Por Stephanie Ferreira - @instephanie
Há discos que chegam ao fim de uma trajetória tentando transformá-la em monumento. Boom Bang Goodbye escolhe uma alternativa muito mais coerente com a história do Sinner: simplesmente continuar tocando. Anunciado por Mat Sinner como o capítulo final da banda que ele fundou em 1982, o álbum chegou ao público em 31 de julho de 2026 pela Reigning Phoenix Music. São onze faixas e pouco mais de 42 minutos que encerram uma discografia construída ao longo de mais de quatro décadas. O próprio Sinner anunciou que dedicará os próximos anos de sua carreira ao Primal Fear, tornando este lançamento especialmente significativo dentro de sua história.
Mas Boom Bang Goodbye não é um disco de despedida no sentido tradicional. Não há aqui uma banda tentando soar maior do que jamais soou, nem uma sucessão de músicas excessivamente melancólicas para convencer o ouvinte da importância daquele momento. O que Mat Sinner fez foi reunir uma quantidade impressionante de músicos convidados e colocá-los dentro de um repertório que permanece fiel àquilo que construiu: hard rock clássico, heavy metal melódico, vocais marcantes, refrões de arena e uma produção moderna que não sacrifica a identidade setentista e oitentista da composição.
O elenco é quase tão chamativo quanto o próprio disco. Renan Zonta, Michael Bormann, Ronnie Romero, Björn “Speed” Strid, Erik Mårtensson, Michael Sadler, Sascha Krebs e Magnus Karlsson dividem os vocais, enquanto Mat Sinner permanece no baixo e na produção. Alex Scholpp e Jim Müller assumem as guitarras, Moritz Müller fica na bateria e Lisa Müller nos teclados.
1. “Dreams Can Come True”
A primeira coisa que chama atenção em “Dreams Can Come True” é a escolha de Renan Zonta para abrir o álbum. O vocalista do Electric Mob tem uma voz naturalmente associada ao hard rock contemporâneo, mas aqui ele é colocado dentro de uma composição que carrega muito mais da tradição melódica europeia. O resultado é um início que soa grandioso sem precisar recorrer a uma introdução exagerada.
As guitarras entram com bastante clareza e a bateria estabelece rapidamente o andamento, enquanto o refrão trabalha aquela fórmula que Mat Sinner conhece há décadas: versos relativamente contidos preparando uma explosão melódica. É uma abertura bastante simbólica.
2. “Wait”
“Wait” foi uma escolha particularmente acertada como single. Michael Bormann assume os vocais e traz para a música uma interpretação mais rouca e carregada de soul, que combina muito bem com o caráter radiofônico da composição. O refrão é daqueles que se entende imediatamente por que foi escolhido para apresentar o álbum.
Há um detalhe importante na construção: apesar de a música ser bastante acessível, as guitarras não são tratadas como simples acompanhamento. Elas dão peso suficiente para impedir que “Wait” escorregue para o AOR excessivamente polido. É hard rock, mas com acabamento contemporâneo.
3. “Leave It All Behind”
É aqui que Boom Bang Goodbye começa a assumir seu lado mais emocional. Ronnie Romero aparece pela primeira vez e a diferença de interpretação é imediata. Sua voz tem uma força naturalmente dramática, mas a música não tenta transformá-lo em um segundo Ronnie James Dio. Em vez disso, utiliza o alcance e a textura do cantor para construir uma faixa de hard rock melódico bastante clássica.
“Leave It All Behind” tem um andamento mais moderado e uma atmosfera que remete ao lado mais sentimental do hard rock dos anos 1980. A guitarra trabalha mais pela sustentação da melodia do que pela agressividade, e isso é importante porque cria um contraste com o que virá depois.
4. “All Night Long”
E então o disco volta a sorrir. “All Night Long” é uma das faixas que mais carregam aquela sensação de rock de estrada, de noite longa, amplificador ligado e banda tocando até o último cliente deixar o bar.
Ronnie Romero retorna, mas a interpretação aqui é diferente da faixa anterior. A voz está mais solta, enquanto o instrumental aposta em uma pegada mais direta e divertida. É também uma das músicas em que o Sinner mais claramente abraça suas raízes de hard rock tradicional.
5. “Are You Ready”
Björn “Speed” Strid talvez seja um dos convidados que mais poderiam causar estranhamento no papel. O vocalista do Soilwork e do The Night Flight Orchestra está associado a universos bastante diferentes, mas “Are You Ready” mostra que a distância é menor do que parece.
A faixa é uma das mais acessíveis do disco, com um refrão claramente pensado para rádio e uma estrutura que se aproxima bastante do rock melódico. Speed, por sua vez, não força sua assinatura mais agressiva; ele trabalha dentro da música. É uma escolha inteligente.
6. “Born to Run”
“Born to Run” recupera a sensação de estrada, mas com uma abordagem mais melódica. Erik Mårtensson, do Eclipse, assume os vocais e praticamente parece ter sido feito para essa música. Sua interpretação é limpa, precisa e extremamente melódica, sem perder a força necessária para sustentar o refrão.
É uma das faixas mais naturalmente “Sinner” do disco. A guitarra também merece atenção. O solo de Mathias “Don” Dieth é uma das conexões mais interessantes entre o presente e o passado da banda, já que o guitarrista participou da formação clássica do Sinner nos anos 1980.
7. “Hellbreaker”
Aqui o álbum finalmente pisa mais fundo no acelerador. “Hellbreaker” é uma das faixas mais pesadas do disco e Ronnie Romero retorna para uma interpretação muito mais agressiva do que aquela apresentada em “Leave It All Behind”.
O riff é mais seco, a bateria trabalha com mais impacto e as guitarras assumem uma postura que aproxima o Sinner de seu lado heavy metal. É também uma das músicas em que a ligação de Mat Sinner com o Primal Fear parece mais perceptível.
8. “Turn the Page”
“Turn the Page” é uma das grandes surpresas de Boom Bang Goodbye. Michael Sadler, vocalista do Saga, traz uma personalidade completamente diferente para o disco. Sua voz tem uma dimensão mais progressiva e teatral, e a música aproveita isso sem deixar de pertencer ao universo do Sinner.
A faixa começa mais contida e vai ganhando corpo gradualmente. Os teclados de Lisa Müller têm aqui um papel mais evidente, ajudando a criar uma atmosfera quase cinematográfica. As guitarras não precisam disputar espaço com eles; trabalham em camadas. E o refrão é provavelmente um dos mais sofisticados do álbum.
9. “Road to Remember”
Michael Bormann retorna em “Road to Remember”, e a música parece existir em um ponto intermediário entre nostalgia e celebração. As guitarras são mais abertas, o andamento permite que a melodia respire e o refrão tem aquela qualidade de canção que parece construída para ser lembrada anos depois.
10. “Under the Moonlight”
Sascha Krebs assume os vocais de “Under the Moonlight”, mantendo uma conexão interessante com a fase mais recente do Sinner. A música recupera peso depois da atmosfera mais contemplativa de “Road to Remember”. Os riffs são mais encorpados e a bateria de Moritz Müller ganha novamente bastante presença.
11. “Power”
“Power” precisava ser grande. Não necessariamente a música mais pesada, mais rápida ou mais técnica do álbum, mas grande o suficiente para encerrar uma história iniciada em 1982.
Magnus Karlsson assume os vocais e também participa da composição, além de entregar guitarras. O resultado é uma faixa que combina peso, melodia e uma dimensão quase épica. Os teclados ajudam a ampliar o arranjo, enquanto as guitarras trabalham em camadas até chegar a um refrão que parece deliberadamente construído para ser o último grande momento do Sinner.


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