terça-feira, 25 de agosto de 2026

Hibria: Quando o Tempo Deixa de Ser Medida e Passa a ser Matéria-Prima

Marquee Avalon (Imp.)

Por Stephanie Ferreira - @instephanie

Há algo particularmente interessante em uma banda que chega aos 30 anos de trajetória e decide fazer um álbum sobre a brevidade da existência. Em vez de tratar o tempo como uma abstração, o HIBRIA transforma a passagem dos anos em matéria-prima para discutir consciência, escolhas, limites e a maneira como cada indivíduo decide ocupar o próprio espaço no mundo.

Lançado em 8 de agosto de 2026, On the Shortness of Life é o oitavo álbum de estúdio do grupo gaúcho e chega em um momento importante de sua história. A formação atual reúne Angelo Parisotto nos vocais, Abel Camargo e Velles nas guitarras, Benhur Lima no baixo e William Schuck na bateria. O disco também representa uma nova etapa depois de mudanças importantes na formação e de um período de reconstrução da identidade do HIBRIA.

O título não é uma escolha meramente estética. Ele remete diretamente a De Brevitate Vitae, de Sêneca, texto em que o filósofo estoico questiona justamente a ideia de que a vida seria curta por natureza. Para Sêneca, o problema está menos na quantidade de tempo disponível e mais na maneira como ele é desperdiçado. O HIBRIA leva essa premissa para dentro do heavy metal e constrói um álbum que, apesar de tecnicamente bastante exigente, está menos interessado em demonstrar velocidade do que em explorar diferentes estados de tensão. E isso fica evidente logo nos primeiros minutos.

1. “Undying”

“Undying” é uma abertura extremamente consciente do que se espera do HIBRIA. O primeiro contato com a faixa traz de volta aquela combinação de precisão, velocidade e melodia que ajudou a colocar a banda entre os nomes mais reconhecidos do power metal brasileiro. As guitarras ocupam bastante espaço, mas não transformam a música em uma demonstração gratuita de técnica. Há riffs construídos para conduzir a composição, enquanto a bateria mantém a sensação de urgência.

O vocal também merece atenção logo aqui. Em vez de tentar reproduzir simplesmente o modelo de seus antecessores, ele encontra uma interpretação própria para a música. Existe potência, mas também uma preocupação evidente com a construção melódica das linhas.

“Undying” funciona como uma espécie de declaração de princípios. A letra trata da recusa em viver de maneira automática e da ideia de que aquilo que fazemos com o tempo é mais importante do que a quantidade de tempo que possuímos. É significativo que o álbum comece justamente com uma música chamada “Undying”: a proposta não parece ser negar a morte, mas confrontar a sensação de que estamos desperdiçando a vida enquanto ela acontece.

2. “Fire Away”

“Fire Away” é onde o álbum começa a mostrar que On the Shortness of Life não será uma sequência de músicas construídas sobre a fórmula mais tradicional do power metal. Depois da apresentação explosiva de “Undying”, a segunda faixa trabalha melhor as alternâncias de dinâmica. A guitarra continua sendo protagonista, mas existe uma preocupação maior com o peso do conjunto. É uma música que ganha força justamente quando a banda segura um pouco a necessidade de acelerar.

O resultado é interessante porque coloca o HIBRIA em uma posição menos previsível. O grupo continua tecnicamente preciso, mas a composição não depende exclusivamente de velocidade para transmitir intensidade. Também é uma faixa que ajuda a estabelecer uma das características mais interessantes do disco: a relação entre controle e impulso. A temática de Sêneca aparece de maneira indireta na própria construção musical.

3. “Pulse”

“Pulse” é provavelmente a faixa que melhor explicita o conflito central do álbum. O título já oferece a chave de leitura: o pulso é simultaneamente o sinal físico de que estamos vivos e uma metáfora para o ritmo que o mundo impõe sobre nós.

Musicalmente, isso aparece em uma composição mais inquieta. A sensação é de movimento constante, mas não necessariamente de liberdade. Há tensão na maneira como os instrumentos se organizam, e o vocal trabalha bem essa sensação de confronto.

A letra coloca o indivíduo diante de uma sociedade marcada pela pressa, pelo excesso de estímulos e pela repetição. O problema deixa de ser simplesmente “ter pouco tempo” e passa a ser viver em um ritmo que não foi necessariamente escolhido.

4. “Persist”

“Persist” leva a narrativa para um terreno mais resistente. Se “Pulse” apresenta o conflito, aqui aparece a necessidade de permanecer de pé diante dele. A própria palavra escolhida para o título já indica o caminho: persistir não significa necessariamente vencer, mas continuar apesar daquilo que está tentando interromper o movimento.

É uma das faixas em que o trabalho de baixo e bateria ganha importância especial. Eles formam uma base que dá sustentação às guitarras sem desaparecer atrás delas, algo fundamental em um disco com duas guitarras tão presentes.

Os guitarristas por sua vez, trabalham bem a diferença entre peso e ornamentação. Os solos e frases mais técnicas aparecem, mas não parecem inseridos apenas para cumprir uma obrigação de “metal técnico”.

5. “Melting Alive”

“Melting Alive” é um dos momentos em que o álbum assume uma atmosfera mais pesada e menos preocupada com a velocidade como principal ferramenta de impacto. O próprio título sugere desgaste, deterioração, a sensação de estar sendo consumido pelo tempo ou pelas circunstâncias. E a música parece explorar justamente essa ideia.

Há uma qualidade mais sufocante em sua construção. Em vez de transmitir a sensação de avançar em direção a algum objetivo, a faixa parece colocar o ouvinte dentro de um processo de desgaste. É uma mudança importante na dinâmica do álbum.

Depois de quatro faixas em que existe sempre uma sensação de movimento, “Melting Alive” permite que a tensão seja percebida de outra maneira. Não é preciso correr para transmitir urgência.

6. “Against the Wall”

“Against the Wall” é, para mim, uma das faixas fundamentais do disco. E não apenas porque foi escolhida como single. Aqui o HIBRIA abandona boa parte da urgência que marcou o início do álbum e trabalha com uma abordagem mais guiada pelo groove e pela atmosfera. A própria imprensa japonesa destacou esse contraste ao descrever a música como um número sombrio, com forte presença de groove e maior atenção às melodias vocais.

Essa escolha funciona muito bem. A imagem do indivíduo contra a parede é simples, mas poderosa: não há mais espaço para fugir, adiar ou encontrar distrações. O confronto acontece quando todas as rotas de escape desaparecem. Musicalmente, a banda traduz essa sensação sem precisar exagerar. O peso é mais concentrado. As guitarras parecem menos preocupadas em disparar para frente e mais interessadas em construir uma parede sonora.

7. “Animus”

“Animus” funciona como uma espécie de preparação para o encerramento. O título, derivado do latim e associado à ideia de mente, espírito ou disposição interior, combina com o estágio da narrativa em que o álbum chegou. Depois do despertar, do conflito e do confronto com os próprios limites, resta olhar para dentro.

A faixa tem um caráter mais introspectivo sem abandonar o peso, e é justamente essa combinação que chama atenção.

8. “On the Shortness of Life”

A faixa-título não é simplesmente uma música longa colocada no final para encerrar o disco, ela funciona como a síntese de tudo que veio antes. Dividida nos movimentos “Adiaphora”, “Prohairesis”, “Apatheia”, “Ataraxia” e “Eudaimonia”, a composição assume definitivamente o caráter conceitual anunciado desde o título do álbum.

“Adiaphora” introduz a ideia de aquilo que é indiferente do ponto de vista moral; “Prohairesis” remete à capacidade de escolha deliberada; “Apatheia” representa a liberdade diante das paixões desordenadas; “Ataraxia” aponta para a tranquilidade; e “Eudaimonia”, no pensamento filosófico grego, está relacionada a uma vida realizada ou florescimento humano.

Não é necessário conhecer cada conceito antes de ouvir a música para perceber a progressão. A suíte começa com uma sensação de movimento e tensão e gradualmente passa a trabalhar uma atmosfera mais contemplativa. A técnica continua presente, mas agora existe uma função narrativa mais evidente para ela.


Divulgação

Confira a tracklist completa de On the Shortness of Life:

1. Undying

2. Fire Away

3. Pulse

4. Persist

5. Melting Alive

6. Against the Wall

7. Animus

8. On the Shortness of Life
        I. Adiaphora
II. Prohairesis
III. Apatheia
IV. Ataraxia
V. Eudaimonia

Faixa bônus da edição japonesa:

9. Steel Lord On Wheels (Live Session)

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