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quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Cobertura de Show: Hard N' Heavy Party – 30/08/2025 – Manifesto Bar/SP

O Heavy Metal, para todo apreciador que se preze, é reconhecido como um dos estilos mais pesados do planeta, com uma grande variedade de subgêneros. O mesmo vale para o Hard Rock, que apresenta diversas ramificações, como o Hair Metal, Glam, Melodic Rock, AOR e o mais tradicional. Desde os anos 1980, época de sua maior popularidade, o gênero evoluiu, mas sem perder sua essência. No Brasil, um país onde o rock infelizmente não recebe o devido valor, o estilo acabou ficando em segundo plano, salvo pelas lembranças de bandas como Kiss, Guns N’ Roses e Aerosmith. No entanto, a Hard N’ Heavy Party, que ressurgiu das cinzas há um ano, vem mudando essa história e mostrando que o Hard Rock vai muito além dessas referências clássicas.

Após um ano desde seu retorno, e com a mais recente edição realizada no último dia 30 de agosto, a Hard N’ Heavy já conta com quatro edições realizadas. Este que vos escreve esteve presente em todas elas, e nenhuma deixou a desejar: todas foram um sucesso. Isso prova que o evento se tornou, em um piscar de olhos, um compromisso obrigatório no calendário de shows não apenas do Brasil, mas de toda América Latina. A proposta é clara: trazer ao público artistas e bandas de Hard Rock que muitos sequer imaginavam ver ao vivo no país. E a tendência, segundo o idealizador Carlos Chiaroni, da Animal Records, é que venham ainda mais atrações inéditas nas próximas edições.

Para esta quarta edição, dois nomes já conhecidos em terras brasileiras foram trazidos, ambos com passagens marcantes por aqui e bom público em apresentações anteriores. Um deles foi o Eclipse, considerada uma das melhores bandas de Hard Rock da atualidade. O grupo retornou ao país um ano após sua apresentação na segunda edição do Summer Breeze (atualmente chamado de Bangers Open Air), realizando o desejo dos organizadores e matando a saudade de quem os viu naquele último dia de festival. O outro destaque foi Johnny Gioeli, um dos melhores vocalistas do gênero, embora ainda pouco reconhecido. Conhecido por seus trabalhos com o Hardline, Axel Rudi Pell e Crush 40, o cantor conquistou o público brasileiro já em sua primeira apresentação no país, em 2023, com um show lotado no House of Legends, localizado na Vila Madalena.

Assim como nas edições anteriores, a Hard N’ Heavy mantém como sua principal casa o Manifesto Bar, o mais importante rock club do Brasil, que desde junho está em novo endereço. Agora localizado no bairro da Vila Olímpia, o novo espaço é maior do que o anterior e realmente impressiona pela estrutura e visual, ficando à altura do que se esperava. 

Antes mesmo da abertura das portas, pontualmente aberta às 20h, uma fila já se formava do lado de fora. Cheguei a ter certo receio de que o público não comparecesse em grande número, já que o evento enfrentava uma certa concorrência naquele final de semana: o I Wanna Be Tour, no Allianz Parque, e o The 69 Eyes, banda de Gothic Rock que lotou o Fabrique Club no dia seguinte. Mas o temor foi infundado, o público veio. Gente de várias partes do Brasil e até da América Latina, como Colômbia e Argentina, compareceu em bom número. Ainda que não tenha lotado, o Manifesto ficou cheio o suficiente para criar um ótimo clima para os dois shows da noite.

Marcado para começar às 21h, o show de Johnny Gioeli acabou tendo um atraso de vinte minutos. Carlos, como de costume, fez seus agradecimentos, enquanto Bruno Luiz (guitarra, Command 6, The Heathen Scÿthe), Bento Mello (baixo, Nite Stinger, Sioux 66), Gabriel Haddad (bateria, Sioux 66) – a mesma formação que deu suporte ao vocalista em 2023, com exceção de Flavio Salin (teclado, The Heathen Scÿthe) – ocupavam seus postos. Sem nada combinado, Johnny acabou "queimando a largada" ao rasgar elogios ao amigo: “Esse aqui é um verdadeiro astro do rock”, disse Gioeli ao Carlos antes de começar o show com dois clássicos do Hardline, mais precisamente do álbum Double Eclipse (1992), uma das obras-primas do hard rock, com “Dr. Love” e “Takin' Me Down”.

Basicamente, o setlist contou com músicas de suas principais bandas, todas muito bem recepcionadas pelo público – de forma palpável, inclusive. Um exemplo foi “Long Live Rock”, escolha de Carlos, mas uma das que Johnny menos gosta, conforme ele mesmo comentou antes de anunciá-la. Ainda assim, foi um dos destaques da noite, com o público cantando o refrão com empolgação e Bruno, que naquele momento virou “Bruno Rudi Pell”, arrasando nos solos. Em seguida, “Live and Learn”, do Crush 40, também se destacou neste estupendo início, e olha que eu tinha minhas dúvidas quanto a ela, por se tratar de uma banda mais nichada, voltada ao público gamer, especialmente da série Sonic. Prova disso foi quando um sujeito jogou uma touca do personagem em direção a Johnny, enquanto ele, junto com a banda, performava esse clássico da banda nipo-americana (nipo por conta do guitarrista japonês Jun Senoue, fundador da banda). Um fato curioso, e que eu também não sabia, é que essa música está presente no último filme do Sonic, que tem Jim Carrey e Keanu Reeves como protagonistas, conforme explicou o vocalista.

As duas próximas músicas da noite vieram de álbuns menos lembrados do Hardline – Leaving the End Open (2009) e Human Nature (2016) – que mantêm a essência da banda, mas de forma mais melódica. A balada “In This Moment”, apenas com Johnny e Flavio no palco, trouxe uma bela mensagem sobre valorizar as coisas simples da vida. Nela, ficou evidente o quanto a voz de Johnny, que ecoou por todo o bairro da Vila Olímpia, é impressionante. Chega a ser uma injustiça um vocalista desse nível não ter mais reconhecimento do que já tem, talvez por ter surgido em uma época pouco favorável ao estilo. Sem muito tempo a perder, “Take Me Home” – com Flavio também assumindo os vocais – completou esse momento mais intimista da noite. Vale lembrar que ambas são de autoria do produtor, compositor e multi-instrumentista italiano Alessandro Del Vechio.

Dali em diante, o show seguiu com dobradinhas de Axel Rudi Pell e Hardline. “Oceans of Time” manteve o clima das duas anteriores, mas de forma épica, com a banda completa de volta ao palco. Vale lembrar que essa música, do disco de mesmo nome, marcou a estreia de Johnny na banda do guitarrista alemão, em 1998, e segue nela até hoje. “Carousel” – “essa sim eu adoro”, brincou o vocalista com Carlos – resgatou o clima festivo da noite, antes de revisitar duas obras do Hardline: “Fever Dreams”, do excelente Danger Zone (2012), e a empolgante “Everything”, mais uma do indispensável Double Eclipse (1992).

Em “What I'm Made Of...”, a última do Crush 40 no set, Johnny aproveitou para enaltecer a banda, que mais uma vez deu conta do recado com extrema excelência, mesmo com tão pouco tempo de ensaio. Caminhando para o final, Johnny preparou uma trinca matadora, começando com “Hot Cherie” – o originalmente composta por Danny Spanos, mas cuja versão do Hardline supera sem sombra de dúvida –, seguida pela ‘rockona’ “Rock the Nation”. Enfim, “Rhythm from a Red Car”, uma das minhas favoritas do Hardline, encerrou essa apresentação memorável.

Devido à agenda apertada, Johnny infelizmente não pôde atender o público ao final do show, mas só de vê-lo ao vivo em cima do palco já valeu cada segundo. Durante os pouco mais de 60 minutos de apresentação, o vocalista não poupou interação, empatia, olhares e sorrisos diante da plateia. Ou seja, como já dito anteriormente, um verdadeiro frontman, que reúne todos (e até um pouco mais) os requisitos de como um vocalista de rock deve ser. Torcemos para que ele volte novamente, quem sabe dessa com o Hardline ou com Axel Rudi Pell.

Uma rápida pausa para ir ao banheiro, rever os amigos, beber alguma coisa e explorar um pouco mais o novo Manifesto, que volto a dizer, ficou incrível. O ambiente continuava cheio, contando inclusive com a presença de algumas celebridades, como os bateristas Ricardo Confessori (ex-Angra e Shaman) e Marco Antunes (ex-Angra), os vocalistas Leandro Caçoilo (Viper) e Nando Fernandes (ex-Cavalo Vapor, ex-Hangar e Sinistra) e ninguém menos que Branco Mello, dos Titãs. Para quem não sabe, Branco é pai do baixista Bento Mello, e esteve no templo para ver o filho ao vivo. Só em lugares assim para se estar rodeado de boa música e boas companhias, não é mesmo?

Assim como o show do Johnny Gioeli, o início da apresentação do Eclipse também teve um pequeno atraso, mas nada absurdo, apenas o suficiente para nos deixar ainda mais ansiosos. Antes de falar sobre como foi o show, vale ressaltar que a relação da banda, vinda diretamente de Estocolmo, Suécia, com o Brasil já dura uma década e meia, muito graças ao forte apelo do Carlos, criador do famoso slogan “Eclipse Minha Vida”, ao qual eu também aderi.

É praticamente impossível achar algum defeito nessa banda: todas as músicas são boas, todos os discos são ótimos, e eles ainda têm em sua formação um dos maiores gênios da música na atualidade, Erik Martensson. Além do Eclipse, Erik também integra o W.E.T, ao lado de Jeff Scott Soto, e o Nordic Union, com Ronnie Atkins do Pretty Maids e Avantasia. Sim, pode parecer exagero o que estou dizendo, mas tudo isso é verdade. E ainda complemento toda essa minha empolgação afirmando que o Eclipse está entre as principais bandas de hard rock da atualidade, ao lado de H.E.A.T, Nestor e Crazy Lixx.

Sem mais delongas, após outra chamada do Carlos, o som mecânico da casa tocou trechos de músicas do Iron Maiden, Deep Purple, Megadeth, AC/DC, Rainbow, Scorpions e Mötley Crüe, até que o logo do Eclipse apareceu nas cores verde e amarela no telão da casa. Em seguida, Erik Martensson (vocal/guitarra), Magnus Henriksson (guitarra), Victor Crusner (baixo) e Magnus Andreasson (bateria) despejaram as primeiras notas de “Roses On Your Grave”, do álbum Wired (2021) – a mesma que abriu o último show da banda aqui no Brasil. Uma baita nostalgia, com a diferença de que desta vez não havia um sol escaldante sobre nossas cabeças. Em seguida veio “All I Want”, com sua pegada garage rock e vinda do mais recente Megalomanium II (2024), e “Run For Your Cover” – a mais celebrada desse início, com os primeiros ‘ô, ô, ô’ da noite – completaram essa trinca inicial, sendo ótimas escolhas para aquecer o público e preparar o terreno para as surpresas que viriam a seguir.

Antes de dar sequência, Erik disse suas primeiras palavras da noite, agradecendo a presença de todos e explicando que eles eram o Eclipse de Estocolmo, Suécia, para aqueles que ainda não os conheciam. No melhor estilo Bruce Dickinson, soltou um “Scream for me, Brasil!” e anunciou “Battleground”, do excelente Bleed & Scream – álbum que expandiu o nome da banda pelo mundo. A faixa foi bem recebida, assim como “Anthem”, do Megalomanium (2023), que teve seus primeiros versos cantados pela maioria dos presentes. A performance incluiu ainda um medley rápido de “Hotel California”, do The Eagles, e “House of the Rising Sun”, do The Animals.

“The Downfall of Eden” e “Runaways”, dos álbuns Monumentum (2017) e Armageddonize (2015), respectivamente, foram executadas com classe. Ambas refletem bem na identidade da banda, com guitarras pesadas, melodia na medida certa e refrãos pegajosos. A primeira, conforme Erik comentou antes de anunciá-la, é uma das favoritas dele e também da maioria que acompanha a banda. O mais legal, ao final, foi ver Erik incentivando todos a cantarem o último verso do refrão. “Saturday Night (Hallelujah)” – perfeita para uma noite de sábado como aquela –  e “Blood Enemies”, com Erik deixando a guitarra de lado por um momento, elevaram ainda mais o clima na pista e no camarote.

A grande surpresa, como já havia comentado, veio com a matadora “Wylde One”, do Are You Ready to Rock (2008). A música logo trouxe à memória a edição de retorno da Hard N’ Heavy, quando Erik, que naquela ocasião veio sozinho, a cantou depois de tantos anos. Mas, com o Eclipse completo, foi a primeira vez em muito tempo que ela apareceu no set, e nós, brasileiros, tivemos o privilégio de vivenciar essa performance tão contagiante. Espero que ela nunca mais saia do repertório da banda, pois é uma das melhores músicas da sua história. Até aqui, foram executadas músicas de praticamente todos os álbuns da banda. Digo “praticamente” porque dois deles ficaram de fora: The Truth and a Little More (2001) e Second to None (2004) – álbuns que, não sei por quais motivos, são sempre ignorados.

Conversando com amigos próximos, muitos concordam que a banda soa ainda melhor em lugares mais intimistas como o Manifesto. E eu assino embaixo, pois graças a essa proximidade, conseguimos sentir de verdade a energia que eles transmitem no palco. E falando da banda, ela é um ponto fora da curva. Erik, por quem sou suspeito para falar, merece todos os elogios possíveis. É, hoje, uma das pessoas que mais admiro dentro da música. Magnus deu um show com sua guitarra, entregando riffs e solos pra lá de envolventes. A cozinha mostrou firmeza do começo ao fim, contando com uma novidade temporária: o baterista Magnus Andreasson, ex-Hardcore Superstar. Sua performance foi muito elogiada na noite, mostrando uma pegada bem mais consistente que a de Philip Crusner, que preferiu ficar em casa assistindo TV e tomando cerveja.

Voltando ao show, o clímax veio com “Still My Hero”, música que Erik compôs em homenagem ao seu saudoso pai. Sozinho no palco, ele cantou e tocou de forma limpa, diferente da versão original, criando um dos momentos mais emocionantes da noite. A banda voltou ao palco tocando um trechinho de “We Don’t Celebrate Sundays” do Hardcore Superstar, uma referência clara ao baterista Adam Moore. Mas foi só uma rápida homenagem, porque logo em seguida veio “Falling to My Knees”, um dos primeiros singles do álbum mais recente, com direito a Victor Crusner cantando os versos iniciais.

A trinca final dessa primeira parte ficou por conta de “Stand on Your Feet” (outra que não era tocada há muito tempo), aa pesada “Black Rain” – que ainda teve uma palhinha de “The Sign of the Southern Cross”, do Black Sabbath – e da empolgante “Twilight”, que teve como destaque, em sua parte final, a incorporação da Nona Sinfonia de Beethoven.

Depois da tradicional pausa para um rápido descanso, a banda voltou para o bis de forma apoteótica. “I Don’t Wanna Say I’m Sorry” abriu essa segunda (e derradeira) parte da apresentação a mil por hora. Os palmeirenses de plantão tiveram motivo para comemorar nesse momento, já que o baixista Victor Crusner retornou ao palco vestindo a camiseta do Palmeiras – muito provavelmente, claro, ele deve ter ganhado de presente do Carlos, palmeirense assumido.

Assim como o Kiss encerra seus shows com “Rock and Roll All Nite”, o Guns N’ Roses com “Paradise City”, o Sepultura com “Roots Bloody Roots” e o Angra com “Carry On” e “Nova Era”, o Eclipse também tem uma música especial para fechar suas apresentações: “Viva La Victoria”. A pedido de Erik, o público pulou, cantou e gritou como se estivesse maluco, tudo para que ele realmente acreditasse que o Brasil tem o público mais insano do mundo. No finalzinho, Victor e Magnus trocaram seus instrumentos, e Adam puxou a clássica virada de “Stargazer”, do Rainbow, eternizada pelo saudoso Cozy Powell.

Mais uma edição para guardar na memória. O Eclipse, a cada ano que passa, vem elevando seu patamar dentro do hard rock e conquistando fãs ao redor do mundo, especialmente aqui no Brasil, país da América Latina com a maior base de admiradores da banda, por diversos motivos. Já Johnny Gioeli fez uma apresentação superior à de dois anos atrás, recebendo inúmeros elogios do público presente. Em resumo, ambos saíram com saldo positivo. No final, houve o show dos brasileiros do Nite Stinger, que estão prestes a lançar um novo álbum, como after party. Mas pouca gente permaneceu para assisti-los.




Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: DNA Rock Events

Press: ASE Press 


Johnny Gioeli – setlist:

Dr. Love (Hardline)

Takin' Me Down (Hardline)

Long Live Rock (Axel Rudi Pell)

Live and Learn (Crush 40)

In This Moment (Hardline)

Take You Home (Hardline)

Oceans of Time (Axel Rudi Pell)

Carousel (Axel Rudi Pell)

Fever Dreams (Hardline)

Everything (Hardline)

What I'm Made of... (Crush 40)

Hot Cherie (Hardline)

Rock the Nation (Axel Rudi Pell)

Rhythm From a Red Car (Hardline)


Eclipse – setlist:

Roses on Your Grave

All I Want

Run for Cover

Battlegrounds

Anthem

The Downfall of Eden

Runaways

Saturday Night (Hallelujah)

Blood Enemies

Wylde One

Still My Hero

Falling to My Knees

Stand on Your Feet

Black Rain

Twilight

Bis

I Don't Wanna Say I'm Sorry

Viva la Victoria

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Entrevista - Eclipse: Erik Martensson fala sobre a trajetória da banda e a volta ao Brasil: "Mal posso esperar para tocar rock and roll com vocês!"

Por Gabriel Arruda 

Fotos: Paula Cavalcante

Erik Martensson é um dos músicos mais capacitados do hard rock na atualidade. À frente do Eclipse, banda que rapidamente se tornou referência no gênero nos últimos anos, ele conquistou fãs com composições marcantes que unem a energia do hard rock a melodias envolventes. Além de vocalista e guitarrista, Erik também é produtor e compositor, talento que lhe rendeu o título de “novo Desmond Child” graças à sua habilidade em criar músicas empolgantes, seja com sua própria banda, seja em projetos como o W.E.T. (ao lado de Jeff Scott Soto e Robert Säll, do Work of Art) e o Nordic Union (com a voz experiente de Ronnie Atkins, do Pretty Maids e Avantasia). 

Antes de desembarcar no Brasil para se apresentar com o Eclipse no próximo sábado, dia 30, na Hard N’ Heavy Party, Erik bateu um papo descontraído que você confere a seguir:

A gente não poderia começar essa conversa sem falar da vinda do Eclipse, um ano depois da apresentação no Summer Breeze. No seu caso, Erik, é a segunda vez participando da Hard N' Heavy Party, mas a primeira com o Eclipse. Quais são as expectativas para esse show, que será o primeiro internacional do novo Manifesto?

Erik: Bem, eu estou super empolgado por estar de volta ao Brasil, para começar tomando caipirinhas, conhecendo todas as pessoas maravilhosas, encontrando amigos e tocando um pouco de rock and roll.

No show do Summer Breeze do ano passado, notei que muita gente estava assistindo vocês — ainda mais considerando que foram a primeira banda a tocar no dia em um dos palcos principais. Muitos, inclusive eu, já conheciam a banda por causa do Carlos, da Animal Records. Mas, por ser um festival com tantas atrações, também houve quem conhecesse vocês ali pela primeira vez. Esse forte apelo dos brasileiros já era sentido nos shows na Europa e nos Estados Unidos, mas eu sei que havia a ambição de sentir isso aqui no próprio Brasil. Podemos dizer que foi um sonho realizado?

Erik: Com certeza! Nós queríamos tocar na América do Sul desde que começamos a banda. E finalmente aconteceu no ano passado depois de receber aqueles comentários clássicos de 'come to Brazil' em todos os posts que fazemos nas redes sociais. Foi super empolgante fazer parte do festival Summer Breeze, e havia tantas bandas incríveis lá. E foi engraçado ver tantas bandas suecas no festival também. Tinha, acho que o The Night Flight Orchestra, o HammerFall, o Dark Tranquillity também, se não me engano. E ainda tivemos alguns amigos dinamarqueses do King Diamond (Mercyful Fate) tocando também. Então foi ótimo.

Nos últimos anos, o Eclipse tem tocado nos principais festivais, e este ano a banda passou bastante tempo na estrada fazendo shows pela Europa. Como foi essa experiência e o que mais marcou vocês nessa turnê?

Erik: É realmente um privilégio poder ver o mundo viajando e tocando música. Não são muitas as pessoas que têm a sorte de viver essa experiência, e nós nos sentimos muito sortudos por isso. Conhecer o Brasil, conhecer o Japão, os Estados Unidos, toda a Europa… Viajar é incrível, exceto ficar sentado nos aviões, isso não é divertido. Mas passar um tempo em lugares diferentes e tocar rock and roll é maravilhoso.

Megalomenium II, lançado no ano passado, é o mais recente trabalho do Eclipse. Quem acompanha a banda sabe que vocês costumam lançar discos regularmente, mas desta vez foi de um ano para o outro, já que o primeiro Megalomenium saiu em 2023. O que motivou vocês a lançarem um novo álbum tão rapidamente?

Erik: Na verdade é um disco duplo, então, para nós, é o mesmo álbum. Nós escrevemos todas as músicas, já tínhamos todas prontas antes de começar a gravar. Então, para a gente, é realmente o mesmo disco, mas queríamos fazer esse álbum duplo. Só que sabíamos que seria um suicídio comercial lançá-lo todo de uma vez, especialmente com o streaming, porque isso significaria que pelo menos 16 músicas seriam completamente esquecidas nas plataformas. Por isso decidimos dividir e lançar com um ano de diferença. Foi uma quantidade enorme de trabalho fazer esses dois discos. E, agora, provavelmente vamos esperar um pouco para que os fãs tenham tempo de absorver e ouvir as músicas.

Falando ainda sobre o álbum, ele é muito especial e traz músicas que facilmente tocariam em qualquer rádio de rock, como Apocalypse Blues, The Spark — que é a minha favorita —, Falling to My Knees e Still My Hero, que é uma homenagem ao seu pai. Mais do que um ótimo trabalho, ele mostra que o Eclipse não é uma banda parada no tempo, pois está sempre experimentando coisas novas. Como líder da banda, como é compor cada álbum sem que ele soe igual ao anterior, mas ainda agradando os fãs que esperam ouvir algo no estilo que já amam?

Erik:  Sim, cada álbum é diferente porque você evolui como pessoa a cada vez que faz um novo disco. E alguns fãs acham que ‘Ah, vocês soam completamente diferentes agora de quando me apaixonei pela banda, eu amo o primeiro disco’, enquanto outras pessoas adoram o fato de estarmos sempre mudando. Mas nós não podemos escrever o mesmo álbum repetidas vezes, precisamos encontrar novas formas de fazer música para manter o interesse tanto para nós quanto para os fãs. Nunca se sabe o que esperar de um novo disco. Nós ainda não começamos a compor o próximo, então não tenho nenhum plano de como ele vai soar. Pode ser um álbum acústico, pode ser um álbum de metal… não tenho nenhum plano até agora. Vamos ver para onde a inspiração nos leva este ano.

Este ano foi lançado o quinto álbum do W.E.T., Apex. Por ser uma banda que não faz shows ou turnês, o público sempre espera ansiosamente por um novo trabalho. Pelo que sei, você também é o responsável por coordenar tudo — o próprio Jeff já me disse que você é a força criativa e o motor do W.E.T., uma espécie de mestre de cerimônias. Como é para você assumir esse papel e manter o projeto tão relevante, mesmo sendo uma ideia da Frontiers Records?

Erik: Sim, tudo começou como uma ideia da Frontiers Records. Eu já conhecia o Jeff antes da Frontiers nos juntar, querendo que fizéssemos um disco. Eu fui convidado para escrever algumas músicas para ele e, depois, me pediram para produzir o álbum inteiro. E eu não gosto muito desses projetos com vários compositores espalhados, onde cada música soa diferente, porque acaba parecendo apenas um projeto. Nós não queríamos isso, queríamos que soasse como uma banda. Então decidimos, junto com o Robert Säll, que é o guitarrista e também a força criativa por trás do W.E.T., escrever todas as músicas juntos, com o Jeff também, para manter tudo bem consistente. Mantivemos isso ao longo dos anos, e acho que esse é um dos motivos do sucesso do projeto. Nós realmente nos esforçamos para criar uma identidade própria.

This House of Fire é a música que mais ouvi esse ano até agora (risos).

Erik: E essa é uma música que entrou de última hora. O álbum já estava sendo mixado e eu pensei: ‘Precisamos de mais uma música animada, algo cativante’. Então, eu tinha várias ideias diferentes que já havia escrito antes e simplesmente as juntei, como um colagem, e criei essa música. Foi tipo: ‘Essa é a música perfeita para o disco, nós realmente precisamos dela’. Então, foi um acréscimo de última hora ao álbum.

Muitos não sabem, mas Apex marca o encerramento desse projeto tão especial, certo? 

Erik: Eu não tenho certeza, também não sei. Mas, de qualquer forma, é um bom disco.

Existe a possibilidade de, no futuro, você e o Jeff criarem um novo projeto no mesmo molde? Algo como um “Martensson & Soto”?

Erik: Claro, eu adoro trabalhar com o Jeff, ele é um grande amigo meu. E tocar algumas músicas do W.E.T. ao vivo com a banda de verdade, não apenas o Jeff fazendo músicas do W.E.T. no set dele, mas sim a banda completa do W.E.T. se apresentando. Seria ótimo, eu adoraria.

Você está sempre compondo e produzindo música , imagino quantas ideias deve ter guardadas no seu HD. Quando está compondo, o que você prioriza como mais importante? E, na sua visão, como decide qual ideia é ideal para o Eclipse, para o W.E.T. ou para o Nordic Union?

Erik:  Eu não tenho tantas ideias guardadas no meu drive quanto você possa pensar. Tenho algumas ideias meio bobas no meu celular, mas eu meio que componho um álbum de cada vez. Normalmente, quando é hora de trabalhar com o Eclipse, nós escrevemos músicas para o Eclipse, esse é o foco principal. Mas, claro, às vezes escrevemos uma música e pensamos: ‘Ah, isso não soa como Eclipse, soa mais como uma música do W.E.T. ou do Nordic Union’, e vice-versa. Se estou compondo para um álbum do W.E.T., posso acabar escrevendo algo que soa muito como Eclipse, então deixo guardado para o Eclipse. Mas, no geral, componho um álbum por vez.

A prioridade, ao produzir e compor um álbum, é a composição em si. A música é a base de tudo. Se você não tem boas músicas, não há motivo para gravar nada. Existem muitos discos com músicas ruins demais. Lembro que, quando criança, às vezes comprava discos com duas músicas boas e o resto muito chato, e eu não entendia por que eles colocavam tantas músicas ruins. Então, eu sempre tento, o máximo que posso, manter a qualidade das músicas o mais alta possível ao longo de todo o álbum.

Na maioria dos casos, você conta com o apoio do Magnus Henriksson. Eu sempre vejo vocês dois como o Roland Orzabal e o Curt Smith, do Tears For Fears — uma dupla que nunca se separa para fazer música. Qual é o segredo dessa parceria, que dura desde 1999?

Erik: Eu acho que, em primeiro lugar, nós realmente amamos música. Nós começamos a tocar não porque queríamos ser famosos ou gravar discos, mas porque simplesmente queríamos tocar música. Nós nos conhecemos bem jovens e crescemos ouvindo as mesmas bandas, mesmo tendo crescido tão longe um do outro. Acho que nós nos complementamos muito bem e… nós adoramos tomar cerveja juntos. Ele é como um irmão para mim, e não consigo me imaginar fazendo música sem ele.

O Eclipse tem uma boa quantidade de discos lançados. Qual disco você recomendaria primeiro para quem não conhece a banda?

Eu acho que todos são bons. Acho que todos os discos soam como o Eclipse, de uma forma ou de outra. Eu gosto muito do Wired, de 2021. Não posso dizer que o último álbum é o melhor, porque preciso de alguns anos depois do lançamento para ter o distanciamento necessário entre os discos. Normalmente as pessoas dizem que o último é o melhor, mas você nunca sabe até passar alguns anos. Então, vou esperar antes de recomendar o mais recente e recomendo o Wired (risos).

Não menos importante, gostaria de saber quais são as suas bandas favoritas, as principais influencias tanto como musico e compositor e se você tem o habito de ouvir musica no seu tempo livre. Eu sei que você veio da escola do Thrash e do Death Metal. Como essa transição para o Hard Rock?

Erik: Eu sempre ouço de tudo. Eu tenho um irmão três anos mais velho e ele tinha muitos discos: ele teve o primeiro do Mötley Crüe, o primeiro do W.A.S.P... O primeiro disco que comprei com meu próprio dinheiro foi o The Last Command, do W.A.S.P., em vinil. Eu mudo o que escuto o tempo todo, mas ainda assim o hard rock clássico é, de longe, o meu favorito. O AC/DC é a maior banda do mundo, mas também é uma das minhas bandas favoritas. Eu adoro! Ouvi thrash por muitos anos, tive uma banda cover de Slayer em que tocávamos apenas músicas do Slayer por alguns anos. E, bom, eu escuto muita música. Tenho uma coleção enorme de vinis e CDs, então praticamente ouço música o tempo todo.

Qual é o segredo para ter tantas bandas boas na Suécia, o país que originou Europe, ABBA e as outras bandas como H.E.A.T, Crazy Lixx, Ghost e Nestor?

Erik: Acho que um dos motivos é que nós temos escolas de música gratuitas, então qualquer pessoa pode frequentar sem pagar, e isso é uma parte importante. Também acho que há uma longa tradição  de música folclórica na Suécia, desde a Idade Média.

Além disso, acredito que boas bandas inspiram outras bandas. Quando eu era criança e vi o Mötley Crüe, eu não pensei: ‘Eu posso fazer isso’, porque, para mim, eles poderiam muito bem ser de Marte. Mas, quando você vê uma banda local tocando, você se inspira. É como tipo: 'se eles  conseguem fazer ótimos discos, talvez nós também possamos'. Isso é algo inspirador. Boas bandas inspiram pessoas a formar boas bandas também, pelo menos é assim que eu vejo hoje em dia.

Esse ano eu vi mais bandas suecas - Opeth, Europe, H.E.AT, Dynasty, Sabaton - do que bandas de outros países.

Erik: Tem mais uma coisa também: a Suécia é bem fria e escura durante metade do ano. O verão é ótimo, mas o inverno é muito escuro e frio, então não sobra muito o que fazer além de tocar música. Vamos ver no futuro. Agora todo mundo fica no celular, então talvez as pessoas passem a assistir Netflix ou ficar no Instagram e parem de compor músicas (risos).

Fazendo um balanço sobre sua trajetória, você tem vinte discos lançados, somando tudo com Eclipse, W.E.T., Nordic Union e Ammunition. Olhando para trás, o que mais te orgulha dessa caminhada? E, olhando para frente, qual ainda é o grande objetivo que você quer alcançar na música?

Erik:  Essa é uma pergunta difícil.  Acho que tenho orgulho de ter mantido meu interesse em compor e fazer a música que amo, o hard rock melódico e o rock, porque se eu quisesse ser bem-sucedido e ganhar dinheiro com isso, provavelmente teria seguido para algo mais pop ou outro estilo. Mas sempre me mantive fiel a esse pequeno gênero musical simplesmente porque o amo demais. Acho que tenho orgulho de ter continuado fazendo isso, de ainda estar fazendo e de conseguir viver disso, além de termos tido a coragem de seguir nossos próprios corações e escrever a música que amamos. 

Para finalizar, quais os planos do Eclipse para o futuro?

Erik: Agora é hora de sair em turnê e, claro, ir ao Brasil e aproveitar nosso catálogo de músicas e esse último álbum duplo. Vamos curtir isso por um tempo, apenas tocando ao vivo e sem passar tanto tempo no estúdio - embora eu fique no estúdio o tempo todo, já que meu trabalho diário é mixar discos de rock. Mas acho que precisamos passar bastante tempo na estrada juntos e ver o que acontece no futuro. Pela primeira vez, não temos um plano de dois anos, está tudo em aberto. Então, vamos ver o que acontece.