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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Michael Bormann's Jaded Hard: Velha Fórmula, Novo Vigor (Also In English)

RMB Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Formado a partir da trajetória de Michael Bormann à frente do Jaded Heart, o Michael Bormann’s Jaded Hard chega a South West reafirmando uma identidade que o vocalista ajudou a consolidar no hard rock melódico europeu: guitarras marcantes, grandes melodias, refrãos imediatos e uma produção contemporânea, mas sem abrir mão do peso e da atitude que sempre acompanharam sua carreira.

Este projeto funciona como uma ponte entre o presente e a fase mais celebrada da trajetória de Bormann. Ao longo de seus trabalhos solo, o músico explorou diferentes possibilidades dentro do rock, mas foi no Jaded Heart que sua assinatura se tornou particularmente reconhecível. South West recupera justamente essa essência, embora esteja longe de ser uma tentativa de reproduzir o passado.

A abertura com “Country Boy” estabelece rapidamente as regras do jogo. O hard rock cadenciado, de forte inspiração americana, serve de plataforma perfeita para a voz rouca de Bormann, enquanto o refrão assume uma dimensão quase hínica. “Love, Touch and Trouble” segue pela mesma estrada, com guitarras de timbres clássicos, baixo e bateria formando uma base sólida e backing vocals cuidadosamente posicionados para ampliar o impacto dos refrãos. É uma fórmula conhecida, mas executada com segurança e, principalmente, com consciência de suas próprias virtudes.

A grande qualidade de South West, entretanto, está na maneira como o álbum trabalha as diferentes velocidades e atmosferas sem perder sua identidade. Há espaço para o hard rock mais direto, para momentos AOR, para faixas cadenciadas e para baladas, criando uma dinâmica que impede que as 11 músicas pareçam variações de uma mesma ideia.

“Stop Those Rainy Days (30 Years Later)” exemplifica bem esse equilíbrio. A faixa parte de uma estrutura que poderia facilmente conduzir a uma power ballad convencional, mas ganha corpo com guitarras acústicas, mudanças de intensidade e um refrão que amplia progressivamente a composição. A influência de gigantes como o Whitesnake é perceptível, mas o resultado não soa como mera reprodução de um modelo consagrado. Já “That’s the Only Truth” assume de maneira mais explícita os códigos da power ballad clássica, com guitarras limpas que cedem espaço à distorção no momento certo, coros e backing vocals criando a atmosfera esperada — e uma interpretação particularmente inspirada de Bormann.

Os teclados também desempenham papel importante na construção do álbum. Em “In the Shadows of the Night”, eles aproximam a banda do AOR oitentista e ajudam a criar um contraste interessante com as guitarras e a aceleração da faixa. Em outros momentos, aparecem de maneira mais discreta ou assumem uma função quase atmosférica, como em “Kissed by You”, que começa flertando com uma estética synthwave antes de ganhar contornos mais definidos de hard rock. Essa utilização dos teclados adiciona textura e variedade ao disco sem deslocá-lo de seu eixo principal.

É justamente nessa combinação entre tradição e atualização que South West encontra seu maior mérito. “I’ll Always Remember You” transita por uma zona intermediária entre balada e faixa cadenciada, enquanto “There’s No Living Without You” recupera aquele hard rock clássico de refrão imediatamente assimilável, com guitarras e teclados muito bem integrados à seção rítmica. São músicas que demonstram que Bormann conhece profundamente os mecanismos do gênero e sabe exatamente quando deixar a voz assumir o protagonismo.

E a voz continua sendo um dos grandes trunfos. Mesmo quando opta por uma interpretação mais limpa, Bormann permanece imediatamente reconhecível. Sua rouquidão característica acrescenta personalidade às composições mais pesadas, enquanto os momentos mais contidos revelam um intérprete capaz de trabalhar emoção sem recorrer ao excesso.

“I’m a Liar (That’s No Fantasy)” talvez seja o melhor exemplo disso. Construída inicialmente sobre piano e voz, a faixa cresce gradualmente até adquirir contornos quase épicos, com a entrada dos demais instrumentos, melodias marcantes e um solo que complementa a atmosfera. O momento em que a voz permanece praticamente sozinha antes da retomada instrumental é particularmente eficiente e mostra um Bormann confortável também quando o arranjo exige contenção.

No outro extremo, “One Step Back” devolve ao álbum a energia mais festiva do hard rock, reunindo guitarras, teclados, backing vocals e outro refrão feito para ser cantado em coro. O mérito está novamente nos detalhes: os timbres foram escolhidos para dialogar entre si e, sobretudo, para valorizar a voz de Bormann.

A faixa de encerramento, “Cheers To”, adiciona uma dimensão mais pessoal ao disco. Dedicada ao guitarrista Holger Bussler, a composição aposta em uma abordagem semiacústica e funciona como uma despedida menos convencional, acrescentando uma nova nuance ao álbum sem quebrar sua unidade.

No fim das contas, South West não tenta reinventar o hard rock melódico — e não precisa fazê-lo. Sua força está justamente em compreender o que tornou essa linguagem tão duradoura e reapresentá-la com uma produção atual, bons arranjos e uma banda que sabe explorar suas possibilidades. O álbum alterna momentos mais pesados e diretos com passagens atmosféricas, AOR e baladas, mantendo sempre uma preocupação evidente com melodias e refrãos.

É também por isso que o Michael Bormann’s Jaded Hard merece ser visto para além da simples nostalgia. Se a carreira solo permitiu ao músico explorar diferentes territórios, este projeto recupera deliberadamente a identidade que marcou sua passagem pelo Jaded Heart — não como uma tentativa de voltar no tempo, mas como uma evolução natural daquela fórmula. South West soa como um músico revisitando uma parte importante de sua própria história com a experiência acumulada ao longo de décadas.

Para quem acompanha Bormann desde os tempos do Jaded Heart, há aqui elementos familiares suficientes para despertar a memória afetiva. Para quem chega agora, porém, o álbum funciona perfeitamente por seus próprios méritos: é hard rock melódico, acessível e vigoroso, produzido para o presente, mas com pleno conhecimento de onde veio.


***ENGLISH VERSION***

Built around Michael Bormann’s legacy with Jaded Heart, Michael Bormann’s Jaded Hard arrives with South West reaffirming an identity the vocalist helped establish within European melodic hard rock: strong guitars, memorable melodies, immediate choruses and contemporary production, without sacrificing the weight and attitude that have always defined his career.

This project serves as a bridge between the present and the most celebrated period of Bormann’s career. Throughout his solo work, the musician has explored different possibilities within rock, but it was with Jaded Heart that his signature became particularly recognizable. South West recaptures that essence, although it is far from an attempt to simply recreate the past.

“Country Boy” sets the tone immediately. Its laid-back, distinctly American-flavored hard rock provides the perfect platform for Bormann’s raspy voice, while the chorus takes on an almost anthemic quality. “Love, Touch and Trouble” follows a similar path, with classic hard rock guitar tones, bass and drums forming a solid foundation and carefully placed backing vocals adding impact to the choruses. It is a familiar formula, but one executed with confidence and, more importantly, with a clear understanding of its own strengths.

The greatest quality of South West, however, lies in the way the album moves between different tempos and atmospheres without losing its identity. There is room for more direct hard rock, AOR touches, mid-tempo tracks and ballads, creating enough dynamics to prevent the 11 songs from feeling like variations on the same idea.

“Stop Those Rainy Days (30 Years Later)” is a good example of this balance. The song begins with a structure that could easily develop into a conventional power ballad, but gains substance through acoustic guitars, shifts in intensity and a chorus that gradually expands the arrangement. The influence of giants such as Whitesnake is noticeable, yet the result never feels like a mere reproduction of an established template. “That’s the Only Truth”, meanwhile, embraces the classic power-ballad formula more directly, with clean guitars giving way to distortion at precisely the right moment, layered vocals and backing harmonies creating the expected atmosphere — along with a particularly inspired performance from Bormann.

Keyboards also play an important role in shaping the album. On “In the Shadows of the Night”, they bring the band closer to ’80s AOR while creating an interesting contrast with the guitars and the song’s increased pace. Elsewhere, they appear more discreetly or take on an almost atmospheric role, as on “Kissed by You”, which initially flirts with a synthwave aesthetic before developing into a more defined hard rock track. This use of keyboards adds texture and variety without pulling the album away from its central direction.

It is precisely this combination of tradition and modernization that becomes South West’s greatest strength. “I’ll Always Remember You” occupies the territory between a ballad and a mid-tempo rocker, while “There’s No Living Without You” brings back the kind of classic hard rock built around an instantly memorable chorus, with guitars and keyboards seamlessly integrated into the rhythm section. These songs demonstrate that Bormann understands the mechanics of the genre inside out and knows exactly when to put his voice at center stage.

And that voice remains one of the album’s greatest assets. Even when he opts for a cleaner delivery, Bormann remains instantly recognizable. His characteristic rasp adds personality to the heavier compositions, while the more restrained moments reveal a singer capable of conveying emotion without resorting to excess.

“I’m a Liar (That’s No Fantasy)” may be the clearest example. Initially built around piano and vocals, the song gradually expands into something almost epic as the other instruments enter, supported by strong melodies and a tasteful solo that complements the atmosphere. The moment when Bormann’s voice is left almost completely alone before the instrumental arrangement returns is particularly effective, demonstrating that he is equally comfortable when the music calls for restraint.

At the other end of the spectrum, “One Step Back” restores the album’s more celebratory hard rock energy, bringing together guitars, keyboards, backing vocals and another chorus seemingly designed for a crowd to sing along with. Once again, the details make the difference: the tones have been carefully chosen to complement one another and, above all, to enhance Bormann’s voice.

The closing track, “Cheers To”, adds a more personal dimension to the album. Dedicated to guitarist Holger Bussler, the song takes a semi-acoustic approach and serves as a less conventional farewell, introducing another shade to the record without disrupting its overall unity.

Ultimately, South West does not attempt to reinvent melodic hard rock — and it does not need to. Its strength lies in understanding what has made this musical language so enduring and presenting it through modern production, strong arrangements and a band capable of exploring its possibilities. The album moves between heavier, more direct moments, atmospheric passages, AOR and ballads, while maintaining a clear focus on melodies and memorable choruses.

This is also why Michael Bormann’s Jaded Hard deserves to be viewed as more than a nostalgia project. If Bormann’s solo career allowed him to explore different territories, this band deliberately reconnects with the identity that defined his time with Jaded Heart — not as an attempt to turn back the clock, but as a natural evolution of that formula. South West sounds like a musician revisiting an important chapter of his own history with the experience accumulated over decades.

For those who have followed Bormann since his Jaded Heart days, there are enough familiar elements here to trigger a strong sense of nostalgia. For newcomers, however, the album stands perfectly well on its own merits: accessible, energetic melodic hard rock made for the present, but created by musicians who have a clear understanding of where it all came from.


terça-feira, 25 de agosto de 2026

Sinner: Uma Despedida Sem Baixar o Volume

Reigning Phoenix Music (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Há discos que chegam ao fim de uma trajetória tentando transformá-la em monumento. Boom Bang Goodbye escolhe uma alternativa muito mais coerente com a história do Sinner: simplesmente continuar tocando. Anunciado por Mat Sinner como o capítulo final da banda que ele fundou em 1982, o álbum chegou ao público em 31 de julho de 2026 pela Reigning Phoenix Music. São onze faixas e pouco mais de 42 minutos que encerram uma discografia construída ao longo de mais de quatro décadas. O próprio Sinner anunciou que dedicará os próximos anos de sua carreira ao Primal Fear, tornando este lançamento especialmente significativo dentro de sua história.

Mas Boom Bang Goodbye não é um disco de despedida no sentido tradicional. Não há aqui uma banda tentando soar maior do que jamais soou, nem uma sucessão de músicas excessivamente melancólicas para convencer o ouvinte da importância daquele momento. O que Mat Sinner fez foi reunir uma quantidade impressionante de músicos convidados e colocá-los dentro de um repertório que permanece fiel àquilo que construiu: hard rock clássico, heavy metal melódico, vocais marcantes, refrões de arena e uma produção moderna que não sacrifica a identidade setentista e oitentista da composição.

O elenco é quase tão chamativo quanto o próprio disco. Renan Zonta, Michael Bormann, Ronnie Romero, Björn “Speed” Strid, Erik Mårtensson, Michael Sadler, Sascha Krebs e Magnus Karlsson dividem os vocais, enquanto Mat Sinner permanece no baixo e na produção. Alex Scholpp e Jim Müller assumem as guitarras, Moritz Müller fica na bateria e Lisa Müller nos teclados.


1. “Dreams Can Come True”

A primeira coisa que chama atenção em “Dreams Can Come True” é a escolha de Renan Zonta para abrir o álbum. O vocalista do Electric Mob tem uma voz naturalmente associada ao hard rock contemporâneo, mas aqui ele é colocado dentro de uma composição que carrega muito mais da tradição melódica europeia. O resultado é um início que soa grandioso sem precisar recorrer a uma introdução exagerada.

As guitarras entram com bastante clareza e a bateria estabelece rapidamente o andamento, enquanto o refrão trabalha aquela fórmula que Mat Sinner conhece há décadas: versos relativamente contidos preparando uma explosão melódica. É uma abertura bastante simbólica.

2. “Wait”

“Wait” foi uma escolha particularmente acertada como single. Michael Bormann assume os vocais e traz para a música uma interpretação mais rouca e carregada de soul, que combina muito bem com o caráter radiofônico da composição. O refrão é daqueles que se entende imediatamente por que foi escolhido para apresentar o álbum.

Há um detalhe importante na construção: apesar de a música ser bastante acessível, as guitarras não são tratadas como simples acompanhamento. Elas dão peso suficiente para impedir que “Wait” escorregue para o AOR excessivamente polido. É hard rock, mas com acabamento contemporâneo.

3. “Leave It All Behind”

É aqui que Boom Bang Goodbye começa a assumir seu lado mais emocional. Ronnie Romero aparece pela primeira vez e a diferença de interpretação é imediata. Sua voz tem uma força naturalmente dramática, mas a música não tenta transformá-lo em um segundo Ronnie James Dio. Em vez disso, utiliza o alcance e a textura do cantor para construir uma faixa de hard rock melódico bastante clássica.

“Leave It All Behind” tem um andamento mais moderado e uma atmosfera que remete ao lado mais sentimental do hard rock dos anos 1980. A guitarra trabalha mais pela sustentação da melodia do que pela agressividade, e isso é importante porque cria um contraste com o que virá depois.

4. “All Night Long”

E então o disco volta a sorrir. “All Night Long” é uma das faixas que mais carregam aquela sensação de rock de estrada, de noite longa, amplificador ligado e banda tocando até o último cliente deixar o bar.

Ronnie Romero retorna, mas a interpretação aqui é diferente da faixa anterior. A voz está mais solta, enquanto o instrumental aposta em uma pegada mais direta e divertida. É também uma das músicas em que o Sinner mais claramente abraça suas raízes de hard rock tradicional.

5. “Are You Ready”

Björn “Speed” Strid talvez seja um dos convidados que mais poderiam causar estranhamento no papel. O vocalista do Soilwork e do The Night Flight Orchestra está associado a universos bastante diferentes, mas “Are You Ready” mostra que a distância é menor do que parece.

A faixa é uma das mais acessíveis do disco, com um refrão claramente pensado para rádio e uma estrutura que se aproxima bastante do rock melódico. Speed, por sua vez, não força sua assinatura mais agressiva; ele trabalha dentro da música. É uma escolha inteligente.

6. “Born to Run”

“Born to Run” recupera a sensação de estrada, mas com uma abordagem mais melódica. Erik Mårtensson, do Eclipse, assume os vocais e praticamente parece ter sido feito para essa música. Sua interpretação é limpa, precisa e extremamente melódica, sem perder a força necessária para sustentar o refrão.

É uma das faixas mais naturalmente “Sinner” do disco. A guitarra também merece atenção. O solo de Mathias “Don” Dieth é uma das conexões mais interessantes entre o presente e o passado da banda, já que o guitarrista participou da formação clássica do Sinner nos anos 1980.

7. “Hellbreaker”

Aqui o álbum finalmente pisa mais fundo no acelerador. “Hellbreaker” é uma das faixas mais pesadas do disco e Ronnie Romero retorna para uma interpretação muito mais agressiva do que aquela apresentada em “Leave It All Behind”.

O riff é mais seco, a bateria trabalha com mais impacto e as guitarras assumem uma postura que aproxima o Sinner de seu lado heavy metal. É também uma das músicas em que a ligação de Mat Sinner com o Primal Fear parece mais perceptível.

8. “Turn the Page”

“Turn the Page” é uma das grandes surpresas de Boom Bang Goodbye. Michael Sadler, vocalista do Saga, traz uma personalidade completamente diferente para o disco. Sua voz tem uma dimensão mais progressiva e teatral, e a música aproveita isso sem deixar de pertencer ao universo do Sinner.

A faixa começa mais contida e vai ganhando corpo gradualmente. Os teclados de Lisa Müller têm aqui um papel mais evidente, ajudando a criar uma atmosfera quase cinematográfica. As guitarras não precisam disputar espaço com eles; trabalham em camadas. E o refrão é provavelmente um dos mais sofisticados do álbum.

9. “Road to Remember”

Michael Bormann retorna em “Road to Remember”, e a música parece existir em um ponto intermediário entre nostalgia e celebração. As guitarras são mais abertas, o andamento permite que a melodia respire e o refrão tem aquela qualidade de canção que parece construída para ser lembrada anos depois.

10. “Under the Moonlight”

Sascha Krebs assume os vocais de “Under the Moonlight”, mantendo uma conexão interessante com a fase mais recente do Sinner. A música recupera peso depois da atmosfera mais contemplativa de “Road to Remember”. Os riffs são mais encorpados e a bateria de Moritz Müller ganha novamente bastante presença.

11. “Power”

“Power” precisava ser grande. Não necessariamente a música mais pesada, mais rápida ou mais técnica do álbum, mas grande o suficiente para encerrar uma história iniciada em 1982.

Magnus Karlsson assume os vocais e também participa da composição, além de entregar guitarras. O resultado é uma faixa que combina peso, melodia e uma dimensão quase épica. Os teclados ajudam a ampliar o arranjo, enquanto as guitarras trabalham em camadas até chegar a um refrão que parece deliberadamente construído para ser o último grande momento do Sinner.


Divulgação


Confira a tracklist completa de Boom Bang Goodbye:

1. Dreams Can Come True 

2. Wait 

3. Leave It All Behind 

4. All Night Long 

5. Are You Ready 

6. Born to Run 

7. Hellbreaker 

8. Turn the Page
 
9. Road to Remember 

10. Under the Moonlight 

11. Power 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Kissin' Dynamite: Um Adeus Sem Fim (Also In English)

Kissin' Dynamite Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Há álbuns que encerram uma fase. Outros tentam abrir uma nova. Kissin' Dynamite, nono trabalho de estúdio do KISSIN' DYNAMITE, faz as duas coisas simultaneamente. Previsto para 18 de setembro de 2026, o disco será o último registro da banda com Hannes Braun nos vocais, transformando aquilo que poderia ser apenas mais um lançamento em um documento de transição.

Braun anunciou em agosto de 2025 sua decisão de deixar os palcos por razões de saúde, mas sua saída não representa um rompimento com o grupo. Ele continuará envolvido como compositor, produtor e uma das principais forças criativas do KISSIN' DYNAMITE. Essa distinção é fundamental para compreender o álbum: estamos diante de uma despedida do vocalista ao vivo, não de uma despedida artística.

E o próprio disco parece consciente dessa diferença.

Kissin' Dynamite combina seis composições inéditas com sete regravações de músicas dos dois primeiros álbuns da banda, Steel of Swabia (2008) e Addicted to Metal (2010). A princípio, a decisão poderia parecer uma tentativa óbvia de capitalizar sobre a nostalgia. Mas existe algo mais interessante acontecendo aqui. As antigas canções são revisitadas por uma banda que passou quase duas décadas amadurecendo, conquistando seu espaço no hard rock europeu e transformando aquela ambição juvenil de conquistar arenas em realidade.

O resultado estabelece um diálogo entre duas versões do KISSIN' DYNAMITE.

Hannes Braun tinha pouco mais de 20 anos quando registrou Steel of Swabia. Em 2026, sua voz retorna às mesmas composições mais encorpada, segura e experiente. As novas gravações não tentam apagar as originais — e tampouco precisam fazê-lo. O que elas oferecem é uma oportunidade de descobrir quanto daquelas melodias, riffs e refrões continua relevante quase duas décadas depois.

É como colocar frente a frente dois retratos da mesma banda: de um lado, a juventude, a energia e a ambição de um grupo que queria chegar às grandes arenas; do outro, a experiência de uma banda que efetivamente chegou lá.

Seis das sete releituras vêm de Steel of Swabia, enquanto “Love Me Hate Me” recupera Addicted to Metal. A escolha funciona quase como uma arqueologia do próprio KISSIN' DYNAMITE. E as participações especiais ampliam essa perspectiva: Saltatio Mortis, Amaranthe, Anna Brunner, Primal Fear, Sam Totman e Eklipse acrescentam novas cores a músicas que já pertenciam ao DNA do grupo.

Mas se as regravações perguntam de onde a banda veio, as seis inéditas precisam responder a uma questão mais difícil: o que o KISSIN' DYNAMITE ainda tem a dizer antes de fechar este capítulo?

“Glory Days”, primeiro single, oferece uma resposta bastante direta. Em vez de transformar o passado em lamento, a banda o celebra. A faixa reúne melodias expansivas, uma atmosfera ensolarada e nostálgica e aquele tipo de refrão concebido para ser devolvido por milhares de vozes. É arena rock em sua essência mais pura — e, neste contexto, a ausência de qualquer tentativa de ruptura parece deliberada. O KISSIN' DYNAMITE não precisa reinventar sua identidade para falar sobre o fim de uma era.

Se “Glory Days” olha para trás com um sorriso, “I Salute You” amplia essa celebração em escala ainda maior. É uma composição épica, bem construída e executada com a precisão que se espera da banda, mas ganha uma dimensão adicional com a participação do Saltatio Mortis. A combinação do hard rock do KISSIN' DYNAMITE com as gaitas de fole e os vocais femininos cria uma das fusões mais interessantes do álbum, sem comprometer a identidade de nenhuma das duas bandas. É uma faixa que consegue soar grandiosa sem perder o caráter festivo que permeia o disco.

“Night Is Calling”, por sua vez, talvez seja a faixa que melhor representa o KISSIN' DYNAMITE em sua zona de conforto — e isso está longe de ser uma crítica. Do primeiro ao último acorde, a música entrega hard rock poderoso, trabalho instrumental preciso e vocais perfeitamente encaixados na composição. O refrão possui aquela qualidade imediata que parece destinada aos palcos, reafirmando uma das maiores virtudes da banda: transformar melodias simples e eficientes em momentos de comunhão com o público.

“I'll Be” desloca o foco para o futuro. Musicalmente, mantém a vocação do grupo para os grandes hinos de arena, mas sua força está no significado. A canção assume a forma de uma promessa de permanência justamente quando Hannes Braun se prepara para deixar os palcos. Ele não estará mais diante do microfone em turnê, mas continuará compondo e produzindo. A aparente contradição transforma a faixa em uma das peças conceitualmente mais importantes do álbum: é uma despedida sem ruptura, uma declaração de que a ausência física não significa o fim da ligação construída entre artista, banda e público.

Em “Nothing Breaks Like a Heart”, a banda novamente aborda a ideia de ruptura, mas sem mergulhar na melancolia. A faixa pode ser interpretada como uma power ballad, embora sua estrutura também permita ouvi-la como um hard rock cadenciado, conduzido mais pela dinâmica e pela melodia do que pelo peso. A temática de superar perdas e aprender com os reveses dialoga diretamente com o momento vivido pelo grupo, mas a composição evita transformar essa circunstância em autopiedade. A ruptura existe; o que importa é aquilo que se constrói depois dela.

E então chega “Good In Goodbye”.

Como encerramento das inéditas — e do próprio álbum — a música assume naturalmente o papel mais emocional do repertório. Trata-se de uma balada em que Hannes Braun abandona qualquer reserva e entrega uma interpretação carregada de emoção. Sua voz, tão importante para a identidade do KISSIN' DYNAMITE desde os primeiros anos, ganha aqui um peso diferente justamente porque sabemos que este é seu último álbum como vocalista da banda.

É impossível ouvir a faixa completamente dissociada desse contexto. Mas o mérito está em ela não depender exclusivamente dele. A composição funciona musicalmente, e a interpretação de Braun transforma o significado da letra em algo maior do que uma simples despedida. Há tristeza, evidentemente, mas também aceitação — e, sobretudo, a sensação de que uma história importante chegou ao seu ponto final sem necessariamente perder seu valor.

É justamente aí que Kissin' Dynamite encontra sua maior força.

O álbum não tenta transformar a saída de Hannes Braun em tragédia, nem utiliza o passado como desculpa para simplesmente repetir fórmulas. As sete regravações colocam a banda de 2026 diante daquela que existia em 2008 e 2010, enquanto as seis inéditas mostram um grupo confortável com sua identidade e consciente do momento que atravessa.

O resultado é menos um epitáfio do que uma celebração.

Kissin' Dynamite funciona como um espelho no qual passado e presente se encontram: a juventude ambiciosa de Steel of Swabia diante da maturidade de uma banda que conquistou seu espaço; o vocalista que sonhava com grandes palcos diante do artista que agora decide deixá-los; e as músicas que ajudaram a construir uma carreira diante de uma nova geração de canções preparadas para carregá-la adiante.

Hannes Braun pode estar deixando os palcos, mas Kissin' Dynamite deixa claro que sua história com a banda está longe de terminar. E talvez essa seja a maior ironia — e também a maior beleza — de um álbum concebido como despedida: no momento em que uma porta se fecha, o KISSIN' DYNAMITE demonstra que ainda existe bastante vida do outro lado.

Mais do que o último álbum de Hannes Braun como vocalista, Kissin' Dynamite é um registro sobre legado, continuidade e transformação. Uma banda olhando para aquilo que construiu, revisitando suas origens e, ao mesmo tempo, tentando descobrir como seguir em frente.

Não é o fim da história.

É apenas o fim de um capítulo.


***ENGLISH VERSION***

Some albums mark the end of an era. Others attempt to open a new one. Kissin' Dynamite, the ninth studio album from KISSIN' DYNAMITE, manages to do both at once. Due for release on September 18, 2026, it will be the band's final record with Hannes Braun on vocals, turning what could have been another chapter in their discography into a document of transition.

Braun announced in August 2025 that he would step away from the stage for health reasons, but his departure does not represent a break with the band. He will remain involved as a songwriter, producer and one of KISSIN' DYNAMITE's key creative forces. That distinction is essential to understanding the album: this is a farewell to Braun as a live vocalist, not a farewell to his artistic relationship with the band.

And the album itself seems fully aware of that difference.

Kissin' Dynamite combines six brand-new compositions with seven re-recordings of songs from the band's first two albums, Steel of Swabia (2008) and Addicted to Metal (2010). At first glance, the decision might look like an obvious exercise in nostalgia. But something more interesting is happening here. These songs are being revisited by a band that has spent almost two decades maturing, establishing itself within the European hard rock scene and turning the youthful ambition of conquering arenas into reality.

The result creates a dialogue between two versions of KISSIN' DYNAMITE.

Hannes Braun was barely in his twenties when he recorded Steel of Swabia. In 2026, his voice returns to those same compositions fuller, more assured and shaped by experience. The new recordings do not attempt to erase the originals — nor do they need to. Instead, they offer an opportunity to discover how much of those melodies, riffs and choruses still holds up almost two decades later.

It is almost like placing two portraits of the same band side by side: on one side, the youth, energy and ambition of a group determined to reach the biggest stages; on the other, the experience of a band that actually made it there.

Six of the seven re-recordings come from Steel of Swabia, while “Love Me Hate Me” revisits Addicted to Metal. The selection works almost like an archaeological dig into KISSIN' DYNAMITE's own history. The guest appearances deepen that perspective, with Saltatio Mortis, Amaranthe, Anna Brunner, Primal Fear, Sam Totman and Eklipse adding new colours to songs that are already part of the band's DNA.

But if the re-recordings ask where the band came from, the six new compositions have to answer a more difficult question: what does KISSIN' DYNAMITE still have to say before closing this chapter?

“Glory Days”, the first single, offers a fairly direct answer. Rather than turning the past into a lament, the band celebrates it. Expansive melodies, a sunny and nostalgic atmosphere, and the kind of chorus designed to be echoed by thousands of voices make this arena rock in its purest form. In this context, the lack of any attempt to reinvent the band's identity feels deliberate. KISSIN' DYNAMITE does not need to redefine itself in order to talk about the end of an era.

If “Glory Days” looks back with a smile, “I Salute You” takes that celebration to an even larger scale. It is an epic, well-crafted composition, performed with the precision expected from the band, but it gains another dimension through the contribution of Saltatio Mortis. The combination of KISSIN' DYNAMITE's hard rock with bagpipes and female vocals creates one of the album's most interesting fusions without compromising either band's identity. It is a track capable of sounding genuinely huge without losing the celebratory spirit running through the record.

“Night Is Calling”, meanwhile, may be the track that best represents KISSIN' DYNAMITE within its comfort zone — and that is far from a criticism. From the opening chord to the final note, it delivers powerful hard rock, precise instrumental work and vocals perfectly integrated into the arrangement. Its chorus has the kind of immediacy that seems destined for the live stage, reaffirming one of the band's greatest strengths: turning simple, effective melodies into moments of collective communion with an audience.

“I'll Be” shifts the focus toward the future. Musically, it retains the band's instinct for huge arena anthems, but its real strength lies in its meaning. The song takes the shape of a promise of permanence precisely as Hannes Braun prepares to leave the stage. He will no longer be standing at the microphone on tour, but he will remain a songwriter and producer. That apparent contradiction makes the track one of the album's most conceptually significant pieces: a farewell without a rupture, a declaration that physical absence does not mean the end of the bond built between artist, band and audience.

On “Nothing Breaks Like a Heart”, the band once again explores the idea of separation without descending into melancholy. It can be heard as a power ballad, although its structure also allows it to be viewed as a more measured hard rock track, driven by dynamics and melody rather than sheer weight. Its theme of overcoming loss and learning from setbacks resonates directly with the band's current circumstances, but the song avoids turning that situation into self-pity. The rupture is real; what matters is what comes after it.

And then comes “Good In Goodbye”.

As the closing track among the new compositions — and the final song on the album — it naturally assumes the record's most emotional role. It is a ballad in which Hannes Braun delivers an unguarded and deeply felt performance. His voice, so central to KISSIN' DYNAMITE's identity since the band's early years, carries a different weight here precisely because we know this is his final album as the band's vocalist.

It is impossible to hear the song completely outside that context. But its strength lies in the fact that it does not depend solely on the circumstances surrounding its release. The composition works on its own terms, while Braun's performance transforms the meaning of the lyrics into something larger than a simple farewell. There is sadness, certainly, but also acceptance — and, above all, the sense that an important story has reached its conclusion without losing its value.

That is where Kissin' Dynamite ultimately finds its greatest strength.

The album does not attempt to turn Hannes Braun's departure into tragedy, nor does it use the past as an excuse to simply repeat old formulas. The seven re-recordings place the 2026 version of the band face to face with the one that existed in 2008 and 2010, while the six new songs show a group comfortable with its identity and fully aware of the moment it is going through.

The result is less an epitaph than a celebration.

Kissin' Dynamite works as a mirror in which past and present meet: the youthful ambition of Steel of Swabia confronted with the maturity of a band that went on to establish itself; the vocalist who once dreamed of conquering the biggest stages standing alongside the artist now choosing to leave them; and the songs that helped build a career placed beside a new generation of compositions prepared to carry that legacy forward.

Hannes Braun may be leaving the stage, but Kissin' Dynamite makes it clear that his story with the band is far from over. And perhaps that is the album's greatest irony — and its greatest beauty. At the very moment one door closes, KISSIN' DYNAMITE makes it clear that there is still plenty of life on the other side.

More than Hannes Braun's final album as the band's vocalist, Kissin' Dynamite is a record about legacy, continuity and transformation. A band looking back at what it has built, revisiting its roots and, at the same time, trying to discover how to move forward.

It is not the end of the story.

It is simply the end of a chapter.

Divulgação

terça-feira, 31 de março de 2026

Entrevista - UDO: "Wolf tem um bom cantor, mas não a voz original"

Com uma trajetória marcada por clássicos eternos, turnês mundiais e uma identidade sonora única, Udo segue ativo, relevante e fiel às raízes que ajudou a consolidar dentro do metal tradicional. 

Em nossa conversa exclusiva, o músico revisita momentos importantes de sua carreira, deixa claro seu posicionamento para uma reunião com o Accept e compartilha suas expectativas para o aguardado show no Bangers Open Air, que promete ser um dos grandes encontros do ano para os fãs brasileiros.

Prepare-se para mergulhar em um bate-papo direto, sincero e carregado de história com um dos maiores nomes do heavy metal mundial.


Por: Renato Sanson 

Quais as expectativas para o show no Bangers Open Air?

UDO: Ainda estamos celebrando o 40º aniversário de Balls to the Wall. Vamos tocar o álbum na íntegra e, além disso, incluir alguns clássicos do Accept. Teremos 90 minutos de show, ou seja, praticamente um set de headliner. Estou realmente ansioso para isso.


Depois de muitos anos, você e o Peter estão tocando juntos. Como é essa sensação?

UDO: É uma sensação muito boa estar com o Peter novamente. Ele está curtindo, eu também, e estamos felizes. É como algo antigo voltando aos palcos.

Há um tempo atrás, você disse que não toca mais músicas do Accept ao vivo.

UDO: Sim, isso foi há muito tempo. Quer dizer, em 2015 começamos com o Dirkschneider, e muita gente perguntava: 'por que você não toca músicas do Accept?'. Então pensamos: 'ok, vamos fazer o Dirkschneider tocando apenas músicas do Accept'. 

Fizemos isso por quase três anos. Depois disso, talvez eu tenha falado cedo demais, mas disse: 'pronto, chega de músicas do Accept.' Quer dizer, temos material suficiente do U.D.O. para tocar ao vivo. Acho que foi um pouco precipitado. Agora estamos celebrando os 40 anos de Balls to the Wall, então aqui estamos nós, tocando Accept novamente.

Por que produtores e fãs tendem a resistir a músicas novas, preferindo os clássicos nos shows? Qual é a sua opinião sobre isso?

UDO: Quando falamos de músicas novas? 

Sim.

Claro que sim, pelo menos para mim. Acabamos de finalizar um novo álbum do U.D.O. E temos músicos mais jovens na banda. O que eu gosto no momento é que estamos criando algo como uma mistura entre o antigo e o novo, e isso é muito interessante para mim. Ou seja, não estamos seguindo apenas com os clássicos antigos — também há muitos arranjos novos ali. Claro, os músicos mais jovens têm uma forma de pensar diferente. 


E na sua carreira solo você já soma mais de 50 álbuns, sem contar a fase com o Accept. De onde vem tanta criatividade e energia para produzir tanto?

Não sei bem, é que geralmente a gente lança um álbum novo a cada dois anos e em seguida sai em turnê. Às vezes fazemos uma pausa curta, rapidinha mesmo. Só que, com o novo disco do U.D.O., houve uma interrupção de três anos. Evidentemente já se passaram quase dois anos sem lançamentos nossos, e quando a turnê do Ball to the Wall terminar agora em novembro, na prática teremos ficado cerca de dois anos na estrada com o Dirkschneider. 

Por isso, não foi tão fácil compor e gravar um lançamento novo do U.D.O. nesse intervalo. Sempre foi um balanço entre as turnês, ida e volta. Mas, de certa forma, eu gosto de fazer música e criar coisas novas também, e é por isso que continuo. Ou seja, agora tenho este que será o 20º álbum de estúdio, que sai no ano que vem. Então é bastante coisa.

Para o festival Bangers Open Air, vocês prepararam um setlist especial?

O que é realmente especial é que vamos tocar o álbum Ball to the Wall na íntegra. Nunca fizemos isso na América do Sul, então estou realmente ansioso por isso. E acho que já ouvimos muitos fãs dizendo que também estão muito empolgados para ouvir músicas que nunca tiveram a chance de ver ao vivo. Então, sim, estou muito animado também, e acredito que será um grande show. É isso, vamos nessa.


Há alguma possibilidade de uma reunião com Wolf Hoffmann novamente?

Não. Para mim, isso não faz sentido. De qualquer forma, eu sempre digo: o Wolf está fazendo suas próprias coisas com o Accept, sob o nome Accept, mas agora só resta um cara da formação original, o Wolf. E eu faço o U.D.O., mas também de uma maneira que acho mais confortável. Se eu quiser, posso dizer 'ok, vou tocar com o Dirkschneider, com a voz original, e tocar só músicas do Accept com a voz original.' 

Mas ele não tem a voz original, é um bom cantor, mas não é a voz original. E agora, com o Peter Baltes, temos dois membros do Accept antigo no palco. Para mim, não faz sentido fazer uma reunião, não há razão para isso. Ele faz o que faz, eu faço o que faço, e é isso.

Desculpa pela pergunta (risos). Mais uma pergunta: você prefere a era do Accept ou a era do Udo?

Isso é difícil. O Accept, claro, foi realmente enorme nos anos 80. Mas, de certa forma, os anos 80 já passaram, talvez não para o Metallica, AC/DC, Iron Maiden e bandas assim. Mas eu também aproveito muito, muito mesmo com o U.D.O. Temos uma grande base de fãs no mundo todo. Então, os dois… Eu não posso dizer que gosto mais de um ou de outro, é como se fossem iguais. É a mesma coisa.

sábado, 7 de março de 2026

Axel Rudi Pell: Entre Riffs, Virtuosismo, Melodias e Tradição (Also In English)

SPV Steamhammer (Imp.)

Por Flavio Borges

O guitarrista alemão Axel Rudi Pell retorna ao cenário com Ghost Town, seu 23º álbum de estúdio, reafirmando sua posição como um dos principais nomes do heavy metal melódico europeu. Com lançamento previsto para março de 2026, o trabalho mantém intacta a identidade sonora construída ao longo de décadas, combinando riffs marcantes, solos virtuosos e forte apelo melódico.

Para esta nova empreitada, Pell reúne um line-up de peso: o vocalista Johnny Gioeli (Hardline), parceiro de longa data; o baixista Volker Krawczak; o tecladista Ferdy Doernberg; e o lendário baterista Bobby Rondinelli (Rainbow, Black Sabbath, Blue Öyster Cult). A produção, assinada por Pell ao lado de Tommy Geiger (Blind Guardian, Helloween), garante clareza, potência e equilíbrio entre peso e sofisticação.

“The Regicide (Intro)” abre o álbum com uma introdução atmosférica marcada por guitarras limpas e timbres cuidadosamente trabalhados. Em pouco menos de dois minutos, estabelece o clima épico que conduz naturalmente à faixa seguinte.

“Guillotine Walk” evidencia a forte influência de Ritchie Blackmore na construção dos riffs e no fraseado da guitarra. A performance de Gioeli é intensa e segura, enquanto as dobras de guitarra que antecedem o solo reforçam o caráter clássico da composição.

Em “Breaking Seals”, a participação especial de Udo Dirkschneider adiciona peso e autenticidade ao metal tradicional apresentado. A faixa remete diretamente à escola germânica do gênero, com claras referências ao Accept, enquanto Gioeli demonstra versatilidade ao dividir os vocais com Udo em um duelo potente e equilibrado.

A faixa-título, “Ghost Town”, sintetiza a essência artística de Axel Rudy Pell: refrão impactante, base sólida e um solo melódico que conduz a música a seu clímax. Os teclados de Doernberg ampliam a atmosfera épica, sustentando a dramaticidade da composição.

Com “Holy Water”, o álbum mergulha em uma abordagem mais densa e solene. A introdução grandiosa evolui para uma seção em que baixo e teclado assumem protagonismo, enquanto os timbres de guitarra adotam uma sonoridade mais seca e pesada. O trabalho de Krawczak se destaca ao marcar as variações de andamento com precisão.

“The Enemy Within” surpreende ao iniciar como uma power ballad e evoluir para passagens mais cadenciadas, próximas do doom metal. A faixa revela de forma clara as influências clássicas que moldaram a carreira de Pell, transitando por atmosferas que remetem a Black Sabbath e Judas Priest, com Gioeli adaptando sua interpretação a cada nuance.

A energia retorna com força total em “Hurricane”, uma das composições mais velozes do disco. Rondinelli demonstra vigor impressionante, sustentando a intensidade da faixa do início ao fim. O solo de Pell alia velocidade e lirismo, enquanto o baixo se mantém audível e pulsante graças à produção refinada.

“Sanity” resgata o espírito do metal tradicional, com linhas inspiradas na estética sabbathiana e refrão marcadamente melódico. A interação entre baixo, teclado e bateria cria uma base sólida para que guitarra e voz se destaquem com naturalidade.

A power ballad “Towards The Shore” oferece um momento de respiro emocional. O piano de Doernberg conduz a atmosfera introspectiva, enquanto as guitarras alternam entre peso e delicadeza. Os duetos vocais no refrão ampliam o impacto dramático da composição.

Em “Steps Of Stone”, a influência do Rainbow se faz presente na ambientação épica e melódica. A seção rítmica sustenta a grandiosidade da faixa, abrindo espaço para mais um solo expressivo de Pell.

Encerrando o álbum, “Higher Call” apresenta a composição mais longa e estruturalmente complexa do trabalho. A faixa sintetiza a coesão do grupo e evidencia o acerto na escolha do line-up, funcionando como um desfecho robusto e sofisticado.

Com Ghost Town, Axel Rudi Pell reafirma sua fidelidade às raízes do heavy metal clássico, ao mesmo tempo em que mantém elevada qualidade técnica e produção moderna. O álbum dialoga diretamente com sua base consolidada de fãs, mas também possui atributos suficientes para conquistar novos ouvintes.

Mais do que um simples lançamento, Ghost Town se apresenta como uma celebração da trajetória de um artista que permanece relevante e inspirado após mais de duas décadas de carreira solo.


***ENGLISH VERSION***

German guitar virtuoso Axel Rudy Pell returns with Ghost Town, his 23rd studio album, reaffirming his status as one of the leading figures in European melodic heavy metal. Scheduled for release in March 2026, the album preserves the unmistakable sonic identity Pell has cultivated over decades — combining commanding riffs, soaring solos, and a strong melodic sensibility.

For this new chapter, Pell once again assembles a formidable line-up: longtime collaborator Johnny Gioeli (Hardline) on vocals, bassist Volker Krawczak, keyboardist Ferdy Doernberg, and legendary drummer Bobby Rondinelli (Rainbow, Black Sabbath, Blue Öyster Cult). The album’s production, handled by Pell alongside Tommy Geiger (Blind Guardian, Helloween), delivers clarity, power, and a refined balance between weight and sophistication.

“The Regicide (Intro)” opens the record with an atmospheric instrumental built around crystalline clean guitar tones and carefully sculpted textures. In under two minutes, it establishes an epic mood that seamlessly leads into the next track.

“Guillotine Walk” makes Pell’s affinity with Ritchie Blackmore unmistakable, particularly in the riff construction and expressive phrasing. Gioeli delivers a commanding vocal performance, while the twin-guitar harmonies preceding the solo reinforce the song’s classic heavy metal character.

On “Breaking Seals” the special appearance of Udo Dirkschneider adds both authority and grit. The track channels the spirit of traditional German heavy metal, with clear nods to Accept. Gioeli showcases impressive versatility as he shares vocal duties with Dirkschneider in a powerful and well-balanced exchange.

The title track, “Ghost Town” encapsulates Pell’s artistic essence: a soaring, anthemic chorus, a cohesive rhythmic foundation, and a melodic solo that drives the composition toward its climactic peak. Doernberg’s keyboards enrich the epic atmosphere, lending additional depth and drama.

With “Holy Water” the album shifts into darker, more solemn territory. An imposing introduction unfolds into an extended passage highlighting the interplay between bass and keyboards. Here, the guitar tones become drier and heavier, while Krawczak’s bass work stands out by accentuating the track’s dynamic transitions.

“The Enemy Within” begins deceptively as a power ballad before evolving into slower, doom-tinged passages. The song clearly reflects the classic influences that have shaped Pell’s career, moving through atmospheres reminiscent of Black Sabbath and Judas Priest, with Gioeli adapting his vocal delivery to each stylistic shift.

Energy surges back with “Hurricane” one of the album’s fastest and most aggressive tracks. Rondinelli delivers a performance marked by remarkable stamina and intensity, driving the song forward at full throttle. Pell’s solo blends speed with melodic precision, while the bass remains vibrant and audible thanks to the polished production.

“Sanity” revisits traditional metal roots with a Sabbath-inspired backbone and a distinctly melodic chorus. The tight interaction between bass, keyboards, and drums provides a solid platform for the guitar and vocals to shine.

The power ballad “Towards The Shore” offers an emotional respite. Doernberg’s piano work sets an introspective tone, while the guitars alternate between heaviness and delicacy. Layered vocal harmonies in the chorus enhance the track’s dramatic impact.

On “Steps Of Stone” echoes of Rainbow surface through its epic and melodic atmosphere. The rhythm section anchors the track’s grandeur, paving the way for another expressive and tastefully constructed solo from Pell.

Closing the album, “Higher Call” stands as the longest and most structurally ambitious composition on the record. It highlights the band’s cohesion and underscores the careful selection of each musician, serving as a powerful and sophisticated finale.

With Ghost Town, Axel Rudi Pell reaffirms his unwavering commitment to classic heavy metal while maintaining a contemporary production standard and consistently high musicianship. The album speaks directly to his loyal fanbase yet possesses the strength and accessibility to attract new listeners.

More than just another release, Ghost Town stands as a celebration of an artist who remains inspired, relevant, and creatively vital after more than two decades of solo career excellence.

Kai Hoffman


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Masterplan: Tradição e Modernidade em um Retorno à Altura de sua História (Also In English)

Frontiers Records (Imp.)

Por Flavio Borges

Após mais de uma década sem lançar um álbum de estúdio com material inédito — o último havia sido Novo Initium (2013) — o Masterplan retorna com Metalmorphosis, trabalho que reafirma sua identidade no power metal europeu ao mesmo tempo em que aponta para novas nuances sonoras. Nesse intervalo, a banda disponibilizou apenas o single “Rise Again” (agora reapresentado em nova versão), além de um álbum ao vivo e um disco de covers que revisita a trajetória de Roland Grapow no Helloween.

O novo trabalho deixa claro desde os primeiros acordes que o grupo alemão não perdeu sua essência.


Peso, melodia e identidade

O álbum abre com “Chase The Light”, primeiro single e cartão de visitas perfeito para esta nova fase. A introdução épica rapidamente dá lugar a um power metal moderno, com discretas incursões progressivas. Rick Altzi mantém uma performance segura e expressiva, evocando em diversos momentos o timbre e a intensidade de Jorn Lande, enquanto Roland Grapow entrega solos inspirados e melodicamente marcantes.

Na sequência, “Electric Nights” aposta em velocidade e melodias diretas, dialogando com a tradição do metal melódico europeu. A influência de bandas como Stratovarius é perceptível — não por acaso, o baixo fica a cargo de Jari Kainulainen, ex-integrante da banda finlandesa. O destaque vai para a introdução precisa de Kevin Kott e para um dos solos mais inspirados do álbum.

“Shadow Man” apresenta uma das composições mais dinâmicas do disco. Sombria e densa em sua condução inicial, a faixa flerta com a estrutura de power ballad no refrão, antes de retomar o peso e desembocar em um solo virtuoso acompanhado por texturas bem trabalhadas de teclado assinadas por Axel Mackenrott. A atmosfera remete, em alguns momentos, à fase mais obscura do Helloween em The Dark Ride.


A assinatura Masterplan

“Bound To Fall” poderia facilmente figurar no álbum de estreia da banda. A construção cadenciada, o refrão forte e os timbres cuidadosamente escolhidos reforçam a assinatura sonora que consolidou o nome Masterplan no cenário europeu.

Em “Pain Of Yesterday”, a banda amplia o espectro sonoro ao incorporar elementos de ambientação oriental. O uso sutil de cítara cria uma atmosfera diferenciada, sem descaracterizar o DNA do grupo. A faixa evolui para um solo expressivo de Grapow, demonstrando maturidade composicional.

A faixa-título, “Metalmorphosis”, sintetiza o conceito do álbum: tradição e modernidade coexistindo. O riff inicial, sustentado por teclados atmosféricos, conduz a um refrão grandioso, enquanto as passagens progressivas conferem dinamismo à estrutura.

Já “Through The Storm” acelera o andamento e presta homenagem direta às raízes do power metal alemão. Com energia que remete à fase Walls of Jericho, a música resgata a agressividade melódica clássica, evocando a herança de Grapow no Helloween.


Coesão e maturidade

“Ghostlight” traz o álbum novamente para um território mais cadenciado e introspectivo, destacando a coesão do grupo. Aqui, não há protagonismos isolados — a força está no conjunto. O resultado é uma das audições mais equilibradas do disco.

Em “The Call”, o baixo de Jari Kainulainen ganha maior protagonismo em meio a mudanças de dinâmica e ambientação. A presença pontual de bateria eletrônica demonstra a abertura da banda para experimentações, enquanto o refrão mantém o caráter acessível que permeia o álbum.

Encerrando o trabalho, “Rise Again (Album Version)” reapresenta o single lançado anteriormente, agora integrado ao conceito do disco. As guitarras evocam o peso clássico do heavy metal britânico, enquanto as melodias mantêm a identidade do Masterplan intacta.


Considerações finais

Metalmorphosis marca um retorno consistente e seguro. O álbum entrega exatamente o que se espera do Masterplan — refrões marcantes, solos inspirados e equilíbrio entre peso e melodia — ao mesmo tempo em que incorpora elementos contemporâneos que renovam sua sonoridade.

Após uma longa espera, o grupo alemão demonstra que sua essência permanece sólida, reafirmando seu lugar entre os principais nomes do power metal europeu e abrindo caminho para uma nova etapa de sua trajetória.

Um retorno à altura da história da banda.


***ENGLISH VERSION***

After more than a decade without releasing a full-length studio album of new material — the last one being Novo Initium (2013) — Masterplan returns with Metalmorphosis, a record that reaffirms the band’s identity within European power metal while subtly expanding its sonic boundaries. During this hiatus, the German outfit only issued the standalone single “Rise Again” (now revisited in a new version), along with a live album and a covers release revisiting Roland Grapow’s tenure in Helloween.

From its opening moments, the new album makes it clear that Masterplan has lost none of its essence.

Power, Melody and Identity

The album kicks off with “Chase The Light,” the first single and a fitting introduction to this new chapter. An epic opening quickly gives way to modern power metal infused with subtle progressive elements. Rick Altzi delivers a confident and expressive performance, at times recalling the tone and intensity of original vocalist Jorn Lande, while Roland Grapow provides inspired, melody-driven solos.

“Electric Nights” follows with a more immediate and uptempo approach, rooted firmly in the European melodic metal tradition. Echoes of bands like Stratovarius can be detected — fittingly so, as bassist Jari Kainulainen, formerly of the Finnish act, handles the low end here. Kevin Kott’s precise drum introduction sets the tone, and the track features one of the album’s most compelling guitar solos.

One of the record’s most dynamic compositions, “Shadow Man” unfolds with a dark and weighty atmosphere before flirting with power ballad territory in its soaring chorus. The song regains intensity with a virtuosic solo from Grapow, complemented by Axel Mackenrott’s layered keyboard textures. At times, the mood recalls the darker aesthetic explored in Helloween’s The Dark Ride era.

The Masterplan Signature

“Bound To Fall” could easily have found its place on the band’s debut album. The mid-tempo pacing, strong melodic hooks and carefully crafted guitar tones reinforce the sonic trademark that established Masterplan as a key player in the European power metal scene.

With “Pain Of Yesterday,” the band broadens its palette by incorporating subtle Middle Eastern atmospheres. The discreet use of sitar-like textures adds an exotic flavor without compromising the group’s core identity. The track culminates in a tasteful and expressive solo from Grapow, highlighting the band’s compositional maturity.

The title track, “Metalmorphosis,” encapsulates the album’s concept: tradition and modernity coexisting seamlessly. Atmospheric keyboards and contemporary guitar tones lead into an anthemic chorus, while progressive flourishes add structural depth and movement.

“Through The Storm” shifts gears into high speed, paying homage to the roots of German power metal. With an energy reminiscent of the Walls of Jericho era, the track channels the melodic aggression that defined early Helloween, reflecting Grapow’s musical heritage.

Cohesion and Maturity

“Ghostlight” brings the album back to a more controlled and atmospheric pace, emphasizing the band’s cohesion. Rather than spotlighting individual performances, the strength lies in the collective execution, resulting in one of the record’s most balanced moments.

In “The Call,” Jari Kainulainen’s bass lines take on a more prominent role amid shifts in dynamics and texture. The subtle inclusion of electronic drum elements signals the band’s openness to experimentation, while the chorus maintains the accessible melodic sensibility that defines the album.

Closing the record, “Rise Again (Album Version)” reintroduces the previously released single within the album’s broader framework. The guitar work carries a classic heavy metal edge, while the melodic structure remains unmistakably Masterplan.

Final Thoughts

Metalmorphosis marks a confident and well-executed return. The album delivers exactly what longtime fans expect — memorable choruses, inspired solos and a refined balance between heaviness and melody — while integrating contemporary elements that refresh the band’s sound without diluting its identity.

After a long wait, Masterplan proves that its creative core remains intact, reaffirming its place among the leading names in European power metal and setting the stage for a promising new chapter.

A comeback worthy of the band’s legacy.

Patric Ullaeus

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Kreator: Brutalidade, Melodia e Maturidade Implacável

Shinigami Records (Imp.) / Nuclear Blast (Imp.)

Por Paula Butter

Janeiro chega com mais um ótimo lançamento, agora na seara do Thrash Metal, com os alemães do Kreator, trazendo sua maestria musical em Krushers Of The World, o aguardado 16º álbum de estúdio. Inclusive, com um título que impõe respeito, um reflexo da consciência histórica, orgulho e da confiança conquistada pela banda ao longo de décadas de estrada.

Musicalmente, Krushers Of The World comprova que o grupo mantém intacta sua essência, porém se aventura em mares mais melódicos e disruptivos, sem perder a brutalidade e energia. Um exemplo dessa pegada aparece na faixa de abertura “Seven Serpents”, que estabelece o tom agressivo, mas também apresenta uma instrumentalidade mais trabalhada na introdução e pinceladas de gótico/mitológico nas letras, escapando um pouco do tradicional. Entretanto as pedaleiras duplas ensurdecedoras aparecem com tudo em  “Satanic Anarchy”, bem como os famosos riff compassados, e a voz poderosa de Mille Petrozza, puro Thrash Metal. Inclusive com uma referência que acalentou o coração dos fãs de horror, o clássico Hellraiser, do diretor Clive Baker, lançado em 1987. 

Destaque para o tom épico e envolvente da música “Krushers Of The World”, não esperava nada menos, em se tratando de Kreator. Temos também “Deathscream”, cujo nome já entrega tudo, energia gritante para ouvidos treinados, uma ótima música para voltar às origens. Em contrapartida, chega  “Blood Of Our Blood”, bem trabalhada nas linhas de baixo e guitarra, com refrões bem acessíveis, com muita melodia, outra prova da versatilidade destes alemães em se tratando de inovar. 

Agora, temos um lado mais tradicional da banda, mas com a qualidade e agressividade extrema de outrora, com “Barbarian” e “Psychotic Imperator”, duas pérolas que ao vivo podem ser perfeitos convites aos famosos mosh pits. E a propósito, quem ainda não teve o prazer de estar no calor humano em um show do Kreator, já coloque a façanha em sua Bucket list.

Na sequência da audição, temos a faixa “Tränenpalast”, com atmosferas sombrias e mais referências ao terror cult sobrenatural, no caso, ao filme Suspiria, original de Dario Argento, lançado em 1977, e que também possui uma releitura mais moderna, do diretor Luca Guadagnino, lançada em 2018. A canção também conta com a participação vocal de Britta Görtz, que casou perfeitamente com o contexto da obra. Inclusive, podemos apreciar a participação da cantora e elementos do filme, que apesar dos flashes impactantes, ficou belíssimo no videoclipe disponibilizado anteriormente ao lançamento do álbum. 

Visualmente, o álbum também se destaca. Inclusive, em um momento onde tudo é criado e porque não, recriado por meio da Inteligência Artificial, a arte de Zbigniew Bielak revisita elementos icônicos da estética clássica do Kreator e os reorganiza em uma composição densa, simbólica e contemporânea. 

Por fim, temos “Loyal To The Grave”, décima e última música do disco, em tom grandioso e sensação de batalhas épicas por vir, que se inicia com vozes de coral ao fundo, para na sequência, dar andamento ao peso ritmado do baixo, bateria em riste, riffs a postos e vocais nervosos. Merece destaque para a audácia criativa, que inclui traços de Metal tradicional e Thrash.

Mais uma vez, o Kreator conseguiu um resultado de qualidade acima da média, tornando Krushers Of The World um trabalho feroz, sólido e criativo, sustentado por uma excelente produção e por composições maduras, que revelam uma banda plenamente consciente de seu legado, sem receio para avançar sem concessões. O Kreator segue implacável, reafirmando seu lugar entre os gigantes do metal extremo enquanto continua a expandir seus próprios limites.

Divulgação



sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Entrevista - Jennifer Haben (Beyond The Black): Metal, Emoção e Conexão Global

Por Paula Butter

Beyond The Black, a banda de Metal Sinfônico alemã que tem agitado os palcos ao redor do mundo nos últimos anos, está na expectativa do lançamento de seu novo álbum, intitulado “Break the Silence”. Então, começamos 2026 com um grande presente para os headbangers, uma entrevista com Jennifer Haben, onde a simpática vocalista esclarece alguns pontos sobre o conceito desta obra, que já está disponível, pela gravadora Nuclear Blast, no dia de hoje (09/01/26).

Paula: É um prazer ter você aqui conosco para esta entrevista. Como você está hoje?

Jennifer: Estou bem. Tive uma semana muito corrida na semana passada. Fizemos algumas coisas ótimas com muitas das músicas captadas do Wacken e também outros projetos, e isso foi muito bom para poder contar um pouco mais sobre o álbum.

Paula: Ah, sim, estou muito animada. O lançamento é no dia 9 de janeiro, eu acho. É logo no começo do Ano Novo, então acredito que todo mundo esteja bastante ansioso pelo álbum.

Gostaria de começar com algumas perguntas sobre as três primeiras músicas, que foram lançadas como singles antes do álbum. Esses singles contam com várias participações, incluindo o Lord of the Lost e também com a cantora japonesa Asami. Acho isso muito interessante, adorei o álbum!

Essas três músicas parecem representar capítulos diferentes do disco, cada uma com uma identidade própria. Elas representam a variedade de Break the Silence?

Jennifer: Até agora, ainda não contamos a história completa. Ainda falta um single que, sim, vai apresentar o final deste capítulo.

Como eu já disse antes, todos esses videoclipes, do começo ao fim, funcionam quase como um pequeno filme, porque pensamos em um conceito completo para explicar às pessoas sobre o que estamos falando. Indo além, Break the Silence é um álbum sobre comunicação.

Desde o início, quando começamos a pensar no que escrever, percebemos que todos estávamos mais ou menos na mesma sintonia: as pessoas não estão mais conectadas — ou pelo menos não o suficiente. Elas estão mais divididas do que nunca, pelo menos é assim que sentimos.

Ao mesmo tempo, temos a internet, que nos deixa hiperconectados, mas sem conversas realmente profundas. Parece que as pessoas apenas expressam suas opiniões, sem ouvir o outro lado. Elas não querem entender de verdade o que o outro tem a dizer, apenas expor seu próprio ponto de vista. Acho isso muito perigoso. Acredito que poderíamos nos reconectar se tentássemos compreender o que o outro quer dizer com o coração, e não apenas pelas palavras.

Edu Lawless - @edulawless

Paula: Sim, concordo totalmente com você. Break the Silence é um álbum muito forte, e o título também é muito impactante. A capa do álbum é linda e chama muita atenção logo de primeira.

O que tudo isso significa para você e para a banda neste momento? Vocês estão tocando em muitos festivais e já estiveram no Brasil este ano, no Bangers Open Air (obs.: entrevista realizada em dezembro de 2025). O que esse álbum representa para você pessoalmente e para a trajetória da banda?

Jennifer: Acho que todo álbum revela um pouco mais sobre a personalidade da banda e sobre a fase em que estamos vivendo. Desde Beyond the Black, o álbum anterior, tudo estava mais relacionado à confiança. Já era possível sentir que estávamos mais seguros do que antes, que sabíamos melhor o que estávamos fazendo e o que queríamos.

Desta vez, foi um desenvolvimento em direção a algo mais profundo, no qual realmente quisemos expor nossas preocupações sobre como o mundo está evoluindo. Queríamos mostrar às pessoas o que sentimos. É empolgante ver isso finalmente se concretizando. Agora faltam alguns meses… não, na verdade, só um mês.

Paula: Nem isso, na verdade.

Jennifer: Exatamente, está muito perto. Há outras músicas no álbum das quais eu realmente me orgulho, então mal posso esperar para que as pessoas as escutem.

Paula: Preciso dizer que já ouvi o álbum. Agradeço à Nuclear Blast pela oportunidade. Acho que ele reúne muitos sons e culturas diferentes. É um disco muito diverso: cada música é diferente, cada uma conta uma história. Há elementos culturais de várias partes do mundo, de diferentes países e tradições. É como se muitas culturas estivessem reunidas em um único álbum.

Esse equilíbrio entre melodia, emoção e intensidade sempre esteve presente no Beyond the Black. Essa visão já existia desde o início ou foi se desenvolvendo ao longo do tempo?

Jennifer: Você diz de modo geral ou especificamente para este álbum?

Paula: Para este álbum.

Jennifer: Certo. A visão surgiu já no início do processo criativo, quando começamos a pensar no novo álbum. Desde o começo sabíamos qual seria o tema central: comunicação. Acho que foi a primeira vez que isso ficou definido antes mesmo de começarmos a compor as músicas.

Ter isso em mente ajudou muito no conceito geral, inclusive no que você mencionou sobre idiomas e culturas diferentes. Comunicação não é apenas alemão ou inglês, é algo global. Queríamos nos conectar com pessoas do mundo inteiro, por isso escolhemos diferentes idiomas e exploramos essas ideias.

Por exemplo, em “Rising High”, tivemos aquela voz africana antes mesmo de pensarmos em criar uma música do Beyond the Black ao redor dela. Foi quase um recomeço para nós. O mesmo aconteceu com os vocais búlgaros, japoneses e outros.

A ideia era nos inspirar nesses elementos e criar algo a partir deles, sem forçar a música a ser algo que ela não é. Queríamos criar algo harmônico a partir do que já existia na identidade do Beyond the Black.

Edu Lawless - @edulawless

Paula: Este álbum é muito verdadeiro. Tenho uma pergunta: se você tivesse que apresentar o Beyond the Black e Break the Silence para alguém que não conhece a banda, como descreveria?

Jennifer: Eu diria que é possível encontrar muitas emoções diferentes, elementos bem metal, mas também partes orquestrais, eletrônicas e com uma pegada de rock. No conjunto, há muitas dinâmicas diferentes.

Paula: Ótimo! E como foi trabalhar com outras bandas, como o Lord of the Lost e a cantora Asami (obs:. vocalista da banda de Metal japonesa Lovebites)? São duas vertentes muito fortes. Como foi essa colaboração?

Jennifer: Foi incrível. Eu sou apaixonada pelo Japão, então para mim estava claro que eu queria ter um vocal japonês neste álbum, além de letras em japonês. No início, pensei em cantar eu mesma (risos), mas percebi que talvez não fosse a melhor escolha, então precisávamos de outra pessoa. Fiquei muito feliz que a Asami tenha aceitado participar.

A ideia de “Can You Hear Me” é mostrar que sentimos as mesmas coisas, mesmo estando tão distantes no mundo: solidão, a tentativa de alcançar o outro, de ter conversas e emoções profundas.

Já com o Chris Harms, do Lord of the Lost, foi algo muito especial. Ele é um cantor incrível. Não conversamos muito antes de gravar juntos, mas senti que encontrei um novo amigo nele, porque compartilhamos um nível emocional parecido. Quando ele gravou e me enviou as partes vocais, foi como se tivesse acrescentado uma dimensão totalmente nova à música. Isso não acontece com frequência em colaborações, então foi realmente especial.

Edu Lawless - @edulawless

Paula: É muito emocionante e tocante. Em “Can You Hear Me”, há um contraste muito forte entre os vocais. Como foi, para você, essa experiência de contrastar a sua voz com a dela?

Jennifer: Para mim, é sempre importante trabalhar com uma voz diferente da minha. Esse contraste permite alcançar diferentes níveis emocionais e torna a música mais interessante para quem ouve. Acho que essa faixa é um ótimo exemplo disso.

Paula: Tenho muitas perguntas, estou até um pouco nervosa (risos). Como fundadora do Beyond the Black, hoje é mais fácil separar seus papéis como líder da banda, compositora e cantora?

Jennifer: Você pode repetir a pergunta? Desculpe.

Paula: Claro. Existe uma divisão clara de responsabilidades dentro da banda? Como funciona o processo quando vocês estão compondo e gravando, considerando que você também é compositora e líder?

Jennifer: Obrigada por esclarecer. A composição no Beyond the Black é feita principalmente por mim e pelo nosso guitarrista, Chris. Fazemos grande parte do trabalho juntos. Quando se trata de decisões gerais, nós quatro decidimos em conjunto, mas cada um tem responsabilidades específicas, como merchandising ou outros aspectos. Ninguém faz tudo sozinho, e eu também não faço tudo sozinha. Cada um tem suas funções.

Edu Lawless - @edulawless

Paula: Hoje em dia, vemos muitas bandas na mídia por conflitos internos, e isso não é bom para o heavy metal (risos).

Jennifer: Estou tentando manter meus caras unidos.

Paula: E você consegue, isso é incrível.

Jennifer: Para mim, é muito importante que o tempo que passamos juntos seja bom. Se você não estiver se divertindo, não faz sentido ser músico. Na turnê, ter a equipe certa e boas pessoas por perto também é fundamental.

Paula: Eu vi vocês em São Paulo e senti uma energia muito positiva. Dá para perceber que vocês são uma banda de verdade. Foi incrível assistir ao show.

Jennifer: Muito obrigada.

Paula: Posso fazer mais uma pergunta? Como está o seu tempo?

Jennifer: Acho que ainda tenho uns cinco minutos antes da próxima entrevista.

Paula: Após o lançamento do álbum, vocês pretendem fazer uma turnê específica para Break the Silence?

Jennifer: Sim, teremos uma turnê pela Europa em janeiro e fevereiro. Vamos tocar algumas das músicas novas, claro. A turnê começa por volta de 15 de janeiro, logo após o lançamento do álbum, então estaremos bem ocupados.

Paula: E vocês pretendem voltar ao Brasil em 2026 ou 2027?

Jennifer: Ainda não sabemos, mas quando estivemos aí e vimos o público incrível, dissemos: “Precisamos voltar”. A energia foi maravilhosa, e tocar para pessoas assim é algo que amamos. Com certeza voltaremos, só não sabemos quando.

Paula: No Brasil, a banda é muito querida. Eu sou uma grande fã — adoro sua voz, seu estilo e o som moderno da banda. Posso fazer uma pergunta pessoal?

Jennifer: Claro!

Paula: O que você gosta de fazer quando não está no palco?

Jennifer: Boa pergunta (risos). Gosto de assistir a séries. Mas, sinceramente, minha vida gira muito em torno da música. Também gosto de estar com minha família. Tenho uma afilhada, e passar tempo com ela realmente ilumina meu coração.

Paula: Que bonito. Eu também sou mãe, e a família é muito importante para mim.

Jennifer: Eu não sou mãe, sou “apenas” a tia.

Paula: Mas hoje em dia é quase como ser mãe.

Jennifer: De certa forma, sim.

Paula: Muito obrigada pelo seu tempo.

Jennifer: Muito obrigada pelo seu tempo e pelo seu interesse. Espero voltar ao Brasil muito em breve.

E atenção aos amantes do Metal Sinfônico: Não deixe de conferir a obra de arte musical “Break the Silence”! Em tempo, ainda no mês de janeiro de 2026, o Beyond The Black dará início à sua próxima turnê europeia como atração principal, Rising High, coincidindo com o lançamento de seu aguardado sexto álbum de estúdio, lançado hoje, dia 9 de janeiro.