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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Cobertura de Show: Atrocity, Arkona & Leaves' Eyes – 23/11/2025 – Carioca Club/SP

As bandas Atrocity, Arkona e Leaves’ Eyes desembarcaram em São Paulo no último dia 23 para apresentações memoráveis. Talvez devido ao grande número de eventos do gênero, o público foi modesto, mas extremamente participativo. O evento ocorreu no Carioca Club e apresentou um lineup diversificado dentro do metal extremo, com influências que vão do death metal ao folk e ao symphonic metal. A participação do público, embora reduzida, foi decisiva, já que os presentes interagiram ativamente, cantando e aplaudindo, o que contribuiu para uma atmosfera empolgante. No geral, as apresentações foram sólidas, com cada banda entregando performances competentes e fiéis ao próprio estilo, mantendo a magia que só acontecem em shows ao vivo. 

A primeira banda da noite foi o Atrocity, grupo alemão de death metal formado em 1985 em Ludwigsburg. O conjunto é conhecido pela longa trajetória no cenário underground e por mesclar elementos do metal extremo com influências industriais e góticas em fases mais recentes. Fundado por Alexander Krull, vocalista e principal compositor, o grupo conta com integrantes como Thorsten “Tadd” Bauer na guitarra, entre outros músicos que contribuíram para álbuns relevantes. Com mais de três décadas de carreira, o Atrocity influenciou o metal europeu com composições marcantes e consolidou sua posição como referência do estilo por meio de uma discografia extensa e pela constante evolução sonora.

O Atrocity iniciou sua apresentação com um atraso de quinze minutos, o que forçou o corte da música “Necropolis” para adequação ao cronograma. Apesar disso, o grupo entregou um setlist consistente, incluindo “Desecration of God”, “Death by Metal” e “Reich of Phenomena”, que destacaram tanto o vocal gutural característico de Alexander Krull quanto o peso instrumental da banda. O público, pequeno, porém dedicado, respondeu de forma intensa, especialmente durante “Faces From Beyond” e “Bleeding for Blasphemy”. No geral, o show foi poderoso e atendeu às expectativas dos fãs de metal extremo, demonstrando profissionalismo ao compensar o atraso com uma performance coesa e envolvente.

Em seguida, veio o Arkona, que é uma banda russa de pagan folk metal formada em 2002 em Moscou e que se destaca pela fusão de elementos tradicionais da cultura eslava, como flautas e percussões folclóricas, com o peso do metal extremo. Liderada por Masha “Scream” Archipova, vocalista e principal letrista, a banda conta com músicos como Sergei “Lazar” Atrashkevich na guitarra, além de outros integrantes que incorporam instrumentos étnicos às composições. Com álbuns consagrados, o Arkona obteve reconhecimento internacional ao celebrar o folclore pagão e a mitologia eslava, misturando vocais limpos e agressivos em um som marcante.

A apresentação do Arkona no Carioca Club seguiu sem imprevistos e ofereceu um show dinâmico que reforçou a proposta estética do grupo. Com um setlist que incluiu “Kob’”, “Ydi” e “Goi, rode, goi!”, a banda envolveu o público com performances enérgicas conduzidas pela presença marcante de Masha Archipova. A participação da plateia foi incrivel, especialmente durante “Khram” e “Zimushka”, criando um ambiente imersivo. O show foi bem executado, mantendo qualidade sonora e entregando uma experiência culturalmente rica que atendeu às expectativas e reforçou o apelo da banda no cenário metal brasileiro.

Fechando a noite, era a vez do Leaves’ Eyes. Banda alemã de symphonic metal formada em 2003. O grupo foi originalmente idealizado pela vocalista norueguesa Liv Kristine, ex-Theatre of Tragedy, que contribuiu com uma abordagem lírica e operística ao lado de Alexander Krull (também do Atrocity) e demais integrantes responsáveis por acrescentar elementos orquestrais e temáticas vikings ao som da banda. Com discos dedicados à mitologia nórdica e arranjos sinfônicos marcantes, o Leaves’ Eyes consolidou presença internacional e participação constante em grandes festivais.

O show do Leaves’ Eyes no Carioca Club foi uma excelente surpresa, contrastando com o peso das bandas anteriores. A apresentação destacou o caráter sinfônico e melódico do grupo, que abriu com “Chain of the Golden Horn” e incluiu “Hammer of the Gods”, “Who Wants to Live Forever” e outras faixas marcantes. A banda entregou um setlist variado, evidenciando a qualidade vocal e a presença cênica de Liv Kristine. A plateia, embora pequena, participou de forma ativa, especialmente durante “My Destiny”, sendo ainda surpreendida com doses de vodca distribuídas pela banda. Outro destaque foi a apresentação de “Song of Darkness”, faixa anunciada como parte do próximo trabalho. No geral, a performance foi excelente e reforçou o domínio de palco do grupo, sobretudo em “Sign of the Dragonhead”, momento em que Alexander surgiu com vestimentas medievais e empunhando uma espada, elevando ainda mais o clima teatral da apresentação.

Em síntese, as três bandas apresentaram shows de qualidade, mantendo o público engajado e satisfeito.  Para um domingo à noite, o lineup diversificado atraiu os fãs verdadeiros, provando que não é sobre quantidade, mas da qualidade e da entrega daqueles que contribuem para fazê-lo acontecer. 


Texto: Marcelo Gomes

Fotos: Edu Lawless 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Estética Torta

Press: Acesso Music 


Atrocity – setlist:

Desecration of God

Death by Metal

Fire Ignites

Fatal Step

Spell Of Blood

Faces From Beyond

Bleeding for Blasphemy

Shadowtaker

Reich of Phenomena 


Arkona – setlist:

Kob'

Ydi

Na strazhe novyh let

Yav'

Khram

Goi, rode, goi!

Zakliatie

Zimushka


Leaves' Eyes – setlist:

Chain of the Golden Horn

Hammer of the Gods

Across the Sea

Serpents and Dragons

Edge of Steel

Who Wants to Live Forever

Sign of the Dragonhead

Song of Darkness

Realm of Dark Waves

My Destiny

Swords in Rock

Hell to the Heavens

Farewell Proud Men

Forged by Fire

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Cobertura de Show: Odin’s Krieger Festival – 01/11/2025 – Carioca Club/SP

Odin’s Krieger Festival mistura humor com medieval em shows de Nanowar of Steel e Heidevolk

O humor italiano e o folk metal viking holandês combinam muito bem, e festival, que também contou com outras apresentações diversas nacionais, valeu a pena presenciar

O Odin’s Krieger Festival já é tradicional! Ano após ano, a festa atrai apreciadores de costumes e da cultura medieval fantástica, além de adeptos da história e mitologia nórdica, celta, e todo tipo de história e fé pagãs. Mesmo sem shows, só o encontro temático dessa ou dessas tribos já seria sensacional, mas com grandes apresentações, tudo fica melhor. Tivemos!

Embora, devo dizer, o público parecesse abaixo do que tivemos em 2024, ainda era respeitável, com mais da metade do Carioca Clube cheio. Bem, era de se esperar, já que as atrações do ano anterior eram mais populares, com Dogma e Wind Rose. Neste ano corrente, tivemos ainda um repeteco: O Heidevolk já havia estado no mesmo festival alguns anos antes.


OAKLORE FAZ TRIBUTO AO FOLK “GEEK”:

Uma aguardada atração nacional era o Oaklore, um grupo de música folclórica que já se tornou conhecido no circuito de eventos “folk”. Talvez uma das coisas mais legais deles, é que você vai se sentir “em casa” quando estiver em seus shows: grande parte de seu repertório é de temas musicais que somos acostumados a ouvir no nosso dia-a-dia (bem, ao menos quem é ligado em videogames, filmes e séries), com canções que vão de Senhor dos Anéis, uma das grandes inspirações da existência do grupo, segundo o que disseram no palco - bem, podemos compreender isso, já que o filme, do qual tocaram temas no show, é uma das maiores obras audiovisuais do gênero. Pessoalmente, fiquei extremamente emocionado ao tocarem um mix de temas de The Witcher 3, que é meu jogo preferido. Tão bem executado foi, que chegou a ser emocionante para fãs da franquia, do personagem Geralt of Rivia, e desse universo fantástico. Excelente apresentação, que serviu perfeitamente como “esquenta” para o que viria.

*Priscila Ramos - @agendametal

Vale frisar que, no meio tempo entre os shows, não há nenhum tipo de tédio! vários stands de lojas dos mais variados produtos, comuns, exóticos, artesanais, que iam de hidromel a velas aromáticas. Tem para todo tipo de público, e isso já vem de ano após ano - sempre ótimas opções, embora muitas vezes pagando um preço bem salgado.

*Priscila Ramos - @agendametal

NANOWAR OF STEEL TRAZ BOM HUMOR, HITS HILÁRIOS, E… VAMPETAÇO!:

Sejamos diretos: você nunca vai rir tanto em um show de rock quanto no do Nanowar of Steel! Conhecido recentemente pelo engraçadíssimo hit Norwegian Reggaeton, que parodia tanto o reggaeton latino, quanto o black metal norueguês, foi a primeira vez que a banda italiana esteve no Brasil, depois de muitos pedidos. Valeu a espera!

Sandra Rosato

A banda entrou com o visual mais bizarramente divertido possível: cada um dos integrantes com uma fantasia mais “zoeira” que a outra, sendo o vocalista Mr. Baffo o ápice, vestido com quase um cosplay de “loli” de animes - só imagine um sujeito barbado fazendo isso, é sensacional! Apesar da zoeira, todos tocam absurdamente bem, e as músicas são executadas exatamente como deveriam.

Sandra Rosato

Alguns momentos completamente absurdos fazem parte da festa. O outro vocalista, Potowotominimak colocou uma máscara do monstro Cthulhu, da obra de HP Lovecraft, durante a canção The Call of Cthulhu, com um telefone em mãos. Entenderam o trocadilho?! Ou o momento incrível quando um sujeito vestido do pássaro “malvado” Cacciatore entrou no palco, na canção Il Cacciatore della Notte. Também tivemos um “wall of love”, uma espécie de wall of death, mas onde todos se abraçam - ainda com Careless Whisper, de George Michael, de fundo, seguido pelo cover do cantor inglês da música de mesmo nome.

Sandra Rosato

Mas provavelmente o momento mais sensacional do magnífico show foi quando alguém atirou uma bandeira com a foto do ex-jogador Vampeta nu, apenas com a foto de Varg Vikernes, do Burzum, tampando suas genitais, em referência ao episódio quando o dito vocalista de black metal falou mal de brasileiros no twitter, e os usuários brasileiros começaram a lhe mandar fotos do ensaio do ex-atleta para a extinta revista G Magazine - ficou conhecido como “Vampetaço”. Eles realmente exibiram aquilo no palco!

Sandra Rosato

Seu grande hit, Norwegian Reggaeton, claro, foi um dos pontos mais altos. Todos sabiam cantar a música! Os sorrisos e risos eram nítidos por todos os cantos. Realmente, eles roubaram a cena, mesmo não sendo a atração principal da noite.

Sandra Rosato

Entre as apresentações, tivemos uma bela apresentação de dança, que serviu muito bem de aquecimento, além de uma batalha esportiva de espadas, o que fez com que não ficasse nada cansativa a espera para o próximo show.

Sandra Rosato

HEIDEVOLK FECHA A NOITE COM BOA APRESENTAÇÃO DE FOLK METAL, MAS OFUSCADA PELA ANTERIOR:

Trocamos o humor pelo verdadeiro folk metal. Diretamente da Holanda, um dos maiores celeiros de bandas bem sucedidas do mundo, o Heidevolk fazia sua segunda participação no Odin’s Krieger Festival. Claro que, pela proposta do evento, de celebrar a cultura medieval e nórdica, seriam a atração principal.

Sandra Rosato

Afiada, a banda veio ao país agora divulgando seu álbum Werderkeer, e não decepcionou. O som que apresentam faz todo o sentido para o evento, e logo de começo já era ovacionada pelo público. Uma coisa bem curiosa é que apesar de fazerem um som mais rápido, onde seria comum o uso de vocais agudos, os holandeses usam dois vocalistas com vozes extremamente parecidas e graves. Por um lado, isso dá um contraste, e deixa com uma certa cara “ritualística”, mas por outro, uma das vozes acaba ficando redundante, já que não há contraste entre ambas. No fim das contas, funciona. Outro ponto interessante é o idioma; não é comum ouvirmos músicas no idioma neerlandês, mas a banda prova que pode, sim, funcionar bem, a depender do estilo.

Sandra Rosato

O setlist foi conservador, mesmo longo. Tivemos, de começo, duas do último disco, como era de se esperar: Hagalaz e Klauwen Voorut. Não demorou para virem clássicos, com Winter Woede, Urth e A Wolf in my Heart. No geral, tudo muito completo, contemplando vários períodos de sua carreira.

Sandra Rosato

Terminamos o show com Vulgaris Magistralis, versão para a banda de rock holandesa Normaal, e a saideira com um grande clássico, Nehalennia, do já distante ano de 2010. 

Sandra Rosato

Ótimo show, com belo som, e um público muito animado, e diversos mosh pits ao longo do show. Apesar do brilho, o fato do Nanowar of Steel ter feito uma apresentação inédita e extremamente divertida, que roubou a cena, ficou parecendo que quem deveria ter sido a atração final eram eles. De toda forma, o conjunto de ambas foi muito bom, e tudo foi muito bem aproveitado. Ambas bandas já têm um lugar no coração dos brasileiros, e podem voltar a qualquer momento, que será uma boa pedida de show!

Sandra Rosato

Texto: Fernando Queiroz

Fotos: Sandra Rosato (*exceto onde indicado)

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Okf Produções

Press: Tedesco Comunicação & Mídia


Nanowar of Steel – setlist: 

Sober

The Call of Cthulhu

Pasadena 1994

Wall of Love

Disco Metal

Uranus

HelloWorld.java

Il Cacciatore della Notte

Norwegian Reggaeton

Armpits of Immortals

La Polenta Taragnarok

Vahlallelujah


Heidevolk – setlist:

Hagalaz

Klauwen Vooruit

Winter woede

Urth

A Wolf in My Heart

Schildenmuur

De strijd duurt voort

Het Wilde Heer

Wederkeer

Het bier zal weer vloeien

Het Gelders volkslied

Hulde aan de kastelein

Ostara

Krijgsvolk

Tiwaz

Saksenland

Drink met de Goden (Walhalla)

Drankgelag

Vulgaris magistralis

Nehalennia

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Lothlöryen: Uma Jornada Barda e Insana

Por Gabriel Arruda

Décadas se passaram e, até hoje, muitos afirmam que Minas Gerais é a capital do Heavy Metal brasileiro. Afinal, foi de lá que surgiu o maior nome do estilo no mundo, o Sepultura, além de excelentes bandas de death e thrash metal como Overdose, WitchHammer, Sarcófago e outras.

Anos mais tarde, a cena mineira também se tornou um celeiro do Folk Metal nacional, revelando nomes como Tuatha de Danann e Lothlöryen. É justamente esta última que, no próximo mês de setembro, lançará “…Of Bards and Madmen [Reimagined]”, uma releitura do álbum lançado há vinte anos.

Com novos arranjos e letras remodeladas, a obra  conduz ao universo bardo, explorado com maestria por Daniel Felipe (vocal), Leko Soares (guitarra e vocal), Leo Ghigiarelli (baixo) e Lucas Bello (orquestrações e vocais). O álbum reúne dez faixas inspiradissimas, regadas de orquestrações grandiosas, backing vocals imponentes, passagens acústicas e toda a riqueza sonora que são características do gênero.

Faixas como "Ruins Of Fantasy, "Elfic" e "There And Back Again" — esta última com a participação do talentoso vocalista Raphael Dantas (Ego Absence) — representam bem a proposta, surpreendendo pelo equilíbrio entre peso e toda a abundância sonora citada acima de forma condensada. A sequência com a faixa-título e "Moriality" trazem o poder magnético do Power Metal, com riffs e solos que grudam na memória como cola Super Bonder, além de linhas vocais impactantes e envolventes. "Another Tale" (com leve influência de Avantasia e participação de Shoujy) e "Someday" acrescentam uma boa dose de teatralidade, sendo duas baladas carregadas de emoção.

A produção é outro ponto forte. Mesmo sendo uma regravação, a qualidade impressiona pela clareza e pelo peso. Cada detalhe é audível, especialmente quando se ouve com fones de ouvido, que aproximam o ouvinte da experiência sonora completa.

Mesmo com alguns torcendo o nariz e afirmando que, uma vez concebida uma obra não deve mais ser alterada, muitos — inclusive este que vos escreve — acabam resistindo à ideia. Mas, no caso de …Of Bards and Madmen [Reimagined], a mudança é positiva e abrasiva, pois esta nova versão se mostra ainda mais polida e resistente que a primeira. Então, já deixe sua IPA, sidra ou hidromel à mão, pois este álbum merece ser degustado com cada gole e ouvido atento, assim como toda a experiência que ele oferece.

sábado, 16 de maio de 2020

Asgard: Mesclando Elementos Contemporâneos ao Progressivo e Folk


"Ragnarøkkr" é o mais recente registro do Asgard, grupo oriundo desde meados dos anos 80, que mistura sem medo folk medieval com o Heavy Metal. Diria até que as guitarras e bateria servem mais de apelo extra. Emolduram composições que não hesitam no uso de flautas, samples de teclado remetendo instrumentos medievais e cânticos também daquele período.

"Trance-Preparation" tem um começo extremamente metaleiro com o teclado mais progressivo. Logo em seguida há uma entrecortada de cantoria barda sob batidas celtas. Franco Violo conduz as coisas como um Ian Anderson para em seguida as sessões de heavy metal voltarem com força total. Toma conta um palm mute de guitarra solando numa penta menor encerrando com tappings. A guitarra se funde ao lado folk da canção e retorna ao princípio para fechar com chave de ouro.

"Rituals" toca uma batida tribal em contraste de flauta e alguma corneta medieval distorcida. O vocalista abre caminho para uma passagem sombria reforçada pela guitarra e blast beat. A guitarra dá uma revisada na melodia do começo para  depois gerar fraseados flutuantes ajudados pela harmonia leve do sintetizador. Uma gaita de foles conversa com a guitarra. São interlúdios para um recomeço meio cara de "canção pirata".


"The Night Of The Wild-Boar" tem levada melódica, um pop cara de musical. Instrumentos se empilham no objetivo de criar um forro pro canto. Apesar disso, tanto harmonia quanto melodia soam exóticas. 

"Visions" é a mais metal, tem um climão de batalha, seus vários riffs são costurados por melodias sintetizadas.

"Shaman" é iniciada por uma flauta, seu começo é extremamente tranquilo. Aos poucos atinge um clima obscuro como se o ouvinte entrasse num lugar servido de mistérios. As guitarras soam como um sino martelado. A canção no final cai numa fúria progressiva.

"Battle" ecoa uma espécie de cravo cristalino, chocalhos e acordes ressonantes na guitarra. A primeira parte se encaixaria perfeitamente num videogame. Violo puxa uma direção Serj Tankian. Na segunda metade, os teclados geram harmonias parecendo corais de igreja e a guitarra distorcida gera clima macabro. Apesar de não ser frenética, ela passa um clima de sofrimento enquanto escapam algumas ideias dançantes como se tudo não fosse encenação de um épico.

"Anrufung" tem um início cerimonial. Na outra metade vira uma dança folclórica repaginada para o peso do metal.

"Ragnarøkkr" uma das mais progressivas, fecha o disco de modo sombrio e melancólico, o guitarrista Andrea Gottoli e o tecladista Albert Ambrosi parecem mais livres para soltarem suas ideias.

       

Analisando tudo, o álbum despeja muitos conceitos e não faz cerimônias em costurá-los abruptamente. O andamento de tudo é ondulado, não há espaço para descanso. Algumas coisas poderiam ser melhor desenvolvidas mas são logo jogadas para trás, com sorte relembradas nos momentos finais das faixas.  Alguns samples no sintetizador me incomodaram um pouco, muito artificiais, acredito que espantem parte dos ouvintes também.

É uma experiência diferente. Canto e melodias conservam o espírito dos antigos trovadores e os integrantes manipulam isso com novos recursos tecnológicos. O resultado soa  inusitado. O registro é mais indicado para aqueles que já curtem trilhas sonoras épicas e metal progressivo. O excesso de informação e escolha de timbres pode afugentar a maioria.

Texto: Alex Matos (Canal Rock Idol)
Edição: Carlos Garcia

Selo: Pride & Joy Music

       

domingo, 1 de setembro de 2019

Eluveitie: Celtic Folk Metal em Constante Evolução




O Eluveitie nasceu em 2002 sob a imponência e misticismo dos Alpes suíços, e sua música inspirada na mitologia celta, história gaulesa e a cultura protoindo-europeia. O grupo foi se tornando um dos grandes nomes do Folk Metal, sub-estilo do Heavy Metal que, naturalmente, mixa as nuances tradicionais do gênero, além do Melodic Death Metal às influências folclóricas, utilizando sonoridades e instrumentos típicos da cultura celta e gaulesa. 

Desde sua estreia com o álbum “Spirit” (2006) a banda começou a criar uma identidade musical bem própria, trazendo letras também bem profundas, abordando temas históricos, filosóficos e folclóricos.

O sucesso e reconhecimento mundial chegaram com o álbum “Slania” (2008), o qual foi considerado o trabalho que consolidou o estilo da banda, e até então, o auge de sua maturidade. Inclusive o álbum recebeu uma nova versão comemorando os 10 anos de seu lançamento.


E agora em 2019, a banda apresentou seu novo trabalho, “Ategnatos”, que é a palavra gaulesa para “renascer”. Um álbum místico e filosófico, onde o Eluveitie traz a mitologia, a crença pagã e a espiritualidade para o nosso mundo moderno. Mudança e renovação. Isto, naturalmente, tem um preço.

Sempre há sofrimento antes da felicidade. E sempre há escuridão antes da luz. Obscuro e sério em sua atmosfera e carisma, e também oculto, arcano e elitista, o álbum em si é um manifesto, um trabalho altamente dramático e embelezado no qual a sociedade de hoje se vê no espelho da antiga mitologia e cultura celta.

A banda retornou ao Fascination Studios, onde também mixaram "Slania". A sonoridade, cada vez mais lapidada e trabalhada, muitas vezes com composições melodiosas e limpas, como “Ambiramus”, que segue aquela linha de músicas como "A Rose For Epona", por exemplo, com belas melodias, vocais femininos e um folk mais contemporâneo, canções que são capazes de agradar ouvidos menos acostumados ao estilo e aos momentos de mais peso.


E o peso e densidade sonora são também adjetivos do som dos suíços, pois as músicas são preenchidas por esses elementos folk, que se juntam ao peso e agressividade nas  peças mais voltadas ao Melodic Death e Folk Metal mais direto, como podemos perceber na própria faixa título.

O peso do Eluveitie é diferente, principalmente onde as canções trazem atmosferas místicas, quase com ar de trilha sonora de série ou filme épico, casando perfeitas com o conceito lírico como por exemplo em “The Raven Hill”. 

São 16 faixas, mas o grupo soube dosar com equilíbrio as músicas, mantendo o álbum sempre interessante, intercalando momentos mais pesados e agressivos, com essas peças mais melodiosas, com atmosferas mágicas, por vezes melancólicas, como a já citada "Ambiramus" e também em "Breathe", onde mais uma vez se destacam os vocais femininos, os instrumentos étnicos e os violinos.

Chrigel Glanzmann
Os arranjos orquestrais preenchidos pelo colorido dos instrumentos étnicos é destaque também, como em "The Slumber", onde os vocais limpos femininos e guturais se contrapõem, gerando uma atmosfera bela, pesada e mágica.

A banda destaca que compôs o álbum enquanto estava na Universidade de Artes de Zurique e consideram o processo um produto de toda a banda, espontâneo, resultado das ideias dos nove membros, onde as canções foram sofrendo modificações enquanto ainda estavam em desenvolvimento.

O Eluveitie é uma banda diferente, merece o reconhecimento mundial, e mesmo com as diversas trocas de formações, seu líder Chrigel Glanzmann tem o mérito de guiar a formação da personalidade da banda, mantendo-a, mas sem abrir mão da evolução, e "Ategnatos" é a prova.

O álbum está disponível no Brasil pela gravadora Shinigami Records, trazendo uma edição com faixas bônus.

Texto: Carlos Garcia
Fotos: Divulgação


Tracklist:
1. Ategnatos
2. Ancus
3. Deathwalker
4. Black Water Down
5. A Cry In The Wilderness
6. The Raven Hill
7. The Silvern Glow
8. Ambiramus
9. Mine Is The Fury
10. The Slumber
11. Worship
12. Trinoxtion
13. Threefold Death
14. Breathe
15. Rebirth
16. Eclipse
Bonus:
17. Ategnatos (Acoustic Version)
18. Ambiramus (Acoustic Version)
19. Threefold Rebirth (Acoustic Folk Medley)

Canais Oficiais da banda:

       


       



domingo, 21 de abril de 2019

Cobertura de Show – Amorphis (13/04 – Porto Alegre/RS): finalmente em solo gaúcho


Cobertura: Renato Sanson
Fotos: Uillian Vargas


Da fria e bela Finlândia tivemos o prazer de presenciar a nova tour  - a “Queen of Time Tour”, que divulga seu 13° álbum de estúdio “Queen of Time” – do ícone Amorphis, que desta vez passou por Porto Alegre.

É interessante notar que mesmo com toda sua mudança musical o Amorphis mantém uma legião de fãs bastante solida, claro, alguns se dividem, até mesmo pela questão de preferirem a fase mais extrema e outros a fase mais experimental, mas o que fica é a qualidade e a evolução eminente em sua música.

O local escolhido para o show foi o Centro de Eventos da Fiergs, complexo este que também estava recebendo o maior evento de tatuagem do Brasil, o Inked Art Tattoo (realizado nos dias 11, 12 e 13 de abril) e nada melhor que na segunda noite do mesmo receber está grande atração do Metal mundial.


Em termos de estrutura só temos elogios, pois o local escolhido foi de um acerto absurdo tendo acessibilidade e bastante comodidade para os que ali estavam para assistir ao show, além da ótima sonorização apresentada, muito bem equalizada e soando sem falhas e sem contar o ótimo atendimento dos funcionários do local.

Após a montagem de palco finalizada – muito bela por sinal – não demora para a intro ecoar nos PA’s e os monstros mostrarem ao que vieram despejando logo de cara “The Bee” e “The Golden Elk” (ambas do álbum mais recente) que agitou os presentes, com uma banda extremamente entrosada e cheia de feeling.

O que me chamou a atenção do show em si, foi a predileção pela fase de Tomi Joutsen no grupo, respectivamente o vocalista que mais tempo ficou à frente do Amorphis e gravou mais discos, ao total de sete até o momento. Não que isso seja ruim, mas da fase inicial que muitos também gostam (me incluo nela) tivemos só a clássica “Black Winter Day”, as demais todas pertencentes aos álbuns com a voz de Tomi.


Mas claro que grandes clássicos surgiram desta “nova” - “velha” fase como: “Sky Is Mine” (emocionante no mínimo), “Silver Bride” e “House Of Sleep”.

Vale destacar a presença de palco da banda e todo seu comprometimento com o público, interagindo e sendo mais do que atenciosos, mostrando que não era apenas mais um show da turnê, mas que estavam felizes de estarem ali nos brindando com sua musicalidade única pela primeira vez.


Demorou, mas enfim Porto Alegre recebeu o Amorphis saciando a vontade dos fãs, tendo um ótimo público que se mostrou presente desde a primeira nota executada. Agora é torcer pela volta dos finlandeses o quanto antes!


Setlist:
01 – The Bee
02 – The Golden Elk
03 – Sky Is Mine
04 – Sacrifice
O5 – Against The Widows
06 – Silver Bride (intro)
07 – Bad Blood
08 – Wrong Direction
09 – Daughter Of Hate
10 – Heart Of The Giant
11 – Hopeless Days
12 – Black Winter Day
Bis
13 – Death Of a King
14 – House Of Sleep


O Amorphis atualmente é:
Tomi Joutsen (vocal – desde 2005)
Esa Holopainen (guitarra – desde 1990)
Tomi Koivusaari (guitarra – desde 1990)
Olli-Pekka Laine (baixo – 1990 – 2000 / 2017 – atual)
Santeri Kallio (teclado – desde 1998)
Jan Rachberger (bateria – 1990 – 1995 / 2002 – atual)

terça-feira, 9 de abril de 2019

Cellar Darling: Segundo Álbum para "Enfeitiçar" os Fãs



O trio folk rock/metal Cellar Darling está de volta! “The Spell” foi lançado no dia 22 de março via Nuclear Blast Records.

Em seu primeiro álbum, os suíços já haviam mostrado um trabalho diferente de suas raízes no Eluveitie e em “The Spell” aparentemente ainda estão explorando novos territórios, trazendo o conceito de um conto de fadas moderno.

A primeira faixa do álbum “Pain” já começa com o som encantador do hurdy-gurdy de Anna Murphy. Na canção seguinte “Death” mais uma vez há uma interpretação perfeita de Anna que nos guia pela narrativa, onde uma garota à procura do sentido da vida se apaixona pela morte. “Love” provavelmente é uma das minhas músicas favoritas do álbum, começa com alguns riffs mais pesados e evolui de forma cada vez mais melódica, com um piano contribuindo para um tom mais clássico. Na faixa título “The Spell”, a linda e doce voz de Murphy rouba os holofotes.


Para quem sentia falta, em “Burn” podemos ouvir uma mistura de guitarras pesadas, bateria, vocais suaves e rosnados. Nesse disco senti um capricho maior na instrumentação das músicas, trazendo mais sons de piano, que agregaram muito mais às melodias. Em “Hang” é inevitável se hipnotizar pelo som da flauta de Anny. 

Os vocais de “Sleep” trazem um clima melancólico, sombrio, enquanto o piano nos guia em uma jornada emocional. “Insomnia” é o ponto mais experimental do álbum, causando uma certa estranheza na primeira audição, mas já na segunda você é cativado pelo solo de hurdy gurdy e aí não tem mais volta, o belo refrão ficará em sua cabeça. Impossível não se apaixonar pelos acordes mais hard rock de “Freeze”. 

A curtinha “Fall” serve como uma introdução operística para “Drown”, uma música coesa e impressionante por seus vocais teatrais. Anna se destaca o tempo todo em ”Love Pt. 2” com vocais bem angelicais e ao mesmo tempo emotivos. “Death Pt. 2” flui como um encerramento perfeito para esta obra prima. 


Durante o álbum todo o Cellar Darling apresenta um som tão sincero e confiante que só nos deixa curiosos para saber o que o podemos esperar do próximo trabalho. A banda provou que tem um som original e inovador, mostrando que é possível agregar elementos folk à um som mais moderno. Ainda é cedo para dizer que é o melhor álbum do ano, mas com certeza ele estará entre meu TOP 10.


Texto: Raquel de Avelar
Fotos: Divulgação

Lançamento: Nuclear Blast Records
Edição Nacional disponível via Shinigami Records. Confira o site do selo AQUI
Site Oficial

Line-Up:
Anny Murphy: Vocais, hurdy-gurdy
Merlin Sutter: Bateria
Ivo Henzi: Guitarra e Baixo

Tracklist:
1. Pain
2. Death
3. Love
4. The Spell
5. Burn
6. Hang
7. Sleep
8. Insomnia
9. Freeze
10. Fall
11. Drown
12. Love Pt. II
13. Death Pt. II


       

       

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Tuatha de Danann: "Queremos nos manter relevantes e capazes de nos desafiar"



O Tuatha de Danann surgiu em Varginha, Minas Gerais, em 1994, ainda sob o nome Pendragon, mudando para o nome atual pouco tempo depois, pois procuravam algo que melhor se encaixava às inspirações do grupo na música e culturas celta. Tuatha de Danann era o povo da deusa Danu, raça de seres encantados da Irlanda mítica. A banda foi forjando uma identidade musical muito forte e original, mesclando o Heavy Metal às nuances celtas, folk e medievais, além de outros ingredientes. O certo é que no Tuatha de Danann a liberdade criativa é a palavra de ordem.  (Read the english version)

Com seis trabalhos de estúdio lançados, sem contar a regravação de 2016 do primeiro EP, o Tuatha de Danann sempre se colocou entre as principais e mais originais bandas do cenário brasileiro, inclusive conquistando muitos fãs e bons resultados em diversos países da Europa, tendo se apresentado no Wacken em 2005, durante a divulgação de "Trova di Danu" (2004), álbum lançado por um grande selo, e que alçou a banda a um patamar maior, inclusive proporcionando a gravação do DVD acústico "Acoustic Live" (2009), porém alguns desgastes, atrasos e descumprimentos de prazos pela gravadora, além de outros fatores, levaram a dissolução da banda em 2010.

Mas em 2013 a banda retorna disposta a recuperar o tempo perdido, e lançam em 2015 o elogiado "Dawn of a New Sun". Agora em 2019 o Tuatha de Danann apresenta seu álbum mais diversificado, "The Tribes of Witching Souls", trazendo as características marcantes de sua sonoridade, como as melodias celtas e medievais, canções com climas festivos e empolgantes, mas também com temáticas mais sérias e atuais, e até fatos históricos de Minas Gerais.


Conversamos com o fundador, vocalista e multi-instrumentista Bruno Maia para saber um pouco mais sobre o novo álbum, a parceria com Martin Walkyer (Ex-Skyclad), o posicionamento firme da banda contra injustiças, ganância, racismo, e fascismo, ou seja, elementos tóxicos que têm crescido preocupantemente. Confira!


Road to Metal: Para começar, gostaria que você falasse a respeito da atual fase da banda, desde o retorno com “Dawn of a New Sun” após um hiato, e agora com este novo trabalho, “The Tribes of Witching Souls”. Gostaria que você falasse sobre o que aquele hiato e as mudanças na formação representaram para a banda. 
Bruno Maia: Houve um hiato de 3 anos sem banda. Isso foi de dezembro de 2010 até meados de 2013. Voltamos em 2013 para alguns shows esporádicos e daí lançamos o “Dawn” em 2015. O “Dawn” foi um disco que gostei demais de fazer e lançar, pois pessoalmente meus últimos 2 lançamentos até o “Dawn” tinham sido bem complexos, bem progressivos, que foram o disco do Braia e do Kernunna, e o “Dawn” veio mais direto, sem tanta viagem, do jeito que precisava. Adoro esse disco e o som dele. Depois disso, lançamos em 2016 uma nova versão de nosso primeiro disco, daí o guitarrista saiu em 2017, e em 2018, bem no início do ano, foi a vez do Rodrigo baterista; ambos saíram por conta própria e nós, nunca pensamos em parar.  


RtM: Vocês seguiram então somente com 3 membros oficiais.
Bruno: Hoje, de membros fundadores estou eu e o Giovani na formação, já o Edgard está conosco oficialmente há apenas 15 anos e nosso relacionamento é muito legal, positivo e sem fissuras. Temos todo o clima e amizade necessários para continuar com o Tuatha por muito tempo ainda e pra mim, sinceramente, a banda vive um ótimo momento repleto de leveza, vontade e positividade. As coisas não acontecem por acaso, foi necessário isso tudo acontecer pra banda estar aqui ainda e o fato de termos lançado um trabalho novo com tanta relevância agora é a prova disso que falo.


RtM; Você  já vinha falando que este novo álbum seria o mais diversificado da banda. Algo que percebi foi uma atmosfera mais “séria”, digamos, com menos temas fantástico e “festivos”. Quais elementos você acredita que são os mais diferentes e surpreendentes que o ouvinte vai encontrar?
Bruno: O disco é bem diversificado mesmo, pode sacar que as músicas não tem nada a ver uma com a outra, mas todas carregam um elemento Tuatha. Temos uma carga identitária muito forte que foi moldada ao longo dos anos, uma marca composicional que possuímos que só o Tuatha tem, ou no máximo alguma coisa do Braia ou Kernunna. Os elementos mais festivos e alto astral você encontrará apenas na faixa título (talvez até demais, uma vez que essa música é uma das mais positivas e pra cima que já ouvi), já as outras tem elementos diversos que vêm de fontes variadas de inspiração.

"O motivo de continuarmos a criar é ser relevantes pra nós mesmos e nossa música ser capaz de nos desafiar e encantar."
RtM: O Tuatha é uma daquelas bandas que possuem uma sonoridade própria, algo difícil, principalmente em tempos atuais, e também, acredito, proporciona uma liberdade musical ampla, permitindo ousar, e neste álbum ficou demonstrada ainda mais essa liberdade, e a sensação de que a banda pode ir ainda muito mais além. Gostaria que você comentasse a respeito.
Bruno: Que legal você captar isso! É gratificante que alguém fora do núcleo criador perceba isso e aponte. Mas eu acredito que este é o motivo e o porquê de continuarmos a fazer música: ser relevantes pra nós mesmos e nossa música ser capaz de nos desafiar e encantar ainda. Não faria sentido fazer o mesmo som sempre. E o mais legal é que conseguimos isso sem abandonar nossos elementos próprios e tão característicos. Creio que estamos vestidos de nós mesmos e sem medo de seguir adiante.


RtM: Sim, justamente, se o músico não buscar se desafiar, ousar, acredito que, tanto ele como o público perderão o interesse! Bom, você já citou antes a faixa título, que também foi o primeiro single, e ela trouxe os elementos já familiares aos fãs da banda, uma típica música do Tuatha. Vocês escolheram já a canção principal justamente por isso? Gostaria também que você falasse um pouco mais sobre ela.
Bruno: Exatamente, a “Tribes…” foi lançada primeiro até pra galera que nos acompanha sacar que a banda continuava firme e forte. Esse som é um trem 100% Tuatha de Danann . . . ela tem a levada típica de nossas aberturas de disco, o clima pra cima, com abafadas legais de guitarra, uma melodia bem Beatles e os temas celtas perpassando toda a canção. Sem contar com a participação dos duendes e tudo mais. 


RtM: Já o segundo single, “Your Wall Shall Fall”, traz elementos diferentes, tratando um tema bem atual e forte, saindo das temáticas mais fantasiosas. E tem um convidado bem especial, Martin Walkyier, ex-Skyclad, e grande influência do Tuatha. Gostaria que você falasse um pouco mais a respeito dessa canção e claro, da participação do Martin.
Bruno: Cara, essa música a gente tinha feito em 2017, da última vez que ele esteve aqui no Brasil, mas ele nunca ficava satisfeito com a letra, sempre a mudava, o que foi, inclusive, um dos motivos desse lançamento atrasar . . . MAS, é uma canção muito forte, muito pesada e direta, se comparada a outras do Tuatha de Danann, e a letra do Martin é fabulosa, como sempre. A gente ficou muito amigo ao longo dos anos e ficou muito natural as participações. Hoje em dia soa natural, mas há 15 anos isso  (ser parceiro do Martin) seria um sonho. Um sonho alcançado!


"Creio que estamos vestidos de nós mesmos e sem medo de seguir adiante."
RtM: O vídeo para essa música também ficou muito legal, inclusive houve uma campanha da banda para que os fãs, admiradores e amigos enviassem vídeos, os quais alguns seriam usados na edição do clipe. Fale-nos mais a respeito dessa ideia e sua avaliação sobre o resultado final, e se as reações, ao vídeo e canção, foram os esperados.
Bruno: Foi muito legal essa coisa! Foi ideia do próprio Martin, pois pessoas de qualquer lugar do mundo poderiam comprar essa ideia. A letra, embora faça alusões ao “famigerado” muro do Trump, questiona a ganância, a tirania do mercado, os governos autoritários, beligerantes e critica  tudo que divide e oprime o ser humano. É um tema anti tirania e fascismo. Gente dos EUA, Irlanda, Rússia, França, México e vários outros locais enviaram vídeo.


RtM: Aproveitando o tema, parabéns a você e a banda por tocar em assuntos mais delicados, e por posicionamento importante em momento complicado, tanto da humanidade em geral, quanto no nosso país. E gostaria de saber sua opinião quanto ao papel dos músicos, mesmo sofrendo críticas de algumas pessoas, em mostrar um posicionamento claro e firme contra injustiças e desigualdades sociais.
Bruno: O mundo inteiro está experimentando um tipo de guinada à direita e à violência (seja esta no nível discursivo ou físico). Não é só aqui no Brasil, infelizmente. Vivemos numa época que, em teoria, é a que mais temos acesso a informação, a conteúdos, a obras inteiras, trabalhos científicos de universidades do mundo todo e que, mesmo assim, sinistramente, existe muita gente que se informa pelo telefone através de vídeos ou memes quaisquer produzidos por sabe-se lá quem, sabe-se lá por quais motivos e sabe-se lá financiado por quem. 

Aqui no Brasil a coisa ficou tão noia que há muitos  seguidores de astrólogos, de músicos crentes frustrados, tem gente que acha que tortura é algo besta, que é coisa pouca. Muita gente relativizando a desumanidade, a crueldade e a ternura. Quanto ao papel do músico, não acho que ninguém é obrigado a fazer música ativista ou política, mas acho de uma contraditoriedade  doente o tal do headbanger conservador.


RtM: Prosseguindo com os temas do álbum, “Conjura” é uma de minhas preferidas, e traz uma tema histórico, sobre a Inconfidência Mineira. Gostaria que você comentasse mais a respeito dessa canção e a ideia de falar sobre esse tema.
Bruno: Pois é, pode soar como uma grande e fabulosa quimera, uma banda brasileira que canta em inglês, tem um nome celta, influências da música tradicional irlandesa tratar de um assunto tão brasileiro em uma canção. Mas é isso! Eu sou um estudioso da história de Minas Gerais, seu período colonial, seu povoamento e formação sobre vários aspectos. Somos de Minas Gerais e temos uma história muito peculiar aqui no estado graças aos achados do ouro e de diamantes. A chamada Febre do Ouro fez com que Minas efetuasse a maior migração de gente da Europa pra cá, todo mundo atrás do enriquecimento rápido pelo ouro e pedras preciosas. 

Os europeus e sertanistas  enfrentaram serras altíssimas, feras desconhecidas, índios ferozes e muitas outras adversidades pra encontrar seus tesouros nas bandas de cá; eram aventureiros destemidos e gananciosos, muitas vezes fugidos ou exilados de Portugal. Somou-se a este ideário da riqueza rápida um número absurdo de escravos trazidos da África e todos os horrores da escravidão, a alta religiosidade dos jesuítas e das irmandades e ainda o despotismos de régulos donos do sertão. Pronto! Temos todos os ingredientes pra mais sangrenta e estranha história possível. Minas viveu um período que faria os faroestes americanos parecerem Ursinhos Puff. (Muito boa! hahaha)




RtM: Um tema muito Rico!
Bruno: Quero ainda, um dia, fazer um disco conceitual sobre este épico mineiro, vamos ver! Sobre a “Conjura”, queríamos de alguma  forma tratar desse movimento rebelde que vivemos no final do século XVIII, que ficou conhecido como a Inconfidência Mineira e que teve como mártir o alferes Silva Xavier, Tiradentes, que foi o único executado e teve seus membros espalhados pelo Caminho Novo da Estrada Real. Essa conjuração mineira é ainda muito estudada e vem sido desvendada ano a ano pela Historiografia. Não se tratou apenas de, como muito se falou, de uma  “Revolução dos Poetas”;  foi, sim,  um movimento heterogêneo e importante que reuniu intelectuais ilustrados (alguns poetas de renome e talento), fazendeiros, militares, homens poderosos e alguns desgraçados que vieram a trair o movimento como a hoje tão celebrada “Delação Premiada”, que pretendiam uma revolução anti colonialista e republicana, livrar a colônia da metrópole. Infelizmente essa tema nos soa atual, pois vemos o país se sublevando a interesses do IMPÉRIO e entregando suas riquezas, energia e muito do setor estratégico ao capital internacional e mesmo a governos imperiais.



RtM: “Turn” foi uma das que achei mais novidades com relação à suas composições anteriores, e é uma ótima canção, trazendo uma atmosfera mais suave, melodiosa, elementos Folk/Pop, que também percebi no projeto Auri, do Tuomas Holopainen e Troy Donockley. A letra também é muito bonita “Esta vida é uma tela em preto e branco, e cabe a você preenche-la com cores que você gosta...”, e o refrão fala em “Construir novas pontes fora das muralhas”. Nos fale um pouco mais a respeito dessa canção e sobre a letra dela.
Bruno: Eu não conheço esse som que você citou, embora conheça os caras. A “Turn” é uma peça diferenciada dentro do nosso cancioneiro, ela tem um groove bem empolgante, uns elementos talvez “pop” como você disse, mas tem seu peso também. A letra trata mais da omissão de que muitas vezes nos deixamos dominar, sabe? Quando não tomamos partido ou quando deixamos o lado mau vencer e preferimos não nos envolver. Muitas vezes o mal acontece porque o bom não se manifestou, e outras vezes, por achar que não precisamos nos envolver um fato isolado pode crescer em escala e se tornar situação. Acho que a letra  trata disso, ter de  pensar mais, não ser pensado por outros e não sermos omissos, conformados e permissivos.


RtM: “Warrior Queen” soa épica e dramática, com as melodias de flauta e bandolim em destaque, me transportou para uma cena da série Vikings! Ha ha! Conte-nos um pouco mais sobre essa faixa e as inspirações para compô-la.
Bruno: Essa aí foi a última música a entrar no disco. Um amigo queria uma trilha pra uma lutadora de MMA e queria algo bem bélico, medieval, celta, viking, essas coisas. Eu brinquei com ele mostrando um amontoado de clichês e ele adorou….daí eu me convenci que podia ficar legal sim se trabalhasse melhor essa inspiração que me veio meio que de brincadeira….deu no que deu. A letra é inspirada em grandes guerreiras e rainhas guerreiras celtas, como a Boudicca. É uma letra que enaltece a bravura de muitas mulheres, sua dignidade e protagonismo.



RtM: “Outcry”, originalmente gravada no "Dawn of a New Sun", ganhou uma versão mais folk/medieval, e pelo que pude ouvir, acredito que seja, se não 100%, quase totalmente acústica. E que pegada e força nas melodias marcantes e refrão!
Bruno: Adoramos fazer essa versão da Outcry, ficou bem folk mesmo! A letra, infelizmente, é um retrato do Brasil desde a época das descobertas até hoje em dia com essa situação colonial e de entrega ao capital estrangeiro que começou com Pau Brasil, Cana de Açucar, Ouro/Diamante, Café até chegar hoje em dia com o capital estrangeiro por trás das movimentações financeiras e nossos tesouros privatizados, vimos Mariana, Brumadinho e deve vir mais por aí, pois a mentalidade do capital é essa, a rapina: leva-se o lucro e deixa a miséria.


RtM: Outra que aparece em nova versão é “Tan Pinga Ra Tan” (gravada no álbum "Tingaralatingadun" de 2001), com arranjos orquestrais ficou com uma atmosfera incrível. Você teve a intenção de dar uma nova vida a esta importante canção?
Bruno: "Tan Pinga Ra Tan" (N. do R.: a terra da alegria e dos prazeres, criação do Tuatha, baseada nas mitologias que os inpiram) é uma de nossas músicas mais cantadas e queridas. Ela tem uma linda melodia que é forte e parece ser a trilha de um sonho. Queríamos abordá-la de uma outra forma e ficou muito legal assim.


RtM: E como você tem sentido as primeiras reações do público à novas canções nesses primeiros shows da tour?
Bruno: Cara, as pessoas que compraram o disco e falaram conosco tem gostado muito. Até agora as criticas tem sido bem positivas e melhor, eles apontam esses novidades que colocamos nas músicas como potências….Tá demais!!!

"Enquanto tiver gente respondendo a nossa música teremos estímulo pra continuar."
RtM: Finalizando, diga-nos quais as expectativas para este ano e o que vocês almejam para a banda, que possui as qualidades suficientes para alcançar um público maior mundialmente. Você acredita que tenham perdido um pouco de tempo também com o hiato até o lançamento de “Dawn of a New Sun”?
Bruno: Com certeza, ficamos muito tempo sem lançar nada novo. Em 2004, lançamos o “Trova di Danú”. Porém, se bobear, dados os problemas que tivemos com a gravadora naquele ano, o disco foi lançado mesmo  em 2005. Depois disso, lançamos o DVD acústico em 2009, o que foi muito massa até por sermos, acredito, a primeira banda brasileira de Metal a lançar um DVD acústico oficial.

Sofremos muito com atrasos de selos àquela época, o que acabou nos desmotivando, a mim principalmente, tanto que me fez lançar um disco solo ainda em 2007. Somou-se a a isso problemas internos e pessoais, e a banda parou em 2010 quando eu saí no fim do ano. Voltamos pouco tempo depois, mas foi sim muito tempo perdido. Sobre conquistar público maior mundo afora, esperamos que sim. Ávidos e cheios de vontade nós estamos, nunca foi tão legal o clima na banda e isso nos motiva a seguir em frente . . . enquanto tiver gente respondendo a nossa música teremos estímulo pra continuar.

Entrevista: Carlos Garcia
Fotos: Arquivo da banda

Line-Up:
Bruno Maia - vocais, flauta, guitarra, bandolim
Giovani Gomes - baixo, vocais
Edgard Britto - teclados 


Discografia:

2001 - Tingaralatingadun
2002 - The Delirium has Just Began
2004 - Trova di Danú
2015 - Dawn of a New Sun
2019 - The Tribes of Witching Souls
EPs
1999 - Tuatha de Danann
2016 - Tuatha de Danann (Relançamento do EP com 6 faixas bônus regravadas)
DVDs
2009 – Acoustic Live
Demos
1995 - The Last Pendragon (Primeira demo, lançada quando a banda se chamava Pendragon)
1998 - Faeryage (Segunda demo, agora com o nome 'Tuatha de Danann')

O álbum "The Tribe of Witching Souls" pode ser adquirido nos links abaixo:
Heavy Metal Rock Label/Store
Site Oficial da Banda
CD Baby
Die Hard Store