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sábado, 3 de outubro de 2026

Skáld: Entre Destino, Escolha e Os Ecos de Um Mundo Antigo

Napalm Records (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Há discos que contam uma história. Há outros que tentam fazer o ouvinte entrar nela. Ørlǫg, quarto álbum de estúdio do SKÁLD, pertence definitivamente à segunda categoria.

Lançado em 25 de setembro pela Napalm Records, o trabalho encontra no próprio título o conceito que organiza sua existência: no pensamento nórdico, ørlǫg está relacionado às bases primordiais que estruturam o destino, aquilo que foi estabelecido antes de nós. Mas o SKÁLD não trata esse destino como uma sentença imutável. Ao longo das dez faixas, a banda francesa trabalha justamente com a tensão entre aquilo que herdamos e aquilo que fazemos com o que recebemos.

1. Draumakona

A primeira faixa já deixa claro que Ørlǫg não será uma coleção aleatória de músicas inspiradas na mitologia nórdica. Existe uma construção quase hipnótica aqui. A percussão mantém o pulso enquanto a voz feminina conduz a narrativa e os demais vocais entram progressivamente, criando uma espécie de diálogo entre indivíduo e coletivo.

A música fala sobre a dimensão feminina da profecia e da visão xamânica, colocando as Nornas no centro dessa narrativa. E a escolha de começar o álbum dessa maneira é extremamente coerente: antes de falar sobre destino, o SKÁLD apresenta quem o enxerga, interpreta e, de certa maneira, ajuda a tecê-lo.

2. Myrkviðr

Se Draumakona apresenta o lado mais etéreo do álbum, Myrkviðr coloca os pés no chão. A mudança de protagonismo vocal é perceptível logo de cara. As vozes masculinas assumem a frente e a faixa ganha uma densidade diferente, com uma pulsação mais firme e uma sensação de movimento mais pronunciada.

Mas o interessante está na história por trás da música. Christophe Voisin Boisvinet contou que Myrkviðr parte de uma antiga lenda ligada a uma floresta onde humanos, animais e elfos conviviam até que a exploração excessiva da natureza rompeu esse equilíbrio. A floresta é destruída pelo fogo e somente uma chuva de sangue consegue apagar as chamas.

3. Ratatoskr

Aqui o SKÁLD fica particularmente interessante. Ratatoskr poderia facilmente ter virado uma música folclórica simpática sobre o famoso esquilo que percorre Yggdrasil levando mensagens entre seus habitantes. Em vez disso, a banda transforma o personagem em uma representação bastante contemporânea da provocação, da fofoca e da disseminação de conflitos.

E a escolha sonora acompanha isso. A percussão seca, os sons repetitivos e o canto gutural criam uma sensação quase mecânica. A repetição do nome Ratatoskr começa a funcionar como um mantra, mas também como algo perturbador.

4. Dǫkksalir

Depois da tensão de Ratatoskr, Dǫkksalir parece abrir uma janela para outro lugar. A música é muito mais delicada. As melodias desaceleram e os vocais assumem uma qualidade quase hipnótica, próxima de uma canção de ninar.

Só que existe algo inquietante por baixo dessa beleza. A faixa trata das criaturas do mar e das sereias que atraem aqueles que se aproximam, e a escolha de fazer a composição soar tão doce cria exatamente o contraste necessário. A música seduz antes de ameaçar.

É uma das melhores decisões de arranjo do disco porque o SKÁLD não precisa tornar o perigo explicitamente agressivo. Pelo contrário: quanto mais bonita a superfície, mais desconfortável fica a ideia de aquilo estar escondendo alguma coisa.

5. Útgarðr

Se há uma música que transforma a experiência vocal do álbum em espetáculo, é Útgarðr. Aqui, as diferentes vozes deixam de funcionar apenas como acompanhamento e passam a ser personagens dentro da própria composição. Elas se alternam, se sobrepõem e, em determinados momentos, parecem disputar espaço.

O resultado é um arranjo que cresce progressivamente até chegar a um clímax bastante expressivo. É também um dos melhores exemplos daquilo que Christophe descreve como uma espécie de “caos controlado”: vozes com timbres diferentes são colocadas umas sobre as outras para criar contraste, em vez de simplesmente buscar uma harmonia perfeitamente uniforme.

6. Ek skal riða

Com mais de seis minutos, Ek skal riða é a faixa que mais exige paciência do ouvinte. E talvez seja justamente por isso que ela funciona melhor dentro do álbum do que isoladamente.

Depois do impacto de Útgarðr, a música parece recolher tudo para dentro. Os vocais ficam mais espaçados e os instrumentos passam a trabalhar de maneira mais atmosférica. A composição tem uma qualidade ritualística muito forte, como se estivéssemos diante de uma cerimônia que ainda não chegou ao seu ponto culminante.

7. Himinbjǫrg

E então o álbum volta a se movimentar. Himinbjǫrg tem uma pulsação muito mais física. Existe algo quase dançante na maneira como a percussão conduz a faixa, mas sem abandonar a atmosfera ritualística que domina todo o disco.

A temática também combina com essa sensação de passagem: Himinbjǫrg está ligado ao lugar de Heimdall, o guardião da ponte Bifröst, e a música parece construir justamente essa ideia de travessia.

O contraste entre a voz masculina mais profunda e os vocais femininos é particularmente eficiente. Não é apenas uma questão de timbre: as diferentes vozes parecem representar perspectivas diferentes dentro da mesma narrativa.

8. Heiemo og Nykkjen

Uma das decisões mais interessantes de Ørlǫg está justamente aqui. Heiemo og Nykkjen nasce diretamente de uma antiga balada medieval norueguesa. A protagonista, Heiemo, enfrenta o Nykkjen, uma criatura aquática associada ao perigo, e não espera passivamente por um salvador. Ela assume o próprio destino.

9. Veit barnit

Com pouco menos de dois minutos, Veit barnit é praticamente uma passagem. E justamente por isso seria um erro julgá-la pelos mesmos critérios das demais faixas.

A presença de uma voz infantil muda completamente a atmosfera. Depois de tantas vozes adultas, graves, guturais, femininas e corais, existe algo quase inocente nessa pequena interrupção. Mas a inocência não significa ausência de significado.

A faixa trabalha com a ideia do conhecimento das crianças e funciona como uma espécie de suspensão antes do encerramento. É como se o álbum, depois de atravessar tantos personagens, mundos e interpretações sobre destino, parasse por alguns instantes para ouvir uma voz que ainda não carrega todo esse peso.


10. Eldr ok íss

E Ørlǫg termina exatamente como deveria: no caos. Eldr ok íss, “fogo e gelo”, é o encerramento mais sombrio do álbum e recupera a dimensão primordial da mitologia nórdica. A faixa faz referência ao encontro entre o fogo de Muspelheim e o gelo de Niflheim, forças associadas à criação do mundo e ao surgimento de Ymir.

O álbum começa com uma visão e termina diante das forças primordiais que existiam antes dela. Entre uma coisa e outra, o SKÁLD percorre florestas, mundos, criaturas, pontes, histórias medievais e personagens que representam diferentes formas de lidar com aquilo que não podemos controlar.


Romy Lena

Confira a tracklist completa:

1. Draumakona 

2. Myrkviðr 

3. Ratatoskr

4. Dǫkksalir

5. Útgarðr

6. Ek skal riða

7. Himinbjǫrg 

8. Heiemo og Nykkjen 

9. Veit barnit 

10. Eldr ok íss

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Cobertura de Show: Skáld – 12/09/2025 – Carioca Club/SP

A noite de 12 de setembro de 2025 foi um momento especial para os fãs de folk em São Paulo. O palco do Carioca Club recebeu a estreia da banda francesa Skáld, acompanhada pela abertura do show feita pela banda paulistana Yön. A casa recebeu um público diverso, unido pela paixão por uma sonoridade que mistura história, espiritualidade e ancestralidade. O ambiente estava carregado de expectativa e vibração, com muitos fãs trajando roupas temáticas, contribuindo para uma atmosfera imersiva. 

A Yön abriu a noite com uma apresentação marcante. Formada por Aline Reis (voz e percussão), Bea Três (voz e violões), Carol Encanto (voz, percussão e guitarra), Janine Plis (voz, percussão e violão), Luana Carvalho (voz e percussão) e Silvia Lozano (voz e cello), o grupo mergulhou nas Eddas Poéticas e trouxe ao público sua interpretação única do folk nórdico. O ponto alto veio logo no início, quando apresentaram ao vivo I Riden Så, single lançado no mesmo dia, o segundo lançado por elas este ano. A recepção calorosa demonstrou a conexão profunda entre a banda e o público, que acompanhou cada batida e cada vocal com atenção quase ritualística. 

Na sequência já com o palco e o publico aquecidos, foi a vez do Skáld estrear em solo brasileiro. 

Criado em 2018 por Christophe Voisin-Boisvinet, o grupo é conhecido por cantar em nórdico antigo e explorar idiomas escandinavos, sempre com arranjos que dão vida às lendas vikings. A performance foi grandiosa, marcada pelo uso de instrumentos tradicionais como a nyckelharpa, talharpa e hurdy-gurdy, que transportaram os presentes diretamente para o universo das sagas. 


O show começou com uma apresentação bem ritualistica dos membros da banda entrando em silencio iniciando a introdução com a queima de um incenso feito no centro do palco e logo em seguida a apresentação da inicio com força em Odinn, criando de imediato uma atmosfera intensa. Ao longo da apresentação, clássicos como Yggdrasill, Mánin Liður e Ljósálfur deram ritmo à noite, mas foi em Ó Valhalla que o público explodiu em empolgação, cantando junto em uníssono e transformando a música em um verdadeiro hino coletivo. 


O setlist extenso incluiu ainda faixas como Fimbulvetr, Herr Mannelig e Gleipnir, encerrando a apresentação de forma grandiosa. 



A noite no Carioca Club consolidou-se como um encontro histórico para a cena folk no Brasil. O contraste entre a força emergente da Yön e a experiência internacional do Skáld mostrou a vitalidade do gênero. Para os fãs que estiveram presentes, foi mais do que um show: foi uma viagem no tempo, um mergulho nas tradições do norte e uma celebração da música como elo entre culturas e gerações.


Texto: João Viking

Fotos: Paula Cavalcante para o Heavy Metal Online e Metal no Papel 

Edição/Revisão: Gabriel Arruda 


Realização: Overload Brasil 

Press: Tedesco Comunicação & Mídia


Skáld – setlist:

Heiemo og Nykkjen

Ódinn

Yggdrasill

Hross

Mani Liour

Sækonungar

Ó Valhalla

Ljósálfur

Rún

Då månen sken

Fimbulvetr

Elverhøy

Níu

Hafgerðingar

Jörmungrund

Hinn mikli dreki

Draumakona

Troll Kalla Mik

Grótti

Her mannelig

Bis

Gleipnir