quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Entrevista – Degreed: Entre a Tradição e o Futuro do Rock Melódico

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Por Flavio Borges

Há algo particularmente interessante no modo como o Degreed construiu sua identidade ao longo dos anos. Vindos da Suécia — um dos grandes celeiros mundiais de melodias, do hard rock e do pop de alcance global —, os músicos nunca se limitaram a reproduzir a fórmula clássica do rock melódico. Ao contrário, desde os primeiros trabalhos, a banda vem combinando guitarras pesadas, vocais agressivos, elementos modernos e uma forte preocupação com melodias, criando uma sonoridade que transita com naturalidade entre o hard rock tradicional e uma abordagem mais contemporânea.

Em conversa com Road To Metal, o vocalista Robin Eriksson falou sobre o processo de criação de Curtain Calls, a liberdade de trabalhar separadamente dos demais integrantes e a busca constante por novas possibilidades dentro do universo do rock melódico. 

Entre planos para novos shows, material inédito e até uma nova versão cover que Robin preferiu manter em segredo durante a entrevista, o futuro do Degreed parece apontar para a mesma direção de sua música: preservar aquilo que funciona, mas nunca ficar parado. Pesado e intenso, mas também suave, bonito e melódico — como o próprio Robin define —, o Degreed continua buscando seu espaço entre a tradição do hard rock e o futuro do rock melódico.


Acredito que podemos começar falando sobre o álbum mais recente, Curtain Calls. É o trabalho mais recente de vocês e, não apenas para mim, mas para a maioria das pessoas, ele representa exatamente a proposta que a banda nos apresenta: uma mistura entre o hard rock tradicional e o moderno, ou o melodic rock, como você preferir chamar. O que você pode nos contar sobre isso? Sobre o processo? Como começou a composição desse álbum? Houve alguma coisa diferente em relação aos outros?

Robin: Hoje em dia, nós dois moramos em uma cidade pequena, ou melhor, em uma vila chamada Koppa Bay. Foi onde eu cresci, então fica mais ou menos no centro da Suécia. Eu e meu irmão, o baterista Mats, moramos em Copperberg. Já o Mike, tecladista, e o Daniel, guitarrista, moram em Estocolmo.

Nós quatro costumávamos morar em Estocolmo, mas agora estamos separados, e com trabalho, filhos e tudo mais, acabamos fazendo a maior parte das composições, das gravações e de todo o resto separadamente. É assim que tem sido nos últimos cinco, seis, sete anos.

Mas tudo bem. Na verdade, eu gosto de gravar sozinho, sem ninguém apontando o dedo e dizendo o que fazer.

Frontiers Records (Imp.)

Eu entendo (risos).

Robin: É, e acho que os outros também gostam disso. Você sabe, existem aspectos positivos e também negativos, é claro. Às vezes é bom ter alguém dizendo: “Você pode fazer isso melhor”. Mas, de qualquer forma, esse foi mais ou menos o processo.

E nós tentamos manter os elementos que já são característicos da banda, como você mencionou. O que normalmente temos com o Degreed: um som um pouco pesado, mas também muito melódico, e isso é importante para nós. Tudo isso continua presente, mas, ao mesmo tempo, tentamos sempre seguir em frente.

Sempre. E ter uma versão atualizada, algo assim...

Robin: E isso pode acontecer em pequenas coisas. Por exemplo, eu não estou mixando o álbum, mas falei para o Mats, que está mixando, que queria que a bateria tivesse um som um pouco mais sujo. E acho que conseguimos isso. Fiquei feliz com o resultado.

Então, podem ser pequenas coisas que acabam mostrando: “Ah, esse é o som desse álbum em particular”. Nesse caso, de Curtain Calls.


E você acredita que esse tipo de coisa é o que faz o Degreed ser diferente das outras bandas do mesmo gênero? Vocês têm um som um pouco mais pesado, um pouco mais sujo, mas, como você disse, sempre mantendo a melodia, certo?

Robin: Sim, eu acho que sim. E acho que somos um pouco diferentes porque temos um som bem variado. Não sei se essa é a palavra certa, “variado”, mas, temos um pouco disso, um pouco daquilo. Às vezes, o som é um pouco sinfônico, podemos ter uma balada de piano e também podemos ter coisas realmente pesadas. Às vezes eu grito, e em outras canto de forma bem suave.

Em relação à sua voz, como você comentou, você usa vários tipos diferentes de vocais no álbum. É você quem escolhe os efeitos, ou deixa isso por conta do produtor?

Eu diria que, na maioria das vezes, sou eu. Acho que tenho uma ideia de como quero que soe, mas não sei exatamente como fazer isso acontecer. Seja qual for o programa que você usa, como o Pro Tools ou o Logic. Não sei se você conhece esses diferentes programas.

Apenas decisões técnicas.

Robin: No meu caso, eu só consigo dizer como quero que soe, tipo: 'ok, você pode colocar um pouco daquele som? Quero que minha voz soe como a do Ozzy Osbourne. Faça acontecer, por favor.' Mas eu não sei como fazer isso (risos). 

E, como você estava falando sobre todos esses tipos diferentes de vocais e todos esses tipos diferentes de sonoridades — um som mais pesado, um som mais sujo —, eu tinha uma pergunta para fazer mais tarde, mas vou fazê-la agora, porque também sou um grande fã do Children of Bodom. E, para mim, foi uma grande surpresa ver uma banda de hard rock, de metal rock, fazendo um tributo ao Alexi. Foi muito legal, cara. Eu gostaria que você falasse um pouco sobre isso, porque foi realmente uma surpresa ver vocês fazendo um tributo a uma banda completamente diferente da de vocês.

Robin: Na verdade, o nosso tecladista, o Mike, é muito, muito influenciado pelo Children of Bodom e pelo tecladista Janne Wirman, se você o conhece. Então, ele sempre foi um grande fã da banda. O Mike é meu primo, na verdade, então nos conhecemos a vida inteira.

Basicamente é uma banda de família: seu irmão, seu primo...

Robin: Sim, exatamente. Enfim, nós também temos a mesma idade. Então, ele escuta essa banda desde que nós éramos adolescentes, basicamente. E ele foi vê-los várias vezes em Estocolmo. Eu sei que existe um show ao vivo gravado em Estocolmo, de 2003 ou algo assim, não é?

Algo desse tipo.

Robin: Sim, você já ouviu falar sobre isso, e ele estava lá. Então, ele vem acompanhando a banda há bastante tempo. A inspiração vem dele, ou melhor, ele é como uma ponte entre nós e a banda. Então, eu também comecei a ouvir Children of Bodom, e o Alexi era uma verdadeira estrela do rock. Ele realmente era.

Sim, só para você saber, eu trabalhei com eles aqui na América Latina.

Robin: Você trabalhou com eles?

Sim. Eu trabalhei com eles quando estavam em turnê com o Amorphis, em 2009, se não estou enganado.

Robin: Ah, então você conheceu eles, passou um tempo com a banda e tudo mais?

Sim, por alguns dias no Brasil, na Argentina e no Chile.

Robin: Uau, que legal!

Eles eram realmente estrelas do rock (risos).

Robin: Sim, esse é o tipo de cara que você admira, por assim dizer. Ele era como alguém intocável para algumas pessoas, se é que você me entende. Provavelmente, ele era a pessoa mais gente boa do mundo e um cara supernormal, apesar de provavelmente conseguir beber mais do que todo mundo na mesa.

Exatamente. Ele era esse tipo de cara.

Robin: É, basicamente todos os caras daquela banda naquela época, porque alguns deles eram finlandeses.

Sim. Posso imaginar (risos).

Robin: É, mas enfim... Nós, na verdade, temos alguns elementos nos nossos álbuns que, se você prestar mais atenção, mostram bastante essa influência do Children of Bodom, mesmo antes daquela música em tributo. Posso citar uma música chamada “War”, do nosso álbum autointitulado. Escute essa. Basicamente, é uma música do Children of Bodom.

Eu sei, eu tenho todos os álbuns de você (risos).

Robin: Fico feliz em ouvir isso. Então, principalmente as partes de teclado, são muito inspiradas no Children of Bodom. É algo bem legal que provavelmente muitas pessoas não tinham percebido antes (risos).

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Outra pergunta que eu tenho, e que realmente me interessa, é sobre você. Você vem de um país, a Suécia, que tem uma enorme tradição no rock melódico e, especialmente, em bandas de pop rock, com produções gigantescas. Isso inclui, por exemplo, uma série de...

Robin: Max Martin?

Sim, tem uma série na internet, na Netflix, sobre isso. Como isso influenciou você e os outros integrantes da banda? Vocês também foram muito influenciados por esse cenário musical que existe no próprio país de vocês?

Robin: Nós somos realmente muito inspirados quando o assunto são melodias, pela música pop. Tenho que admitir isso. Talvez venha da tradição que temos, talvez seja algo natural, por assim dizer. Não sei. Mas temos todas essas bandas e artistas gigantes da Suécia quando se trata de melodias. Temos o Europe, por exemplo, e o Max Martin, que hoje é o maior compositor de todos os tempos.

Sim, com certeza.

Robin: E temos o Roxette, além de muitos outros artistas e bandas gigantes. Também temos todas essas bandas de rock melódico, maiores e menores, como H.E.A.T, Eclipse e todas essas outras. Não sei o que é. Não sei se é o ar fresco do norte ou...

Sim. Aqui no Brasil, costumamos dizer que é a água.

Robin: Sim, exatamente. É a água. Deve ser alguma coisa.

Sim. E durante toda essa trajetória que vocês já construíram, qual foi o maior desafio que vocês enfrentaram no dia a dia? Foi a divulgação, os shows, as turnês? O que é mais difícil? Qual é o desafio para vocês?

Robin: Acho que foi quando a Covid chegou. Tenho que dizer que esse foi o maior desafio. E todas aquelas festas acabaram cobrando seu preço de mim (risos).

Durante aquele período, foi realmente muito difícil voltar. Na verdade, foi muito difícil retomar depois da pandemia. Antes disso, estávamos prestes a fazer nossa primeira turnê como atração principal e tudo estava acontecendo. Então, com a pandemia e tudo o que veio junto com ela, meio que desacelerou tudo, e tivemos que começar do zero. Essa foi a parte mais difícil. E, além disso, queremos sair mais em turnê. E é realmente difícil fazer isso acontecer. É muito caro e tem toda essa questão de custos e coisas do tipo. Então, eu diria que esse é o maior desafio.

Você tem alguma ideia sobre os fãs da América Latina?

Robin: Um pouco, mas eu adoraria conhecer mais e ver isso de perto. Espero que tenhamos a oportunidade de ir para aí algum dia e que possamos conhecer vocês.

No Spotify, existe uma ferramenta chamada Spotify for Artists, não sei se você já ouviu falar, e conseguimos acompanhar estatísticas e coisas do tipo. E podemos ver que o Brasil está sempre entre os países com mais ouvintes, na verdade.

Sim, nós também temos uma tradição de estar entre os cinco primeiros quando se trata de bandas de hard rock e rock melódico no mundo todo. 

Robin: Seria muito legal descer do avião no Brasil.

Sim, esperamos que isso aconteça (risos).

Robin: E os fãs estão esperando por nós.

Sim. E, como você já comentou que vocês têm a intenção de vir para cá, existe alguma música em especial que vocês gostariam muito de tocar na América Latina?

Robin: Sim, estou pensando no cover de “Spending My Time”, do Roxette.

Ah, isso vai ser muito legal (risos).

Robin: Porque percebemos que o maior número de ouvintes dessa música vem justamente do Brasil. Não sei por quê.

Bom, o Roxette é realmente muito grande aqui. Eu fiz uma turnê com eles por aqui em 2011.

Robin: Ah, que legal!

Ela ainda estava viva. Foi a última turnê deles. E eles acabaram de tocar aqui, fizeram uns cinco ou seis shows com ingressos esgotados em alguns lugares.

Robin: Só no Brasil?

Sim. Não sei se eles foram para outros países da América Latina, mas sei que vieram para o Brasil e fizeram alguns shows aqui, para cinco ou seis mil pessoas. Eles eram realmente muito grandes no Brasil, assim como outras bandas suecas, como o Europe. Eu já fiz turnês com eles por aqui. E até com o Yngwie Malmsteen, fizemos um show com ele há alguns meses. Todas essas pessoas fazem parte da sua vida desde que você é fã de rock, certo?

Robin: Sim, fazem.

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Então, também gostaria de saber: você acredita que o próprio rock melódico vai evoluir ainda mais do que já está evoluindo atualmente? Não sei se você concorda comigo, mas há muitas bandas novas surgindo com novas propostas, e acredito que vocês estejam um passo à frente. Acho que o Degreed é a banda que lidera essa nova abordagem, misturando elementos da música moderna com o hard rock tradicional. Você acredita que esse é o caminho pelo qual o rock melódico vai evoluir?

Robin: Espero que sim (risos). Acho que fomos uma das primeiras bandas a misturar um pouco de batidas e coisas do tipo na nossa música. E depois começamos a ouvir outras bandas surgindo com essa proposta alguns anos mais tarde. Eu espero que sim. E gosto que você diga que somos os líderes desse tipo de abordagem (risos).

Sim, porque posso estar errado, mas acredito que, quando ouvimos até mesmo os seus discos mais antigos, percebemos que existe uma abordagem moderna, mas sem nunca deixar de lado o tradicional, certo?

Robin: Exatamente.

Sabe, é uma mistura perfeita. E é por isso que estou perguntando: você acredita que vocês já estejam influenciando outras bandas, de uma forma que você nunca sente?

Robin: Não, nunca pensei dessa forma, na verdade. Mas talvez esteja acontecendo, e isso seria muito legal. Quer dizer...

Porque, para mim, acredito que seja muito mais fácil perceber isso de fora.

Robin: Sim, acho que sim.

Eu teria que ouvir muitas bandas para perceber isso, mas é algo que tenho em mente há algum tempo, porque, para ser sincero, vocês foram uma das primeiras bandas que ouvi usando guitarras com vocais agressivos. Isso não era tão comum no rock melódico.

Robin: Não, não, não. É verdade. Nós ousamos misturar um pouco as coisas (risos). Mas talvez, um dia a gente se torne algum tipo de lenda (risos).

Por que não? Nunca se sabe.

Robin: Agora, com o Rush fazendo uma nova turnê, eles são a banda mais legal do mundo.

Você acha?

Robin:  Sim, no momento eu acho que eles são muito legais. Quinze anos atrás eu não pensava assim. E aposto que as pessoas também não pensavam assim quando eles surgiram. Eles estavam um pouco à frente do seu tempo. Você entende o que quero dizer?

Sim, eu sei do que você está falando. E, falando nisso, quais são os planos para o futuro?

Robin: Temos três shows em agosto, então essa é a primeira coisa que vamos fazer. E acho que estamos prestes a lançar um novo single, na verdade, uma nova música cover (N.T.: Robin se refere ao cover de "Still In Love with You", do Thin Lizzy. A entrevista foi realizada em junho). Eu nunca contei isso para ninguém, mas vai acontecer muito em breve (risos). Depois disso, é continuar trabalhando e fazendo mais shows. Acho que essa é a coisa mais importante agora. E, quando se trata de lançar músicas novas, nós sempre temos novas canções e material novo, então provavelmente teremos novidades mais cedo ou mais tarde, como sempre.

Então vocês já estão trabalhando em material novo?

Robin: Um pouco. E também temos algumas coisas guardadas. Então, vamos ver. Nós lançamos The Leftovers, e existe uma razão para termos chamado de Vol. I.

Imagino (risos).

Robin: É, então vamos ver.

Eu sei que todos esses shows são na Suécia. 

Robin:Não. Um deles é na Espanha, na verdade.

Ah, legal!

Robin: Acho que é um lugar nos arredores de Madri. Ou era Barcelona? Na verdade, não consigo lembrar. É sempre assim: se não é uma cidade grande, eu simplesmente vou e penso: 'ok.'

Prepare-se, porque vai estar quente lá.

Robin: Eu sei, já ouvi falar.

É igual aqui.

Robin: É mesmo? Quanto está fazendo de temperatura aí agora?

Não, não, estou perguntando porque, no Brasil, normalmente faz calor, mas hoje, para os padrões brasileiros, está muito frio. Está fazendo 13 graus. Está muito frio.

Robin: 13? 

Sim. No Brasil, 13 graus é muito frio. Se você for para a Suécia, eu sei que é pleno verão (risos).

Robin:Sim, exatamente. Isso é algo normal por aqui.

Mas, para os brasileiros, 13 graus é meio estranho. Eu só tenho uma última pergunta para você. Se você tivesse que descrever o Degreed para os fãs brasileiros que ainda não conhecem vocês, que frase usaria para descrevê-los?

Robin: É pesado e intenso, mas também suave, bonito e melódico. Você pode bater cabeça, pode relaxar, pode fazer de tudo com a nossa música.

Michael Bormann's Jaded Hard: Velha Fórmula, Novo Vigor (Also In English)

RMB Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Formado a partir da trajetória de Michael Bormann à frente do Jaded Heart, o Michael Bormann’s Jaded Hard chega a South West reafirmando uma identidade que o vocalista ajudou a consolidar no hard rock melódico europeu: guitarras marcantes, grandes melodias, refrãos imediatos e uma produção contemporânea, mas sem abrir mão do peso e da atitude que sempre acompanharam sua carreira.

Este projeto funciona como uma ponte entre o presente e a fase mais celebrada da trajetória de Bormann. Ao longo de seus trabalhos solo, o músico explorou diferentes possibilidades dentro do rock, mas foi no Jaded Heart que sua assinatura se tornou particularmente reconhecível. South West recupera justamente essa essência, embora esteja longe de ser uma tentativa de reproduzir o passado.

A abertura com “Country Boy” estabelece rapidamente as regras do jogo. O hard rock cadenciado, de forte inspiração americana, serve de plataforma perfeita para a voz rouca de Bormann, enquanto o refrão assume uma dimensão quase hínica. “Love, Touch and Trouble” segue pela mesma estrada, com guitarras de timbres clássicos, baixo e bateria formando uma base sólida e backing vocals cuidadosamente posicionados para ampliar o impacto dos refrãos. É uma fórmula conhecida, mas executada com segurança e, principalmente, com consciência de suas próprias virtudes.

A grande qualidade de South West, entretanto, está na maneira como o álbum trabalha as diferentes velocidades e atmosferas sem perder sua identidade. Há espaço para o hard rock mais direto, para momentos AOR, para faixas cadenciadas e para baladas, criando uma dinâmica que impede que as 11 músicas pareçam variações de uma mesma ideia.

“Stop Those Rainy Days (30 Years Later)” exemplifica bem esse equilíbrio. A faixa parte de uma estrutura que poderia facilmente conduzir a uma power ballad convencional, mas ganha corpo com guitarras acústicas, mudanças de intensidade e um refrão que amplia progressivamente a composição. A influência de gigantes como o Whitesnake é perceptível, mas o resultado não soa como mera reprodução de um modelo consagrado. Já “That’s the Only Truth” assume de maneira mais explícita os códigos da power ballad clássica, com guitarras limpas que cedem espaço à distorção no momento certo, coros e backing vocals criando a atmosfera esperada — e uma interpretação particularmente inspirada de Bormann.

Os teclados também desempenham papel importante na construção do álbum. Em “In the Shadows of the Night”, eles aproximam a banda do AOR oitentista e ajudam a criar um contraste interessante com as guitarras e a aceleração da faixa. Em outros momentos, aparecem de maneira mais discreta ou assumem uma função quase atmosférica, como em “Kissed by You”, que começa flertando com uma estética synthwave antes de ganhar contornos mais definidos de hard rock. Essa utilização dos teclados adiciona textura e variedade ao disco sem deslocá-lo de seu eixo principal.

É justamente nessa combinação entre tradição e atualização que South West encontra seu maior mérito. “I’ll Always Remember You” transita por uma zona intermediária entre balada e faixa cadenciada, enquanto “There’s No Living Without You” recupera aquele hard rock clássico de refrão imediatamente assimilável, com guitarras e teclados muito bem integrados à seção rítmica. São músicas que demonstram que Bormann conhece profundamente os mecanismos do gênero e sabe exatamente quando deixar a voz assumir o protagonismo.

E a voz continua sendo um dos grandes trunfos. Mesmo quando opta por uma interpretação mais limpa, Bormann permanece imediatamente reconhecível. Sua rouquidão característica acrescenta personalidade às composições mais pesadas, enquanto os momentos mais contidos revelam um intérprete capaz de trabalhar emoção sem recorrer ao excesso.

“I’m a Liar (That’s No Fantasy)” talvez seja o melhor exemplo disso. Construída inicialmente sobre piano e voz, a faixa cresce gradualmente até adquirir contornos quase épicos, com a entrada dos demais instrumentos, melodias marcantes e um solo que complementa a atmosfera. O momento em que a voz permanece praticamente sozinha antes da retomada instrumental é particularmente eficiente e mostra um Bormann confortável também quando o arranjo exige contenção.

No outro extremo, “One Step Back” devolve ao álbum a energia mais festiva do hard rock, reunindo guitarras, teclados, backing vocals e outro refrão feito para ser cantado em coro. O mérito está novamente nos detalhes: os timbres foram escolhidos para dialogar entre si e, sobretudo, para valorizar a voz de Bormann.

A faixa de encerramento, “Cheers To”, adiciona uma dimensão mais pessoal ao disco. Dedicada ao guitarrista Holger Bussler, a composição aposta em uma abordagem semiacústica e funciona como uma despedida menos convencional, acrescentando uma nova nuance ao álbum sem quebrar sua unidade.

No fim das contas, South West não tenta reinventar o hard rock melódico — e não precisa fazê-lo. Sua força está justamente em compreender o que tornou essa linguagem tão duradoura e reapresentá-la com uma produção atual, bons arranjos e uma banda que sabe explorar suas possibilidades. O álbum alterna momentos mais pesados e diretos com passagens atmosféricas, AOR e baladas, mantendo sempre uma preocupação evidente com melodias e refrãos.

É também por isso que o Michael Bormann’s Jaded Hard merece ser visto para além da simples nostalgia. Se a carreira solo permitiu ao músico explorar diferentes territórios, este projeto recupera deliberadamente a identidade que marcou sua passagem pelo Jaded Heart — não como uma tentativa de voltar no tempo, mas como uma evolução natural daquela fórmula. South West soa como um músico revisitando uma parte importante de sua própria história com a experiência acumulada ao longo de décadas.

Para quem acompanha Bormann desde os tempos do Jaded Heart, há aqui elementos familiares suficientes para despertar a memória afetiva. Para quem chega agora, porém, o álbum funciona perfeitamente por seus próprios méritos: é hard rock melódico, acessível e vigoroso, produzido para o presente, mas com pleno conhecimento de onde veio.


***ENGLISH VERSION***

Built around Michael Bormann’s legacy with Jaded Heart, Michael Bormann’s Jaded Hard arrives with South West reaffirming an identity the vocalist helped establish within European melodic hard rock: strong guitars, memorable melodies, immediate choruses and contemporary production, without sacrificing the weight and attitude that have always defined his career.

This project serves as a bridge between the present and the most celebrated period of Bormann’s career. Throughout his solo work, the musician has explored different possibilities within rock, but it was with Jaded Heart that his signature became particularly recognizable. South West recaptures that essence, although it is far from an attempt to simply recreate the past.

“Country Boy” sets the tone immediately. Its laid-back, distinctly American-flavored hard rock provides the perfect platform for Bormann’s raspy voice, while the chorus takes on an almost anthemic quality. “Love, Touch and Trouble” follows a similar path, with classic hard rock guitar tones, bass and drums forming a solid foundation and carefully placed backing vocals adding impact to the choruses. It is a familiar formula, but one executed with confidence and, more importantly, with a clear understanding of its own strengths.

The greatest quality of South West, however, lies in the way the album moves between different tempos and atmospheres without losing its identity. There is room for more direct hard rock, AOR touches, mid-tempo tracks and ballads, creating enough dynamics to prevent the 11 songs from feeling like variations on the same idea.

“Stop Those Rainy Days (30 Years Later)” is a good example of this balance. The song begins with a structure that could easily develop into a conventional power ballad, but gains substance through acoustic guitars, shifts in intensity and a chorus that gradually expands the arrangement. The influence of giants such as Whitesnake is noticeable, yet the result never feels like a mere reproduction of an established template. “That’s the Only Truth”, meanwhile, embraces the classic power-ballad formula more directly, with clean guitars giving way to distortion at precisely the right moment, layered vocals and backing harmonies creating the expected atmosphere — along with a particularly inspired performance from Bormann.

Keyboards also play an important role in shaping the album. On “In the Shadows of the Night”, they bring the band closer to ’80s AOR while creating an interesting contrast with the guitars and the song’s increased pace. Elsewhere, they appear more discreetly or take on an almost atmospheric role, as on “Kissed by You”, which initially flirts with a synthwave aesthetic before developing into a more defined hard rock track. This use of keyboards adds texture and variety without pulling the album away from its central direction.

It is precisely this combination of tradition and modernization that becomes South West’s greatest strength. “I’ll Always Remember You” occupies the territory between a ballad and a mid-tempo rocker, while “There’s No Living Without You” brings back the kind of classic hard rock built around an instantly memorable chorus, with guitars and keyboards seamlessly integrated into the rhythm section. These songs demonstrate that Bormann understands the mechanics of the genre inside out and knows exactly when to put his voice at center stage.

And that voice remains one of the album’s greatest assets. Even when he opts for a cleaner delivery, Bormann remains instantly recognizable. His characteristic rasp adds personality to the heavier compositions, while the more restrained moments reveal a singer capable of conveying emotion without resorting to excess.

“I’m a Liar (That’s No Fantasy)” may be the clearest example. Initially built around piano and vocals, the song gradually expands into something almost epic as the other instruments enter, supported by strong melodies and a tasteful solo that complements the atmosphere. The moment when Bormann’s voice is left almost completely alone before the instrumental arrangement returns is particularly effective, demonstrating that he is equally comfortable when the music calls for restraint.

At the other end of the spectrum, “One Step Back” restores the album’s more celebratory hard rock energy, bringing together guitars, keyboards, backing vocals and another chorus seemingly designed for a crowd to sing along with. Once again, the details make the difference: the tones have been carefully chosen to complement one another and, above all, to enhance Bormann’s voice.

The closing track, “Cheers To”, adds a more personal dimension to the album. Dedicated to guitarist Holger Bussler, the song takes a semi-acoustic approach and serves as a less conventional farewell, introducing another shade to the record without disrupting its overall unity.

Ultimately, South West does not attempt to reinvent melodic hard rock — and it does not need to. Its strength lies in understanding what has made this musical language so enduring and presenting it through modern production, strong arrangements and a band capable of exploring its possibilities. The album moves between heavier, more direct moments, atmospheric passages, AOR and ballads, while maintaining a clear focus on melodies and memorable choruses.

This is also why Michael Bormann’s Jaded Hard deserves to be viewed as more than a nostalgia project. If Bormann’s solo career allowed him to explore different territories, this band deliberately reconnects with the identity that defined his time with Jaded Heart — not as an attempt to turn back the clock, but as a natural evolution of that formula. South West sounds like a musician revisiting an important chapter of his own history with the experience accumulated over decades.

For those who have followed Bormann since his Jaded Heart days, there are enough familiar elements here to trigger a strong sense of nostalgia. For newcomers, however, the album stands perfectly well on its own merits: accessible, energetic melodic hard rock made for the present, but created by musicians who have a clear understanding of where it all came from.


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Flotsam and Jetsam – Quatro Décadas Depois, A Fome Continua

Napalm Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira – @instephanie

Existe uma espécie de injustiça histórica na trajetória do Flotsam and Jetsam. Uma banda que ajudou a moldar o thrash metal norte-americano, lançou um dos grandes discos do gênero em 1986 e ainda assim passou boa parte da carreira sendo apresentada ao público pelo nome de um ex-baixista que deixou o grupo para entrar no Metallica.

Quarenta anos depois, talvez seja finalmente possível deixar essa história para trás. Rats in the Temple, lançado em 28 de agosto de 2026 pela Napalm Records, é o 17º álbum de estúdio do Flotsam and Jetsam e encontra Eric “A.K.” Knutson, Michael Gilbert, Steve Conley, Bill Bodily e Ken Mary em uma fase particularmente interessante.

O disco chega apenas dois anos depois de I Am the Weapon, mas não soa como uma banda simplesmente cumprindo a obrigação de colocar mais um álbum na discografia. Pelo contrário: existe uma sensação de fome aqui.

E a primeira coisa que chama atenção é que o Flotsam and Jetsam não tenta esconder sua idade. Eric A.K. não possui mais aquele registro quase sobrenatural dos primeiros anos,  e seria estranho esperar que tivesse. Em compensação, sua voz ganhou uma aspereza que combina perfeitamente com o material. As guitarras de Michael Gilbert e Steve Conley estão mais musculosas, Ken Mary conduz as músicas com uma bateria extremamente precisa e Bill Bodily dá ao conjunto um peso que aparece principalmente quando a banda diminui o andamento.

O resultado é um álbum que olha para o thrash dos anos 1980, mas não quer morar nele. Há power metal, heavy metal tradicional, groove, momentos quase progressivos e, pela primeira vez de maneira realmente perceptível na história recente da banda, elementos sinfônicos e orquestrais.

Mais importante: quase tudo isso funciona.


1. “Harvesting the Hate”

A faixa começa criando expectativa antes de liberar a bateria e as guitarras. É uma introdução que poderia facilmente funcionar como abertura de show, e isso não é coincidência: Eric A.K. revelou que o grupo vem pensando justamente em elementos que possam funcionar também como introduções ao vivo.

Quando Ken Mary finalmente entra, a sensação é de que alguém abriu uma comporta. O riff tem aquela combinação de thrash e heavy metal tradicional que sempre esteve na identidade da banda, mas a produção deixa tudo mais encorpado. A bateria não está simplesmente acompanhando a guitarra; ela empurra a música o tempo inteiro.

E então entra Eric. A voz está mais grave e áspera do que no passado, mas continua capaz de alcançar notas altas com uma autoridade impressionante. O refrão é grande, quase de arena, e cria um contraste interessante com os versos mais agressivos.

2. “Damnation”

Se a primeira faixa apresenta o lado épico do álbum, “Damnation” volta imediatamente para o thrash. O riff de abertura é mais direto, e a música trabalha com uma estrutura que parece muito mais interessada em fazer a cabeça balançar do que em criar atmosfera.

A banda intercala os ataques com momentos em que o andamento ganha um caráter mais cadenciado, fazendo com que o refrão pareça ainda maior quando retorna. O resultado é um thrash mais adulto, mais consciente de como utilizar dinâmica.

3. “Absolution”

“Absolution” é provavelmente uma das primeiras faixas em que fica impossível ignorar o trabalho das guitarras. Gilbert e Conley entram em uma espécie de duelo permanente de riffs, com ataques extremamente precisos e aquela sonoridade cortante característica do thrash americano.

Os riffs são secos, sincopados e cheios de pequenas mudanças que impedem que a estrutura pareça repetitiva. Existe uma preocupação técnica evidente, mas o que impressiona é que a técnica não domina a composição.

4. “Blame the Knife”

“Blame the Knife” foi uma das músicas que mais me fez prestar atenção na primeira sequência do álbum. Não necessariamente porque seja a mais rápida (e não é mesmo!), mas porque é uma das que melhor trabalham a tensão.

Existe uma atmosfera mais sombria no riff, enquanto o andamento se mantém pesado e relativamente contido. O refrão é bastante memorável, mas não parece deslocado do restante da composição. A melodia entra como consequência natural do riff, não como uma tentativa de tornar o thrash mais comercial.

5. “Rats in the Temple”

A faixa-título é o centro gravitacional do álbum. “Rats in the Temple” começa de maneira surpreendentemente teatral, com uma introdução orquestral que cria uma atmosfera quase apocalíptica antes de Ken Mary entrar em cena.

A bateria é um espetáculo à parte. Há uma combinação de viradas rápidas, pedal duplo e mudanças de acentuação que faz a entrada parecer maior do que a própria música. Os riffs têm uma construção mais progressiva, com mudanças de ritmo e frases que fogem um pouco da estrutura tradicional do thrash. A música também trabalha harmonias de guitarra bastante elaboradas, enquanto Eric A.K. sustenta linhas vocais longas por cima de uma base que está em constante movimento.

6. “The Ghost Behind My Door”

Se “Rats in the Temple” é o grande exercício técnico, “The Ghost Behind My Door” é a demonstração de que técnica e melodia podem coexistir. A velocidade das guitarras é absurda. Gilbert e Conley trabalham com palhetadas rápidas e harmonias que criam uma parede sonora extremamente densa, mas o refrão muda completamente a percepção da música.

7. “First on the Spike”

Depois de duas faixas mais ambiciosas, “First on the Spike” funciona quase como um retorno ao chão. É um thrash mais direto, de andamento médio, com um refrão que aparece rapidamente e fica na cabeça.

A guitarra continua cheia de detalhes, mas a composição parece mais interessada em criar um hino de mosh pit. Ken Mary também ganha bastante espaço aqui. A bateria tem uma sensação física muito forte, especialmente quando a banda entra nos trechos mais pesados.

8. “The Edge of Nowhere”

A introdução de “The Edge of Nowhere” é uma das mais curiosas do álbum. Em vez de começar imediatamente com uma parede de guitarras, a música cria tensão utilizando escalas orientais e uma atmosfera quase mística.

Por alguns segundos, parece que o disco vai entrar em outro território, mas não entra. A banda explode em um riff veloz e angular, com palm muting e ataques extremamente precisos. O contraste é justamente o que faz a faixa funcionar.

9. “Last Rites”

“Last Rites” começa quase como se o álbum estivesse respirando depois da intensidade anterior, mas a pausa dura pouco. Os riffs entram pesados, a bateria cresce e o refrão abre espaço para uma das melodias mais fortes do disco.

O trabalho do baixo também fica mais perceptível aqui, principalmente porque a produção deixa espaço para as frequências graves sem embolar o conjunto. Apesar de ter guitarras extremamente carregadas, o álbum não parece uma massa sonora indistinta. Cada instrumento tem espaço suficiente para cumprir sua função.

10. “A Taste for War”

O título pode sugerir uma música de celebração bélica, só que é justamente o contrário.

“A Taste for War” é uma das composições mais interessantes conceitualmente porque utiliza uma estrutura quase militar para falar contra a própria guerra. A bateria de Ken Mary estabelece um ritmo que lembra marcha, enquanto baixo e guitarras criam uma base pesada e repetitiva.

11. “Her Blood Your Pain”

“Her Blood Your Pain” é uma das maiores mudanças de atmosfera do álbum.

As guitarras assumem uma abordagem mais melódica, com harmonias em tonalidades menores que aproximam a música do death metal melódico europeu, mas o Flotsam não abandona o thrash. A velocidade continua presente, só que agora as melodias ocupam uma parte maior do espaço.

O resultado é uma das faixas mais atmosféricas do álbum e uma boa demonstração de como duas guitarras podem construir uma espécie de narrativa melódica.

12. “Anthem for the Broken”

“Anthem for the Broken” é o momento em que o disco transforma toda aquela agressividade em catarse.

As guitarras criam uma base pesada, a bateria empurra a música para frente e Eric canta como se estivesse falando diretamente com quem passou boa parte da vida se sentindo deslocado. É uma das faixas mais acessíveis do álbum, porque tem uma melodia que funciona.

13. “Not Goin’ Down That Way”

“Not Goin’ Down That Way” começa pesada, quase arrastada, com uma sensação de stomp que imediatamente muda a dinâmica. É uma guitarra mais seca, mais cadenciada.

A bateria acompanha esse movimento e cria uma espécie de balanço que faz a faixa parecer construída para o palco. Só depois a música começa a acelerar e revelar outras camadas. O refrão volta a trazer melodia, mas a atmosfera permanece mais sombria do que nas músicas anteriores.

É um encerramento que reúne várias das características apresentadas ao longo do disco: thrash americano, heavy metal tradicional, melodias, peso, dinâmica e aqueles pequenos elementos atmosféricos que aparecem nas introduções.

Confira a tracklist completa de Rats in the Temple:

1. Harvesting the Hate

2. Damnation

3. Absolution

4. Blame the Knife

5. Rats in the Temple

6. The Ghost Behind My Door

7. First on the Spike

8. The Edge of Nowhere

9. Last Rites

10. A Taste for War

11. Her Blood Your Pain

12. Anthem for the Broken

13. Not Goin’ Down That Way

Shane Eckert

Accept Teutonic Titans 1976-2026: 50 Anos de Metal (Also In English)

Napalm Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Uma celebração de cinco décadas de história, 19 clássicos revisitados e nada menos que 50 convidados.

Chegar aos 50 anos de carreira já seria motivo suficiente para o ACCEPT olhar para trás e celebrar uma trajetória que ajudou a moldar os alicerces do heavy metal europeu. Mas Wolf Hoffmann decidiu transformar a ocasião em algo ainda maior: reunir uma verdadeira seleção de estrelas do metal mundial para revisitar 19 composições do catálogo clássico da banda. O resultado é Teutonic Titans 1976-2026, um projeto tão ambicioso quanto inevitavelmente controverso.

A primeira pergunta diante de um álbum como este é também a mais óbvia: era realmente necessário? Afinal, estamos falando de músicas que dispensam apresentação. “Fast as a Shark”, “Balls to the Wall”, “Restless and Wild”, “Metal Heart” e tantos outros clássicos já possuem versões definitivas gravadas por uma banda que, em sua fase áurea, ajudou a estabelecer os parâmetros do heavy metal alemão e influenciou toda uma geração que viria depois. Revisitá-los significa, portanto, entrar em território particularmente perigoso: aquele em que qualquer nova versão será inevitavelmente comparada ao original.

É justamente aí que Teutonic Titans 1976-2026 encontra seu maior desafio — e, paradoxalmente, sua razão de existir.

Wolf Hoffmann não quer reconstruir o passado. Em vez disso, transforma o catálogo do ACCEPT em um grande playground para alguns dos músicos mais respeitados do rock pesado. Rob Halford, Phil Anselmo, Kirk Hammett, Mikkey Dee, Tobias Forge, Billy Corgan, K. K. Downing, Hansi Kürsch, Sebastian Bach, Jeff Scott Soto, Billy Sheehan, Bobby Blitz e tantos outros não estão aqui simplesmente para reproduzir o que já foi feito. Cada convidado imprime sua personalidade às músicas, algumas vezes de maneira evidente, outras de forma mais sutil.

A escalação é impressionante — provavelmente uma das maiores concentrações de músicos de primeira linha já reunidas em um projeto dessa natureza. O mérito está em não transformar esse desfile de estrelas em uma competição para descobrir quem rouba a cena. Pelo contrário: a diversidade das participações faz com que cada interpretação adquira identidade própria. Há vozes mais agressivas e outras mais melódicas; guitarras que aproximam determinadas faixas do thrash ou do hard rock; bateristas que acrescentam peso, velocidade e diferentes nuances à conhecida arquitetura rítmica do ACCEPT.

O resultado é deliberadamente heterogêneo. E isso é importante.

Teutonic Titans não deve ser encarado simplesmente como mais um álbum de covers. O ACCEPT está, na verdade, revisitando o próprio legado através dos olhos de músicos que foram influenciados por ele ou que, de alguma maneira, representam a evolução do heavy metal nas últimas cinco décadas.

É quase como se Wolf Hoffmann tivesse aberto os arquivos da banda e convidado seus contemporâneos, admiradores e parceiros para entrar no estúdio e dizer: agora é a vez de vocês interpretarem essas músicas. A ideia transforma o disco em algo maior do que uma simples coleção de regravações: é uma espécie de álbum tributo ao ACCEPT feito pelo próprio universo metálico que ajudou a construir.

E é nesse ponto que o projeto funciona melhor — como uma celebração coletiva do heavy metal, e não como uma tentativa de criar novas versões definitivas dessas canções.

Porque, sejamos honestos: quando Rob Halford assume “Balls to the Wall”, a curiosidade é irresistível. Quando Phil Anselmo e Kirk Hammett se encontram em “Fast as a Shark”, a combinação parece ter sido desenhada para provocar qualquer fã de metal. Tobias Forge em “Save Us” acrescenta outra camada interessante, especialmente porque a música está entre suas favoritas do catálogo do ACCEPT. São encontros que despertam imediatamente a imaginação.

Mas, passada a surpresa inicial, permanece a pergunta inevitável: quantas vezes voltaremos a essas versões quando as gravações originais continuam praticamente intocáveis?

Essa é a principal fragilidade de Teutonic Titans 1976-2026. Não existe um problema real de performance. Pelo contrário: o nível técnico é excepcional e a produção oferece peso, clareza e uma sonoridade contemporânea às gravações. A questão é outra: a necessidade artística do projeto.

E aqui existe uma oportunidade perdida particularmente curiosa. Mark Tornillo está no ACCEPT há quase duas décadas, consolidando-se como a voz da segunda grande fase da banda. Ainda assim, ele não recebe neste projeto a oportunidade de reinterpretar de maneira abrangente o repertório clássico que ajudou a manter vivo nos palcos. Diante disso, é inevitável imaginar se um novo álbum de material inédito, sucedendo Humanoid, não teria sido uma maneira mais natural — e talvez mais ousada — de comemorar cinco décadas de ACCEPT.

Há ainda outra questão. O ACCEPT não está celebrando apenas 50 anos de existência, mas 50 anos de evolução. Entretanto, Teutonic Titans concentra sua narrativa principalmente no período entre I’m a Rebel (1980) e Eat the Heat (1989), justamente a fase em que estão os clássicos que definiram a imagem internacional da banda. É uma escolha compreensível, já que esse é o repertório que melhor representa o legado que se pretende celebrar, mas também limita a dimensão histórica sugerida pelo próprio título.

Ainda assim, seria injusto avaliar o álbum apenas pelo que ele poderia ter sido.

Como celebração, funciona. Como demonstração da força do catálogo do ACCEPT, funciona ainda melhor. Há prazer genuíno em ouvir tantos músicos importantes entrando no universo criado por Wolf Hoffmann, e algumas das novas interpretações conseguem surpreender justamente porque não tentam reproduzir mecanicamente as gravações originais. Cada formação acrescenta uma pequena mudança de perspectiva, e essa variedade mantém o álbum interessante mesmo quando conhecemos cada riff, cada virada e cada refrão de memória.

Mas Teutonic Titans 1976-2026 também acaba demonstrando uma verdade talvez ainda mais importante: os clássicos do ACCEPT não precisavam de ajuda para provar sua grandeza.

Quando colocadas lado a lado com as versões originais, as novas gravações raramente conseguem substituí-las. E talvez essa nunca tenha sido a intenção. O verdadeiro mérito do projeto está em outro lugar: mostrar que, cinco décadas depois, aquelas músicas continuam capazes de reunir diferentes gerações do metal em torno dos mesmos riffs e refrãos que ajudaram a transformar o ACCEPT em uma das bandas fundamentais do gênero.

No fim, Teutonic Titans 1976-2026 é menos um novo capítulo na história do ACCEPT do que uma fotografia coletiva da importância que essa história adquiriu. É um álbum de celebração, concebido com músicos extraordinários, produzido com competência e carregado de momentos capazes de provocar um sorriso imediato em qualquer fã de heavy metal. Seu valor, porém, está mais no evento do que na necessidade de sua existência.

E está tudo bem.

Aos 50 anos, o ACCEPT já não precisa provar absolutamente nada a ninguém. Pode simplesmente convidar os amigos para uma festa, aumentar o volume dos amplificadores e revisitar algumas das músicas que ajudaram a construir o heavy metal.

Se o resultado não substitui os originais, ao menos comprova algo talvez mais importante: eles continuam vivos, relevantes e poderosos o suficiente para fazer 50 dos maiores nomes do gênero quererem tocá-los novamente.

Para uma banda que ajudou a escrever a história do metal, talvez essa seja a celebração mais apropriada de todas.


Segue um breve quem é quem neste álbum:

1. Fast as a Shark

Restless and Wild (1982)

Phil Anselmo, Kirk Hammett, Billy Sheehan, Mikkey Dee

2. Balls to the Wall

Balls to the Wall (1983)

Rob Halford, Matthias Jabs, Rex Brown, Jason Bowld

3. Aiming High

Russian Roulette (1986)

Chuck Billy, Gary Holt, David Ellefson

4. Run If You Can

Russian Roulette (1986)

Todd La Torre, Ola Englund, Chuck Garric, Roy Mayorga

5. Hellhammer

Eat the Heat (1989)

Jason McMaster, Zeuss, Phil Shouse

6. Metal Heart

Metal Heart (1985)

Dino Jelusick, Joel Hoekstra, Ava Rebekah Rahman

7. Losers and Winners

Russian Roulette (1986)

Hansi Kürsch, Paul Gilbert, Tommy Aldridge

8. Save Us

I'm a Rebel (1980)

Tobias Forge, Frank Bello, Ray Luzier

9. Up to the Limit

Balls to the Wall (1983)

John Bush, Alex Skolnick, Rudy Sarzo, Shannon Larkin

10. Wrong Is Right

Metal Heart (1985)

Ralf Scheepers, John Norum, Ken Mary

11. Starlight

Accept (1979)

Joseph Michael, Phil Demmel, Michael Cartellone

12. Fight It Back

Breaker (1981)

Mark Lopes, Bumblefoot, Billy Sheehan, Shawn Drover

13. Love Child

Balls to the Wall (1983)

Billy Corgan, David Ellefson, Tommy Aldridge

14. Breaker

Breaker (1981)

Girish Pradhan, Glen Drover, Shawn Drover

15. Demon’s Night

Russian Roulette (1986)

Bobby Blitz, Andy Sneap, David Ellefson, Ray Luzier

16. T.V. War

Russian Roulette (1986)

Joe Lynn Turner, Fredrik Åkesson, Rudy Sarzo

17. London Leatherboys

Balls to the Wall (1983)

Sebastian Bach, Rex Brown, Shawn Drover

18. Monsterman

Metal Heart (1985)

Jeff Scott Soto, Jeff Loomis, Rudy Sarzo

19. Restless and Wild

Restless and Wild (1982)

Chris Jericho, K. K. Downing, Billy Sheehan, Ray Luzier

***ENGLISH VERSION***

A celebration of five decades of history, 19 classics revisited, and no fewer than 50 special guests

Reaching the 50-year mark would be reason enough for ACCEPT to look back and celebrate a career that helped lay the foundations of European heavy metal. But Wolf Hoffmann decided to turn the occasion into something considerably bigger: bringing together a genuine all-star cast from across the metal world to revisit 19 songs from the band's classic catalogue. The result is Teutonic Titans 1976-2026, a project as ambitious as it is inevitably controversial.

The first question that comes to mind when confronted with an album like this is also the most obvious: was it really necessary? After all, these are songs that need no introduction. “Fast as a Shark”, “Balls to the Wall”, “Restless and Wild”, “Metal Heart” and so many other classics already have definitive versions recorded by a band that, at the height of its powers, helped establish the blueprint for German heavy metal and influenced an entire generation that followed. Revisiting them therefore means entering particularly dangerous territory — one where any new version will inevitably be measured against the original.

That is precisely where Teutonic Titans 1976-2026 finds its greatest challenge — and, paradoxically, its reason for existing.

Wolf Hoffmann is not trying to reconstruct the past. Instead, he turns ACCEPT's catalogue into a giant playground for some of the most respected musicians in heavy rock. Rob Halford, Phil Anselmo, Kirk Hammett, Mikkey Dee, Tobias Forge, Billy Corgan, K. K. Downing, Hansi Kürsch, Sebastian Bach, Jeff Scott Soto, Billy Sheehan, Bobby Blitz and many others are not here simply to reproduce what has already been done. Each guest brings his or her own personality to the songs, sometimes in obvious ways, sometimes more subtly.

The line-up is staggering — probably one of the greatest concentrations of first-rate musicians ever assembled for a project of this kind. The achievement, however, is that this parade of stars never becomes a competition to see who can steal the spotlight. Quite the opposite: the diversity of the guests gives each performance its own identity. There are more aggressive voices alongside more melodic ones; guitarists who push certain tracks towards thrash or hard rock; and drummers who add weight, speed and different nuances to ACCEPT's familiar rhythmic architecture.

The result is deliberately diverse. And that matters.

Teutonic Titans should not simply be regarded as another covers album. ACCEPT is, in fact, revisiting its own legacy through the eyes of musicians who were influenced by the band or who, in one way or another, represent the evolution of heavy metal over the past five decades.

It is almost as if Wolf Hoffmann had opened the band's archives and invited contemporaries, admirers and musical partners into the studio to say: now it's your turn to play these songs. The idea transforms the album into something bigger than a straightforward collection of re-recordings: it becomes a kind of tribute to ACCEPT, performed by the very metal community that helped carry its influence forward.

And this is where the project works best — as a collective celebration of heavy metal, rather than an attempt to create definitive new versions of these songs.

Because, let's be honest: when Rob Halford takes on “Balls to the Wall”, the curiosity is irresistible. When Phil Anselmo and Kirk Hammett join forces on “Fast as a Shark”, the combination seems tailor-made to excite any metal fan. Tobias Forge on “Save Us” adds another intriguing dimension, particularly because the song ranks among his favourites from ACCEPT's catalogue. These are the kinds of encounters that immediately fire the imagination.

But once the initial surprise wears off, the inevitable question remains: how often will we return to these versions when the original recordings remain virtually untouchable?

That is the main weakness of Teutonic Titans 1976-2026. There is no real problem with the performances. Quite the opposite: the technical level is exceptional, while the production gives the recordings weight, clarity and a contemporary sound. The question is a different one: the artistic necessity of the project itself.

And here lies a particularly curious missed opportunity. Mark Tornillo has been ACCEPT's singer for almost two decades, firmly establishing himself as the voice of the band's second major era. Yet this project does not give him the opportunity to comprehensively reinterpret the classic material he has helped keep alive onstage. It is therefore impossible not to wonder whether a new album of original material, following Humanoid, might have been a more natural — and perhaps more adventurous — way to celebrate five decades of ACCEPT.

There is another issue worth considering. ACCEPT is not merely celebrating 50 years of existence, but 50 years of evolution. Yet Teutonic Titans focuses primarily on the period between I'm a Rebel (1980) and Eat the Heat (1989), precisely the era that produced the classics which defined the band's international image. It is an understandable choice, since this is the material that best represents the legacy being celebrated, but it also somewhat limits the historical scope suggested by the album's title.

Even so, it would be unfair to judge the album solely on what it could have been.

As a celebration, it works. As a demonstration of the strength of ACCEPT's catalogue, it works even better. There is genuine pleasure in hearing so many important musicians stepping into Wolf Hoffmann's musical universe, and some of the new interpretations manage to surprise precisely because they do not attempt to mechanically reproduce the original recordings. Each line-up offers a slight change of perspective, and that variety keeps the album engaging even when every riff, drum fill and chorus is already etched into our memories.

But Teutonic Titans 1976-2026 ultimately proves an even more important point: ACCEPT's classics never needed help to demonstrate their greatness.

Placed alongside the original recordings, the new versions rarely manage to replace them. And perhaps that was never the intention. The real achievement of the project lies elsewhere: five decades on, these songs are still capable of bringing different generations of metal fans together around the same riffs and choruses that helped establish ACCEPT as one of the genre's foundational bands.

In the end, Teutonic Titans 1976-2026 is less a new chapter in ACCEPT's history than a collective snapshot of the importance that history has acquired. It is a celebratory album, built around extraordinary musicians, produced with considerable skill and packed with moments capable of putting an immediate grin on the face of any heavy metal fan. Its value, however, lies more in the event itself than in any pressing need for the album to exist.

And that's perfectly fine.

After 50 years, ACCEPT has absolutely nothing left to prove. They can simply invite their friends to the party, turn up the amplifiers and revisit some of the songs that helped build heavy metal.

If the results do not replace the originals, they at least prove something perhaps even more important: those songs are still alive, relevant and powerful enough to make 50 of the genre's biggest names want to play them again.

For a band that helped write the history of metal, perhaps that is the most fitting celebration of all.


A brief who's who of the album:

1. Fast as a Shark

Restless and Wild (1982)

Phil Anselmo, Kirk Hammett, Billy Sheehan, Mikkey Dee

2. Balls to the Wall

Balls to the Wall (1983)

Rob Halford, Matthias Jabs, Rex Brown, Jason Bowld

3. Aiming High

Russian Roulette (1986)

Chuck Billy, Gary Holt, David Ellefson

4. Run If You Can

Russian Roulette (1986)

Todd La Torre, Ola Englund, Chuck Garric, Roy Mayorga

5. Hellhammer

Eat the Heat (1989)

Jason McMaster, Zeuss, Phil Shouse

6. Metal Heart

Metal Heart (1985)

Dino Jelusick, Joel Hoekstra, Ava Rebekah Rahman

7. Losers and Winners

Russian Roulette (1986)

Hansi Kürsch, Paul Gilbert, Tommy Aldridge

8. Save Us

I'm a Rebel (1980)

Tobias Forge, Frank Bello, Ray Luzier

9. Up to the Limit

Balls to the Wall (1983)

John Bush, Alex Skolnick, Rudy Sarzo, Shannon Larkin

10. Wrong Is Right

Metal Heart (1985)

Ralf Scheepers, John Norum, Ken Mary

11. Starlight

Accept (1979)

Joseph Michael, Phil Demmel, Michael Cartellone

12. Fight It Back

Breaker (1981)

Mark Lopes, Bumblefoot, Billy Sheehan, Shawn Drover

13. Love Child

Balls to the Wall (1983)

Billy Corgan, David Ellefson, Tommy Aldridge

14. Breaker

Breaker (1981)

Girish Pradhan, Glen Drover, Shawn Drover

15. Demon’s Night

Russian Roulette (1986)

Bobby Blitz, Andy Sneap, David Ellefson, Ray Luzier

16. T.V. War

Russian Roulette (1986)

Joe Lynn Turner, Fredrik Åkesson, Rudy Sarzo

17. London Leatherboys

Balls to the Wall (1983)

Sebastian Bach, Rex Brown, Shawn Drover

18. Monsterman

Metal Heart (1985)

Jeff Scott Soto, Jeff Loomis, Rudy Sarzo

19. Restless and Wild

Restless and Wild (1982)

Chris Jericho, K. K. Downing, Billy Sheehan, Ray Luzier

Robert John