Após um período para "ajustes", devido a mudança de residência e outros problemas de cunho pessoal, o incansável Mutley (bateria e vocal), ao lado de Paulo On (guitarra e baixo, que já deixou a banda, tendo o retorno de Arion Renée), produziram o segundo registro da Animal House, "Limbo".
Sobre o título Mutley explica: "Fiquei um
tempo determinando qual seria o nome do disco. Pensei primeiro em Phoenix, pela
semiótica que a ave mitológica carrega, de renascer das cinzas. Pensei também
em Alive Again ou Back from the Dead, mas aí entraria em um problema. As
pessoas poderiam achar que se trata de um disco ao vivo, e principalmente,
achar que a banda em algum momento tivesse morrido. E eu não quero isso. Seria
admitir a derrota. Acabou ficando LIMBO. Que é um espaço onde não existe
espaço, tempo, reflete bem os anos de turbulência da banda e de minha vida
pessoal." (leia entrevista completa AQUI)
Se o antecessor de "Limbo", o álbum "First Blood", deixou a banda insatisfeita em termos de produção sonora, neste novo trabalho, apesar de ainda haver oscilações, essa parte melhorou bastante, inclusive com o trabalho soando mais pesado, com mais punch, ou seja, há uma evolução clara, o que é muito bom, pois, apesar de ainda carecer de ajustes, se não houvesse evolução aí sim seria preocupante.
A banda se auto-intitula como Modern Metal, apresentando groove e peso nos riffs e levadas de bateria, mas também não abre mão de toques de Hard e Metal mais tradicional (como na abertura com "Last Great Hero", que mescla bem esses elementos), assim como Blues, como na faixa bônus acústica e ao vivo "Middle Finger Blues".
As demais 3 faixas do EP são bem interessantes, com boas ideias e variações, e talvez a citada faixa de abertura e "Monochromatic" melhor representem o que a banda parece buscar, uma música com bastante peso e groove, com essa influências do Metal Moderno, e posso citar aí os influentes Pantera e Black Label Society, mas sem deixar de lado as raízes.
Mais um importante passo, como disse anteriormente, se viu uma evolução, tanto na parte de produção, como em composição e sonoridade. Que o Animal House siga evoluindo e esperamos para breve um full-lenght.
Texto: Carlos Garcia
Banda: Animal House
Álbum: Limbo
País: Brasil
Estilo: Modern Metal/Heavy Metal
Assessoria: Heavy & Hell Press
Formação:
Mutley Animal: Vocal e Bateria
Arion Renée: Guitarra
(Paulo On: Baixo e Guitarra - Obs: Paulo saiu após o lançamento de "Limbo")
Dificuldades
que permeiam o underground fazem muitas bandas de potencial desistirem de seu
sonho ou simplesmente deixa-lo estagnado. Com o Animal House a coisa foi um
pouco diferente, mesmo tendo todas as adversidades possíveis a banda persistiu,
e não desistiu de seu sonho, seguindo em frente e mostrando sua música para
quem quisesse ouvir.
“Limbo”
seu mais recente lançamento marca todo esse esforço e dedicação, onde trazem
composições fortes e marcantes, como uma forma de resposta a quem não
acreditava em seu trabalho.
Conversamos
com o vocalista Mutle¥, onde o mesmo nos conta um pouco desta trajetória, além
de suas percepções sobre o novo lançamento e muito mais.
Confira:
Road to
Metal: “Limbo” se mostrou um álbum com uma produção mais bem resolvida, com
mais punch. O que vocês agregaram de experiências positivas e negativas do
primeiro trabalho, “FirstBlood”, para este novo e o que vocês acreditam que
poderão fazer de diferente para o próximo se sair ainda melhor?
Mutle¥: Durante o First Blood, eu estava envolvido com
mudança para outro estado. Então não foi possível participar de maneira mais
ativa da produção. Com o LIMBO foi diferente. Consegui me envolver diretamente
com a produção e deixar o trabalho final mais próximo do que eu queria que o
First tivesse ficado. Ainda não está 100%, mas isso se deve às limitações
técnicas e financeiras da banda no momento. Como não temos nenhum tipo de
patrocínio ou empresário, tudo sai direto do meu bolso. Quero muito conseguir
melhorar o acabamento dos discos vindouros da banda, mas aí precisamos de uma
ajuda externa.
RtM: E
sobre o título, “Limbo”? Conte-nos o porquê dele e a relação com a arte da capa
(que, sem fazer trocadilhos, está animal!)
Mutle¥: Fiquei um tempo determinando qual seria o nome do
disco. Pensei primeiro em Phoenix, pela semiótica que a ave mitológica carrega,
de renascer das cinzas. Pensei também em Alive Again ou Back from the Dead, mas
aí entraria em um problema. As pessoas poderiam achar que se trata de um disco
ao vivo, e principalmente, achar que a banda em algum momento tivesse morrido.
E eu não quero isso. Seria admitir a derrota. Acabou ficando LIMBO. Que é um
espaço onde não existe espaço, tempo, reflete bem os anos de turbulência da
banda e de minha vida pessoal. De início pensei em Back From Limbo ou Escape
from Limbo, mas preferi ficar somente com LIMBO, mais curto e direto. E a capa,
reflete bastante esse conceito. É tão impactante quanto o nome que o disco carrega.
RtM: “Last Great
Hero” tem influências do Metal mais tradicional flertando com sonoridades mais
atuais, além da levada mais cadenciada, enquanto que “Monochromatic” aposta
mais na velocidade e “porradaria”, mas mesmo assim flerta com trechos mais
melodiosos, principalmente na guitarra. Essa diversidade e fusão desses
elementos é o que veremos daqui pra frente no trabalho da banda? Gostaria que
você comentasse mais sobre essas faixas.
Mutle¥: Começar com Monochromatic, por que essa música era para
estar ainda no First Blood, mas por conta de tempo e dinheiro, acabou ficando
de fora. O que a longo prazo foi bom, por que a música ganhou uma reformulada
total e ficou muito melhor do que ela era antes. Last Great Hero foi uma música
já pensada para se encaixar no que eu queria para o LIMBO. Quanto às
referências músicas, a banda é um caldeirão de influências, e o norte sempre
foi fazer um som que fosse 100% nosso, que nenhuma outra banda consiga
reproduzir. O foco é manter a pegada agressiva, forte, mas aliar isso com uma técnica
que seja bem trabalhada, mas que não soe maçante. Isso sempre vai ser o foco
principal da banda. Músicas originais, inesperadas, flertando com estilos
diversos e principalmente muito experimentalismo, mas fiquem tranqüilos. Nada
demasiadamente exagerado, que fuja daquilo que a banda se propôs a fazer.
RtM: A
última faixa é uma versão acústica da “Middle Finger Blues”, cujo nome já
entrega com que estilo a banda flerta na faixa. Mas eu gostaria de saber para
quem vocês dedicariam hoje essa faixa e seu singelo título! Hehehe
Mutle¥: Na verdade a música é uma ode à todas as pessoas que
te tiram do sério, que fazem da sua vida uma confusão, seja trabalho, ambiente
familiar, é um grande foda-se, uma maneira de extravasar sentimentos ruins de
uma forma sadia. Ou seja, há quem eu dedico, dedico às mesmas pessoas que
vocês, dedico a música há quem vocês acham que mereça.
RtM: E
falando um pouco mais da sonoridade da banda, que prioriza o peso e nuances
mais modernas, mas dando espaço para elementos de Blues, Hard e Thrash, que
influências ou inspirações você citaria que foram importantes para moldar a
música do Animal House?
Mutle¥: Cada pessoa na banda tem seu próprio conjunto de
influências. Eu cresci numa cidade no interior do Paraná, onde era muito
difícil conseguir qualquer tipo de material de Rock e Metal. Sempre havia
aquele amigo que tinha um primo que tinha um outro amigo que veio (quase
sempre) de Curitiba que tinha vários discos, fita k7 (naquele tempo nem
existiam cd´s). Era quase como um mercado negro. Parece meio bobo falando
agora, e realmente é um pouco, mas era divertido, era quase uma aventura
conseguir algo pra ouvir. Então a gente vivia trocando fitas k7, com várias
músicas, de várias bandas, de vários estilos, por que tudo era novidade, tudo
era legal, tudo era novo. Numa fita k7 eu tinha gravado músicas do Ramones,
Sepultura, Alice In Chains, Black Sabbath, Slayer, Agnostic Front, Offspring,
Led Zeppelin... era uma verdadeira suruba, mas ao mesmo era muito bom, por que
isso moldou meu gosto musical independente de estilos. E é claro isso se reflete nas composições da
banda. Eu acho que isso hoje infelizmente se perdeu. Com
a facilidade de encontrar músicas e bandas proporcionada principalmente com o
advento da internet, o público se focou muito em rótulos e nomes de banda. Gente
que só ouve Black Metal, ou Thrash Metal, ou Hardcore, ou não ouve nada desse
ou daquele estilo. E isso é ruim.
Agora falando diretamente da Animal House, apesar de Black
Sabbath ser minha influência maior, ter sido a banda que realmente me fez
entrar de cabeça no Rock e Metal, ela tem pouco peso na música da Animal, se
formos analisar. Em matéria de Animal House, acho que as 3 bandas que mais
influenciaram diretamente em nível musical foram Pantera, Black Label Society e
Chrome Division, mas essa última somente os 2 primeiros discos, por que para
mim a banda acabou quando o vocalista Eddie Gus saiu.
RtM: E
quais as temáticas que vocês mais curtem abordar nas letras? Eu vejo que o
Metal ainda é um estilo que procura, na grande maioria, ter um cuidado especial
no conceito lírico, passar realmente uma mensagem e opinião relevante.
Mutle¥: Me sinto obrigado a discordar de você nesse ponto, e
mais uma vez vou levantar uma polêmica aqui (não consigo dar uma entrevista sem
fazer uma declaração que gere discussão, juro que não faço de propósito, mas
acho que algumas coisas não podem passar batidas). Recentemente, li um texto do
Regis Tadeu em seu blog no Yahoo (já deixando claro que não sou fã do cara, não
admiro, mas ao mesmo tempo não odeio, acho que como todo mundo que se expõe
demais, ele fala muito coisa que discordo, mas também acerta em cheio em
algumas coisas), onde ele criticava a falta de cultura que se apoderou da
música moderna brasileira. Letras vazias de qualquer tipo de conteúdo, de rima,
de poesia. Em seu texto, ele enfatizou pagode, funk e sertanejo, mas sinto que
ele fez o erro de deixar o Rock de lado. O Rock, de uma maneira geral,
independente de Rock, Metal, Hard, ou Grunge, sempre esteve cercado de
composições excelentes, várias músicas profundas que nos levam à momentos de
introspecção. Fora as baseadas em obras literárias, lendas, ou mesmo histórias
originais, que dariam verdadeiras epopéias cinematográficas (e algumas até
renderam, como The Wall do Pink Floyd e Tommy do The Who). Eu
sinto que hoje isso está se perdendo. E as letras do Rock e Metal, não somente
à nível nacional como também internacional estão ficando cada vez mais vazias e
repetitivas. Músicas que flertam com abuso
de álcool, drogas, violência, depreciando opções religiosas, enaltecendo
sentimentos negativos, falando de demônios e essas outras merdas, e as
insinuações sexuais, que passaram de flertes um pouco mais picantes para
putaria desmedida.
Eu acho que a letra na música tem um papel muito importante.
É a letra que vai estabelecer o diálogo com o ouvinte. A melodia agrada aos
ouvidos, mas é a letra que realmente toca a pessoa, que meche com o sentimento,
que traz um momento marcante na vida da pessoa, um referencial. A música é uma
das poucas coisas que tem o poder de impactar uma pessoa dessa maneira e é
lamentável ver isso ser desperdiçado com letras tão intencionalmente mal
escritas.
Eu sempre tento estabelecer esse diálogo nas músicas da
Animal House, com exceção de Ironhead, que é a única música até agora que
digamos, que a letra não fala nada com nada, além de velhos clichês de Rock n’
Roll como trovão, fim dos dias (que vamos ser francos, é legal de vez em
quando, mas não o tempo todo). Eu sempre tento estabelecer esse diálogo com o
ouvinte através das letras que eu componho. Posso parecer presunçoso, mas me
acho um compositor muito bom nesse sentido. Se não fico 100% satisfeito com a
letra, não produzo a música.
Quando
Bob Dylan começou, ele possuía apenas sua voz desafinada, uma gaita e um
violão. E mesmo assim, ele foi a voz de uma geração. Tudo graças às suas
composições marcantes. Claro que não tenho essa pretensão toda, apenas citei
ele como exemplo, pois além de fã do cara, ele é o melhor exemplo prático do
poder de uma letra bem escrita.
RtM: E
quanto a repercussão de “Limbo”, vocês estão satisfeitos com o retorno
recebido? Está dentro das expectativas?
Mutle¥: Eu comentei isso em outras entrevistas, quanto à
recepção, nada a reclamar. Tem sido excelente. O disco não recebeu uma única
crítica negativa. Quanto às vendas, confesso que ficaram bem abaixo do que eu
esperava. Mais aí novamente esbarramos na questão de sermos totalmente
independentes. Não temos alguém que possa custear uma produção e distribuição
maior. Cada disco é gravado e enviado individualmente para cada fã da banda.
RtM: A
banda gravou o álbum como um duo, vocês pensam em estabilizar uma formação com
mais membros? Inclusive pensando em entrosamento maior para shows. E não é uma
coisa fácil muitas vezes estabilizar uma formação, face as dificuldades que
todos sabemos que as bandas passam, como falta de espaço, tempo pra conciliar
com trabalhos regulares, etc..., aliás, como você também vê essas questões?
Mutle¥: O mais difícil é mesmo o comprometimento que
cada pessoa tem com a banda. Eu quero muito isso pra minha vida, mas uma banda
não é somente uma pessoa, e por vezes eu esbarrei na falta de profissionalismo
e comprometimento de outros músicos, que encaram música apenas como hobbie, ou
como algo secundário. Poucos tem coragem de
se agarrar a isso como eu faço. Quanto ao duo, a banda já está com formação
completa, e estamos ensaiando músicas novas. E shows também.
RtM: Quais
os próximos passos e planos para levar o nome da banda à um público maior?
Mutle¥: Eu acho que o próximo grande passo agora é algum
produtor com bom senso cair na real que a Animal House é uma grande banda com
ótimo potencial e alavancar com a gente. Rock In Rio ta começando agora e não
estamos no cast. Uma pena... o festival não vai ser tão bom quanto poderia agora,
mas fazer o que né hehehehe
RtM: Valeu
pela atenção pessoal, fica o espaço para sua mensagem aos leitores do Road!
Mutle¥: Em nome de toda a banda, agradeço ao espaço cedido
para a entrevista, agradeço a todos que tiveram saco de ler até o fim (sempre
me alongo demasiadamente nas respostas) e agradeço ao apoio que todos dão à
banda. Um grande salve.
A banda paranaense ANIMAL HOUSE foi formada em 2010 pelo vocalista
Mutley Animal. Com a proposta de fazer um som que fugisse da mesmice e com
influências de nomes como Black Label Society, Chrome Division, Motorhead,
Pantera, entre outros, o grupo lançou seu primeiro trabalho, FIRST BLOOD, em
2012. Prestes a lançar um novo trabalho (intitulado LIMBO), o Road to Metal
bateu um papo com a banda. Boa leitura!
Road to Metal: De onde surgiu a idéia pra formar a banda e quais as
principais influências do grupo no seu início?
Mutle¥: A ideia de montar uma banda surgiu
quando eu ainda morava em Maringá/PR. Eu estava descontente com a cena local,
achava as bandas que ali figuravam fracas e repetitivas, isso sem contar a
avalanche de bandas cover que se apresentavam em eventos picaretas. Queria
fazer algo diferente daquilo que estava sendo feito, algo único. Muitas pessoas
compareciam aos eventos pra ver essa ou aquela banda para tocar essa ou aquela
música de uma outra banda maior. Eu não queria isso, eu queria que as pessoas
fossem ver ANIMAL HOUSE pra ver a ANIMAL HOUSE, pra ver as músicas da ANIMAL
HOUSE, e não ouvir a música de alguma outra banda.
A banda
tinha membros diferentes, cada um com suas influências, eu puxava algo mais na
linha Hard N’ Heavy, era e ainda sou muito fã de bandas como Mötley Crüe, Thin
Lizzy, ZZ Top... Conforme o tempo foi passando, a banda acabou desenvolvendo
sua musicalidade própria, justamente o que eu queria. Se for parar pra
analisar, as bandas que mais me espelhei na época da gênese da ANIMAL HOUSE
foram Pantera, Chrome Division (os 2 discos iniciais na verdade), Motörhead e
Black Label Society. Mesmo os nossos trabalhos hoje, que estão bem mais puxados
para uma linha Heavy Stoner e Southern, ainda carregam muita influência dessas quatro
bandas.
RtM: Uma banda nova, principalmente se executa um Rock mais pesado,
passa sempre por dificuldades. Desinteresse do público, músicos por vezes sem o
foco necessário, etc... O grupo passou por estes problemas? Como seguir em
frente com um cenário até certo ponto, desfavorável?
Mutle¥: Sim, e como passou. Eu mencionei em
entrevistas anteriores que chegou um momento onde a ANIMAL HOUSE foi
completamente boicotada dos eventos locais. Chegou ao absurdo de na véspera de
um evento, o produtor desse evento me falar que nós estávamos fora do cast, por
que a banda principal (uma banda da cidade que tem até uma certa representação
no cenário nacional) disse que não queria que tocássemos nesse evento.
Outra
situação bastante humilhante foi quando a ANIMAL HOUSE foi convidada para fazer
a abertura de um show de Ozzy Osbourne cover, e a produtora do evento disse que
tocaríamos de graça. Eu recusei. Disse que não iria prostituir meu trabalho, e
que como havia músicos dessa formação naquela época que não residiam na cidade,
seria necessário ao menos uma ajuda de custo. Além de que estávamos começando
os preparativos do FISRT BLOOD, e estúdio não é barato. Perguntei ainda se caso
oferecessem para que a banda dela (outra banda que também vem ganhando bastante
expressão nacionalmente) tocasse de graça se ela aceitaria. Depois disso também
a ANIMAL HOUSE nunca mais foi convidada para eventos locais.
A verdade
é que esse tipo de coisa acontece muito, em todos os lugares. Muita gente fala
em união e amizade dentro do Metal, mas isso é mesmo da boca pra fora. Existe
muita inveja e intriga dentro da cena. Ao invés de as bandas se unirem para
construir algo sólido, é como se estivessem competindo por alimento em tempos
de escassez. Um querendo puxar o tapete do outro, um querendo prejudicar o
outro. Se não me engano, é nos extras do DVD Alive II do Anthrax, há uma
entrevista com a banda. E em um determinado momento, um dos músicos comenta sobre
aquilo que chamaram de Mercedes Tour. Onde o Anthrax e pelo menos mais umas três
bandas, se juntaram em quatro ou cinco carros, e saíram viajando de cidade em
cidade procurando lugar pra tocar. Ninguém pensou em lucro, queria apenas
pessoas para dividir as despesas.
Acho que
falta esse tipo de união na cena. Lá fora, todo mundo se uniu para construir
algo sólido, por isso que a cena lá é forte e se reinventa, aqui como eu disse,
cada um por si. È triste, mas temos que aceitar a realidade de que vivemos em
um país onde você prejudicar o outro em prol de benefício próprio é cultural e
socialmente aceito.
Sobre
seguir em frente, quando fundei a ANIMAL HOUSE eu decidi que a banda sempre
seria maior e mais forte do que qualquer obstáculo que encontrasse. E está
sendo. As coisas podem até não caminhar da forma como planejei, mas estamos na
ativa, trabalhando, compondo e mostrando nosso som. Motivos pra desistir foi o
sem dúvida o que não me faltaram. Mas ainda tenho muitas músicas novas pra
escrever com a banda.
RtM: “First Blood” foi lançado em 2012, e foi o cartão de visitas da
banda. Como foram as sessões de
gravação?
Mutle¥: Caseiras. Literalmente. A saída dos
integrantes originais além de bastante desagradável me deixou com um pepino na
mão, entre elas, dívidas de estúdio. Mas com eu disse na pergunta anterior,
ANIMAL HOUSE é e sempre será maior que seus percalços.
Consegui
renegociar e quitar as dívidas pendentes. Consegui um produtor e sempre que
precisávamos gravar, todos levavam os equipamentos em casa, plugávamos no PC e passamos
literalmente dias focados. Todo mundo se empenhou muito. O problema foi o
timing, eu estava de mudança para Santa Catarina na época, além de cursar duas
pós-graduações ao mesmo tempo.
Então
entre mudança, estudos, banda e procurar trabalho em outro estado da pra
imaginar que ficou bem corrido. O produtor que contratei estava fechando com um
dessas duplinha nojentas de sertanejo universitário na época e estava levando
os compromisso com o FIRST BLOOD empurrando com a barriga. Na verdade, eu exigi
que ele remixasse o disco pelo menos umas três vezes antes da versão final. Eu
já comentei também em entrevistas anteriores que não fiquei 100% satisfeito com
a qualidade do produto final, mas para a época, visto tudo que eu tinha que
fazer, precisei deixar passar algumas coisas.
Mas eu
fiquei sim muito orgulhoso com o trabalho, e devo muito aos músicos que estavam
comigo na época, Arion e José Augusto. Apesar das falhas técnicas e de
produção, quem escuta o disco consegue ver além disso, e perceber que se trata
de um trabalho sério, um trabalho literalmente feito por amor à música. O
título do disco reflete essas provações que a banda teve que passar. Eu
pretendo futuramente regravar e relançar o FIRST BLOOD, dessa vez com a
qualidade que tanto disco quanto público merecem.
RtM: O álbum mostra uma gama de influências de nomes como Black Label
Society e Chrome Division. O que soa bem diferente é o vocal, bem mais
agressivo que a maioria das bandas do estilo. Esse seria um dos diferenciais do
Animal House?
Mutle¥: Bom, primeiro eu gostaria de
agradecer pela pergunta, por que o vocal é justamente a parte que me toca. Eu
queria que a ANIMAL HOUSE fosse uma banda com uma sonoridade única, singular. E
isso passa obrigatoriamente por um vocal diferente, sem querer puxar a sardinha
para o meu lado, e sem querer desmerecer nem diminuir a importância de todo o
conjunto, a voz tem um papel vital na banda.
Um vocal
ruim pode arruinar uma melodia boa, dá mesma forma que um vocal bem posicionado
salva uma melodia medíocre, além de ser uma das maiores identidades sonoras do
grupo. Tentei vários estilos, um vocal mais limpo, mais agudo na linha Power
Metal, até algo mais gutural na linha Death Metal, mas desisti.
Não sei
dizer ao certo onde se encaixa minha técnica vocal, nunca gostei de rótulos,
mas acabei desenvolvendo algo que ficasse confortável pra mim. Pode parecer
estranho, mas eu fico muito confortável com o tipo de vocal que eu imprimo à
frente da banda. Minha professora de canto da época quase caiu pra trás, e
muitas pessoas não acreditam que sou eu cantando nas músicas da ANIMAL.
Na
verdade eu não gosto muito da minha própria voz, por que diabos alguém que não
gosta da própria voz iria ser vocalista eu não sei, mas me sinto bem assim,
sinto que consigo me expressar artisticamente, e o público gosta. Então
deixemos como está que está funcionando bem.
RtM: O cover de “Ghost Riders in the Sky” (Johnny Cash) é um dos
destaques do trabalho. Como essa música veio a figurar no álbum?
Mutle¥: Eu sempre fui muito fã de Johnny Cash.
Mesmo a música original não sendo dele, foi sem dúvida O Homem De Preto que
imortalizou a canção. Eu sou um grande fã de Southern Rock, e também de
Country/Blue Grass norte americano, e acho que isso é bem perceptível, tanto
para pessoas próximas à mim quanto para pessoas que acompanham os trabalho da
banda, e eu queria mostrar esse lado da ANIMAL, pegar uma música de um grande
nome do gênero, e dar à ela a cara da ANIMAL HOUSE.
Eu até
pensei em outra música que poderia utilizar, mas sempre acabava voltando nesta.
E foi a que ficou. Eu trabalhei nela sempre pensando: gostaria muito que Johnny
Cash estivesse vivo para ouvir e dar a opinião sobre esse novo arranjo.
Infelizmente isso não é possível. Essa música foi uma das últimas a ficar
pronta, e foi feita às pressas, finalizada em um dia e gravada no outro, e
ainda sim é uma das minhas preferidas, fiquei muito feliz e orgulhoso com o
resultado final.
RtM: O grupo já se encontra em estúdio gravando o próximo trabalho. O
que podemos esperar?
Mutle¥: Podem esperar um disco mais curto,
mas ainda mais técnico e agressivo que nosso debut. LIMBO possui apenas quatro
músicas, mas são todas músicas muito bem trabalhadas tecnicamente, e com uma
produção melhor. Eu consegui participar mais ativamente do processo dessa vez,
e a diferença é enorme.
Eu
pretendia lançar o disco na primeira metade desse ano, mas não foi possível,
levei quase dois anos para fazer às pazes com minha conta bancária depois do
FIRST BLOOD, e não queria passar por isso de novo. Por isso fui obrigado a
suspender o projeto por um tempo, mas estava decidido à lançar esse ano.
E na
verdade já estaria disponível se a gráfica não tivesse feito besteira na hora
de prensar as capas. Mas eu garanto que vai valer a espera. Já lançamos uma
música desse novo disco para audição gratuita em nossas páginas no soundcloud,
reverbtnation e facebook. Como dessa vez o disco será lançado exclusivamente em
mídia física, diferente do anterior, MONOCHROMATIC será a única faixa do disco
disponível para audição.
RtM: Agradeço a disponibilidade e
deixo aqui o espaço a sua disposição. Grande abraço!
Mutle¥: Gostaria de deixar um grande salve a todos que tiveram saco de ler até aqui, a todos os fãs da banda, que sempre
me apoiaram e sempre me cobram material novo. Isso me estimula muito e mostra
que estou no caminho certo. Gostaria de agradecer o espaço para essa
entrevista, a galera do Road sempre esteve ao lado da ANIMAL HOUSE, desde o
primeiro disco, e tem muita coisa boa ainda por vir. Forte abraço à todos.
A banda paranaense Animal House lançou ano passado seu 1° álbum, o diversificado "First Blood". Não se prendendo a estilos, temos um bom álbum de Heavy/Rock, que passa pelo Hard, Prog, Shouthern Rock e por aí vai.
Riffs potentes, vocal marcante e cozinha pulsante, fazem de "First Blood" uma ótima pedida. Uma pena o álbum não ter tido uma melhor produção (infelizmente no Brasil é assim: valor alto = produtor profissional/valor alto = produtor pilantra), porém nada que comprometa o trabalho em si, pois as composições são muito boas e mesmo com alguns problemas técnicos consegue convencer e mostrar o quanto a banda tem qualidade.
Após a intro "Call of the Storm" temos a excelente "Burning" que tem um trabalho de bateria fantástico, sem contar os riffs pesados e certeiros. "Skull King" vem mais cadenciada, mas não menos agressiva, com uma boa variação rítmica.
"Devil Lady" com certeza é um dos destaques do álbum, com uma pegada mais Hard e melodiosa, com arranjos simples porem eficientes. Há tempo de mencionar a versão de "Ghost Riders (in the Sky)" de Johnny Cash, que ficou muito boa e que mesmo mantendo a originalidade da composição teve algumas mudanças que se encaixou mais na proposta da banda.
O Animal House lança um bom álbum, que só não pode ser considerado melhor devido a sua produção não ter ficado a altura de sua música.
Para quem quiser conhecer o som do grupo a banda disponibilizou para download gratuito o trabalho, onde pode ser baixado aqui.