terça-feira, 31 de março de 2026

Exodus: morno e esquecível

Por: Renato Sanson 

O retorno de Rob Dukes ao Exodus carregava um peso simbólico enorme, não apenas pela nostalgia, mas pela energia brutal que marcou sua primeira passagem pela banda. E é justamente aí que mora a grande frustração de "Goliath": um álbum que tinha tudo para ser um renascimento agressivo, mas acaba soando apático, previsível e, em muitos momentos, surpreendentemente sem identidade.

Desde o anúncio, impulsionado pelas declarações de Gary Holt de que este seria “um disco feito para nós, não para os fãs”, já existia um certo receio. O problema é que, ao ouvir o resultado final, essa frase deixa de soar como uma provocação artística e passa a parecer um aviso ignorado. Falta justamente aquilo que sempre definiu o Exodus: urgência, riffs memoráveis e aquela sensação constante de perigo iminente.

Rob Dukes, que em álbuns como "The Atrocity Exhibition... Exhibit A" e "Exhibit B: The Human Condition" havia se consolidado como um sucessor à altura ou até mesmo o verdadeiro herdeiro do espírito de Paul Baloff, aqui parece subaproveitado. Sua performance continua potente, carregada de agressividade, mas engessada por composições que não acompanham sua intensidade. É quase como ver um motor de alta performance preso a uma carroceria que não responde.

A comparação com "Force of Habit" (92), infelizmente, não é exagero. Assim como naquele controverso lançamento dos anos 90, Goliath flerta com uma abordagem diferente, menos inspirada, menos visceral e paga o preço por isso. A tentativa de explorar novas nuances acaba resultando em faixas arrastadas e pouco memoráveis, que dificilmente sobreviverão ao teste do tempo dentro de um catálogo tão respeitado.

Se Steve Souza havia recolocado a banda nos trilhos com dois discos sólidos, reacendendo a chama do Thrash clássico, o retorno de Dukes, que deveria elevar ainda mais o nível acaba soando como um passo em falso. A expectativa era de algo avassalador, mas o que se entrega é um trabalho morno, que raramente empolga.

Nem mesmo o aspecto visual ajuda: a capa, pouco inspirada, parece refletir exatamente o conteúdo do álbum. Genérico, sem impacto e distante da força estética que o Exodus já apresentou em outros momentos da carreira.

No fim, Goliath não é um desastre completo, mas talvez seja ainda mais frustrante por isso: é um disco que tinha potencial para ser gigante como o nome sugere e termina apenas esquecível.

Entrevista - UDO: "Wolf tem um bom cantor, mas não a voz original"

Com uma trajetória marcada por clássicos eternos, turnês mundiais e uma identidade sonora única, Udo segue ativo, relevante e fiel às raízes que ajudou a consolidar dentro do metal tradicional. 

Em nossa conversa exclusiva, o músico revisita momentos importantes de sua carreira, deixa claro seu posicionamento para uma reunião com o Accept e compartilha suas expectativas para o aguardado show no Bangers Open Air, que promete ser um dos grandes encontros do ano para os fãs brasileiros.

Prepare-se para mergulhar em um bate-papo direto, sincero e carregado de história com um dos maiores nomes do heavy metal mundial.


Por: Renato Sanson 

Quais as expectativas para o show no Bangers Open Air?

UDO: Ainda estamos celebrando o 40º aniversário de Balls to the Wall. Vamos tocar o álbum na íntegra e, além disso, incluir alguns clássicos do Accept. Teremos 90 minutos de show, ou seja, praticamente um set de headliner. Estou realmente ansioso para isso.


Depois de muitos anos, você e o Peter estão tocando juntos. Como é essa sensação?

UDO: É uma sensação muito boa estar com o Peter novamente. Ele está curtindo, eu também, e estamos felizes. É como algo antigo voltando aos palcos.

Há um tempo atrás, você disse que não toca mais músicas do Accept ao vivo.

UDO: Sim, isso foi há muito tempo. Quer dizer, em 2015 começamos com o Dirkschneider, e muita gente perguntava: 'por que você não toca músicas do Accept?'. Então pensamos: 'ok, vamos fazer o Dirkschneider tocando apenas músicas do Accept'. 

Fizemos isso por quase três anos. Depois disso, talvez eu tenha falado cedo demais, mas disse: 'pronto, chega de músicas do Accept.' Quer dizer, temos material suficiente do U.D.O. para tocar ao vivo. Acho que foi um pouco precipitado. Agora estamos celebrando os 40 anos de Balls to the Wall, então aqui estamos nós, tocando Accept novamente.

Por que produtores e fãs tendem a resistir a músicas novas, preferindo os clássicos nos shows? Qual é a sua opinião sobre isso?

UDO: Quando falamos de músicas novas? 

Sim.

Claro que sim, pelo menos para mim. Acabamos de finalizar um novo álbum do U.D.O. E temos músicos mais jovens na banda. O que eu gosto no momento é que estamos criando algo como uma mistura entre o antigo e o novo, e isso é muito interessante para mim. Ou seja, não estamos seguindo apenas com os clássicos antigos — também há muitos arranjos novos ali. Claro, os músicos mais jovens têm uma forma de pensar diferente. 


E na sua carreira solo você já soma mais de 50 álbuns, sem contar a fase com o Accept. De onde vem tanta criatividade e energia para produzir tanto?

Não sei bem, é que geralmente a gente lança um álbum novo a cada dois anos e em seguida sai em turnê. Às vezes fazemos uma pausa curta, rapidinha mesmo. Só que, com o novo disco do U.D.O., houve uma interrupção de três anos. Evidentemente já se passaram quase dois anos sem lançamentos nossos, e quando a turnê do Ball to the Wall terminar agora em novembro, na prática teremos ficado cerca de dois anos na estrada com o Dirkschneider. 

Por isso, não foi tão fácil compor e gravar um lançamento novo do U.D.O. nesse intervalo. Sempre foi um balanço entre as turnês, ida e volta. Mas, de certa forma, eu gosto de fazer música e criar coisas novas também, e é por isso que continuo. Ou seja, agora tenho este que será o 20º álbum de estúdio, que sai no ano que vem. Então é bastante coisa.

Para o festival Bangers Open Air, vocês prepararam um setlist especial?

O que é realmente especial é que vamos tocar o álbum Ball to the Wall na íntegra. Nunca fizemos isso na América do Sul, então estou realmente ansioso por isso. E acho que já ouvimos muitos fãs dizendo que também estão muito empolgados para ouvir músicas que nunca tiveram a chance de ver ao vivo. Então, sim, estou muito animado também, e acredito que será um grande show. É isso, vamos nessa.


Há alguma possibilidade de uma reunião com Wolf Hoffmann novamente?

Não. Para mim, isso não faz sentido. De qualquer forma, eu sempre digo: o Wolf está fazendo suas próprias coisas com o Accept, sob o nome Accept, mas agora só resta um cara da formação original, o Wolf. E eu faço o U.D.O., mas também de uma maneira que acho mais confortável. Se eu quiser, posso dizer 'ok, vou tocar com o Dirkschneider, com a voz original, e tocar só músicas do Accept com a voz original.' 

Mas ele não tem a voz original, é um bom cantor, mas não é a voz original. E agora, com o Peter Baltes, temos dois membros do Accept antigo no palco. Para mim, não faz sentido fazer uma reunião, não há razão para isso. Ele faz o que faz, eu faço o que faço, e é isso.

Desculpa pela pergunta (risos). Mais uma pergunta: você prefere a era do Accept ou a era do Udo?

Isso é difícil. O Accept, claro, foi realmente enorme nos anos 80. Mas, de certa forma, os anos 80 já passaram, talvez não para o Metallica, AC/DC, Iron Maiden e bandas assim. Mas eu também aproveito muito, muito mesmo com o U.D.O. Temos uma grande base de fãs no mundo todo. Então, os dois… Eu não posso dizer que gosto mais de um ou de outro, é como se fossem iguais. É a mesma coisa.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Cobertura de Show: Moonspell – 22/03/2026 – Carioca Club/SP

Em um fim de semana repleto de shows em São Paulo, o Carioca Club se transformou em território português para uma celebração histórica: os 30 anos do álbum Wolfheart, do Moonspell, marco fundamental do gothic metal mundial. Para tornar a experiência ainda mais especial, a noite foi brindada com uma dobradinha lusitana, tendo a banda Sinistro como convidada de honra, que fez sua estreia no Brasil diante de uma alcateia brasileira fervorosa.

A abertura da noite ficou por conta dos conterrâneos do Sinistro, que abriram os trabalhos com uma performance pesada, atmosférica e visceral, típica do sludge/doom que fazem. O setlist, que incluiu “Ruas Desertas”, “Partida”, “Abismo”, “O Equivocado”, “Relíquia” e “Templo das Lágrimas”, imergiu o público em uma sonoridade que transitava entre o doom metal e o rock gótico, com Patrícia Andrade hipnotizando com seus vocais poderosos e melancólicos. A atmosfera sombria e os riffs arrastados prepararam perfeitamente o terreno para o headliner, conquistando o público que já chegava animado e provando que o underground português segue forte.

Pontualmente às 20h, os lendários Moonspell adentraram o palco, recebidos por uma ovação estrondosa. Com Fernando Ribeiro (vocais), Ricardo Amorim (guitarra), Pedro Paixão (teclados e guitarra), Aires Pereira (baixo) e Hugo Ribeiro (bateria), a banda portuguesa veio celebrar os 30 anos do icônico álbum Wolfheart. Fernando Ribeiro, com sua presença carismática, abriu a noite com um caloroso “Boa noite, Brasil, somos o Moonspell e estamos aqui para celebrar os 30 anos do Wolfheart”, antes de mergulhar de cabeça em “Wolfshade (A Werewolf Masquerade)”, transportando a todos para a atmosfera sombria e mística do álbum que definiu uma era para o gothic metal.

Em seguida, executaram a envolvente “Love Crimes”, na qual os vocais líricos da convidada Eduarda Miss Blue, da banda Glasya, entrelaçaram-se de forma sublime com a voz gutural e expressiva de Fernando, criando um contraste vocal que adicionou uma camada extra de profundidade à performance. Na sequência, a banda entregou a densidade de “…of Dream and Drama (Midnight Ride)”, consolidando a imersão no universo de Wolfheart e mostrando a maestria dos músicos em recriar a atmosfera original do disco com uma energia renovada.

Fernando Ribeiro fez uma pausa para interagir com a plateia, expressando a honra de estar no Brasil em uma noite 100% portuguesa. Ele ressaltou que, apesar de ser domingo e de muitos terem compromissos no dia seguinte, a banda faria um setlist longo e completo, diferente da última vez em que tiveram que cortar músicas devido ao horário. Essa promessa foi recebida com entusiasmo, e a banda seguiu com a sombria “Tenebrarum Oratorium (Andamento I)”, mantendo a intensidade e a conexão com o público.

A diversidade musical do álbum foi explorada com a belíssima “Lua d’Inverno”, um momento instrumental que destacou o talento de Pedro Paixão nos teclados e Ricardo Amorim na guitarra, criando uma paisagem sonora hipnotizante. A seguir, “Trebaruna” trouxe à tona os ritmos e a melodia portuguesa, com a plateia acompanhando com palmas, criando um momento de intercâmbio cultural. Fernando então compartilhou uma curiosidade sobre “Ataegina”, explicando que a faixa havia sido inicialmente excluída do álbum pela gravadora por ter um “clima muito festivo”, que destoava do restante do material. No entanto, o sucesso estrondoso da música nos shows levou à sua inclusão em uma reedição do disco, uma prova da força e do apelo que a canção sempre teve junto aos fãs.

A atmosfera mística e sedutora retornou com “Vampiria”, uma das joias do álbum, que manteve a plateia em transe. Em “An Erotic Alchemy”, Eduarda Miss Blue voltou a brilhar, com seus vocais líricos ganhando destaque em um dueto bem à frente do palco, adicionando uma dimensão teatral à performance. O clímax da noite, no entanto, estava por vir. Antes de chamar o convidado especial, Fernando Ribeiro fez uma emocionante homenagem ao Brasil, afirmando que o país “criou o death metal” e relembrou sua admiração por bandas como The Mist, Sarcófago, Holocausto e, claro, Sepultura, destacando Jairo Guedz como um de seus integrantes favoritos. A casa veio abaixo com a entrada de Jairo, e, juntos, entregaram uma versão poderosa de “Alma Mater”, cantada em uníssono do início ao fim por uma plateia extasiada.

A surpresa da noite não parou por aí. A banda apresentou uma versão “dark” e arrepiante de “Lanterna dos Afogados”, clássico dos Paralamas do Sucesso. Essa releitura inusitada e brilhante demonstrou a versatilidade e a ousadia do Moonspell. A energia continuou alta com a execução de “Opium”, mantendo a plateia conectada e vibrante. O show seguiu com a energia contagiante de “Awake!”, seguida pela intensidade de “In Tremor Dei”. A banda não se limitou ao Wolfheart, presenteando os fãs com faixas de outros álbuns, como “Extinct”, “Scorpion Flower” e “Everything Invaded”, mostrando a diversidade de sua discografia e a evolução de sua sonoridade ao longo dos anos. Cada música foi executada com precisão e paixão, reafirmando o status do Moonspell como uma das maiores bandas de metal gótico do mundo.

Para encerrar a noite de quase duas horas de show, o Moonspell se despediu com a icônica “Full Moon Madness”, um hino que toca a alma de sua “alcateia”. Fernando Ribeiro aproveitou o momento para agradecer novamente a Jairo Guedz e a todas as bandas brasileiras que serviram de inspiração para o Moonspell, reforçando a profunda conexão e admiração mútua entre as cenas musicais dos dois países. O público, caloroso e receptivo do início ao fim, demonstrou que a fidelidade à banda portuguesa permanece inabalável, celebrando não apenas um álbum, mas uma trajetória de três décadas de música e paixão. 


Texto: Marcelo Gomes


Edição/Revisão: Gabriel Arruda


Realização: Overload Brasil



Sinistro – setlist:

Ruas Desertas

Partida

Abismo

O Equivocado

Reliquia

Templo das Lagrimas 


Moonspell – setlist:

Wolfshade 

Love Crimes 

 ...of Dream and Drama (Midnight Ride)

Tenebrarum Oratorium (Andamento I) 

Lua d'Inverno 

Trebaruna 

Ataegina

Vampiria

An Erotic Alchemy 

Alma Mater
 
Lanterna dos Afogados (Os Paralamas do Sucesso)

Opium

Awake!

In Tremor Dei

Extinct

Scorpion Flower

Everything Invaded

Full Moon Madness

Räge: E eis que Surge o Novo Representante do Modern Metal Brazuka

 

Por Denis A. Lacerda

Nota: 08.5/10.0

O álbum “Agressive Nature”, da banda RÄGE, se consolida como um dos lançamentos mais relevantes do Modern Metal brasileiro em muitos anos, posicionando o grupo entre os principais nomes emergentes do gênero. Com uma proposta sonora atual e alinhada às tendências internacionais, a banda demonstra maturidade e coesão em um trabalho que reforça sua identidade artística.

À frente do disco, o vocalista Ian Rodrigues entrega uma performance de alto nível, mesclando com precisão técnica elementos de screams e guturais. Sua interpretação imprime uma sensação constante de urgência às faixas, característica essencial para a proposta da RÄGE, além de contribuir significativamente para a intensidade e o impacto do álbum como um todo.

No campo das composições, “Guerra” e “Corpo Seco” se destacam como os principais momentos do trabalho. As faixas evidenciam o talento do guitarrista Pedro Teixeira, que constrói linhas de cordas marcantes e de forte apelo de grooves, com riffs que permanecem na memória do ouvinte. Mantendo-se estritamente dentro das diretrizes do gênero, as músicas demonstram eficiência e consistência estética.

Outro aspecto relevante é a utilização do idioma português em algumas composições, incluindo as duas faixas em destaque. A escolha reforça a identidade da RÄGE e amplia a conexão com o público nacional, sem comprometer o alcance internacional do trabalho, evidenciando uma estratégia consciente de posicionamento artístico.

A produção de “Agressive Nature” apresenta um nível técnico elevado, equiparando-se a lançamentos contemporâneos da Europa e dos Estados Unidos. Diante desse conjunto, o álbum não apenas consolida a RÄGE no cenário, como também gera expectativa para suas performances ao vivo, que prometem traduzir toda a intensidade do estúdio para o palco em uma próxima turnê já aguardada pelo público.

Fighter V: Uma Viagem Oitentista Com Identidade Própria (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Os suíços do Fighter V dão um passo importante em sua trajetória com Déjà Vu, terceiro álbum de estúdio e estreia pela Frontiers Records. Fortemente ancorado na estética do melodic hard rock e do AOR oitentista, o disco equilibra reverência e identidade própria, apostando em melodias marcantes, arranjos bem construídos e uma produção mais polida.

A abertura com “Raging Heartbeat” já evidencia um dos principais diferenciais da banda: o timbre vocal de Emmo Acar, mais grave e áspero do que o habitual no AOR, conferindo personalidade ao som. Sustentada por camadas de teclados e backing vocals bem trabalhados, a faixa estabelece a base sonora que permeia boa parte do álbum — uma fusão consistente entre AOR e hard rock.

Na sequência, “Victory” surge com força de hino, apoiada em refrão expansivo, coros marcantes e guitarras de timbre refinado. A combinação de elementos clássicos do gênero se mantém em “Made For A Heartache”, que aposta em uma abordagem mais direta e imediata, com destaque para o trabalho de baixo e um refrão de fácil assimilação.

A primeira mudança mais sensível de dinâmica aparece em “Foolish Heart”, balada que mergulha de vez na atmosfera oitentista. A influência de nomes como Whitesnake se faz presente, especialmente nas linhas vocais que remetem ao estilo de David Coverdale. O uso de saxofone ao final acrescenta textura e reforça a proposta nostálgica.

A faixa-título, “Déjà Vu”, traz uma introdução moderna com batida eletrônica, rapidamente incorporada ao DNA clássico do álbum. O diálogo entre guitarra e teclado remete diretamente a referências como Deep Purple e Rainbow, evidenciando o cuidado da banda em equilibrar peso e melodia.

“Stand By Your Side” amplia o leque de influências ao incorporar elementos que evocam Def Leppard, sobretudo nos backing vocals e nas texturas eletrônicas. Essa diversidade sutil também aparece em “All Your Love”, que retorna a uma abordagem mais hard rock, enriquecida por arranjos detalhados, incluindo saxofone e intervenções narrativas que dialogam com a temática da canção.

Em “Hold The Time”, o grupo aposta em uma construção mais tradicional, com introdução marcante e desenvolvimento centrado na interação entre voz, guitarras e teclados. Já “For All This Time” reforça novamente a presença de elementos eletrônicos, criando uma atmosfera que privilegia o groove e destaca o baixo na condução da faixa.

A reta final do álbum é marcada por um aumento de intensidade. “Break Those Limits” acelera o andamento e entrega um dos momentos mais enérgicos do disco, com forte apelo melódico e estrutura pensada para impacto imediato. Por fim, “Victim Of Changes” encerra o trabalho sintetizando suas principais características, transitando entre AOR, hard rock e toques de heavy metal com eficiência.

Déjà Vu é um álbum que aposta na força de suas influências sem soar datado. Ao contrário, demonstra maturidade na forma como revisita o passado, resultando em um trabalho coeso e bem executado. Com isso, o Fighter V se consolida como um nome relevante dentro da nova geração do melodic rock europeu.

***ENGLISH VERSION***

Swiss melodic rockers Fighter V take a significant step forward with Déjà Vu, their third studio album and debut release on Frontiers Records. Deeply rooted in the golden era of ’80s melodic hard rock and AOR, the record strikes a careful balance between nostalgia and identity, delivering soaring melodies, polished production, and a confident sense of direction.

Opening track “Raging Heartbeat” immediately highlights one of the band’s defining traits: Emmo Acar’s distinctive vocal tone. Grittier and more grounded than the typical AOR delivery, his voice injects character into a soundscape built on lush keyboards, layered backing vocals, and melodic guitar work. It’s an effective introduction to the album’s core formula — a seamless blend of AOR sheen and hard rock edge.

“Victory” follows with undeniable anthem potential, driven by its expansive chorus, gang vocals, and finely crafted guitar tones. The same sense of immediacy carries into “Made For A Heartache”, a more direct and punchy track where a strong rhythmic foundation and a memorable hook take center stage.

A shift in dynamics arrives with “Foolish Heart”, a power ballad steeped in ’80s atmosphere. Echoes of Whitesnake are particularly evident, especially in the vocal phrasing reminiscent of David Coverdale. The addition of saxophone in the closing moments adds depth and reinforces the track’s nostalgic appeal.

The title track, “Déjà Vu”, introduces a subtle modern twist with its electronic pulse before settling into the album’s classic framework. The interplay between guitar and keyboards pays clear homage to genre-defining acts such as Deep Purple and Rainbow, showcasing the band’s ability to channel their influences with authenticity.

“Stand By Your Side” broadens the sonic palette by incorporating elements reminiscent of Def Leppard, particularly in its layered backing vocals and textured production. This versatility continues with “All Your Love”, which leans back into hard rock territory while adding narrative touches and instrumental nuances — including saxophone — that enrich the listening experience.

“Hold The Time” embraces a more traditional structure, built around a strong intro and a dynamic interplay between vocals, guitars, and keys. Meanwhile, “For All This Time” revisits electronic textures, placing greater emphasis on groove and bass-driven momentum, while still maintaining the album’s melodic core.

The final stretch raises the intensity. “Break Those Limits” is the album’s most energetic moment — fast-paced, hook-laden, and crafted for instant impact. Closing track “Victim Of Changes” (not a Judas Priest cover) serves as a summary of the album’s strengths, blending AOR, hard rock, and subtle heavy metal influences into a cohesive finale.

Déjà Vu is a record that embraces its influences without sounding derivative. Instead, it reflects a band that understands the essence of the genre while injecting its own personality into the mix. With this release, Fighter V firmly establish themselves as a rising force within the modern melodic rock scene.

Florian Kehbel


Confess: Do Caos ao Controle (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges 

Os suecos do Confess chegam a 2026 com Metalmorphosis, quarto álbum de estúdio que marca um claro passo adiante na evolução sonora da banda. Lançado pela Frontiers Music Srl e produzido por Erik Mårtensson (Eclipse), o trabalho equilibra com precisão a crueza do sleaze metal com um refinamento melódico mais evidente, ampliando o alcance sem comprometer a identidade construída ao longo dos anos.

A abertura, “Colorvision”, estabelece imediatamente o tom do disco com uma introdução grandiosa, marcada por corais e uma entrada explosiva. A combinação entre peso e apelo melódico já sinaliza a proposta do álbum: refrões fortes, produção polida e uma dinâmica mais abrangente.

Na sequência, “The Warriors” aposta em uma abordagem mais direta, com influências claras de nomes como Guns N’ Roses e Skid Row. O destaque fica para a inserção inesperada de gaita, que adiciona textura e conduz a uma ponte melódica eficiente. Já “Wicked Temptations” reforça o lado mais acessível do Confess, com um refrão imediato e estrutura pensada para impacto ao vivo.

A faixa-título, “Metalmorphosis”, sintetiza a essência do disco ao unir velocidade, guitarras em dobradinha e forte apelo clássico — em uma sonoridade que remete ao Judas Priest em uma leitura mais voltada ao hard rock. É um dos momentos mais representativos do álbum.

O clima muda com “Beat of My Heart”, uma balada de construção quase acústica que valoriza a interpretação vocal de John Elliot e evidencia o cuidado nos arranjos. Em contraste, “Pursuit Of The Jenny Haniver” retoma a energia com uma composição dinâmica, que evolui para passagens mais elaboradas e surpreendentes na segunda metade.

“The Other Side” mergulha de vez no hard rock melódico, com forte influência estética do próprio Eclipse, enquanto “Running To My Death” apresenta uma das facetas mais pesadas do disco, dialogando com o metal europeu dos anos 80 sem abrir mão de refrões marcantes.

Já “Plague Of Steel” combina referências oitentistas com uma estrutura moderna, alternando riffs consistentes e um refrão altamente acessível, além de um solo que flerta com influências clássicas do hard e do prog (com uma clara homenagem ao Rush). O encerramento fica por conta de “Silvermalen”, uma faixa de caráter épico que cresce em intensidade e complexidade, reunindo elementos acústicos, passagens densas e um dos refrões mais memoráveis do trabalho.

No conjunto, Metalmorphosis apresenta um Confess mais maduro e confiante, capaz de transitar entre peso e melodia com naturalidade. A produção de Erik Mårtensson desempenha papel fundamental nesse resultado, garantindo coesão e impacto sonoro. Trata-se de um álbum sólido, com potencial para figurar entre os destaques do ano dentro do hard/heavy contemporâneo.

***ENGLISH VERSION***

Swedish sleaze metal outfit Confess return in 2026 with Metalmorphosis, their fourth studio album and a record that marks a clear step forward in the band’s sonic evolution. Released via Frontiers Music Srl and produced by Erik Mårtensson (Eclipse), the album strikes a careful balance between the raw edge that defined their earlier work and a more refined melodic approach, broadening their appeal without sacrificing identity. 

Opening track “Colorvision” sets the tone immediately with a grandiose introduction built around choral arrangements and an explosive entry point. The blend of weight and melody encapsulates the album’s core aesthetic: strong choruses, polished production, and a more expansive dynamic range.

“The Warriors” follows with a more stripped-down and direct approach, drawing clear influence from acts such as Guns N’ Roses and Skid Row. The unexpected use of harmonica adds texture and leads into an effective melodic bridge, while “Wicked Temptations” leans into accessibility, delivering an immediate, hook-driven chorus designed with live impact in mind.

The title track, “Metalmorphosis”, captures the album’s essence by combining speed, twin-guitar interplay and a strong classic metal sensibility — evoking Judas Priest through a more hard rock-oriented lens. It stands out as one of the record’s defining moments.

A shift in mood arrives with “Beat of My Heart”, a near-acoustic ballad that highlights John Elliot’s vocal performance and showcases the band’s attention to arrangement detail. In contrast, “Pursuit Of The Jenny Haniver” reintroduces momentum with a dynamic structure that evolves into more elaborate and unexpected passages in its second half.

“The Other Side” dives fully into melodic hard rock territory, strongly reflecting the aesthetic of Eclipse, while “Running To My Death” delivers one of the album’s heaviest moments, nodding to the European metal tradition of the ’80s without abandoning melodic hooks.

“Plague Of Steel” blends old-school influences with a more modern structure, alternating between solid riff work and an accessible chorus, complemented by a solo that subtly channels classic hard rock and progressive elements (with a clear homage to Rush. The album closes with “Silvermalen”, an epic and expansive track that builds in intensity and complexity, combining acoustic textures, heavier passages, and one of the most memorable choruses on the record.

Taken as a whole, Metalmorphosis presents a more mature and confident Confess — a band capable of navigating between weight and melody with ease. Erik Mårtensson’s production plays a crucial role in shaping this outcome, ensuring both cohesion and sonic impact. While not necessarily groundbreaking, it is a strong and well-crafted release with clear potential to feature among the standout hard/heavy albums of the year.

Matias Sulander




Michael Sweet: A Essência da Fé Em Forma de Música (Also In English)

Shinigami Records (Nac.) / Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

O vocalista do Stryper, Michael Sweet, apresenta em The Master Plan o trabalho solo mais introspectivo e espiritualmente orientado de sua carreira. Lançado pela Frontiers Music Srl, o álbum representa uma mudança significativa de abordagem, privilegiando arranjos mais orgânicos, atmosferas acústicas e uma condução emocional centrada na fé, na devoção e na reflexão pessoal.

Apesar de ser essencialmente um projeto autoral, o disco não soa isolado. Sweet assume vocais, guitarras e direção criativa, dividindo a produção com Jeff Savage, cujo trabalho nos teclados contribui decisivamente para a construção das ambiências. O resultado é uma obra coesa e cuidadosamente arquitetada, em que cada elemento instrumental está a serviço da mensagem e da emoção.

A faixa-título abre o álbum estabelecendo imediatamente sua identidade sonora: produção limpa, timbres orgânicos e uma fusão equilibrada entre base acústica e intervenções elétricas, complementadas por arranjos vocais de forte influência gospel. Esse direcionamento se estende por “Lord”, que combina texturas clássicas de teclado, passagens acústicas e um refrão sustentado por backing vocals femininos, além de referências setentistas bem delineadas.

“Stronger” evidencia a versatilidade vocal de Sweet, apoiada por uma instrumentação que alterna delicadeza e intensidade, com destaque para o uso de órgão e para os arranjos vocais que remetem ao estilo do Queen. Já “Eternally” flerta com o formato de power ballad ao unir piano, guitarras e um refrão de pegada hard rock, reforçando a capacidade do artista de transitar entre diferentes dinâmicas.

Em “You Lead I’ll Follow”, surgem influências mais clássicas, evocando nomes como Elvis Presley e Roy Orbison, com arranjos que incluem metais e uma base acústica sólida. A faixa contrasta com “Desert Stream”, que retoma a estética predominante do álbum, com camadas de teclado e vocais fortemente influenciados pelo gospel.

“Believer” apresenta uma interessante fusão estilística: enquanto a base remete ao hard rock clássico do Kiss em seus primórdios, o refrão incorpora elementos mais próximos da sonoridade de Nashville, ampliando o espectro musical do disco. Em “Again”, o clima introspectivo atinge seu ápice, com arranjos minimalistas e forte presença coral.

A diversidade sonora se expande em “Faith”, que incorpora elementos pouco usuais ao contexto, como gaita e banjo, sem perder a unidade estética. A faixa ainda estabelece um curioso diálogo com o pop contemporâneo, lembrando em alguns momentos artistas como Pink, antes de retornar às raízes gospel.

Encerrando o álbum, “Worship You” sintetiza suas principais características: início grandioso, condução emocional e uma combinação eficaz de guitarras, teclados e arranjos vocais que reforçam o caráter espiritual da obra.

The Master Plan reafirma Michael Sweet como um artista que vai além de sua identidade no Stryper. Ao apostar em uma abordagem mais intimista e reflexiva, o músico entrega um álbum que, embora profundamente enraizado em sua fé, mantém apelo universal. Trata-se de um trabalho que convida à contemplação, sem abrir mão de qualidade técnica e consistência artística.

***ENGLISH VERSION***

Best known as the voice and driving force behind Stryper, Michael Sweet steps further into introspective territory with The Master Plan, arguably the most personal and spiritually resonant solo effort of his career. Released via Frontiers Music Srl, the album marks a deliberate shift in sonic direction, favoring organic textures, acoustic-driven arrangements and a deeply reflective lyrical core rooted in faith, devotion and personal conviction.

While unmistakably a solo record, The Master Plan is far from a solitary endeavor. Sweet handles vocals, guitars and overall artistic direction, sharing production duties with Jeff Savage, whose tasteful keyboard work plays a pivotal role in shaping the album’s atmospheric depth. The result is a cohesive and carefully crafted body of work, where every musical element serves the emotional and spiritual narrative.

The title track sets the tone with pristine production, blending acoustic foundations with subtle electric embellishments and gospel-tinged vocal arrangements. This approach carries into “Lord”, where classic keyboard textures, acoustic passages and soaring female backing vocals converge, enriched by a distinct ‘70s influence.

“Stronger” highlights Sweet’s vocal versatility, supported by a dynamic arrangement that balances restraint and intensity. Organ textures and layered harmonies evoke shades of Queen, adding a theatrical edge to the composition. Meanwhile, “Eternally” leans into power ballad territory, seamlessly merging piano-led passages with a driving hard rock chorus, showcasing Sweet’s ability to navigate contrasting dynamics with ease.

“You Lead I’ll Follow” introduces a different flavor, drawing from the classic stylings of Elvis Presley and Roy Orbison, complete with brass accents and a warm acoustic backbone. In contrast, “Desert Stream” returns to the album’s core aesthetic, driven by layered keyboards and gospel-influenced vocal arrangements.

One of the album’s more intriguing moments comes with “Believer”, which fuses early Kiss-inspired hard rock with a chorus that leans toward a Nashville-infused sensibility, broadening the record’s stylistic palette. “Again” strips things back to their emotional essence, offering one of the most introspective performances on the album, anchored by minimal instrumentation and rich choral textures.

“Faith” further expands the sonic landscape, incorporating unconventional elements such as harmonica and banjo without disrupting the album’s cohesion. There are even fleeting hints of contemporary pop phrasing, reminiscent of Pink, before the track ultimately circles back to its gospel roots.

Closing track “Worship You” encapsulates the album’s defining traits: an anthemic opening, emotionally driven delivery and a seamless blend of guitars, keyboards and layered vocals that reinforce its spiritual core.

With The Master Plan, Michael Sweet successfully steps beyond the shadow of Stryper, delivering a work that is both deeply personal and broadly accessible. While its themes are firmly grounded in faith, the album transcends boundaries through its sincerity, craftsmanship and emotional resonance. It’s a contemplative, well-executed release that showcases Sweet not just as a frontman, but as a fully realized artist.

Pedro Blanco


domingo, 29 de março de 2026

Entrevista – Hangar: "O Hangar é a banda do coração de todo mundo ali, somos realmente irmãos, ficamos impressionados com o carinho do público" (Cristiano Wortmann)

Divulgação

Por Gabriel Arruda (Mischa Almeida ajudou na pauta)

O Hangar, uma das bandas mais importantes da história do metal nacional, anunciou seu retorno aos palcos no segundo semestre de 2025 para, até então, um único show no festival Bangers Open Air, que acontece nos dias 25 e 26 de abril, no Memorial da América Latina, em São Paulo.

O que seria uma apresentação única acabou se tornando a volta oficial da banda, acompanhada pelo lançamento do single “O Prisioneiro do Alvorecer” e por mais alguns shows pelo Brasil, algo que não acontecia desde o final de 2018, ainda durante a turnê de divulgação do álbum Stronger Than Ever, que, em 2026, completa dez anos de lançamento.

Com quase trinta anos de história, o Hangar segue conquistando novos fãs graças a trabalhos como Inside Your Soul (2001), The Reason of Your Conviction (2007), Infallible (2009) e Stronger Than Ever (2016), além de manter uma base fiel que já acompanhava a banda e sentia sua ausência. Isso reforça o valor do grupo na história da música pesada brasileira, ainda que muitos considerem que o reconhecimento poderia ser ainda maior.

A seguir, o guitarrista Cristiano Wortmann comenta sobre esse retorno e o que podemos esperar do show no Bangers. 

Divulgação

Qual a sensação de sair de um hiato de oito anos e já tocar em um festival do porte do Bangers?

CW: É uma sensação muito boa. A gente está muito feliz, a banda vive um momento muito especial. Estamos lisonjeados por sermos convidados para tocar no maior festival da América Latina, ainda mais nesse retorno. Ficamos esse tempo em hiato por diversas questões, mas nunca deixamos de nos falar. Sempre continuamos compondo e temos bastante material guardado. O Hangar sempre manteve esse contato próximo, temos nosso grupo no WhatsApp e estamos constantemente trocando ideias. 

Quando surgiu essa oportunidade, percebemos que era o momento certo para voltar e fazer um show histórico. É algo muito especial tanto para os fãs, que sempre pediram nosso retorno, quanto para uma nova geração que ainda não teve a chance de ver o Hangar ao vivo. Claro que há também quem já tenha assistido e quer reviver isso, mas muitos fãs novos que curte o Hangar vão ter essa oportunidade de nos ver no Bangers, um festival que é motivo de grande orgulho para nós.

E vocês acabaram de lançar um single muito legal, O Prisioneiro do Alvorecer. Há um novo trabalho a caminho?

CW: O Prisioneiro do Alvorecer é uma música que está tendo uma repercussão bem legal. É uma música da banda Spartakus, uma grande banda de Porto Alegre, que tem músicas muito legais. A gente fez essa releitura e o pessoal recebeu muito bem. É um rock pesado em português, então ficou um pouco diferente do que estamos acostumados a fazer. A gente tem bastante coisa. Como eu falei, estou sempre compondo, todos da banda estão sempre compondo, sempre fazendo coisas. 

No ano que vem, o Hangar completa 30 anos, então é uma data muito especial, e claro que isso pode motivar algo novo, mas tudo depende de vários fatores, todos os membros também têm outros projetos. É claro que o Hangar é o nosso filho querido, é a banda do coração de todo mundo ali. Hoje em dia, com a facilidade da internet, ficou mais tranquilo compor e fazer coisas juntos pela internet também. A gente vai trocando ideias e, quando possível, se reúne para finalizar. Então vamos ver o que o futuro nos espera.

O Hangar tem muitos fãs no nordeste. Planejam ir para lá para fazer uma turnê?

CW: A gente tem os nossos maiores fãs no nordeste, o pessoal nos recebe sempre muito bem. Como eu falei antes, tudo depende de vários fatores, a gente tem que ver se é um negócio interessante financeiramente para a banda, porque pesa bastante uma tour para o nordeste e é longe para todo mundo. Tem que organizar várias coisas para dar certo, mas a gente está aberto, vamos ver. Tudo depende das propostas que a gente receber e de como que a gente vai organizar a agenda de todos os integrantes da banda o ano que vem. 

Mas a gente está de portas abertas, a gente adora o povo nordestino, que sempre nos receberam muito bem desde o início. Nessa época eu até tinha saído da banda, foi na turnê do Inside Your Soul, que eu ajudei a compor, mas tinha saído. O público explodiu mesmo nessa turnê, a To Tame a Land foi uma música que tocou muito nas rádios de lá, então virou um clássico nacional pelo Nordeste também. Seria demais a gente poder voltar lá com o Hangar novamente.

E depois de um período de hiato, e agora com o retorno aos palcos, o que mudou na visão musical e pessoal de vocês? O público pode esperar alguma nova fase do Hangar a partir desse show?

CW: A gente está sempre evoluindo como ser humano e como músico. Como ficamos oito anos parados, é claro que absorvemos coisas novas. A banda está mais madura, no meu ponto de vista, e a gente vive uma relação muito boa já há muitos anos. Nós somos realmente irmãos. Eu, o Aquiles, o Nando, o Fabio… todo mundo se conhece há trinta anos. E o Pedro também voltou ali comigo, mais ou menos em 2012, quando fizemos a turnê de quinze anos do Hangar, que foi quando eu retornei para a banda. 

Um pouquinho depois, o Pedro também entrou. Então eu acho que é uma fase muito boa para nós. Esperamos que perdure, porque agora está todo mundo mais maduro. As brigas que aconteceram no passado têm muito a ver com isso também. Certas coisas acontecem quando a gente é mais jovem, mas com o tempo você amadurece e passa a entender o quão importante o Hangar é para todos nós que estamos na banda e também para os fãs. A gente vê na internet o quanto as pessoas gostam do Hangar, é impressionante. 

Ficamos muito lisonjeados com esse carinho do público. Então podem esperar, no Bangers, um repertório muito legal. A gente vai revisitar toda a história do Hangar, claro, com coisas novas também. O repertório está fantástico, estou ensaiando direto aqui. É uma pedreira para tirar de novo. Muita coisa a gente teve que reaprender porque fazia tempo que eu não tocava, mas já está no sangue. Vai ser um repertório muito legal.

Já que você falou nessa questão de repertório, como é um show de festival, geralmente é mais curto, como vocês estão preparando o setlist? Tem alguma música que não pode faltar de jeito nenhum? 

CW: Tem algumas músicas que não podem faltar de jeito nenhum, e a gente vai colocá-las. Inclusive, fizemos uma pesquisa com o pessoal do Instagram e do Facebook para a galera indicar quais músicas não poderiam ficar de fora. Tem algumas que são muito citadas, como To Tame a Land, The Reason of Your Conviction, entre várias outras. Mas a gente vai fazer um apanhado de todas as fases do Hangar, desde Inside Your Soul até músicas mais novas do Stronger Than Ever (2016), que foi o nosso último disco. Então vai ter muita coisa legal, muitos clássicos, mas também vão existir algumas surpresas nesse setlist.

Tocar no Bangers Open Air representa o que para o Hangar dentro da história da banda e da cena do metal brasileiro?

CW: É um orgulho enorme para a banda. Repetindo, é o maior festival da América Latina. Eu creio que será o maior festival em que o Hangar já tocou, então, para a gente e para o metal nacional, é um motivo de orgulho máximo. Ficamos muito felizes em ver que o Bangers agora, todos os anos, está dando oportunidade tanto para bandas da cena brasileira quanto para grandes bandas estrangeiras que a gente também gosta muito. 

No dia em que vamos tocar, várias bandas que a gente adora também estarão presentes: Black Label Society, Evergrey, Cr¨Ypta, Marenna, entre outras. São bandas que realmente admiramos. E todo o line-up do festival está fantástico nos dois dias, incluindo essa volta do Angra, fechando a segunda noite. Então vai ser um momento realmente muito especial na carreira do Hangar. 

A gente está extremamente feliz e gostaria de agradecer a toda a produção do Bangers pelo convite. Vamos com tudo para fazer um grande show. A gente está muito preparado, vamos ensaiar bastante, e a banda está com gás total para fazer uma grande noite.

Este ano também marca os dez anos do lançamento do álbum Stronger Than Ever (2016), que é um disco muito especial pra mim, porque acompanhei todo o processo até o lançamento e ouvi bastante na época. É um trabalho muito forte e maduro, que marcou o seu retorno à banda e também a estreia do Pedro nos vocais. Olhando para trás, qual foi o impacto desse disco na carreira de vocês e o que ele representa hoje para a banda?

CW: Esse foi um disco muito importante na nossa carreira. A gente experimentou algumas coisas novas nele. Nos reunimos em Bebedouro para compor juntos, e tudo foi muito bem pensado. Há composições diferentes nesse trabalho, claro, sempre mantendo a pegada do Hangar. 

Ele também marcou, como você mencionou, o meu retorno à banda e a estreia do Pedro Campos, que já era um grande talento na época, bem mais novo, e hoje está ainda mais maduro. Sempre foi um músico incrível. É um disco do qual a gente tem um enorme orgulho. Usamos afinações mais baixas de guitarra em algumas músicas e exploramos bastante coisa diferente. Tem baladas também, por exemplo, Just Like Heaven, que se tornou uma das maiores baladas da história do Hangar, ao lado de outras do Infallible e do The Reason of Your Conviction. Ela acabou virando um grande hit do disco. Ao mesmo tempo, há várias músicas pesadas que a gente também registrou, inclusive depois no ao vivo Live in Brusque, com várias faixas do Stronger Than Ever. 

O público aceitou muito bem esse álbum, mesmo com a gente experimentando e saindo um pouco do padrão. E, olhando para trás, vemos que é um disco bem maduro. Mesmo depois de dez anos, ele continua atual. Muita gente ainda vem falar com a gente dizendo 'olha, conheci o Hangar por esse disco, conheci pelo Stronger Than Ever.' Então parece que foi ontem que a gente fez. Esses dez anos passaram muito rápido, e a gente tem um orgulho enorme desse trabalho.

É muito legal também que, nesse disco, vocês usaram vocal gutural em algumas músicas, como The Revenant e Forest of Forgotten. E creio que a música que marcou mais nesse disco foi A Letter From 1997 (MHJ).

CW: A Letter From 1997 (MHJ) é uma das minhas preferidas também. Eu cantei várias músicas com o Pedro fazendo gutural, isso é uma coisa nova no Hangar, porque em todos os outros discos sempre houve apenas um vocalista: o Michael, o Nando, o Humberto e todos os outros vocalistas que passaram pela banda.

Nesse disco, a gente explorou essa troca de vozes entre mim e o Pedro, além, claro, dos backing vocals gravados pelos outros integrantes. Tem várias músicas ali pelas quais eu sou apaixonado e tenho o maior orgulho de ter gravado e composto junto com todo o pessoal. A Letter From 1997 (MHJ), com certeza, é uma delas. É uma das minhas preferidas. Essa música é especial.

E esse disco também gerou o primeiro CD/DVD ao vivo em formato "elétrico" da banda, gravado em Brusque, Santa Catarina. Foi um momento muito especial, com uma produção impecável, que contou até com filmagem aérea de um helicóptero.

CW: Foi muito especial, apesar do frio inacreditável no dia que a gente gravou. Eu acho que a sensação térmica foi de quatro graus abaixo de zero, então foi difícil para a gente tocar. Mas, no fim das contas, deu tudo certo , ficou muito bem gravado. A Foggy fez a captação das imagens, e depois foi mixado e masterizado pelo Adair Daufembach. 

É um disco ao vivo muito legal do metal brasileiro, o Hangar - Live in Brusque. Quem ainda não conhece, vale a pena ir atrás, tem vários vídeos no YouTube e também está no Spotify. É um disco que faz meio que um apanhado geral da carreira do Hangar, com várias músicas clássicas da banda. O resultado ficou realmente excelente.

Paralelamente, durante o hiato do Hangar, você, junto com o Michael, formaram o Hard Power, e em 2024 vocês lançaram o debut álbum, que é um disco de hard rock bem legal. 

CW: Legal você falar nisso também. A gente formou uma banda com o ex-vocalista do Hangar, o Mike, o Rafael, que é o baixista e já tocou em várias bandas legais da cena, e o baterista Lucas Rodrigues. A gente lançou o primeiro disco em 2024. Esse ano, a gente fez até uma regravação em versão hard rock de “To Tame a Land”, que o Michael é um dos compositores também, e ficou bem legal. 

A gente lançou faz mais ou menos um mês e a repercussão foi muito boa. É um lado mais hard rock que a gente gosta bastante. Eu sou muito hardeiro, apesar de gostar muito de metal e tocar metal, tenho uma veia bem hard rock também. Então a gente conseguiu explorar isso, fazer um som mais trabalhado dentro desse estilo. E a gente já está produzindo o segundo disco agora, as composições já estão prontas, e a gente começou a trabalhar nos arranjos de bateria, baixo, guitarra e voz. 

Acho que, talvez, ainda esse ano a gente lance um ou dois singles. E, pro ano que vem, a ideia é lançar o segundo disco. A aceitação do público está sendo muito legal, então a gente está bastante orgulhoso desse trabalho.

Existe algum momento especial e marcante da história do Hangar que você guarda com muito carinho? 

CW: Olha, são vários momentos… Mas o início do Hangar é uma história bem legal de contar. Eu fui convidado pra tocar guitarra numa banda que ia abrir um show do Barão Vermelho, no Gigantinho, em Porto Alegre, chamada Apocalipse Now. 

Era uma banda de rock and roll. Aí quando eu chego no ensaio, quem era o baterista? O Aquiles. A gente nem se conhecia. Começamos a tocar ali, se entrosar, e fomos pro Gigantinho pra fazer a abertura, só que o show acabou não acontecendo. A gente não abriu, apesar de ter ensaiado tudo. E aí eu e o Aquiles começamos a desenvolver uma amizade muito forte. 

A gente conversava bastante e viu que os dois gostavam de metal. Desde aquela época, a gente já ficava pensando como seria o nome da banda, quem a gente poderia chamar pra tocar baixo, pra cantar… Eu acabei conhecendo o primeiro baixista, o Felipe Trein, que é um irmão pra mim até hoje, um grande amigo. E foi ele que conhecia o Michael. Então todo esse início, lá em Porto Alegre, foi a gente sonhando com o que a banda poderia ser. A gente nunca imaginou que o Hangar ia se tornar o que se tornou. E eram muitos ensaios… a gente ensaiava loucamente, sem ter show, oito, dez horas por dia, sábado, domingo, no verão, sem ar-condicionado… 

Foram muitas batalhas até chegar onde o Hangar está hoje. Mas essa história do começo é bem engraçada. A gente ensaiou várias vezes pra fazer o show, chegou lá e a abertura foi cancelada. Mas, ao mesmo tempo, dali nasceu o Hangar. Se eu não tivesse encontrado o Aquiles naquele ensaio, a gente provavelmente nem teria se conhecido.

E qual foi a música mais desafiadora de compor ou gravar? Existe alguma música que vocês sentem que merecia mais reconhecimento?

CW: The Hangar of Hannibal é uma música muito difícil de tocar, e também foi bem difícil de compor lá na época do Stronger Than Ever. É realmente uma pedreira, como a gente comentou. Sobre músicas que a gente acha que poderiam ter tido mais reconhecimento isso é difícil de falar, porque, muitas vezes, as músicas que acabam estourando têm um investimento muito forte por trás, seja de gravadora ou de produtora. 

Ainda mais hoje em dia, que o pessoal coloca muita grana pra fazer a música alcançar mais gente. Mesmo assim, a gente teve várias que deram super certo de forma orgânica, como Call Me in the Name of Death, que é um grande hit do Hangar. Tem também as baladas… “Time to Forget”, pra mim, é uma música que deveria ter, sei lá, cem milhões de plays no Spotify. Mas a gente sabe que existem várias outras que tinham potencial pra ir ainda mais longe, se tivesse rolado um investimento maior, uma gravadora maior por trás, esse tipo de coisa. 

Só que isso é complicado de avaliar hoje, porque já passou. E, ao mesmo tempo, a internet está aí pra todo mundo, e às vezes ela traz umas surpresas. Tem músicas antigas que o pessoal redescobre, começa a ouvir de novo. Então tem muita coisa ali do lado B do Hangar que a galera escuta bastante no YouTube, no Spotify, nas plataformas de streaming em geral. Então é mais ou menos isso.

Cris, muito obrigado pela disponibilidade. Novamente, estou muito feliz com a volta do Hangar. Pode ficar a vontade para deixar uma mensagem final.

CW: Queria agradecer demais ao Bangers, a toda a produção e a todo mundo que está trabalhando com a gente. E dizer pros nossos fãs que a gente está muito feliz de voltar e fazer esse show espetacular nesse grande festival, que é o maior da América Latina. Podem esperar que a gente vai com sangue nos olhos e vai fazer um grande show de heavy metal pra vocês aí no Bangers. Quero ver todo mundo lá! Não percam, os ingressos estão acabando. E todo o Hangar espera vocês pra gente bater cabeça junto.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Adulfe: A Força do Mato Grosso em Forma da Fúria do Metalcore

 

Por Denis A. Lacerda

Nota: 09.5/10.0

O álbum de estreia “Anxiety”, da banda ADULFE, surge como um dos lançamentos mais expressivos do Metalcore/Deathcore brasileiro em muitos anos, consolidando o grupo como uma força emergente dentro do cenário pesado nacional. Amparada por uma trajetória marcada por consistência e evolução, a banda entrega um trabalho que dialoga diretamente com os padrões internacionais do gênero, evidenciando ambição e identidade própria.

À frente do disco, o vocalista Rodrigo Garcia se destaca com uma performance impressionante, alternando com precisão entre screams e guturais. Sua interpretação confere às faixas uma sensação constante de urgência e intensidade, elemento essencial para a proposta sonora da ADULFE. O controle técnico aliado à expressividade emocional posiciona o frontman como um dos pontos altos do trabalho.

No campo das composições, “Darkness Inside” desponta como o principal destaque do álbum. A faixa evidencia o entrosamento e a criatividade dos guitarristas Bruno Castro e Matheus Siqueira, que constroem linhas de cordas marcantes e de forte apelo melódico, com riffs que se fixam facilmente na memória do ouvinte. Ainda que permaneça estritamente dentro das convenções do gênero, a música demonstra eficiência e coesão estética.

A produção de “Anxiety” merece atenção especial pela sua qualidade técnica, apresentando um nível que se equipara a lançamentos contemporâneos vindos da Europa e dos Estados Unidos. A clareza do áudio, o peso equilibrado e o cuidado com os detalhes reforçam o profissionalismo da ADULFE, elevando o disco a um patamar competitivo no mercado global.

Diante desse conjunto pontos positivos, “Anxiety” não apenas marca uma estreia sólida, mas também projeta a ADULFE como um nome a ser acompanhado de perto. A expectativa agora se volta para a experiência ao vivo, onde a intensidade apresentada em estúdio poderá ser traduzida em performances impactantes. Há uma clara antecipação para a próxima turnê da banda, que deve consolidar ainda mais sua posição no cenário.

Abstracted: Peso, Sofisticação e Identidade (Also In English)

M-Theory Audio (Imp.)

Por Flavio Borges 

Após conquistar reconhecimento dentro e fora do Brasil com Atma Conflux (2022), o Abstracted retorna em 2026 com Hiraeth, um álbum que não apenas apresenta, mas solidifica uma nova fase em sua trajetória. Mais do que um simples sucessor, o disco funciona como um manifesto artístico que evidencia maturidade composicional, identidade sonora e ambição internacional.

A atual formação — Rosano Pedro Matiussi (vocais), Leonardo Brito e José Consani (guitarras), Riverton Vilela Alves (baixo), Carol Lynn (teclados) e Fernando Pollon (bateria) — demonstra entrosamento e segurança ao longo de toda a obra, posicionando o grupo como um dos nomes mais promissores do metal progressivo brasileiro contemporâneo.

Logo na abertura, “Axis” estabelece as bases do que está por vir. Com texturas de teclado que remetem à fase clássica do Dream Theater, a faixa alterna com naturalidade entre passagens limpas e momentos de alta densidade rítmica. A combinação entre vocais guturais — evocando influências como Opeth — e linhas melódicas limpas cria um contraste dinâmico que se tornará recorrente ao longo do álbum.

“Languish” intensifica essa proposta ao mergulhar em territórios mais agressivos, com estrutura complexa e abordagem mais extrema. A participação de Chaney Crabb acrescenta ainda mais peso e versatilidade à composição, que equilibra técnica e brutalidade sem abrir mão da sofisticação progressiva.

Em “Sirens”, o Abstracted amplia seu espectro sonoro ao incorporar elementos que transitam entre o jazz e o fusion, sem perder a coesão. A riqueza de arranjos e a alternância de climas demonstram uma banda confortável em explorar múltiplas influências, conectando o legado do progressivo clássico às tendências mais contemporâneas do gênero.

A virtuose instrumental ganha protagonismo em “To Quench This Insatiable Thirst”, que conta com a participação de Igor Bollos. A faixa se destaca pelo refinamento técnico e pela sobreposição de camadas sonoras, exigindo escutas atentas para que todos os detalhes sejam plenamente absorvidos.

Já “Requiem” oferece um respiro estratégico dentro da narrativa do álbum. Com forte carga atmosférica, a composição alterna momentos contemplativos com explosões de intensidade, incluindo passagens de blast beat e experimentações eletrônicas nos teclados. A versatilidade vocal, especialmente nas linhas limpas com abordagem moderna, reforça a identidade plural da banda.

A complexidade atinge um de seus ápices em “The Barren Grave of God”, onde mudanças abruptas de dinâmica e texturas inesperadas conduzem a audição. Elementos que flertam com o doom metal surgem em contraste com trechos altamente técnicos, culminando em uma construção rica em nuances — incluindo a inserção inusitada de tamborim, que adiciona uma assinatura brasileira ao arranjo.

Encerrando o trabalho, “The Utter End” sintetiza os principais elementos de Hiraeth. Em seus quase nove minutos, a faixa percorre diferentes atmosferas e reafirma a proposta do álbum: unir complexidade estrutural, agressividade e sensibilidade melódica em uma linguagem coesa e contemporânea.

Hiraeth é, acima de tudo, uma obra que demanda atenção. Distante de qualquer proposta casual, o álbum se revela aos poucos, recompensando o ouvinte disposto a mergulhar em suas múltiplas camadas. Ao equilibrar técnica apurada, identidade artística e visão de mercado, o Abstracted entrega um trabalho sólido, capaz de dialogar com o cenário internacional ao fundir o metal progressivo clássico com abordagens mais extremas e modernas.

***ENGLISH VERSION***

Following the critical momentum of Atma Conflux (2022), Brazil’s Abstracted return with Hiraeth — a bold and meticulously crafted record that not only introduces a refreshed lineup, but firmly establishes a new chapter in the band’s artistic evolution. More than a mere follow-up, Hiraeth stands as a statement of intent, showcasing a band operating with heightened confidence, compositional depth, and clear international ambition.

The current lineup — Rosano Pedro Matiussi (vocals), Leonardo Brito and José Consani (guitars), Riverton Vilela Alves (bass), Carol Lynn (keyboards), and Fernando Pollon (drums) — delivers a performance defined by precision and cohesion, reinforcing Abstracted’s position as one of the most compelling emerging forces in modern progressive metal.

Opening track “Axis” immediately sets the tone. Lush keyboard textures evoke the early era of Dream Theater, while intricate rhythmic shifts and dynamic transitions establish a sophisticated sonic framework. The interplay between guttural vocals — nodding towards Opeth — and clean melodic lines creates a striking contrast that becomes a defining characteristic of the album.

“Languish” pushes further into aggressive territory, balancing technical complexity with visceral intensity. A standout moment comes with the guest appearance of Chaney Crabb, whose commanding performance adds both weight and texture to an already multifaceted composition.

With “Sirens”, the band broadens its sonic palette, weaving in elements of jazz and fusion without compromising cohesion. The result is a richly layered track that bridges classic progressive influences with a modern, genre-fluid approach — a testament to the band’s compositional maturity.

“To Quench This Insatiable Thirst” serves as a showcase of instrumental prowess. Featuring guest guitarist Igor Bollos, the track unfolds as a technically demanding piece, filled with intricate arrangements and dense layering that reward repeated listens.

“Requiem” provides a carefully placed moment of atmospheric contrast. While maintaining the band’s progressive identity, the track introduces a more introspective dimension, later erupting into bursts of intensity, including blast beat passages and subtle electronic textures. The modern approach to clean vocals further enhances its dynamic range.

Arguably one of the album’s most ambitious compositions, “The Barren Grave of God” thrives on contrast and unpredictability. Rapid-fire technical passages collide with slower, doom-tinged sections, creating a constantly shifting landscape. The unexpected inclusion of Brazilian percussion elements adds a distinctive cultural nuance, enriching the track’s already complex structure.

Closing track “The Utter End” functions as a microcosm of the album itself. Spanning nearly nine minutes, it encapsulates the core elements of Hiraeth — technical precision, emotional depth, and stylistic diversity — delivering a cohesive and impactful finale.

Ultimately, Hiraeth is not an album designed for passive listening. It demands engagement, rewarding those willing to immerse themselves in its intricacies. By seamlessly blending the sophistication of classic progressive metal with the intensity of more extreme subgenres, Abstracted deliver a work that is both ambitious and fully realized — a release that confidently positions the band on the global stage.


Hardline: Entre o Legado e a Reinvenção (Also In English)

SPV Steamhammer (Imp.)

Por Flavio Borges 

É impossível abordar “Shout”, novo álbum do Hardline, sem revisitar o impacto de “Double Eclipse” (1992), obra que estabeleceu as bases do DNA sonoro da banda. Décadas depois, o grupo liderado por Johnny Gioeli retorna com um trabalho que equilibra, com precisão, nostalgia e contemporaneidade. O resultado é um disco que resgata a força dos refrães marcantes e da identidade melódica clássica do hard rock, agora inseridos em uma produção moderna e atualizada.

O lineup atual reúne Gioeli ao lado dos músicos italianos Alessandro Del Vecchio (teclados), Luca Princiotta (guitarra), Anna Portalupi (baixo) e Marco Di Salvia (bateria), formação que demonstra entrosamento e versatilidade ao longo de todo o álbum.

A faixa-título, “Shout”, abre o disco com imponência. Sua introdução épica conduz a um refrão forte e imediato, evidenciando a potência vocal de Gioeli e uma abordagem instrumental que flerta com elementos mais pesados, próximos ao power metal, sem abandonar a essência hard’n’heavy.

Na sequência, “Rise Up” mantém a intensidade elevada, com andamento acelerado, backing vocals bem construídos e uma performance vocal mais agressiva. A dinâmica entre guitarras limpas e distorcidas adiciona textura e reforça o apelo melódico da faixa.

“It Owns You” evidencia a amplitude de influências do Hardline, transitando com naturalidade entre o hard rock e o heavy metal. Com riffs afiados, solos bem elaborados e variações de andamento, a música demonstra a maturidade técnica e o entrosamento da banda.

O álbum também apresenta uma releitura de “When You Came Into My Life”, originalmente gravada pelo Scorpions em 1996. A versão do Hardline preserva a essência da balada, ao mesmo tempo em que destaca a expressividade vocal de Gioeli e o refinamento instrumental, especialmente nos arranjos de piano e na base rítmica.

Em “Mother Love”, o destaque fica por conta da construção progressiva até um refrão grandioso, apoiado por backing vocals robustos. A música combina peso e sofisticação, com destaque para a ponte e o solo de guitarra, que conduzem com eficiência a retomada do tema principal.

“Rise Above No Fear” subverte expectativas ao iniciar de forma suave e evoluir para uma das faixas mais pesadas do álbum. A combinação entre guitarras e bateria ganha protagonismo, enquanto os teclados assumem papel mais discreto, resultando em uma sonoridade moderna, porém fiel à identidade da banda.

Já “Candy Love” resgata o espírito festivo do hard rock clássico, com forte influência da cena de Los Angeles dos anos 1980. Teclados marcantes, riffs diretos e um refrão de fácil assimilação fazem da faixa um dos momentos mais acessíveis e energéticos do disco.

“I’m Leaning On It” aposta em uma abordagem mais direta e crua, com foco na base de guitarra, baixo e bateria. A performance vocal mais áspera de Gioeli adiciona intensidade, reforçando o caráter mais pesado da composição.

Em “Welcome To The Thunder”, a banda inverte a lógica predominante do álbum ao priorizar elementos do heavy metal, sem abrir mão da estética do hard rock. O resultado é uma faixa robusta, com destaque para a versatilidade vocal de Gioeli, que remete a grandes nomes do gênero.

Encerrando o disco, “Glow” apresenta o momento mais emocional do trabalho. Com temática voltada à perda — tanto de entes queridos quanto de animais de estimação —, a faixa se destaca pela interpretação intensa e sensível de Gioeli. A carga emocional é amplificada por uma execução contida e elegante, que valoriza a mensagem da canção.

Como complemento, a banda planeja incorporar a música às apresentações ao vivo de forma especial, incentivando o público a participar com pulseiras luminosas em homenagem a pessoas e momentos significativos.

Com “Shout”, o Hardline entrega um álbum consistente e bem produzido, que honra seu legado ao mesmo tempo em que se mantém relevante no cenário atual. Trata-se de um trabalho que reforça a identidade da banda e evidencia sua capacidade de evolução sem perder a essência.

***ENGLISH VERSION***

It is impossible to approach “Shout”, the new album by Hardline, without revisiting the impact of “Double Eclipse” (1992), the record that defined the band’s sonic DNA. Decades later, the Johnny Gioeli-led outfit returns with a release that carefully balances nostalgia and modernity. The result is an album that revives the band’s trademark melodic sensibility and anthemic choruses, now framed within a contemporary production.

The current lineup features Gioeli alongside Italian musicians Alessandro Del Vecchio (keyboards), Luca Princiotta (guitars), Anna Portalupi (bass) and Marco Di Salvia (drums), a unit that displays strong chemistry and versatility throughout the record.

The title track, “Shout”, sets the tone with authority. Its epic introduction leads into a powerful, instantly memorable chorus, highlighting Gioeli’s commanding vocal performance. Instrumentally, the track leans into a heavier approach, flirting with power metal textures while remaining firmly rooted in hard rock.

“Rise Up” keeps the momentum going with an energetic, up-tempo drive. Tight backing vocals and a more aggressive vocal delivery from Gioeli elevate the track, while the interplay between clean and distorted guitars adds depth and dynamic contrast.

With “It Owns You”, Hardline showcases its ability to seamlessly blend hard rock and heavy metal influences. Sharp riffs, well-crafted solos and shifting dynamics underline the band’s technical proficiency and cohesion.

The album also features a cover of “When You Came Into My Life”, originally released by Scorpions in 1996. Hardline’s rendition retains the emotional core of the ballad while emphasizing Gioeli’s expressive vocal range, supported by elegant piano arrangements and a solid rhythmic foundation.

“Mother Love” stands out for its structured build-up, culminating in a soaring, arena-ready chorus supported by rich backing vocals. The track combines weight and sophistication, with particular highlights in the bridge and guitar solo.

One of the album’s most surprising moments comes with “Rise Above No Fear”. Opening with a softer tone, the track quickly evolves into one of the heaviest cuts on the record. Guitar and drum work take center stage, while keyboards play a more subtle role, resulting in a modern yet faithful extension of the band’s core sound.

“Candy Love” brings back the celebratory spirit of classic hard rock, echoing the sound of the late ’80s Los Angeles scene. With prominent keyboards, driving riffs and a highly accessible chorus, it stands out as one of the album’s most immediate and energetic tracks.

On “I’m Leaning On It”, the band opts for a more stripped-down and direct approach. Built around a guitar-bass-drums foundation, the track gains additional intensity through Gioeli’s grittier vocal performance, reinforcing its heavier edge.

“Welcome To The Thunder” shifts the balance further toward heavy metal, while still maintaining the band’s hard rock identity. The track is robust and dynamic, with Gioeli delivering a particularly versatile performance that evokes classic genre influences.

Closing the album, “Glow” delivers its most emotional moment. Addressing themes of loss — both of loved ones and beloved pets — the song is driven by a deeply heartfelt vocal performance. Its restrained and elegant arrangement allows the emotional weight to fully resonate, providing a powerful conclusion to the record.

As an extension of its message, the band plans to incorporate a special live element during performances of the song, encouraging audiences to participate with illuminated wristbands in tribute to meaningful people in their lives.

With “Shout”, Hardline delivers a cohesive and well-crafted album that honors its legacy while remaining relevant in today’s scene. It is a release that reinforces the band’s identity and highlights its ability to evolve without losing its essence.

Divulgação