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sábado, 10 de outubro de 2026

Cobertura de Show: Angra – 03/10/2026 – Tokio Marine Hall/SP

Existem discos que simplesmente fazem parte da história de uma banda. E existem aqueles que representam um verdadeiro recomeço. Rebirth, lançado pelo Angra em 2001, pertence à segunda categoria. 25 anos depois, o álbum continua carregando um significado especial para os fãs e para a própria trajetória do grupo. Foi justamente essa história de reconstrução que tomou conta do Tokio Marine Hall, em São Paulo, no dia 3 de outubro.

Depois de uma primeira noite dedicada aos 30 anos de Holy Land, o Angra voltou ao palco para revisitar outra fase fundamental de sua carreira. Desta vez, a celebração tinha como personagem principal Rebirth e, como convidado mais do que especial, Edu Falaschi, vocalista que registrou o álbum originalmente. A proposta tinha tudo para ser uma viagem nostálgica, mas acabou funcionando também como uma demonstração de que determinadas músicas conseguem atravessar gerações sem perder força.

Antes do Angra, duas bandas ajudaram a preparar o terreno para uma noite que seria marcada pelo power metal e por muita história.

A primeira foi a Storia. Formada em 2023, a banda vem construindo sua identidade a partir de uma combinação de power metal, elementos progressivos e uma proposta conceitual. Com Pedro Torchetti nos vocais, o grupo aproveitou os poucos minutos disponíveis para apresentar sua sonoridade a um público que ainda chegava ao Tokio Marine Hall. Foi uma abertura objetiva e eficiente, mostrando que existe uma nova geração disposta a manter viva a tradição do metal melódico brasileiro.

Na sequência, foi a vez do Hibria, uma das bandas mais importantes do heavy metal brasileiro das últimas três décadas. E havia uma atração especial naquela apresentação: Angelo Parisotto como novo vocalista da banda, indicado por Alírio Netto, que é seu professor de canto. A banda já havia apresentado Angelo no Bangers Open Air de 2025, iniciando oficialmente uma nova etapa na história do grupo.

A mudança de vocalista é sempre um momento delicado para qualquer banda com uma discografia tão consolidada quanto a do Hibria. Afinal, a voz de Iuri Sanson esteve diretamente associada a alguns dos principais trabalhos do grupo. Mas Parisotto deixou claro, desde os primeiros minutos, que não chegou para simplesmente reproduzir o passado. Com presença de palco, personalidade e, principalmente, segurança nos registros mais agudos, o novo vocalista mostrou que possui recursos para imprimir sua própria identidade ao repertório.

O Hibria aproveitou a oportunidade para apresentar ao público parte dessa nova fase, marcada pelo recém-lançado On the Shortness of Life, oitavo álbum de estúdio da banda. “Pulse”, faixa que abre o disco, esteve no repertório e serviu como uma espécie de cartão de visitas para Parisotto. A música evidencia a combinação de peso, precisão e velocidade que continua sendo uma das marcas registradas do Hibria, mas também aponta para uma banda interessada em olhar para frente.

E, se a novidade estava no vocalista, a segurança instrumental continuava intacta. Guitarras, baixo e bateria trabalharam com a precisão que o público já conhece do Hibria, deixando claro por que o grupo conquistou reconhecimento muito além das fronteiras brasileiras. A banda chegou a fazer turnês pelo Japão, Canadá, Europa e outros países da Ásia, construindo, ao longo de 30 anos, uma trajetória internacional que nem sempre recebe, no Brasil, o reconhecimento proporcional à sua importância.

O repertório recente também dialoga com uma história que inclui músicas como “Shoot Me Down”, “Silent Revenge”, “Against the Wall” e “Millennium Quest”, presentes em apresentações recentes da banda. Em São Paulo, porém, o destaque ficou especialmente para “Pulse”, que funcionou como uma amostra concreta do que o Hibria pretende construir daqui para frente.

Mais do que uma simples banda de abertura, o Hibria entrou no palco com a responsabilidade de apresentar uma nova identidade ao público. E Angelo Parisotto passou pelo teste com méritos. Ainda é cedo para saber exatamente até onde essa nova formação poderá levar a banda, mas a impressão deixada no Tokio Marine Hall foi bastante positiva: o Hibria continua tendo músicos de altíssimo nível e, com um vocalista que demonstra personalidade própria, tem todos os elementos para iniciar um novo capítulo sem precisar renegar aquilo que construiu até aqui.

Com o público devidamente aquecido, chegava finalmente a hora do Angra.

E o início não poderia ser mais simbólico. “Crossing” abriu a apresentação, seguida por “Nothing to Say”, estabelecendo imediatamente a conexão entre diferentes períodos da carreira. “Tide of Changes” trouxe o Angra contemporâneo para dentro de uma noite essencialmente retrospectiva, mostrando que a voz de Alírio Netto se encaixou perfeitamente, inclusive ficando melhor do que a original, na opinião deste que vos escreve. Enquanto isso, “Waiting Silence” e “Millennium Sun” prepararam o terreno para a sequência mais pesada e celebrada do repertório.

Quando “Acid Rain” surgiu, ficou evidente que a proposta não seria simplesmente colocar Rebirth para tocar do início ao fim. O Angra construiu um espetáculo que utilizou o aniversário do álbum como eixo central, mas sem abrir mão de outras músicas fundamentais de sua trajetória.

“Wuthering Heights”, composição de Kate Bush que ganhou uma marcante versão do Angra com o saudoso Andre Matos, foi outro momento especial. Depois vieram “Unholy Wars”, “Lisbon” e “Judgement Day”, mantendo a apresentação em um nível elevado de intensidade.

“Stand Away” trouxe novamente uma conexão com o passado mais distante da banda, enquanto “Bleeding Heart” apareceu em uma interpretação conduzida por Alírio Netto ao piano, que dizia ter sido de improviso. Por favor, Alírio, improvise mais assim!

E é justamente aqui que um dos grandes méritos da noite se torna evidente: o Angra atual não tentou apagar sua própria história em nome da nostalgia. Ao contrário, colocou sua formação presente dentro dessa história.

“Visions Prelude” abriu o caminho para uma sequência que certamente estava entre as mais aguardadas pelo público.

A grande virada emocional da noite, naturalmente, aconteceu quando chegou o momento de receber Edu Falaschi. Então vieram “Heroes of Sand”, “Rebirth” e “Nova Era”.

Para quem acompanhou o Angra no início dos anos 2000, era praticamente impossível não reconhecer, naquele momento, uma fotografia de uma época inteira. “Nova Era”, principalmente, continua sendo uma daquelas músicas que ultrapassaram a condição de faixa de álbum para se transformar em símbolo de uma geração de fãs.

Mas talvez o mais interessante tenha sido perceber que o encontro não se resumiu a uma simples reprodução do passado.

Edu Falaschi voltou ao palco não como alguém tentando recriar 2001, mas como parte viva da história do Angra. Ao lado da formação atual, sua participação transformou aquelas músicas em um encontro entre passado e presente. E isso fez toda a diferença.

A atual formação do Angra — Alírio Netto, Rafael Bittencourt, Marcelo Barbosa, Felipe Andreoli e Bruno Valverde — mostrou que a banda não está presa ao seu passado. Alírio, em particular, ocupa uma posição naturalmente desafiadora: interpretar músicas que foram eternizadas por diferentes vocalistas e, ao mesmo tempo, construir sua própria identidade dentro de uma banda cuja história é tão pesada quanto a sua discografia.

O encerramento foi reservado para “Carry On”, novamente com Edu Falaschi, o que não havia sido combinado previamente. Porém, devido ao ótimo clima em cima do palco, Edu decidiu se unir à banda novamente para encerrar a noite.

Não poderia existir escolha mais adequada. Se Rebirth simbolizava um recomeço para o Angra, “Carry On” representa algo ainda maior: a capacidade de seguir adiante.

E talvez essa seja justamente a melhor maneira de definir a noite de 3 de outubro.

Mais do que uma celebração de 25 anos de um disco, o show no Tokio Marine Hall foi uma celebração da capacidade de transformação do Angra. Rebirth nasceu em um momento de ruptura e reconstrução. Um quarto de século depois, suas músicas continuam sendo capazes de reunir diferentes gerações de fãs diante do mesmo palco.

A noite também mostrou que memória e continuidade não precisam ser conceitos opostos. O Angra pode olhar para trás sem deixar de caminhar para frente.

Angra – 25 anos de Rebirth. Uma história que, definitivamente, ainda não terminou.


Texto: Anderson Bellini

Fotos: Pri Secco


Realização: Top Link Music


Angra – Setlist:

Crossing

Nothing to Say

Tide of Changes

Waiting Silence

Millennium Sun

Acid Rain

Wuthering Heights

Unholy Wars

Lisbon

Judgement Day

Stand Away

Bleeding Heart

Running Alone

Visions Prelude

Angels and Demons

Heroes of Sand

Rebirth

Nova Era

Unfinished Allegro

Carry On

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Cobertura de Show: Sonata Arctica – 03/10/2026 – Audio/SP

Sonata Arctica e Noturnall transformam sábado paulistano em celebração à vida e à música ao vivo

São Paulo teve um daqueles sábados em que cruzar a cidade para ir a um show significou muito mais do que simplesmente assistir a uma banda no palco. No último dia 3, o Espaço Audio recebeu Noturnall e Sonata Arctica em uma noite que reuniu peso, experiência, virtuosismo e, principalmente, uma conexão muito particular entre músicos e público. Em meio à reta final de um fim de semana marcado pela expectativa das eleições, quase três mil pessoas escolheram ocupar a casa para celebrar aquilo que só um show consegue proporcionar: estar presente, dividir o mesmo espaço e viver a música em tempo real./


Noturnall: técnica, experiência e sangue no olho

A missão de abrir a noite ficou com o Noturnall, que apresentou um set coeso e musicalmente muito bem amarrado. A trajetória individual dos integrantes é perceptível e aparece tanto na execução quanto nos arranjos, mas a apresentação não se apoiou só no currículo ou na capacidade técnica dos músicos. Havia uma banda funcionando como unidade, com peso, precisão e segurança suficientes para sustentar uma abertura diante de um público que ainda aguardava a atração principal.

No centro dessa dinâmica esteve Thiago Bianchi. O vocalista assumiu naturalmente a função de conduzir a apresentação, estabelecendo uma comunicação direta com a plateia e mantendo a intensidade do show do início ao fim. O resultado foi uma apresentação que soube equilibrar a complexidade musical do Noturnall com uma postura de palco acessível e espontânea. No encerramento, Bianchi deixou o palco e se jogou no meio do público, levando para a pista a mesma energia que havia construído durante o set. Foi uma escolha que resumiu bem a proposta da banda naquela noite.

Sonata Arctica: 30 anos de história compartilhada

Quando o Sonata Arctica entrou em cena, a resposta foi imediata. O Espaço Audio estava tomado por um público que conhecia aquelas músicas como parte da discografia de uma das principais bandas do power metal finlandês, e principalmente, como trilha sonora de diferentes momentos de suas próprias vidas. A celebração dos 30 anos de carreira ganhou, portanto, um significado que ultrapassava a marca comemorativa da turnê. Era também uma oportunidade de reencontro entre a banda, seus fãs e memórias construídas ao longo de décadas.

“I Have a Right”, “Black Sheep” e “Paid in Full” colocaram a apresentação em movimento desde os primeiros minutos, enquanto “Last Drop Falls” e “Tallulah” ampliaram o repertório emocional da noite. A sequência ainda passou por “8th Commandment”, “Closer to an Animal”, “Letter to Dana” e “White Pearl, Black Oceans...”, mostrando a capacidade do Sonata Arctica de transitar entre diferentes momentos de sua carreira sem perder a identidade. A banda não precisou transformar o aniversário em uma retrospectiva protocolar. O próprio repertório foi suficiente para evidenciar o caminho percorrido ao longo dessas três décadas.

Tony Kakko foi um dos grandes responsáveis pela atmosfera criada no palco. Muito à vontade, o vocalista conversou, brincou e interagiu constantemente com a plateia, diminuindo qualquer distância entre o palco e quem estava na pista. Ao seu lado, Elias Viljanen, Pasi Kauppinen, Henrik Klingenberg e Tommy Portimo sustentaram a apresentação com precisão e entrosamento, formando uma base sólida para que as músicas ganhassem força ao vivo. “Shy” preparou o terreno para “FullMoon”, que se tornou um dos momentos mais catárticos da noite, antes de a banda retornar para o bis com “The Last Amazing Grays”, “Don’t Say a Word” e a tradicional “Vodka”, encerrando a apresentação em clima de celebração.

Na minha visão, o que marcou a noite foi a dimensão coletiva daquele encontro. Desde os primeiros acordes, o público cantou, respondeu às interações de Kakko e acompanhou praticamente todas as músicas. Ver o Audio cheio de pessoas genuinamente felizes por estar ali trouxe uma dimensão diferente para a apresentação. Em uma época em que boa parte do consumo musical acontece individualmente, por meio de fones, telas e algoritmos que determinam o que chega até nós, havia algo particularmente significativo em ver tantas pessoas escolhendo sair de casa para compartilhar a mesma experiência.

Essa percepção ganhou ainda mais força quando Kakko falou sobre a importância de continuar consumindo música ao vivo. O vocalista lembrou que apresentações como aquela só são possíveis porque existe um público disposto a comprar ingressos, frequentar casas de shows e manter esse circuito funcionando. O comentário poderia parecer simples, mas ganhou peso naquele contexto. O show só existia porque havia músicos dispostos a estar no palco e pessoas dispostas a estar diante dele, mantendo viva uma relação que nenhuma plataforma digital consegue reproduzir completamente.

Às vésperas das eleições, o Espaço Audio acabou funcionando como um intervalo do ruído que tomava conta do lado de fora, mas sem representar uma fuga da realidade. Era um espaço de encontro, convivência e expressão através da arte. No fim, Noturnall e Sonata Arctica entregaram propostas diferentes, mas complementares: de um lado, uma banda brasileira mostrando força, experiência e excelência musical; do outro, uma formação com três décadas de história reafirmando sua capacidade de reunir gerações em torno de suas canções.





Realização: Honorsounds



Noturnall – setlist:

Try Harder

No Turn at All

Reset the Game

Sugar Pill

Shadows

Shallow Grave

Scream! For!! Me!!!

Nocturnal Human Side


Sonata Arctica – setlist:

I Have a Right

Black Sheep

Paid in Full

Last Drop Falls

Tallulah

8th Commandment

Closer to an Animal

Letter to Dana

White Pearl, Black Oceans...

Shy

FullMoon

Bis

The Last Amazing Grays

Don't Say a Word

Vodka

domingo, 27 de setembro de 2026

Cobertura de Show: Helloween – 19/09/2026 – Suhai Music Hall/SP

A turnê de 40 anos do Helloween chegou ao Suhai Music Hall, em São Paulo, no dia 19, com a força de quem ainda tem muito a dizer. A banda alemã apresentou tanto os clássicos que moldaram o power metal quanto o material recente do álbum "Giants & Monsters", de 2025. Trinta anos depois da estreia brasileira, em 1996, o público continua sendo um dos mais fiéis do planeta: gritou, cantou e respondeu a cada provocação dos músicos com uma energia que só quem acompanha o estilo entende. Foi uma celebração de legado e presente, sem nostalgia barata.

A formação atual, composta por Michael Kiske (vocal), Andi Deris (vocal), Kai Hansen (guitarra e vocal), Michael Weikath e Sascha Gerstner nas guitarras, Markus Grosskopf no baixo e Dani Löble na bateria, funciona como uma engrenagem sofisticada. A alternância entre os três vocalistas não é só um recurso artístico: ela dá descanso real a vozes que enfrentam melodias extremamente exigentes. Enquanto um recupera o fôlego, o outro entra em cena e mantém a intensidade. O resultado é um show que respira, ganha dinâmica e nunca perde o fôlego.

Instrumentalmente, a banda mostrou que o tempo foi generoso. Os riffs continuam afiados, os solos conversam com precisão e a cozinha de Grosskopf e Löble empurra tudo para frente com a mesma força de décadas atrás. Depois de 30 anos visitando o Brasil, os músicos ainda soam em excelente forma: sem excessos, sem relaxamento, com a confiança de quem domina o próprio repertório.

O setlist abriu com o clássico "March of Time" e logo mergulhou em "The King for a 1000 Years", ganhando o público rapidamente. Andi Deris lembrou que aquele era o último show da turnê e provocou o público para fazer o maior barulho possível. A resposta veio à altura, antes de Kai Hansen assumir o centro do palco para introduzir um dos maiores clássicos da banda, "Future World". "This Is Tokyo", de "Giants & Monsters", trouxe a fase atual para o centro do palco e, logo em seguida, a banda resgatou "We Burn". A música foi apresentada no Brasil somente uma vez, em 1996. Cantada exclusivamente por Deris, o momento ganhou um significado especial para quem acompanha a banda desde aquela época.

A sequência continuou equilibrando eras. "Twilight of the Gods" ficou por conta de Kiske, com apoio de Kai no refrão; "Ride the Sky" devolveu Hansen aos vocais do petardo dos primeiros anos. O equilíbrio entre passado e presente continuou sendo um dos pontos altos da apresentação. "Into the Sun" proporcionou um dos momentos mais emocionantes da noite ao colocar Andi e Kiske lado a lado. Uma das grandes surpresas do setlist foi "I'm Alive", que voltou ao repertório somente nesse show, transformando o Suhai Music Hall em uma verdadeira festa. Teve até um pequeno deslize de Kiske, que se empolgou demais e voltou antes do solo terminar, mas ninguém ligou. Depois, Andi retornou para "Hey Lord!", apontando para cima antes de anunciar que aquela era "para Ele". "Universe (Gravity for Hearts)", também do álbum de 2025, teve uma recepção mais discreta, mas serviu para mostrar que o Helloween não está simplesmente vivendo de suas glórias passadas, continua criando e promovendo seu material recente no palco.

O solo de bateria de Löble, com as tradicionais pausas para a participação do público, preparou o terreno para "I Want Out", um daqueles clássicos absolutos capazes de transformar qualquer casa de shows em um gigantesco karaokê. Cantada por Andi e Kiske, com a participação maciça dos fãs e uma chuva de papel picado no final, a música foi um dos momentos mais grandiosos da noite. A seguir, "A Tale That Wasn't Right", que, segundo Deris, trouxe a calmaria antes da tempestade. Kiske pegou o violão, arriscou trechos de "Suspicious Minds", de Elvis Presley, e "Yesterday", dos Beatles, acompanhado pelo público, antes de Andi assumir o instrumento para iniciar a canção do Helloween. Quando toda a banda retornou durante o solo, sob um verdadeiro mar de celulares, o resultado foi simplesmente emocionante e sensacional.

A reta final começou com Andi pregando uma peça na plateia ao anunciar que "A Little Is a Little Too Much" seria a última música, fazendo uma pausa dramática antes de revelar que, na verdade, seria a última representante de "Giants & Monsters". O susto rapidamente deu lugar a mais uma sequência histórica: Kai Hansen voltou aos vocais para "Heavy Metal (Is the Law)", resgatando novamente os primórdios do Helloween, e depois a banda encarou a longa e épica "Halloween", uma T viagem por diferentes climas e passagens musicais que ultrapassa os dez minutos. O bis começou com Michael Kiske sozinho em "Eagle Fly Free". Depois de se perder brevemente após o primeiro refrão, ele entregou o trecho para a plateia, que evidentemente não se importou nem um pouco com a pequena derrapada e continuou cantando em alto e bom som. Andi então assumiu "Power", fazendo novamente o público participar em massa, antes dos dois vocalistas dividirem os vocais em "Dr. Stein", que praticamente colocou o Suhai Music Hall abaixo. Para encerrar a noite que funcionou como uma verdadeira retrospectiva viva da trajetória do Helloween, ainda houve espaço para um pequeno trecho de "Keeper of the Seven Keys", apenas o suficiente para matar a saudade e deixar no ar uma última lembrança de uma das obras mais importantes da história do power metal.

Desde aquela primeira apresentação brasileira, em 1996, o vínculo entre Helloween e seus fãs no país atravessou mudanças de formação, diferentes fases musicais e três décadas de história, mas permanece intacto. A atual formação mostrou que a banda encontrou uma maneira particularmente eficiente de unir experiência, técnica e energia. A alternância dos vocais, a força instrumental e um repertório que passeia pelos primórdios da carreira até "Giants & Monsters" fizeram da apresentação muito mais do que uma comemoração de aniversário: foi uma demonstração de que, após 40 anos de Helloween e 30 anos de encontros com o público brasileiro, os Pumpkins ainda sabem exatamente como transformar suas histórias em uma grande noite de heavy metal. 


Texto: Marcelo Gomes




Realização: Mercury Concerts




 March of Time

 The King for a 1000 Years

 Future World

 This Is Tokyo

 We Burn

 Twilight of the Gods

 Ride the Sky

 Into the Sun

 I'm Alive

 Hey Lord!

 Universe (Gravity for Hearts)

 I Want Out

 A Tale That Wasn't Right

 A Little Is a Little Too Much

 Heavy Metal (Is the Law)

 Halloween

 Eagle Fly Free

 Power

 Dr. Stein

 Keeper of the Seven Keys  

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Firewind: A Essência em Novas Dimensões (Also In English)

BLKIINLK (Imp.)

Por Flavio Borges
 

Depois de mais de duas décadas construindo uma identidade própria dentro do power metal europeu, o Firewind decide olhar para suas próprias raízes culturais em Gods, Myths & Titans. Inspirado pela mitologia grega, o álbum transforma deuses, heróis, batalhas e tragédias em matéria-prima para um trabalho conceitual que amplia a dimensão épica da banda sem abandonar os elementos que a tornaram reconhecível.

A ambição fica evidente desde “Prologue Sacrifice”, introdução instrumental orquestrada que abre caminho para “Firegod”. A transição deixa claro que, embora o Firewind tenha investido em uma atmosfera mais cinematográfica, sua essência continua intacta: riffs velozes, refrãos melódicos, coros e, acima de tudo, a guitarra de Gus G., que permanece como um dos principais motores da banda.

“Firegod” e “I Will Sail On” estabelecem rapidamente essa linguagem. São faixas que dialogam diretamente com o power metal que os fãs esperam do Firewind, mas encontram espaço para backing vocals e arranjos que ampliam sua dimensão. A voz de Henning Basse, de volta à banda, também merece atenção. Mais áspera e encorpada do que o padrão vocal associado ao power metal mais tradicional, sua interpretação acrescenta personalidade às composições e funciona particularmente bem quando o material exige maior dramaticidade.

É nesse contexto que “The Legend Of Achilles”, primeiro single, ganha importância. A faixa funciona como a síntese mais imediata da proposta do álbum: peso, velocidade, melodias marcantes e uma atmosfera cinematográfica que transforma a narrativa de Aquiles em um épico de arena. O refrão possui aquela característica essencial ao gênero — fácil assimilação e vocação para ser devolvido pelo público em uníssono — enquanto Gus G. alterna precisão técnica e musicalidade sem transformar o virtuosismo em mero exercício de exibicionismo.

Mais importante, o single estabelece a principal questão que acompanha o restante do disco: até que ponto os elementos orquestrais e cinematográficos conseguem expandir a linguagem do Firewind sem simplesmente ornamentar uma fórmula já conhecida? A resposta, felizmente, é mais complexa do que um simples sim ou não.

“Cries Of A Mortal” é um dos melhores exemplos dessa tentativa de equilíbrio. Mais cadenciada e construída sobre diferentes camadas, a faixa deixa o power metal respirar em vez de depender exclusivamente da velocidade. As mudanças de clima e os backing vocals bem trabalhados acrescentam profundidade à composição, enquanto a banda funciona como um conjunto — algo particularmente importante em um álbum no qual Gus G. naturalmente poderia dominar todos os espaços.

Quando o Firewind acelera novamente, como em “Queen Of The Underworld”, a fórmula tradicional volta a ocupar o centro do palco. A faixa é direta, veloz e repleta de oportunidades para Gus G. demonstrar sua técnica, mas também revela um dos poucos momentos em que o álbum parece simplesmente revisitar territórios já conhecidos. Não chega a comprometer o conjunto, mas sua presença evidencia que a ambição conceitual nem sempre resulta em uma renovação equivalente da linguagem musical.

A influência do power metal europeu é onipresente, mas o Firewind não se limita a um único modelo. “Under Aegean Skies” remete claramente à tradição de bandas como Stratovarius, tanto pelo timbre das guitarras quanto pela construção melódica, enquanto os teclados assumem papel importante na arquitetura da faixa. Já “A King Dethroned” adiciona uma tonalidade mais próxima do hard rock e do heavy metal tradicional, com ecos de Scorpions em seu andamento mais cadenciado e nos refrãos acessíveis.

Essas referências, entretanto, aparecem mais como ingredientes do que como cópias. E é justamente essa variedade que impede Gods, Myths & Titans de se transformar em um exercício excessivamente previsível dentro do power metal. Os solos de Gus G. também ajudam nesse processo: em determinados momentos aproximam-se do erudito, em outros mergulham diretamente no metal, mas quase sempre permanecem subordinados à composição.

“Unbreakable” acrescenta outra peça importante ao álbum: a power ballad. Depois de tanta velocidade e grandiosidade, a faixa começa de maneira mais delicada, apoiada por arranjos orquestrais que criam uma atmosfera quase cinematográfica. Henning Basse apresenta aqui uma faceta mais limpa e contida, enquanto a guitarra de Gus G. traz à tona uma influência evidente de Yngwie J. Malmsteen. O crescimento gradual da composição desemboca em um refrão acompanhado por um belo coral, funcionando como contraponto necessário à avalanche sonora que domina boa parte do disco.

E então chega “Titans Fall”, encerrando a parte musical do álbum antes do epílogo. É provavelmente o momento em que a proposta de Gods, Myths & Titans encontra sua forma mais completa. Cinematográfica desde os primeiros segundos, a faixa reúne coros, melodias grandiosas, peso e um refrão construído para ser cantado coletivamente. Gus G. entrega outro solo de destaque, desta vez acompanhado por um coral que reforça a sensação de clímax. O epílogo instrumental prolonga essa atmosfera e conduz o álbum a um encerramento coerente com sua proposta conceitual.

No final, Gods, Myths & Titans funciona justamente porque o Firewind não tenta abandonar aquilo que sabe fazer para provar que está fazendo algo diferente. A mitologia grega fornece o cenário e a narrativa; as orquestrações e os elementos cinematográficos ampliam a escala; mas a essência continua sendo o power metal melódico, as grandes melodias, os refrãos e a guitarra de Gus G.

O álbum também ganha força com a presença de Henning Basse, cuja voz acrescenta uma camada mais agressiva e dramática às composições. E embora algumas faixas permaneçam próximas demais da fórmula tradicional do gênero, o conjunto encontra variedade suficiente em seus arranjos, mudanças de andamento e referências para evitar que a audição se torne monótona.
Há, portanto, uma coerência interessante entre tema e música. Afinal, poucos grupos poderiam contar uma história sobre deuses, mitos e titãs com tanta propriedade quanto uma banda originária da própria Grécia. O Firewind transforma esse patrimônio cultural em combustível para um álbum que privilegia a grandiosidade sem abrir mão da musicalidade.

Gods, Myths & Titans não representa uma ruptura radical na trajetória do Firewind — e talvez nem precise. É, antes, uma expansão consciente de sua identidade, na qual a banda encontra novas dimensões para uma linguagem que domina há anos. Para os fãs do grupo e do power metal melódico, é uma viagem que entrega peso, técnica, melodias e, acima de tudo, uma boa dose de épica sem perder o prazer de simplesmente ouvir uma grande banda de metal tocando no limite de suas possibilidades.

***ENGLISH VERSION***

After more than two decades of forging their own identity within European power metal, Firewind turn to their cultural roots on Gods, Myths & Titans. Inspired by Greek mythology, the album transforms gods, heroes, battles and tragedies into the raw material for a conceptual work that expands the band's epic dimension without abandoning the elements that have made them instantly recognizable.

The ambition is evident from the opening moments of “Prologue Sacrifice”, an orchestral instrumental that sets the stage for “Firegod”. The transition makes one thing clear: although Firewind have invested heavily in a more cinematic atmosphere, their essence remains intact — fast riffs, melodic choruses, layered backing vocals and, above all, the guitar work of Gus G., which remains one of the band's defining forces.

“Firegod” and “I Will Sail On” quickly establish this musical language. Both tracks embrace the power metal formula Firewind fans expect, while leaving room for carefully arranged backing vocals and additional layers that broaden their scope. Henning Basse, returning to the band, also deserves particular attention. His voice is rougher and more muscular than the style traditionally associated with classic power metal, giving the songs an added sense of character and working particularly well when the material calls for greater dramatic weight.

It is within this context that “The Legend Of Achilles”, the album's first single, becomes particularly significant. The track serves as the clearest statement of intent on Gods, Myths & Titans: weight, speed, memorable melodies and a cinematic atmosphere that turns the story of Achilles into an arena-sized epic. Its chorus has precisely the quality the genre demands — immediate, accessible and seemingly designed to be sung back by a crowd — while Gus G.
balances technical precision with musicality, never allowing virtuosity to become an exercise in showing off.

More importantly, the single establishes the central question that follows the album throughout: to what extent can orchestral and cinematic elements expand Firewind's musical vocabulary without merely decorating a formula they already know inside out? Fortunately, the answer is more complex than a simple yes or no.

“Cries Of A Mortal” provides one of the clearest examples of this balancing act. More measured and built around multiple layers, the track allows the power metal to breathe rather than relying exclusively on speed. Its shifts in mood and carefully arranged backing vocals add depth, while the band works effectively as a unit — something particularly important on an album where Gus G. could easily dominate every available space.

When Firewind accelerate again, as on “Queen Of The Underworld”, the band's traditional formula moves back to the forefront. The track is direct, fast and filled with opportunities for Gus G. to showcase his technique, but it also represents one of the few moments when the album seems content to revisit familiar territory. It does not undermine the record, but its presence makes it clear that the conceptual ambition does not always translate into an equally significant musical departure.

The influence of European power metal is omnipresent, but Firewind are not confined to a single template. “Under Aegean Skies” clearly echoes the tradition of bands such as Stratovarius, both in its guitar tones and melodic construction, while the keyboards play an important role in shaping the track. “A King Dethroned”, meanwhile, introduces a more traditional heavy metal and hard rock flavor, with echoes of Scorpions in its more measured pace and accessible chorus.

These references, however, function more as ingredients than as blueprints. And that distinction is important. The album's variety helps prevent Gods, Myths & Titans from becoming an overly predictable exercise in power metal orthodoxy. Gus G.'s solos contribute to that sense of movement as well: at times they lean toward the classical, at others they plunge headfirst into metal, but they remain largely at the service of the compositions.

“Unbreakable” adds another essential piece to the album: the power ballad. After so much speed and grandeur, the track begins on a gentler note, supported by orchestral arrangements that create an almost cinematic atmosphere. Henning Basse reveals a cleaner and more restrained side here, while Gus G.'s guitar work brings an unmistakable Yngwie J. Malmsteen influence to the surface. The gradual build leads to a chorus enhanced by a beautiful choir, providing a necessary counterpoint to the sonic assault that dominates much of the record.

Then comes “Titans Fall”, closing the musical body of the album before the epilogue. It is arguably the point at which the concept of Gods, Myths & Titans reaches its fullest expression. Cinematic from the opening seconds, the track brings together choirs, grand melodies, weight and a chorus built for communal singing. Gus G. delivers another standout solo, this time framed by a magnificent choir that reinforces the sense of climax. The orchestral epilogue extends that atmosphere and brings the album to a conclusion consistent with its conceptual framework.

Ultimately, Gods, Myths & Titans works because Firewind do not attempt to abandon what they do best simply to prove that they are doing something different. Greek mythology provides the setting and narrative; the orchestration and cinematic elements increase the scale; but the essence remains melodic power metal, driven by strong melodies, memorable choruses and the unmistakable guitar work of Gus G.

The album is further strengthened by the return of Henning Basse, whose voice adds a more aggressive and dramatic layer to the compositions. And although some tracks remain close to the genre's established formula, the combination of different arrangements, tempo changes and musical references provides enough variety to keep the record from becoming predictable.

There is an appealing coherence between theme and music here. After all, few bands could tell a story about gods, myths and titans with quite the same sense of cultural connection as a group originating from Greece itself. Firewind turn that heritage into fuel for an album that embraces grandeur without sacrificing musicality.

Gods, Myths & Titans does not represent a radical break with Firewind's past — nor does it need to. Instead, it is a deliberate expansion of an identity the band have spent years refining, finding new dimensions within a language they already know exceptionally well. For Firewind fans and devotees of melodic power metal, it is a journey that delivers weight, technique, melody and, above all, the sheer pleasure of hearing a great metal band pushing its sound toward the epic without losing sight of what made it compelling in the first place.

Tim Tronckoe

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Hansen: Quando Uma Lenda Decide Tocar Sem Mapa

Valhall Music (Nac.) / earMUSIC (Imp.) 

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Depois de mais de quatro décadas ajudando a definir os caminhos do heavy metal europeu, Kai Hansen poderia simplesmente repetir a fórmula que o transformou em um dos nomes mais importantes do gênero. Afinal, existe pouca coisa mais tentadora para um músico com uma história como a dele do que voltar ao território seguro de Helloween e Gamma Ray. Born With A Hammer, porém, parte justamente da direção contrária.

Lançado oficialmente em 18 de setembro de 2026 pela earMUSIC, o álbum é o primeiro trabalho solo de Hansen em dez anos, depois de XXX – Three Decades in Metal, lançado em 2016 sob o nome Hansen & Friends. Desta vez, o projeto aparece simplesmente como Hansen, acompanhado por Eike Freese, Alexander Dietz, Dan Wilding e Tim Hansen, filho de Kai. São dez faixas e pouco mais de 45 minutos em que o guitarrista parece ter se permitido uma coisa que sua carreira raramente exige dele: não precisar responder às expectativas de ninguém.

E isso fica evidente já nos primeiros minutos. Feeding The Beast começa com uma introdução limpa e relativamente contida antes de o peso entrar de maneira progressiva. Quando a bateria acelera e as guitarras assumem o controle, a primeira associação inevitável é com o Hansen que conhecemos. Há velocidade, melodias de guitarra, vocal imediatamente reconhecível e aquela combinação entre agressividade e senso melódico que ajudou a moldar o power metal europeu.

Só que, depois de estabelecer esse território conhecido, o disco começa a desmontá-lo. A grande qualidade de Born With A Hammer está justamente nessa sensação de que Hansen sabe perfeitamente onde o ouvinte espera que determinada música vá chegar e, em seguida, decide virar o volante.

1. Feeding The Beast

A abertura funciona quase como uma isca. Os primeiros acordes criam uma atmosfera mais introspectiva, e por alguns instantes parece que o álbum vai seguir uma direção mais tradicional. Então entram as guitarras e a bateria, e a música ganha velocidade até desembocar em um heavy metal bastante familiar.

O riff principal é direto, mas não simplório. Há uma boa dinâmica entre as partes mais abertas e os momentos em que a guitarra aperta o andamento, enquanto Hansen mantém aquela voz que nunca dependeu de perfeição técnica para ser imediatamente identificável.

É provavelmente a faixa que mais conversa com o legado de Gamma Ray e Helloween, e isso é importante porque oferece ao ouvinte uma porta de entrada segura antes de o álbum começar a mostrar suas outras faces. Resenhas publicadas antes e no dia do lançamento também destacaram justamente essa proximidade inicial com o power metal clássico.


2. Welcome To Life

Se a primeira faixa apresenta o Hansen que você esperava ouvir, Welcome To Life é a primeira grande rasteira do álbum. A música chega mais solta, com uma energia quase punk e uma abordagem menos polida. A guitarra parece propositalmente mais crua, e a estrutura transmite uma sensação de espontaneidade que contrasta bastante com a precisão de Feeding The Beast.

E então acontece a mudança mais inesperada: a faixa mergulha em um trecho de inspiração reggae. Sim, reggae.

E o mais curioso é que a transição não soa como uma piada colocada ali apenas para causar estranhamento. O próprio Hansen explicou que a ideia veio de seu gosto pelo gênero e da influência do ambiente em que estava trabalhando, inclusive associando essa sonoridade às experiências vividas durante sua passagem pela Costa Rica.


3. Don’t Care

A terceira faixa aumenta ainda mais essa sensação de liberdade. Don’t Care tem uma energia brincalhona e deliberadamente descompromissada. A guitarra continua sendo protagonista, mas aparecem texturas eletrônicas e uma batida que foge consideravelmente do que se esperaria de um disco associado a um dos arquitetos do power metal.

É também uma música em que a personalidade de Hansen pesa mais do que a necessidade de impressionar. Existe algo quase juvenil na composição, no melhor sentido possível. O músico parece estar se divertindo com as próprias possibilidades, e isso acaba sendo mais interessante do que qualquer tentativa de produzir uma faixa “importante”.

O contraste entre os instrumentos eletrônicos e o refrão guiado por guitarra é um dos detalhes que fazem a música permanecer na cabeça. Ao mesmo tempo, é aqui que o álbum começa a revelar seu primeiro problema: nem toda ideia experimental possui a mesma força das melhores composições.


4. Wait And See

E então Hansen fecha a porta da brincadeira e coloca o álbum novamente sob tensão. Wait And See é mais pesada, mais escura e consideravelmente mais compacta. O riff trabalha em uma região mais grave, com uma sonoridade que se aproxima do metal moderno sem abandonar a capacidade melódica do guitarrista.

A diferença é perceptível principalmente no tratamento rítmico. Em vez de simplesmente acelerar, a música pesa. Os grooves são mais secos, a bateria tem uma presença mais física e a guitarra ganha uma textura quase industrial. O single já havia sido apresentado antes do álbum como uma mudança de direção em relação à liberdade rock'n'roll de Welcome To Life, assumindo uma atmosfera mais pesada e intensa.


5. Born With A Hammer

E chegamos ao coração do álbum. Com pouco mais de oito minutos, a faixa-título é a composição em que Hansen finalmente abandona qualquer preocupação com concisão e simplesmente deixa a música crescer.

O começo já estabelece uma atmosfera mais teatral, com piano, harmonias vocais e uma construção que imediatamente remete à tradição do rock épico. Conforme a música avança, aparecem mudanças de dinâmica, passagens mais pesadas, melodias de guitarra e arranjos vocais cada vez maiores.

A referência a Queen é impossível de ignorar, especialmente na maneira como Hansen trabalha os diferentes blocos da composição. Mas o interessante é que ele não tenta esconder a influência. Ela faz parte da própria proposta da música.

O guitarrista contou que a composição nasceu ao piano, a partir de alguns acordes e de uma melodia que já estava em sua cabeça. Segundo ele, desde o início ficou claro que a música não seria um formato convencional e que a direção mais grandiosa fazia sentido.

Há uma quantidade enorme de ideias acontecendo aqui, mas Hansen consegue impedir que a música vire apenas uma colagem de referências porque existe uma linha melódica conduzindo tudo. É uma faixa que exige mais atenção do que as anteriores e, justamente por isso, cresce a cada audição.


6. I.D.G.A.F.

Depois de oito minutos de grandiosidade, Hansen faz a coisa mais Hansen possível: volta com uma música que praticamente manda toda a pompa para o inferno.

I.D.G.A.F. é curta, agressiva e extremamente direta. O riff tem uma pegada quase punk, mas a produção adiciona elementos eletrônicos que deixam tudo mais estranho. A batida sintética cria um contraste interessante com a guitarra, e o refrão é construído para ser gritado.


7. End Of The Road

Aqui aparece novamente o Kai Hansen que os fãs antigos provavelmente estavam esperando. End Of The Road é mais melódica, pesada e tradicional. As guitarras retomam uma construção mais próxima do heavy/power metal, e o refrão tem aquela dimensão de hino que Hansen domina há décadas.

Mas existe uma diferença importante na letra. A música fala sobre o fim de um relacionamento, e não sobre o próprio Hansen chegando ao fim da estrada. O encerramento de uma relação aparece como algo doloroso, mas também como uma experiência que não apaga o carinho e a história compartilhada.

Essa dualidade aparece na própria composição: existe melancolia, mas não uma atmosfera derrotista. É provavelmente a música que melhor equilibra passado e presente. Tem DNA de power metal, mas não soa como uma tentativa de voltar no tempo.


8. Triple Trouble

Com pouco mais de três minutos, Triple Trouble é o tiro curto do álbum. A música entra acelerada e não parece particularmente interessada em desenvolver uma grande narrativa. Ela quer velocidade, riff e energia.

Existe uma agressividade punk na maneira como a composição avança, e a presença de Tim Hansen na guitarra acrescenta uma energia diferente ao conjunto. O contraste entre pai e filho também dá à faixa uma espécie de sensação geracional, ainda que o álbum nunca transforme isso em seu conceito central.


9. Invaders

Invaders trabalha com uma fórmula muito mais simples. A música aposta em um riff insistente, bateria firme e um refrão grande, daqueles que parecem nascer pensando no palco. Não há a mesma quantidade de desvios estilísticos de Welcome To Life ou I.D.G.A.F., e isso faz com que ela funcione quase como uma pausa dentro da extravagância do disco.

A guitarra encontra um groove bastante eficiente, e Hansen não precisa exagerar na interpretação para fazer a faixa funcionar. É uma composição que depende muito mais do riff e da repetição estratégica do que de grandes mudanças estruturais.


10. Wonderland

Wonderland chega pesada, com guitarras encorpadas, bateria forte e uma atmosfera que mistura o peso do heavy metal tradicional com algumas das características mais modernas apresentadas ao longo do disco.

O vocal de Hansen aparece mais grave e áspero, e isso combina com a sensação de fechamento da música. É como se, depois de percorrer todos aqueles estilos, o álbum finalmente voltasse ao elemento que nunca desapareceu em nenhum momento: a guitarra.

O riff é provavelmente o elemento mais memorável da faixa, e a bateria de Dan Wilding dá um peso considerável ao encerramento. É uma escolha interessante para terminar porque Hansen poderia ter optado por uma balada ou por outro épico. Em vez disso, ele termina com força.


Divulgação

Confira a tracklist completa do Born With A Hammer:

1. Feeding The Beast 

2. Welcome To Life 

3. Don’t Care 

4. Wait And See 

5. Born With A Hammer 

6. I.D.G.A.F.

7. End Of The Road 

8. Triple Trouble 

9. Invaders 

10. Wonderland

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Metalite: Metal, Tecnologia e Uma Dose de Futuro (Also In English)

Perception (Imp.)

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Se tem uma coisa que o Metalite sabe fazer muito bem é misturar o metal melódico com elementos modernos sem deixar o peso de lado. Formada na Suécia em 2015, a banda vem construindo sua identidade dentro do power metal moderno, acrescentando sintetizadores, elementos eletrônicos e atmosferas cinematográficas. Não é por acaso que o grupo é considerado um dos pioneiros do moderno sci-fi inspired power metal.

Em Discovery, essa proposta aparece ainda mais forte. O conceito futurista e de ficção científica é bastante ousado e está presente não apenas nas letras, mas também na própria sonoridade. Comparando com os trabalhos anteriores, sinto que a banda foi ainda mais fundo nessa ideia de unir o metal melódico aos elementos eletrônicos.

E isso já fica muito claro na primeira faixa, “Our Time Has Come”. A música é explosiva e grandiosa do começo ao fim e resume muito bem o que vamos encontrar pela frente. “In Case of Emergency” segue praticamente a mesma linha, mantendo aquela energia que parece feita para funcionar muito bem ao vivo.

Nos vocais, Erica Ohlsson realmente rouba a cena. A técnica vocal é impecável e ela consegue acompanhar toda a grandiosidade das músicas sem perder clareza ou potência. Para mim, ela é a grande estrela de Discovery.

Também gostei bastante do trabalho instrumental. A bateria de Erik Junttila mantém o álbum sempre em movimento, enquanto Edwin Premberg, nas guitarras, entrega solos bem construídos e momentos que acrescentam ainda mais peso às músicas.

Falando em produção, aqui não tem muito o que reclamar. A mixagem e a masterização ficaram por conta de Jacob Hansen, produtor conhecido por trabalhos com bandas como Amaranthe e Evergrey, e o resultado é realmente impecável. Tudo soa muito limpo, moderno e grandioso, mas sem tirar o protagonismo das guitarras e dos vocais.

Em “Into the Maze”, por exemplo, temos uma faixa mais pesada, com um ótimo solo de guitarra. Já “Echoes of You” começa com piano e traz uma atmosfera um pouco diferente, menos acelerada. É uma das faixas que mais me chamou atenção justamente por conseguir quebrar um pouco a velocidade do álbum sem perder sua identidade.

“Starchild” é provavelmente uma das músicas mais eletrônicas do disco. É dançante, moderna e tem uma energia quase impossível de ignorar, mas continua mantendo o peso do metal. É justamente esse tipo de combinação que faz o Metalite funcionar tão bem.

Outra que gostei bastante foi “Wings of Fire”. A faixa mantém a pegada moderna, mas acrescenta elementos de hard rock, criando um dos momentos mais equilibrados do álbum. A música consegue te transportar para um grande festival. O solo de guitarra também dá um brilho especial à faixa, que, para mim, é uma das melhores do disco.

“Metal Elite” também merece destaque e mantém a energia que encontramos ao longo de Discovery. Já “Triforce”, escolhida para fechar o álbum, funciona muito bem como encerramento porque permanece fiel à proposta tanto musicalmente quanto no conceito futurista.

No geral, Discovery é um disco muito energético. São 12 faixas com bastante eletrônica, refrões explosivos e grandiosos e uma produção extremamente moderna. Confesso que senti falta de um pouco mais de espaço para desacelerar em alguns momentos, talvez uma balada, mas também entendo que essa velocidade constante faz parte da proposta.

Para mim, o Metalite conseguiu entregar exatamente o que se propôs a fazer. Discovery é ousado, ambicioso e muito bem produzido, sendo um prato cheio para quem gosta de power metal melódico e não se incomoda em ver o gênero flertando bastante com a música eletrônica e a estética futurista.

É um disco que parece ter sido feito para ser ouvido alto — e, principalmente, para ser levado para o palco. Eu consigo imaginar facilmente esses refrões enormes sendo cantados por uma plateia inteira.

***ENGLISH VERSION***

If there’s one thing Metalite knows how to do really well, it’s mixing melodic metal with modern elements without losing its heaviness. Formed in Sweden in 2015, the band has been building its own identity within modern power metal, adding synthesizers, electronic elements and cinematic atmospheres. It’s no coincidence that the band is considered one of the pioneers of modern sci-fi-inspired power metal.

On Discovery, this approach becomes even stronger. The futuristic and science-fiction concept is quite bold and can be felt not only in the lyrics, but also throughout the music itself. Compared to their previous releases, I feel the band has gone even further with the idea of bringing melodic metal and electronic elements together.

This becomes clear right from the opening track,  “Our Time Has Come”. The song is explosive and grand from beginning to end, and it sums up very well what we’re about to experience. “In Case of Emergency” follows pretty much the same path, keeping that energy that feels like it was made to work really well on stage.

When it comes to the vocals, Erica Ohlsson really steals the show. Her vocal technique is impeccable, and she manages to keep up with all the grandeur of the songs without losing clarity or power. For me, she is the real star of Discovery.

I also really enjoyed the instrumental work. Erik Junttila’s drumming keeps the album constantly moving, while Edwin Premberg delivers well-crafted guitar solos and moments that add even more weight to the songs.

And when it comes to the production, there isn’t much to complain about. The mixing and mastering were handled by Jacob Hansen, a producer known for his work with bands such as Amaranthe and Evergrey, and the result is truly flawless. Everything sounds clean, modern and grand, without taking the spotlight away from the guitars and vocals.

In “Into the Maze”, for example, we get a heavier track with a great guitar solo. “Echoes of You”, on the other hand, opens with piano and brings a slightly different atmosphere, slowing things down a bit. It’s one of the tracks that caught my attention the most precisely because it manages to break up the album’s constant pace without losing its identity.

“Starchild” is probably one of the most electronic songs on the album. It’s danceable, modern and has an energy that’s almost impossible to ignore, while still keeping the weight of metal. This is exactly the kind of combination that makes Metalite work so well.

Another track I really enjoyed is “Wings of Fire”. It keeps the modern approach but brings in some hard rock elements, creating one of the most balanced moments on the album. The song can easily transport you to a huge festival. The guitar solo also gives the track an extra spark and, for me, makes it one of the best songs on the album.

“Metal Elite” also deserves a mention, keeping up the energy we find throughout Discovery. “Triforce,” chosen to close the album, works really well as a finale because it stays true to the album’s proposal both musically and conceptually, especially with its futuristic theme.

Overall, Discovery is a very energetic album. Across its 12 tracks, we get plenty of electronics, explosive and grand choruses, and an extremely modern production. I have to admit that I sometimes missed having a little more room to slow things down, maybe with a ballad, but I also understand that this constant energy is part of the album’s identity.

For me, Metalite delivers exactly what they set out to do. Discovery is bold, ambitious and very well produced, making it a great choice for anyone who enjoys melodic power metal and doesn’t mind seeing the genre flirt heavily with electronic music and futuristic aesthetics.

This is an album that feels like it was made to be played loud — and, most importantly, to be taken to the stage. I can easily imagine those huge choruses being sung by an entire crowd.

Divulgação