As bandas Atrocity, Arkona e Leaves’ Eyes desembarcaram em São Paulo no último dia 23 para apresentações memoráveis. Talvez devido ao grande número de eventos do gênero, o público foi modesto, mas extremamente participativo. O evento ocorreu no Carioca Club e apresentou um lineup diversificado dentro do metal extremo, com influências que vão do death metal ao folk e ao symphonic metal. A participação do público, embora reduzida, foi decisiva, já que os presentes interagiram ativamente, cantando e aplaudindo, o que contribuiu para uma atmosfera empolgante. No geral, as apresentações foram sólidas, com cada banda entregando performances competentes e fiéis ao próprio estilo, mantendo a magia que só acontecem em shows ao vivo.
A primeira banda da noite foi o Atrocity, grupo alemão de death metal formado em 1985 em Ludwigsburg. O conjunto é conhecido pela longa trajetória no cenário underground e por mesclar elementos do metal extremo com influências industriais e góticas em fases mais recentes. Fundado por Alexander Krull, vocalista e principal compositor, o grupo conta com integrantes como Thorsten “Tadd” Bauer na guitarra, entre outros músicos que contribuíram para álbuns relevantes. Com mais de três décadas de carreira, o Atrocity influenciou o metal europeu com composições marcantes e consolidou sua posição como referência do estilo por meio de uma discografia extensa e pela constante evolução sonora.
O Atrocity iniciou sua apresentação com um atraso de quinze minutos, o que forçou o corte da música “Necropolis” para adequação ao cronograma. Apesar disso, o grupo entregou um setlist consistente, incluindo “Desecration of God”, “Death by Metal” e “Reich of Phenomena”, que destacaram tanto o vocal gutural característico de Alexander Krull quanto o peso instrumental da banda. O público, pequeno, porém dedicado, respondeu de forma intensa, especialmente durante “Faces From Beyond” e “Bleeding for Blasphemy”. No geral, o show foi poderoso e atendeu às expectativas dos fãs de metal extremo, demonstrando profissionalismo ao compensar o atraso com uma performance coesa e envolvente.
Em seguida, veio o Arkona, que é uma banda russa de pagan folk metal formada em 2002 em Moscou e que se destaca pela fusão de elementos tradicionais da cultura eslava, como flautas e percussões folclóricas, com o peso do metal extremo. Liderada por Masha “Scream” Archipova, vocalista e principal letrista, a banda conta com músicos como Sergei “Lazar” Atrashkevich na guitarra, além de outros integrantes que incorporam instrumentos étnicos às composições. Com álbuns consagrados, o Arkona obteve reconhecimento internacional ao celebrar o folclore pagão e a mitologia eslava, misturando vocais limpos e agressivos em um som marcante.
A apresentação do Arkona no Carioca Club seguiu sem imprevistos e ofereceu um show dinâmico que reforçou a proposta estética do grupo. Com um setlist que incluiu “Kob’”, “Ydi” e “Goi, rode, goi!”, a banda envolveu o público com performances enérgicas conduzidas pela presença marcante de Masha Archipova. A participação da plateia foi incrivel, especialmente durante “Khram” e “Zimushka”, criando um ambiente imersivo. O show foi bem executado, mantendo qualidade sonora e entregando uma experiência culturalmente rica que atendeu às expectativas e reforçou o apelo da banda no cenário metal brasileiro.
Fechando a noite, era a vez do Leaves’ Eyes. Banda alemã de symphonic metal formada em 2003. O grupo foi originalmente idealizado pela vocalista norueguesa Liv Kristine, ex-Theatre of Tragedy, que contribuiu com uma abordagem lírica e operística ao lado de Alexander Krull (também do Atrocity) e demais integrantes responsáveis por acrescentar elementos orquestrais e temáticas vikings ao som da banda. Com discos dedicados à mitologia nórdica e arranjos sinfônicos marcantes, o Leaves’ Eyes consolidou presença internacional e participação constante em grandes festivais.
O show do Leaves’ Eyes no Carioca Club foi uma excelente surpresa, contrastando com o peso das bandas anteriores. A apresentação destacou o caráter sinfônico e melódico do grupo, que abriu com “Chain of the Golden Horn” e incluiu “Hammer of the Gods”, “Who Wants to Live Forever” e outras faixas marcantes. A banda entregou um setlist variado, evidenciando a qualidade vocal e a presença cênica de Liv Kristine. A plateia, embora pequena, participou de forma ativa, especialmente durante “My Destiny”, sendo ainda surpreendida com doses de vodca distribuídas pela banda. Outro destaque foi a apresentação de “Song of Darkness”, faixa anunciada como parte do próximo trabalho. No geral, a performance foi excelente e reforçou o domínio de palco do grupo, sobretudo em “Sign of the Dragonhead”, momento em que Alexander surgiu com vestimentas medievais e empunhando uma espada, elevando ainda mais o clima teatral da apresentação.
Em síntese, as três bandas apresentaram shows de qualidade, mantendo o público engajado e satisfeito. Para um domingo à noite, o lineup diversificado atraiu os fãs verdadeiros, provando que não é sobre quantidade, mas da qualidade e da entrega daqueles que contribuem para fazê-lo acontecer.
Odin’s Krieger Festival mistura humor com medieval em shows de Nanowar of Steel e Heidevolk
O humor italiano e o folk metal viking holandês combinam muito bem, e festival, que também contou com outras apresentações diversas nacionais, valeu a pena presenciar
O Odin’s Krieger Festival já é tradicional! Ano após ano, a festa atrai apreciadores de costumes e da cultura medieval fantástica, além de adeptos da história e mitologia nórdica, celta, e todo tipo de história e fé pagãs. Mesmo sem shows, só o encontro temático dessa ou dessas tribos já seria sensacional, mas com grandes apresentações, tudo fica melhor. Tivemos!
Embora, devo dizer, o público parecesse abaixo do que tivemos em 2024, ainda era respeitável, com mais da metade do Carioca Clube cheio. Bem, era de se esperar, já que as atrações do ano anterior eram mais populares, com Dogma e Wind Rose. Neste ano corrente, tivemos ainda um repeteco: O Heidevolk já havia estado no mesmo festival alguns anos antes.
OAKLORE FAZ TRIBUTO AO FOLK “GEEK”:
Uma aguardada atração nacional era o Oaklore, um grupo de música folclórica que já se tornou conhecido no circuito de eventos “folk”. Talvez uma das coisas mais legais deles, é que você vai se sentir “em casa” quando estiver em seus shows: grande parte de seu repertório é de temas musicais que somos acostumados a ouvir no nosso dia-a-dia (bem, ao menos quem é ligado em videogames, filmes e séries), com canções que vão de Senhor dos Anéis, uma das grandes inspirações da existência do grupo, segundo o que disseram no palco - bem, podemos compreender isso, já que o filme, do qual tocaram temas no show, é uma das maiores obras audiovisuais do gênero. Pessoalmente, fiquei extremamente emocionado ao tocarem um mix de temas de The Witcher 3, que é meu jogo preferido. Tão bem executado foi, que chegou a ser emocionante para fãs da franquia, do personagem Geralt of Rivia, e desse universo fantástico. Excelente apresentação, que serviu perfeitamente como “esquenta” para o que viria.
Vale frisar que, no meio tempo entre os shows, não há nenhum tipo de tédio! vários stands de lojas dos mais variados produtos, comuns, exóticos, artesanais, que iam de hidromel a velas aromáticas. Tem para todo tipo de público, e isso já vem de ano após ano - sempre ótimas opções, embora muitas vezes pagando um preço bem salgado.
NANOWAR OF STEEL TRAZ BOM HUMOR, HITS HILÁRIOS, E… VAMPETAÇO!:
Sejamos diretos: você nunca vai rir tanto em um show de rock quanto no do Nanowar of Steel! Conhecido recentemente pelo engraçadíssimo hit Norwegian Reggaeton, que parodia tanto o reggaeton latino, quanto o black metal norueguês, foi a primeira vez que a banda italiana esteve no Brasil, depois de muitos pedidos. Valeu a espera!
Sandra Rosato
A banda entrou com o visual mais bizarramente divertido possível: cada um dos integrantes com uma fantasia mais “zoeira” que a outra, sendo o vocalista Mr. Baffo o ápice, vestido com quase um cosplay de “loli” de animes - só imagine um sujeito barbado fazendo isso, é sensacional! Apesar da zoeira, todos tocam absurdamente bem, e as músicas são executadas exatamente como deveriam.
Sandra Rosato
Alguns momentos completamente absurdos fazem parte da festa. O outro vocalista, Potowotominimak colocou uma máscara do monstro Cthulhu, da obra de HP Lovecraft, durante a canção The Call of Cthulhu, com um telefone em mãos. Entenderam o trocadilho?! Ou o momento incrível quando um sujeito vestido do pássaro “malvado” Cacciatore entrou no palco, na canção Il Cacciatore della Notte. Também tivemos um “wall of love”, uma espécie de wall of death, mas onde todos se abraçam - ainda com Careless Whisper, de George Michael, de fundo, seguido pelo cover do cantor inglês da música de mesmo nome.
Sandra Rosato
Mas provavelmente o momento mais sensacional do magnífico show foi quando alguém atirou uma bandeira com a foto do ex-jogador Vampeta nu, apenas com a foto de Varg Vikernes, do Burzum, tampando suas genitais, em referência ao episódio quando o dito vocalista de black metal falou mal de brasileiros no twitter, e os usuários brasileiros começaram a lhe mandar fotos do ensaio do ex-atleta para a extinta revista G Magazine - ficou conhecido como “Vampetaço”. Eles realmente exibiram aquilo no palco!
Sandra Rosato
Seu grande hit, Norwegian Reggaeton, claro, foi um dos pontos mais altos. Todos sabiam cantar a música! Os sorrisos e risos eram nítidos por todos os cantos. Realmente, eles roubaram a cena, mesmo não sendo a atração principal da noite.
Sandra Rosato
Entre as apresentações, tivemos uma bela apresentação de dança, que serviu muito bem de aquecimento, além de uma batalha esportiva de espadas, o que fez com que não ficasse nada cansativa a espera para o próximo show.
Sandra Rosato
HEIDEVOLK FECHA A NOITE COM BOA APRESENTAÇÃO DE FOLK METAL, MAS OFUSCADA PELA ANTERIOR:
Trocamos o humor pelo verdadeiro folk metal. Diretamente da Holanda, um dos maiores celeiros de bandas bem sucedidas do mundo, o Heidevolk fazia sua segunda participação no Odin’s Krieger Festival. Claro que, pela proposta do evento, de celebrar a cultura medieval e nórdica, seriam a atração principal.
Sandra Rosato
Afiada, a banda veio ao país agora divulgando seu álbum Werderkeer, e não decepcionou. O som que apresentam faz todo o sentido para o evento, e logo de começo já era ovacionada pelo público. Uma coisa bem curiosa é que apesar de fazerem um som mais rápido, onde seria comum o uso de vocais agudos, os holandeses usam dois vocalistas com vozes extremamente parecidas e graves. Por um lado, isso dá um contraste, e deixa com uma certa cara “ritualística”, mas por outro, uma das vozes acaba ficando redundante, já que não há contraste entre ambas. No fim das contas, funciona. Outro ponto interessante é o idioma; não é comum ouvirmos músicas no idioma neerlandês, mas a banda prova que pode, sim, funcionar bem, a depender do estilo.
Sandra Rosato
O setlist foi conservador, mesmo longo. Tivemos, de começo, duas do último disco, como era de se esperar: Hagalaz e Klauwen Voorut. Não demorou para virem clássicos, com Winter Woede, Urth e A Wolf in my Heart. No geral, tudo muito completo, contemplando vários períodos de sua carreira.
Sandra Rosato
Terminamos o show com Vulgaris Magistralis, versão para a banda de rock holandesa Normaal, e a saideira com um grande clássico, Nehalennia, do já distante ano de 2010.
Sandra Rosato
Ótimo show, com belo som, e um público muito animado, e diversos mosh pits ao longo do show. Apesar do brilho, o fato do Nanowar of Steel ter feito uma apresentação inédita e extremamente divertida, que roubou a cena, ficou parecendo que quem deveria ter sido a atração final eram eles. De toda forma, o conjunto de ambas foi muito bom, e tudo foi muito bem aproveitado. Ambas bandas já têm um lugar no coração dos brasileiros, e podem voltar a qualquer momento, que será uma boa pedida de show!
Décadas se passaram e, até hoje, muitos afirmam que Minas Gerais é a capital do Heavy Metal brasileiro. Afinal, foi de lá que surgiu o maior nome do estilo no mundo, o Sepultura, além de excelentes bandas de death e thrash metal como Overdose, WitchHammer, Sarcófago e outras.
Anos mais tarde, a cena mineira também se tornou um celeiro do Folk Metal nacional, revelando nomes como Tuatha de Danann e Lothlöryen. É justamente esta última que, no próximo mês de setembro, lançará “…Of Bards and Madmen [Reimagined]”, uma releitura do álbum lançado há vinte anos.
Com novos arranjos e letras remodeladas, a obra conduz ao universo bardo, explorado com maestria por Daniel Felipe (vocal), Leko Soares (guitarra e vocal), Leo Ghigiarelli (baixo) e Lucas Bello (orquestrações e vocais). O álbum reúne dez faixas inspiradissimas, regadas de orquestrações grandiosas, backing vocals imponentes, passagens acústicas e toda a riqueza sonora que são características do gênero.
Faixas como "Ruins Of Fantasy, "Elfic" e "There And Back Again" — esta última com a participação do talentoso vocalista Raphael Dantas (Ego Absence) — representam bem a proposta, surpreendendo pelo equilíbrio entre peso e toda a abundância sonora citada acima de forma condensada. A sequência com a faixa-título e "Moriality" trazem o poder magnético do Power Metal, com riffs e solos que grudam na memória como cola Super Bonder, além de linhas vocais impactantes e envolventes. "Another Tale" (com leve influência de Avantasia e participação de Shoujy) e "Someday" acrescentam uma boa dose de teatralidade, sendo duas baladas carregadas de emoção.
A produção é outro ponto forte. Mesmo sendo uma regravação, a qualidade impressiona pela clareza e pelo peso. Cada detalhe é audível, especialmente quando se ouve com fones de ouvido, que aproximam o ouvinte da experiência sonora completa.
Mesmo com alguns torcendo o nariz e afirmando que, uma vez concebida uma obra não deve mais ser alterada, muitos — inclusive este que vos escreve — acabam resistindo à ideia. Mas, no caso de …Of Bards and Madmen [Reimagined], a mudança é positiva e abrasiva, pois esta nova versão se mostra ainda mais polida e resistente que a primeira. Então, já deixe sua IPA, sidra ou hidromel à mão, pois este álbum merece ser degustado com cada gole e ouvido atento, assim como toda a experiência que ele oferece.
"Ragnarøkkr" é o mais recente registro do Asgard, grupooriundo desde meados dos anos
80, que mistura sem medo folk medieval com o Heavy Metal. Diria até que as
guitarras e bateria servem mais de apelo extra. Emolduram composições que não
hesitam no uso de flautas, samples de teclado remetendo instrumentos medievais
e cânticos também daquele período.
"Trance-Preparation" tem um começo extremamente
metaleiro com o teclado mais progressivo. Logo em seguida há uma entrecortada
de cantoria barda sob batidas celtas. Franco Violo conduz as coisas como um Ian
Anderson para em seguida as sessões de heavy metal voltarem com força total.
Toma conta um palm mute de guitarra solando numa penta menor encerrando com
tappings. A guitarra se funde ao lado folk da canção e retorna ao princípio
para fechar com chave de ouro.
"Rituals" toca uma batida tribal em contraste de
flauta e alguma corneta medieval distorcida. O vocalista abre caminho para uma
passagem sombria reforçada pela guitarra e blast beat. A guitarra dá uma
revisada na melodia do começo paradepois gerar fraseados flutuantes ajudados pela harmonia leve do
sintetizador. Uma gaita de foles conversa com a guitarra. São interlúdios para
um recomeço meio cara de "canção pirata".
"The Night Of The Wild-Boar" tem levada melódica,
um pop cara de musical. Instrumentos se empilham no objetivo de criar um forro
pro canto. Apesar disso, tanto harmonia quanto melodia soam exóticas.
"Visions" é a mais metal, tem um climão de
batalha, seus vários riffs são costurados por melodias sintetizadas.
"Shaman" é iniciada por uma flauta, seu começo é
extremamente tranquilo. Aos poucos atinge um clima obscuro como se o ouvinte
entrasse num lugar servido de mistérios. As guitarras soam como um sino
martelado. A canção no final cai numa fúria progressiva.
"Battle" ecoa uma espécie de cravo cristalino,
chocalhos e acordes ressonantes na guitarra. A primeira parte se encaixaria
perfeitamente num videogame. Violo puxa uma direção Serj Tankian. Na segunda
metade, os teclados geram harmonias parecendo corais de igreja e a guitarra
distorcida gera clima macabro. Apesar de não ser frenética, ela passa um clima
de sofrimento enquanto escapam algumas ideias dançantes como se tudo não fosse
encenação de um épico.
"Anrufung" tem um início cerimonial. Na outra
metade vira uma dança folclórica repaginada para o peso do metal.
"Ragnarøkkr" uma das mais progressivas, fecha o
disco de modo sombrio e melancólico, o guitarrista Andrea Gottoli e o
tecladista Albert Ambrosi parecem mais livres para soltarem suas ideias.
Analisando tudo, o álbum despeja muitos conceitos e não faz
cerimônias em costurá-los abruptamente. O andamento de tudo é ondulado, não há
espaço para descanso. Algumas coisas poderiam ser melhor desenvolvidas mas são
logo jogadas para trás, com sorte relembradas nos momentos finais das
faixas.Alguns samples no sintetizador
me incomodaram um pouco, muito artificiais, acredito que espantem parte dos
ouvintes também.
É uma experiência diferente. Canto e melodias conservam o
espírito dos antigos trovadores e os integrantes manipulam isso com novos
recursos tecnológicos. O resultado soainusitado. O registro é mais indicado para aqueles que já curtem trilhas
sonoras épicas e metal progressivo. O excesso de informação e escolha de
timbres pode afugentar a maioria.
O Eluveitie nasceu em 2002 sob a
imponência e misticismo dos Alpes suíços, e sua música inspirada na mitologia
celta, história gaulesa e a cultura protoindo-europeia. O grupo foi se tornando
um dos grandes nomes do Folk Metal, sub-estilo do Heavy Metal que,
naturalmente, mixa as nuances tradicionais do gênero, além do Melodic Death
Metal às influências folclóricas, utilizando sonoridades e instrumentos típicos
da cultura celta e gaulesa.
Desde sua estreia com o álbum “Spirit” (2006)
a banda começou a criar uma identidade musical bem própria, trazendo letras
também bem profundas, abordando temas históricos, filosóficos e folclóricos.
O sucesso e reconhecimento
mundial chegaram com o álbum “Slania” (2008), o qual foi considerado o trabalho
que consolidou o estilo da banda, e até então, o auge de sua maturidade. Inclusive o álbum recebeu uma nova versão comemorando os 10 anos de seu lançamento.
E agora em 2019, a banda
apresentou seu novo trabalho, “Ategnatos”, que é a palavra gaulesa para
“renascer”. Um álbum místico e filosófico, onde o Eluveitie traz a mitologia, a
crença pagã e a espiritualidade para o nosso mundo moderno. Mudança e renovação.
Isto, naturalmente, tem um preço.
Sempre há sofrimento antes da felicidade. E sempre
há escuridão antes da luz. Obscuro e sério em sua atmosfera e carisma, e também
oculto, arcano e elitista, o álbum em si é um manifesto, um trabalho altamente
dramático e embelezado no qual a sociedade de hoje se vê no espelho da antiga
mitologia e cultura celta.
A banda retornou ao Fascination Studios, onde também mixaram "Slania". A sonoridade, cada vez mais
lapidada e trabalhada, muitas vezes com composições melodiosas e limpas, como
“Ambiramus”, que segue aquela linha de músicas como "A Rose For Epona", por exemplo, com belas melodias, vocais femininos e um folk mais contemporâneo, canções que são capazes de agradar ouvidos menos acostumados ao estilo e
aos momentos de mais peso.
E o peso e densidade sonora são também adjetivos do som dos suíços, pois as músicas são preenchidas por esses elementos folk, que se juntam ao peso e agressividade nas peças mais voltadas ao Melodic Death e Folk
Metal mais direto, como podemos perceber na própria faixa título.
O peso do Eluveitie é diferente, principalmente onde as canções trazem atmosferas místicas, quase com ar de trilha sonora de série ou filme épico, casando perfeitas com o conceito lírico como por exemplo em “The Raven
Hill”.
São 16 faixas, mas o grupo soube dosar com equilíbrio as músicas, mantendo o álbum sempre interessante, intercalando momentos mais pesados e agressivos, com essas peças mais melodiosas, com atmosferas mágicas, por vezes melancólicas, como a já citada "Ambiramus" e também em "Breathe", onde mais uma vez se destacam os vocais femininos, os instrumentos étnicos e os violinos.
Chrigel Glanzmann
Os arranjos orquestrais preenchidos pelo colorido dos instrumentos étnicos é destaque também, como em "The Slumber", onde os vocais limpos femininos e guturais se contrapõem, gerando uma atmosfera bela, pesada e mágica.
A banda destaca que compôs o
álbum enquanto estava na Universidade de Artes de Zurique e consideram o
processo um produto de toda a banda, espontâneo, resultado das ideias dos nove
membros, onde as canções foram sofrendo modificações enquanto ainda estavam em
desenvolvimento.
O Eluveitie é uma banda diferente, merece o reconhecimento mundial, e mesmo com as diversas trocas de formações, seu líder Chrigel Glanzmann tem o mérito de guiar a formação da personalidade da banda, mantendo-a, mas sem abrir mão da evolução, e "Ategnatos" é a prova.
O álbum está disponível no Brasil pela gravadora Shinigami Records, trazendo uma edição com faixas bônus.
Da fria e bela Finlândia tivemos
o prazer de presenciar a nova tour - a “Queen
of Time Tour”, que divulga seu 13° álbum de estúdio “Queen of Time” – do ícone
Amorphis, que desta vez passou por Porto Alegre.
É interessante notar que mesmo
com toda sua mudança musical o Amorphis mantém uma legião de fãs bastante
solida, claro, alguns se dividem, até mesmo pela questão de preferirem a fase
mais extrema e outros a fase mais experimental, mas o que fica é a qualidade e
a evolução eminente em sua música.
O local escolhido para o show foi
o Centro de Eventos da Fiergs, complexo este que também estava recebendo o
maior evento de tatuagem do Brasil, o Inked Art Tattoo (realizado nos dias 11,
12 e 13 de abril) e nada melhor que na segunda noite do mesmo receber está
grande atração do Metal mundial.
Em termos de estrutura só temos
elogios, pois o local escolhido foi de um acerto absurdo tendo acessibilidade e
bastante comodidade para os que ali estavam para assistir ao show, além da
ótima sonorização apresentada, muito bem equalizada e soando sem falhas e sem
contar o ótimo atendimento dos funcionários do local.
Após a montagem de palco
finalizada – muito bela por sinal – não demora para a intro ecoar nos PA’s e os
monstros mostrarem ao que vieram despejando logo de cara “The Bee” e “The
Golden Elk” (ambas do álbum mais recente) que agitou os presentes, com uma
banda extremamente entrosada e cheia de feeling.
O que me chamou a atenção do show
em si, foi a predileção pela fase de Tomi Joutsen no grupo, respectivamente o
vocalista que mais tempo ficou à frente do Amorphis e gravou mais discos, ao
total de sete até o momento. Não que isso seja ruim, mas da fase inicial que
muitos também gostam (me incluo nela) tivemos só a clássica “Black Winter Day”,
as demais todas pertencentes aos álbuns com a voz de Tomi.
Mas claro que grandes clássicos
surgiram desta “nova” - “velha” fase como: “Sky Is Mine” (emocionante no mínimo),
“Silver Bride” e “House Of Sleep”.
Vale destacar a presença de palco
da banda e todo seu comprometimento com o público, interagindo e sendo mais do
que atenciosos, mostrando que não era apenas mais um show da turnê, mas que
estavam felizes de estarem ali nos brindando com sua musicalidade única pela
primeira vez.
Demorou, mas enfim Porto Alegre
recebeu o Amorphis saciando a vontade dos fãs, tendo um ótimo público que se
mostrou presente desde a primeira nota executada. Agora é torcer pela volta dos
finlandeses o quanto antes!
O trio folk rock/metal Cellar
Darling está de volta! “The Spell” foi lançado no dia 22 de março via Nuclear
Blast Records.
Em seu primeiro álbum, os suíços já
haviam mostrado um trabalho diferente de suas raízes no Eluveitie e em “The
Spell” aparentemente ainda estão explorando novos territórios, trazendo o
conceito de um conto de fadas moderno.
A primeira faixa do álbum “Pain” já
começa com o som encantador do hurdy-gurdy de Anna Murphy. Na canção seguinte
“Death” mais uma vez há uma interpretação perfeita de Anna que nos guia pela
narrativa, onde uma garota à procura do sentido da vida se apaixona pela morte.
“Love” provavelmente é uma das minhas músicas favoritas do álbum, começa com
alguns riffs mais pesados e evolui de forma cada vez mais melódica, com um
piano contribuindo para um tom mais clássico. Na faixa título “The Spell”, a
linda e doce voz de Murphy rouba os holofotes.
Para quem sentia falta, em
“Burn” podemos ouvir uma mistura de guitarras pesadas, bateria, vocais suaves e
rosnados. Nesse disco senti um capricho maior na instrumentação das músicas,
trazendo mais sons de piano, que agregaram muito mais às melodias. Em “Hang” é
inevitável se hipnotizar pelo som da flauta de Anny.
Os vocais de
“Sleep” trazem um clima melancólico, sombrio, enquanto o piano nos guia em uma
jornada emocional. “Insomnia” é o ponto mais experimental do álbum, causando
uma certa estranheza na primeira audição, mas já na segunda você é cativado
pelo solo de hurdy gurdy e aí não tem mais volta, o belo refrão ficará em sua
cabeça. Impossível não se apaixonar pelos acordes mais hard rock de “Freeze”.
A
curtinha “Fall” serve como uma introdução operística para “Drown”, uma música
coesa e impressionante por seus vocais teatrais. Anna se destaca o tempo todo
em ”Love Pt. 2” com vocais bem angelicais e ao mesmo tempo emotivos. “Death Pt.
2” flui como um encerramento perfeito para esta obra prima.
Durante o álbum
todo o Cellar Darling apresenta um som tão sincero e confiante que só nos deixa
curiosos para saber o que o podemos esperar do próximo trabalho. A banda provou
que tem um som original e inovador, mostrando que é possível agregar elementos
folk à um som mais moderno. Ainda é cedo para dizer que é o melhor álbum do
ano, mas com certeza ele estará entre meu TOP 10.
O Tuatha de Danann surgiu em Varginha, Minas Gerais, em 1994, ainda sob o nome Pendragon, mudando para o nome atual pouco tempo depois, pois procuravam algo que melhor se encaixava às inspirações do grupo na música e culturas celta. Tuatha de Danann era o povo da deusa Danu, raça de seres encantados da Irlanda mítica. A banda foi forjando uma identidade musical muito forte e original, mesclando o Heavy Metal às nuances celtas, folk e medievais, além de outros ingredientes. O certo é que no Tuatha de Danann a liberdade criativa é a palavra de ordem. (Read the english version)
Com seis trabalhos de estúdio lançados, sem contar a regravação de 2016 do primeiro EP, o Tuatha de Danann sempre se colocou entre as principais e mais originais bandas do cenário brasileiro, inclusive conquistando muitos fãs e bons resultados em diversos países da Europa, tendo se apresentado no Wacken em 2005, durante a divulgação de "Trova di Danu" (2004), álbum lançado por um grande selo, e que alçou a banda a um patamar maior, inclusive proporcionando a gravação do DVD acústico "Acoustic Live" (2009), porém alguns desgastes, atrasos e descumprimentos de prazos pela gravadora, além de outros fatores, levaram a dissolução da banda em 2010.
Mas em 2013 a banda retorna disposta a recuperar o tempo perdido, e lançam em 2015 o elogiado "Dawn of a New Sun". Agora em 2019 o Tuatha de Danann apresenta seu álbum mais diversificado, "The Tribes of Witching Souls", trazendo as características marcantes de sua sonoridade, como as melodias celtas e medievais, canções com climas festivos e empolgantes, mas também com temáticas mais sérias e atuais, e até fatos históricos de Minas Gerais.
Conversamos com o fundador, vocalista e multi-instrumentista Bruno Maia para saber um pouco mais sobre o novo álbum, a parceria com Martin Walkyer (Ex-Skyclad), o posicionamento firme da banda contra injustiças, ganância, racismo, e fascismo, ou seja, elementos tóxicos que têm crescido preocupantemente. Confira!
Road to Metal: Para começar, gostaria que você
falasse a respeito da atual fase da banda, desde o retorno com “Dawn of a New
Sun” após um hiato, e agora com este novo trabalho, “The Tribes of Witching
Souls”. Gostaria que você falasse sobre o que aquele hiato e as mudanças na formação representaram para a banda.
Bruno Maia: Houve um hiato de 3 anos sem
banda. Isso foi de dezembro de 2010 até meados de 2013. Voltamos em 2013 para
alguns shows esporádicos e daí lançamos o “Dawn” em 2015. O “Dawn” foi um disco
que gostei demais de fazer e lançar, pois pessoalmente meus últimos 2
lançamentos até o “Dawn” tinham sido bem complexos, bem progressivos, que foram
o disco do Braia e do Kernunna, e o “Dawn” veio mais direto, sem tanta viagem,
do jeito que precisava. Adoro esse disco e o som dele. Depois disso, lançamos
em 2016 uma nova versão de nosso primeiro disco, daí o guitarrista saiu em
2017, e em 2018, bem no início do ano, foi a vez do Rodrigo baterista; ambos
saíram por conta própria e nós, nunca pensamos em parar.
RtM: Vocês seguiram então somente com 3 membros oficiais.
Bruno: Hoje, de membros
fundadores estou eu e o Giovani na formação, já o Edgard está conosco
oficialmente há apenas 15 anos e nosso relacionamento é muito legal, positivo e
sem fissuras. Temos todo o clima e amizade necessários para continuar com o
Tuatha por muito tempo ainda e pra mim, sinceramente, a banda vive um ótimo
momento repleto de leveza, vontade e positividade. As coisas não acontecem por
acaso, foi necessário isso tudo acontecer pra banda estar aqui ainda e o fato
de termos lançado um trabalho novo com tanta relevância agora é a prova disso
que falo.
RtM; Você já vinha falando que este novo
álbum seria o mais diversificado da banda. Algo que percebi foi uma atmosfera
mais “séria”, digamos, com menos temas fantástico e “festivos”. Quais elementos
você acredita que são os mais diferentes e surpreendentes que o ouvinte vai
encontrar?
Bruno: O disco é bem diversificado
mesmo, pode sacar que as músicas não tem nada a ver uma com a outra, mas todas
carregam um elemento Tuatha. Temos uma carga identitária muito forte que foi
moldada ao longo dos anos, uma marca composicional que possuímos que só o
Tuatha tem, ou no máximo alguma coisa do Braia ou Kernunna. Os elementos mais festivos
e alto astral você encontrará apenas na faixa título (talvez até demais, uma vez
que essa música é uma das mais positivas e pra cima que já ouvi), já as outras
tem elementos diversos que vêm de fontes variadas de inspiração.
"O motivo de continuarmos a criar é ser relevantes pra nós mesmos e nossa música ser capaz de nos desafiar e encantar."
RtM: O Tuatha é
uma daquelas bandas que possuem uma sonoridade própria, algo difícil,
principalmente em tempos atuais, e também, acredito, proporciona uma liberdade
musical ampla, permitindo ousar, e neste álbum ficou demonstrada ainda mais
essa liberdade, e a sensação de que a banda pode ir ainda muito mais além.
Gostaria que você comentasse a respeito.
Bruno: Que
legal você captar isso! É gratificante que alguém fora do núcleo criador perceba
isso e aponte. Mas eu acredito que este é o motivo e o porquê de continuarmos a
fazer música: ser relevantes pra nós mesmos e nossa música ser capaz de nos
desafiar e encantar ainda. Não faria sentido fazer o mesmo som sempre. E o mais
legal é que conseguimos isso sem abandonar nossos elementos próprios e tão
característicos. Creio que estamos vestidos de nós mesmos e sem medo de seguir
adiante.
RtM: Sim, justamente, se o músico não buscar se desafiar, ousar, acredito que, tanto ele como o público perderão o interesse! Bom, você já citou antes a faixa título, que também foi o primeiro single, e ela trouxe os elementos já familiares aos fãs da banda, uma típica
música do Tuatha. Vocês escolheram já a canção principal justamente por isso?
Gostaria também que você falasse um pouco mais sobre ela.
Bruno: Exatamente, a “Tribes…” foi
lançada primeiro até pra galera que nos acompanha sacar que a banda continuava
firme e forte. Esse som é um trem 100% Tuatha de Danann . . . ela tem a levada
típica de nossas aberturas de disco, o clima pra cima, com abafadas legais de
guitarra, uma melodia bem Beatles e os temas celtas perpassando toda a canção.
Sem contar com a participação dos duendes e tudo mais.
RtM: Já o segundo single, “Your Wall
Shall Fall”, traz elementos diferentes, tratando um tema bem atual e forte,
saindo das temáticas mais fantasiosas. E tem um convidado bem especial, Martin
Walkyier, ex-Skyclad, e grande influência do Tuatha. Gostaria que você falasse
um pouco mais a respeito dessa canção e claro, da participação do Martin.
Bruno: Cara, essa música a gente tinha
feito em 2017, da última vez que ele esteve aqui no Brasil, mas ele nunca
ficava satisfeito com a letra, sempre a mudava, o que foi, inclusive, um dos
motivos desse lançamento atrasar . . . MAS, é uma canção muito forte, muito
pesada e direta, se comparada a outras do Tuatha de Danann, e a letra do Martin é
fabulosa, como sempre. A gente ficou muito amigo ao longo dos anos e ficou
muito natural as participações. Hoje em dia soa natural, mas há 15 anos isso (ser parceiro do Martin) seria um sonho. Um sonho alcançado!
"Creio que estamos vestidos de nós mesmos e sem medo de seguir adiante."
RtM: O vídeo para essa música também
ficou muito legal, inclusive houve uma campanha da banda para que os fãs,
admiradores e amigos enviassem vídeos, os quais alguns seriam usados na edição
do clipe. Fale-nos mais a respeito dessa ideia e sua avaliação sobre o
resultado final, e se as reações, ao vídeo e canção, foram os esperados.
Bruno: Foi muito legal essa coisa! Foi
ideia do próprio Martin, pois pessoas de qualquer lugar do mundo poderiam
comprar essa ideia. A letra, embora faça alusões ao “famigerado” muro do Trump,
questiona a ganância, a tirania do mercado, os governos autoritários,
beligerantes e criticatudo que divide e
oprime o ser humano. É um tema anti tirania e fascismo. Gente dos EUA, Irlanda,
Rússia, França, México e vários outros locais enviaram vídeo.
RtM: Aproveitando o tema, parabéns a
você e a banda por tocar em assuntos mais delicados, e por posicionamento
importante em momento complicado, tanto da humanidade em geral, quanto no nosso
país. E gostaria de saber sua opinião quanto ao papel dos músicos, mesmo
sofrendo críticas de algumas pessoas, em mostrar um posicionamento claro e
firme contra injustiças e desigualdades sociais.
Bruno: O mundo inteiro está
experimentando um tipo de guinada à direita e à violência (seja esta no nível
discursivo ou físico). Não é só aqui no Brasil, infelizmente. Vivemos numa
época que, em teoria, é a que mais temos acesso a informação, a conteúdos, a
obras inteiras, trabalhos científicos de universidades do mundo todo e que,
mesmo assim, sinistramente, existe muita gente que se informa pelo telefone
através de vídeos ou memes quaisquer produzidos por sabe-se lá quem, sabe-se lá
por quais motivos e sabe-se lá financiado por quem. Aqui no Brasil a coisa
ficou tão noia que há muitosseguidores
de astrólogos,de músicos crentes frustrados,
tem gente que acha que tortura é algo besta, que é coisa pouca. Muita gente
relativizando a desumanidade, a crueldade e a ternura. Quanto ao papel do
músico, não acho que ninguém é obrigado a fazer música ativista ou política,
mas acho de uma contraditoriedadedoente
o tal do headbanger conservador.
RtM: Prosseguindo com os temas do álbum,
“Conjura” é uma de minhas preferidas, e traz uma tema histórico, sobre a
Inconfidência Mineira. Gostaria que você comentasse mais a respeito dessa
canção e a ideia de falar sobre esse tema.
Bruno: Pois é, pode soar como uma grande
e fabulosa quimera, uma banda brasileira que canta em inglês, tem um nome
celta, influências da música tradicional irlandesa tratar de um assunto tão
brasileiro em uma canção. Mas é isso! Eu sou um estudioso da história de Minas
Gerais, seu período colonial, seu povoamento e formação sobre vários aspectos.
Somos de Minas Gerais e temos uma história muito peculiar aqui no estado graças
aos achados do ouro e de diamantes. A chamada Febre do Ouro fez com que Minas
efetuasse a maior migração de gente da Europa pra cá, todo mundo atrás do
enriquecimento rápido pelo ouro e pedras preciosas. Os europeus e
sertanistasenfrentaram serras
altíssimas, feras desconhecidas, índios ferozes e muitas outras adversidades
pra encontrar seus tesouros nas bandas de cá; eram aventureiros destemidos e
gananciosos, muitas vezes fugidos ou exilados de Portugal. Somou-se a este
ideário da riqueza rápida um número absurdo de escravos trazidos da África e
todos os horrores da escravidão, a alta religiosidade dos jesuítas e das
irmandades e ainda o despotismos de régulos donos do sertão. Pronto! Temos
todos os ingredientes pra mais sangrenta e estranha história possível. Minas
viveu um período que faria os faroestes americanos parecerem Ursinhos Puff. (Muito boa! hahaha)
RtM: Um tema muito Rico!
Bruno: Quero ainda, um dia, fazer um disco conceitual sobre este épico mineiro,
vamosver! Sobre a “Conjura”, queríamos
de algumaforma tratar desse movimento rebelde
que vivemos no final do século XVIII, que ficou conhecido como a Inconfidência
Mineira e que teve como mártir o alferes Silva Xavier, Tiradentes, que foi o
único executado e teve seus membros espalhados pelo Caminho Novo da Estrada
Real. Essa conjuração mineira é ainda muito estudada e vem sido desvendada ano
a ano pela Historiografia. Não se tratou apenas de, como muito se falou, de
uma“Revolução dos Poetas”;foi, sim,um movimento heterogêneo e importante que reuniu intelectuais
ilustrados (alguns poetas de renome e talento), fazendeiros, militares, homens
poderosos e alguns desgraçados que vieram a trair o movimento como a hoje tão
celebrada “Delação Premiada”, que pretendiam uma revolução anti colonialista e
republicana, livrar a colônia da metrópole. Infelizmente essa tema nos soa
atual, pois vemos o país se sublevando a interesses do IMPÉRIO e entregando
suas riquezas, energia e muito do setor estratégico ao capital internacional e
mesmo a governos imperiais.
RtM: “Turn” foi uma das que achei mais
novidades com relação à suas composições anteriores, e é uma ótima canção,
trazendo uma atmosfera mais suave, melodiosa, elementos Folk/Pop, que também
percebi no projeto Auri, do Tuomas Holopainen e Troy Donockley. A letra também
é muito bonita “Esta vida é uma tela em preto e branco, e cabe a você
preenche-la com cores que você gosta...”, e o refrão fala em “Construir novas
pontes fora das muralhas”. Nos fale um pouco mais a respeito dessa canção e
sobre a letra dela.
Bruno: Eu não conheço esse som que você citou, embora conheça os caras. A “Turn” é uma peça diferenciada dentro do nosso
cancioneiro, ela tem um groove bem empolgante, uns elementos talvez “pop”como você disse, mas tem seu peso também. A
letra trata mais da omissão de que muitas vezes nos deixamos dominar, sabe?
Quando não tomamos partido ou quando deixamos o lado mau vencer e preferimos
não nos envolver. Muitas vezes o mal acontece porque o bom não se manifestou, e
outras vezes, por achar que não precisamos nos envolver um fato isolado pode
crescer em escala e se tornar situação. Acho que a letratrata disso, ter depensar mais, não ser pensado por outros e não
sermos omissos, conformados e permissivos.
RtM: “Warrior Queen” soa épica e
dramática, com as melodias de flauta e bandolim em destaque, me transportou
para uma cena da série Vikings! Ha ha! Conte-nos um pouco mais sobre essa faixa
e as inspirações para compô-la.
Bruno: Essa aí foi a última música a
entrar no disco. Um amigo queria uma trilha pra uma lutadora de MMA e queria
algo bem bélico, medieval, celta, viking, essas coisas. Eu brinquei com ele
mostrando um amontoado de clichês e ele adorou….daí eu me convenci que podia
ficar legal sim se trabalhasse melhor essa inspiração que me veio meio que de
brincadeira….deu no que deu. A letra é inspirada em grandes guerreiras e
rainhas guerreiras celtas, como a Boudicca. É uma letra que enaltece a bravura
de muitas mulheres, sua dignidade e protagonismo.
RtM: “Outcry”, originalmente gravada no "Dawn of a New Sun", ganhou uma versão mais folk/medieval,
e pelo que pude ouvir, acredito que seja, se não 100%, quase totalmente
acústica. E que pegada e força nas melodias marcantes e refrão!
Bruno: Adoramos fazer essa versão da
Outcry, ficou bem folk mesmo! A letra, infelizmente, é um retrato do Brasil
desde a época das descobertas até hoje em dia com essa situação colonial e de
entrega ao capital estrangeiro que começou com Pau Brasil, Cana de Açucar, Ouro/Diamante,
Café até chegar hoje em dia com o capital estrangeiro por trás das
movimentações financeiras e nossos tesouros privatizados, vimos Mariana,
Brumadinho e deve vir mais por aí, pois a mentalidade do capital é essa, a
rapina: leva-se o lucro e deixa a miséria.
RtM: Outra que aparece em nova versão é “Tan Pinga Ra
Tan” (gravada no álbum "Tingaralatingadun" de 2001), com arranjos orquestrais ficou com uma atmosfera incrível. Você teve a
intenção de dar uma nova vida a esta importante canção?
Bruno: "Tan Pinga Ra Tan" (N. do R.: a terra da alegria e dos prazeres, criação do Tuatha, baseada nas mitologias que os inpiram) é uma de nossas
músicas mais cantadas e queridas. Ela tem uma linda melodia que é forte e
parece ser a trilha de um sonho. Queríamos abordá-la de uma outra forma e ficou
muito legal assim.
RtM: E como você tem sentido as
primeiras reações do público à novas canções nesses primeiros shows da tour?
Bruno: Cara, as pessoas que compraram o
disco e falaram conosco tem gostado muito. Até agora as criticas tem sido bem
positivas e melhor, eles apontam esses novidades que colocamos nas músicas como
potências….Tá demais!!!
"Enquanto tiver gente respondendo a nossa música teremos estímulo pra continuar."
RtM: Finalizando, diga-nos quais as
expectativas para este ano e o que vocês almejam para a banda, que possui as
qualidades suficientes para alcançar um público maior mundialmente. Você
acredita que tenham perdido um pouco de tempo também com o hiato até o
lançamento de “Dawn of a New Sun”?
Bruno: Com certeza, ficamos muito tempo
sem lançar nada novo. Em 2004, lançamos o “Trova di Danú”. Porém, se bobear,
dados os problemas que tivemos com a gravadora naquele ano, o disco foi lançado
mesmoem 2005. Depois disso, lançamos o
DVD acústico em 2009, o que foi muito massa até por sermos, acredito, a
primeira banda brasileira de Metal a lançar um DVD acústico oficial.
Sofremos
muito com atrasos de selos àquela época, o que acabou nos desmotivando,a mim principalmente, tanto que me fez lançar
um disco solo ainda em 2007. Somou-se a a isso problemas internos e pessoais, e a banda
parou em 2010 quando eu saí no fim do ano. Voltamos pouco tempo depois, mas foi
sim muito tempo perdido. Sobre conquistar público maior mundo afora, esperamos
que sim. Ávidos e cheios de vontade nós estamos, nunca foi tão legal o clima na
banda e isso nos motiva a seguir em frente . . . enquanto tiver gente
respondendo a nossa música teremos estímulo pra continuar.
Entrevista: Carlos Garcia
Fotos: Arquivo da banda
Line-Up:
Bruno Maia - vocais, flauta,
guitarra, bandolim
Giovani Gomes - baixo, vocais
Edgard Britto - teclados
Discografia:
2001 - Tingaralatingadun
2002 - The Delirium has Just
Began
2004 - Trova di Danú
2015 - Dawn of a New Sun
2019 - The Tribes of Witching
Souls
EPs
1999 - Tuatha de Danann
2016 - Tuatha de Danann
(Relançamento do EP com 6 faixas bônus regravadas)
DVDs
2009 – Acoustic Live
Demos
1995 - The Last Pendragon
(Primeira demo, lançada quando a banda se chamava Pendragon)
1998 - Faeryage (Segunda demo,
agora com o nome 'Tuatha de Danann')