e nada daquele Power Metal com "melodias felizes" e somente bateria e riffs a velocidade da luz, o que temos são arranjos que trazem momentos doses de melancolia, alternando passagens progressivas, atmosféricas, nuances sinfônicas e pitadas de peso e agressividade, e excelentes melodias.

Mas o trunfo mesmo são as melodias criativas, na maioria comandadas pelos arranjos de teclados de Aleksei, que são os que mais contribuem para dar esses contrastes e climas, que encaixam perfeitos nas bem escritas letras de Daria, a qual também faz um bom trabalho nos seus riffs, bases pesadas e solos melodiosos. Uma dupla afinada.

Complementando sobre as letras, que também no EP de estreia já era demonstrada uma qualidade alta, e acabo sempre lembrando da parceria do Aria (tradicional banda de Heavy Metal Russa) com os poetas Margarita Pushkina e Alexander Yelin, e o Concordea tem esse ar poético, por vezes sonhador, um pouco dark, e até romântico, mesmo quando são abordados assuntos bem atuais, como as vidas mergulhadas nas redes sociais e até as próprias experiências pessoas enfrentadas pela banda. Méritos a Daria Piankova pelo belo trabalho lírico.

Aleksei Turetckov
O álbum, como seria de esperar, pela proposta em ter esses contrastes,  traz uma boa variedade nas músicas, abrindo com a intro atmosférica "Breathe New Life", e logo em seguida temos um "Speed" Power Metal "tradicional" de riffs e cozinha vibrantes, com "Wing's Motion", onde podemos perceber já as atmosferas melancólicas nos belos arranjos de teclado; "Confession of my Pride", inspirada na lenda Russa  "Tsarevna Lyagushka" (A Princesa Sapo), tem pegada nos riffs, baixo pulsante e bateria agressiva, contrastando com os teclados que tem um algo de Gothic Metal; "When they Want you to Die" tem pegada e uma certa "raiva", em momentos bem agressivos e sinfônicos, alternando trechos climáticos e de "quebradeira".

"Between Two Worlds", que fala de um tema bem atual, sobre de como as vidas estão mergulhadas nas redes sociais, nos traz uma faixa com mais nuances progressivas, várias trocas de andamentos e breaks, e gostei bastante dos arranjos vocais; "Mermaid's Song" alterna peso e melodia, com boas variações rítmicas, e o peso e nuances progressivas estão presentes, destacando sempre a atmosfera dos teclados.

"Portrait" é uma peça acústica, com flautas, violinos e violoncelos, um clima de calmaria, meio folk, que faz o ouvinte flutuar; em seguida, "Listen to the Snow", é um Melodic Power Metal com bastante carga emocional e doses de poesia na letra (gostei novamente dos vocais, que souberam colocar emoção na dose certa), seguindo por andamentos e arranjos de teclados tocantes, melodiosos e cativantes; depois dessa peça melódica, prepare-se para  "Rejected and Awoed", que é bem agressiva, bateria veloz, e com elementos sinfônicos e progressivos, mas o destaque mesmo é agressividade e peso, inclusive nos vocais, mostrando mais uma vez essa diversidade e criatividade da banda.

Daria Piankova
O álbum termina com muita emoção, através da "balada" "The Unknown", que traz uma bela e marcante melodia de piano no início, melodia essa que se torna principal da canção, que traz essas doses dark, um ar melancólico, começa mais melodiosa e vai ganhando mais peso. Felippo coloca bastante emoção nos vocais, e destaco ainda o solo de guitarra melodioso e cheio de feeling de Daria ao final. e claro, mais uma bela letra, segundo Daria comentou, inspirada em Alexander Pushkin, o grande poeta Russo da era Romântica.

O ouvinte vai perceber a criatividade da banda e uma qualidade louvável nas composições, e é ótimo ouvir algo nesse estilo que traz novos ares e desperta interesse, ou seja, não é preciso ter muito dinheiro e uma superprodução, o que esperamos é ouvir música bem feita, com feeling, criativa e que se percebe que é verdadeira, nesses quesitos o Concordea está de parabéns, e com "Over Wide Spaces", onde puderam dispor de melhores condições em termos de produção, confirmaram as qualidades percebidas no EP de estreia. Tem tudo para ser melhor notada e angariar admiradores. Recomendado!

Texto: Carlos Garcia

Banda: Concordea
Álbum: "Over Wide Spaces" (2017)
País: Rússia
Estilo: Progressive Melodic Power Metal
Produção: Daria Piankova e Aleksei Turetckov
Mixagem e Masterização: T A Production
Independente
Arte da capa: Gaspare Frazzitta

Adquira o CD - Order the CD on Bandcamp
Amazon

Canais Oficiais:
Facebook
Spotify

Line-Up:
Daria Domovik Piankova: Guitarras
Aleksei Turetckov: Teclados
Felippo Tezza: Vocais (músico convidado)
Ilya Reyngard: Baixo
(Bateria foi gravada por músicos contratados, não creditados)

Tracklist:
1. Breathe New Life
2. Wings’ Motion
3. Confessions of my Pride
4. When They Want You…To Die
5. Between Two Worlds
6. Mermaid’s Song
7. Portrait
8. Listen to the Snow
9. Rejected and Avowed
10. The Unknown

   

   

sábado, 26 de setembro de 2015

Arkona: Folk/Pagan Metal Envolto em Atmosfera e Musicalidade Grandiosa


Os russos do Arkona são classificados como Pagan/Folk Metal, e hoje são, sem dúvidas, umas das grandes referências do estilo, e podemos dizer também, o grande nome do Metal russo, e apesar de se expressar em sua língua natal, não lhe impediu de alcançar outros mercados, inclusive o brasileiro, por onde a banda se apresentará em outubro (assista AQUI recado da vocalista Masha aos fãs brasileiros), e a versão nacional de seu mais recente trabalho ("Yav" - Napalm Records) chega na hora, via Shinigami records.


Liderada pela carismática vocalista Masha, diferente de muitas bandas do estilo (Pagan/Folk), que possuem aquela sonoridade que remete a climas "festivos", bebedeira, histórias de batalhas e danças em volta da fogueira, o Arkona vai por um caminho mais "sóbrio", encarando com muita seriedade suas raízes e crenças pagãs e cultura eslava.

Em uma sonoridade e temáticas, densas e belas, mas também pesadas, agressivas e atmosféricas, os russos cativam o ouvinte, inclusive pela atmosfera que passam os instrumentos étnicos utilizados nas músicas e a sonoridade peculiar da sua língua pátria. Destaque também para a belíssima capa, onde, uma princesa pagã, eu diria, ajoelhada em frente a um lago tem sua imagem refletida, mas de forma diferente, provavelmente significando Yav (que na mitologia eslava significa o mundo material, onde estão as criaturas vivas) e Nav (o mundo imaterial).


"Zarozhdenie", com seus mais de 9 minutos abre o álbum, apresentando a belíssima e pesada música do grupo, arranjos de teclados e instrumentos tradicionais dão os tons e climas, envolvendo o ouvinte em sua atmosfera, enquanto que Masha alterna vocais limpos e "screams" com maestria e feeling, em interpretações envolventes e sendo agressiva quando necessário. Uma daquelas bandas que você sente que acreditam no que fazem, tocam com paixão e fazem com que você sinta a música, apesar das diferenças ou estranheza que a língua possa causar para alguns, mas acredite, é um dos elementos que deixam a atmosfera mais bela, e o encarte ajuda, pois traz as versões em inglês.


A criativa "tempestade" sonora pode ser sentida em "Na Strazhe Novikh", que passa por caminhos mais extremos, ritmos típicos como a balalaika e experimentações mais modernas; "Ved'ma" traz trechos da dança típica horovod e "Chado Indigo" belo arranjo de piano, grandes riffs, e também um coro de crianças, tudo regado a mais sons típicos, mas nada se compara a épica faixa título, "Yav", com cerca de treze minutos de duração, uma jornada musical que leva o ouvinte a uma viagem por entre climas sombrios, folk, com peso e melodia.

Um álbum perfeito, uma verdadeira celebração, indicado não só a fãs de Folk/Pagan ou Metal Extremo em geral, mas para ouvintes exigentes, sendo um trabalho para ser degustado em várias audições para uma compreensão e proveito mais completo.
Rate: 9,5/10


Banda: Arkona
Álbum: Yav
País: Rússia
Estilo: Folk/Pagan Metal
Selo: Napalm Records (Licenciado para a Shinigami Records)
Adquira o álbum na Shinigami AQUI



Membros:
Masha "Scream" – voice
Sergei "Lazar" - guitar
Ruslan "Kniaz" - bass
Andrey Ischenko - drums
Vladimir "Volk" - wind ethnic instruments
Anton Dobrovolskiy - keyboards, samples(live)

Track listing:
1. Zarozhdenie
2. Na Strazhe Novyh Let
3. Serbia
4. Zov pustyh dereven’
5. Gorod Snov
6. Ved’ma
7. Chado Indigo
8. Yav’
9. V Ob’yat’yah Kramoly




 





domingo, 13 de julho de 2014

Entrevista - Concordea: From Russia With...Metal!


(CLICK HERE TO READ THE ENGLISH VERSION) Quando se pensa em Heavy Metal na Rússia, o primeiro nome que vem e mente é “Aria”, banda fundada em 1985 (ainda na antiga URSS), o “Iron Maiden Russo”, com suas belas letras, muitas escritas pelos poetas Alexander Yelin e Margarita Pushkina,  provavelmente é a maior referência do Metal daquele país, uma das primeiras a romper barreiras.

Muitas novas bandas tem surgido na Rússia, e o Concordea, vem buscando seu espaço, trabalhando duro, tendo uma sonoridade muito criativa, com composições bem trabalhadas, a exemplo do clássico “Aria”, também com letras belas e poéticas (porém, com a diferença que são escritas pelos compositores da própria banda),  mostrando que, quem sabe possam ser em breve, uma nova referência do Heavy Metal russo. Talento eles mostraram possuir, e deixam a certeza que e um próximo álbum, talvez com um produtor experiente e um melhor estúdio, alçarão vôos mais altos.

Para levar aos leitores, como sempre buscamos fazer, um pouco mais sobre as novas promessas que surgem pelo mundo metálico, conversamos com a bela e talentosa guitarrista e fundadora Daria Piankova, que nos conta sobre a cena russa (onde podemos perceber que não é só no Brasil as dificuldades de manter uma banda de Metal), as gravações do recém lançado primeiro trabalho, a participação do vocalista italiano Andrea Bicego (4th Dimension), e até sobre a copa do mundo de 2018, e muito mais, confira a seguir !

 Daria Piankova
Road to Metal: A banda foi fundada por você e Alexey, em 2011, certo? Conte-nos um pouco da história da banda.
Daria Piankova: Na verdade o primeiro membro da banda que conheci foi Nikolay Konstantinov, nosso baixista e compositor. Isto foi em 2009, quando eu estava começando a minha busca pelos companheiros para tocar. Mas nossos caminhos seguiram em separado. Nós nos encontramos novamente no verão de 2011. Eu já havia encontrado Alexey antes, no inverno. A procura foi longa ...

O line up só foi concluído em 2012. No início de 2013 o vocalista Dmitri nos contou sobre sua decisão de partir de Ekaterinburg e seguir carreira de cantor de ópera. Além disso, devo contar-lhe sobre algumas mudanças que  aconteceram recentemente: o segundo guitarrista Alexey deixou a banda, agora vamos contar com Konstantin Kirillov, e Denis Baranov está  nos vocais. Essa é a nossa curta crônica.
      
RtM: E para os leitores que estão conhecendo a banda, como você descreveria o som do Concordea?
DP: Temos um poderoso som de guitarra, bateria Thrash, teclados "atmosféricos". E toda essa massa sonora é liderado por vocais altos ... isso é o que você pode ouvir no nosso EP. Apesar do fato de que somos de uma banda, todos nós temos  diferentes gostos musicais (felizmente ou infelizmente, depende do ponto de vista ha ha ha) e você pode sentir isso ao ouvir nossas músicas.

Line up atual, com Alexey, Denis, Daria, Konstantin, Nikolay e, ao fundo, na bateria, Roman
RtM: Quais são as influências musicais que você pode nomear e de que forma você acredita que a banda vai ter um diferencial no cenário?
DP: Como as músicas estão sendo escritas por Nikolay e eu, há muitas influências. Até onde eu sei, Nikolay foi influenciado por diversas bandas de vários estilos, em diferentes períodos da vida: Aria ( banda de heavy metal muito famosa aqui na Rússia, Rammstein, King & Jester (Korol’ i Shut in Russian, uma banda Russa de Punk Rock) , Nightwish, Sonic Syndicate.

Quanto a mim, eu gosto de um monte de música diferente também, desde a música barroca e música clássica em geral, ao rock clássico, de symphonic black metal/death a New Age. Também tive forte influência, obviamente, pelo Power Metal  italiano e finlandês, da cena dos anos 90 e 2000 (Rhapsody, Vision Divine, labirinth, Highlord, Nightwish, Sonata Arctica, etc) Portanto, esta variedade será certamente impressa em nossas músicas também no futuro.

RtM: Com relação ao que eu perguntei antes, eu vou dar a minha opinião sobre o que eu aponto como um diferencial, que são as letras, e as variações no som, transmitindo várias emoções e sentimentos. Comente um pouco sobre o que te inspira a escrever as canções.
DP: Toda a beleza que me faz experimentar sentimentos. As emoções fortes movem-me para o trabalho criativo. Uma grande canção, um concerto inspirador, uma pessoa original, um texto profundo, uma vista inesquecível ... às vezes é o suficiente ver as nuvens mudando no céu ou o modo como o sol brilha e você já quer escrever sobre isso.


RtM: Para gravações dos vocais em "Before the Sunrise" vocês contaram com Andrea Bicego, da banda italiana "4th Dimension". Como surgiu a oportunidade? Existe possibilidade dele contribuir novamente com banda?
DP: Quando Dmitri decidiu deixar a banda, nós já vínhamos conversando com Andrea por vários meses, discutindo vários assuntos musicais. Se uma banda não tem um cantor, significa que não há concertos, não há gravações. Ensaios infinitos, sem qualquer chance de ser ouvido. Durante muito tempo, não conseguimos encontrar alguém que pudesse se encaixar pelo menos um pouco da nossa música. E eu tive a ideia de convidar Andrea (Bicego,vocalista do 4th Dimension), embora isso envolvesse riscos. Eu ouvi o seu trabalho ao vivo e também em CD, achei que sua voz poderia perfeitamente combinar com a música do Concordea.

Ele imediatamente aceitou a minha oferta para cantar nossas músicas, ele gostou do material. Então ele gravou algumas versões demo,  primeiro foi "Behind the wind", e ele saiu-se de forma fantástica ... Nós TODOS gostamos de seu desempenho e Andrea se tornou nosso cantor oficial para as gravações. Mas, como você pode imaginar, para uma banda como a nossa, é um enorme desafio viver e tocar em um país e  ter um vocalista em outro ... Embora tivéssemos algumas conversas a respeito de concertos comuns com Andrea, há muitas dúvidas sobre a possibilidade de realização. No entanto, eu acredito que tudo muda e tudo é possível se ambas as partes têm vontade recíproca e um propósito ... Por falar nisso, como eu já disse, no momento estamos realizando concertos com um cantor local, e suas habilidades vocais são muito diferentes das  de Andrea.

Andrea Bicego e Daria durante as gravações
RtM: Daria, eu sei que você escreve boa parte das letras e músicas, e muitas das linhas vocais  também. Como foi trabalhar as linhas vocais com Andrea? Ele também ajudou com as composições?
DP: Bem, a autoria musical é de cerca de meio a meio, metade escrito por Nikolay,  metade por mim. Devo dizer que Nikolay é ótimo com os arranjos, especialmente arranjos de teclado. A maior parte das linhas vocais são minhas, você tem razão. É por isso que eu confiei na capacidade de Andrea: ele é muito preciso e atencioso com as letras e melodias.

Ele sabia que eu tive de traduzir meus textos originalmente em Russo para Inglês, e ele era muito cuidadoso com o seu sentido e forma, quando ele ia mudar alguma coisa para torná-lo mais pronunciável. Eu acho que nós estávamos na mesma sintonia; ele pegava imediatamente a entonação certa e ataque que eu pedia. Eu gostei de quase todas as soluções criativas que ele ofereceu, e certamente ele parecia ser bastante profissional para uma pessoa tão leiga como eu. Eu sou muito grata a ele. Foi uma grande experiência ... e, por vezes, muito difícil também, ahahah.

RtM: Bem, sobre seu debut, o EP "Before the Sunrise", conte-nos um pouco mais sobre a gravação e produção. E como vocês chegara até o selo DeFox/Heart of Steel?
DP: A parte instrumental foi gravada aqui em Ekaterinburg, no estúdio "Rukami". Foi a primeira experiência para muitos de nós, e que não foi tão fácil para mim, hehehe. Oorreu que eu gravei quase todas as partes de guitarra, com exceção de alguns solos. Os vocais foram gravados no "Greenriver Studio" em Varese, Itália.

Eu acompanhei todas as sessões lá. O "Greenriver Studio" foi o mesmo onde toda a mixagem e masterização foram feitas. O estúdio pertence a Tancredi Barbuscia. Ele fez um ótimo trabalho! Foi Andrea que o recomendou. O segundo álbum do 4th Dimension foi completamente gravado e mixado lá, afinal de contas. Quanto ao selo "Heart Of Steel" , a mesma situação: Andrea ofereceu nossos materiais para eles, e depois isso eles estavam prontos para lançá-lo.
   
RtM: Como eu disse, as letras são um diferencial nas canções do Concordea, e a faixa-título tem uma letra bem poéticas (Como sabemos, a Rússia tem uma grande tradição nessa área, de pensadores e poetas), e é minha faixa favorita até agora! Eu gostaria que você comentasse um pouco mais sobre esta canção.
DP: Esta canção foi escrita por Nikolay, e posso dizer que é um “hit”. Originalmente ela levava o título de "In the Shadow", e eu comecei à partir deste ponto. A faixa é muito poderosa, bateria grandiosa, guitarras potentes e teclados principais muito bonitos, que tornam o seu espírito muito místico, agressivo e sombrio. Eu imaginei uma floresta sombria: quando último raio de sol se perde, parece que quando você perde a última esperança ... na verdade, você vai encontrar a descrição de uma noite mística nas letras. Mas anseio por luz e calor, sensação de desespero, muitas vezes, tende a esquecer que "a noite é mais escura antes do amanhecer". Aliás, entre os 4 textos, este é o que Andrea trabalhou mais.


RtM: E sobre "Behind the Wind", soa mais melódica e Prog, mas com a parte final quase Thrash! Eu acho que também traz a tradução da essência da banda como um grupo com suas diversas influências, e como todos esses fatores funcionam juntos. Você concorda? Você pode comentar sobre isso?
DP: Ao meu ver, "Behind the wind" é a mais complicado entre as quatro músicas do EP. Cada instrumento interpreta esta composição da melhor maneira possível. A ideia original foi minha, Nikolay acrescentou o belo refrão, e eu compus a linha vocal. Roman trabalhou duro no arranjo para a bateria, que acabou por ser muito complicado. Alexey (guitarrista) decidiu compor um solo, Andrea mudou um pouco a estrutura, ele deixou o espaço para solo de teclado e Alexey (teclados) inventou uma bela variação de sintetizador sobre o tema principal.

É uma canção muito “Concordea”, é épica, romântica e agressiva; melancólica e um pouco desesperada. A parte final é muito próxima ao thrash, você notou certo! A bateria intensifica o efeito dramático.
Além disso, você vai encontrar lá as variações do riff de guitarra, que são muito intensivos, também... E parece que os acordes dramáticos finais querem fazer você desistir de qualquer esperança, as letras ajudam muito bem: "Vossa Alteza é pego pelo vento e levado ". Eu gosto muito do desempenho de Andrea aqui. Seu ataque e estilo de expressão são apenas uma excelente. Ele pegou bem as entonações que eram quase inatingíveis para os cantores que tínhamos antes.

RtM: Continuando, fale mais sobre a bela letra desta música. "Saciar a minha sede, saciar meu fogo, aliviar-me de pensamentos dolorosos!" E então... não vai haver nenhuma resposta! (não haverá resposta...) "
DP: Quanto as letras... Eu gosto de que os ouvintes façam as suas próprias associações. Andrea disse uma vez que ele tinha lembrado da “Tempestade”, de Shakespeare, ahahah. Bem, as letras têm fundo muito pessoal. Por uma questão de fato, é uma canção sobre o meu amor não correspondido, sobre a minha paixão.

As letras poéticas e dramáticas de Daria são parte importante da identidade do Concordea
RtM: Como dissemos antes, as canções do Concordea têm várias nuances, contrastes e sentimentos, e complementando, vamos falar sobre as duas últimas faixas, gostaria que você comentasse " Delusive Shades", que soa mais "dark" e tem uma linha vocal interessante , onde Andrea praticamente interpreta a canção!
DP: Eu concordo totalmente com você! Eu considero " Delusive Shades", a canção mais "mística" do EP do ponto de vista tanto da parte instrumental, como da parte vocal e textual... As letras que eu escrevi para ela são minhas favoritas. A mesma pessoa que me inspirou a escrever "Behind the Wind", foi a minha inspiração para "Delusive Shades” também. Na verdade, as letras sobre "dança em círculo de tons" e "transformando-se em uma sombra" são a interpretação de uma fantasia ou, melhor dizendo, um vestido alegórico para algumas camadas muito pessoais da minha vida, a vida dessa pessoa e os meus fortes sentimentos em relação a ele... Mas, na verdade, toda mundo poderá interpretar o texto a sua maneira, eheheh.

A música soa muito gótica, e cada parte de guitarra, cada parte do teclado, a cada mudança de ritmos criam uma atmosfera especial.  Desculpem-me (não é legal elogiar as próprias composições, heheeh), mas a parte final desta canção ainda me dá arrepios! Esta palavra “wistfully” (N. do R.: Daria cita aqui o refrão, e realmente, essa parte tem um clima bem místico e tenso) soa perfeita em Inglês e soa como um feitiço para o final... E o rangido duradouro da guitarra faz você se sentir profundamente na atmosfera mística da música, e faz você se encantar... bom, Isso é o que acontece comigo ouvindo a música, eu não sei o que os ouvintes dirão, ahahah.

Andrea Bicego: Prestem atenção nesse cara! Grande revelação italiana.
RtM: ... quanto a  "Message", poderíamos dizer que soa mais "brilhante" e mais "up".
DP: Quanto à "Message", é  uma alegre e pacífica canção, se trata de coisas esotéricas: cada música que escrevemos é um dom das "forças supremas" que se traduzem em músicas e letras. E toda essa canção é uma espécie de "mensagem" que enviamos aos nossos ouvintes ... E essas "mensagens"  precisam ser sinceras e amáveis em essência, porque temos de concentrar a nossa consciência sobre a beleza, harmonia e paz para criar uma realidade pacífica e bela em torno de nós. É simples e é difícil. A variedade musical de "Message" é exatamente sobre isso: há muitas passagens de guitarra, existem vários ritmos, baterias incomuns e solos rápidos. E a voz de Andrea se adapta a música muito bem, poderia dizer que seu vocal aqui soa “leve”.
      
Nikolay on stage!
RtM: Bem, vamos saber um pouco mais sobre você. Quando você começou a tocar guitarra, e como nasceu a paixão por este estilo musical?
DP: Eu comecei a tocar violão um pouco tarde, quando eu tinha 19 anos, eu peguei algumas aulas particulares.. De um modo geral, o meu primeiro instrumento já era a flauta quando eu tinha 7 ou 8, e com a idade de 10 eu comecei a tocar piano. A paixão por este estilo musical nasceu em 1999, quando eu ouvi pela primeira vez para o álbum "Symphony of Enchanted Lands". Eu tinha 12 anos, eu estava completamente encantada por Rhapsody (of Fire) e minha vida mudou totalmente a partir daquele momento.

RtM: Falando sobre o cenário russo, conte-nos como é o apoio para as bandas, o espaço para shows e condições (incluindo econômicas) para manter uma banda de Metal? Algum tempo atrás, a Rússia era fechada para muitas coisas.
DP: Bem, um dos chamados "apoios" é quando você pode  alugar algum espaço totalmente equipado, para pagar 1-2-3-4 ou  muitas horas e tocar lá com os seus companheiros de banda. Há uma grande quantidade de pequenos eventos realizados em pequenos pubs ou bares, onde várias bandas podem tocar em uma noite. Se você tem dinheiro e capacidade suficiente, você sempre pode pagar, e aí tocar uma vez como banda de apoio em alguma turnê de alguma estrela. Muitas vezes, o mesmo acontece com os festivais. Como você pode ver, a única e mais confiável forma de apoio, é o nosso entusiasmo e nosso amor para com o que tocamos e o que fazemos.


RtM: Bem, você é um dos fundadores da banda, compositora, e tem outras responsabilidades, praticamente tendo de assumir uma liderança natural. Em sua opinião, quais habilidades e características que um líder moderno de uma banda precisa possuir?
DP: Além das habilidades musicais,  deve ser bastante flexível, forte o suficiente ... cheio de várias ideias e deve traduzi-las em realidade.  Deve ser interessante, amigável e talvez um pouco excêntrico a fim de fazer os outros segui-lo.... É assim que eu vejo isso no momento.

RtM: Eu percebo agora que aqui no Brasil estamos tendo a Copa do Mundo de Futebol, e a próxima Copa será na Rússia. Aqui houveram muitas críticas por causa de gastos do governo, e algumas manifestações populares e protestos, mas quanto os eventos e recepção aos turistas, tudo correu relativamente bem, porque o povo brasileiro é muito hospitaleiro. E aí no seu país, como vocês estão vendo o fato de que a Rússia será o próximo país a receber a Copa do Mundo?
DP: Você sabe que está prevista a realização  também em Ekaterinburg? Eles querem construir e reconstruir estádios e prédios, mudando algumas construções dentro da cidade. Vai afetar fortemente a vida das pessoas. Muitos cidadãos de Ekaterinburg e de outras cidades também disputam esses programas. É óbvio, eles não têm sentido, tal volume de investimentos poderiam ter aplicação muito mais útil!

Denis Baranov é o atual vocalista nas apresentações ao vivo
RtM: Bem, Daria, obrigado pelo seu tempo, a banda tem um grande potencial e talento, desejamos muito sucesso para vocês, e espero que um dia vê-los ao vivo em seu belo país, e talvez em um grande festival como Hellfest, Wacken ou sweden Rock ... e, porque não, aqui no Brasil! Deixo o espaço para sua mensagem final aos leitores!
DP: Uau, Carlos, muito obrigado por nos desejar tudo isso, e  por esta incrível oportunidade de dar a entrevista para o seu grande webzine! Vamos fazer o nosso melhor. Aos leitores do "ROAD TO METAL", continuem a ouvir boa música, acompanhem-nos, continuem a seguir o "Road to Metal!", sejam positivos e sorriam mais!

Entrevista: Carlos Garcia
Tradução/Edição: Carlos Garcia
Fotos: Arquivo da banda






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