Após cerca de 3 anos do último trabalho de estúdio, os suecos do Enforcer apresentam "Zenith", seu quinto álbum em 15 anos de carreira. A banda tem seu estilo moldado e inspirado no Heavy Metal e Speed Metal 80's, inclusive incorporando essa inspiração em suas performances e figurinos de palco. Muitas vezes a música do Enforcer pode soar clichê, mas os caras fazem tão bem feito que, quem curte o estilo vai abraçar a ideia toda.
Em "Zenith" a banda manteve a estética 80's, mas tirou um pouco o pé do acelerador, tendo predominância de músicas com andamento mais cadenciado, como "Die for the Devil", carregada de elementos do Heavy e Hard 80's, naquela levada hit de arena ("Shout at the Devil" do Mötley, por exemplo), refrãozinho pra lá de grudento; e "Zenith of the Black Sun", menos Hard Rock que a anterior, mas em que esse andamento mais meio tempo funciona bem também, destacando os corais épicos.
Também nessa levada mais meio tempo, porém naquele estilo "hino", como em "Forever We Worship the Dark", que pode soar um pouco "brega" demais para alguns ouvidos.
O álbum vai tocando e é fácil notar mais presença de melodias grudentas e elementos do Hard Rock, adições bem marcantes, com a banda trazendo até mais teclados, arranjos orquestrais e coros, fazendo com que sua sonoridade se torne mais acessível. Temos por exemplo a balada "Regrets", com arranjos de piano, refrão e coros bem melodiosos. Acredito que é a primeira balada em um disco do Enforcer. Lembrou-me alguma coisa de Stryper, além de honrarem a escola sueca de criar melodias grudentas e marcantes.
O Speed Metal, muito mais presente nos álbuns anteriores, não foi abandonado, e faixas como "Searching for You" e "Thunder and Hell" vão satisfazer os fãs da velocidade.
Um álbum em que o Enforcer buscou trazer novos elementos, com maior ênfase nas composições em andamento meio tempo, além das melodias mais "fáceis" e mais marcantes, somadas ao estilo sueco de criar canções cativantes. Fugiu daquela ciranda do auto-plágio, e creio que a banda foi bem sucedida nessa sua evolução sonora, embora para alguns possa soar mais acessível, e as melodias e nuances Hard Rock terem se sobressaído ao Speed Metal.
Enfim, diversão garantida com muitos riffs, refrão e melodias marcantes, e a inspiração no Heavy Metal e Hard 80's ainda batendo muito forte no peito.
Texto: Carlos Garcia
Ficha Técnica:
Banda: Enforcer
Álbum: "Zenith" 2019
País: Suécia
Estilo: Heavy Metal, Speed Metal, Hard Rock, Heavy Metal 80's
O Metal nacional e sua “sina” de ter grandes nomes, mas pouca
visibilidade. Porém alguns artistas descartam essa pressão de “reconhecimento”
a curto prazo e curtem o seu trabalho fazendo essa tarefa árdua chegar ao
natural em seus pilares. Dizer que o Forkill não ama tocar Thrash Metal seria
um sacrilégio, pois os caras nasceram para isso e curtem cada momento, e quem
sai ganhando? Nós os apreciadores do estilo e do Heavy Metal em geral.
Conversamos com o líder e guitarrista Ronnie Giehl que nos fala do novo
momento da banda, as dificuldades em suas lacunas e da superação com o novo
álbum lançado, que vem abrindo portas e mostrando que os cariocas já são uma
realidade.
Assim como qualquer banda do nosso cenário, o início sempre é
complicado, seja pelas adversidades de estabilizar uma formação, conflitos da
direção sonora e etc...
“Apesar da demora em lançar o
novo álbum (6 anos), o Forkill sempre esteve em atividade. Tivemos muitos
problemas com trocas de formação, (hora batera, hora vocal/guitarra), e
atrapalhou muito a banda que tem por finalidade fazer um trabalho sério. Infelizmente
muitos músicos que passaram por aqui, não tiveram o comprometimento e seriedade
necessária para fazer um trabalho correto e quando começam a atrapalhar o
andamento é hora de trocar.”
Mas nada melhor que superar as barreiras com um novo lançamento, e é
isso que o Forkill fez e nos brindou com um dos melhores álbuns de Thrash de
2019.
“The Sound of the Devil's Bell significa
muito, marca um trabalho de luta, dedicação, insistência e que temos muito
orgulho de conseguir lançar e superar os problemas. Ao mesmo tempo a banda tem
como principal característica, nunca se acomodar com situações adversas e
sempre enfrentar e vencer desafios e todas dificuldades que aparecem. Isso nos
fez crescer e nos deixa mais fortes sem dúvida. O Forkill sempre foi uma banda
de palco pois é lá que as coisas acontecem e nele nos sentimos mais à vontade
para mostrar nosso trabalho. Realmente, tocar numa banda
de Metal é muito difícil pelas circunstâncias, mas amamos isso e assim seguimos
em frente.”
Foram seis anos de espera até “The Sound of the Devil's Bell” nascer, e
a evolução entre o Debut (“Breathing Hate” – 13) e o novo lançamento são
latentes, como explica Ronnie:
“Acho que o principal foi o
amadurecimento da banda e esse álbum marca bem isso. Sempre procuramos melhorar
em todos os pontos e tivemos em nosso produtor – Daniel Escobar – uma forte
parceria em nos auxiliar em termos de sonoridade ao longo da gravação. Ficamos
mais experientes também, aprendemos bem como trabalhar nossas principais
características, para assim moldar e encontrar o nosso próprio estilo.”
Mas para essa evolução foi necessária uma mudança brusca em sua
formação, como explica o guitarrista:
“Não é fácil
depositar confiança num músico e da noite para o dia ele resolve abandonar
tudo, te deixar na mão em termos de agenda e compromissos importantes. Mas
mudanças quando necessário, são inevitáveis para a engrenagem voltar a rodar a
todo vapor. Tem o ditado que diz: “à males que vem para o bem” e
nesse caso aqui é muita verdade. Não adianta dar soco na ponta de faca e
insistir com alguém que te puxa para baixo, não demonstra força de vontade e
dedicação em busca de objetivos específicos em comum. Ninguém é insubstituível
e temos uma metodologia de trabalho a cumprir. Se o músico não corresponde mais
a nosso método, é hora dele partir e assim tem acontecido infelizmente. Claro
que isso torna o nosso trabalho mais difícil, atrasa todo planejamento, e
perdemos oportunidades importantes, mas mesmo assim acreditamos em nosso
potencial e lutaremos por ele. Temos amor ao Metal e fazemos isso pois gostamos
de tocar e principalmente nos divertir tocando Thrash Metal. As dificuldades
são muitas a toda hora e é aí que sabemos separar quem serve de verdade, de
quem está brincando.”
“The Sound of the Devil's Bell” apresenta uma arte formidável pelo
grande artista Rafael Tavares, rica em detalhes e ao mesmo tempo agressiva.
Ronnie comenta como foi a escolha do artista e da arte em si.
“Já acompanho o Rafael Tavares a
muitos anos e sempre achei que ele faz um trabalho fantástico! Desde o começo
da gravação, queria a arte da capa assinada por ele e assim foi. Passamos as
idéias, e ele captou muito bem o que tínhamos em mente. A capa retrata muitas
situações do que passamos nas letras num todo, representa muito bem a temática
das músicas e Rafael fez uma arte incrível, ajudando a valorizar ainda mais o
disco.”
Com um novo material lançado nada melhor que divulga-lo através de
shows e claro, tendo aquela bela ajuda das redes sociais, o que hoje é
inevitável para os artistas que querem mostrar sua música para o mundo.
“Estamos promovendo o álbum
através de shows e das redes sociais que ajudam muito! Tem rolado um bom
retorno, resenhas superpositivas e também grandes oportunidades.
Aproveitamos também e lançamos o
clipe do primeiro single para a música “Emperor of Pain”, o retorno foi sensacional
e abriu muitas portas. Penso que o vídeo clipe
hoje em dia é muito importante para a banda e vamos investir mais nesse formato
em breve. Sem dúvida ele nos possibilitou uma maior visibilidade ao público e
sentimos que a aceitação foi sensacional!Em
breve também, estaremos lançando o nosso primeiro Lyric Vídeo para a música “Warlord”
e vai ser o segundo single a promover o álbum. Mas é nos shows que recebemos o
retorno para valer. Ver a galera cantando as músicas junto, batendo cabeça e se
divertindo no mosh pit nos dá força para seguir em frente.”
Em tempos em que a era digital domina, não é sempre que vemos uma banda
underground lançando seu material em formato físico, ainda mais em edição
luxuosa, porém o Forkill se preocupa com esse quesito, e pensa ser tão
importante quanto o lançamento nas plataformas digitais.
“Sempre fui
colecionador, ainda acho o CD/vinil muito mais legal e sempre vai fazer parte
da cultura dos Headbangers! Ainda uma parte do público do Metal mantém essa
tradição viva e esse CD é em especial para esse pessoal, que coleciona.
Montamos o formato do CD (Slipcase, pôster, encarte com as letras, fotos e
informações com 20 páginas) em parceria de idéias com nossa gravadora (DarkSun
Records) e que apostou em fazer assim, dando esse lindo material aos fãs que
adquirem o formato físico. É claro que sabemos da importância das plataformas
digitais que ajudam a atingir um grande público, com muita rapidez e temos nos
adaptado bem a essa era. Muitos conheceram a banda ali, escutaram, curtiram o álbum
e acabaram adquirindo o CD.”
A máquina não para e o Forkill já está trabalhando em um novo material,
e Ronnie nos adianta o que podemos esperar para o futuro.
“Estamos com novas idéias, muitos
riffs e até algumas músicas prontas. Temos planos de aproveitar o bom momento e
lançar um EP em breve!
Aproveitando gostaria de
agradecer pela a oportunidade e pelo espaço. Espero encontrar com muitos de
vocês nos shows!Apoiem as suas bandas
preferidas do underground, pois isso é muito importante para elas...
Precisamos de mais uma versão do Rhapsody? Essa pergunta me veio a mente quando a dupla Turilli e Lione anunciaram que estavam trabalhando em um novo álbum, fruto das boas energias reunidas com a Farewell Tour, celebrando os 20 anos do Rhapsody original.
Essas tours nesses moldes, reunion/anniversary, são meio que caça-níqueis, mas tem o outro lado, aquele de que muitos fãs terão chande de ver alguns músicos no palco juntos novamente (Pumpkins United, por exemplo), ouvir alguns clássicos, então acho válidas, bom para o fã e para o artista, e quem não curte não vai e pronto.
Álbuns reunindo formações e ou parte delas também seguem por essa linha, então, depois da bem sucedida Farewell Tour do Rhapsody com Lione e Turilli, era quase certo um trabalho reunindo a dupla.
Respondendo a pergunta que me fiz, eu acredito que sim, uma versão do Rhapsody com Lione e Turilli seria válida, e gostaria de ouvir algo novo vindo deles. Para mim a voz do Rhapsody não tem outra, é Lione e ponto final. O Rhapsody Of Fire lançou um trabalho novo recentemente, um álbum legal, mas nada que realmente empolgasse, longe ainda dos primeiros discos quando existia uma versão só.
Chegou a hora e a dupla, acompanhada de outros músicos que passaram por formações do Rhapsody, apresentam ao mundo "Zero Gravity (Rebirth and Evolution)", e posso afirmar, não é um álbum simplesmente para ir na carona dos bons resultados da tour, e aproveitar a curiosidade e expectativa, é um excelente álbum de Epic Symphonic Metal, e traz um ar de renovação para o estilo.
Não é só o logo que está diferente, que abandonou o estilo medieval do original - esse ficou com o Rhapsody of Fire, as influências neo-clássicas saíram um pouco de cena para dar lugar à um tom mais futurista.
A dramaticidade, arranjos sinfônicos e incursões eruditas estão presentes, com esses novos elementos, que também incluem trechos utilizando instrumentos e sonoridades étnicas (indiana e persa, por exemplo), além de melodias que remetem ao Queen, como na ótima "I Am", que mixa o Symphonic Metal com trechos operísticos, com muita dramaticidade, tempos moderados com arranjos de piano e saxofone ao fundo.
Da mesma forma é em "Decoding the Multiverse", que também traz Lione em vocais bem dramáticos e trechos com DNA do Queen, porém com arranjos mais velozes nas partes Symphonic Metal, e claro. melodias marcantes não faltam.
O "Cinematic" ou "Hollywood Metal", como eles gostavam de definir o seu som, pode ser usado aqui, e em faixas como a abertura "Phoenix Rising", onde temos aqueles elementos que o fã encontrava nos primeiros álbuns, ou seja, arranjos grandiosos e melodias marcantes. Simphonic Metal explosivo, dramático e com essa nova roupagem futurística e incursões de instrumentos étnicos.
Lione está no seu habitat, e as suas linhas vocais são uma marca fortíssima na identidade do Rhapsody, e fez um trabalho excelente, com grandes interpretações, usando de muita dramaticidade e teatralidade (foram gastos 3 meses somente nas gravações das vozes, então, eles realmente trabalharam para trazer o melhor álbum possível).
Em "Zero Gravity", a faixa título, por exemplo, ele alterna vocais dramáticos e melodiosos com maestria. Turilli também está ótimo, criando grande melodias e solos, e a química da dupla é incontestável; E nesta mesma faixa, além dos arranjos com melodias orientais, há belos arranjos de teclados e trabalho majestoso de guitarras.
Os belos arranjos de piano são o destaque na balada "Amata Immortale", que traz outra característica do clássico Rhapsody, que são as canções em italiano. Com o acompanhamento de vocais femininos, Lione mostra seus dotes de cantor clássico. Também em italiano temos a grandiosa faixa final, "Arcanum (Da Vinci's Enigma)", com vocais clássicos e corais fantásticos.
E claro, além das faixas que destaquei, seguindo essa mesma linha, com muita coesão dos elementos, e "D.N.A.", que traz Elize Ryd como convidada, e já foi apresentada como single, e provável foi já usada por ser um Symphonic Metal mais tradicional, para apresentar gradualmente essa nova fase, "Fast Radio Burst", "Multidimensional" e "Origins" são também muito boas.
"Zero Gravity " reflete o que seu sub-título diz "Rebirth & Evolution", renascimento e evolução. Um belo de um trabalho, sonoridade renovada em uma obra de Metal sinfônico, futurístico, progressivo e operístico, carregado de dramaticidade e melodias memoráveis. Realmente, a química da dupla Turilli e Lione é um diferencial. Desse Rhapsody a cena precisava.
Depois do excelente "Opressor" (2014), tido por muitos até então como o melhor trabalho do grupo, eles agora, além de terem se desafiado e apresentado um álbum tão bom ou melhor, justamente também desafiam o ouvinte. Difícil não cravar que eles novamente se superaram, evoluíram. Cada álbum da banda tem suas características e importância, e certamente cada ouvinte também tem suas preferências, e o que temos que nos ater é a gana do Uganga em seguir sempre em frente.
"Servus" (2019) traz outra conquista, além da evolução sonora e lírica, pois a banda conseguiu o financiamento do álbum pela Wacken Foundation, além da PMIC de Uberlândia, permitindo mais recursos para a conclusão do trabalho. Gravado novamente no Rock Lab em Goiânia, a exemplo de seu antecessor, "Servus" apresenta uma sonoridade excelente.
Iniciando pela arte da capa, feita por Wendell Araújo, é muito bonita, com vários simbolismos, tendo como destaque o uganga (feiticeiro), em um cenário pós-apocalíptico, usando pintura de guerra indígena e usando colares do budismo e umbanda.
Quanto ao conteúdo lírico, algo que também é bem cuidado pela banda, e em "Servus", além das questões político/sociais e temas ligados a cultura brasileira que sempre estão presentes, há também muitas mensagens positivas, trazendo uma energia muito forte. Inclusive abro parenteses para o que o vocalista Manu Jokers escreveu no encarte: "Falei muito de amor nesse trabalho né? Pois é, esse é o caminho que quero seguir. Tretar qualquer idiota sabe, eu também sei."
A parte musical em "Servus" apresenta várias características marcantes da identidade do Uganga, como o peso do Thrash e Hardcore, groove, elementos da música e cultura brasileira, além das salpicadas de Dub e Rap, e, a exemplo dos antecessores, novas nuances se somam, com mais melodia, mais momentos limpos, e além disso, a evolução de cada um como instrumentistas e a experiência e segurança em experimentar, fazendo tudo soar espontâneo e natural.
A forte identidade do Uganga já é sentida na faixa título "Servus", que vem logo após a intro "Anno Domini", e traz letras fortes, instigando as massas de manobra a se soltarem dos grilhões, para dar um basta aos "assassinos de terno e gravata". O som traz o Thrash e Hardcore com os vocais meio falados, marcas registradas, e embora soe mais polida e técnica, ainda soa muito pesada.
Criativo e diversificado, a qualidade alta quase não permite apontar destaques, mas ressalto algumas aqui, além da faixa-título, como "Abismo", com sua levada cadenciada, alternando peso e groove, ela tem incursões mais melodiosas e refrão muito marcante, mudanças de andamento e de repente surpresas, como um saxofone.
O batuque e groove em "Hienas" embala o discurso forte contra a falsidade, tendo também trechos em espanhol; "7 Dedos (Seu Fim)", que alterna trechos velozes com tempos mais pausados e com muito peso e elementos regionais; e "Fim de Festa", um mix deHeavy Metal e Thrash com riffs marcantes e andamento cativante.
E para ilustrar a diversificação do álbum, destaco também a profunda e reflexiva "E.L.A.", numa levada meio Rap, que traz em seu conteúdo uma bonita homenagem de Manu Jokers à sua mãe, e fechando o disco "Depois de Hoje", arrastada e pesada, com algo de Doom e riffs a lá Sabbath, alternando vocais sussurrados e berrados quase que discursados.
Evolução, segurança e originalidade no que fazem, a banda está em um patamar elevado musicalmente, e precisa ser festejada e citada como uma das grandes afirmações do Metal nacional.
Texto: Carlos Garcia
Fotos: Divulgação
Ficha Técnica:
Banda: Uganga
Álbum: "Servus"
País: Brasil
Estilo: Thrash Metal, Hardcore, Heavy Metal
Arte de Capa: Wendell Araújo
Produção: Gustavo Vazquez e Manu Jokers
Assessoria: Som do Darma
Föxx Salema é natural de Bragança
Paulista (SP), autodidata, estando no circuíto independente há mais de 20 anos,
sendo também uma das pioneiras como pessoa transgênera headbanger/metalhead no
Brasil. Föxx lançou recentemente seu debut, "Rebel Hearts", de forma independente,
e vem alcançando resultados muito bons, com um Heavy Metal inspirado nos
grandes nomes dos anos 80, principalmente o lado mais tradicional e Nwobhm,
além de pitadas de Power Metal.
Conversamos com Föxx para saber
um pouco mais de sua caminhada nesta árdua estrada do Heavy Metal brasileiro,
sobre o debut e também questões delicadas como discriminação e violência
crescente em nosso mundo atual, além de outras dificuldades que, infelizmente,
pessoas vistas como "diferentes", por exemplo portadores de necessidades
especiais, como um cadeirante que muitas vezes nem um transporte ou acesso à
local público consegue ter,e pessoas da
comunidade LGBT, que sofrem com violência ou homofobia.
Mas, por outro lado, muitas dessas pessoas lutam para realizar seus sonhos, buscar igualdade, e consequentemente ajudar muitas outras. Na irmandade Heavy Metal, felizmente, sempre houve esse sentimento às vezes tido como "transgressor", mas que sempre buscou a liberdade e igualdade, ou você conhece algum fã de Metal que deixou de ouvir Judas Priest porque Halford assumiu sua sexualidade? Confira então um pouco mais sobre a Föxx Salema e descubra um Heavy Metal com pegada e melodia!
RtM: Para início de conversa, gostaria
que você nos contasse um pouco de como você iniciou na música e no Heavy Metal.
Föxx Salema: Bom, eu canto desde criança e
sempre gostei também do tema Terror, nessa época eu passava e via sem saber ao
certo o que era, posters do Iron Maiden na parede de uma pequena loja de discos
e achava muito massa aqueles desenhos. Quando entrei na adolescência um primo
meu, que já colecionava fanzines do gênero e tinha vários discos, me apresentou
devidamente ao Metal. Ele inclusive gravou em fita cassete o álbum "Seven
Churches" do Possessed, ao qual eu pedi cópia do encarte para poder
acompanhar nas letras o que era cantado. Dali para eu começar a cantar Metal e
fazer shows foi “um pulo”... rsrsrs
RtM: E quais seriam as suas maiores
influências e inspirações musicais?
FS: Eu posso citar 3 vocalistas que
influenciaram bastante a minha forma de cantar: Geoff Tate, André Matos e Andi
Deris. Já em termos de inspirações musicais, além claro, das bandas e projetos
destes que citei, eu ouço vários subgêneros de Metal, do mais clássico,
tradicional ao tido como mais extremo, pesado. E tudo isso, mesmo que em
diferentes graus, influencia em como componho.
RtM: Com o tempo que você possui de
estrada, como artista independente no underground, quais as principais
dificuldades ainda enfrentadas para poder montar uma banda, gravar, arranjar
espaço pra tocar?
FS: Nossa, montar banda sendo trans é
um caos, as pessoas no geral possuem um freio mental que muitas nem se ligam
que tem, por exemplo: vergonha de dividirem o palco comigo, não sendo da
comunidade LGBT+ e achando que serão julgadas, taxadas como tal. Então eu
fiquei bastante tempo “caçando” músicos. Felizmente achei pessoas competentes e
que toda esta questão pessoal minha, não as impediu de estarem musicalmente ao
meu lado. Quanto a shows, eu ainda estou formando uma banda com integrantes
fixos, pois me mudei ano passado para Grande BH para morar com meu marido,
Cleber. Já fiz algumas pequenas participações ao vivo com bandas locais e
também fui em alguns festivais em casas de show bem legais daqui, então estou
bastante otimista, vamos ver o que o futuro me reserva...ha ha ha
" A honestidade e os valores familiares que me foram passados ajudaram a moldar o meu caráter e este, o meu ativismo."
RtM: Gostaria que você falasse um
pouco sobre o processo de composição e gravação de seu debut, “Rebel Hearts”,
pois sei que você não tinha uma banda montada, praticamente criando todas as
partes. Imagino que seja mais complicado não ter, por exemplo, um guitarrista
que já acompanhe o trabalho há mais tempo, tenha conhecimento e participe da
composição.
FS: Pois é, a questão da distância,
da ausência de ensaios, entre outros fatores, foi complicado sim. Mas apesar
disso o Paulo Garciia, que foi o produtor musical, conseguiu comigo cantando as
melodias do instrumental (inclusive de pedal duplo) me ajudar primeiramente com
os arranjos e guias musicais e posteriormente quem contratei para gravar
lapidou tudo isso. Sempre, claro, com o meu aval final de aprovação, a Karine Campanille por exemplo, cuidou de 3 instrumentos: guitarra, baixo e teclado. Ela ia me
mostrando o que tinha pensado para cada um, em cada música; os solos de
guitarra mesmo, muitas vezes ela fez mais de um e eu, ou aprovava um por
inteiro ou pedia uma mescla deles. Com o baterista também não foi diferente.
RtM: Sobre a produção final, às vezes
parece que algumas de suas ideias ficaram prejudicadas, e as músicas, várias
excelentes ideias, poderiam ter rendido muito mais. Gostaria que você falasse a
respeito de como avalia a produção do álbum, e o que gostaria de fazer de
diferente?
FS: Olha, eu sou muito minuciosa,
perfeccionista, teriam algumas mudanças que eu faria em termos de mixagem e
timbres, porém isso denotaria mais dinheiro e tempo, no mínimo meses para realização,
então optei por não atrasar o lançamento do álbum.
Todavia se levarmos em conta o
lance de eu não ter uma formação de banda, não tocar nenhum instrumento, ter
recursos limitados, o produtor musical não ser do Metal e que tudo foi gravado,
mixado e masterizado num home estúdio de uma cidade do interior, eu acho que
conseguimos um bom resultado, ainda que não seja o “ideal”. De qualquer forma,
a receptividade do público tem sido bastante positiva, muitas das pessoas que
ouvem o álbum via streaming, posteriormente fazem questão de adquirem
fisicamente o CD.
RtM: O logo da banda ficou muito
legal, poderia nos contar um pouco sobre os significados dele e também porque
você adotou o nome artístico de Föxx?
FS: O meu logo foi criado em 2013 e o
designer que trabalhou nele seguiu a risca as minhas instruções, tanto de cores
quanto a implementação do kanji de kitsune, a letra japonesa para raposa. Este
detalhe remete ao meu nome artístico, eu possuo uma ligação digamos
“espiritual” com a cultura nipônica, inclusive com uma tatuagem de raposa em
forma de tribal no meu braço esquerdo. Quanto a grafia em si, o trema no “o”
foi um “charme” inspirado em algumas bandas que usam isso e o duplo “x” é uma
alusão a minha transexualidade e ao cromossomo feminino.
RtM: Falando um pouco das músicas,
vamos iniciar com o single “Mankind”, que traz uma letra bem atual, além de
capa criada para o single, excelente também, inclusive foi o que me chamou a
atenção para conhecer mais do seu trabalho. Gostaria que comentasse mais a
respeito dessa música e sua letra.
FS: Eu escrevi a letra inspirada em
eventos que embora não sejam assim tão novos, estão bastante em voga na
atualidade brasileira: banalização do sexo e da violência, manipulação da
verdade através de fake news, exploração da fé através do ódio e do medo,
corrupção política a nível judiciário; enfim, toda esta merda nociva que a meu
ver, corrompeu e inverteu valores éticos e sociais. A capa e todos os detalhes
que idealizei para o single refletem bastante isso e ela era para ser mais
explícita do que está, mas após ponderar um pouco eu optei por deixa-la mais
“neutra”. Inclusive fui eu quem posou para o ilustrador, sou eu ali empunhando
a bandeira LGBT+.
RtM: Seguindo essa linha, pois muito o
conteúdo das letras em “Rebel Hearts” toca em assuntos bem importantes, que é
uma certa involução na humanidade, com muitas manifestações de ódio e
intolerância pelo mundo. Como você vê o papel dos músicos nessas questões?
Ainda vejo algumas pessoas criticarem e dizem que não é papel de artistas se
posicionarem em questões políticas e sociais.
FS: Quando eu ouço esse tipo de
“””argumentação””” na mesma hora me vêm a mente a imagem icônica do single
Sanctuary do Iron Maiden, aquele com o Eddie e a Margaret Thatcher, fora várias
outras bandas com letras e posicionamento político e social. Eu entendo que
algumas pessoas optem por se acovardarem e se absterem sobre estas questões,
mas definitivamente este NÃO é o meu caso. Meu falecido avô materno foi
vereador em minha cidade natal, numa época em que não se ganhava salário para
isso, se fazia por amor à pátria e vocação, ele ainda foi chefe de gabinete,
assessor e secretário de um dos prefeitos.
RtM: Valores que são ensinados em casa,
e que refletem no indivíduo, precisamos mesmo de mais educação e cultura, não
mais armas e violência em formas diversas.
FS: Sim, a honestidade e os
valores familiares que me foram passados ajudaram a moldar o meu caráter e
este, o meu ativismo. Fora que o simples fato de eu ter a muito tempo assumido
publicamente a minha transexualidade, é um ato político, a minha própria
existência é considerada por muitas pessoas uma afronta à sociedade religiosa e
tradicional, principalmente para a direita conservadora e retrógrada. O que a
meu ver é insanidade, pois eu sou assim desde criança (nasci em 78), não foi
uma escolha, influência externa ou frescura pós-modernista como muita gente
erroneamente acredita.
RtM: Ainda sobre essas questões,
você, como trans, sentiu ou sente algum tipo de boicote ou discriminação de
pessoas dentro ou fora do cenário Metal?
FS: Boicote, desdém, exclusão,
humilhação, injustiça, perseguição, transfobia e violência simbólica são apenas
exemplos do que já passei e infelizmente passo, muitas vezes devido a falsa
segurança que o anonimato e a distância da internet permite, as pessoas “se
esquecem” que o mundo virtual também é regido por leis. Todavia é como eu canto
em uma das músicas do álbum: eu ainda estou aqui, com cicatrizes emocionais,
mas de pé e preparada para lutar.
" A 'Mankind' foi inspirada em eventos que, embora não sejam assim tão novos, estão bastante em voga na atualidade brasileira."
RtM: Mesmo o cenário Metal tendo
sido um tanto machista em determinadas épocas, acredito que a ideologia falou
mais alto, e o público na grande maioria abraçou essas causas, pois não lembro
de artistas como Rob Halford, que assumiu sua sexualidade, ou a Marcie Free
terem sofrido discriminação no meio Metal.
FS: Agora, sobre esta questão de
artistas que assumiram publicamente sua orientação sexual ou identidade de
gênero e a subsequente aceitação do público, acho importante ressaltar que o
fizeram já com certa fama e renome, eu fiz o caminho inverso e paguei um preço
alto por isso. Mesmo assim não me arrependo, pois eu fui em 1º lugar verdadeira
comigo mesma e também com as pessoas que conviviam comigo, algumas entenderam,
outras não. Aquelas que não entenderam ou mesmo entendendo se recusaram a me
respeitar, eu me afastei, afinal, não preciso do stress causado pela toxidade
delas.
RtM: Continuando a respeito das
músicas do álbum, nos fale um pouco mais da faixa título “Rebel Hearts”, que
possui um refrão bem marcante e uma pegada que me lembrou o Viper da época do
“Coma of Souls”.
FS: A letra e a melodia de voz foram
compostas em 2016, esta é uma das músicas que apesar de eu ter pensado na
comunidade LGBT+ ao cria-la, ela serve também para pessoas que não fazem
diretamente parte dela. Foi a minha escolha para título do álbum, não apenas
pela levada mais direta dela, mas também por já ter em mente a capa (o lance do
coração flutuando entre as minhas mãos e as 3 gotas de sangue pingando dele).
Somado a isso tem ainda a introdução do álbum que antecede ela e onde se ouve o
meu próprio batimento cardíaco, meu marido conseguiu emprestado um estetoscópio
e o adaptou para conseguir captar o som em estúdio.
"Felizmente achei pessoas competentes e que toda esta questão pessoal minha, não as impediu de estarem musicalmente ao meu lado."
RtM: Outra que me chamou bastante
atenção, e pelo que notei também é uma das que mais tem agradado o público, é
“Emotional Rain”, que também possui uma letra bem forte e com bastante emoção.
Nos conte um pouco mais sobre ela.
FS: Esta é a única balada do álbum e
a letra dela é motivacional. Quando a escrevi eu estava pensando no que eu
sendo uma trans, gostaria de ter ouvido nos momentos difíceis. Em meados de
2.000 eu tentei o suicídio e só fui salva por conta de paramédicos terem sido
chamados na madrugada e estes me entubarem. Então esta é uma composição muito
íntima, muito pessoal. Até o momento, é a música do álbum que mais tem feito
sucesso, o que pra mim é ótimo, pois eu gostaria que a mensagem dela chegasse
ao maior número de pessoas possível.
RtM: E os planos agora após o
lançamento? Como estão as novidades quanto a montar sua banda para shows e
divulgar o trabalho ao vivo?
FS: Sem querer eu acabei
anteriormente meio que respondendo sobre isso! ha ha ha
Mas complementando: eu mal vejo a
hora de voltar a ensaiar e estar de volta aos palcos, a energia do público é um
grande estímulo para mim.
RtM: Föxx, obrigado pela atenção,
parabéns pela sonhada estreia, há um ótimo conteúdo em “Rebel Hearts”, trazendo
expectativa para o que virá a seguir. Fica o espaço para sua mensagem aos
leitores.
FS: Obrigada, eu é que agradeço o
apoio. E aos leitores desta entrevista: ouçam o álbum no Spotify ou em algum
serviço de streaming, se gostarem indiquem o mesmo para outras pessoas e se
gostarem pra caralho, adquiram o CD físico! =^.^= \m/
Após mais de 50 anos de carreira,
e sofrendo uma baixa como a de um dos fundadores, o guitarrista e vocalista
Rick Parfitt, falecido no final de 2016, a lenda inglesa Status Quo decidiu
seguir em frente realizando vários shows e registrando apresentações especiais
em áudio e vídeo, dando a oportunidade de muitos fãs ainda poderem ver a banda.
Um dos mais recentes lançamentos são “Down Down & Dignified” e “Down Down
& Dirty”. Um gravado acústico, no Albert Hall em Londres, enquanto o set do
festival Wacken na Alemanha, os encontra com todo gás e no show tradicional
plugado, tendo à frente de cerca de 70.000 pessoas.
Vamos falar aqui de “Down Down
& Dignified”, que saiu em DVD/Blu-Ray e também em CD duplo ou simples, capturando
o show do Albert Hall em julho de 2017. Nos últimos anos, o Status Quo vinha já
aperfeiçoando seu set acústico, e esta é uma apresentação muito bem arranjada e
ensaiada. Iniciando com “And It's Better Now”, percebe-se de imediato a captura
perfeita do som, em um álbum muito bem mixado.
O show traz um algo de nostalgia às vezes, mas é cheio de energia e espontaneidade, e o grupo desfila seu rock & roll e rock clássico em canções de diversas fases de sua carreira.
O guitarrista Rhino Edwards, na
banda desde 85, consegue suprir com competência a ausência de Rick ao lado do
único membro remanescente, Francis Rossi, mantendo aquela característica
marcante do Quo, com os duetos vocais e de guitarra, aqui também contando com
as harmonias fornecidas pelas cantoras de apoio, dando um brilho extra nos
arranjos de voz.
O uso da orquestração, piano e
acordeão também preenchem de forma exuberante o trabalho das cordas, que contam
com quatro violões e um baixo. Os destaques incluem canções clássicas do Quo,
como “Paper Plane”, “Hold You Back”, “Rock N Roll”, “Reason For Living”, e
claro, a sempre esperada “Whatever You Want”, mas todo o set é de muita qualidade.
O álbum está disponível em edição
simples com 21 faixas, lançado pelo selo paulista Shinigami Records. Um ótimo álbum, registro de uma noite fantástica no Albert Hall e é uma adição valiosa à qualquer fã ou colecionador da discografia dos ingleses. E claro, excelente diversão, com muita energia positiva e Rock & Roll!