quinta-feira, 23 de julho de 2026

Madball: Fiel Às Origens

Shinigami Records (Nac.) / Nuclear Blast (Imp.)

Quase quatro décadas depois de surgir nas ruas de Nova York, o Madball continua provando que autenticidade pesa mais do que reinvenção. Em Not Your Kingdom, seu décimo álbum de estúdio, a banda entrega um trabalho que honra a tradição do NYHC sem soar presa ao passado.

Por Guilmer Da Costa Silva - @guilmer_metal

Oito anos separaram For the Cause (2018) de Not Your Kingdom, o maior intervalo entre dois discos da carreira do Madball. Nesse período, muita coisa mudou: o hardcore ganhou novas tendências, o metalcore se aproximou ainda mais do metal extremo e a própria banda passou por mudanças importantes, principalmente com a saída do baixista Jorge "Hoya Roc" Guerra. Ainda assim, Freddy Cricien e seus companheiros optam por seguir um caminho diferente do de muitos veteranos: não tentam modernizar sua identidade, mas refiná-la.

O resultado é um disco de pouco mais de trinta minutos que equilibra agressividade, groove, melodias pontuais e uma produção robusta, sem perder a essência construída desde clássicos como Set It Off (1994) e Demonstrating My Style (1996).

A abertura com "Tethered" deixa isso evidente desde os primeiros segundos. Os riffs carregados de groove, a bateria pulsante e a interpretação sempre intensa de Freddy Cricien funcionam como uma declaração de intenções: o Madball continua sendo o Madball. Logo em seguida, "Flammable" reduz tudo à essência do hardcore, explodindo em menos de um minuto com velocidade, agressividade e um breakdown que certamente encontrará seu lugar nos shows.

O primeiro momento de respiro chega com "Rebelude". O breve interlúdio, de atmosfera quase dub, quebra a sequência de pancadas sem parecer deslocado e prepara o terreno para "Rebel Kids", provavelmente a música mais emblemática do disco. Lançada como primeiro single, ela sintetiza boa parte da proposta do álbum. O refrão foi claramente concebido para ser cantado em coro, enquanto a letra recupera o espírito inconformista que sempre definiu o hardcore. Em uma época em que parte da cena parece cada vez mais preocupada em seguir tendências, Freddy relembra que o gênero nasceu justamente da contestação. 

A partir daí, o disco alterna momentos de violência absoluta com pequenas variações que enriquecem a audição. "Don't Misstep" acelera novamente com riffs de forte influência metálica e uma bateria devastadora, mostrando que a produção moderna acrescenta peso sem diluir a essência da banda. Já "What Say You", cuja temática dialoga diretamente com o título do álbum, aposta em um andamento mais cadenciado, privilegiando o groove e a construção dos riffs. É uma das composições mais marcantes do trabalho e evidencia o quanto o Madball domina a dinâmica entre peso e controle.

Essa aproximação com o metal aparece de forma ainda mais evidente em "Stab Wounds", impulsionada pelas guitarras de Mike Gurnari e pela sólida estreia de Paul Delaney no baixo. A nova cozinha demonstra enorme entrosamento ao longo de todo o disco, oferecendo uma base consistente para que os riffs ganhem ainda mais impacto. Em seguida, "Sunrise" surge como mais um breve interlúdio atmosférico, reorganizando o ritmo do álbum antes de uma sequência em que o lado mais melódico do Madball ganha espaço.

"Life's a Mural" mostra que groove e refrões fortes podem conviver naturalmente dentro do hardcore nova-iorquino. A música preserva toda a energia característica da banda, mas abre espaço para linhas vocais mais acessíveis, algo que também acontece em "The Ride", uma das faixas mais cativantes do repertório. Sem abandonar a agressividade, ambas revelam um Madball confortável em explorar melodias sem comprometer sua credibilidade. 

No centro emocional do disco está "Family First". Mais do que uma música, ela funciona como uma reafirmação dos valores que moldaram toda a cena hardcore de Nova York. A alternância entre passagens cadenciadas e explosões de velocidade reforça a mensagem de união, lealdade e responsabilidade que acompanha o grupo desde seus primeiros trabalhos. É impossível ouvir a faixa sem lembrar da influência de nomes como Agnostic Front, Cro-Mags, Sick of It All e Biohazard na construção dessa filosofia.

A reta final mantém o nível elevado. "Clockwork" retoma a velocidade com riffs secos e breakdowns precisos, enquanto "IWI" surpreende ao iniciar com um breve violão antes de explodir em menos de meio minuto de pura violência, mostrando que até pequenas experimentações encontram espaço quando fazem sentido dentro da proposta do álbum.

O encerramento fica por conta de "Chase a Dream", que foge do formato explosivo predominante e aposta em uma construção gradual. Para os padrões do Madball, trata-se de uma composição quase épica, encerrando o disco com um sentimento de perseverança que dialoga perfeitamente com a trajetória da banda.

Embora Freddy Cricien tenha afirmado que este seja o álbum mais diverso da carreira do Madball, ninguém deve esperar mudanças radicais. A diversidade aparece em detalhes: interlúdios atmosféricos, maior presença de melodias, influências metálicas mais evidentes e uma dinâmica mais trabalhada entre velocidade e peso. Ainda assim, tudo permanece absolutamente reconhecível como Madball.

A produção moderna valoriza cada instrumento sem sacrificar a crueza característica do hardcore, enquanto Mike Gurnari entrega alguns dos riffs mais inspirados da fase recente da banda. A estreia de Paul Delaney e o trabalho de Mike Justian consolidam uma base rítmica poderosa, mostrando que a saída de Hoya Roc foi assimilada de maneira convincente.

No fim das contas, Not Your Kingdom não pretende revolucionar o hardcore nem reinventar o Madball. Seu maior mérito está justamente em compreender que poucas bandas carregam tanta autoridade para executar essa fórmula. Em pouco mais de trinta minutos, o grupo entrega um álbum consistente, pesado, repleto de refrões memoráveis e músicas que nasceram para ganhar vida nos palcos. Quase quarenta anos depois de sua formação, o Madball continua soando relevante, inspirado e, acima de tudo, fiel àquilo que sempre representou.

Dave Causa
 




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