domingo, 29 de março de 2026

Entrevista – Hangar: "O Hangar é a banda do coração de todo mundo ali, somos realmente irmãos, ficamos impressionados com o carinho do público" (Cristiano Wortmann)

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Por Gabriel Arruda (Mischa Almeida ajudou na pauta)

O Hangar, uma das bandas mais importantes da história do metal nacional, anunciou seu retorno aos palcos no segundo semestre de 2025 para, até então, um único show no festival Bangers Open Air, que acontece nos dias 25 e 26 de abril, no Memorial da América Latina, em São Paulo.

O que seria uma apresentação única acabou se tornando a volta oficial da banda, acompanhada pelo lançamento do single “O Prisioneiro do Alvorecer” e por mais alguns shows pelo Brasil, algo que não acontecia desde o final de 2018, ainda durante a turnê de divulgação do álbum Stronger Than Ever, que, em 2026, completa dez anos de lançamento.

Com quase trinta anos de história, o Hangar segue conquistando novos fãs graças a trabalhos como Inside Your Soul (2001), The Reason of Your Conviction (2007), Infallible (2009) e Stronger Than Ever (2016), além de manter uma base fiel que já acompanhava a banda e sentia sua ausência. Isso reforça o valor do grupo na história da música pesada brasileira, ainda que muitos considerem que o reconhecimento poderia ser ainda maior.

A seguir, o guitarrista Cristiano Wortmann comenta sobre esse retorno e o que podemos esperar do show no Bangers. 

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Qual a sensação de sair de um hiato de oito anos e já tocar em um festival do porte do Bangers?

CW: É uma sensação muito boa. A gente está muito feliz, a banda vive um momento muito especial. Estamos lisonjeados por sermos convidados para tocar no maior festival da América Latina, ainda mais nesse retorno. Ficamos esse tempo em hiato por diversas questões, mas nunca deixamos de nos falar. Sempre continuamos compondo e temos bastante material guardado. O Hangar sempre manteve esse contato próximo, temos nosso grupo no WhatsApp e estamos constantemente trocando ideias. 

Quando surgiu essa oportunidade, percebemos que era o momento certo para voltar e fazer um show histórico. É algo muito especial tanto para os fãs, que sempre pediram nosso retorno, quanto para uma nova geração que ainda não teve a chance de ver o Hangar ao vivo. Claro que há também quem já tenha assistido e quer reviver isso, mas muitos fãs novos que curte o Hangar vão ter essa oportunidade de nos ver no Bangers, um festival que é motivo de grande orgulho para nós.

E vocês acabaram de lançar um single muito legal, O Prisioneiro do Alvorecer. Há um novo trabalho a caminho?

CW: O Prisioneiro do Alvorecer é uma música que está tendo uma repercussão bem legal. É uma música da banda Spartakus, uma grande banda de Porto Alegre, que tem músicas muito legais. A gente fez essa releitura e o pessoal recebeu muito bem. É um rock pesado em português, então ficou um pouco diferente do que estamos acostumados a fazer. A gente tem bastante coisa. Como eu falei, estou sempre compondo, todos da banda estão sempre compondo, sempre fazendo coisas. 

No ano que vem, o Hangar completa 30 anos, então é uma data muito especial, e claro que isso pode motivar algo novo, mas tudo depende de vários fatores, todos os membros também têm outros projetos. É claro que o Hangar é o nosso filho querido, é a banda do coração de todo mundo ali. Hoje em dia, com a facilidade da internet, ficou mais tranquilo compor e fazer coisas juntos pela internet também. A gente vai trocando ideias e, quando possível, se reúne para finalizar. Então vamos ver o que o futuro nos espera.

O Hangar tem muitos fãs no nordeste. Planejam ir para lá para fazer uma turnê?

CW: A gente tem os nossos maiores fãs no nordeste, o pessoal nos recebe sempre muito bem. Como eu falei antes, tudo depende de vários fatores, a gente tem que ver se é um negócio interessante financeiramente para a banda, porque pesa bastante uma tour para o nordeste e é longe para todo mundo. Tem que organizar várias coisas para dar certo, mas a gente está aberto, vamos ver. Tudo depende das propostas que a gente receber e de como que a gente vai organizar a agenda de todos os integrantes da banda o ano que vem. 

Mas a gente está de portas abertas, a gente adora o povo nordestino, que sempre nos receberam muito bem desde o início. Nessa época eu até tinha saído da banda, foi na turnê do Inside Your Soul, que eu ajudei a compor, mas tinha saído. O público explodiu mesmo nessa turnê, a To Tame a Land foi uma música que tocou muito nas rádios de lá, então virou um clássico nacional pelo Nordeste também. Seria demais a gente poder voltar lá com o Hangar novamente.

E depois de um período de hiato, e agora com o retorno aos palcos, o que mudou na visão musical e pessoal de vocês? O público pode esperar alguma nova fase do Hangar a partir desse show?

CW: A gente está sempre evoluindo como ser humano e como músico. Como ficamos oito anos parados, é claro que absorvemos coisas novas. A banda está mais madura, no meu ponto de vista, e a gente vive uma relação muito boa já há muitos anos. Nós somos realmente irmãos. Eu, o Aquiles, o Nando, o Fabio… todo mundo se conhece há trinta anos. E o Pedro também voltou ali comigo, mais ou menos em 2012, quando fizemos a turnê de quinze anos do Hangar, que foi quando eu retornei para a banda. 

Um pouquinho depois, o Pedro também entrou. Então eu acho que é uma fase muito boa para nós. Esperamos que perdure, porque agora está todo mundo mais maduro. As brigas que aconteceram no passado têm muito a ver com isso também. Certas coisas acontecem quando a gente é mais jovem, mas com o tempo você amadurece e passa a entender o quão importante o Hangar é para todos nós que estamos na banda e também para os fãs. A gente vê na internet o quanto as pessoas gostam do Hangar, é impressionante. 

Ficamos muito lisonjeados com esse carinho do público. Então podem esperar, no Bangers, um repertório muito legal. A gente vai revisitar toda a história do Hangar, claro, com coisas novas também. O repertório está fantástico, estou ensaiando direto aqui. É uma pedreira para tirar de novo. Muita coisa a gente teve que reaprender porque fazia tempo que eu não tocava, mas já está no sangue. Vai ser um repertório muito legal.

Já que você falou nessa questão de repertório, como é um show de festival, geralmente é mais curto, como vocês estão preparando o setlist? Tem alguma música que não pode faltar de jeito nenhum? 

CW: Tem algumas músicas que não podem faltar de jeito nenhum, e a gente vai colocá-las. Inclusive, fizemos uma pesquisa com o pessoal do Instagram e do Facebook para a galera indicar quais músicas não poderiam ficar de fora. Tem algumas que são muito citadas, como To Tame a Land, The Reason of Your Conviction, entre várias outras. Mas a gente vai fazer um apanhado de todas as fases do Hangar, desde Inside Your Soul até músicas mais novas do Stronger Than Ever (2016), que foi o nosso último disco. Então vai ter muita coisa legal, muitos clássicos, mas também vão existir algumas surpresas nesse setlist.

Tocar no Bangers Open Air representa o que para o Hangar dentro da história da banda e da cena do metal brasileiro?

CW: É um orgulho enorme para a banda. Repetindo, é o maior festival da América Latina. Eu creio que será o maior festival em que o Hangar já tocou, então, para a gente e para o metal nacional, é um motivo de orgulho máximo. Ficamos muito felizes em ver que o Bangers agora, todos os anos, está dando oportunidade tanto para bandas da cena brasileira quanto para grandes bandas estrangeiras que a gente também gosta muito. 

No dia em que vamos tocar, várias bandas que a gente adora também estarão presentes: Black Label Society, Evergrey, Cr¨Ypta, Marenna, entre outras. São bandas que realmente admiramos. E todo o line-up do festival está fantástico nos dois dias, incluindo essa volta do Angra, fechando a segunda noite. Então vai ser um momento realmente muito especial na carreira do Hangar. 

A gente está extremamente feliz e gostaria de agradecer a toda a produção do Bangers pelo convite. Vamos com tudo para fazer um grande show. A gente está muito preparado, vamos ensaiar bastante, e a banda está com gás total para fazer uma grande noite.

Este ano também marca os dez anos do lançamento do álbum Stronger Than Ever (2016), que é um disco muito especial pra mim, porque acompanhei todo o processo até o lançamento e ouvi bastante na época. É um trabalho muito forte e maduro, que marcou o seu retorno à banda e também a estreia do Pedro nos vocais. Olhando para trás, qual foi o impacto desse disco na carreira de vocês e o que ele representa hoje para a banda?

CW: Esse foi um disco muito importante na nossa carreira. A gente experimentou algumas coisas novas nele. Nos reunimos em Bebedouro para compor juntos, e tudo foi muito bem pensado. Há composições diferentes nesse trabalho, claro, sempre mantendo a pegada do Hangar. 

Ele também marcou, como você mencionou, o meu retorno à banda e a estreia do Pedro Campos, que já era um grande talento na época, bem mais novo, e hoje está ainda mais maduro. Sempre foi um músico incrível. É um disco do qual a gente tem um enorme orgulho. Usamos afinações mais baixas de guitarra em algumas músicas e exploramos bastante coisa diferente. Tem baladas também, por exemplo, Just Like Heaven, que se tornou uma das maiores baladas da história do Hangar, ao lado de outras do Infallible e do The Reason of Your Conviction. Ela acabou virando um grande hit do disco. Ao mesmo tempo, há várias músicas pesadas que a gente também registrou, inclusive depois no ao vivo Live in Brusque, com várias faixas do Stronger Than Ever. 

O público aceitou muito bem esse álbum, mesmo com a gente experimentando e saindo um pouco do padrão. E, olhando para trás, vemos que é um disco bem maduro. Mesmo depois de dez anos, ele continua atual. Muita gente ainda vem falar com a gente dizendo 'olha, conheci o Hangar por esse disco, conheci pelo Stronger Than Ever.' Então parece que foi ontem que a gente fez. Esses dez anos passaram muito rápido, e a gente tem um orgulho enorme desse trabalho.

É muito legal também que, nesse disco, vocês usaram vocal gutural em algumas músicas, como The Revenant e Forest of Forgotten. E creio que a música que marcou mais nesse disco foi A Letter From 1997 (MHJ).

CW: A Letter From 1997 (MHJ) é uma das minhas preferidas também. Eu cantei várias músicas com o Pedro fazendo gutural, isso é uma coisa nova no Hangar, porque em todos os outros discos sempre houve apenas um vocalista: o Michael, o Nando, o Humberto e todos os outros vocalistas que passaram pela banda.

Nesse disco, a gente explorou essa troca de vozes entre mim e o Pedro, além, claro, dos backing vocals gravados pelos outros integrantes. Tem várias músicas ali pelas quais eu sou apaixonado e tenho o maior orgulho de ter gravado e composto junto com todo o pessoal. A Letter From 1997 (MHJ), com certeza, é uma delas. É uma das minhas preferidas. Essa música é especial.

E esse disco também gerou o primeiro CD/DVD ao vivo em formato "elétrico" da banda, gravado em Brusque, Santa Catarina. Foi um momento muito especial, com uma produção impecável, que contou até com filmagem aérea de um helicóptero.

CW: Foi muito especial, apesar do frio inacreditável no dia que a gente gravou. Eu acho que a sensação térmica foi de quatro graus abaixo de zero, então foi difícil para a gente tocar. Mas, no fim das contas, deu tudo certo , ficou muito bem gravado. A Foggy fez a captação das imagens, e depois foi mixado e masterizado pelo Adair Daufembach. 

É um disco ao vivo muito legal do metal brasileiro, o Hangar - Live in Brusque. Quem ainda não conhece, vale a pena ir atrás, tem vários vídeos no YouTube e também está no Spotify. É um disco que faz meio que um apanhado geral da carreira do Hangar, com várias músicas clássicas da banda. O resultado ficou realmente excelente.

Paralelamente, durante o hiato do Hangar, você, junto com o Michael, formaram o Hard Power, e em 2024 vocês lançaram o debut álbum, que é um disco de hard rock bem legal. 

CW: Legal você falar nisso também. A gente formou uma banda com o ex-vocalista do Hangar, o Mike, o Rafael, que é o baixista e já tocou em várias bandas legais da cena, e o baterista Lucas Rodrigues. A gente lançou o primeiro disco em 2024. Esse ano, a gente fez até uma regravação em versão hard rock de “To Tame a Land”, que o Michael é um dos compositores também, e ficou bem legal. 

A gente lançou faz mais ou menos um mês e a repercussão foi muito boa. É um lado mais hard rock que a gente gosta bastante. Eu sou muito hardeiro, apesar de gostar muito de metal e tocar metal, tenho uma veia bem hard rock também. Então a gente conseguiu explorar isso, fazer um som mais trabalhado dentro desse estilo. E a gente já está produzindo o segundo disco agora, as composições já estão prontas, e a gente começou a trabalhar nos arranjos de bateria, baixo, guitarra e voz. 

Acho que, talvez, ainda esse ano a gente lance um ou dois singles. E, pro ano que vem, a ideia é lançar o segundo disco. A aceitação do público está sendo muito legal, então a gente está bastante orgulhoso desse trabalho.

Existe algum momento especial e marcante da história do Hangar que você guarda com muito carinho? 

CW: Olha, são vários momentos… Mas o início do Hangar é uma história bem legal de contar. Eu fui convidado pra tocar guitarra numa banda que ia abrir um show do Barão Vermelho, no Gigantinho, em Porto Alegre, chamada Apocalipse Now. 

Era uma banda de rock and roll. Aí quando eu chego no ensaio, quem era o baterista? O Aquiles. A gente nem se conhecia. Começamos a tocar ali, se entrosar, e fomos pro Gigantinho pra fazer a abertura, só que o show acabou não acontecendo. A gente não abriu, apesar de ter ensaiado tudo. E aí eu e o Aquiles começamos a desenvolver uma amizade muito forte. 

A gente conversava bastante e viu que os dois gostavam de metal. Desde aquela época, a gente já ficava pensando como seria o nome da banda, quem a gente poderia chamar pra tocar baixo, pra cantar… Eu acabei conhecendo o primeiro baixista, o Felipe Trein, que é um irmão pra mim até hoje, um grande amigo. E foi ele que conhecia o Michael. Então todo esse início, lá em Porto Alegre, foi a gente sonhando com o que a banda poderia ser. A gente nunca imaginou que o Hangar ia se tornar o que se tornou. E eram muitos ensaios… a gente ensaiava loucamente, sem ter show, oito, dez horas por dia, sábado, domingo, no verão, sem ar-condicionado… 

Foram muitas batalhas até chegar onde o Hangar está hoje. Mas essa história do começo é bem engraçada. A gente ensaiou várias vezes pra fazer o show, chegou lá e a abertura foi cancelada. Mas, ao mesmo tempo, dali nasceu o Hangar. Se eu não tivesse encontrado o Aquiles naquele ensaio, a gente provavelmente nem teria se conhecido.

E qual foi a música mais desafiadora de compor ou gravar? Existe alguma música que vocês sentem que merecia mais reconhecimento?

CW: The Hangar of Hannibal é uma música muito difícil de tocar, e também foi bem difícil de compor lá na época do Stronger Than Ever. É realmente uma pedreira, como a gente comentou. Sobre músicas que a gente acha que poderiam ter tido mais reconhecimento isso é difícil de falar, porque, muitas vezes, as músicas que acabam estourando têm um investimento muito forte por trás, seja de gravadora ou de produtora. 

Ainda mais hoje em dia, que o pessoal coloca muita grana pra fazer a música alcançar mais gente. Mesmo assim, a gente teve várias que deram super certo de forma orgânica, como Call Me in the Name of Death, que é um grande hit do Hangar. Tem também as baladas… “Time to Forget”, pra mim, é uma música que deveria ter, sei lá, cem milhões de plays no Spotify. Mas a gente sabe que existem várias outras que tinham potencial pra ir ainda mais longe, se tivesse rolado um investimento maior, uma gravadora maior por trás, esse tipo de coisa. 

Só que isso é complicado de avaliar hoje, porque já passou. E, ao mesmo tempo, a internet está aí pra todo mundo, e às vezes ela traz umas surpresas. Tem músicas antigas que o pessoal redescobre, começa a ouvir de novo. Então tem muita coisa ali do lado B do Hangar que a galera escuta bastante no YouTube, no Spotify, nas plataformas de streaming em geral. Então é mais ou menos isso.

Cris, muito obrigado pela disponibilidade. Novamente, estou muito feliz com a volta do Hangar. Pode ficar a vontade para deixar uma mensagem final.

CW: Queria agradecer demais ao Bangers, a toda a produção e a todo mundo que está trabalhando com a gente. E dizer pros nossos fãs que a gente está muito feliz de voltar e fazer esse show espetacular nesse grande festival, que é o maior da América Latina. Podem esperar que a gente vai com sangue nos olhos e vai fazer um grande show de heavy metal pra vocês aí no Bangers. Quero ver todo mundo lá! Não percam, os ingressos estão acabando. E todo o Hangar espera vocês pra gente bater cabeça junto.

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