Por Stephanie Ferreira
Há bandas que passam décadas tentando preservar uma identidade. O Lacrimas Profundere fez algo um pouco mais complicado: passou décadas descobrindo quantas formas diferentes essa identidade poderia assumir sem deixar de ser reconhecível.
Formado em 1993, o grupo alemão atravessou o death/doom dos primeiros trabalhos, mergulhou no gothic metal e no dark rock e, nos últimos anos, incorporou elementos cada vez mais modernos à sua sonoridade. Lay Me Down O Silent Fear, lançado em 25 de setembro pela Steamhammer, chega quatro anos depois de How To Shroud Yourself With Night e encontra a banda em um ponto particularmente interessante dessa trajetória. São dez faixas distribuídas em pouco mais de 40 minutos, mas a sensação é de que o Lacrimas Profundere está tentando colocar várias versões de si mesmo dentro do mesmo disco.
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| Mick Figura |
1. Days Of Doom
A primeira faixa já dá uma pista importante sobre o caminho escolhido pela banda. Days Of Doom começa com um peso quase físico, sustentado por uma linha de baixo que evoca o doom e por guitarras que deixam o andamento mais encorpado. Quando Julian Larre entra com os vocais extremos, a música imediatamente ganha uma segunda camada de agressividade.
O detalhe que impede a faixa de virar simplesmente metal moderno é a maneira como a banda mantém a atmosfera gótica por baixo dessa brutalidade. Há melodia, há espaço para os vocais limpos e há aquele sentimento de decadência que sempre fez parte do DNA do Lacrimas Profundere.
2. Nevermore
Se Days Of Doom apresenta a faceta pesada, Nevermore lembra por que o Lacrimas Profundere ainda consegue funcionar tão bem quando simplesmente deixa o gothic rock respirar.
A guitarra assume um papel mais melódico, o andamento fica mais acessível e Larre abandona parte da agressividade para entregar um vocal limpo, grave e bastante expressivo. A atmosfera remete à tradição do gothic metal europeu, com aquela combinação de romantismo sombrio, melodia pegajosa e guitarras que parecem carregar uma espécie de nostalgia permanente.
3. Heart I Will Break You Before You Break Me
O título enorme combina perfeitamente com uma música que também se recusa a ser simples. Heart I Will Break You Before You Break Me começa trabalhando uma atmosfera mais contemplativa, mas logo abre espaço para guitarras mais pesadas, bateria mais intensa e mudanças vocais. É uma das composições que melhor representam a proposta híbrida do disco.
Há também um cuidado maior com as camadas de produção. Teclados e elementos orquestrais aparecem por trás da banda sem dominar a composição, aumentando a sensação cinematográfica.
4. O Silent Fear
Aqui o álbum finalmente revela seu verdadeiro cartão de visitas. Com mais de cinco minutos, O Silent Fear é uma das composições mais desenvolvidas do disco e também uma das mais agressivas. O riff principal tem uma energia que aproxima o Lacrimas Profundere do death metal melódico, enquanto os vocais extremos de Larre aumentam a sensação de urgência.
5. Agony (In Dread And Dust)
Depois de quatro músicas relativamente densas, Agony (In Dread And Dust) desacelera. A faixa mergulha mais profundamente no doom, com uma construção arrastada e um vocal que transmite mais resignação do que raiva. Larre trabalha muito bem essa mudança de registro, deixando os vocais extremos menos explosivos e mais integrados à atmosfera.
Talvez seja também uma das faixas que mais se beneficiam de repetição. Na primeira passagem, ela pode parecer menos imediata. Depois, os detalhes de guitarra, as camadas atmosféricas e o peso do arranjo começam a fazer mais sentido.
6. Faceless
Se existe uma música que coloca o lado moderno do Lacrimas Profundere no centro da mesa, é Faceless. O riff é mais direto, a bateria ganha uma postura mais agressiva e os vocais extremos de Larre aparecem com muito mais intensidade. A música tem elementos que remetem claramente ao metalcore, mas a banda não abandona os refrães melódicos que sustentam sua identidade.
7. Arcane Promises
Arcane Promises recupera parte dessa agressividade, mas com uma abordagem mais épica. Os riffs são grandes, a produção cria bastante espaço para os teclados e o refrão tem uma dimensão quase de hino. A música também flerta novamente com o metalcore, incluindo uma quebra mais pesada, mas consegue equilibrar isso com uma estrutura mais melódica.
É uma das faixas em que a produção aparece com mais força. Tudo parece maior: guitarras, bateria, vocais e efeitos. Existe quase uma sensação cinematográfica no arranjo, como se o Lacrimas Profundere estivesse tentando transformar seu gothic metal em algo mais monumental.
8. A Sinful Desire
A Sinful Desire recupera o romantismo sombrio que praticamente define o nome Lacrimas Profundere. O riff de abertura é simples o suficiente para ficar na cabeça, mas a faixa rapidamente ganha corpo com a alternância entre vocais limpos e agressivos. O refrão é provavelmente um dos mais fáceis de cantar junto em todo o álbum.
E aqui aparece novamente uma característica interessante da voz de Larre: ele consegue transitar de um registro profundo e sombrio para uma interpretação mais aberta sem parecer que estamos ouvindo dois vocalistas diferentes.
Há, inclusive, momentos em que seu timbre mais limpo lembra determinadas escolas do metal alternativo contemporâneo. Essa aproximação pode ser vista como qualidade ou como excesso de referência, dependendo do ouvido de quem escuta.
9. Veil XV
E então o álbum encontra seu momento mais delicado. Veil XV é uma balada, mas o termo não dá conta de sua construção. A música começa de maneira contida e gradualmente amplia o arranjo até chegar a um refrão de proporções muito maiores.
A música trabalha justamente com contenção e expansão, deixando que a emoção venha do arranjo e da melodia em vez de depender de exageros vocais. As guitarras aparecem com mais peso conforme a música cresce, enquanto as camadas atmosféricas dão ao refrão uma dimensão quase cinematográfica.
10. At The End Of A Dream Lies The Hope You Once Killed
O título parece uma sentença. A música também. Depois da delicadeza de Veil XV, o Lacrimas Profundere encerra o álbum retomando a agressividade. A guitarra entra pesada, a bateria empurra a composição para frente e Larre volta aos vocais extremos com uma intensidade que faz a faixa parecer quase uma reação física à melancolia anterior.
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| Mick Figura |
Confira a tracklist completa:
1. Days Of Doom
2. Nevermore
3. Heart I Will Break You Before You Break Me
4. O Silent Fear
5. Agony (In Dread And Dust)
6. Faceless
7. Arcane Promises
8. A Sinful Desire
9. Veil XV
10. At The End Of A Dream Lies The Hope You Once Killed



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