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sábado, 22 de agosto de 2026

Cobertura de Show: Swallow The Sun – 11/08/2026 – Hangar 110/SP

Na noite de 11 de agosto, o Hangar 110, em São Paulo, recebeu a terceira passagem do Swallow the Sun pelo Brasil, um dos nomes mais respeitados do doom/death metal finlandês, em uma apresentação marcada pela atmosfera sombria, introspectiva e profundamente melancólica. Um bom público compareceu para prestigiar a banda durante a passagem da turnê Shining Over Latin America e encontrou um espetáculo que privilegiou a música e a ambientação em detrimento da interação direta. Formado em Jyväskylä, em 2000, o grupo construiu, ao longo de mais de duas décadas, uma identidade baseada na combinação entre peso, melodia e atmosferas densas, características que se mostraram especialmente fortes ao vivo.

Com Mikko Kotamäki (vocal), Juha Raivio (guitarra), Juho Räihä (guitarra), Matti Honkonen (baixo) e Juuso Raatikainen (bateria) no palco, a apresentação teve início com "Innocence Was Long Forgotten", faixa do álbum Shining, de 2024, estabelecendo imediatamente o clima que dominaria toda a noite. Sem grandes discursos ou tentativas de transformar o show em um palanque, o Swallow the Sun deixou que suas próprias composições conduzissem a experiência. "Descending Winters" e "New Moon" deram sequência ao setlist, alternando passagens pesadas com momentos de maior delicadeza, enquanto "Under the Moon & Sun" reforçou o caráter contemplativo da apresentação. A sensação era de que o público não estava simplesmente assistindo a um show, mas sendo conduzido para dentro do universo sombrio criado pela banda. O repertório também funcionou como uma retrospectiva de diferentes fases da carreira, que começou com The Morning Never Came, em 2003, e chegou ao mais recente Shining.

A sequência formada por "Don't Fall Asleep (Horror, Part 2)", "Out of This Gloomy Light" e "November Dust" aprofundou ainda mais essa proposta. Em vez de buscar explosões constantes de energia, o Swallow the Sun trabalhou com contrastes, silêncios e longas construções instrumentais, permitindo que cada mudança de andamento tivesse seu impacto. "Out of This Gloomy Light", inclusive, remete aos primeiros anos da banda, já que a composição surgiu na demo homônima lançada antes do álbum de estreia e posteriormente foi lançada no álbum The Morning Never Came (2003). Já "Hope" trouxe uma das passagens mais emblemáticas da noite, recuperando o espírito do terceiro álbum do grupo, lançado em 2007 e conhecido justamente por transformar a ideia de esperança em matéria-prima para uma música carregada de desesperança.

Se havia pouca comunicação verbal entre banda e público, isso não significou falta de conexão. Pelo contrário: músicas como "MelancHoly" e "Falling World" encontraram um público imerso, que respondeu muito mais por meio do silêncio concentrado, dos aplausos e da entrega às canções do que por meio de uma participação ruidosa. A própria "Falling World", presente originalmente em New Moon, mostrou como o grupo consegue transformar melodia e peso em uma experiência quase cinematográfica. A apresentação ainda avançou para "These Woods Breathe Evil", encerrando o set principal de maneira densa, sombria e sem concessões, representando uma das fases mais importantes da trajetória da banda.

O bis trouxe "Deadly Nightshade" e "Swallow (Horror, Part 1)", duas escolhas particularmente adequadas para concluir uma noite tão carregada de sombras. A última faixa, originalmente presente em The Morning Never Came, ainda estabeleceu uma ligação direta entre o presente e os primeiros passos do grupo. O repertório apresentado em São Paulo, portanto, percorreu diferentes momentos da carreira sem abandonar aquilo que sempre esteve no centro da proposta do Swallow the Sun: a capacidade de transformar dor, solidão e melancolia em música.

Na apresentação, o quinteto mostrou que nem todo grande show precisa ser construído sobre discursos, brincadeiras ou interação constante. O Swallow the Sun fez justamente o contrário: criou uma espécie de bolha de isolamento dentro do Hangar 110, na qual peso, melancolia e introspecção falaram mais alto. Para quem estava disposto a mergulhar nessa atmosfera, foi uma experiência intensa e imersiva, fiel à essência de uma banda que transformou a tristeza em uma de suas mais poderosas formas de expressão. 


Texto: Marcelo Gomes



Realização: Overloard Brasil



Swallon The Sun – setlist:

Innocence Was Long Forgotten

Descending Winters

New Moon

Under the Moon & Sun

Don't Fall Asleep (Horror, Part 2)

Out of This Gloomy Light

November Dust

Hope

MelancHoly

Falling World

These Woods Breathe Evil

Deadly Nightshade

Swallow (Horror, Part 1)

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Amberian Dawn: Sinfonia de Renascimento (Also In English)

Napalm Records (Imp.)

Temptation's Gates: O Triunfo Épico do Amberian Dawn sob uma Nova Liderança Vocal

Por Michelle F. Santana - @mii.santanna

Depois de uma fase de transição entre estilos e mudanças na formação, a banda finlandesa de power metal sinfônico Amberian Dawn, formada em 2006, retorna com Temptation's Gates, seis anos após seu último álbum de estúdio. O novo trabalho resgata a veia power metal sinfônica que consolidou a identidade da banda, sem abrir mão dos elementos incorporados ao longo da última década, demonstrando que ainda há espaço para evoluir sem perder a própria essência. O álbum se desenvolve como uma obra de caráter épico, conduzindo o ouvinte por temas que transitam entre tentação, transformação, conflitos internos e elementos fantásticos. Mais do que servir de pano de fundo, esse conceito dá unidade ao disco e faz com que cada faixa ocupe um lugar específico dentro de uma narrativa maior.

Um dos maiores acertos desta nova fase é a performance de Nicole Willerton, que faz sua estreia em estúdio pela banda com grande personalidade. Sua interpretação impressiona pela segurança e pelo controle técnico, mas vai além da precisão. Há identidade em sua forma de cantar, alternando momentos delicados com passagens de grande intensidade sem perder a expressividade. Sua voz encontra o equilíbrio ideal entre a grandiosidade exigida pelo metal sinfônico e a emoção necessária para dar vida às composições, tornando sua estreia um dos pontos altos do álbum.

Instrumentalmente, o Amberian Dawn demonstra um cuidado evidente na construção das melodias. Os refrões são envolventes, as linhas vocais dialogam naturalmente com os teclados de Tuomas Seppälä e as guitarras de Emil "Emppu" Pohjalainen, enquanto os arranjos orquestrais ampliam a atmosfera sem transformar as músicas em um excesso de camadas. Tudo soa muito bem dosado, permitindo que peso, melodia e elementos sinfônicos coexistam de forma orgânica.

Entre os destaques, a faixa-título "Temptation's Gates" resume com precisão a proposta do álbum. Grandiosa e envolvente, ela combina refrões marcantes, orquestrações imponentes e uma interpretação vocal que traduz toda a dramaticidade da composição, funcionando como a principal representação do conceito do disco.

"Moon" explora uma atmosfera épica, equilibrando delicadeza e intensidade por meio de melodias elegantes que crescem naturalmente ao longo da música. Os teclados e as guitarras se fundem com naturalidade, criando uma sonoridade rica e envolvente. O desfecho ganha ainda mais força com a voz levemente rasgada de Nicole, um contraste que acrescenta personalidade e intensidade à composição.

Outro momento que merece atenção é "Unchained", uma das faixas mais pesadas do álbum. Além dos riffs mais incisivos, a música surpreende pela inclusão de vocais guturais, utilizados de forma estratégica para ampliar a tensão e o impacto da composição. O contraste entre os guturais e a voz limpa e cristalina de Nicole Willerton funciona de maneira impecável, adicionando uma nova dimensão à sonoridade do Amberian Dawn sem comprometer sua identidade melódica. A combinação entre peso, elementos sinfônicos e uma abordagem mais agressiva faz desta uma das faixas mais marcantes de Temptation's Gates. Merece destaque também o solo de guitarra, executado com precisão e bom gosto, que acrescenta brilho à composição e reforça seu caráter épico.

Já "Life Is Art" apresenta uma energia mais vibrante e acessível, apostando em um refrão forte e em uma construção melódica que permanece na memória desde as primeiras audições. Os teclados assumem papel de destaque ao lado da interpretação de Nicole, contribuindo para uma atmosfera ampla e emocionante que evidencia a habilidade da banda em criar músicas cativantes sem abrir mão da sofisticação dos arranjos.

Um dos momentos mais interessantes do álbum surge em "Undying Colors", que incorpora passagens eletrônicas com forte inspiração oitentista. Os sintetizadores remetem ao synth-pop e ao AOR da década de 1980, criando uma atmosfera nostálgica que dialoga diretamente com a influência do ABBA sobre Tuomas Seppälä. As harmonias vocais, a construção melódica e o brilho dos teclados remetem ao pop sueco clássico, mas são reinterpretados dentro da linguagem do metal sinfônico, resultando em uma das faixas mais criativas do disco.

Essa influência volta a aparecer em "Phantasmagoria", embora de maneira mais sutil. Em meio às orquestrações grandiosas e ao clima cinematográfico, a composição apresenta melodias vocais sofisticadas e refrões de forte apelo melódico que evocam a elegância característica do quarteto sueco. Ao mesmo tempo, a faixa reúne mudanças de dinâmica, riqueza de arranjos e uma execução impecável, sintetizando tudo o que faz Temptation's Gates funcionar tão bem e encerrando o álbum em alto nível.

O álbum trás um resultado que impressiona tanto pela imponência quanto pela riqueza de detalhes. Temptation's Gates entrega uma experiência consistente do início ao fim, sustentada por composições inspiradas, melodias marcantes e uma interpretação vocal impecável. Sem depender apenas do impacto da primeira audição, o disco revela novas facetas a cada retorno, reforçando que o Amberian Dawn inicia este novo capítulo com criatividade, maturidade e um forte senso de identidade. Mais do que um retorno às origens, Temptation's Gates mostra uma banda que compreende sua própria trajetória e a utiliza como base para seguir em frente, deixando a expectativa de que essa formação ainda tem muito a oferecer.


***ENGLISH VERSION***

Temptation's Gates: Amberian Dawn's Epic Triumph Under a New Vocal Leadership

After a period of stylistic transitions and lineup changes, Finnish symphonic power metal band Amberian Dawn, formed in 2006, returns with Temptation's Gates, six years after its last studio album. The new release revives the symphonic power metal spirit that established the band's identity while preserving the musical elements developed over the past decade, proving there is still room to evolve without sacrificing its essence. The album unfolds as an epic work, guiding the listener through themes of temptation, transformation, inner conflict, and fantasy. Rather than serving as a mere backdrop, this concept unifies the record, making each track feel like an essential chapter in a larger narrative.

One of the greatest strengths of this new era is Nicole Willerton's performance, making her studio debut with the band in remarkable fashion. Her delivery is not only technically flawless and confident but also deeply expressive. She effortlessly shifts between delicate passages and moments of soaring intensity without ever losing emotional depth. Her voice strikes the perfect balance between the grandeur expected from symphonic metal and the emotion required to bring these compositions to life, making her debut one of the album's undeniable highlights.

Instrumentally, Amberian Dawn displays exceptional attention to melodic craftsmanship. The choruses are captivating, the vocal lines intertwine naturally with Tuomas Seppälä's keyboards and Emil "Emppu" Pohjalainen's guitars, while the orchestral arrangements enrich the atmosphere without overwhelming the compositions. Everything feels carefully balanced, allowing heaviness, melody, and symphonic elements to coexist seamlessly.

Among the highlights, the title track, "Temptation's Gates," perfectly encapsulates the album's vision. Grandiose and immersive, it combines memorable choruses, majestic orchestrations, and a commanding vocal performance that captures the full dramatic scope of the composition, serving as the definitive representation of the album's concept.

"Moon" embraces an epic yet  atmosphere, balancing delicacy and intensity through elegant melodies that naturally build throughout the song. Keyboards and guitars merge effortlessly, creating a rich and immersive sonic landscape. The closing section gains additional impact through Nicole's slightly raspy vocal delivery, adding both character and emotional intensity to the composition.

Another standout is "Unchained," one of the heaviest tracks on the record. Beyond its sharper guitar riffs, the song surprises with the strategic use of harsh vocals, intensifying both its tension and emotional weight. The contrast between the growls and Nicole Willerton's crystal-clear voice works flawlessly, adding a new dimension to Amberian Dawn's sound without compromising its melodic identity. The combination of heaviness, symphonic arrangements, and a more aggressive approach makes it one of Temptation's Gates' most memorable moments. The tastefully executed guitar solo also deserves special mention, adding brilliance and reinforcing the track's epic character.

"Life Is Art" brings a more vibrant and accessible energy, built around a powerful chorus and melodic hooks that linger long after the first listen. The keyboards take center stage alongside Nicole's performance, creating a sweeping and emotionally engaging atmosphere that showcases the band's ability to craft memorable songs without sacrificing musical sophistication.

One of the album's most fascinating moments arrives with "Undying Colors," which incorporates electronic passages heavily inspired by the 1980s. Its shimmering synthesizers evoke synth-pop and AOR, creating a nostalgic atmosphere that directly reflects Tuomas Seppälä's well-known admiration for ABBA. The layered vocal harmonies, infectious melodic structure, and bright keyboard work recall the timeless elegance of Swedish pop, yet they are reimagined through the lens of symphonic metal, resulting in one of the album's most inventive compositions.

That ABBA influence resurfaces in "Phantasmagoria," albeit in a subtler way. Amid sweeping orchestral arrangements and a cinematic atmosphere, the song features sophisticated vocal melodies and irresistibly melodic choruses that echo the refined songwriting associated with the legendary Swedish quartet. At the same time, the track combines dynamic shifts, rich arrangements, and impeccable musicianship, bringing together everything that makes Temptation's Gates such a rewarding listening experience while closing the album on a powerful note.

The final result is an album that impresses through both its grandeur and its meticulous attention to detail. Temptation's Gates delivers a consistently engaging experience from beginning to end, driven by inspired songwriting, memorable melodies, and an outstanding vocal performance. Rather than relying solely on the impact of a first listen, the record reveals new layers with each revisit, confirming that Amberian Dawn enters this new chapter with creativity, maturity, and a renewed sense of identity. More than a return to its roots, Temptation's Gates demonstrates a band that fully understands its own musical journey and uses it as a foundation for the future, leaving listeners eager to discover what this lineup will accomplish next.

Divulgação


segunda-feira, 18 de maio de 2026

The 69 Eyes: Os Vampiros de Helsinque Reafirmam Sua Essência Gótica (Also In English)

BLKIIBLK (Imp.)

Por Michelle F. Santana

Desde os anos 90, o The 69 Eyes construiu uma identidade praticamente inconfundível dentro do gothic rock e do chamado “goth’n’roll”. Entre riffs carregados de hard rock oitentista, estética vampiresca e melodias melancólicas, a banda finlandesa nunca pareceu interessada em seguir tendências e talvez justamente por isso tenha mantido uma base de fãs tão fiel ao longo das décadas. Em I Survive, novo EP da banda, essa proposta permanece intacta, mas com um detalhe importante: este é o primeiro lançamento do grupo pelo selo BLKIIBLK, divisão voltada ao rock e metal do Frontiers Label Group. Essa nova fase parece refletir diretamente na sonoridade do trabalho, que aposta em uma abordagem mais direta, encorpada e fortemente apoiada no hard rock sem abandonar a identidade gótica que sempre acompanhou a banda.

Outro ponto que chama atenção é a produção e a ambientação sonora do EP. A mixagem assinada por Barry Pointer, conhecido por trabalhos ao lado de Ozzy Osbourne, reforça uma atmosfera ampla e quase cinematográfica, especialmente perceptível na faixa-título. Existe um senso de profundidade e dramatização nas camadas instrumentais que ajuda a potencializar essa estética noturna, melancólica e decadente que o The 69 Eyes domina tão bem.

Muito se fala hoje sobre inovação constante dentro do rock e do metal, mas existe uma diferença importante entre estagnação e coerência artística. Para um EP, especialmente vindo de uma banda com uma estética tão consolidada quanto o The 69 Eyes, faz muito mais sentido apostar no refinamento da própria fórmula do que em uma ruptura artificial. I Survive entende exatamente isso: não tenta reinventar a banda, apenas reforçar aquilo que ela sempre soube fazer bem.

A faixa-título “I Survive” deixa isso claro desde os primeiros minutos. O clima sombrio e melancólico remete diretamente à influência do "pós-punk", especialmente nas linhas vocais arrastadas e na atmosfera noturna quase cinematográfica. Ao mesmo tempo, a música mantém aquele peso acessível entre gothic rock, hard rock e glam decadente que sempre caracterizou o som do grupo. Há ecos evidentes do álbum "Wasting the Dawn" (1999) na construção da ambiência, principalmente no contraste entre sensualidade sombria e guitarras mais encorpadas.

Tecnicamente, a faixa trabalha riffs simples, porém extremamente eficientes, sustentados por uma cozinha sólida e um andamento cadenciado que favorece o clima melancólico sem perder o apelo de refrão. A participação de Steve Stevens, conhecido por seu trabalho com Billy Idol, adiciona ainda mais personalidade à música, especialmente nos detalhes de guitarra que reforçam esse lado hard rock clássico presente em toda a faixa.

O vocal de Jyrki 69 merece destaque especial em todo o EP. Sua interpretação soa confortável, madura e segura dentro da proposta da banda. Há uma dramaticidade característica do gothic rock clássico em sua performance, mas sem soar artificial ou exagerada. Pelo contrário: sua voz continua sendo uma das peças centrais da identidade construída pelo The 69 Eyes ao longo das décadas.

Em “Cold Sweat”, clássico originalmente lançado pelo Thin Lizzy e já revisitado por nomes como Megadeth e Helloween, o The 69 Eyes opta sabiamente por preservar a essência hard rock da composição. Em vez de transformar completamente a música, para encaixar em um molde gótico exagerado, a banda prefere incorporar pequenos elementos da própria identidade sem descaracterizar o espírito original da faixa. O resultado é um cover sólido, com guitarras vibrantes e uma interpretação que respeita a energia clássica da composição.

"In the Misery” talvez seja o momento em que o EP mais explicita o DNA da banda. Toda a decadência vampiresca, o romantismo sombrio e a estética urbana noturna aparecem de forma quase emblemática, principalmente na atmosfera melancólica construída pela faixa. Musicalmente, diferente das faixas mais cadenciadas do EP, aqui as guitarras surgem mais marcadas e presentes, conduzindo a música de maneira firme enquanto o instrumental mantém uma aura obscura e melancólica. O solo carrega uma pegada clássica de hard rock, adicionando ainda mais personalidade à faixa sem quebrar o clima decadente que define sua identidade. É justamente esse equilíbrio entre peso, melancolia e teatralidade vampiresca que transforma “In the Misery” em um verdadeiro retrato da essência do The 69 Eyes.

Mas é em “Devil’s Rose” que o EP encontra seu ponto mais alto. Muito mais puxada para o hard rock do que as demais faixas, a música encerra o trabalho de maneira energética sem abandonar a identidade gótica da banda. A participação do lendário guitarrista norte-americano Ed Mundell, ex-Monster Magnet, traz ainda mais força à composição. Suas guitarras brilham ao longo da faixa, incorporando elementos característicos do stoner rock com riffs encorpados, solos marcantes e muito feeling, mas sempre respeitando o universo sonoro do The 69 Eyes. As guitarras de Bazie também merecem destaque, funcionando em perfeita sintonia com a participação de Mundell e criando uma das construções instrumentais mais fortes do EP. Enquanto isso, Jyrki 69 entrega uma interpretação carregada de carisma sombrio e presença, reforçando ainda mais a personalidade da banda. O resultado é uma faixa intensa, energética e extremamente eficiente para encerrar o EP.

No fim, I Survive não é um trabalho revolucionário e nem precisa ser. O EP funciona porque entende exatamente a identidade da banda e não tenta fugir dela. Entre melodias sombrias, riffs acessíveis e uma atmosfera decadente que parece saída diretamente de clubes góticos dos anos 80 e 90, o The 69 Eyes entrega um trabalho sólido, tecnicamente consistente e fiel à própria identidade. Para os fãs antigos, é um reencontro confortável com aquilo que sempre tornou a banda especial. Para novos ouvintes, talvez seja um convite interessante para mergulhar nesse universo entre o hard rock e a escuridão romântica do gothic rock.

***ENGLISH VERSION***

Since the 1990s, The 69 Eyes have built an almost unmistakable identity within gothic rock and the so-called “goth’n’roll” scene. Blending ‘80s-inspired hard rock riffs, a vampiric aesthetic, and melancholic melodies, the Finnish band has never seemed particularly interested in following trends and perhaps that is precisely why they have maintained such a loyal fanbase throughout the decades. On I Survive, the band’s new EP, that approach remains fully intact, though with one important detail: this marks the group’s first release through BLKIIBLK, the rock and metal division of Frontiers Label Group. This new chapter seems directly reflected in the sound of the record, which embraces a more straightforward, fuller-bodied approach heavily rooted in hard rock while still preserving the gothic identity that has always defined the band.

Another element that stands out is the EP’s production and sonic atmosphere. The mix, handled by Barry Pointer known for his work alongside Ozzy Osbourne reinforces a broad and almost cinematic ambiance, especially noticeable on the title track. There is a sense of depth and dramatization in the instrumental layers that amplifies the nocturnal, melancholic, and decadent aesthetic that The 69 Eyes have mastered so well over the years.

There is constant discussion nowadays about the need for innovation within rock and metal, but there is an important difference between stagnation and artistic coherence. For an EP, especially from a band with such a consolidated aesthetic as The 69 Eyes, refining their own formula makes far more sense than forcing an artificial reinvention. I Survive understands this perfectly: it does not attempt to reinvent the band, but rather reinforces everything they have always done well.

The title track, “I Survive,” makes that clear from its very first moments. Its dark and melancholic atmosphere strongly recalls post-punk influences, especially through the drawn-out vocal lines and the nearly cinematic nocturnal mood. At the same time, the song maintains the accessible balance between gothic rock, hard rock, and decadent glam that has always characterized the band’s sound. There are even clear echoes of "Wasting the Dawn" (1999) in the way the atmosphere is constructed, particularly in the contrast between dark sensuality and heavier guitar textures.

From a technical perspective, the track is built around simple yet highly effective riffs, supported by a solid rhythm section and a steady pacing that enhances the melancholic atmosphere without sacrificing its hook-driven appeal. The participation of Steve Stevens best known for his work with Billy Idol adds even more personality to the song, particularly through guitar details that strengthen its classic hard rock edge.

Jyrki 69’s vocals deserve special recognition throughout the EP. His performance feels comfortable, mature, and fully confident within the band’s musical proposal. There is a dramatic quality typical of classic gothic rock in his delivery, though it never sounds artificial or exaggerated. On the contrary, his voice remains one of the central pillars of the identity The 69 Eyes have built over the decades.

On “Cold Sweat,” originally released by Thin Lizzy and later revisited by bands such as Megadeth and Helloween, The 69 Eyes wisely choose to preserve the hard rock essence of the composition. Rather than completely reshaping the song into an exaggerated gothic framework, the band subtly incorporates elements of its own identity without stripping away the spirit of the original version. The result is a solid cover featuring vibrant guitars and a performance that respects the song’s classic energy.

On “Cold Sweat,” originally released by Thin Lizzy and later revisited by bands such as Megadeth and Helloween, The 69 Eyes wisely choose to preserve the hard rock essence of the composition. Rather than completely reshaping the song into an exaggerated gothic framework, the band subtly incorporates elements of its own identity without stripping away the spirit of the original version. The result is a solid cover featuring vibrant guitars and a performance that respects the song’s classic energy.

“In the Misery” may be the moment where the EP most explicitly showcases the band’s DNA. The vampiric decadence, dark romanticism, and nocturnal urban aesthetic all emerge in an almost emblematic way, particularly through the melancholic atmosphere built around the song. Musically, unlike some of the EP’s slower and more restrained moments, the guitars here are sharper and more prominent, driving the track firmly forward while the instrumentation maintains an obscure and melancholic aura. The solo carries a distinctly classic hard rock feel, adding even more personality without disrupting the decadent atmosphere that defines the song’s identity. It is precisely this balance between heaviness, melancholy, and vampiric theatricality that turns “In the Misery” into a true portrait of The 69 Eyes’ essence.

However, it is on “Devil’s Rose” that the EP reaches its strongest moment. Leaning much more heavily into hard rock than the other tracks, the song closes the record in an energetic fashion without abandoning the band’s gothic identity. The participation of legendary American guitarist Ed Mundell, formerly of Monster Magnet, adds even more power to the composition. His guitar work shines throughout the track, incorporating characteristic stoner rock elements through thick riffs, striking solos, and a strong sense of feel, while still respecting the sonic universe of The 69 Eyes. Bazie’s guitars also deserve praise, working in perfect synergy with Mundell’s contributions and creating one of the EP’s strongest instrumental moments. Meanwhile, Jyrki 69 delivers a performance filled with dark charisma and presence, further reinforcing the band’s personality. The result is an intense, energetic, and highly effective closing track.

In the end, I Survive is not a revolutionary release nor does it need to be. The EP succeeds because it fully understands the band’s identity and never tries to escape from it. Between dark melodies, accessible riffs, and a decadent atmosphere that feels pulled directly from gothic clubs of the ‘80s and ‘90s, The 69 Eyes deliver a solid, technically consistent work that remains completely faithful to its own identity. For longtime fans, it is a comfortable reunion with everything that made the band special in the first place. For newer listeners, it may serve as an intriguing invitation into this world suspended between hard rock and the romantic darkness of gothic rock.

Marek Sabogal


terça-feira, 14 de abril de 2026

Temple Balls: Mais Afiado Do Que Nunca

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Os finlandeses do Temple Balls dão mais um passo consistente em sua trajetória com o lançamento de Temple Balls, álbum autointitulado que consolida a evolução iniciada em Avalanche (2023). Mais uma vez sob a produção de Jona Tee (H.E.A.T), o grupo apresenta um trabalho que equilibra com precisão energia e refinamento, apostando em uma combinação eficaz de refrões fortes, guitarras afiadas e uma base rítmica sólida.

Logo na abertura, “Flashback Dynamite” estabelece o tom do disco com sua abordagem direta e um refrão de fácil assimilação, evidenciando a habilidade da banda em trabalhar melodias acessíveis sem abrir mão do peso. Na sequência, “Lethal Force” desacelera levemente o andamento, mas reforça a identidade sonora do álbum, destacando o timbre vocal de Arde Teronen e um trabalho de guitarras que já aponta para a coesão do conjunto.

“Tokyo Love” surge como um dos momentos mais cativantes do repertório, com linhas de baixo que ganham protagonismo e uma atmosfera que remete ao Edguy de sua fase mais inspirada. Já “There Will Be Blood” introduz elementos eletrônicos de forma mais evidente, com teclados e timbres que evocam o Turbo, do Judas Priest, ampliando o espectro sonoro do disco sem comprometer sua essência.

O single “We Are The Night” sintetiza bem essa proposta híbrida, transitando entre referências do rock norte-americano e uma abordagem mais moderna, enriquecida por arranjos de teclado e até mesmo um inesperado solo de sax. Em contrapartida, “Hellbound” resgata a veia mais agressiva da banda, com uma pegada que flerta com o Motörhead e entrega uma das performances mais intensas do álbum.

Na segunda metade, o grupo mantém a consistência. “Soul Survivor” aposta no hard rock mais tradicional, com foco em linhas vocais fortes e um refrão pensado para o público. “The Path Within” e “Stronger Than Fire” reforçam a coesão estética do trabalho, equilibrando elementos melódicos e estruturas bem definidas, enquanto “Chasing The Madness” retoma a velocidade e o peso, reafirmando a versatilidade do quinteto.

Encerrando o álbum, “Living In A Nightmare” funciona como uma síntese de suas influências, dialogando com nomes clássicos do hard and heavy europeu como Judas Priest, Black Sabbath e Rainbow. É um fechamento que não apenas respeita a tradição do gênero, mas também evidencia a maturidade de uma banda que parece cada vez mais confortável em expandir seus próprios limites.

Com Temple Balls, o grupo finlandês entrega um trabalho coeso, dinâmico e estrategicamente construído, reforçando sua posição dentro do cenário contemporâneo do hard rock melódico e apontando para voos ainda mais ambiciosos.

***ENGLISH VERSION***

Finnish hard rockers Temple Balls take another confident step forward with their self-titled release, Temple Balls, a record that solidifies the sonic evolution first showcased on Avalanche (2023). Once again produced by Jona Tee (H.E.A.T), the album finds the band striking a fine balance between raw energy and polished songwriting, built on infectious hooks, sharp guitar work, and a powerful rhythmic backbone.

Opening track “Flashback Dynamite” wastes no time in setting the tone, delivering a straight-ahead punch with a highly memorable chorus that highlights the band’s knack for crafting accessible yet hard-hitting material. “Lethal Force” follows with a slightly more restrained pace, but further reinforces the album’s cohesive identity, with Arde Teronen’s distinctive vocal tone and a guitar-driven approach that begins to tie the record together.

“Tokyo Love” stands out as one of the album’s most engaging moments, driven by prominent bass lines and a melodic sensibility reminiscent of Edguy at their peak. Meanwhile, “There Will Be Blood” expands the band’s sonic palette with a stronger electronic edge, featuring keyboard textures and guitar tones that echo Judas Priest’s Turbo era, adding variety without straying from the core sound.

The single “We Are The Night” encapsulates this hybrid approach, shifting between American rock influences and a more modern, keyboard-laden arrangement—complete with an unexpected saxophone solo that adds an extra layer of character. In contrast, “Hellbound” taps into a heavier, more aggressive vein, channeling a Motörhead-like intensity and delivering one of the album’s most hard-hitting performances.

The second half maintains the album’s consistency. “Soul Survivor” leans into classic hard rock territory, with strong vocal lines and a chorus clearly designed for audience participation. “The Path Within” and “Stronger Than Fire” further underline the record’s cohesion, balancing melodic elements with solid structural songwriting, while “Chasing The Madness” brings back the speed and metallic edge, showcasing the band’s versatility.

Closing track “Living In A Nightmare” serves as a fitting summary of the band’s influences, drawing from the legacy of European hard and heavy icons such as Judas Priest, Black Sabbath, and Rainbow. It’s a finale that not only pays tribute to the genre’s roots but also highlights a band growing increasingly confident in pushing its own boundaries.

With Temple Balls, the Finnish outfit delivers a cohesive, dynamic, and strategically crafted album that strengthens their standing within the contemporary melodic hard rock scene—and suggests even bigger things ahead.

Marko Syrjala


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Cobertura de Show: Azaghal – 13/02/2026 – La Iglesia/SP

Em plena sexta-feira de carnaval, quando as ruas do Brasil ferviam com samba e blocos, o La Iglesia serviu como reduto para os devotos do metal extremo. O “Bloco dos Camisas Pretas” resistiu bravamente, reunindo um público sedento por uma noite de riffs infernais e vocais guturais, comandada pelos finlandeses do Azaghal e precedida pelos brasileiros do Great Vast Forest. Uma noite pesada que trouxe um contraponto à euforia carnavalesca.

A responsabilidade de iniciar os trabalhos ficou com o Great Vast Forest, que apresentou o poderoso black metal brasileiro. Formado por Surgath (vocais), Sallos (guitarra), D. Katharsis (guitarra), Nero (baixo), Nahtaivel (teclados) e Draugr (bateria), o grupo conduziu o público por uma viagem ao submundo, iniciada com "Majestic South", "Wolvesclan" e "Prelude To the Victory". Logo de início, ficou nítida a capacidade da banda em criar paisagens sonoras obscuras, transportando a audiência diretamente para o vale das sombras. Um dos destaques, e um verdadeiro presente para os fãs, foi a potente e reverente versão de "Call From the Grave", do Bathory, que foi muito bem recebida. O set seguiu com a intensidade de "Bloody Winter" e a melancolia de "Memories of the Fire...", culminando com a grandiosidade de "Ride of the Valkyries" e "Imperial Moon", deixando a plateia pronta para os finlandeses.

O Azaghal, veterano do black metal finlandês formado em 1998, subiu ao palco reafirmando sua longa trajetória de devoção ao estilo. Sem rodeios, a banda mergulhou de cabeça em seu repertório, abrindo com a brutalidade de "Alttarini on luista tehty", seguida por "Myrkkyä" e "Filosofi", que intensificaram a aura blasfema e visceral do grupo. A energia crua e a entrega sem concessões criaram uma parede sonora que devastou o que vinha pela frente, reafirmando a reputação do Azaghal como mestre do caos e do terror. 

Com um simples “Como está São Paulo?”, falado em português pelo vocalista, deram início a mais uma pedrada, agora com "Black Terror Metal / Kyy". A transição para "Maailman Viimeinen Yö (Ja Ensimmäinen)" e "Madon sanat" trouxe momentos mais introspectivos, nem por isso menos pesados ou sombrios. O público respondia com devoção, provando a atemporalidade do black metal em contextos improváveis.

Avançando no set, "Syöpäläinen" e "De Masticatione Mortuorum" elevaram a intensidade a níveis infernais, com Ruho martelando a bateria como um possuído, enquanto Narqath berrava como o próprio capiroto. A química entre os membros era visível, resultando em uma execução precisa e devastadora, que manteve o público em estado de transe, provando que o black metal não é apenas música, mas a manifestação de uma escuridão intrínseca, um grito de revolta contra a luz e a conformidade.

Para encerrar a noite, o Azaghal brindou os presentes com uma sequência final de tirar o fôlego. "Mustamaa" e "Agios O Baphomet" prepararam o terreno para a mística "Quetzalcoatl", que trouxe uma dimensão quase ritualística à apresentação, com sua aura enigmática e poderosa. O grand finale com "Kun Aurinko Kuoli" e "Juudas" foi um encerramento apoteótico, deixando claro que o Azaghal não apenas tocou suas músicas, mas encenou um verdadeiro rito de black metal, uma celebração da noite e do caos. A noite no La Iglesia foi um triunfo para o “Bloco dos Camisas Pretas”, uma celebração da escuridão que, em meio à algazarra do carnaval, provou ser o refúgio perfeito para almas que buscam algo mais profundo, visceral e intransigente. 

Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Sabrina Ribeiro para o Cultura em Peso

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Caveira Velha Produções


Great Vast Forest – setlist:

Majestic South 

Wolvesclan 

Prelude to the victory... 

Masters of the Old War 

Call From the Grave (Bathory) 

Bloody Winter 

Memories of the Fire... 

In the Deep Forest... 

Ride of the Valkyries 

Imperial Moon


Azaghal – setlist:

Alttarini on luista tehty 

Myrkkyä 

Filosofi 

Black Terror Metal / Kyy 

Peto 666 

Maailman Viimeinen Yö (Ja EnsimmäInen) 

Madon sanat 

Syöpäläinen 

De Masticatione Mortuorum 

Mustamaa 

Agios O Baphomet 

Quetzalcoatl 

Kun Aurinko Kuoli 

Juudas


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Battle Beast: Power Metal Com Força e Esperança

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Por Paula Butter

A banda Battle Beast pode ser considerada um exemplar do Power Metal atual, que sempre agradou, com constantes lançamentos, e apesar das mudanças em sua formação, sempre vai rumo ao contexto global do momento. E justamente em 2025, lança seu novo álbum Steelbound, trazendo força em um contexto atual de mudanças e conflitos bélicos. Entretanto, traz também mensagens de esperança e algumas alfinetadas políticas, como em “Twilight Cabaret”.

É inegável o talento da vocalista Noora Louhimo, já há bastante tempo na banda, que brilha em praticamente todas as faixas. Os riffs e pedais duplos voltados para o Hard Rock ainda estão muito presentes, ganham destaque na primeira música “The Burning  within”, que vem precedida da introdução estilo épico, que lembra muito a abertura da série televisiva “Game of Thrones”. Na sequência das faixas podemos perceber muita modernidade no som, com o uso, nada moderado, de sintetizadores, vocais fortes e melódicos, nada que desabone as composições. Inclusive este é o tipo de álbum que não dá vontade de apertar a pausa ou, para alguns dedos nervosos, acelerar para a próxima música.

Destaque para os solos de guitarras em “Blood of Heroes”, bem como na letra, que se encaixa perfeitamente na melodia. E é claro, é preciso falar do flerte com a música dos anos 80, que no caso de algumas faixas, como a própria “Steelbound” e “Angel of Midnight”, e se encaixam perfeitamente em um daqueles clássicos filmes da época, como a trilha sonora de “Streets Of Fire”, em português “Ruas de fogo”, de 1984. 

No quesito mais tradicional, destaque para a excelente “Last Goodbye”, que traz uma pegada bem na linha Metal/Hard Rock. De fato, todas as faixas são irresistíveis e mantêm um tempo de duração relativamente curto, que entrega dinamismo e ritmo acelerado, como se fosse um espelho do mundo atual.

Por fim, a fórmula Power Metal moderno do Battle Beast está cada vez mais consolidada e atraente para os ouvidos, com um material de qualidade, porém sem grandes pretensões, além de divertir e agradar aos fãs do gênero. 

Jarmo Katila



quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Cobertura de Show: Cemetery Skyline – 16/09/2025 – Hangar 110/SP

Na última terça-feira (16/09), o Hangar 110 foi palco de uma apresentação memorável. Pela primeira vez em território brasileiro, a banda Cemetery Skyline realizou um espetáculo que combinou intensidade, peso e emoção. O público paulistano, já habituado a receber grandes nomes internacionais, respondeu com devoção a cada nota que ecoava pelo espaço.

O supergrupo, que reúne integrantes de bandas como Dark Tranquillity, Sentenced, Amorphis e Dimmu Borgir, é formado por Mikael Stanne (vocal), Markus Vanhala (guitarra), Santeri Kallio (teclado), Victor Brandt (baixo) e Vesa Ranta (bateria). O quinteto desembarcou no Brasil para promover o álbum Nordic Gothic (2024), em um show exclusivo em São Paulo. O título do trabalho define de maneira precisa o estilo da banda.

Com um público modesto, porém caloroso, o grupo iniciou a apresentação com "Behind the Lie", estabelecendo o tom sombrio e introspectivo que marcaria todo o concerto. A plateia acompanhou com palmas ritmadas enquanto Mikael Stanne transmitia toda a dramaticidade de sua interpretação vocal. A sequência com "Torn Away" e "The Darkest Night" intensificou o clima, com refrães entoados em coro por um público que parecia conhecer cada palavra.

Antes de anunciar "Anomalie", o vocalista declarou: “Só temos um álbum, então vamos tocá-lo na íntegra”, arrancando aplausos entusiasmados. O público, ainda que pequeno, mostrou-se barulhento e participativo, ovacionando a banda. A satisfação era nítida nos rostos dos músicos. Em "The Coldest Heart", o lado mais sombrio e atmosférico da banda se evidenciou, criando uma sensação hipnótica entre os presentes, sem que isso diminuísse a vibração da plateia, que reagia intensamente a cada nota.

Um breve solo de guitarra introduziu "Never Look Back", composição marcada por melodias expressivas. Após a execução, o vocalista agradeceu emocionado o carinho do público. O ápice emocional surgiu em dois momentos: primeiro com a delicada "When Silence Speaks", durante a qual a plateia observava as melodias que pareciam se transformar em imagens; em seguida, com a surpreendente versão de "I Drove All Night" (Roy Orbison), que arrebatou os presentes em uma mistura de nostalgia e reverência. Já o interlúdio instrumental de "Konevitsan kirkonkellot", tema tradicional finlandês, foi recebido com reverência solene, como se todos partilhassem do mesmo ritual.

Quase no encerramento, "Violent Storm" demonstrou a maturidade da banda, destacando os vocais limpos de Mikael Stanne e um refrão marcante. Entretanto, nenhuma execução foi tão simbólica quanto "Alone Together". Antes de iniciar a faixa, o vocalista, visivelmente emocionado, solicitou um minuto de silêncio em memória de Tomas Lindberg, vocalista da banda At the Gates, falecido no mesmo dia. Com imagens projetadas nos telões, a homenagem foi respeitada de forma comovente. O ar melancólico da canção contagiou o Hangar 110 inteiro se transformou encerrando a apresentação de maneira emocionante, talvez o momento mais intenso da noite.

O Cemetery Skyline não apenas apresentou um show tecnicamente impecável, marcado pela perfeita química entre os músicos, como também estabeleceu uma conexão profunda com o público brasileiro. As reações oscilaram entre a euforia e a introspecção, comprovando que o metal é uma linguagem que transcende fronteiras. 


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Overload Brasil



Cemetery Skyline – setlist:

Behind the Lie

Torn Away

The Darkest Night

Anomalie

The Coldest Heart

Never Look Back

When Silence Speaks

Nothing From This World

I Drove All Night (Roy Orbison cover)

In Darkness

Konevitsan kirkonkellot 

Violent Storm

Alone Together

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Cobertura de Show: The 69 Eyes – 31/08/2025 – Fabrique Club/SP

Gothic Rock finlandês, os Vampiros de Helsinki fazem bom show de redenção

O frio fim de inverno paulistano era o ambiente perfeito para um show “trevoso”! Foi nesse momento propício que, após pouco mais de um ano de se apresentarem no Summer Breeze Brasil 2024, o The 69 Eyes, uma das mais icônicas e cultuadas bandas de gothic rock, ou gothic metal, como preferirem, voltou a São Paulo para único show no Brasil. 

Expectativas existiam - e muitas. Na fila do evento, pessoas chegaram às sete horas da manhã para ficarem na “grade” (não havia grade, no fim das contas, o que é um problema, mas falaremos depois disso). Mais que isso, falamos com pessoas que vieram de Belém-PA, outros de Minas Gerais, só para assistirem o show. Não podemos deixar de citar isso, pois indica muito bem o quão apaixonados são os fãs da banda, e do gênero em geral. Além de tudo, o show do ano passado, no Summer Breeze Brasil, havia sido um tanto prejudicado por problemas técnicos persistentes, e um dos mais criticados do festival por esse motivo, então seus fiéis admiradores precisavam de uma redenção nesse específico quesito.

Com curto atraso - tolerável, dado o ótimo horário agendado -, quando as portas do Fabrique abriram, já havia uma boa fila na porta, embora nada que demonstrasse o quão cheio estaria. Acreditem, foi bem cheio (não lotado, mas cheio)! Poucos minutos após aberta a casa, o com capacidade ainda pela metade, a banda Drama subiu ao palco para a abertura do evento. Um grupo de faz uma interessante mistura de pós-punk com alguns elementos eletrônicos, como um New Order encontrando o Depeche Mode, foram muito aplaudidos em sua ótima apresentação. Não para menos, é exatamente o que se espera de um evento com a maior parte dos presentes pertencentes à sub-cultura gótica, e suas músicas “de Madame” (em referência à tradicional balada gótica paulistana, Madame, antigo Madame Satã) fazem parte da vida cotidiana desse povo. Começamos bem a noite, que ainda melhoraria!

Um dos pontos mais altos da noite, e uma grata surpresa, foi a banda When I Die. Mais pesados que a anterior, já se aproximando mais do “metal”, têm uma formação curiosa: eles não têm baterista! Isso não só não prejudica, como deixa seu som único. As baterias eletrônicas dão uma estética dançante ao som, e a densidade das vozes - tanto masculina quanto feminina - criam um ambiente soturno. Destaco o magnífico cover de Hells Bells do AC/DC, que embora seja um verdadeiro hard rock, em sua roupagem original, nessa releitura absurdamente criativa se encaixou no ambiente e até parecia que foi composta para ser assim - claro, sem desmerecer a original dos australianos, que é um clássico absoluto. Quando colocam duas bandas de abertura em um evento, ficamos muitas com pé atrás, pois chega a ser cansativo. Mas ali, não foi o caso. O When I Die merece um posto de destaque na cena gótica brasileira. Eu não criticaria uma pessoa que me falasse que foram os melhores do evento, embora não os principais.



Chegava o momento, então, dos donos da festa. Os Vampiros de Helsinki, em sua quarta passagem pelo país. Anteriormente, haviam fechado uma das noites do Summer Breeze Brasil 2024; em 2010, seu único show solo por aqui, e vinte anos atrás, uma apresentação diurna no Live N Louder.

No ano passado, apesar das expectativas - já que tinham cancelado apresentações no país anos antes -, o show foi cheio de problemas técnicos, e até mesmo o setlist teve que ser reduzido, com intervalos longos entre músicas que só pioraram pela presença de Supla tendo que improvisar coisas a falar no palco. Merecíamos mais, com todo respeito ao Papito, que fez o que podia. Essa era a oportunidade, e para casa cheia, ainda por cima!

Subiram ao palco com um tempo considerável de intervalo, mas dentro dos conformes, por se tratar da atração principal. Começaram bem, já com clássicos - no caso, Devils, e depois Feel Berlin, outra das antigas. É até engraçado ouvir a voz cantada do vocalista Jyrki 69, bem grave, mas quando fala, tem uma voz bem diferente, que nada lembra toda aquela profundidade. Isso não é uma crítica, e sim um elogio a alguém que tem ótima técnica e controle vocal. Em presença de palco, contudo, quem rouba a cena é o baterista Jussi 69 - animado, enérgico, toca jogando os braços para cima, e marretando a caixa de seu instrumento. Uma crítica, porém, é quanto ao som: não, não tivemos os problemas infindáveis da apresentação do Summer Breeze, mas pouco se ouvia do baixo, e da própria bateria, a caixa era muito mais alta que o resto das peças, e até encobria muitas partes do instrumental.

Em se tratando do setlist, foi o famoso “jogar seguro”. Não diferiram do que vinham fazendo recentemente, que na verdade é até interessante, com músicas que não tinham sido tocadas no Brasil, e que começaram a tocar ao vivo faz pouco tempo. Apesar disso, apenas uma do último, e excelente, disco mais recente, Death of Darkness - a ótima Drive -, o que é uma pena. Também apostaram muito em sua carreira de meados dos anos 2000, que não é exatamente a mais querida entre os fãs, com um punhado de clássicas, mas sem canções bem melhores mais antigas. Claro, algumas excelentes, como Gothic Girl, Brandon Lee e o bom cover do Boycott, Gotta Rock não podiam faltar, e não faltaram.


Já no bis, aquela “surpresa que todos sabiam”, e logo de cara, um cover dos Ramones, I Just Want to Have Something to Do, com Supla em dueto no vocal - Supla que, em 2024, quando estiveram aqui para o festival, foi o “mestre de cerimônia” do show dos finlandeses, então era quase óbvia uma participação do brasileiro. E não ficou ruim, pelo contrário, só não é algo inesperado. Fecharam a noite como todos esperavam, e não podia ser diferente: Lost Boys, seu maior hit, uma ode aos anos oitenta, e ao filme de vampiros de mesmo nome, estrelando Kiefer Sutherland (hoje em dia mais conhecido pelo personagem Jack Bauer, da série 24 Horas). 

No geral, uma noite de redenção, após o complicado show anterior, que foi bem sucedida. Não uma apresentação fora de série, nem impecável, mas com um setlist completo, sem qualquer “B.O.”, e uma performance tecnicamente excelente de cada um dos músicos. O famoso “play safe” funcionou muito bem, e os horários amistosos a todos deixou tudo melhor.




Edição/Revisão: Gabriel Arruda 





The 69 Eyes – setlist:

Devils

Feel Berlin

Perfect Skin

Betty Blue

Gotta Rock (Boycott cover)

Still Waters Runs Deep

Drive

Hevioso

The Chair

Cheyenna

Never Say Die

Gothic Girl

Wasting the Dawn

I Love the Darkness in You

Brandon Lee

I Just Want to Have Something to Do (Ramones cover)

Bis

Dance d’Amour

Lost Boys

terça-feira, 19 de agosto de 2025

THE 69 EYES: CINCO RAZÕES PARA VER O SHOW NO BRASIL

Marek Sabogal

Direto da Finlândia, os ícones do Gothic Rock desembarcam esse mês no Brasil

Por Fernando Queiroz

Quando se trata de música acessível a várias tribos, o The 69 Eyes é um exemplo a ser seguido. Você vai encontrar fãs góticos, headbangers e até pessoas do rock mais casual possível! Na sua quarta passagem pelo país, o show no final de agosto é uma oportunidade perfeita para assistir a uma das mais icônicas bandas finlandesas. Listamos aqui cinco razões para você ver o show!

1) Gothic Rock para todos! O The 69 Eyes pode se considerar uma banda que passeia por vários gêneros perfeitamente, indo do gothic rock ao metal. Você vai encontrar, à primeira ouvida, uma clara influência de The Sisters of Mercy, em especial pela voz de Jerky 69, mas também um som mais pesado e flertando com o metal finlandês dos anos noventa.

2) Clima de balada! Quem já foi ou conhece a famosa casa Madame (antigo Madame Satã) em São Paulo está acostumado com o conceito de “balada gótica”, e o show do The 69 Eyes te proporciona essa sensação. Ambiente escuro, gelo seco, o clima “dark” é o diferencial do que você veria em um “típico show de metal”.

3) Formação mais sólida e longeva possível! Quem vê o show do The 69 Eyes percebe o entrosamento perfeito entre eles. Não para menos, desde seu primeiro álbum, a banda nunca trocou um integrante, então o que se tem em shows é exatamente a imagem que você tem da banda em qualquer ocasião! Aliás, uma banda passar mais de trinta anos sem trocar membros só pode querer dizer o quão bons são no que se propõe, não?

4) Setlist variado! São treze álbuns de estúdio, desde 1992, então o que não falta é música para apresentarem. Diga-se de passagem, eles têm uma discografia sólida, embora em tempos mais recentes tenham ido para um lado mais “eletrônico” — que também vale ser ouvido!

5) Destaques quando vieram! Duas das vezes que a banda esteve no Brasil foi em festivais, a última no Summer Breeze Brasil de 2024, e a primeira no Live n Louder, em 2005. Em ambos os casos, a mídia especializada sempre os colocou como destaques ou, no mínimo, gratas surpresas.

Todas as informações desse show imperdível em São Paulo, único no país, para diversos públicos podem ser vistos aqui!

SERVIÇO

Data: 31 de agosto de 2025 (domingo)
Abertura das Portas: 17h
Local: Fabrique Club
Endereço: R. Barra Funda, 1071 – Barra Funda, São Paulo – SP

Ingressos:
Meia Entrada / Solidária: R$ 200,00
Inteira: R$ 400,00

sábado, 7 de junho de 2025

Cobertura de Show: Tarja Turunen – 24/05/2025 – Tokio Marine Hall/SP

Sábado, 24 de maio, foi marcado por uma noite cheia de surpresas na vinda de Tarja Turunen e Marko Hietala a São Paulo em sua turnê no Brasil. E quando falamos de surpresas, não é eufemismo, começando pela banda de abertura Madzilla, vinda de Las Vegas que nos trouxe um show pra cima, melódico e com a apresentação de sua nova guitarrista e de um arriscado português demonstrando seu respeito ao público brasileiro.




Infelizmente, ao final da abertura, tivemos a notícia de que Marko Hietala não poderia fazer seu show acústico devido a problemas médicos, mas quem decidiu desistir do show e receber o reembolso não esperava que Marko iria se recuperar a ponto de conseguir subir ao palco ao lado de Tarja na parte final e encerramento de seu show.

Tarja subiu ao palco junto a sua orquestra impecável fazendo o público vibrar com seu vocal potente e sua simpatia, sem falar de sua beleza impactante e sua desenvoltura em cima do palco relembrando clássicos de sua carreira solo. 

Para quem vêm acompanhando seus shows ao Brasil, já sabe que Tarja fez uma homenagem a Rita Lee cantando seu grande sucesso Ovelha negra, mas o que não estávamos esperando era a participação de seu amigo, Kiko loureiro, o que deixou fez o chão do Tokio Marine Hall tremer. Importante lembrar que Kiko Loureiro, já considerado um dos melhores guitarristas do mundo estará no mesmo palco no dia 7 de junho.

Após esse dueto Tarja volta ao seu show e o que todos esperavam aconteceu, Marco entra ao palco para fazer sua participação e nos surpreende cantando boa parte do show, incluindo sucessos do Nightwish da época em que estavam juntos na primeira formação.

Tarja encerra seu show com um dos seus maiores sucessos da carreira solo I Walk Alone e com um discurso emocionante se despedindo da sua turnê e de São Paulo. Não precisamos dizer o quanto tudo foi incrível, a orquestra, músicos, os duetos, mas nada próximo a luz e força que Tarja Turunen nos trouxe nesta noite.


Texto: Cristina De Mouras

Fotos: Rogério Talarico

Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Top Link Music


Tarja Turunen – setlist: 

Eye of the Storm

In for a Kill

Undertaker

Sing for Me

Deliverance

Demons in You

Victim of Ritual

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Acústico

Ovelha Negra (Rita Lee cover) (com Kiko Loureiro)

The Crying Moon / Feel for You / Eagle Eye (com Marko Hietala)

Higher Than Hope (com Marko Hietala)

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Left on Mars (com Marko Hietala)

Slaying the Dreamer (com Marko Hietala)

Silent Masquerade (com Marko Hietala)

Wishmaster (com Marko Hietala)

I Walk Alone

Bis

Dead Promises

Wish I Had an Angel (com Marko Hietala)

Until My Last Breath