terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Timo Tolkki's Avalon: Trilogia Encerrada de Forma Positiva

Foram muitos altos e baixos na carreira de Timo Tolkki, principalmente pós-Stratovarius, banda com a qual Timo construiu álbuns e carreira sólida por um bom período. Não há como negar a qualidade e importância de discos como "Epidose", "Visions" (acredito que a grande obra da banda) ou "Destiny", por exemplo, que levaram a trupe finlandesa a um patamar elevado, com canções memoráveis e que são referência no Power Metal e Metal Melódico.

Os problemas com depressão, os desentendimentos, saída da banda e altos e baixos, com projetos que não repetiram o mesmo êxito da época áurea do Stratovarius

Mas a capacidade e talento reconhecidos de Timo o levaram a assinar com um dos principais selos de Hard, Classic Rock e Metal Melódico, a Frontiers Records, produzindo então a Metal Opera "Avalon" (trilogia que tem como tema a ficção, e se passa no ano de 2055, em um planeta terra desolado por tsunamis e outros desastres), que seis anos após a primeira parte, chega ao seu derradeiro álbum.

Contando com uma ótima produção e um time de convidados de peso, a trilogia iniciou em 2013, com "The Land of New Hope" com convidados como Elize Ryd, Mike Kiske e Russel Allen. A segunda parte foi lançada em 2014, "Angels of the Apocalypse", que contou novamente com Elize e um time novo, com Fabio Lione, David DeFeis, Simone Simons, Zak Stevens e a cantora chilena Caterina Nix5.

O primeiro álbum teve boa aceitação, sem grandes novidades para o estilo, mas com boas canções, e o segundo sofreu algumas críticas mais pesadas, principalmente pela falta de músicas mais empolgantes.

"Return to Eden" (2019), álbum que fecha a trilogia, e que chega ao Brasil nessa nova parceria da Shinigami Records, agora com a Frontiers - o que é uma excelente notícia pelo catálogo atrativo da gravadora italiana - a Opera Metal de Tolkki apresenta seu melhor e mais consistente momento. Talvez o tempo, 5 anos desde o lançamento da segunda parte, favoreceu a Timo, que teve um tempo maior para criação das músicas.

O álbum tem vários acertos, como a adição de novas parcerias, a produção de Aldo Lonobile e mixagem/masterização de Federico Pennazzatto, ou seja, Timo pode se concentrar mais na parte criativa.

Anneke, trazendo brilho ao mais recente álbum de Tolkki

O time de vocalistas também foi bem escolhido, trazendo mais novidades, como Anneke Van Giersbergen, um dos grandes destaques, Mariangela Dermutas (Tristania), Todd Michael Hall (Riot), Eduard Hovinga (Mother of Sin e ex-Elegy) e Zak Stevens, que também esteve no anterior, e também possui atuação com maior destaque.

A sonoridade é voltada ao Power Metal melódico, área que Timo conhece muito bem, mas os maiores destaques são as canções de andamentos mais melodiosos e moderados, como em "Return to Eden", única em que temos mais de um dos vocalistas atuando juntos, e Zak, Todd e Mariangela se revezam, trazendo um "molho" bem especial.

Nessa mesma linha, Anneke aparece com "Hear My Call", uma das melhores do álbum, mostrando toda a capacidade da holandesa em criar belas melodias vocais, sendo capaz de deixar interessante até canções mais medianas. A holandesa também traz seu brilho para "We are the Ones".

Zak, além da já citada acima, tem mais dois números individuais, em "Miles Away", também seguindo essa linha mais cadenciada e refrão marcante, e "Wasted Dreams", cadenciada e de guitarras com bastante pegada e riff principal marcante, trechos com somente a cozinha, teclads e voz, dando aquele ar dramático. É até clichê, mas é uma boa canção, lembrando a época Visions/Destiny do Stratovarius.

Mariangela Dermutas mostra outras nuances de sua voz

Outra que me lembrou bastante essa era é "Now and Forever", com Todd nos vocais, e é outra que se destaca. Outra que se destaca é "Guiding Star", na voz de Mariangela, e é muito interessante ouvi-la em estilos diferentes do que estamos acostumados. Alternando linhas vocais suaves com outras mais altas, é um fechamento bem agradável para o álbum. Mariangela ainda aparece individualmente na balada "Godsend".

Os temas mais velozes e mais tradicionais de Power Metal melódico ficaram a cargo de Hall e Hovinga. Para o vocalista do Riot coube a abertura, com a veloz e pomposa  "Promises", e ainda  "Limits" e "Give me Hope", que tem aquela linha de melodias "felizes" e velozes. Estas duas últimas na voz de Hovinga.

Zak Stevens tem atuação destacada, com seu estilo bem pessoal de interpretar as músicas

Dá para colocar "Return to Eden" como o melhor trabalho de Timo Tolkki em muito tempo, provavelmente o melhor pós-Stratovarius, e vale dizer que bem mais interessante do que a sua ex-banda vem produzindo desde sua saída. Que os acertos aqui sejam o norte para futuros trabalhos do guitarrista, porque temos a impressão de que ele pode mais.

Texto: Carlos Garcia

Banda: Timo Tolkki's Avalon 
Álbum: "Return to Eden" 2019
Estilo: Power Metal, Melodic Power Metal, Opera Metal
Produção: Aldo Lonobile
Selo: Frontiers Records/Shinigami Records

Line-up:
Timo Tolkki: Guitarras
Andrea Buratt: Baixo
Antonio Agate: Piano and Keyboards
Giulio Capone: Bateria ,Piano and Keyboards
Aldo Lonobile: Guitarras
 
Tracklist e vocalistas convidados:
Enlighten (instrumental)
Promises (Featuring Todd Michael Hall)
Return To Eden (Featuring Mariangela Demurtas, Zachary Stevens & Todd Michael Hall)
Hear My Call (Featuring Anneke Van Giersbergen)
Now and Forever (Featuring Todd Michael Hall)
Miles Away (Featuring Zachary Stevens)
Limits (Featuring Eduard Hovinga)
We Are The Ones (Featuring Anneke Van Giersbergen)
Godsend (Featuring Mariangela Demurtas)
Give Me Hope (Featuring Eduard Hovinga)
Wasted Dreams (Featuring Zachary Stevens)
Guiding Star (Featuring Mariangela Demurtas)







sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Amaranthe: Inovações Sutis e Fugindo do "Tradicional"

 


Quando o assunto é Amaranthe acho difícil alguém ser meio termo. Ou você gosta ou você odeia. Eu gosto e estava ansiosa pelo lançamento de “Manifest”, porque desde a divulgação dos primeiros singles eu criei uma expectativa de que esse álbum seria melhor do que seu antecessor, “Helix”, que para mim foi o álbum mais fraco da banda até o momento. 

Na primeira audição do álbum, até parece que não houve muita mudança sonora nesse trabalho, os vocais da Elize estão lá, os vocais masculinos limpos também estão, os guturais também, sem falar nas batidas eletrônicas marcantes desde o primeiro álbum. 

Mas ao ouvir uma segunda vez com um pouco mais de atenção, dá pra perceber os ingredientes que fizeram a diferença em “Manifest”, principalmente no que se diz respeito aos vocais masculinos, não só pela mudança de vocalista mas também porque nesse álbum eles ousaram um pouco mais. Se você gosta de músicas cativantes vai concordar comigo que “Fearless” foi uma ótima jogada para começar o álbum. Uma música rápida e com um refrão forte onde Elize Ryd, Henrik Englund Wilhelmsson e Nils Molin mostram grande entrosamento.


O ritmo diminui um pouco com “Make it Better”, com os típicos efeitos de sintetizador roubando a cena. “Scream my Name” dura apenas três minutos e três segundos, mas a energia cativante e agressiva ao mesmo tempo, me faz querer que essa música durasse muito mais. “Viral” foi um dos singles de divulgação pré-lançamento e possui um refrão grudento que faz jus ao seu título. 

Confesso que não tenho muito o que falar sobre “Adrenaline” que me soa como uma das mais previsíveis do álbum, mas não posso tirar o mérito do solo de guitarra que talvez seja o ponto mais forte dessa música.

 Em “Strong” os vocais masculinos tiram folga e dão espaço para a participação super especial de Noora Louhimo, vocalista do Battle Beast. O dueto soa muito agradável e a letra empoderadora é uma das minhas favoritas. A música “The Game” poderia facilmente ser trilha do anime sobre corridas de carro, “Initial D”, por ser animada e extremamente dançante, mas ao mesmo tempo pesada. 

Quando se fala em Amaranthe é impossível não pensar em suas lindas baladas, então aqui temos  “Crystalline” com Ryd dando um show a parte com seus vocais doces. Mas não é só isso, os vocais de Nils Molin parecem ter deixado a banda com uma cara um pouco mais Power Metal.

Eu não esperava que alguém pudesse substituir Jake E. tão bem ao ponto de aprimorar o som da banda. É difícil definir as músicas do Amaranthe sem as palavras “pesado e moderno” na mesma frase, mas o refrão de “Archangel” surpreende pois pra mim soa como um hard rock dos anos 80 só que mais pesado e acelerado. Se alguém gostaria de ver a banda sair da mesmice então ouça “BOOM!1”. Os vocais de Henrik Englund Wilhelmsson soam como em uma banda de Nu-Metal, um rap rápido e agressivo, chegando a lembrar os vocais de Jonathan Davis do Korn. 

Para mim a música “Die and Wake Up” é a que apresenta maior apelo pop nos vocais de Elize Ryd, mas a cada vez que menciono a palavra “Pop” para descrever Amaranthe não tome isso como negativo, pois se eles fossem somente uma banda Pop eles mereceriam um título de revolucionários assim como eles merecem ao serem descritos como uma banda de Metal. 

Embora a música “Do or Die” tenha sido divulgada anteriormente com a participação de Angela Gossow (ex - Arch Enemy e atual empresária da banda), na versão do álbum houve a substituição de Angela pelos membros masculinos da banda e Elize torna-se apenas uma coadjuvante.

“Manifest” é muito bom e entrou para o meu top 3 de álbuns favoritos da banda. Como eu disse anteriormente, as inovações são muito sutis, e eles mantiveram a sonoridade dos trabalhos anteriores.

Provavelmente a preocupação da banda seja maior em agradar os fãs atuais do que fisgar um novo público. Mas o principal para gostar dessa banda é ouvir com a mente aberta, pois eles estão longe de ser uma banda “tradicional”. E francamente, espero que eles nunca tentem. 

Texto: Raquel de Avelar

Banda: Amaranthe
Álbum: "Manifest" 2020
País: Suécia
Estilo: Modern Metal
Selo: Nucler Blast/Shinigami Records

Adquira o álbum na Shinigami

Site Oficial

Tracklist
1. Fearless
2. Make It Better
3. Scream My Name
4. Viral
5. Adrenaline
6. Strong (feat. Noora Louhimo)
7. The Game
8. Crystalline
9. Archangel
10. BOOM!
11. Wake Up And Die
12.  Do Or Die
13. 82nd All The Way (Bonus)
14.  Do Or Die (feat. Angela Gossow) (Bonus)
15.  Adrenalina (Acoustic) (Bonus)
16. Crystalline (Orchestral) (Bonus)    
  



domingo, 22 de novembro de 2020

Deep Purple: A Lenda Continua Produzindo Música de Qualidade


A anunciada “aposentadoria” e o que poderia ser o derradeiro álbum, “InFinite”, em 2017, felizmente não se concretizou, e a lenda Deep Purple parece que não estava pronta para parar e, em tempos que precisamos mais do que nunca motivos para sorrir, apresentou seu 21º álbum de estúdio da carreira (terceiro seguido com a produção de Bob Ezrin), “Whoosh!”, e soando superior ao seu antecessor. 

Com 13 novas músicas, trazendo uma diversidade que o faz um disco leve, interessante e que a cada audição vai crescendo. Um álbum que soa atual e traz a identidade marcante da banda, destacando o timbre inconfundível do vocalista Ian Gillan, que, se já não pode mais alcançar as mesmas notas altas e agressividade de outrora, mantém a classe e perspicácia que só os grandes ícones possuem, e claro, o impecável trabalho instrumental, sempre com muito destaque dos teclados.

“Whoosh!” não tem canções muito longas, tendo esse ar mais despretensioso, inclusive com músicas de melodias de fácil assimilação, daquelas que já prendem no ouvido, como “Nothing at All”, com absoluto destaque para a melodia principal, dividida entre a guitarra e o teclado, e o refrão memorável,  e já considero o “hit” do álbum. 

Há a simplicidade do boogie-woogie/Rockabilly de “What the What” e o Hard Rock com trechos progressivos de “The Long Way Road", com a assinatura Purple tradicional, porém soando contemporânea, com direito a solos de teclado e guitarra. Típica banda que envelheceu muito bem

O Purple também mostra malícia e suingue, como na abertura  com "Throw my Bones" e "Dancin' in my Slep". 

A banda também passeia pelos ares progressivos como em  “Power of the Moon”, que tem uma certa dramaticidade em suas melodias; e em “Man Alive”, com destacado trabalho dos teclados, Gillan vai contando a história, em uma quase narrativa, envolta em melodias que funcionam com trilha para a letra, que traz apreensão sobre o futuro da natureza e humanidade. 

Bem no finzinho, possivelmente o trecho que inspirou o título, onde Gillan termina com a frase "A man alone, washed up on the beach, just a man...whoosh."

Sobre o título do álbum, o vocalista Ian Gilan, em uma das dezenas de entrevistas recentes, deu sua explicação: “Whoosh é uma palavra onomatopaica que, quando vista por uma extremidade de um radiotelescópio, descreve a natureza transitória da humanidade na Terra; e, por outro lado, de uma perspectiva mais próxima, ilustra a carreira do Deep Purple. ” 

O Deep Purple entrega mais um trabalho digno da história destes ícones do rock pesado, diversificado, de instrumental refinado e composições agradáveis, que por muitas vezes soam quase que como uma jam, com os músicos sempre tendo seus momentos solo. Parece tudo muito simples para estes grandes músicos, e que possuem entrosamento de longos anos, essa formação está junta desde 2003.

O disco está disponível no Brasil via parceria ear Music e Shinigami Records, em formato simples e digipack duplo com DVD com o show da banda no Hellfest 2017 e mais alguns extras. Os anos passam e o Purple segue lançando material imprescindível para os fãs.

Texto: Carlos Garcia

Banda: Deep Purple
Álbum: "Whoosh" 2020
Estilo: Classic Rock, Progressive Rock, Hard Rock
País: Inglaterra
Produção: Bob Ezrin
Selo: Ear Music/Shinigami Records

Tracklist
1. Throw My Bones
2. Drop the Weapon
3. We?re All the Same in the Dark
4. Nothing at All
5. No Need to Shout
6. Step by Step
7. What the What
8. The Long Way Round
9. The Power of the Moon
10. Remission Possible
11. Man Alive
12. And the Address
13. Dancing in My Sleep





sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Dune Hill: [...]um lançamento que você ficará semanas escutando e apreciando cada detalhe

Resenha por: Renato Sanson


Se em “White Sands” (14) o Dune Hill apostava forte em um Hard Rock bem melodioso, em “Song of Seikilos” (19 – segundo álbum da carreira) a tônica é bem diferente, pois o que temos aqui é uma sonoridade moderna, pesada e ousada.

A começar pelo conceito do disco, que traz como tema o amor entre duas mulheres que tentam sobreviver a enxurrada de preconceitos e críticas ao decorrer de várias épocas, expressado minuciosamente na bela arte de capa criada pelo artista Rodrigo Basto Didier.

Mas de nada disso adiantaria se a musicalidade não fosse grandiosa, e é aí que os recifenses ganham o ouvinte, pois após a bela intro que leva o nome da bolacha recitando lindamente um poema grego antigo, temos uma inundação de riffs, peso e melodias desafiadoras.

Por ser um trabalho conceitual as faixas variam as suas emoções, como em “Set Your Free” que vem para arrancar o seu pescoço ou a monstruosa e enigmática “The Mirror”, que conta a participação do eterno maestro Andre Matos.

A produção realizada por Antônio Araújo (Korzus) tirou o melhor da banda e deixou suas lacunas fortes e cheias de vida. Claro que esse exímio guitarrista – assim como produtor – não poderia ficar de fora desse grande lançamento, participando da belíssima “The Last Night”.

O Dune Hill nos apresenta um novo patamar e um lançamento que você ficará semanas escutando e apreciando cada detalhe.

 

Links:

https://open.spotify.com/artist/4TsPCSpEOGDTDwkJBpnK1Q

https://www.instagram.com/dunehilloficial/?hl=pt-br


Tracklist:

01 Song Of Seikilos

02 Dune Hill

03 Set You Free

04 Addiction

05 God’s Delivering

06 Absalom’s Blues

07 South

08 The Mirror (feat André Matos)

09 Eldorado

10 The Last Night (feat Antônio Araújo)

11 Hypnos And Thanatos

12 Ending Dawn

13 Queen’s Road


Formação:

Leonardo Trevas – vocal

Otto Notaro – bateria

Pedro Maia – baixo

Felipe Calado – guitarra

André Pontes – guitarra

domingo, 1 de novembro de 2020

Casa Das Máquinas Parte I: Era uma Vez em 1973 (Entrevista com Aroldo Santarosa)


O ano era 1973, após sofrer pressão da gravadora que queria interferir na parte criativa, o baterista Netinho resolve acabar com Os Incríveis, que que possuía uma carreira bem sucedida no cenário da Jovem Guarda, e criar uma nova banda, pois desejava trilhar outros caminhos musicais, com uma sonoridade mais elaborada e mais pesada, inspirado pelos grandes nomes que surgiam principalmente no cenário inglês, como Deep Purple, Yes e Pink Floyd

Com ele, Netinho leva o vocalista e guitarrista Aroldo Santarosa (Som Beat), e completaram a banda com o jovem guitarrista Piska (que depois fez carreira como músico e produtor, principalmente de artistas populares, introduzindo arranjos mais elaborados), o baixista Cargê (Brazilian Beatles, Roberto Carlos) e o tecladista e saxofonista Pique Riverte (então na banda de Roberto Carlos), um time de excelentes músicos.

Inicialmente, batizaram a banda de Os Novos Incríveis, mas precisavam se desvincular do passado, e durante as gravações, surgiu o nome Astral Branco, mas logo substituído pelo definitivo, Casa das Máquinas, nome que marcaria a história do Rock Pesado brasileiro, com sua mescal de Hard, Progressivo e Psicodelia.

Foram 3 álbuns, com algumas mudanças nas formações em cada um deles, "Casa das Máquinas" (74), "Lar de Maravilhas" (75) e "Casa de Rock" (76), e principalmente os dois últimos, são tidos como verdadeira pérolas do Rock Pesado nacional.

A banda acabou prematuramente em 1978, retornando em 2015 para alguns shows e após disso o Casa começou a fazer shows mais regulares, e agora em 2020, prepara a gravação de um novo disco, após mais de 44 anos, mas isso é assunto para a parte 2 deste especial.

Nesta primeira parte, conversamos com o grande compositor, vocalista e guitarrista José Aroldo Binda, mais conhecido como Aroldo Santarosa, parte muito importante da história do Casa, presente nos dois primeiros álbuns e um dos principais compositores e letristas do grupo, parceiro de composição de Netinho desde Os Incríveis.

Após sair do Casa das Máquinas, Aroldo seguiu carreira, formando algumas bandas e colaborando com artistas como Zé Geraldo, com quem manteve uma parceria de sucesso por muitos anos. Aroldo hoje mora nos EUA, se dedicando a compor, escrever e até construir suas próprias guitarras! Confira:

RtM: Gostaria que você falasse um pouco sobre as suas principais influências e como você iniciou na música, quando foi que você sentiu que o caminho da música era o que você queria trilhar?Aroldo Santarosa: Meu primeiro instrumento foi a voz, cantava desde os 4 anos de idade.....comecei a estudar violão clássico com 8 anos e meio , somente música clássica mas com 16 pra 17 comecei a me interessar por guitarras.


RtM: Conte-nos um pouco do início com o Casa das Máquinas, como foi essa transição dos Os Incríveis para o Casa. Quais os principais motivos que levaram vocês a buscar novos ares no cenário musical?AS: Os Incríveis acabou e o Manito montou o Som Nosso de Cada Dia e o Netinho, eu que já tocava nos Incríveis, o Carlinhos com o Pikca e chamamos o Pique pra tocar sax e teclados e ai nasceu os Novos Incríveis  que virou Casa das Máquinas ..... Tem muito detalhe que estou omitindo porque senão vira um livro  kkkkkk  mas  foi por ai o nosso caminho.


RTM: Nos dois primeiros álbuns do Casa, você aparece como um dos principais compositores, com letras profundas e que trazem muita reflexão. E acho que isso era uma característica muito marcante na banda. Gostaria que você falasse um pouco sobre suas inspirações e esse lado, digamos, "espiritualizado" nas letras.
AS: Sempre gostei de escrever, leitura sempre me acompanhou, a espiritualidade você não pede vem junto quando nasce., perguntas sobre o universo , sobre  ser humano , sobre a natureza e sobre todas as coisas sempre fervilharam na minha cabeça, por isso eu escrevo .... amo escrever assim como tocar guitarra. 

Primeira Formação do Casa: Netinho, Cargê, Aroldo, Pique e Piska

RtM: Gostaria que você comentasse um pouco mais sobre o disco de estreia do Casa, e também sobre a música "A Natureza", que em minha opinião é uma das mais marcantes.
AS: O primeiro disco do Casa foi muito bem trabalhado, as músicas muito bem escolhidas por nós e a Natureza é um resumo das minhas ligações com  o mundo que me cerca, em especial o relacionamento entre o homem e a natureza que as vezes se torna turbulento .....

 

RtM: Prosseguindo, nos conte um pouco sobre o "Lar de Maravilhas", onde vocês já mudaram um pouco a sonoridade, indo por um caminho mais progressivo.
AS: o lar de maravilhas marcou uma mudança na banda, saiu o Pique entrou o Marinho Testoni, entrou  o irmão do Netinho, Marinho Thomaz, e ficamos com dois bateristas  e mais progressivos, as letras mais fortes, a banda mais unida  foi bom demais ... muito tem pra falar e muito já é sabido. 

Casa das Máquinas, formação da época do "Lar de Maravilhas"

RtM: Duas músicas que gosto muito, e com certeza estão entre as preferidas dos fãs, são "Vou Morar no Ar" e "Lar de Maravilhas", gostaria que nos falasse um pouco mais sobre elas, principalmente sobre as letras.
AS: Bom, não é difícil falar sobre as letras mas como já disse gosto de escrever e às vezes os caminhos da tradução estão mais nos sentimento do que na palavra em si. "Vou Morar no Ar" é sobre a continuação da vida e de como eu vejo a morte. "Lar de Maravilhas" é um lugar especial onde o sonho é seu, e você pode torná-lo real enquanto purifica o espirito.

 

RtM: Quais eram as principais dificuldades na época? Conseguir bons equipamentos de palco, divulgação, estúdios e técnicos que pudessem ser capazes de produzir o som que vocês buscavam?AS: Dificuldades sempre existiram, é o que te faz evoluir sem dúvida alguma. Bons equipamentos sempre foram uma barreira paras a evolução das bandas no Brasil, tudo era contra ... sim tivemos dificuldades como todo mundo, mas de uma certa forma conseguimos o que a gente queria no momento, a gente só queria ferramentas pra mostrar do que éramos capazes, mas o universo musical é enorme e nem sempre gira conforme a música (risos) 

RtM: E sobre a vida de músico numa banda de Rock na época? A famosa trilogia sexo, drogas e rock & roll, as longas viagens...você lembra alguma história engraçada ou marcante que gostaria de compartilhar conosco.
AS: A trilogia  Sexo, Drogas e Rock n Roll  sempre esteve exposta, na essência da intimidade de cada um de nós que habitam esse universo. Têm gente que abre as janelas e deixam entrar os olhos e ouvidos estranhos e têm outros que se cobrem com seu desejo, se trancam e se calam...... histórias muitas, muita alegria e muito som.

 

RtM: Quais os principais motivos que levaram você a deixar a banda na época?
AS: Deixei a banda pra montar outra, mas nunca brigamos ... não me lembro bem, mas quando dei conta estava fora montando outra banda, outros músicos, outro som, outro tudo..  é a vida.


Abaixo, alguns pensamentos do Aroldo, uma auto definição e o que ele pensa sobre as plataformas digitais e os caminhos da música hoje em dia. Um pouco mais deste grande músico e poeta do Classic Rock e música brasileira.


"Nem santo e nem gênio .... E=mc 2 não é comigo e muito menos milagre.... O que eu gosto mesmo é de uma natureza livre,  de  um bom rock n' roll,  de uma verdade bem dita, de uma paz contínua e de uma guitarra bem ajustada... o resto,  deixa comigo..... Love."

"O que aconteceu com a música e quem vive dela? Algum músico sabe ou imagina a fortuna dos donos do spotify? Pode crer, é muita grana ganha em cima da nossa criatividade. Poderia escrever um textão, mas deixa pra lá, tudo está tão claro, tão moderno e também já comeram todo o bolo sozinhos mesmo. Hoje, todo esforço do seu trabalho termina num headphone de 99 centavos do Iphone."

"Não é aconselhável que alguém com teto de vidro atire pedras.... Olhe pra cima, se der pra ver a lua e as estrelas, guarde as pedras e escreva um poema sobre a hipocrisia."


Entrevista: Carlos Garcia (com colaboração de Alex Matos - Canal Rock Idol)
Fotos: Arquivo pessoal do artista
Dedicamos essas matérias/entrevistas a memória de Carlos Roberto Piazzoli (Piska), Pique Riverte e Carlos Geraldo da Silva (Cargê).






segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Malediction 666: [...]minhas influências[...]vêm claramente do Metal antigo

Entrevista por: Renato Sanson

 


Músico entrevistado: Fernando Iser (guitarra/vocal) da banda Malediction 666 de Suzano/SP.

 

Em relação ao debut, quais os pontos que você enxerga de evolução em “We, Demons”?

São oito anos que separam o debut do novo álbum, então posso dizer que sim, houve uma grande evolução tanto nas composições como produção. Como somos uma banda ativa nos palcos, procurei compor músicas que pudéssemos executar da forma mais próxima possível das gravações oficiais – pensando nos fatores execução + energia. Assumindo toda a produção do álbum, aprendi ainda mais algumas técnicas que pretendo utilizar nos próximos trabalhos.

 

O Malediction 666 se estabeleceu como duo, mas atualmente foi anunciado uma formação completa para a banda, certo?

Sim. Senti a necessidade de convocar mais um guitarrista para conseguirmos alcançar uma melhor performance nos palcos. Desta forma eu posso beber mais e dividir a responsabilidade das guitarras com ele (risos). A formação que gravou o álbum “We, Demons” sou eu Fernando Iser nas cordas e vocais e Bruno Mastemas na bateria. Durante o ano de 2019 após o lançamento do álbum, fizemos três apresentações com o baixista Fabio Falco (The Malefik – SP) e assim ele foi efetivado na banda. E agora em 2020 incorporamos Kevin Bedra (Funeral Age, Seattle – USA) na segunda guitarra. Desta forma seguimos nos preparando para as apresentações que foram canceladas após o início da pandemia.

 

Uma das coisas que chamam muito a atenção em “We, Demons” são os solos e melodias que nascem ao meio do caótico Black Metal. Quais influências predominam?

Cara, o método de composição é sempre baseado nas letras. Me envolvo completamente nos temas e tento extrair o máximo de feeling que eles me trazem. Não existe uma fórmula nem cálculo, as ideias vêm em momentos totalmente aleatórios. Mas as minhas influências como guitarrista, baixista e vocal vêm claramente do Metal antigo. Posso citar bandas como Black Sabbath, Iron Maiden, Morbid Angel, Slayer, Rotting Christ, Dissection, Emperor, etc. Pois são bandas com sonoridade que circula no meu sangue e dominam minha mente há mais de 30 anos.


Fernando, além do Malediction 666 você faz parte de vários projetos, poderia nos falar um pouco deles e qual a expectativa de futuro?

Me envolvo com projetos dentro do underground desde que criei o Malediction 666 em 1997. Então, foram realizados os seguintes trabalhos:

Malediction 666, com 3 demos:

- “The Eighth Vision” de 1998

- “... the third part...” de 2002

- “Abismal Wrath” de 2006

-  a coletânea de 10 anos “Ten years of Blasphemy” de 2007.

 

Três álbuns oficiais:

- “Innoculation” de 2010

- “The First 20 years” de 2017

- “We, Demons” de 2019.


Ainda em 2019, participamos do Tributo a horda Bestymator com um hino negro feito por mim, intitulado “Hail to the Black Goats” e do tributo brasileiro ao Bathory com uma versão para “Reaper”.

Sou membro fundador, guitarrista e vocal.

No início de 2000, criei a horda Shantak ao lado de guerreiros da capital e gravamos a demo ensaio em 2002. Gravei as guitarras. Esta horda se findou em 2006.

Ainda em 2000, lancei duas edições do Zine “The Darkness”, que contou com entrevistas de várias hordas que lançaram materiais na época e anos anteriores.

Também organizei os festivais “The Mystical Meeting” aqui na cidade de Suzano, onde tivemos apresentações de hordas como Mausoleum, Unholy Flames, Goat Prayers, Empire of Souls, Devilish, Abolish, entre outras.

Em 2003, entrei para o exército do Kaziklu Bey, onde gravei as cordas em “Sob o Julgo do Martelo da Morte” em 2005 e “Contos da Empalação” em 2012. Gravei também o baixo no relançamento da demo “War Black Metal” em 2008. Esta horda findou-se com a morte de Carpathian Tepes em 2013.

Em 2006 entrei para o Obscure Mind, fazendo o baixo em vários shows da horda. Não chegamos a gravar com esta formação, apenas ensaios. Esta horda encerrou suas atividades.

Em 2008 criamos o Morte Negra com a mesma formação do Malediction 666, visando fazer hinos negros voltados ao Black Metal tradicional – diferentemente do Malediction, que tem uma sonoridade Death/Black Metal – cantada em português. Lançamos “Metal Negro Ortodoxo” em 2009 e “Que a Desgraça Caia Sobre a Humanidade” em 2013. Meu posto é o de compositor, letrista, guitarrista e vocal. Hoje em dia estou sozinho na horda, e recentemente participamos do tributo ao Kaziklu Bey.

Em 2009 entrei para a horda Torqverem, e me tornei o baixista participando da tour com o Horna em 2011 e Pátria em 2014. Atualmente a horda se encontra conspirando um novo ataque.

Em 2010 criei meu projeto Lalssu, com músicas que não se encaixavam em nenhuma das outras hordas, pela proposta diferente. Gravei todos os instrumentos no CDR Demo “Skepseis” e lancei em 2012. Em 2016 foi lançado o álbum “The Death of a Star” e no final do último mês de Setembro foi lançado o álbum “The Elements”.

2010 também foi o ano em que entrei para o Exterminatorium, gravando o baixo na demo “Preludium of Armageddom”. No momento a horda se encontra em stand by, compondo novas músicas.

Em 2011 fui convidado a participar das hordas Iron Woods e Blackwar de Taubaté, e assumi o posto de backing vocal e guitarrista das mesmas. Com o Iron Woods, participei das gravações do álbum “Iron Woods” e do EP “Death Hail and Glory” em 2013, do álbum “Gods and Men” em 2016 e do Split com a horda Hecate, com previsão de lançamento ainda para este ano.

Ainda em 2011 entrei para o Evils Attack, e finalizamos a terceira demo em 2014, intitulada “Devassas Deveras”, onde gravei as guitarras. A horda segue divulgando o trabalho, e recentemente também participou do tributo ao Kaziklu Bey.

Em 2013 fui convidado a integrar a horda colombiana Nebiros, participando dos shows que fizeram no Brasil no mês de março. Tocamos no sudeste e nordeste.

Ainda em 2013 fui convidado a integrar o Devilish como guitarrista e vocal e fiquei na horda por um ano, lançando o DVD Live in Atibaia em 2014. Sai da horda em 2015.

Em 2014, formei o Herege ao lado dos guerreiros sobreviventes do Kaziklu Bey, com o posto de guitarrista e vocal. Em 2015 lançamos o CDR “Satanic War Metal”, que posteriormente foi lançado em tape após uma apresentação em SP Capital. Devido à problemas físicos com o baterista Parsifal, a horda está em stand-by, aguardando o retorno ás atividades.

Em 2017 integrei a horda Fenrir de Cerquilho/SP, e estamos aguardando a prensagem do primeiro álbum que sairá ainda neste ano, intitulado “Condessa Sangrenta”.

Em 2018, apoiei dois eventos de retorno da horda Necrosound como guitarrista.

Ainda em 2018, formei o Mávra, horda de Occult Metal que em breve disponibilizará o primeiro material.

Neste ano de 2020 fui convidado para apresentar algumas bandas gregas na Dark Radio Brasil, e tenho um programa mensal chamado “Hellenic Metal Attack - De Alfa a Ômega”, onde apresento bandas gregas e brasileiras em ordem alfabética.

Aproveitando a era digital, disponibilizei o álbum “We, Demons” do Malediction 666 no Spotify, eis o acesso: https://open.spotify.com/artist/07UKvD8vnTasySNhoXdnge?si=bUn5l_ivQxeXLU7uQ4hgvg.

Em breve espero contribuir ainda mais para o necrounderground nacional trazendo mais trabalho para a apreciação dos irmãos e irmãs profanos.

 


Teremos um novo álbum da Malediction 666 para 2021?

Espero que sim!!! Pois esta é a formação mais comprometida que a banda já teve, e estão surgindo ótimas idéias para novas composições. Espero que continuemos nesse ritmo e possamos gravar em breve. Mas como somos uma banda totalmente independente, existem fatores que podem levar tal lançamento a um certo atraso. Empenho e dedicação não irão faltar.

 

“We, Demons” conta com duas ilustres participações, as lendas: Stephan Necroabyssious (Varathron) e Sakis Tolis (Rotting Christ). Como surgiu estes contatos e oportunidade?

Tenho contato com ambos desde os anos 90, e já havíamos conversado sobre a possibilidade de gravarmos juntos. Então aconteceu. Sempre conto com participações de amigos nos trabalhos do Malediction 666, com exceção da primeira demo onde precisávamos mostrar nossa cara feia para o mundo.

 


Em um ano tomado pelo caos, o que você indicaria aos leitores do Road To Metal em volta da literatura e música para consumirem sem moderação?

Indico toda forma de subversão cultural e anticristã possível, com destaque para as bandas e autores brasileiros. Pois aqui sofremos uma repressão que tende a aumentar ainda mais com esse fanatismo desenfreado e inconsequente que tem atrasado a evolução cultural do nosso país. Somos Resistência e assim será até nosso último suspiro!

Obrigado Renato pela oportunidade, e Salve As Artes Negras!!!

 

Links:

Streaminghttps://open.spotify.com/artist/07UKvD8vnTasySNhoXdnge?si=bUn5l_ivQxeXLU7uQ4hgvg

 

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