A turnê de 40 anos do Helloween chegou ao Suhai Music Hall, em São Paulo, no dia 19, com a força de quem ainda tem muito a dizer. A banda alemã apresentou tanto os clássicos que moldaram o power metal quanto o material recente do álbum "Giants & Monsters", de 2025. Trinta anos depois da estreia brasileira, em 1996, o público continua sendo um dos mais fiéis do planeta: gritou, cantou e respondeu a cada provocação dos músicos com uma energia que só quem acompanha o estilo entende. Foi uma celebração de legado e presente, sem nostalgia barata.
A formação atual, composta por Michael Kiske (vocal), Andi Deris (vocal), Kai Hansen (guitarra e vocal), Michael Weikath e Sascha Gerstner nas guitarras, Markus Grosskopf no baixo e Dani Löble na bateria, funciona como uma engrenagem sofisticada. A alternância entre os três vocalistas não é só um recurso artístico: ela dá descanso real a vozes que enfrentam melodias extremamente exigentes. Enquanto um recupera o fôlego, o outro entra em cena e mantém a intensidade. O resultado é um show que respira, ganha dinâmica e nunca perde o fôlego.
Instrumentalmente, a banda mostrou que o tempo foi generoso. Os riffs continuam afiados, os solos conversam com precisão e a cozinha de Grosskopf e Löble empurra tudo para frente com a mesma força de décadas atrás. Depois de 30 anos visitando o Brasil, os músicos ainda soam em excelente forma: sem excessos, sem relaxamento, com a confiança de quem domina o próprio repertório.
O setlist abriu com o clássico "March of Time" e logo mergulhou em "The King for a 1000 Years", ganhando o público rapidamente. Andi Deris lembrou que aquele era o último show da turnê e provocou o público para fazer o maior barulho possível. A resposta veio à altura, antes de Kai Hansen assumir o centro do palco para introduzir um dos maiores clássicos da banda, "Future World". "This Is Tokyo", de "Giants & Monsters", trouxe a fase atual para o centro do palco e, logo em seguida, a banda resgatou "We Burn". A música foi apresentada no Brasil somente uma vez, em 1996. Cantada exclusivamente por Deris, o momento ganhou um significado especial para quem acompanha a banda desde aquela época.
A sequência continuou equilibrando eras. "Twilight of the Gods" ficou por conta de Kiske, com apoio de Kai no refrão; "Ride the Sky" devolveu Hansen aos vocais do petardo dos primeiros anos. O equilíbrio entre passado e presente continuou sendo um dos pontos altos da apresentação. "Into the Sun" proporcionou um dos momentos mais emocionantes da noite ao colocar Andi e Kiske lado a lado. Uma das grandes surpresas do setlist foi "I'm Alive", que voltou ao repertório somente nesse show, transformando o Suhai Music Hall em uma verdadeira festa. Teve até um pequeno deslize de Kiske, que se empolgou demais e voltou antes do solo terminar, mas ninguém ligou. Depois, Andi retornou para "Hey Lord!", apontando para cima antes de anunciar que aquela era "para Ele". "Universe (Gravity for Hearts)", também do álbum de 2025, teve uma recepção mais discreta, mas serviu para mostrar que o Helloween não está simplesmente vivendo de suas glórias passadas, continua criando e promovendo seu material recente no palco.
O solo de bateria de Löble, com as tradicionais pausas para a participação do público, preparou o terreno para "I Want Out", um daqueles clássicos absolutos capazes de transformar qualquer casa de shows em um gigantesco karaokê. Cantada por Andi e Kiske, com a participação maciça dos fãs e uma chuva de papel picado no final, a música foi um dos momentos mais grandiosos da noite. A seguir, "A Tale That Wasn't Right", que, segundo Deris, trouxe a calmaria antes da tempestade. Kiske pegou o violão, arriscou trechos de "Suspicious Minds", de Elvis Presley, e "Yesterday", dos Beatles, acompanhado pelo público, antes de Andi assumir o instrumento para iniciar a canção do Helloween. Quando toda a banda retornou durante o solo, sob um verdadeiro mar de celulares, o resultado foi simplesmente emocionante e sensacional.
A reta final começou com Andi pregando uma peça na plateia ao anunciar que "A Little Is a Little Too Much" seria a última música, fazendo uma pausa dramática antes de revelar que, na verdade, seria a última representante de "Giants & Monsters". O susto rapidamente deu lugar a mais uma sequência histórica: Kai Hansen voltou aos vocais para "Heavy Metal (Is the Law)", resgatando novamente os primórdios do Helloween, e depois a banda encarou a longa e épica "Halloween", uma T viagem por diferentes climas e passagens musicais que ultrapassa os dez minutos. O bis começou com Michael Kiske sozinho em "Eagle Fly Free". Depois de se perder brevemente após o primeiro refrão, ele entregou o trecho para a plateia, que evidentemente não se importou nem um pouco com a pequena derrapada e continuou cantando em alto e bom som. Andi então assumiu "Power", fazendo novamente o público participar em massa, antes dos dois vocalistas dividirem os vocais em "Dr. Stein", que praticamente colocou o Suhai Music Hall abaixo. Para encerrar a noite que funcionou como uma verdadeira retrospectiva viva da trajetória do Helloween, ainda houve espaço para um pequeno trecho de "Keeper of the Seven Keys", apenas o suficiente para matar a saudade e deixar no ar uma última lembrança de uma das obras mais importantes da história do power metal.
Desde aquela primeira apresentação brasileira, em 1996, o vínculo entre Helloween e seus fãs no país atravessou mudanças de formação, diferentes fases musicais e três décadas de história, mas permanece intacto. A atual formação mostrou que a banda encontrou uma maneira particularmente eficiente de unir experiência, técnica e energia. A alternância dos vocais, a força instrumental e um repertório que passeia pelos primórdios da carreira até "Giants & Monsters" fizeram da apresentação muito mais do que uma comemoração de aniversário: foi uma demonstração de que, após 40 anos de Helloween e 30 anos de encontros com o público brasileiro, os Pumpkins ainda sabem exatamente como transformar suas histórias em uma grande noite de heavy metal.
Existem mudanças de formação que alteram uma banda. E existem aquelas que colocam em xeque a própria identidade construída ao longo de décadas. Para o Schandmaul, Sternensegler nasce exatamente nesse território delicado. Lançado em 11 de setembro de 2026 pela Napalm Records, o décimo segundo álbum de estúdio do grupo alemão marca a estreia de Till Herence como vocalista principal, enquanto Thomas Lindner, voz que durante mais de duas décadas esteve no centro da personalidade da banda, permanece no Schandmaul assumindo piano, teclados, violão e acordeão.
A primeira impressão, porém, não é de ruptura. É de movimento. Quando Nimm alles mit entra, a sensação é de que o Schandmaul deliberadamente escolheu não transformar esse novo capítulo em um manifesto melancólico. O álbum começa imediatamente, com guitarras, elementos folk e uma energia que aponta para frente. E isso é importante: Sternensegler não tenta esconder que existe uma nova voz, mas também não parece interessado em pedir desculpas por ela.
Till Herence tem uma voz mais clara e menos áspera que a de Lindner. Isso muda a temperatura das músicas. Em alguns momentos, o resultado se aproxima mais do folk rock melódico e até de uma linguagem pop-rock; em outros, especialmente quando as guitarras ganham espaço, essa suavidade se transforma em uma vantagem. O instrumental continua reconhecível: violino, flautas, gaita de foles, viela de roda, alaúdes e as diferentes guitarras dividem espaço com uma cozinha rítmica que mantém o disco em movimento.
O grande mérito de Sternensegler está justamente nessa negociação. O Schandmaul não soa como uma banda tentando recriar artificialmente o passado. Mas também não está reinventando sua linguagem do zero. E é nessa zona intermediária que o álbum encontra sua personalidade.
1. Nimm alles mit
Nimm alles mit já começa com aquela combinação característica de rock e instrumentos tradicionais, mas a voz de Herence muda imediatamente a percepção do conjunto. Ele canta com uma clareza que deixa as melodias mais abertas, enquanto a instrumentação cria a sensação de estrada, movimento e recomeço.
É uma escolha muito inteligente para abrir o álbum porque a música não fica presa ao peso da mudança. Existe uma espécie de urgência positiva nela, como se a banda dissesse que, depois de tudo, ainda existe muito para viver.
Thomas Lindner contou que a música foi escolhida para a abertura justamente porque, quando todas as faixas estavam reunidas, ela se apresentou como uma escolha natural: começa imediatamente, tem energia rock'n'roll e carrega uma mensagem positiva. Musicalmente, é um excelente cartão de visitas para a nova formação.
2. Sternensegler
A faixa-título diminui um pouco a velocidade, mas aumenta a sensação de amplitude. O Schandmaul trabalha aqui com uma construção mais atmosférica, e os instrumentos folk aparecem como parte essencial da arquitetura da música.
O que mais chama atenção é a maneira como a voz de Herence se encaixa nesse espaço. Existe leveza, mas não fragilidade. O refrão tem aquela característica de música que parece feita para ser cantada por um público inteiro, enquanto as guitarras e os elementos tradicionais dão profundidade à composição.
A faixa também funciona como uma espécie de declaração estética do álbum: olhar para o futuro sem abandonar as próprias raízes. É uma música bastante acessível, mas não descartável, principalmente porque a instrumentação impede que ela caia em uma estrutura pop genérica.
3. Beide Füße in der Luft
Aqui o álbum começa a mostrar um lado mais irreverente. Beide Füße in der Luft tem uma energia mais saltitante e uma presença rítmica que deixa a música consideravelmente mais física. É uma das faixas em que o novo vocalista parece mais confortável em assumir a própria personalidade, sem precisar carregar o fantasma da voz anterior.
A guitarra ganha importância, os elementos medievais ficam mais evidentes e o arranjo cria uma espécie de movimento circular que combina perfeitamente com o título. Há também um toque mais próximo do rock tradicional, o que faz a faixa funcionar como uma pequena quebra dentro da sequência inicial.
4. Flagge
Se existe uma faixa que dá ao álbum uma espinha dorsal mais firme, é Flagge. A banda assume uma postura política direta contra o extremismo de direita e o discurso de ódio, mas sem abandonar a característica melódica que sempre esteve no centro do Schandmaul. A música tem uma pegada mais roqueira, com guitarras mais presentes e uma estrutura que privilegia impacto e refrão.
E é justamente aqui que a nova voz funciona particularmente bem. Herence canta com precisão e deixa as palavras muito expostas. Não existe necessidade de exagerar na interpretação porque o arranjo já entrega a força necessária. O resultado é um dos momentos mais marcantes de Sternensegler, justamente por unir mensagem, melodia e peso sem transformar a música em um panfleto.
5. Nosferatu
Nosferatu muda novamente o cenário e coloca o Schandmaul em uma atmosfera mais cinematográfica. A música tem uma construção mais teatral, com os instrumentos folk criando imagens quase imediatamente. É fácil visualizar uma narrativa acontecendo enquanto a faixa avança, e esse é um dos grandes diferenciais do grupo: mesmo quando a produção é moderna e limpa, existe uma preocupação evidente em construir ambientes.
Os elementos tradicionais aparecem com bastante personalidade, enquanto as guitarras seguram a estrutura rock. A faixa é longa o suficiente para desenvolver sua ideia sem parecer apressada, e os arranjos fazem diferença especialmente nos momentos em que a música ganha dimensão.
6. Wo Sprache aufhört
Aqui o disco entra em uma região mais delicada. Wo Sprache aufhört é construída sobre uma melodia extremamente acessível e uma interpretação mais emocional de Herence. O refrão tem forte potencial de permanência e, justamente por isso, é uma das faixas mais fáceis de imaginar funcionando ao vivo.
Mas também é um dos momentos em que Sternensegler chega mais perto do limite entre folk rock e pop-rock. A composição funciona porque o Schandmaul sabe preencher essa estrutura com instrumentos tradicionais. Sem eles, provavelmente seria uma música muito mais convencional. Com eles, ganha identidade suficiente para permanecer dentro do universo da banda.
7. In der Hand
Depois da delicadeza anterior, In der Hand recoloca o corpo do álbum em movimento. A percussão ganha destaque e existe uma sensação de balanço muito mais pronunciada. As melodias folk aparecem de maneira particularmente viva, e a faixa demonstra como o Schandmaul consegue fazer instrumentos tradicionais dialogarem com uma estrutura de rock sem que um lado pareça estar apenas acompanhando o outro.
É uma música extremamente eficiente na construção de clima. Também é aqui que se percebe como a produção de Sternensegler privilegia clareza. Cada instrumento encontra seu espaço, mas a sonoridade não fica excessivamente separada. O resultado é um álbum grande, limpo e contemporâneo, sem eliminar as características acústicas que fazem o grupo ser reconhecido.
8. An beiden Enden
An beiden Enden retorna à atmosfera mais contemplativa do disco. A música tem uma construção que privilegia a melodia e a interpretação vocal, e Herence novamente se beneficia da característica mais clara de sua voz. Ele não tenta reproduzir o peso de Lindner; trabalha com outra dinâmica, deixando as notas respirarem mais.
É uma escolha interessante dentro da sequência porque funciona como uma ponte entre a parte mais energética do álbum e a reta final, que começa a ficar progressivamente mais emocional.
9. Lass nicht los
Aqui o Schandmaul volta a acertar em cheio no refrão. Lass nicht los combina uma interpretação vocal mais expansiva com violino e uma construção melódica extremamente eficiente. É uma daquelas faixas em que a banda consegue ser sentimental sem abandonar completamente o caráter festivo.
A voz de Herence funciona especialmente bem nesse contexto porque existe espaço para ele trabalhar intensidade. Em vez de tentar competir com a instrumentação, ele deixa a melodia conduzir a música.
10. Trag Dich
Trag Dich é a balada declaradamente sentimental do disco. E aqui é preciso reconhecer que o Schandmaul não tenta esconder o romantismo. A música é direta, emocional e deliberadamente delicada. Herence interpreta tudo com bastante controle, evitando transformar a faixa em um exercício vocal exagerado.
11. Zwei Raben feat. Laura Fella
E então chega a música que transforma o encerramento em acontecimento. Zwei Raben já começa em uma atmosfera muito mais frágil, sustentada por elementos folk e pela participação de Laura Fella, do Faun. A entrada da cantora cria imediatamente um contraste interessante com Herence, e a música ganha uma dimensão quase narrativa.
O mais importante, entretanto, é a progressão. A faixa não entrega seu impacto imediatamente. Ela cresce. Primeiro existe intimidade, depois os instrumentos começam a ocupar mais espaço e, quando as guitarras entram com força, o encerramento assume proporções épicas.
A escolha também carrega história: Zwei Raben já havia aparecido no projeto WETO, no álbum Schattenspieler, de 2011, e agora é incorporada ao universo do Schandmaul com uma nova roupagem e a participação de Fella.
É um daqueles casos em que a última faixa não parece simplesmente colocada no fim da tracklist. Ela foi pensada para encerrar o percurso. E funciona.
Depois de mais de quatro décadas ajudando a definir os caminhos do heavy metal europeu, Kai Hansen poderia simplesmente repetir a fórmula que o transformou em um dos nomes mais importantes do gênero. Afinal, existe pouca coisa mais tentadora para um músico com uma história como a dele do que voltar ao território seguro de Helloween e Gamma Ray. Born With A Hammer, porém, parte justamente da direção contrária.
Lançado oficialmente em 18 de setembro de 2026 pela earMUSIC, o álbum é o primeiro trabalho solo de Hansen em dez anos, depois de XXX – Three Decades in Metal, lançado em 2016 sob o nome Hansen & Friends. Desta vez, o projeto aparece simplesmente como Hansen, acompanhado por Eike Freese, Alexander Dietz, Dan Wilding e Tim Hansen, filho de Kai. São dez faixas e pouco mais de 45 minutos em que o guitarrista parece ter se permitido uma coisa que sua carreira raramente exige dele: não precisar responder às expectativas de ninguém.
E isso fica evidente já nos primeiros minutos. Feeding The Beast começa com uma introdução limpa e relativamente contida antes de o peso entrar de maneira progressiva. Quando a bateria acelera e as guitarras assumem o controle, a primeira associação inevitável é com o Hansen que conhecemos. Há velocidade, melodias de guitarra, vocal imediatamente reconhecível e aquela combinação entre agressividade e senso melódico que ajudou a moldar o power metal europeu.
Só que, depois de estabelecer esse território conhecido, o disco começa a desmontá-lo. A grande qualidade de Born With A Hammer está justamente nessa sensação de que Hansen sabe perfeitamente onde o ouvinte espera que determinada música vá chegar e, em seguida, decide virar o volante.
1. Feeding The Beast
A abertura funciona quase como uma isca. Os primeiros acordes criam uma atmosfera mais introspectiva, e por alguns instantes parece que o álbum vai seguir uma direção mais tradicional. Então entram as guitarras e a bateria, e a música ganha velocidade até desembocar em um heavy metal bastante familiar.
O riff principal é direto, mas não simplório. Há uma boa dinâmica entre as partes mais abertas e os momentos em que a guitarra aperta o andamento, enquanto Hansen mantém aquela voz que nunca dependeu de perfeição técnica para ser imediatamente identificável.
É provavelmente a faixa que mais conversa com o legado de Gamma Ray e Helloween, e isso é importante porque oferece ao ouvinte uma porta de entrada segura antes de o álbum começar a mostrar suas outras faces. Resenhas publicadas antes e no dia do lançamento também destacaram justamente essa proximidade inicial com o power metal clássico.
2. Welcome To Life
Se a primeira faixa apresenta o Hansen que você esperava ouvir, Welcome To Life é a primeira grande rasteira do álbum. A música chega mais solta, com uma energia quase punk e uma abordagem menos polida. A guitarra parece propositalmente mais crua, e a estrutura transmite uma sensação de espontaneidade que contrasta bastante com a precisão de Feeding The Beast.
E então acontece a mudança mais inesperada: a faixa mergulha em um trecho de inspiração reggae. Sim, reggae.
E o mais curioso é que a transição não soa como uma piada colocada ali apenas para causar estranhamento. O próprio Hansen explicou que a ideia veio de seu gosto pelo gênero e da influência do ambiente em que estava trabalhando, inclusive associando essa sonoridade às experiências vividas durante sua passagem pela Costa Rica.
3. Don’t Care
A terceira faixa aumenta ainda mais essa sensação de liberdade. Don’t Care tem uma energia brincalhona e deliberadamente descompromissada. A guitarra continua sendo protagonista, mas aparecem texturas eletrônicas e uma batida que foge consideravelmente do que se esperaria de um disco associado a um dos arquitetos do power metal.
É também uma música em que a personalidade de Hansen pesa mais do que a necessidade de impressionar. Existe algo quase juvenil na composição, no melhor sentido possível. O músico parece estar se divertindo com as próprias possibilidades, e isso acaba sendo mais interessante do que qualquer tentativa de produzir uma faixa “importante”.
O contraste entre os instrumentos eletrônicos e o refrão guiado por guitarra é um dos detalhes que fazem a música permanecer na cabeça. Ao mesmo tempo, é aqui que o álbum começa a revelar seu primeiro problema: nem toda ideia experimental possui a mesma força das melhores composições.
4. Wait And See
E então Hansen fecha a porta da brincadeira e coloca o álbum novamente sob tensão. Wait And See é mais pesada, mais escura e consideravelmente mais compacta. O riff trabalha em uma região mais grave, com uma sonoridade que se aproxima do metal moderno sem abandonar a capacidade melódica do guitarrista.
A diferença é perceptível principalmente no tratamento rítmico. Em vez de simplesmente acelerar, a música pesa. Os grooves são mais secos, a bateria tem uma presença mais física e a guitarra ganha uma textura quase industrial. O single já havia sido apresentado antes do álbum como uma mudança de direção em relação à liberdade rock'n'roll de Welcome To Life, assumindo uma atmosfera mais pesada e intensa.
5. Born With A Hammer
E chegamos ao coração do álbum. Com pouco mais de oito minutos, a faixa-título é a composição em que Hansen finalmente abandona qualquer preocupação com concisão e simplesmente deixa a música crescer.
O começo já estabelece uma atmosfera mais teatral, com piano, harmonias vocais e uma construção que imediatamente remete à tradição do rock épico. Conforme a música avança, aparecem mudanças de dinâmica, passagens mais pesadas, melodias de guitarra e arranjos vocais cada vez maiores.
A referência a Queen é impossível de ignorar, especialmente na maneira como Hansen trabalha os diferentes blocos da composição. Mas o interessante é que ele não tenta esconder a influência. Ela faz parte da própria proposta da música.
O guitarrista contou que a composição nasceu ao piano, a partir de alguns acordes e de uma melodia que já estava em sua cabeça. Segundo ele, desde o início ficou claro que a música não seria um formato convencional e que a direção mais grandiosa fazia sentido.
Há uma quantidade enorme de ideias acontecendo aqui, mas Hansen consegue impedir que a música vire apenas uma colagem de referências porque existe uma linha melódica conduzindo tudo. É uma faixa que exige mais atenção do que as anteriores e, justamente por isso, cresce a cada audição.
6. I.D.G.A.F.
Depois de oito minutos de grandiosidade, Hansen faz a coisa mais Hansen possível: volta com uma música que praticamente manda toda a pompa para o inferno.
I.D.G.A.F. é curta, agressiva e extremamente direta. O riff tem uma pegada quase punk, mas a produção adiciona elementos eletrônicos que deixam tudo mais estranho. A batida sintética cria um contraste interessante com a guitarra, e o refrão é construído para ser gritado.
7. End Of The Road
Aqui aparece novamente o Kai Hansen que os fãs antigos provavelmente estavam esperando. End Of The Road é mais melódica, pesada e tradicional. As guitarras retomam uma construção mais próxima do heavy/power metal, e o refrão tem aquela dimensão de hino que Hansen domina há décadas.
Mas existe uma diferença importante na letra. A música fala sobre o fim de um relacionamento, e não sobre o próprio Hansen chegando ao fim da estrada. O encerramento de uma relação aparece como algo doloroso, mas também como uma experiência que não apaga o carinho e a história compartilhada.
Essa dualidade aparece na própria composição: existe melancolia, mas não uma atmosfera derrotista. É provavelmente a música que melhor equilibra passado e presente. Tem DNA de power metal, mas não soa como uma tentativa de voltar no tempo.
8. Triple Trouble
Com pouco mais de três minutos, Triple Trouble é o tiro curto do álbum. A música entra acelerada e não parece particularmente interessada em desenvolver uma grande narrativa. Ela quer velocidade, riff e energia.
Existe uma agressividade punk na maneira como a composição avança, e a presença de Tim Hansen na guitarra acrescenta uma energia diferente ao conjunto. O contraste entre pai e filho também dá à faixa uma espécie de sensação geracional, ainda que o álbum nunca transforme isso em seu conceito central.
9. Invaders
Invaders trabalha com uma fórmula muito mais simples. A música aposta em um riff insistente, bateria firme e um refrão grande, daqueles que parecem nascer pensando no palco. Não há a mesma quantidade de desvios estilísticos de Welcome To Life ou I.D.G.A.F., e isso faz com que ela funcione quase como uma pausa dentro da extravagância do disco.
A guitarra encontra um groove bastante eficiente, e Hansen não precisa exagerar na interpretação para fazer a faixa funcionar. É uma composição que depende muito mais do riff e da repetição estratégica do que de grandes mudanças estruturais.
10. Wonderland
Wonderland chega pesada, com guitarras encorpadas, bateria forte e uma atmosfera que mistura o peso do heavy metal tradicional com algumas das características mais modernas apresentadas ao longo do disco.
O vocal de Hansen aparece mais grave e áspero, e isso combina com a sensação de fechamento da música. É como se, depois de percorrer todos aqueles estilos, o álbum finalmente voltasse ao elemento que nunca desapareceu em nenhum momento: a guitarra.
O riff é provavelmente o elemento mais memorável da faixa, e a bateria de Dan Wilding dá um peso considerável ao encerramento. É uma escolha interessante para terminar porque Hansen poderia ter optado por uma balada ou por outro épico. Em vez disso, ele termina com força.
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Confira a tracklist completa do Born With A Hammer:
Quarenta e cinco anos de carreira costumam colocar uma banda diante de uma escolha: olhar para trás ou tentar provar que ainda existe futuro pela frente. Stories Of Destiny, novo álbum do Mad Max, tenta fazer as duas coisas, e seu maior mérito está justamente em não tratar essas possibilidades como opostas.
Lançado em 4 de setembro de 2026 pela ROAR!, Stories Of Destiny chega como uma celebração dos 45 anos da banda alemã, fundada em Münster por Jürgen Breforth em 1981. Mas o aniversário é apenas o ponto de partida. O álbum reúne material novo, composições que ficaram guardadas por décadas, uma releitura de um clássico da própria banda e até a primeira música do Mad Max com letras em espanhol.
A formação também carrega essa ideia de passado e presente convivendo no mesmo espaço. Alan Clark assume os vocais principais, enquanto Andreas Baesler, primeiro vocalista do Mad Max, retorna ao microfone pela primeira vez em 45 anos. Jürgen Breforth continua sendo o eixo criativo e guitarrístico, acompanhado por Dethy Borchardt, Fabian Watermann e Axel Kruse.
E existe uma diferença importante entre fazer um álbum comemorativo e fazer um álbum sobre a própria história. Stories Of Destiny escolhe a segunda opção.
O resultado é um disco de hard rock melódico que não tenta esconder suas referências oitentistas, mas também não parece interessado em transformar o Mad Max em peça de museu. As guitarras continuam ocupando o centro do palco, os refrões são grandes e a produção de Rolf Munkes mantém tudo limpo e musculoso.
1. “Silver”
“Silver” é uma abertura extremamente segura. A guitarra aparece imediatamente como protagonista e, em poucos segundos, fica claro que o Mad Max não pretende começar seu 45º aniversário com uma balada ou uma introdução excessivamente conceitual. O riff tem peso, mas existe uma leveza melódica por trás dele que impede a música de soar agressiva demais.
É justamente essa combinação que define o disco. O verso é mais contido, enquanto o refrão abre a música e deixa Alan Clark mostrar por que sua entrada na formação é uma das novidades mais importantes desta fase. Sua voz tem uma aspereza interessante. Existe uma referência inevitável ao hard rock melódico clássico, mas Clark não soa como alguém tentando reproduzir vocalistas de outra geração. Ele traz uma personalidade própria, especialmente quando as guitarras ganham peso.
2. “Weapons Of Love”
“Silver” termina deixando uma impressão bastante imediata, e “Weapons Of Love” escolhe não aumentar a velocidade. É uma decisão interessante. A segunda faixa trabalha mais a melodia e o balanço do hard rock do que o peso. O riff é relativamente econômico e o refrão aposta em uma construção bastante clássica de arena rock.
3. “Keep You Alive”
É aqui que Stories Of Destiny finalmente mostra os dentes. “Keep You Alive” começa de maneira mais contida, quase enganando o ouvinte sobre o que está por vir. Quando as guitarras entram com força, a música muda completamente de dimensão.
O riff é mais pesado e o baixo de Fabian Watermann ganha uma presença que não estava tão evidente nas duas primeiras faixas. E o refrão é exatamente o tipo de coisa que o Mad Max sabe fazer bem: grande, direto e feito para crescer quando cantado por uma plateia.
4. “Far Behind”
“Far Behind” muda novamente o clima. Se “Keep You Alive” funciona pelo impacto, aqui o Mad Max trabalha com espaço.
As guitarras são mais abertas e o andamento permite que Alan Clark conduza a música sem precisar disputar atenção com a banda. É uma composição mais emocional, mas não chega a ser uma power ballad convencional. Existe uma melancolia no arranjo, especialmente na forma como as guitarras sustentam as linhas vocais.
5. “Piece Of Candy” — 2026 Version
“Piece Of Candy” é o coração histórico do álbum. O riff que deu origem à música foi o primeiro riff de guitarra escrito por Jürgen Breforth para o Mad Max, em 1981. Quarenta e cinco anos depois, ele volta a ser gravado com a formação atual.
Mas o detalhe que realmente transforma a faixa em algo especial está nos vocais. Alan Clark divide a música com Andreas Baesler, o primeiro vocalista do Mad Max. É impossível ouvir essa escolha apenas como uma participação especial. A música passa a funcionar como uma conversa entre duas épocas da banda.
Instrumentalmente, a nova gravação mantém a essência do hard rock clássico, mas recebe uma produção muito mais definida. As guitarras têm mais corpo, a bateria soa mais robusta e o refrão ganha uma amplitude que provavelmente não existia na gravação original.
6. “‘Til The End Of Time”
Depois da carga histórica de “Piece Of Candy”, o álbum poderia facilmente perder força. Não perde. “‘Til The End Of Time” é a segunda composição recuperada das sessões de 1991, e talvez seja uma das melhores surpresas do disco justamente porque soa como uma peça que encontrou o momento certo para finalmente existir.
A música tem um balanço mais encorpado e uma pegada que remete diretamente ao hard rock europeu do final dos anos 1980 e início dos 1990. As guitarras têm mais presença e o ritmo é mais envolvente. É também uma daquelas faixas em que se percebe como a produção moderna pode beneficiar uma composição antiga sem necessariamente descaracterizá-la.
7. “Bullet”
“Bullet” é onde o disco ganha outra injeção de energia.
O riff tem mais ataque e a guitarra volta a ocupar o primeiro plano. A bateria empurra a composição para frente e o refrão mantém a preocupação melódica que atravessa o álbum. Mas existe algo particularmente interessante aqui: a música tem uma pegada de hard rock americano que lembra, em alguns momentos, aquela tradição de bandas que conseguem equilibrar peso e refrões extremamente acessíveis.
8. “Mad Gone Blind”
“Mad Gone Blind” é uma das melhores músicas do álbum. E é também uma das que melhor mostram o potencial da formação atual.
A estrutura é mais dinâmica, as guitarras têm mais peso e Alan Clark parece especialmente confortável quando a banda aumenta a intensidade. O refrão é grande sem ser excessivamente açucarado, e há uma boa alternância entre momentos de maior agressividade e espaços para a melodia respirar.
9. “She Was Mine”
Depois de “Mad Gone Blind”, o álbum desacelera novamente. “She Was Mine” entra em um território mais sentimental, mas sem abandonar completamente as guitarras.
É uma faixa que depende bastante da interpretação de Clark. Sua voz fica mais limpa e menos agressiva, permitindo que a melodia carregue a música. Não é necessariamente uma composição revolucionária, e provavelmente não precisa ser. Ela representa aquela tradição do hard rock em que a banda deixa a velocidade de lado para construir uma história emocional.
10. “Wings Of Freedom”
“Wings Of Freedom” é a grande balada de Stories Of Destiny. Mas existe uma diferença importante entre uma balada simplesmente colocada no meio de um álbum e uma composição que realmente entende seu papel dentro da sequência.
Aqui, ela chega na hora certa. A música começa de maneira mais delicada e cresce gradualmente, permitindo que as guitarras entrem sem destruir o caráter emocional da composição.
O refrão é amplo e claramente pensado para ser cantado ao vivo. E existe uma espécie de mensagem de encerramento antecipado na letra: liberdade, movimento e a capacidade de seguir adiante.
11. “Dulces Falsos”
E então vem “Dulces Falsos”. A decisão de terminar o álbum em espanhol poderia parecer, à primeira vista, apenas uma curiosidade. Não é.
“Dulces Falsos” é uma nova versão de “Piece Of Candy” e representa o primeiro lançamento do Mad Max com letras em espanhol. A música foi pensada como uma homenagem à base de fãs latino-americana, especialmente importante para a história recente da banda na região. E a escolha de fechar o álbum com ela é bastante inteligente.
Depois de passar 45 anos olhando para sua própria história, o Mad Max termina olhando para fora.
Steffi Kruse
Confira a tracklist completa de Stories Of Destiny:
Há bandas que passam anos procurando uma identidade. O Night Laser parece ter decidido que o melhor caminho seria simplesmente parar de procurar — e fazer tudo aquilo que tem vontade. Em Rats In The Cradle, o quarteto de Hamburgo transforma glam e sleaze metal em ponto de partida para uma viagem que passa por hard rock clássico, heavy metal, blues, power metal, thrash, funk e até momentos de forte apelo acústico. O resultado é um álbum surpreendentemente diversificado, mas que, apesar de toda essa variedade, nunca perde completamente sua assinatura.
A abertura com “S.T.F.U.” deixa claro que as raízes da banda continuam firmemente plantadas no sleaze. Coros, guitarra marcante e um refrão altamente melódico dão à faixa aquela combinação de atitude e acessibilidade que o gênero exige. Os backing vocals ampliam o impacto da voz de Benno Hankers, enquanto o solo é econômico e eficiente. O interessante interlúdio, reduzido a voz e guitarra, prepara o terreno para um último refrão que encerra a faixa em grande estilo.
“Make You Mine” muda radicalmente o clima. Baixo e voz conduzem os primeiros momentos, antes que guitarra, bateria e teclados entrem progressivamente em cena. Apesar de uma produção que pode sugerir uma abordagem mais moderna, a essência continua sendo o hard rock tradicional, especialmente no excelente refrão. Novamente, os backing vocals e as mudanças de dinâmica funcionam como elementos fundamentais para tornar a composição mais rica.
Se há uma faixa capaz de resumir a proposta do álbum, “Defenders” é uma forte candidata. O baixo assume o protagonismo desde os primeiros segundos, enquanto hard rock, sleaze e heavy metal tradicional se encontram em uma composição extremamente melódica. Os coros dão ao refrão uma dimensão quase épica, e a construção vocal faz com que a música flerte inclusive com o power metal. Riff e solo são particularmente bem resolvidos, demonstrando uma banda que, neste momento, parece tocar com bastante confiança.
A diversidade aumenta ainda mais em “Blueberry Gin”, que começa mergulhada no blues antes de acelerar e ganhar contornos quase punk. A participação de Sascha Paeth acrescenta peso às guitarras e ajuda a criar uma das faixas mais interessantes do disco. Mais do que um simples exercício de estilo, a música evidencia a compreensão do Night Laser sobre as próprias raízes do rock: o blues como matriz de praticamente tudo que viria depois.
E então chega “Heart Of The Desert Rose”, uma das grandes surpresas do álbum. A participação de Johnny Gioeli adiciona ainda mais força à composição, que começa de maneira cadenciada e evolui para uma poderosa balada. O encontro entre as vozes de Gioeli e Benno Hankers funciona especialmente bem, enquanto o refrão pesado e o solo, construído quase como uma extensão da própria melodia, dão à faixa uma dimensão épica. É uma homenagem à força das mulheres que enfrentam as dificuldades sem se deixar abater — e uma composição particularmente bem acabada.
A faixa-título, “Rats In The Cradle”, inaugura a segunda metade do disco de maneira bastante mais sombria. Riffs pesados, mudanças constantes de andamento e pequenas intervenções de guitarra e teclados criam uma atmosfera desconfortável, apropriada ao tema dos perturbadores experimentos conduzidos pelo criminoso de guerra japonês Dr. Ishii Shirō. Em determinados momentos, a banda flerta com uma atmosfera quase doom, algo pouco óbvio para uma formação associada ao glam/sleaze. É uma escolha arriscada, mas funciona justamente porque o Night Laser não tenta suavizar o clima para encaixá-lo em sua fórmula habitual.
“Into The West” oferece outro contraste. A balada começa praticamente despida, sustentada pela interpretação de Benno, teclados e guitarra limpa. O piano reforça a delicadeza da introdução até que guitarra distorcida, baixo e bateria explodem no refrão. Backing vocals e teclados ampliam o caráter cinematográfico, enquanto o solo surge no momento exato, entregando aquilo que qualquer apreciador de uma boa power ballad espera.
O groove retorna em “19CR490”, uma das faixas mais descontraídas e pesadas do álbum. A composição combina riffs contundentes com um refrão surpreendentemente melódico e incorpora referências que vão do hard rock tradicional ao rock'n'roll mais primitivo dos anos 1950. É mais uma demonstração da versatilidade do Night Laser — e de sua disposição em adicionar novas texturas à receita sem perder o sabor original.
Com “Get Out”, a participação de Lars Rettkowitz, guitarrista do Freedom Call, parece fazer todo sentido. A velocidade da faixa imediatamente aponta para o heavy metal clássico, com guitarras rápidas, backing vocals típicos do gênero e mudanças de andamento que impedem a música de cair na obviedade. É uma das composições que mais claramente aproxima o Night Laser do universo do metal tradicional.
“Goddess Of The Sky” desacelera novamente, mas não diminui a grandiosidade. Depois de uma introdução calma, todos os instrumentos entram criando uma atmosfera épica antes mesmo da voz aparecer. O baixo, com uma clara inspiração no estilo de bandas como Iron Maiden, conduz os versos até a entrada da guitarra e de uma inesperada flauta. Os coros, teclados e a base instrumental transformam a parte final em um verdadeiro hino, com forte influência do power metal.
O encerramento com “You And Me” é, novamente, uma surpresa. Praticamente acústica, apoiada principalmente em violão e voz, a faixa abandona o peso e termina o álbum de maneira intimista. As variações melódicas impedem que o encerramento seja apenas um epílogo e reforçam a disposição do Night Laser em experimentar até os últimos minutos.
É justamente essa quantidade de informação que pode dividir opiniões. Rats In The Cradle está longe de ser um álbum linear. Há quem possa considerar sua diversidade excessiva, quase caótica; por outro lado, existe um mérito considerável em uma banda conseguir transitar por tantos territórios sem transformar o disco em uma simples coleção de estilos desconectados. O Night Laser consegue fazer com que faixas acessíveis convivam com outras mais complexas, enquanto mantém elementos recorrentes — especialmente melodias, vocais, guitarras e uma forte preocupação com refrãos — que funcionam como fio condutor.
Mais do que provar que pode tocar diferentes estilos, o Night Laser parece ter entendido que não precisa escolher apenas um deles. Rats In The Cradle é um álbum de identidade justamente porque não se limita a uma fórmula. Pode ser glam, sleaze, hard rock, heavy metal, blues ou power metal — mas continua soando como Night Laser. E essa talvez seja a maior conquista de uma banda que, ao finalmente soltar o freio de mão, descobriu que a melhor maneira de avançar é acelerar em várias direções ao mesmo tempo.
Franz Schepers
***ENGLISH VERSION***
Some bands spend years searching for an identity. Night Laser seem to have decided that the best approach is simply to stop looking — and play whatever they damn well feel like playing. On Rats In The Cradle, the Hamburg quartet turns glam and sleaze metal into a starting point for a journey through classic hard rock, heavy metal, power metal, thrash, blues, funk and even moments of stripped-back acoustic music. The result is a surprisingly diverse album that, despite all its stylistic twists and turns, never completely loses the band's own identity.
Opening with “S.T.F.U.”, Night Laser make it clear that their roots remain firmly planted in sleaze. Choral backing vocals, a driving guitar and a highly melodic chorus deliver the combination of attitude and accessibility the genre demands. The backing vocals add extra punch to Benno Hankers' lead performance, while the solo is concise and effective. An intriguing interlude featuring nothing but voice and guitar sets up the final chorus, bringing the track to a suitably emphatic conclusion.
“Make You Mine” changes the mood completely. Bass and vocals carry the opening moments before guitar, drums and keyboards gradually enter the picture. Although the production initially suggests a more modern approach, the essence remains rooted in traditional hard rock, particularly in its excellent chorus. Once again, the backing vocals and dynamic shifts play a crucial role in giving the composition greater depth.
If there is one track capable of summarising the album's overall approach, “Defenders” is a strong contender. Bass takes the lead from the opening seconds, while hard rock, sleaze and traditional heavy metal converge in an extremely melodic composition. The gang vocals give the chorus an almost epic dimension, while the vocal arrangement even brings elements of power metal into the mix. Both the riff and solo are particularly well executed, revealing a band that sounds increasingly confident in its own skin.
The stylistic diversity becomes even more pronounced on “Blueberry Gin”, which begins steeped in blues before accelerating and taking on almost punk-rock contours. The contribution of Sascha Paeth adds extra weight to the guitars and helps make this one of the album's most interesting tracks. More than a simple stylistic exercise, the song demonstrates Night Laser's understanding of rock's roots: blues as the foundation from which virtually everything that followed evolved.
Then comes “Heart Of The Desert Rose”, one of the album's biggest surprises. The presence of Johnny Gioeli adds even more firepower to a song that begins in a measured fashion before developing into a powerful ballad. The combination of Gioeli's and Benno Hankers' voices works particularly well, while the heavy chorus and a solo that almost functions as an extension of the song's central melody give the track an epic quality. It is a tribute to women who face adversity without allowing it to break them — and a particularly accomplished composition.
The title track, “Rats In The Cradle”, opens the album's second half on a much darker note. Heavy riffs, frequent tempo changes and subtle guitar and keyboard touches create an unsettling atmosphere that perfectly suits its subject matter: the disturbing experiments conducted by Japanese war criminal Dr Ishii Shirō. At times, the band ventures into an almost doom-like territory, an unexpected move for a group associated with glam and sleaze. It is a bold choice, but one that works precisely because Night Laser refuse to soften the mood simply to fit their established formula.
“Into The West” provides another sharp contrast. The ballad begins almost completely stripped down, built around Benno's vocals, keyboards and clean guitar. Piano reinforces the delicacy of the opening before distorted guitar, bass and drums explode into the chorus. Backing vocals and keyboards broaden the cinematic atmosphere, while the guitar solo arrives at exactly the right moment, delivering everything a fan of a great power ballad could ask for.
The groove returns with “19CR490”, one of the album's heaviest and most laid-back moments. The song combines hard-hitting riffs with a surprisingly melodic chorus, incorporating influences that range from traditional hard rock to the primitive rock'n'roll of the 1950s. Once again, it demonstrates Night Laser's versatility — and their willingness to add new textures to the formula without losing its original flavour.
With “Get Out”, the contribution of Lars Rettkowitz, guitarist of Freedom Call, makes perfect sense. The track's speed immediately points towards classic heavy metal, with fast guitar work, traditional backing vocals and rhythmic changes that keep it from becoming predictable. It is one of the compositions that most clearly brings Night Laser into traditional metal territory.
“Goddess Of The Sky” slows things down again, but loses none of its grandeur. Following a calm introduction, the full band enters with an epic atmosphere before the vocals even appear. The bass, clearly influenced by bands such as Iron Maiden, drives the verses until guitar and an unexpected flute enter the arrangement. The backing vocals, keyboards and instrumental foundation transform the final section into a genuine anthem, with a strong power metal influence.
Closing the album with “You And Me” is another surprise. Almost entirely acoustic, built primarily around guitar and vocals, the track abandons the heaviness and brings the album to an intimate conclusion. Melodic variations prevent it from feeling like a mere epilogue and reinforce Night Laser's willingness to experiment right up to the final minutes.
It is precisely this sheer amount of information that may divide opinion. Rats In The Cradle is anything but a linear album. Some listeners may find its diversity excessive, almost chaotic; others will appreciate the fact that the band can move through so many different territories without turning the record into a disconnected collection of styles. Night Laser successfully place accessible songs alongside more complex material while maintaining recurring elements — particularly melody, vocals, guitars and a strong emphasis on memorable choruses — that provide a common thread.
Rather than proving that they can play different styles, Night Laser seem to have realised that they simply don't need to choose just one. Rats In The Cradle is an album with an identity precisely because it refuses to be confined by a formula. It can be glam, sleaze, hard rock, heavy metal, blues or power metal — but it still sounds unmistakably like Night Laser. And that may be the band's greatest achievement: having finally taken their foot off the handbrake, they have discovered that the best way forward is to accelerate in several directions at once.
Formado a partir da trajetória de Michael Bormann à frente do Jaded Heart, o Michael Bormann’s Jaded Hard chega a South West reafirmando uma identidade que o vocalista ajudou a consolidar no hard rock melódico europeu: guitarras marcantes, grandes melodias, refrãos imediatos e uma produção contemporânea, mas sem abrir mão do peso e da atitude que sempre acompanharam sua carreira.
Este projeto funciona como uma ponte entre o presente e a fase mais celebrada da trajetória de Bormann. Ao longo de seus trabalhos solo, o músico explorou diferentes possibilidades dentro do rock, mas foi no Jaded Heart que sua assinatura se tornou particularmente reconhecível. South West recupera justamente essa essência, embora esteja longe de ser uma tentativa de reproduzir o passado.
A abertura com “Country Boy” estabelece rapidamente as regras do jogo. O hard rock cadenciado, de forte inspiração americana, serve de plataforma perfeita para a voz rouca de Bormann, enquanto o refrão assume uma dimensão quase hínica. “Love, Touch and Trouble” segue pela mesma estrada, com guitarras de timbres clássicos, baixo e bateria formando uma base sólida e backing vocals cuidadosamente posicionados para ampliar o impacto dos refrãos. É uma fórmula conhecida, mas executada com segurança e, principalmente, com consciência de suas próprias virtudes.
A grande qualidade de South West, entretanto, está na maneira como o álbum trabalha as diferentes velocidades e atmosferas sem perder sua identidade. Há espaço para o hard rock mais direto, para momentos AOR, para faixas cadenciadas e para baladas, criando uma dinâmica que impede que as 11 músicas pareçam variações de uma mesma ideia.
“Stop Those Rainy Days (30 Years Later)” exemplifica bem esse equilíbrio. A faixa parte de uma estrutura que poderia facilmente conduzir a uma power ballad convencional, mas ganha corpo com guitarras acústicas, mudanças de intensidade e um refrão que amplia progressivamente a composição. A influência de gigantes como o Whitesnake é perceptível, mas o resultado não soa como mera reprodução de um modelo consagrado. Já “That’s the Only Truth” assume de maneira mais explícita os códigos da power ballad clássica, com guitarras limpas que cedem espaço à distorção no momento certo, coros e backing vocals criando a atmosfera esperada — e uma interpretação particularmente inspirada de Bormann.
Os teclados também desempenham papel importante na construção do álbum. Em “In the Shadows of the Night”, eles aproximam a banda do AOR oitentista e ajudam a criar um contraste interessante com as guitarras e a aceleração da faixa. Em outros momentos, aparecem de maneira mais discreta ou assumem uma função quase atmosférica, como em “Kissed by You”, que começa flertando com uma estética synthwave antes de ganhar contornos mais definidos de hard rock. Essa utilização dos teclados adiciona textura e variedade ao disco sem deslocá-lo de seu eixo principal.
É justamente nessa combinação entre tradição e atualização que South West encontra seu maior mérito. “I’ll Always Remember You” transita por uma zona intermediária entre balada e faixa cadenciada, enquanto “There’s No Living Without You” recupera aquele hard rock clássico de refrão imediatamente assimilável, com guitarras e teclados muito bem integrados à seção rítmica. São músicas que demonstram que Bormann conhece profundamente os mecanismos do gênero e sabe exatamente quando deixar a voz assumir o protagonismo.
E a voz continua sendo um dos grandes trunfos. Mesmo quando opta por uma interpretação mais limpa, Bormann permanece imediatamente reconhecível. Sua rouquidão característica acrescenta personalidade às composições mais pesadas, enquanto os momentos mais contidos revelam um intérprete capaz de trabalhar emoção sem recorrer ao excesso.
“I’m a Liar (That’s No Fantasy)” talvez seja o melhor exemplo disso. Construída inicialmente sobre piano e voz, a faixa cresce gradualmente até adquirir contornos quase épicos, com a entrada dos demais instrumentos, melodias marcantes e um solo que complementa a atmosfera. O momento em que a voz permanece praticamente sozinha antes da retomada instrumental é particularmente eficiente e mostra um Bormann confortável também quando o arranjo exige contenção.
No outro extremo, “One Step Back” devolve ao álbum a energia mais festiva do hard rock, reunindo guitarras, teclados, backing vocals e outro refrão feito para ser cantado em coro. O mérito está novamente nos detalhes: os timbres foram escolhidos para dialogar entre si e, sobretudo, para valorizar a voz de Bormann.
A faixa de encerramento, “Cheers To”, adiciona uma dimensão mais pessoal ao disco. Dedicada ao guitarrista Holger Bussler, a composição aposta em uma abordagem semiacústica e funciona como uma despedida menos convencional, acrescentando uma nova nuance ao álbum sem quebrar sua unidade.
No fim das contas, South West não tenta reinventar o hard rock melódico — e não precisa fazê-lo. Sua força está justamente em compreender o que tornou essa linguagem tão duradoura e reapresentá-la com uma produção atual, bons arranjos e uma banda que sabe explorar suas possibilidades. O álbum alterna momentos mais pesados e diretos com passagens atmosféricas, AOR e baladas, mantendo sempre uma preocupação evidente com melodias e refrãos.
É também por isso que o Michael Bormann’s Jaded Hard merece ser visto para além da simples nostalgia. Se a carreira solo permitiu ao músico explorar diferentes territórios, este projeto recupera deliberadamente a identidade que marcou sua passagem pelo Jaded Heart — não como uma tentativa de voltar no tempo, mas como uma evolução natural daquela fórmula. South West soa como um músico revisitando uma parte importante de sua própria história com a experiência acumulada ao longo de décadas.
Para quem acompanha Bormann desde os tempos do Jaded Heart, há aqui elementos familiares suficientes para despertar a memória afetiva. Para quem chega agora, porém, o álbum funciona perfeitamente por seus próprios méritos: é hard rock melódico, acessível e vigoroso, produzido para o presente, mas com pleno conhecimento de onde veio.
***ENGLISH VERSION***
Built around Michael Bormann’s legacy with Jaded Heart, Michael Bormann’s Jaded Hard arrives with South West reaffirming an identity the vocalist helped establish within European melodic hard rock: strong guitars, memorable melodies, immediate choruses and contemporary production, without sacrificing the weight and attitude that have always defined his career.
This project serves as a bridge between the present and the most celebrated period of Bormann’s career. Throughout his solo work, the musician has explored different possibilities within rock, but it was with Jaded Heart that his signature became particularly recognizable. South West recaptures that essence, although it is far from an attempt to simply recreate the past.
“Country Boy” sets the tone immediately. Its laid-back, distinctly American-flavored hard rock provides the perfect platform for Bormann’s raspy voice, while the chorus takes on an almost anthemic quality. “Love, Touch and Trouble” follows a similar path, with classic hard rock guitar tones, bass and drums forming a solid foundation and carefully placed backing vocals adding impact to the choruses. It is a familiar formula, but one executed with confidence and, more importantly, with a clear understanding of its own strengths.
The greatest quality of South West, however, lies in the way the album moves between different tempos and atmospheres without losing its identity. There is room for more direct hard rock, AOR touches, mid-tempo tracks and ballads, creating enough dynamics to prevent the 11 songs from feeling like variations on the same idea.
“Stop Those Rainy Days (30 Years Later)” is a good example of this balance. The song begins with a structure that could easily develop into a conventional power ballad, but gains substance through acoustic guitars, shifts in intensity and a chorus that gradually expands the arrangement. The influence of giants such as Whitesnake is noticeable, yet the result never feels like a mere reproduction of an established template. “That’s the Only Truth”, meanwhile, embraces the classic power-ballad formula more directly, with clean guitars giving way to distortion at precisely the right moment, layered vocals and backing harmonies creating the expected atmosphere — along with a particularly inspired performance from Bormann.
Keyboards also play an important role in shaping the album. On “In the Shadows of the Night”, they bring the band closer to ’80s AOR while creating an interesting contrast with the guitars and the song’s increased pace. Elsewhere, they appear more discreetly or take on an almost atmospheric role, as on “Kissed by You”, which initially flirts with a synthwave aesthetic before developing into a more defined hard rock track. This use of keyboards adds texture and variety without pulling the album away from its central direction.
It is precisely this combination of tradition and modernization that becomes South West’s greatest strength. “I’ll Always Remember You” occupies the territory between a ballad and a mid-tempo rocker, while “There’s No Living Without You” brings back the kind of classic hard rock built around an instantly memorable chorus, with guitars and keyboards seamlessly integrated into the rhythm section. These songs demonstrate that Bormann understands the mechanics of the genre inside out and knows exactly when to put his voice at center stage.
And that voice remains one of the album’s greatest assets. Even when he opts for a cleaner delivery, Bormann remains instantly recognizable. His characteristic rasp adds personality to the heavier compositions, while the more restrained moments reveal a singer capable of conveying emotion without resorting to excess.
“I’m a Liar (That’s No Fantasy)” may be the clearest example. Initially built around piano and vocals, the song gradually expands into something almost epic as the other instruments enter, supported by strong melodies and a tasteful solo that complements the atmosphere. The moment when Bormann’s voice is left almost completely alone before the instrumental arrangement returns is particularly effective, demonstrating that he is equally comfortable when the music calls for restraint.
At the other end of the spectrum, “One Step Back” restores the album’s more celebratory hard rock energy, bringing together guitars, keyboards, backing vocals and another chorus seemingly designed for a crowd to sing along with. Once again, the details make the difference: the tones have been carefully chosen to complement one another and, above all, to enhance Bormann’s voice.
The closing track, “Cheers To”, adds a more personal dimension to the album. Dedicated to guitarist Holger Bussler, the song takes a semi-acoustic approach and serves as a less conventional farewell, introducing another shade to the record without disrupting its overall unity.
Ultimately, South West does not attempt to reinvent melodic hard rock — and it does not need to. Its strength lies in understanding what has made this musical language so enduring and presenting it through modern production, strong arrangements and a band capable of exploring its possibilities. The album moves between heavier, more direct moments, atmospheric passages, AOR and ballads, while maintaining a clear focus on melodies and memorable choruses.
This is also why Michael Bormann’s Jaded Hard deserves to be viewed as more than a nostalgia project. If Bormann’s solo career allowed him to explore different territories, this band deliberately reconnects with the identity that defined his time with Jaded Heart — not as an attempt to turn back the clock, but as a natural evolution of that formula. South West sounds like a musician revisiting an important chapter of his own history with the experience accumulated over decades.
For those who have followed Bormann since his Jaded Heart days, there are enough familiar elements here to trigger a strong sense of nostalgia. For newcomers, however, the album stands perfectly well on its own merits: accessible, energetic melodic hard rock made for the present, but created by musicians who have a clear understanding of where it all came from.